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Génesis e Etimologia do Etnónimo Papel


«O nome tradicional dos pepeis é Ba-Sáu, Basháu ou Ba-são (Ensháu). Este é o nome que os Balantas usavam para designar os originários da ilha de Bissau. Etimologicamente, o termo Ba-Sáu significa em Balanta “eles são exterminados”. A tradição oral explica que esta expressão teria sido utilizada pelo único sobrevivente de uma das batalhas entre os Balantas e os Pepeis. À sua chegada à aldeia, o único sobrevivente dos invasores teria explicado aos seus que todos os seus companheiros tinham sido mortos, Ba-Sáu. Trata-se do grupo único que Valentim Fernandes tinha chamado de Cacheos, reagrupando assim Brames, Pepeis e, posteriormente, Manjacos. A. A. De Almada, tinha colocado em conjunto Buramos e Pepeis, chamando estes últimos de Biçaos ou Bissáus (Parece que Biçaos é o plural de Biçao ou Bissau, uma deformação do nome de um dos sete clãs que compõem o grupo Pepel. O nome exato é Bissassu, plural d´Intchassu. Esta palavra ter-se-ia tornado Bissahu e mais tarde Bissau. A cidade de Bissau é o local onde o clã Intchassu se instalou. Da mesma maneira, o termo Sapi (Sapij ou Tiapys), seria uma deformação de Safi ou Safim, derivado de N´sáfinte, nome de outro clã do qual vem o topónimo de Safim, região onde o clã se tinha instalado). Alguns consideram-nos descendentes dos Biafadas (segundo a lenda, os Pepeis descenderiam de um casamento entre um príncipe Biafada com uma mulher Brama da Ilha de Bissau. Os dois grupos contam que um caçador, chamado Mecau, filho do todo-poderoso rei de Quínara, da família Buduque, teria ido para a ilha de Bissau num torneio de caça, onde ele teria finalmente escolhido casar com as suas mulheres e uma das suas irmãs. A lenda apresenta os Pepeis como descendentes das suas seis esposas e da sua irmã». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 58).

Aurora da Revolução Francesa


«O povo francês proclama solenemente o seu compromisso com os direitos humanos e os princípios da soberania nacional, conforme definido pela Declaração de 1789, confirmada e completada pelo Preâmbulo da Constituição de 1946, bem como com os direitos e deveres definidos na Carta Ambiental de 2004. Em virtude desses princípios e da livre determinação dos povos, a República oferece aos territórios ultramarinos que expressam a vontade de aderir a eles instituições novas fundadas sobre o ideal comum de liberdade, de igualdade e de fraternidade, e concebido com o propósito da sua evolução democrática. 

A França é uma República indivisível, laica, democrática e social. Assegura a igualdade de todos os cidadãos perante a lei sem distinção de origem, raça ou religião. Respeita todas as crenças. Sua organização é descentralizada. A lei promove a igualdade de acesso das mulheres e dos homens aos mandatos eleitorais e funções eletivas, bem como às responsabilidades profissionais e sociais» (LER).

Advertência de Uma Feminista às Outras Feministas (IV)


“Oponho-me a uma proteção especial para as mulheres. Sou contra regras que permitam às raparigas, por exemplo nos campus universitários, queixarem-se do que acontece num encontro com um rapaz. Exijo que as mulheres tenham total responsabilidade de si mesmas. Não acredito em proteções especiais quando alguém lhes diz alguma coisa ofensiva, a não ser que seja no domínio profissional. Acredito, sim, que as mulheres têm de falar por elas próprias e travar as suas batalhas (…) Nem tudo na nossa vida pode ser controlado, nem tudo na nossa vida é politicamente correto. Há todo o tipo de problemas e de instabilidades entre os dois sexos que têm que ser tratados individualmente e com os quais o Governo não deve ter nada que ver. O feminismo para mim devia ser um programa de ativismo social. O feminismo não tem o direito de intrometer-se na vida privada das pessoas. O modo como os homens e as mulheres se comportam nas suas relações pessoais é uma questão apenas da sua livre escolha.” 

