Estou,
desde segunda-feira, a convite da Primeira Igreja Evangélica Guineense em
Portugal – Queluz, a ministrar, por via online, a Escola Bíblica de Férias
(EBF), diariamente, a partir das 21h00 e até às 22h00, seguindo-se um período
destinado às perguntas e respostas. O tema que estamos a estudar é “A Igreja do
Senhor Jesus Cristo no Mundo de Hoje”, tendo como texto-base o Evangelho
segundo João 17:1-26.
Esta
parcela da Escola Bíblica de Férias tem a duração de uma semana, terminando no
próximo domingo, dia em que estarei igualmente presente para pregar,
presencialmente, no culto dominical da referida Igreja-irmã.
Temos
empreendido um estudo minucioso sobre a problemática teológica da salvação, a
segurança da salvação dos filhos de Deus, a Igreja e o seu papel no mundo, bem
como a santidade e a unidade da Igreja, seladas pelo poder do Espírito Santo e
constituídas em armaduras poderosíssimas para enfrentar e derrotar o mal neste
mundo hostil, onde reina o pecado, consubstanciado na incredulidade, na
injustiça, na violência, na imoralidade, na maldade e na malignidade, entre
outras manifestações diabólicas.
A Igreja do
Senhor Jesus Cristo é chamada a viver neste mundo hostil e perigoso, dando um
vigoroso testemunho da fé e proclamando o Evangelho da graça e da salvação, sem
jamais comprometer os seus sublimes princípios e valores divinos.
No entanto,
sabemos que a Igreja tem enfrentado grandes desafios nos dias de hoje que, de
alguma forma, acabam por dificultar imenso a sua vigorosa afirmação
missionária, tendo em conta a considerável influência do mundanismo no seu
seio. Desde logo, deparamo-nos com a descaracterização de uma parte da sua
liderança, cujos membros se encontram mais comprometidos com as coisas deste
mundo do que propriamente com o serviço fiel à Igreja do Senhor Jesus Cristo;
com as heresias destruidoras de vidas humanas; com o evangelho da prosperidade;
com a corrupção sexual, moral e financeira que a constrange; com o sincretismo
religioso, que se traduz em práticas de ocultismo, feitiçaria e pactos
satânicos; com a falta de compromisso com a Evangelização e as Missões; com o
alheamento de uma vida devotada e santificada; com o sectarismo e a desunião;
e, por fim, com o apedeutismo e o relativismo bíblicos, entre tantos outros
males.
São, a
nosso ver, alguns dos grandes desafios pós-modernos que se colocam à Igreja do
Senhor Jesus Cristo. Para nossa grande tristeza, ela tornou-se, em determinados
contextos, uma espécie de mercantilismo de ilusões, onde os valores
materialistas e o evangelho da prosperidade são enfatizados e explorados até à
exaustão, em detrimento da genuína conversão, da santidade e de uma vida Cristã
verdadeiramente comprometida com os impolutos Princípios do Evangelho.
São
precisamente estes grandes desafios eclesiásticos que continuaremos a explorar
nesta Escola Bíblica de Férias, à luz da Oração Sacerdotal do Senhor Jesus
Cristo, procurando ensinar, despertar, exortar, aconselhar, mobilizar e
convocar, com a ajuda e sob o poder do Espírito Santo, a Igreja para o
cumprimento fiel da sua sagrada vocação e Missão no mundo de hoje. Que assim
seja.
Hoje é um dia
profundamente triste e sombrio para a Guiné-Bissau. A prisão abusiva e
manifestamente injusta do Engenheiro Domingos Simões Pereira (DSP) representa,
simbolicamente, a prisão de todos os bons filhos da nossa pátria, em particular
daqueles que, de forma inabalável, defendem a liberdade, a democracia, a
justiça e o primado do Estado de direito (LER).
Domingos Simões Pereira
está, paulatinamente, a ser sacrificado no altar da cólera, da inveja, do ódio,
da vingança, da iniquidade, do terror, da perversidade e da malignidade
daqueles que fizeram da violência e da arbitrariedade instrumentos de exercício
do poder na Guiné-Bissau.
Os mesmos que
demonstraram a sua manifesta incompetência governativa, que chegaram ao poder
por via golpista e que foram inequivocamente rejeitados pelo povo guineense nas
urnas, perante a agenda reformista e progressista defendida por Domingos Simões
Pereira, são precisamente aqueles que, recorrendo às armas do medo, da
intimidação e do terror, procuram, a todo o custo, eliminá-lo da vida política
e, receia-se, até da própria vida.
Há muito que tenho
vindo a denunciar publicamente, à semelhança de outros cidadãos guineenses, a
existência de um plano cuidadosamente arquitetado por Umaro Sissoco Embaló e
pelos seus aliados golpistas com o propósito deliberado de atentar contra a
vida do Engenheiro Domingos Simões Pereira, tal como sucedeu com o Engenheiro
Amílcar Lopes Cabral (LER). Esta denúncia encontra-se amplamente documentada em diversas publicações que
tenho vindo a divulgar nas redes sociais, encontrando particular expressão no
excerto de dois vídeos incorporados na presente publicação: o primeiro gravado
no final do ano passado e o segundo no início do presente ano, ambos
ilustrativos daquilo que, há muito, venho publicamente denunciando.
A situação que hoje
envolve o Engenheiro Domingos Simões Pereira apresenta evidentes paralelismos
com aquela que envolveu o Engenheiro Amílcar Cabral. DSP é um homem humilde,
afável, altamente qualificado e detentor de uma vasta experiência política e governativa.
É, indiscutivelmente, um dos mais competentes quadros e dos mais prestigiados
líderes políticos que a Guiné-Bissau possui, beneficiando de amplo
reconhecimento e credibilidade no plano internacional.
Apesar disso, os seus
adversários persistem na construção de narrativas falsas e difamatórias
destinadas a destruir a sua imagem pública. Entre essas acusações figuram a
alegação de que não gosta dos muçulmanos nem das populações do interior do
país, bem como a imputação de práticas de corrupção e da intenção de alienar as
riquezas nacionais a interesses estrangeiros. Foi, em larga medida, devido à
disseminação sistemática dessas narrativas que Domingos Simões Pereira viu
frustradas, por duas vezes, as suas legítimas aspirações ao exercício do poder.
O Engenheiro Domingos
Simões Pereira não é apenas alvo da hostilidade de cidadãos menos esclarecidos,
facilmente influenciáveis por boatos e campanhas de desinformação. Também em
determinados sectores mais instruídos da sociedade existe uma crescente aversão
à sua figura política. Esta verdadeira “Domingos-fobia” resulta, em larga
medida, da inveja, do ressentimento e do ódio que frequentemente recaem sobre
aqueles que se distinguem pela sua inteligência, competência e visão
reformista.
Infelizmente, uma parte
significativa da sociedade guineense tende a olhar com desconfiança para homens
e mulheres intelectualmente preparados, portadores de ideais progressistas,
dotados de elevado sentido de Estado e genuinamente comprometidos com o desenvolvimento
nacional. Quem reúne essas qualidades transforma-se, quase inevitavelmente, num
alvo a eliminar política e fisicamente.
Assim aconteceu com o
Engenheiro Amílcar Cabral e, hoje, procura repetir-se o mesmo padrão em relação
ao Engenheiro Domingos Simões Pereira, numa tentativa de afastar
definitivamente um dos principais defensores da democracia guineense e, desse
modo, consolidar um regime de natureza ditatorial na Guiné-Bissau.
Perante este cenário,
impõe-se uma convergência nacional de esforços entre os partidos políticos, as
organizações da sociedade civil e todos os homens e mulheres de “boa vontade”
que acreditam na liberdade e na democracia. Torna-se imperioso mobilizar todos
os meios legítimos e pacíficos ao serviço da justiça, do direito e da
legalidade democrática, com o objetivo de exigir a libertação incondicional e
imediata do Engenheiro Domingos Simões Pereira, bem como de todos aqueles que
se encontram atualmente privados da liberdade de forma arbitrária, ilegal e
manifestamente injusta na Guiné-Bissau.
É imperioso agir com
urgência para salvar o nosso país das mãos dos golpistas criminosos, antes que
seja demasiado tarde e a Guiné-Bissau seja precipitada para um conflito armado
de consequências potencialmente irreversíveis. Impõe-se, em última instância,
travar a deriva autoritária que se apoderou do Estado, resgatando-o do jugo
opressor daqueles que, pela força e pela arbitrariedade, procuram subverter a
ordem democrática.
