«Ora, é por estes
motivos que acabo de vos expor, Símias, que devemos dar tudo para participar
nesta vida da virtude e da razão: é que a recompensa é bela, e grande a
esperança! Claro que insistir ponto por ponto na veracidade desta narrativa não
ficaria bem a uma pessoa de senso; mas sustentar que as coisas se passam mais
ou menos desta forma, no que respeita às almas e suas moradas, uma vez que se
reconhece que alma é imortal, eis o que, a meu ver, não só fica bem como vale a
pena arriscar (e, com efeito o risco é belo…), quando assim se crê; convém,
pois, que cada um de nós dirija a si mesmo encantamentos destes, e, justamente
por isso, me alonguei tanto nesta minha história.
Estas, pois, as
razões por que deve confiar no destino da sua alma todo aquele que, durante a
vida, disse adeus aos prazeres do corpo e aos seus adornos; que,
considerando-os de um efeito mais nocivo do que benéfico, se empenhou, pelo
contrário, em alcançar os prazeres da sabedoria, em adornar à sua alma, não com
adornos alheios a ela, mas com aqueles que lhe são próprios – isto é,
temperança, justiça, coragem, liberdade e verdade – e, nestas condições,
aguarda a viagem para o Hades [e se prepara para empreender quando a sua hora
soar]. Vós dois, Símias e Cebes, e bem assim todos os outros, lá ireis ter
depois, cada um a seu tempo. Por mim, eis já chegada a minha hora, como diria
um herói trágico, e pouco mais me resta do que ir para o banho: Julgo, com
efeito, preferível fazê-lo antes de beber o veneno e poupar assim as mulheres
ao incómodo de lavarem um cadáver (…). E dizendo isto, segurando a taça com a
mesma naturalidade e serenidade de espírito, despejou-a de um só trago. Nós,
que de há algum tempo a essa parte ainda conseguíamos, mais ou menos, reter o
pranto, quando o vimos beber até ao fim, não pudemos mais: a mim, pelo menos,
as lágrimas corriam-me perdidamente, a ponto de esconder o rosto para chorar à vontade
– não por ele, decerto, mas pela desgraça de ficar, eu, privado de um
companheiro como este! Críton, ainda primeiro do que eu, incapaz de conter as
lágrimas, levantou-se e saiu. Quanto a Apolodoro, que já antes não deixara de
chorar, esse soltava rugidos tais, por entre lágrimas e lamentações, que, ao
ouvi-lo, não havia ninguém a quem não se partisse o coração – exceptuando,
naturalmente, o próprio Sócrates, que exclamou: – Mas que é isto, meus
caros?... Que estão a fazer? Eu, se mandei sair as mulheres, não foi por outro
motivo – para que não perturbassem … Sempre ouvi dizer que se morrer em
serenidade. Sosseguem e dominem-se. (…) E já praticamente toda a região do
ventre estava gelada quando Sócrates, descobrindo o rosto – pois tinha-o, com
efeito, coberto – , disse estas palavras, as ultimas que proferiu: – Críton,
devemos um galo a Asclépio… Paguem-lhe, não se esqueçam! – Assim se se fará – assegurou
Críton. – Vê se tens mais alguma coisa a dizer… A esta pergunta já nada
respondeu. Passado pouco tempo, estremeceu e o homem descobriu-lhe o rosto: Tinha
o olhar fixo. Vendo isto, Críton fechou-lhe a boca e os olhos.»
E foi este, Equécrates,
o fim do nosso amigo – o homem que, poderíamos dize-lo, foi, de todos com quem
privámos, o mais excelente, e também o mais sensato e o mais justo.»
(Platão [Fédon – Texto
Integral], Lisboa Editora, Portugal, págs. 118, 119, 122, 123, 2004).