O Papa Calvinista (III)


“Depois desta exortação à vigilância, Jesus afasta-Se um pouco. Começa verdadeira e propriamente a oração do monte das Oliveiras. Mateus e Marcos dizem-nos que Jesus caiu de rosto por terra: é a posição de oração que exprime e extrema submissão à vontade de Deus, o abandono mais radical a Ele; uma posição que a liturgia ocidental prevê ainda na Sexta-Feira Santa, na Profissão Monástica e também na Ordenação Diaconal e nas Ordenações Presbiteral e Episcopal. Diversamente, Lucas diz que Jesus reza de joelhos. Deste modo, tomando por base a posição de oração, insere esta luta nocturna de Jesus no contexto da história da oração cristã: Estevão, durante a lapidação, dobra os joelhos e reza. (cf. Act 7, 60); Pedro ajoelha-se antes de ressuscitar Tábita da morte (cf. Act 9, 40); Paulo ajoelha-se quando se se despede dos anciãos de Éfeso (cf. Act 20, 36), e outra vez quando os discípulos lhe dizem para não subir a Jerusalém (cf. Act 21, 5). A propósito, diz A. Stoer: «Todos eles, perante a morte, rezam de joelhos; o martírio não pode ser superado senão através da oração. Jesus é o modelo dos mártires.” (Papa Bento XVI – Joseph Ratzinger, in Jesus de Nazaré (Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição), p. 129 e 130; Principia; Cascais, 2011). 

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Orar de joelhos é uma boa prática que a ala tradicional do protestantismo postergou na sua liturgia pública. Praticamente não se ensina na Escola Bíblica Dominical (EBD), fazendo com que a generalidade dos fiéis não o coloque em prática nas suas orações rotineiras. Somente se verifica pontualmente nos cultos da ordenação pastoral e de casamento, tendo em conta a oração de imposição das mãos do presbitério perante os consagrados. Mesmo nos círculos pentecostais e neo-pentecostais, onde se costuma enfatizar mais o conceito de oração, acabam sempre por ficar aquém na postura correcta que se deve seguir quando de joelhos diante do Senhor para orar. Todo este dilema consubstancia a profunda crise de fé em que estamos submergidos, ganhando cada vez mais contornos preocupantes na nossa espiritualidade.