A Guiné-Bissau precisa
de justiça, de tolerância, de democracia e do respeito pelos direitos humanos.
Precisa, acima de tudo, de liberdade, de paz, de unidade nacional e de
progresso. É esse o caminho que deve inspirar todos os guineenses comprometidos
com a construção de um país mais justo, mais livre e verdadeiramente
democrático. Que assim seja.
O título da nossa
reflexão desta manhã é “Riqueza ou Pobreza?”. Trata-se de um tema
particularmente relevante, à semelhança de muitos outros que temos vindo a
estudar nesta revista e nas diversas publicações que têm servido de base ao
nosso aprendizado ao longo dos anos.
Todavia, quando
abordamos a questão da riqueza e da pobreza, entramos num domínio que
dificilmente reúne consenso absoluto. Cada indivíduo tende a construir a sua
própria visão do mundo, desenvolvendo conceções, interpretações e perspetivas
distintas acerca destes assuntos (LER).
A riqueza e a pobreza
constituem temas recorrentes no contexto social e na vivência quotidiana. Desde
cedo, os seres humanos são incentivados a procurar a prosperidade, a afastar-se
da pobreza e a esforçar-se por alcançar uma situação económica mais favorável.
De forma generalizada, convencionou-se que a riqueza é sinónimo de felicidade e
que aqueles que possuem abundância material desfrutam, necessariamente, de uma
vida melhor.
Esta perceção
encontra-se presente em praticamente todas as culturas. Existe a convicção de
que quanto maior for a capacidade financeira de uma pessoa, maior será também o
seu grau de felicidade. Tal entendimento decorre da ideia de que o dinheiro
proporciona poder, e que esse poder permite alcançar objetivos e adquirir bens
que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis. É por essa razão que, desde a
infância ou desde o momento em que começamos a desenvolver consciência de nós
próprios, somos estimulados a trabalhar, a poupar e a procurar condições que
nos permitam ascender social e economicamente.
Até aqui, nada existe
de intrinsecamente errado. É natural e legítimo que o ser humano procure
melhorar as suas condições de vida, progredir e alcançar um patamar mais
estável e digno. Contudo, existe um reverso da questão: quando essa procura é
orientada por pressupostos equivocados ou por motivações desordenadas. Sabemos
que a posse de bens materiais não constitui garantia absoluta de felicidade, de
realização pessoal ou de superioridade moral. Embora a sociedade frequentemente
promova essa ideia, ela revela-se profundamente ilusória. O dinheiro, por si
só, não assegura paz interior, equilíbrio emocional, harmonia familiar nem amor
verdadeiro.
Por outro lado, a
pobreza é frequentemente encarada como uma realidade exclusivamente negativa.
Em determinadas circunstâncias, tal perceção possui fundamento. Quando uma
pessoa vive privada do mínimo indispensável à sua subsistência, encontrando-se
numa situação de pobreza extrema, estamos perante uma condição que compromete
seriamente a sua qualidade de vida. Todo o ser humano deveria ter acesso a uma
habitação digna, alimentação adequada, oportunidades de trabalho e, acima de
tudo, cuidados de saúde. Sem estas condições básicas, muitas potencialidades
permanecem por desenvolver e multiplicam-se os obstáculos à realização pessoal.
A pobreza extrema
constitui, de facto, uma ameaça à dignidade humana. Quem vive em condições de
privação severa torna-se frequentemente mais vulnerável à exclusão, à
dependência e à marginalização social. Deus não criou o ser humano para viver
destituído de dignidade; pelo contrário, a própria dignidade pressupõe a
existência das condições mínimas necessárias à sobrevivência e ao florescimento
da pessoa.
Contudo, como veremos
através do ensino do Apóstolo Paulo, o verdadeiro mérito não reside nem na
pobreza nem na riqueza. O mérito reside em Deus. Uma pessoa pode ser pobre e
plenamente realizada, assim como pode ser rica e viver uma existência
equilibrada e bem-sucedida, desde que a sua vida esteja firmemente alicerçada
em Deus. O elemento decisivo não é a condição económica, mas a presença de Deus
no coração e na conduta do indivíduo.
Não obstante, na ânsia
de alcançar riqueza, muitas pessoas tornam-se dominadas pela avareza e pela
ganância. Quando alguém passa a considerar a acumulação de bens como o objetivo
supremo da sua existência, corre o risco de ignorar princípios morais e espirituais
para atingir esse fim. É precisamente por isso que, ao longo da história, se
têm observado inúmeras fortunas construídas à custa de práticas eticamente
condenáveis e moralmente reprováveis.
A obsessão pela riqueza
gera inevitavelmente conflitos, inquietações e múltiplas formas de sofrimento.
Pelo contrário, quando vivemos no centro da vontade de Deus, deixamos de
depender das coisas materiais para alcançar felicidade e passamos a fundamentar
a nossa existência na relação com o Criador.
Se eu perguntasse a
cada um de vós se preferiria ser rico ou pobre, é provável que a maioria
respondesse que gostaria de ser rica. E não existe qualquer mal nisso, desde
que a riqueza seja procurada de forma honesta, legítima e em conformidade com
os princípios divinos. O trabalho diligente, a competência, a disciplina e uma
gestão prudente dos recursos podem conduzir ao sucesso material. Porém, o
verdadeiro crente não vive obcecado pela riqueza; para ele, a prosperidade
material é apenas uma consequência eventual, nunca a finalidade última da vida.
O problema surge quando
alguém passa a acreditar que a sua felicidade, a sua segurança e a sua paz
dependem exclusivamente do dinheiro. Nesse momento, abre-se o caminho para a
frustração e para a desilusão.
O Apóstolo Paulo
afirma, em 1 Timóteo 6, que «é grande ganho a piedade com contentamento». Esta
declaração revela uma verdade profunda: a verdadeira riqueza consiste numa vida
marcada pela piedade e pelo contentamento. Quando a fé é vivida de forma
autêntica, produz uma riqueza espiritual incomparável, caracterizada pela paz,
pela plenitude e pela harmonia interior – bens que nenhum património financeiro
pode adquirir.
Apóstolo Paulo recorda
ainda que «nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar
dele». Ao nascermos, chegamos de mãos vazias; ao partirmos desta vida, também
nada levaremos connosco. Se possuímos alimento, vestuário e os recursos
necessários para uma vida digna, já temos razões suficientes para cultivar a
gratidão. Porém, aqueles que vivem consumidos pelo desejo de enriquecer acabam
frequentemente por cair em tentações, armadilhas e desejos insensatos que
conduzem à ruína espiritual e moral. A raiz de todos os males não é o dinheiro
em si mesmo, mas o amor desordenado ao dinheiro. Em nome dele, muitos mentem,
traem, corrompem-se, exploram os seus semelhantes e chegam até a destruir
vidas.
O dinheiro pode ser um
excelente servo, mas é um péssimo senhor. O problema não está em possuir
dinheiro, mas em permitir que o dinheiro possua o coração. Quando a riqueza se
transforma no propósito fundamental da existência, o ser humano entra num caminho
espiritualmente perigoso.
Vivemos numa sociedade
que, muitas vezes, se esquece de Deus, ama as coisas e utiliza as pessoas,
quando deveria precisamente fazer o contrário: adorar a Deus, amar as pessoas e
utilizar as coisas. O verdadeiro desafio não consiste na posse de recursos materiais,
mas em impedir que a ganância domine o coração humano. É preferível possuir o
suficiente para viver com serenidade, equilíbrio e consciência tranquila do que
acumular grandes riquezas sem paz interior. Quando Deus ocupa o lugar central
da nossa vida, o dinheiro torna-se um instrumento ao serviço do bem: para
socorrer os necessitados, apoiar causas nobres e contribuir para a expansão do
Reino de Deus.
Por essa razão, ninguém
pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro. Onde estiver o nosso tesouro,
aí estará também o nosso coração. O amor excessivo pelas riquezas tem levado
muitos a afastarem-se da fé, da comunhão da Igreja e do caminho de Deus, passando
a viver exclusivamente em função da acumulação material.
Que Deus nos ajude a
não “naufragarmos na fé” e a reconhecermos que a nossa verdadeira riqueza não
se encontra nos bens transitórios deste mundo, mas na pessoa do Senhor Jesus
Cristo, na Sua Palavra e no Seu glorioso Evangelho. Que assim seja.
Comecei,
desde anteontem, a ler a nova e primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV,
intitulada Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da
Inteligência Artificial. Confesso que esta tem sido uma leitura acutilante,
estimulante e intelectualmente desafiante. Trata-se de uma obra bem estruturada
e densamente argumentada, que aborda questões de grande relevância, sobretudo
no que respeita à problemática antropológica suscitada pela inteligência
artificial no contexto contemporâneo – tanto nas suas potencialidades benéficas
como nos riscos e dilemas que encerra.