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(Camille Paglia, in entrevista a Revista Expresso (LER). Conteúdo disponibilizado, por enquanto, apenas para os assinantes do jornal). 

Advertência de Uma Feminista às Outras Feministas (III)


REVISTA EXPRESSO: As mulheres são hoje demasiado exigentes? 

Camille Paglia: “São, mas mais importante do que isso é que são miseráveis. As mulheres de classe alta com sucesso no trabalho são infelizes. As feministas sabem-no. E culpam os homens de tudo. Dizem que são eles que têm de mudar de comportamento. Acho que as mulheres têm de ser neste momento mais conscientes e pararem de culpar os homens pela sua infelicidade! Olhem para o sistema laboral e alterem o que tem de ser alterado. 

REVISTA EXPRESSO: Está a dizer que as mulheres não praticam tanto sexo com os homens como costumavam fazer? 

Camille PagliaNão é bem isso. É uma questão de tudo ser muito familiar, das regras não se quebrarem, sobretudo nos casamentos burgueses. Há um sentimento de fadiga, não há nada interessante a acontecer ou a permitir que aconteça. Não há o tal mistério. Mas acredito que as mulheres latinas, como as portuguesas, italianas, espanholas e brasileiras têm muito mais criatividade, energia sexual, noção de elegância, sendo ao mesmo tempo grandes empresárias, economistas ou administradoras. Os casamentos de hoje, na América, são aborrecidos sexualmente e o homem corre o perigo de se tornar mais uma criança lá em casa”. 

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(Camille Paglia, in entrevista a Revista Expresso (LER). Conteúdo disponibilizado, por enquanto, apenas para os assinantes do jornal). 

O Papa Calvinista (III)


“Depois desta exortação à vigilância, Jesus afasta-Se um pouco. Começa verdadeira e propriamente a oração do monte das Oliveiras. Mateus e Marcos dizem-nos que Jesus caiu de rosto por terra: é a posição de oração que exprime a extrema submissão à vontade de Deus, o abandono mais radical a Ele; uma posição que a liturgia ocidental prevê ainda na Sexta-Feira Santa, na Profissão Monástica e também na Ordenação Diaconal e nas Ordenações Presbiteral e Episcopal. Diversamente, Lucas diz que Jesus reza de joelhos. Deste modo, tomando por base a posição de oração, insere esta luta nocturna de Jesus no contexto da história da oração cristã: Estevão, durante a lapidação, dobra os joelhos e reza. (cf. Act 7, 60); Pedro ajoelha-se antes de ressuscitar Tábita da morte (cf. Act 9, 40); Paulo ajoelha-se quando se se despede dos anciãos de Éfeso (cf. Act 20, 36), e outra vez quando os discípulos lhe dizem para não subir a Jerusalém (cf. Act 21, 5). A propósito, diz A. Stoer: «Todos eles, perante a morte, rezam de joelhos; o martírio não pode ser superado senão através da oração. Jesus é o modelo dos mártires.” 

(Papa Bento XVI – Joseph Ratzinger, in Jesus de Nazaré (Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição), p. 129 e 130; Principia; Cascais, 2011). 
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Orar, especialmente de joelhos, é uma boa prática que a ala tradicional do protestantismo postergou na sua liturgia público-congregacional. Praticamente não se ensina na Escola Bíblica Dominical (EBD), fazendo com que a generalidade dos fiéis não o coloque em prática nas suas orações rotineiras. Somente se verifica esporadicamente nos cultos da ordenação pastoral e de casamento, tendo em conta a oração de imposição das mãos do presbitério perante os consagrados. Mesmo nos círculos pentecostais ou neo-pentecostais, onde se costumam enfatizar efusivamente o conceito de oração, acabam sempre por esvaziar este importantíssimo pressuposto espiritual e ficar bastante aquém na postura correcta que se deve seguir quando de joelhos diante do SENHOR para orar. Todo este dilema consubstancia a profunda crise de fé em que estamos submergidos, ganhando cada vez mais contornos preocupantes na nossa espiritualidade. 

A Doutrina da Trindade, Pelo Bispo Atanásio de Alexandria

«Todo aquele que quiser ser salvo, é necessário acima de tudo, que sustente a fé universal. [2] 2. A qual, a menos que cada um preserve perfeita e inviolável, certamente perecerá para sempre. 3. Mas a fé universal é esta, que adoremos um único Deus em Trindade, e a Trindade em unidade. 4. Não confundindo as pessoas, nem dividindo a substância. 5. Porque a pessoa do Pai é uma, a do Filho é outra, e a do Espírito Santo outra. 6. Mas no Pai, no Filho e no Espírito Santo há uma mesma divindade, igual em glória e co-eterna majestade. 7. O que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. 8. O Pai é não criado, o Filho é não criado, o Espírito Santo é não criado. 9. O Pai é ilimitado, o Filho é ilimitado, o Espírito Santo é ilimitado. 10. O Pai é eterno, o Filho é eterno, o Espírito Santo é eterno. 11. Contudo, não há três eternos, mas um eterno. 12. Portanto não há três (seres) não criados, nem três ilimitados, mas um não criado e um ilimitado. 13. Do mesmo modo, o Pai é onipotente, o Filho é onipotente, o Espírito Santo é onipotente. 14. Contudo, não há três onipotentes, mas um só onipotente. 15. Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. 16. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus. 17. Portanto o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. 18. Contudo, não há três Senhores, mas um só Senhor. 19. Porque, assim como compelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa separadamente como Deus e Senhor; assim também somos proibidos pela religião universal de dizer que há três Deuses ou Senhores. 20. O Pai não foi feito de ninguém, nem criado, nem gerado. 21. O Filho procede do Pai somente, nem feito, nem criado, mas gerado. 22. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não feito, nem criado, nem gerado, mas procedente. 23. Portanto, há um só Pai, não três Pais, um Filho, não três Filhos, um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. 24. E nessa Trindade nenhum é primeiro ou último, nenhum é maior ou menor. 25. Mas todas as três pessoas co-eternas são co-iguais entre si; de modo que em tudo o que foi dito acima, tanto a unidade em trindade, como a trindade em unidade deve ser cultuada. 26. Logo, todo aquele que quiser ser salvo deve pensar desse modo com relação à Trindade. 27. Mas também é necessário para a salvação eterna, que se creia fielmente na encarnação do nosso Senhor Jesus Cristo. 28. É, portanto, fé verdadeira, que creiamos e confessemos que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é tanto Deus como homem. 29. Ele é Deus eternamente gerado da substância do Pai; homem nascido no tempo da substância da sua mãe. 30. Perfeito Deus, perfeito homem, subsistindo de uma alma racional e carne humana. 31. Igual ao Pai com relação à sua divindade, menor do que o Pai com relação à sua humanidade. 32. O qual, embora seja Deus e homem, não é dois mas um só Cristo. 33. Mas um, não pela conversão da sua divindade em carne, mas por sua divindade haver assumido sua humanidade. 34. Um, não, de modo algum, pela confusão de substância, mas pela unidade de pessoa. 35. Pois assim como uma alma racional e carne constituem um só homem, assim Deus e homem constituem um só Cristo. 36. O qual sofreu por nossa salvação, desceu ao Hades, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia. 37. Ascendeu ao céu, sentou à direita de Deus Pai onipotente, de onde virá para julgar os vivos e os mortos. 38. Em cuja vinda, todo homem ressuscitará com seus corpos, e prestarão conta de sua obras. 39. E aqueles que houverem feito o bem irão para a vida eterna; aqueles que houverem feito o mal, para o fogo eterno. 40. Esta é a fé Universal, a qual a não ser que um homem creia firmemente nela, não pode ser salvo. [3]» (LER)

Diálogo de Apaixonados


JULIETAComo pudeste aqui vir, diz-mo? E para que vieste? Os muros deste jardim são altos e difíceis de escalar. Este lugar será mortal para ti, se qualquer dos meus parentes der contigo. 