Todo o Cristão
Evangélico Protestante deveria, em certa medida, possuir também uma compreensão
da tradição católica. Existem, sem dúvida, numerosos pontos de divergência
entre o Protestantismo e a Igreja Católica. Contudo, existem igualmente
múltiplos elementos de convergência que não podem ser ignorados. Compete-nos,
portanto, examinar cuidadosamente todas as coisas e reter aquilo que é
verdadeiro, rejeitando o que não encontra respaldo nas Escrituras Sagradas.
Não
devemos, como advertia o Teólogo Martinho Lutero, citado por Timothy George,
rejeitar indiscriminadamente tudo o que se encontra sob a esfera de influência
do papado. Nas suas palavras, não se deve rejeitar «tudo que esteja sob o
domínio do papa. Porque assim deveríamos rejeitar também a igreja cristã. Muito
do património cristão pode-se encontrar no papado e dele descende»(LER).
Assim que
concluir a leitura desta obra – o que deverá acontecer nos próximos dias –
tenciono elaborar uma apreciação crítica do seu conteúdo, apresentando a minha
modesta reflexão sobre os seus principais contributos, méritos e eventuais
limitações. Até lá, continuarei dedicado e perseverante nesta leitura, convicto
de que ela constitui uma oportunidade valiosa para aprofundar a reflexão sobre
um dos temas mais decisivos do nosso tempo.
A meu ver, e
respondendo diretamente à questão colocada, no que respeita à democracia, não
perfilho qualquer postura de rejeição sistemática do Ocidente nem de tudo
aquilo que dele provém. Tal atitude revelar-se-ia não apenas intelectualmente
redutora, mas também historicamente injustificada. As sociedades ocidentais
percorreram um longo e complexo percurso de construção política, institucional
e civilizacional, acumulando experiências, conhecimentos e práticas que não
devem ser ignorados por aqueles que procuram compreender os desafios da
organização das sociedades contemporâneas.
Evidentemente, nem tudo
o que foi construído deve ser imitado. Há elementos que podem revelar-se
incompatíveis com os nossos valores, tradições e circunstâncias históricas.
Contudo, aquilo que é manifestamente benéfico deve ser acolhido sem complexos
nem preconceitos.
Neste contexto,
considero que a democracia continua a ser o melhor modelo político disponível.
A experiência histórica demonstra que os países mais democráticos tendem, em
regra, a apresentar níveis mais elevados de desenvolvimento económico, social e
humano. Existe, naturalmente, uma correlação significativa entre a qualidade
das instituições democráticas e o grau de prosperidade das sociedades.
Alguns poderão invocar
o caso da China como uma aparente refutação desta tese. De facto, quando
analisamos o Produto Interno Bruto (PIB), verificamos que a China ocupa uma
posição cimeira na economia mundial. Todavia, o PIB, por si só, não constitui
um indicador suficiente para aferir o verdadeiro nível de desenvolvimento de um
país. É necessário considerar igualmente o Índice de Desenvolvimento Humano
(IDH) e, sobretudo, a forma como a riqueza produzida é distribuída pela
população.
É precisamente aqui que
importa estabelecer uma distinção fundamental. Uma coisa é a riqueza que um
país gera; outra, muito diferente, é o modo como essa riqueza beneficia os seus
cidadãos. Se utilizássemos exclusivamente o PIB como critério de avaliação,
também poderíamos considerar Angola um país altamente desenvolvido, dado o
volume dos seus recursos naturais. Contudo, a realidade evidencia que a riqueza
nacional nem sempre se traduz em melhoria efetiva das condições de vida da
população.
Por essa razão, a
análise do caso chinês exige cautela. Apesar da impressionante dimensão da sua
economia, milhões de cidadãos continuam a enfrentar dificuldades
significativas, e uma parte substancial da população não beneficia
proporcionalmente da riqueza produzida. Porém, esta é uma discussão que nos
conduziria para outro debate.
Regressando à questão
central, continuo a sustentar que a democracia permanece o modelo político mais
adequado para promover a liberdade, a estabilidade institucional e o
desenvolvimento. Isso não significa, contudo, que os sistemas democráticos
devam ser copiados mecanicamente. Pelo contrário, cada sociedade deve adaptar
os princípios democráticos às suas especificidades históricas, culturais e
sociais. Sabemos que a democracia pode assumir diversas configurações
institucionais, desde o presidencialismo ao semipresidencialismo, passando pelo
parlamentarismo e por outras variantes. O desafio consiste em identificar quais
dessas fórmulas melhor se adequam às realidades africanas.
A meu ver, um dos
principais obstáculos à consolidação da democracia em África não reside na
ausência de constituições ou de quadros legais apropriados. A maioria dos
países africanos dispõe já de textos constitucionais que consagram os
princípios fundamentais do Estado de direito democrático. O verdadeiro problema
encontra-se na dificuldade de transformar esses princípios formais em práticas
efetivas. A democracia exige mais do que eleições periódicas. Requer uma
cultura cívica sólida, respeito pelas instituições, compromisso com a
legalidade e sentido de responsabilidade coletiva. Quando estes elementos não
se encontram suficientemente enraizados, as instituições democráticas tornam-se
frágeis e vulneráveis.
Não se pode atribuir
essa realidade apenas ao desconhecimento da lei. Em qualquer sociedade, a
maioria dos cidadãos desconhece uma parte significativa da legislação em vigor.
Ainda assim, esse desconhecimento não os exime das suas obrigações. Quando as instituições
funcionam adequadamente, os indivíduos acabam por ajustar os seus
comportamentos às normas estabelecidas. O problema é que, frequentemente, os
próprios governantes africanos não demonstram o compromisso necessário com as
regras democráticas. Muitos combatem a perpetuação dos seus antecessores no
poder, mas, uma vez alcançadas posições de liderança, procuram alterar ou
contornar os mecanismos institucionais que garantem a alternância governativa.
O caso angolano ilustra
bem esta problemática. Quando a Constituição estabelece limites claros para o
exercício do poder, esses limites devem ser respeitados. A alternância política
não constitui uma ameaça à democracia; constitui, antes, uma das suas expressões
mais importantes. Sem respeito pelas regras do jogo democrático, dificilmente
será possível consolidar instituições fortes e credíveis.
No entanto, o facto de
eu defender a incorporação dos aspetos positivos da experiência ocidental não
significa que considere desejável importar indiscriminadamente todos os seus
valores e orientações culturais. Existem domínios em que cada sociedade deve
preservar a liberdade de definir os seus próprios referenciais morais,
culturais e civilizacionais.
Uma das dificuldades
que enfrentamos enquanto africanos prende-se precisamente com a forma como
encaramos a nossa própria identidade. Muitos dos nossos concidadãos
desenvolveram uma perceção negativa de si mesmos e das suas sociedades. África
continua frequentemente associada à pobreza, à instabilidade política, aos
conflitos armados e ao subdesenvolvimento. Consequentemente, muitos africanos
acabam por interiorizar essa imagem depreciativa e por sentir uma certa
vergonha da sua própria condição. Esta realidade manifesta-se de diversas
formas, incluindo na adoção acrítica de padrões culturais e estéticos
importados. Em muitos casos, aquilo que é estrangeiro é automaticamente
valorizado, enquanto aquilo que é africano tende a ser desvalorizado. Trata-se
de um fenómeno complexo, cujas raízes são históricas, psicológicas e
sociológicas.
Porém, uma identidade
forte não se constrói através da negação de si mesmo. Pelo contrário, exige a
valorização da própria história, da própria cultura e da própria herança
civilizacional. Isto não significa fechar-se ao mundo, mas sim relacionar-se
com ele a partir de uma posição de confiança e autoestima coletiva.
Todavia, essa
recuperação da autoestima africana depende, em larga medida, da qualidade da
governação. Enquanto persistirem a corrupção, a pobreza, a exclusão social e a
má administração dos recursos públicos, será difícil gerar um sentimento
genuíno de orgulho coletivo. Os povos tendem a identificar-se positivamente com
sociedades que funcionam, que produzem resultados e que oferecem esperança aos
seus cidadãos.
Em síntese, considero
que África deve estar aberta à aprendizagem e ao intercâmbio com o resto do
mundo. Não devemos rejeitar aquilo que é bom apenas porque tem origem noutras
civilizações. Vivemos num contexto globalizado, onde a circulação de ideias, conhecimentos
e experiências constitui uma fonte indispensável de progresso.