ROMEUTranspus estas muralhas com as asas do amor que são leves, porque as barreiras de pedra não podem embaraçar os voos do amor. O que é que o amor quer, que não consiga? Os teus parentes podem lá servir-me de obstáculo? 

JULIETASe te virem, és morto. 

ROMEU:  Aí! Julieta, há mais perigos nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que desças um desses ternos olhares para mim, que eu fico bem escudado contra a sua inimizade. 

JULIETAPor nada deste mundo desejaria que eles te vissem aqui. 

ROMEUAgasalha-me o manto da noite, que me esconde da vista deles. Se me não amas, que me importa que me encontrem aqui? Antes queria que o seu ódio pusesse fim à minha vida, do que a morte tardar sem o teu amor. 

JULIETAQuem te ensinou este caminho? 

ROMEU: O amor excitou-me a descobri-lo; deu-me conselhos e eu emprestei-lhe os meus olhos. Eu não sou piloto, mas se tu estivesses afastada na mais longínqua praia do mar, eu aventurar-me-ia a ir ter contigo. 

JULIETA(…) Amas-me? Sei que me vais dizer que sim: ficas preso por essa palavra; contudo, se juras podes tornar-te em perjuro. Dizem que Júpiter acha muita graça aos perjúrios dos amantes. Querido Romeu, se me amas, declara-mo lealmente; se pensas que fui fácil de conquistar, serei cruel, carregarei o meu sobrecenho, dir-te-ei não, para te dar ensejo a que me conquistes; de outro modo por nada deste mundo o farei. A verdade, belo Montecchio, é que estou muitíssimo apaixonada por ti; portanto, podes julgar o meu comportamento leviano, mas acredita que mostro-me sincera, porque não sou como as outras que usam de artifícios para serem reservadas. É possível que fosse mais reservada, confesso-o, se, há pouco, não tivesses surpreendido as expressões apaixonadas do meu sincero amor. Perdoa-me, não interpretes esta facilidade como leviandade deste amor, que esta tenebrosa noite assim te revelou. 

ROMEU: Senhora, juro-te por essa Lua encantadora que lá baixo toca com uma das extremidades de prata o cimo daquelas árvores de fruto… 

JULIETANão jures pela Lua, pela Lua inconstante que todos os dias muda de figura na sua órbita; tenho medo que o teu amor se mostre tão inconstante como ela. 

ROMEUPelo que jurarei eu, então? 

JULIETANão jures por nada deste mundo; mas se quiseres jurar, jura pela tua graciosa pessoa, divindade do meu coração idolatrado, porque eu creio em ti. 

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(William Shakespeare, in "Romeu e Julieta”, Mel Editores, Estarreja, págs. 78, 79 e 80, 2009).

O Mais Importante é o Amor


«Se eu for capaz de falar todas as línguas dos homens e dos anjos e não tiver amor, as minhas palavras são como o badalar de um sino ou o barulho de um chocalho. Se eu tiver o dom de declarar a palavra de Deus, de conhecer os seus mistérios e souber tudo; e se eu tiver uma fé capaz de transportar montanhas e não tiver amor, não valho nada. Ainda que eu dê em esmolas tudo o que é meu, se me deixar queimar vivo e não tiver amor, de nada me serve. O amor é paciente e prestável. Não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal. O amor não se alegra com uma injustiça causada a alguém, mas alegra-se com a verdade. O amor suporta tudo, acredita sempre, espera sempre e sofre com paciência. O amor é eterno. As profecias desaparecem; as línguas acabam-se; o conhecimento passa. (…)  Agora existem três coisas: fé, esperança e amor. Mas a mais importante é o amor.» 

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(Apóstolo Paulo, in A Bíblia Sagrada, 1 Coríntios 13:1-8;13, Versão, "A Boa Nova Em Português Corrente", Sociedade Bíblica de Portugal, Lisboa, 2004). 

Doxologia IV


“(...) Simeão tomou-o nos braços, deu graças a Deus e disse: «Agora, Senhor, já podes deixar partir em paz o teu servo conforme a tua palavra! Já vi com os meus olhos a tua salvação que preparaste para todos os povos. Luz de revelação para os pagãos e glória para Israel, teu povo (…) Este menino é para muitos em Israel motivo de ruína ou salvação. Ele é sinal de divisão entre os homens, para revelar os pensamentos escondidos de muitos.»” 

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(Cântico de Simeão, in A Bíblia Sagrada, Evangelho Lucas 2:28-32; 34-35, Versão, “A Boa Nova Em Português Corrente”, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004). 

Doxologia III


“Zacarias, o pai do menino, ficou cheio do Espírito Santo e pôs-se a profetizar dizendo: «Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque veio socorrer e salvar o seu povo. Ele fez nascer entre nós um Salvador poderoso, descendente do seu servo David. Desde há muito tempo que ele o prometeu, por meio dos seus santos profetas, que nos ia livrar dos nossos inimigos e da mão de todos aqueles que nos odeiam; que havia de tratar com misericórdia os nossos antepassados e lembrar-se da sua santa aliança, e da promessa que tinha feito com juramento ao nosso antepassado Abraão: que nos ia livrar da mão dos nossos inimigos para podermos servi-lo sem receio, com santidade e justiça todos os dias da nossa vida. E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo. Irás adiante do Senhor para lhe preparares os caminhos dando conhecimento da salvação ao seu povo para perdão dos seus pecados, porque o nosso Deus é cheio de misericórdia. Ele fará brilhar entre nós uma luz que vem do Céu. Essa luz iluminará os que se encontram na escuridão e na sombra da morte e guiará os nossos passos pelo caminho da paz.»"

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(Cântico de Zacarias, in A Bíblia Sagrada, Evangelho Lucas 1:67-80, Versão, “A Boa Nova Em Português Corrente”, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004). 

O Livre-Arbítrio no Critério da Qualidade de Vida (III)


"A inevitabilidade destes problemas, e a necessidade de escolha que eles – e outros, de índole política, logística, ética – determinam, deixa sem base a versão vitalista da defesa da «santidade da vida», já que, muito óbvia e elementarmente, ou se cai num impasse e não se socorre com os meios escassos nenhuma das vidas biológicas em risco, ou se começa por socorrer uma, deixando-se subentendido, porque algum critério teve que haver, que essa é a mais «santificada» de todas: o que é já, queira-se ou não, introduzir elementos de «qualidade de vida» na escolha." 

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(Pensamento de “Jansenista” (LER)). 

O Livre-Arbítrio no Critério da Qualidade de Vida (II)


"Interessa ao critério da «qualidade de vida» a modesta possibilidade de determinar prioridades de mérito na competição por recursos escassos – uma base de justiça distributiva, de racionalização –, evitando-se, quer: a) o impasse, quer b) a escolha neutra do acaso, de uma lotaria – tirando-se à sorte quem nasceria ou sobreviveria –, quer ainda c) o sistema de quotas, fixas ou negociáveis, d) a corrida desenfreada da seriação por ordem de chegada, e) a licitação, que condenaria os mais desprotegidos e ignorantes, e a respectiva prole, ou f) a lei da força, que condenaria também os deficientes. Para cada médico, individualmente, trata-se em suma, ao invocar o critério da «qualidade de vida», de resolver o conflito de deveres entre a procura do melhor tratamento para cada paciente e a afectação óptima de recursos, na medida em que estes sejam insuficientes para assegurar aquele tipo de tratamento para todos os seus pacientes."

.......................................
(Pensamento de Jansenista (LER)).

O Livre-Arbítrio no Critério da Qualidade de Vida (I)


“A invocação da «qualidade de vida» remete para um cálculo objectivo que em última instância faz apelo à reciprocidade de sentimentos: seguimos o critério que quereríamos que nos fosse aplicado se estivéssemos na iminência de competir, em condições extremas, por recursos escassos na criação ou preservação da nossa própria vida. É um resultado, afinal, da nossa sociabilidade, da nossa necessidade de cedermos perante o interesse comum e a liberdade alheia, numa mutualidade de serviços que não consente a experiência absoluta da consumação dos nossos interesses, a qual só existiria num reduto de isolamento total. Uma sociabilidade que, juntamente com a consideração pelos pontos de vista do médico e do paciente, pode entender-se como um dos parâmetros de legitimação da própria intervenção médica; ou, pela negativa, como um dos redutos defensivos contra alegações de «futilidade» dessa intervenção.” 