Contudo, o
desenvolvimento não depende apenas da abertura ao exterior. Exige igualmente
educação de qualidade, instituições sólidas, transparência governativa, justiça
social, distribuição equitativa dos recursos e uma cultura política assente na
responsabilidade e no mérito. Só assim será possível lançar os alicerces de um
desenvolvimento verdadeiramente sustentável.
Quando se levanta a
questão da incorporação das especificidades étnicas, culturais e tradicionais
africanas nos modelos democráticos contemporâneos, importa reconhecer que
estamos perante um desafio particularmente complexo. A sociedade africana não
constitui uma realidade homogénea. Pelo contrário, caracteriza-se por uma
extraordinária diversidade de povos, línguas, culturas, tradições e crenças
religiosas. Tomemos como exemplo a Guiné-Bissau. Trata-se de uma sociedade
marcada pela coexistência de múltiplas etnias, cada uma delas portadora de
hábitos, costumes e visões do mundo distintas. A essa diversidade cultural
acresce ainda a pluralidade religiosa, onde convivem tradições animistas,
cristãs e islâmicas.
Neste contexto, a
tentativa de construir um modelo político integralmente assente nessas
particularidades poderia revelar-se extremamente difícil e até
contraproducente. Isso não significa que as tradições africanas devam ser
ignoradas, mas apenas que a sua integração exige prudência, reflexão e elevado
rigor intelectual. Por essa razão, não considero que esta seja, neste momento,
a questão mais urgente. Antes de discutirmos modelos alternativos de
organização política, precisamos de enfrentar desafios mais imediatos e mais
graves, como a fome, a pobreza, a ignorância, a corrupção e a má governação.
Além disso, a
construção de modelos genuinamente adaptados às realidades africanas exige a
existência de uma elite intelectual altamente qualificada. Exige
investigadores, académicos, historiadores, juristas, sociólogos e cientistas
políticos capazes de estudar profundamente as nossas sociedades e de formular
propostas sólidas e consistentes. O mesmo se aplica ao sistema educativo. Em
muitos países africanos, os currículos continuam fortemente influenciados por
modelos herdados do período colonial. É legítimo questionar até que ponto os
conteúdos ensinados refletem adequadamente as nossas realidades históricas e
culturais. Talvez seja necessário reforçar o estudo da história africana, das
línguas nacionais e das tradições locais. Contudo, uma reforma curricular séria
não pode ser conduzida de forma improvisada. Exige investigação científica,
recursos técnicos, planeamento estratégico e vontade política.
Finalmente, importa
sublinhar que a construção de uma identidade africana forte não depende
exclusivamente da escola. Grande parte do património cultural africano continua
a ser transmitido pela oralidade, através das famílias, das comunidades e das
gerações mais velhas. Essa tradição oral constitui uma das maiores riquezas da
civilização africana e continua a desempenhar um papel fundamental na
preservação da memória coletiva.
Em última análise, o
futuro de África dependerá da capacidade dos seus povos para conciliarem
modernidade e tradição, abertura ao mundo e fidelidade às suas raízes,
progresso material e afirmação cultural. Só através desse equilíbrio será
possível construir sociedades verdadeiramente livres, prósperas e conscientes
da sua própria dignidade histórica.
Importa, antes de
responder directamente a esta pertinente questão, proceder a um breve
enquadramento histórico-político, procurando compreender com maior profundidade
de onde partimos, onde nos encontramos actualmente e quais os desafios que se
colocam ao futuro do continente africano, para, só então, formular uma resposta
final devidamente fundamentada.
Desde logo, quando se
aborda a questão das independências africanas, parece-me evidente que qualquer
pessoa de boa-fé, minimamente razoável e intelectualmente honesta reconhecerá
que a libertação dos povos africanos do jugo colonial era não apenas legítima,
mas absolutamente necessária. O que sucedia em África durante o período
colonial – e, antes disso, durante séculos de escravatura – constitui uma das
maiores negações da dignidade humana na história da civilização.
A escravatura, em todas
as suas formas, representa uma afronta intolerável à condição humana. Nenhum
povo pode desenvolver-se plenamente quando lhe é negada a sua humanidade, a sua
liberdade e a sua capacidade de autodeterminação. O africano não era apenas
explorado economicamente; era, muitas vezes, desumanizado, reduzido a um
objecto de dominação e privado do reconhecimento da sua própria condição de ser
humano. Ora, a partir do momento em que um povo deixa de ser reconhecido na sua
humanidade essencial, a discussão sobre se “valeu ou não a pena” conquistar a
independência torna-se, em certa medida, absurda.
Por isso, a
independência africana não foi um capricho ideológico nem uma mera ambição
política: foi uma necessidade histórica, moral e civilizacional. Houve, nesse
sentido, uma convergência de vontades, uma mobilização colectiva e um profundo
espírito de unidade entre os movimentos nacionalistas africanos. Apesar das
perseguições, da repressão colonial, das guerras de libertação e dos inúmeros
obstáculos impostos pelas potências europeias, o ideal emancipador acabou por
triunfar. Graças a esse esforço histórico, África libertou-se formalmente do
colonialismo, sobretudo a partir das décadas de 1950 e 1960, quando uma parte
significativa dos países africanos alcançou a independência.
Contudo, se a primeira
fase – a da libertação política – pode ser considerada uma vitória histórica, a
segunda fase – a do desenvolvimento e da verdadeira autodeterminação – ficou
profundamente aquém das expectativas.E
ficou aquém por várias razões. Desde logo, porque muitos dos dirigentes que
assumiram os destinos dos novos Estados africanos não possuíam preparação
adequada para governar sociedades complexas e estruturalmente fragilizadas. E,
em muitos casos, mesmo aqueles que detinham alguma formação técnica ou
intelectual não revelaram verdadeiro sentido patriótico nem compromisso genuíno
com os interesses superiores das suas nações e do continente.
É precisamente aqui que
reside uma das grandes tragédias do pós-independência africano: a substituição
do ideal colectivo pelo interesse pessoal, do patriotismo pelo materialismo e
da visão estratégica pelo oportunismo político. O projecto de construção de uma
África desenvolvida, soberana e influente no plano geopolítico acabou, pelo
menos até ao momento, por fracassar em larga medida.
Basta observar a
realidade contemporânea do continente. África continua a enfrentar graves
problemas estruturais: fome, pobreza extrema, guerras civis, instabilidade
política, corrupção sistémica, dependência económica e fragilidade
institucional. Em muitos aspectos, o continente ainda não conseguiu ultrapassar
desafios básicos que deveriam já ter sido superados há décadas.Naturalmente, isto não significa que a
independência tenha sido um erro. Pelo contrário: o saldo histórico da
libertação continua a ser amplamente positivo. O problema não reside na
independência em si, mas na incapacidade de transformar essa liberdade política
em desenvolvimento efectivo, estabilidade institucional e progresso humano.
Muitas vezes procura-se
justificar o fracasso africano exclusivamente através das interferências
externas. É evidente que essas interferências existem e continuarão a existir.
Aliás, elas não acontecem apenas em África; fazem parte da dinâmica das relações
internacionais. Todas as grandes potências procuram defender os seus interesses
estratégicos e exercer influência sobre regiões consideradas importantes do
ponto de vista económico ou geopolítico.
No entanto, o
verdadeiro problema não está apenas na interferência externa, mas sobretudo na
forma como os dirigentes africanos lidam com ela. Países governados por líderes
competentes, patrióticos e institucionalmente comprometidos conseguem resistir
melhor às pressões externas. O problema surge quando aqueles que ocupam o poder
são vulneráveis à corrupção, movidos por interesses pessoais e destituídos de
visão nacional.
Por isso, considero
improdutivo reduzir todos os males africanos a uma narrativa simplista de
culpabilização do Ocidente. É evidente que houve exploração histórica e
continuam a existir interesses externos. Porém, nenhuma sociedade evolui
verdadeiramente enquanto não assumir também responsabilidade pelos seus
próprios fracassos internos.
Nesse sentido, recordo
frequentemente o pensamento de Amílcar Cabral, que defendia a necessidade de os
africanos pensarem “com a sua própria cabeça”. Ouvir o mundo é importante, mas
a decisão sobre aquilo que serve verdadeiramente os interesses africanos deve
partir dos próprios africanos.
Além disso, importa
recordar que muitos dos movimentos de libertação transformaram-se,
posteriormente, em estruturas de poder fechadas, autoritárias e incapazes de
aceitar alternância democrática. Muitos dos que participaram nas lutas de
independência passaram a considerar-se proprietários históricos do Estado,
perpetuando-se no poder em nome de uma legitimidade revolucionária já
ultrapassada.
O próprio Amílcar
Cabral advertia contra esse risco. Para ele, os combatentes da libertação não
deveriam assumir automaticamente o direito de governar após a independência. A
condução do Estado deveria caber às pessoas mais capacitadas, mais competentes e
mais preparadas para essa missão. Contudo, em muitos países africanos, sucedeu
exactamente o contrário: os aparelhos militares e revolucionários
converteram-se em elites políticas permanentes.
Daí resulta um dos
principais bloqueios ao desenvolvimento africano. Quando os destinos de um país
são entregues a indivíduos sem preparação adequada, sem visão estratégica e sem
compromisso democrático, torna-se inevitável o surgimento de mecanismos de repressão,
corrupção e perpetuação do poder.
Acresce ainda outro
factor decisivo: a insuficiência histórica de uma elite intelectual robusta no
momento das independências. O colonialismo não preparou África para a
governação autónoma. A formação de quadros era limitada, o acesso à educação
era profundamente desigual e a construção de uma verdadeira massa crítica
nacional encontrava-se ainda numa fase embrionária.
Todavia, essa já não
pode ser hoje a principal justificação. Actualmente, África possui homens e
mulheres suficientemente qualificados para impulsionar o desenvolvimento do
continente. O problema deixou de ser apenas a falta de quadros; passou a ser,
sobretudo, a ausência de sistemas políticos transparentes, democráticos e
meritocráticos.
E aqui chegamos ao
ponto central: sem democracia verdadeira, não existe desenvolvimento
sustentável. A democracia não deve ser entendida apenas como realização
periódica de eleições, mas como construção de instituições sólidas,
transparência governativa, separação de poderes, liberdade de expressão,
fiscalização pública e responsabilização política. Sem esses mecanismos, mesmo
os países que possuem recursos naturais abundantes e capital humano qualificado
tendem inevitavelmente à estagnação.
Quando observamos os
países africanos que apresentam melhores indicadores de desenvolvimento humano,
estabilidade institucional e crescimento económico, verificamos quase sempre
uma correlação directa com níveis relativamente mais elevados de democracia,
transparência e funcionamento institucional.
Infelizmente, muitos
Estados africanos continuam marcados por tendências autoritárias,
personalização do poder e ausência de cultura democrática. Nesses contextos, os
cidadãos vivem frequentemente impedidos de expressar livremente o seu
descontentamento, denunciar abusos ou exigir responsabilização política.
Por essa razão, não
considero justo atribuir aos povos africanos a responsabilidade principal pelo
fracasso do continente. Os governados só podem agir plenamente quando existem
condições mínimas de liberdade política. Onde não há democracia, a contestação
é reprimida; onde não há instituições independentes, a corrupção prospera; e
onde não há alternância política, instala-se inevitavelmente a degradação do
Estado.
O problema de fundo em
África é, portanto, um problema de liderança, de cultura política e de
construção institucional. Os mais preparados foram frequentemente afastados dos
centros de decisão, enquanto indivíduos sem visão nacional permaneceram no
comando dos destinos dos seus países.Mas a solução não passa apenas pela substituição de líderes. Exige
também a construção de uma consciência colectiva africana fundada na cidadania,
na responsabilidade pública, na transparência e no fortalecimento da democracia.
Só assim África poderá
transformar a independência política conquistada no século XX numa verdadeira
emancipação civilizacional, económica e institucional no século XXI.
Quis, antes de encerrar
este dia, registar estas breves palavras em vídeo para felicitar publicamente
Cabo Verde pelo notável exemplo democrático que deu ao mundo, e de modo muito
particular ao continente africano. Ao
longo de sucessivas décadas, Cabo Verde tem consolidado, de forma consistente e
progressiva, as bases da sua democracia. O que ontem se testemunhou não
constitui um acontecimento isolado ou fortuito; é, antes, o corolário natural
de um longo e paciente processo de edificação institucional, de amadurecimento
cívico e de afirmação de uma cultura política assente no respeito pela
legalidade democrática.
Para aqueles que
acompanham com atenção a realidade política do continente africano, é evidente
que um dos seus mais persistentes desafios reside precisamente na consolidação
da democracia, sobretudo no momento em que os processos eleitorais, em vez de representarem
a celebração da vontade soberana dos povos, degeneram frequentemente em focos
de tensão, confrontação e, em casos extremos, em conflitos armados com
consequências humanas devastadoras.
Infelizmente, esta é
uma realidade transversal a várias geografias africanas. Mesmo no espaço dos
PALOP, temos assistido a episódios reveladores dessa fragilidade institucional.
Angola, Moçambique e a Guiné-Bissau são exemplos recentes de contextos em que
divergências político-eleitorais desencadearam cenários de crispação,
instabilidade e perda de vidas humanas. Em muitos destes casos, quem perde
recusa-se a reconhecer a derrota, enquanto quem vence, não raras vezes,
encontra obstáculos artificiais à assunção legítima do poder. Este bloqueio à
normal alternância democrática acaba, inevitavelmente, por gerar conflitos que
corroem o tecido social, comprometem a paz civil e hipotecam o futuro
colectivo.
Cabo Verde, porém,
constitui uma honrosa excepção a esta tendência. O país tem demonstrado, com
assinalável maturidade política, que a democracia não é apenas um modelo formal
de governação, mas um exercício concreto de civilidade, responsabilidade institucional
e respeito pela soberania popular. Essa maturidade democrática reflecte-se não
apenas na serenidade com que decorrem os processos eleitorais, mas igualmente
na forma como o país tem sido governado e na repercussão directa que essa
estabilidade produz na vida quotidiana dos seus cidadãos.
Se compararmos Cabo
Verde com muitos outros países africanos – particularmente no universo lusófono
– verificamos que o arquipélago apresenta melhores indicadores de
desenvolvimento humano, maior transparência governativa e condições de vida
significativamente mais favoráveis para a sua população. A razão é simples: a
democracia funciona. Quando a democracia funciona, abrem-se caminhos para a
transparência administrativa, para a fiscalização efectiva das instituições,
para a mobilidade social e para uma redistribuição mais equitativa dos recursos
nacionais. Estes factores conjugados geram impactos concretos na qualidade de
vida dos cidadãos e promovem um desenvolvimento socialmente sustentável.
É precisamente isso que
Cabo Verde demonstra ao continente: um país pequeno na sua dimensão
territorial, mas imenso na robustez das suas instituições democráticas; uma
nação desprovida de abundantes recursos naturais, mas rica em capital humano,
em visão estratégica e em compromisso cívico. A sua aposta na democracia
permitiu-lhe investir de forma consistente na educação, qualificar os seus
recursos humanos, reforçar a boa governação e criar as condições estruturais
para um desenvolvimento harmonioso.
Em contraste, outros
países africanos, embora dotados de vastíssimos recursos naturais, continuam
incapazes de converter essa riqueza em prosperidade colectiva. E isso acontece,
em larga medida, porque a democracia permanece deficitária ou meramente aparente.
Onde a democracia não se consolida, abrem-se inevitavelmente espaços para o
autoritarismo, para a corrupção, para a captura das instituições e para a
perseguição política. Nessas circunstâncias, a riqueza nacional deixa de servir
o interesse público e passa a alimentar estruturas de poder excludentes e
predatórias. É por isso que tantos desses países permanecem reféns da pobreza,
do atraso e da frustração histórica, apesar do imenso potencial de que dispõem.
Cabo Verde, pelo
contrário, tem demonstrado que o verdadeiro desenvolvimento não depende
exclusivamente da abundância de recursos materiais, mas da existência de
instituições sólidas, de cultura democrática e de compromisso genuíno com o bem
comum. Por isso afirmo, sem hesitação, que Cabo Verde é um país pequeno em
geografia, mas gigante na afirmação democrática e na dignificação política do
continente africano.
Quero, por isso,
felicitar o povo cabo-verdiano e expressar o desejo sincero de que o país
prossiga firmemente nesta senda, pois só assim continuará a colher frutos em
benefício da sua população, elevando as condições de vida dos seus cidadãos e
consolidando a sua projecção no panorama africano e internacional. Que este
exemplo de maturidade democrática possa servir de inspiração aos demais países
africanos, em especial aos Estados-membros dos PALOP.
África precisa de
compreender, de uma vez por todas, que não haverá desenvolvimento sustentável,
justiça social nem verdadeira emancipação colectiva sem uma democracia
autêntica, funcional e respeitada.