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(Pensamento de Jansenista (LER) ).

A Misteriosa Figura da Mulher


«Mistério vivente, por virtude do qual o homem nasce, vive e morre, a mulher não pode ser circunscrita a uma definição. E, no entanto, porque será que tantos filósofos, psicólogos, ensaístas, moralistas, teólogos, e poetas escreveram em todas as épocas sobre a mulher e não sobre o homem? (…) Muito se tem escrito sobre as mulheres e seria difícil dar uma ideia de todos os géneros e publicações de que foram objecto. Os poetas, diz Cérise, exaltaram as qualidades, os moralistas colocaram a nu os defeitos, os publicistas discutiram os direitos, os médicos descreveram as doenças, os fisiologistas mostraram os mais íntimos segredos da sua organização.» 

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(A. Miranda Santos, in Polís, 4º volume de Letra  M a P, p. 467, Lisboa/São Paulo, 1983).

Não Censuremos nos Outros Aquilo que Também nos Atinge


Não censuremos nos outros aquilo que também nos atinge, diz sabiamente o brocardo popular. Seguindo na mesma esteira do pensamento, escrevia o reputado Filósofo Plutarco, na sua célebre obra “Como Tirar Proveito dos Inimigos”, que Platão ao encontrar-se com homens que agiam torpemente, costumava perguntar a si mesmo: «por acaso, serei igual a eles?». Todo aquele que censura a vida de outro, e em seguida olha para a sua própria vida e a modifica, orientando-a e corrigindo-a, retirará algum proveito da censura que, de contrário, parece ser, e é, inútil e vazia. Por isso, prosseguia advertidamente, a maioria das pessoas ri-se se um calvo ou um corcunda censuram e troçam de outros pelas mesmas razões, e, em geral, é risível censurar e troçar de qualquer coisa que pode devolver-lhe a censura. 

E, de seguida, vai dando especificamente o exemplo do Leão, o Bizantino, que tendo sido injuriado por um corcunda pela enfermidade dos seus olhos, lhe disse: «Deitas-me em cara uma desgraça humana, quando levas aos ombros a vingança divina». E também, não injurieis outro por ser adúltero, se tu mesmo fores louco pelos jovens; nem por ser desregrado, se tu mesmo és ruim: «És da mesma estirpe da mulher que matou o marido», disse Alcmeão a Adrasto. Que fazia aquele, na verdade? Não deitava em cara a injúria de outro, mas a sua própria: «E tu és o assassino da mãe que te gerou», respondeu-lhe na mesma medida o primeiro. 

E Domicio[2] disse a Craso[3]: «Não choraste tu pela moreia[4] que alimentavas no teu viveiro?». E Craso respondeu-lhe: «Não enterraste tu três mulheres sem derramares uma única lágrima?». Não é necessário que aquele que vai injuriar seja gracioso, de voz potente e audaz, deve, contudo, ser irrepressível e inatacável. Pois, o conselho da divindade «conhece-te a ti mesmo» parece aplicar-se sobretudo àquele que vai censurar outro, para que, ao dizer o que quer, não vá escutar o que não quer. Certamente pessoa deste tipo «quer», segundo Sófocles, soltando a sua língua em vão, ouvir involuntariamente aquelas palavras que diz voluntariamente, sentenciava o Filósofo. 

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(Inspirado no livro de Plutarco, in “Como Tirar Proveito dos Inimigos”, Coisas de Ler, p. 9,18,19, Lisboa, 2008).