Os meus sinceros
parabéns a Cabo Verde. E que esta lição de civismo político ecoe para além das
suas ilhas, iluminando o caminho de todo o continente africano.
A nossa
estimada irmã Maria José Alexandre celebra hoje mais um aniversário,
acrescentando uma nova primavera à sua vida, graças a DEUS. Ninguém fica
indiferente ao cruzar-se com a nossa querida irmã Maria José ou ao fazer parte
do seu círculo de relações, tendo em conta a sua visão elevada, abrangente e
apurada da vivência cristã.
Marca todos de forma positiva e demonstra amor para
com todos os que a rodeiam, sem fazer aceção de pessoas. Encarna, de forma
evidente, os grandes princípios e valores da fé cristã no seu quotidiano,
servindo de exemplo para os demais (LER).
A estimada
irmã Maria José Alexandre é, de facto, uma grande mulher de DEUS. É também uma
mulher de família, vivendo sempre em torno dos seus entes queridos. A Igreja e
a família constituem pilares estruturantes do seu substrato identitário. Vive
servindo incansavelmente a Igreja do Senhor Jesus Cristo, a família e o
próximo, com todas as suas forças e inteligência.
A irmã
Maria José Alexandre é uma pessoa piedosa, amorosa, aberta, acessível e
profundamente humilde. Possui um perfil pacífico, agregador, altruísta,
generoso e desprendido; relaciona-se bem com todos, sem preconceitos nem
atitudes de superioridade para com quem quer que seja.
Guardo
comigo, ao longo de muitos anos até à presente data, apenas boas recordações da
nossa estimada irmã Maria José. Sempre me tratou com amor e carinho, tal como
faz com todos os que cruzam o seu caminho. Acompanhou de perto o meu percurso
no Seminário Teológico Baptista (STB) e na Igreja Evangélica Baptista da
Amadora, inteirando-se, com genuína preocupação, dos meus desafios de vida e
procurando ajudar na medida do possível. Assim procedeu, primeiramente, com o
meu irmão Evaristo Vieira e, posteriormente, comigo.
Todas estas
nobres qualidades humano-espirituais que destaco na irmã Maria José Alexandre
são igualmente evidentes na vida e no ministério do seu marido, o Pastor Manuel
Alexandre Jr., confirmando, assim, a máxima popular: “ao lado de um grande
homem há uma grande mulher”.
Sem me
alongar mais, apresento os meus mais sinceros parabéns e votos de feliz
aniversário à estimada irmã Maria José Alexandre. Que o nosso Eterno e
Todo-Poderoso DEUS continue a abençoá-la rica e poderosamente em todos os
aspetos da sua vida, concedendo-lhe vida abundante e saúde, juntamente com toda
a sua amada família. Que a graça e a bondade do Senhor Jesus estejam sempre
consigo, hoje e para todo o sempre. Que se cumpra sobre a sua vida a bênção: “O
Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti
e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a
paz” (Nm 6:24-26). Que assim seja.
Em suma, estimada
irmã Maria José Alexandre, desejo-lhe felicidades espirituais, familiares,
ministeriais, relacionais e terrenas, bem como todas as felicidades do tempo e
da eternidade.
A fé e o trabalho são
duas realidades que, ao longo da história do Cristianismo, têm gerado inúmeros
equívocos doutrinários no seio do povo de Deus, levando frequentemente a
extremos na forma de os conceber. Há quem dê prioridade exclusiva à fé,
negligenciando completamente o trabalho na sua rotina de vida. Inversamente, há
quem faça do trabalho o seu modus vivendi, sacrificando deliberadamente o
compromisso com Deus em nome da atividade profissional. Ambas as perspetivas
estão profundamente erradas à luz das Sagradas Escrituras.
O cristão deve viver a
sua fé de forma comprometida e devota diante de todo o mundo, dando testemunho
vivo da sua salvação. E isso implica honrar a Deus tanto na dimensão espiritual
como na dimensão civil. Do mesmo modo, o cristão deve viver a sua fé trabalhando.
Nenhum cristão, pelo simples facto de pertencer a uma comunidade eclesiástica,
deve sentir-se no direito de não trabalhar e de viver à custa dos outros (2 Ts
3, 6-12). Pelo contrário, todos os cristãos são exortados pelo apóstolo Paulo a
considerar uma honra trabalhar com as próprias mãos, de modo a não serem
“pesados a ninguém” (1 Ts 4, 11-12), e a praticar também uma solidariedade
material, partilhando os frutos do seu trabalho com o necessitado (Ef 4:28).
Os crentes, tal como
sustenta a Doutrina Social da Igreja, “devem viver o trabalho ao estilo de
Cristo e torná-lo ocasião de testemunho cristão diante dos «de fora» (1 Ts 4,
12). (…) Mediante o trabalho, o homem governa com Deus o mundo; juntamente com
Ele, permanece seu senhor e realiza coisas boas para si e para os outros. O
cristão é chamado a trabalhar não só para conseguir o pão, mas também por
solicitude para com o próximo mais pobre, ao qual o Senhor manda dar de comer,
de beber, vestir, acolhimento, atenção e companhia (cf. Mt 25, 35-36)” (LER). Cada
trabalhador, afirma Santo Ambrósio, “é a mão de Cristo que continua a criar e a
fazer o bem”.
Perante tudo o que
ficou exposto, a fé e o trabalho são dimensões complementares, intrínsecas e
irrenunciáveis na vida de um cristão, desde que colocadas na ordem correta.
Fazem parte do substrato identitário de um filho de Deus. Tanto assim é que o
apóstolo Paulo se empenhou em advertir a Igreja, com sabedoria divina, acerca
da importância cimeira de integrar a fé e o trabalho na dinâmica da vida
cristã, nomeadamente no capítulo terceiro da Segunda Epístola aos
Tessalonicenses.
É preciso trabalhar. É
precisamente neste ponto que o apóstolo Paulo aprofunda ainda mais a sua
exortação. Surge uma advertência clara, uma séria chamada de atenção, feita em
nome do Senhor Jesus Cristo. Isto significa que esta recomendação traz o selo do
nome mais sagrado e, por isso, não se trata de um assunto leviano ou
secundário, mas de algo profundamente importante.
Paulo escreve: “Irmãos,
em nome do Senhor Jesus Cristo, queremos recomendar-vos que se afastem de todos
aqueles irmãos que vivem sem fazer nada e que não seguem os ensinamentos da
tradição que receberam de nós” (2 Ts 3:6). Refere-se àqueles irmãos que viviam
sem nada fazer. Eram pessoas que não queriam trabalhar e que, além disso,
criavam intrigas, calúnias e conversas inúteis no meio da comunidade. Em vez de
edificarem, prejudicavam a vida da Igreja.
Na verdade, sabemos que
nem todas as pessoas têm a mesma disposição para o trabalho. Também
reconhecemos que há muitos que desejam trabalhar e não conseguem, por diversas
razões: falta de emprego, problemas de saúde, limitações físicas, dependência
de terceiros ou incapacidade temporária. Não é destes casos que Paulo fala. O
apóstolo dirige-se àqueles que, tendo saúde, capacidade e oportunidade,
simplesmente não querem trabalhar.
Ao que tudo indica,
alguns viviam influenciados pela ideia de que a vinda de Cristo seria imediata.
Por isso, abandonavam responsabilidades, desfaziam-se dos seus bens e
limitavam-se a esperar, sem produzir nem contribuir.
Nem todo o trabalho é,
automaticamente, uma bênção. Há contextos laborais profundamente nocivos. Quando uma pessoa
exerce a sua profissão na área de que gosta, isso já é um bom começo. Contudo,
não basta. Também contam o ambiente de trabalho, os colegas, as chefias e as
condições humanas em redor. Há quem trabalhe naquilo que ama, mas viva num
ambiente tóxico, marcado por humilhações, pressões abusivas ou bullying. Nesses
casos, o trabalho torna-se um peso que afeta a saúde mental, o equilíbrio
familiar e a dignidade pessoal.
Também o trabalho deixa
de ser bênção quando ocupa o lugar que pertence a outras prioridades da vida,
mormente o lugar de Deus. O excesso de trabalho destrói lares, fragiliza
casamentos, afasta pais dos filhos e rouba a paz interior. Para o cristão, o trabalho
é importante, mas não pode ocupar o lugar central da existência.
Qual é, então, a
prioridade máxima? O próprio Senhor Jesus ensinou: “Mas, buscai primeiro o
reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”
(Mt 6:33). O Reino de Deus vem em primeiro lugar; depois seguem-se as demais
áreas da vida, incluindo a família e o trabalho. Quando o trabalho sobe ao topo
dessa pirâmide, instala-se o desequilíbrio e inicia-se uma rampa deslizante
para a perdição.
Apesar dessas exceções,
de forma geral o trabalho é uma bênção. O trabalho oferece autonomia, liberdade
e dignidade. Quem não trabalha, quando o poderia fazer, torna-se frequentemente
dependente do Estado, da família, dos amigos ou de instituições diversas. Essa
dependência pode limitar a liberdade pessoal e enfraquecer o sentido de
responsabilidade.
Trabalhar não é fácil.
Exige esforço, disciplina, sacrifício e perseverança. Obriga a levantar cedo,
suportar pressões e enfrentar dificuldades. Contudo, no final, há recompensa: a
pessoa pode pagar as suas contas, organizar a sua vida e viver com maior independência.
Mesmo quando ainda não
alcançámos o emprego ideal, muitas vezes é necessário enfrentar circunstâncias
menos favoráveis enquanto se espera por algo melhor. Isso faz parte do
pragmatismo da vida cristã. Em tempos difíceis, importa perseverar, suportar
com paciência e continuar a orar para que Deus abra portas melhores no tempo
certo.
Naturalmente, há
situações em que o trabalho perde toda a sua dignidade: exploração, escravidão
moderna, salários injustos, abuso patronal ou ambientes de violência
psicológica extrema. Quando o trabalho destrói a pessoa e fere a sua dignidade,
deixa de cumprir o seu propósito.
Paulo apresenta-se como
exemplo: “Não andámos por aí sem fazer nada, nem comemos de graça o pão de
ninguém. Antes trabalhámos duramente, noite e dia, para não nos tornarmos
pesados a nenhum de vocês” (2 Ts 3:7). O apóstolo mostra que o trabalho
dignifica. Ele não queria ser peso para ninguém e esforçava-se por
sustentar-se, mesmo tendo direito a receber apoio.
Depois recorda uma
frase firme e conhecida do texto sagrado: “Se alguém não quiser trabalhar,
também não coma” (2 Ts 3:10).O sentido
deste versículo é claro: quem recusa voluntariamente o dever do trabalho não
deve esperar usufruir dos frutos produzidos pelo trabalho dos outros.
A ociosidade voluntária
gera muitos males. Pessoas desocupadas entregam-se facilmente a intrigas,
mexericos e conflitos inúteis. Por isso Paulo diz “que andam por aí alguns sem
fazer nada ou ocupando-se com ninharias” (2Ts 3:11).
A solução apostólica é
simples e profunda: “que trabalhem em paz e ganhem o pão que comem” (2 Ts
3:12). O trabalho deve ser feito em paz, com responsabilidade e honestidade.
Mas Paulo vai ainda
mais longe: “'E da vossa parte, irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (2 Ts
3:13). O cristão não trabalha apenas para sobreviver, acumular ou enriquecer.
Trabalha também para servir, partilhar e abençoar os outros. Aqui entra a mordomia
cristã: usar os recursos com sabedoria para a glória de Deus e para socorrer o
próximo.
Fazer o bem nem sempre
traz reconhecimento. Muitas vezes encontramos ingratidão. Ainda assim, somos
chamados a perseverar, porque ao fazer o bem honramos a Deus e revelamos uma
vida transformada.
No final da carta,
Paulo deseja que o Senhor da paz conceda paz em todas as circunstâncias. Essa
paz começa na reconciliação com Deus, estende-se ao interior da pessoa e
alcança também o relacionamento com os outros.
Quem vive em guerra
consigo mesmo dificilmente terá paz com Deus ou com o próximo. Mas quem se
submete ao Senhor encontra equilíbrio, direção e descanso.
Fé e trabalho não são
inimigos. Pelo contrário, completam-se quando colocados na ordem correta. O
trabalho deve ser visto como vocação, serviço e meio de dignidade, nunca como
ídolo. A fé ensina-nos a trabalhar com honestidade, equilíbrio e propósito.
Que Deus nos ajude a
guardar estas verdades no coração e a vivê-las no dia a dia. Não é fácil, mas
com a ajuda Divina e a orientação do Espírito Santo, é possível. Que assim
seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor Jesus Cristo.
Celebra-se hoje a
Páscoa, razão pela qual me sinto compelido, no bom sentido do termo, a
partilhar convosco uma brevíssima reflexão sobre “A Páscoa de Cristo à Luz da
Teologia da Salvação”, isto é, no processo de redenção da humanidade.
Desde logo, importa
dizer que o Senhor Jesus Cristo veio a este mundo e viveu verdadeiramente como
homem, participando da nossa condição humana, embora sem pecado (2 Co 5:21).
Porém, quando faltava pouco tempo para passar desta vida para a eternidade, o
Senhor Jesus Cristo tomou a firme decisão de ir a Jerusalém (Lc 9:51).
Não se tratava de uma
decisão qualquer ou leviana, mas de uma resolução consciente, esclarecida e
profundamente determinada, pois implicava a sua humilhação, sofrimento e morte.
Ainda assim, o Senhor Jesus Cristo não desfaleceu no ânimo; antes, avançou firmemente
para cumprir a vontade do Pai. Foi assim que o Senhor Jesus Cristo entrou
triunfalmente em Jerusalém, enquanto a multidão lhe rendia o devido louvor,
clamando: “Hosana!
Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino do nosso pai Davi, que vem
em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mc 11:9-10).
Passados poucos dias,
porém, o Senhor Jesus Cristo confrontou-se com a dura realidade: foi preso,
açoitado, humilhado e morto na cruz do Calvário (Lc 23:33). Contudo, ao
terceiro dia ressuscitou dentre os mortos e manifestou-se com provas
irrefutáveis, assinalando este grande marco da história do cristianismo (Mt
28:5-7).
Por essa razão, este
acontecimento central foi narrado nos quatro Evangelhos – Mateus, Marcos, Lucas
e João. O apóstolo Paulo, de forma ainda mais aprofundada, desenvolve esta
verdade em 1 Coríntios 15, salientando que, sem a ressurreição, vã seria a
nossa fé; a fé cristã estaria desprovida de sentido, fundamento e esperança (1
Co 15:12-23). Mas nós sabemos e proclamamos que Jesus Cristo ressuscitou dos
mortos. Ele é a esperança viva de todos aqueles que nele esperam (1 Co 15:20; Mc
16:6; Jo 11:25-26; Rm 10:9).
É também importante
traçar o paralelismo entre o Senhor Jesus Cristo e o homem caído, representado
em Adão. O primeiro homem, Adão, desejou ser como Deus. Inflamou-se na soberba,
no orgulho e na pretensão de igualdade com o Criador. Como consequência, foi
humilhado: destituído da glória original da sua criação, expulso do Jardim do
Éden e submetido à morte (Gn 3:16-23). Jesus Cristo, porém, sendo Deus, não se
apegou egoisticamente aos privilégios da sua glória. Antes, como afirma a
Escritura, “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:7-8).
Por isso, “Deus o
exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao
nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e
toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl
2:9-11).
Vemos aqui um profundo
contraste entre Adão e Cristo. Adão quis exaltar-se e foi humilhado. Cristo
humilhou-se voluntariamente e foi exaltado. Adão procurou elevar-se pela
desobediência (Gn 3:5-6; Cristo foi elevado pela obediência perfeita (Gn 3:5-6).
Adão trouxe condenação e morte(Rm
3:23; 5:12-15); Cristo trouxe justificação e vida eterna (Gl 2:16; Rm 5:1-2).
Eis uma grande lição
para nós: o caminho para o verdadeiro crescimento espiritual e para a comunhão
com Deus não passa pelo orgulho, pela arrogância ou pela exaltação pessoal.
Pelo contrário, passa pela humildade. Como o próprio Senhor ensinou: “Porquanto
qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se
humilhar será exaltado” (Lc 14:11; Mt 23:12).
Jesus Cristo foi
exaltado acima de todos os nomes, e toda a humanidade – os que já partiram, os
que vivem hoje e os que ainda hão de vir – reconhecerá um dia o seu senhorio
(Fl 2:11). Uns para salvação e vida eterna (Mt 25:32-34; Ap 7:14); outros para
juízo, por terem rejeitado a graça durante a sua peregrinação terrena (Mt
25:41).