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre VII


«Salva-me, ó Deus, porque estou quase a afogar-me;
estou a afundar-me num pântano profundo,
não tenho onde apoiar os pés.
Vim parar em águas muito fundas
e a corrente está a arrastar-me.
Estou rouco de gritar, dói-me a garganta;
os meus olhos cansaram-se de esperar, ó meu Deus!
São mais os que me odeiam sem razão
do que os cabelos da minha cabeça;
mais numerosos são ainda os inimigos
que mentem contra mim.
Terei então de restituir aquilo que não roubei? 

Tu, ó Deus, conheces bem a minha insensatez;
não posso esconder de ti as minhas culpas.
Que não passem vergonha por minha causa
os que confiam em ti, ó Senhor, Deus todo-poderoso.
Que aqueles que te procuram
não fiquem desiludidos por causa de mim, ó Deus de Israel.
Por amor de ti tenho sofrido insultos;
a minha cara cobriu-se de vergonha.
Sou como um estranho para os meus irmãos;
sou um desconhecido para os filhos da minha mãe. 

O zelo da tua casa me consome;
as ofensas dos que te insultam caíram sobre mim.
Mesmo quando eu choro e jejuo
eles fazem troça de mim;
mesmo quando me visto de luto
eles escarnecem de mim.
Falam de mim pelas ruas da cidade
e os bêbedos cantam cantigas sobre mim. 

Eu, porém, Senhor, dirijo-me a ti em oração;
responde-me, ó Deus, quando achares oportuno,
responde-me, pelo teu grande amor!
Tu que és ajuda fiel,
tira-me do lodo para que não me afunde!
Salva-me dos que me odeiam e das águas profundas!
Não deixes que a corrente me arraste;
não deixes que o abismo me engula,
nem que a boca do poço se feche sobre mim! 

Responde-me, Senhor, porque o teu amor é bondade;
olha para mim, pela tua grande compaixão.
Não desvies o olhar deste teu servo;
responde-me depressa, porque estou em perigo!
Aproxima-te de mim e salva-me;
livra-me dos meus inimigos!
Tu sabes as ofensas, a vergonha e a desonra, que sofri;
tu conheces os meus inimigos!
As ofensas e a doença despedaçam-me o coração.
Esperei compaixão de alguém, mas foi em vão;
não encontrei ninguém que me confortasse.
Deram-me fel, em vez de comida
e, quando tive sede, deram-me vinagre. 

Que os seus banquetes se transformem em armadilha,
para ele e para os seus convidados.
Escurece-lhes a vista, para que não vejam;
enfraquece-lhes os músculos, para que tremam.
Descarrega sobre eles a tua indignação;
Sejam atingidos pelo furor da tua ira!
Que o seu acampamento fique deserto
e que não haja quem habite nas suas tendas,
pois perseguem aqueles que tu castigaste
e troçam das dores dos que tu feriste.
Deixa que aumentem o rol dos seus pecados
e não permitas que alcancem o teu perdão.
Risca-os do livro da vida!
Não os ponhas na lista dos justos!
Mas a mim, que estou aflito e triste,
levanta-me, ó Deus, e salva-me. 

Louvarei com cânticos o nosso Deus;
glorificá-lo-ei, com ações de graças.
Isto será mais agradável para o Senhor
do que sacrifícios de touros e novilhos.
Que os humildes vejam isto e se alegrem
e os que procuram a Deus se encham de coragem,
porque o Senhor escuta os necessitados
e não despreza o seu povo na aflição. 

Louvem o Senhor os céus e a terra,
o mar e todos os seres que o habitam!
Na verdade, Deus há de restaurar Sião,
e reconstruir as cidades de Judá,
e hão de regressar os que tinham sido expulsos.
Os descendentes dos seus servos são herdeiros de Sião
e lá hão de habitar aqueles que o amam.» 

(Ao regente do coro, um Salmo de David, para ser entoado com a melodia de “Os Lírios”, in Salmo 69:1-36, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004). 

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre VI


“Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, [o] não me pesar muito o conhecer que existo, o não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim… Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco. Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas, submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência…” 

(Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, p. 44). 

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre V


«O homem está na terra a cumprir duro serviço,
os seus dias são semelhantes aos de um assalariado.
Como um escravo, suspira pela sombra,
como um assalariado, anseia pela paga.
A sorte que me coube foram meses a esperar em vão,
o que me deram foram noites e noites de sofrimento.
Quando me deito, penso:
“Quando conseguirei levantar-me?”
A noite é longa e farto-me de dar voltas até de manhã.
O meu corpo está coberto de vermes e pó,
a minha pele, cheia de chagas purulentas.
Os meus dias passam mais rápidos que uma lançadeira
e chegam ao fim sem qualquer esperança. 

Lembra-te de que a minha vida é como o vento
e nunca mais voltarei a ver a felicidade.
Quem olhar para mim deixará de me ver,
porque o teu olhar caiu sobre mim e me aniquilou.
Como nuvem que se desfaz e desaparece,
também o que desce ao sepulcro não volta a subir.
Não regressa mais à sua casa
e a sua morada nunca mais o reconhecerá.
Por isso, não vou deixar de falar;
falarei da angústia que me oprime,
darei a conhecer a minha amargura.
Será que sou algum dos monstros marinhos,
para voltares contra mim o teu olhar?  
Ainda pensei que, se me deitasse, estaria sossegado,
que isso aliviaria as minhas queixas.
Mas tu aterrorizas-me com pesadelos,
fazes-me ver coisas que me metem medo,
de modo que eu preferia morrer estrangulado
a viver com este meu horrível esqueleto
Não posso viver para sempre;
deixa-me, que os meus dias não passam de uma ilusão!» 

(Queixa de Job a DEUS, in A Bíblia Sagrada, Job 7:16, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004). 

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre IV


«Aqui estou eu: Filosofia,
Medicina e Jurisprudência, (…)
Estudei a fundo, com paciência.
E reconheço, pobre diabo,
Que sei o mesmo, ao fim e ao cabo!
Chamam-me Mestre, Doutor, sei lá quê,
E há dez anos que o mundo me vê
Levando atrás de mim a eito
Fiéis discípulos a torto e a direito –
E afinal vejo: nosso saber é nada!
É de ficar com alma amargurada.
Sei mais, é claro, que todos os patetas,
Mestres, doutores, escribas e padrecas;
Nem escrúpulos nem dúvidas eu temo,
E não receio nem Inferno nem demo –
Mas não me resta réstia de alegria,
Nem me iludo com vã sabedoria,
Nem creio que tenha nada a ensinar
À humanidade, que a possa salvar.
Também não tenho bens nem capitais,
Nem glórias ou honras mundanais.
Até um cão desta vida fugia!
Por isso me entreguei à magia,
Para ver se por força da mente
Tanto mistério se abre à minha frente;
Para que não tenha, com o fel que suei,
De dizer mais aquilo que não sei;
Para conhecer os segredos que o mundo
Sustentam no seu âmago mais fundo,
Para intuir forças vivas, sementes,
E largar as palavras indigentes. 

Ah, visses tu, doce luar,
Envolver minha última dor!
Tu, que por noites adentro
Esperei a esta banca, atento:
Sobre a livralhada babilónica
Vinhas, amiga melancólica!
Ah, pudesse eu por esses cumes
Andar sob teus brandos lumes,
Pairar em grutas com seres alados,
Ao teu crepúsculo errar pelos prados,
E, livre das névoas do saber,
Em teu orvalho renascer!

Horror! Estou ainda encarcerado,
Neste maldito antro abafado.
Até a luz celestial
Se turva ao entrar pelo vitral!
Por pilhas de livros limitado,
Que o pó recobre e as traças roem,
E até ao tecto abobado
É só papel que fumos corroem;
À minha volta há caixas, redomas,
Instrumentos já não cabem mais,
Quinquilharias ancestrais –
É este o teu mundo! Um mundo lhe chamas! 

E ainda estranhas que o coração
No peito se te aperte angustiado?
E que uma dor assim sem razão
Da vida te traga apartado?
Em lugar da vida Natura,
Das criaturas por Deus criadas,
Cercam-te a podridão mais escura,
Bichos mortos e humanas ossadas.» 

(Johann W. Goethe, in Fausto, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2013, p. 45, 46).