Todavia, apesar de
todas as vicissitudes da paixão, o Senhor Jesus Cristo ressuscitou. Ele é a
esperança e a certeza de todos os que nele confiam. Sem a ressurreição do
Senhor Jesus Cristo, a fé bíblica não teria fundamento. A ressurreição
constitui o alicerce, a garantia e a esperança da nossa fé. Cristo é a
esperança de todos aqueles que existiram, existem e existirão; dos que creram
no passado, dos que hoje abraçam a fé e dos que no futuro ainda se renderão ao
Evangelho.
Mas tudo isto
confronta-nos com um desafio: renunciar a nós mesmos, tomar a nossa cruz e seguir
determinadamente Jesus Cristo todos os dias (Lc 9:23). Isto implica abandonar o
ego, rejeitar os prazeres pecaminosos, a corrupção e a maldade deste mundo (1 Pd
2:1-2), para nos convertermos sinceramente a Deus. Só assim demonstramos que “nascemos
de novo”, que somos filhos de Deus e que fomos transformados pela sua graça (Rm
12:1-2). Essa obra realiza-se em nós pela acção do Espírito Santo (1 Co 12:3; Rm
8:11; Ef 1:13-14; Tt 3:5), embora também exija da nossa parte uma disposição
sincera para corresponder à mensagem salvífica da Boa Nova (Rm 10:8-11).
Essa mensagem centra-se
na encarnação, vida, morte e ressurreição gloriosa do Senhor Jesus Cristo.
Sabemos que Jesus Cristo morreu e ressuscitou ao terceiro dia (Mt 28:6). A
morte não teve domínio sobre Ele (At 2:24). Aquele que durante o seu ministério
ressuscitou mortos (Mc 5:35-43; Jo 11:1-45), também ressuscitou pelo poder de
Deus, vencendo definitivamente a morte (Rm 6:9; Hb 2:14-15). Por outras palavras,
tal como escreve o Apóstolo Paulo, o Senhor Jesus Cristo “não só destruiu a
morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm
1:10).
Por isso, somos
chamados a confiar nesta mensagem salvífica, a entregar o coração ao Senhor
Jesus Cristo e a permitir que a verdade da ressurreição transforme a nossa
vida. Somos igualmente chamados a anunciá-la àqueles que estão ao nosso redor
(Mt 28:18-20).
Que Deus nos abençoe,
que Deus nos ajude a interiorizar estas verdades e, acima de tudo, a vivê-las
diariamente.
Jesus Cristo
ressuscitou. Ele é a certeza e a esperança da nossa fé. Aleluia! Aleluia!
Aleluia!
Venho
novamente hoje dar sequência à minha rúbrica habitual em defesa do futuro da
Guiné-Bissau. Pretendo continuar nesta senda de reflexão sobre a problemática,
os desafios, os dilemas, as contradições e as contrariedades que as mulheres
guineenses enfrentam no seu quotidiano, aproveitando também o ensejo do mês de
março, consagrado à celebração da mulher.
O tema que
trago hoje prende-se com uma questão pertinente: será que a mulher guineense é,
de facto, emancipada? A minha resposta é, claramente, negativa. Não considero
que a mulher guineense seja verdadeiramente emancipada. Quando falamos de
emancipação, devemos ter em conta pressupostos fundamentais como a autonomia e
a autodeterminação. Estes conceitos desdobram-se em várias dimensões da vida
humana, começando, desde logo, pela emancipação intelectual.
A
emancipação intelectual traduz-se na capacidade de uma pessoa compreender o que
está em jogo, reconhecer os interesses que a rodeiam e, a partir daí, tomar
decisões mais acertadas e conscientes para a sua vida. Em suma, trata-se de
decidir o próprio futuro de forma esclarecida e livre de manipulação. Assim,
uma pessoa intelectualmente emancipada é capaz de fazer escolhas informadas e
responsáveis.
Ora, não
considero que a generalidade das mulheres guineenses esteja intelectualmente
emancipada. Tal condição exige, entre outros fatores, o acesso à educação,
sendo que muitas mulheres ainda são privadas desse direito básico. A negação da
instrução condiciona a liberdade, sobretudo no que diz respeito à capacidade de
fazer escolhas conscientes e autónomas. Como consequência, a mulher continua,
muitas vezes, a ser manipulada, instrumentalizada e relegada para um plano
secundário nas relações com o homem.
Neste
contexto, a mulher guineense tende a viver em função do homem, ajustando as
suas expectativas, esperanças e projetos de vida à figura masculina,
frequentemente idealizada como a fonte da sua felicidade. Desde tenra idade,
muitas são incutidas com a ideia de que devem encontrar um homem – de
preferência poderoso e financeiramente estável – que lhes proporcione
realização. Assim, a sua felicidade é frequentemente associada à presença
masculina, o que limita a sua autonomia.
Este
paradigma impede a verdadeira emancipação intelectual. Uma mulher
verdadeiramente emancipada não aceitaria, por exemplo, situações de abuso,
violência ou violação. Contudo, verifica-se que tais práticas são, por vezes,
toleradas ou até legitimadas. Recordo que, em certos contextos, comportamentos
violentos eram interpretados como manifestações de amor, o que evidencia uma
profunda distorção de valores. Sabemos, porém, que o amor se expressa através
do respeito, do cuidado, da consideração e do afeto – nunca pela violência.
Para além
da dimensão intelectual, importa considerar a emancipação financeira. Também
neste domínio, a mulher guineense, de forma geral, ainda não se encontra
plenamente emancipada. Mesmo quando trabalha e aufere rendimento, persiste a
ideia de que o homem deve assumir o papel de provedor principal, o que gera
dependência económica.
Essa
dependência leva muitas mulheres a aceitar situações de desrespeito, traição ou
violência, por receio de perder o suporte financeiro. Assim, o poder económico
do homem acaba por reforçar relações desiguais, nas quais a mulher se vê
condicionada a manter o silêncio ou a tolerar comportamentos prejudiciais.
Mesmo entre mulheres instruídas, esta mentalidade ainda persiste, revelando que
a emancipação financeira não se resume apenas à obtenção de rendimento, mas
também à mudança de mentalidade.
Outra
dimensão essencial é a emancipação sexual. Neste aspeto, verifica-se igualmente
que a mulher guineense ainda enfrenta fortes limitações. A sua sexualidade é
frequentemente vivida em função do homem, orientada para satisfazer os seus
desejos, enquanto o prazer feminino continua a ser um tabu.
Práticas
como a mutilação genital feminina constituem exemplos extremos dessa realidade,
representando uma grave violação dos direitos humanos e da dignidade da mulher.
Mesmo fora desses casos, muitas mulheres são socializadas para não reconhecer
ou reivindicar o seu próprio prazer, sendo frequentemente estigmatizadas quando
o fazem. Deste modo, a mulher continua, em muitos casos, a viver a sua
sexualidade de forma condicionada, sujeita a normas sociais que favorecem o
homem e reprimem a sua autonomia.
Em suma, só
se poderá falar de verdadeira emancipação da mulher guineense quando esta se
concretizar nas dimensões intelectual, financeira e sexual. Estas três
vertentes são fundamentais para que a mulher possa exercer plenamente a sua
liberdade e autodeterminação.
A
emancipação intelectual permite-lhe compreender e decidir com consciência; a
emancipação financeira liberta-a da dependência económica; e a emancipação
sexual assegura-lhe o direito de viver a sua intimidade com liberdade e
dignidade.
Contudo,
importa referir que, nos dias de hoje, tem-se falado cada vez mais em
“empoderamento” em vez de “emancipação”. Isto porque não basta possuir, em
teoria, certas condições – é necessário que a mulher tenha também a capacidade
prática de agir, decidir e afirmar-se.
Apesar de
alguns progressos, sobretudo ao nível da educação, muitas mulheres continuam a
viver em função do homem, acreditando que a sua felicidade depende dele. No
entanto, a verdadeira felicidade reside no próprio indivíduo. As relações devem
acrescentar valor, e não servir como única fonte de realização pessoal.
Por fim,
importa sublinhar que o caminho para a emancipação passa, inevitavelmente, pela
educação. É através dela que se promove a consciência crítica, a autonomia e a
capacidade de transformação social. Só com investimento sério na educação será
possível alcançar uma sociedade mais justa, onde a mulher tenha igualdade de
oportunidades, liberdade e dignidade.
Em
conclusão, considero que a mulher guineense ainda não é plenamente emancipada.
Há progressos, sem dúvida, mas o caminho a percorrer continua a ser longo. É
necessário continuar a lutar por uma verdadeira igualdade, onde a mulher possa
exercer plenamente os seus direitos, viver com liberdade e alcançar a sua
realização pessoal.
Fico por
aqui. Até uma próxima ocasião, se Deus quiser.