Domingos Simões Pereira: Estará a Repetir-se a Tragédia de Amílcar Cabral?

Hoje é um dia profundamente triste e sombrio para a Guiné-Bissau. A prisão abusiva e manifestamente injusta do Engenheiro Domingos Simões Pereira (DSP) representa, simbolicamente, a prisão de todos os bons filhos da nossa pátria, em particular daqueles que, de forma inabalável, defendem a liberdade, a democracia, a justiça e o primado do Estado de direito (LER)

Domingos Simões Pereira está, paulatinamente, a ser sacrificado no altar da cólera, da inveja, do ódio, da vingança, da iniquidade, do terror, da perversidade e da malignidade daqueles que fizeram da violência e da arbitrariedade instrumentos de exercício do poder na Guiné-Bissau. 

Os mesmos que demonstraram a sua manifesta incompetência governativa, que chegaram ao poder por via golpista e que foram inequivocamente rejeitados pelo povo guineense nas urnas, perante a agenda reformista e progressista defendida por Domingos Simões Pereira, são precisamente aqueles que, recorrendo às armas do medo, da intimidação e do terror, procuram, a todo o custo, eliminá-lo da vida política e, receia-se, até da própria vida. 

Há muito que tenho vindo a denunciar publicamente, à semelhança de outros cidadãos guineenses, a existência de um plano cuidadosamente arquitetado por Umaro Sissoco Embaló e pelos seus aliados golpistas com o propósito deliberado de atentar contra a vida do Engenheiro Domingos Simões Pereira, tal como sucedeu com o Engenheiro Amílcar Lopes Cabral (LER). Esta denúncia encontra-se amplamente documentada em diversas publicações que tenho vindo a divulgar nas redes sociais, encontrando particular expressão no excerto de dois vídeos incorporados na presente publicação: o primeiro gravado no final do ano passado e o segundo no início do presente ano, ambos ilustrativos daquilo que, há muito, venho publicamente denunciando. 

A situação que hoje envolve o Engenheiro Domingos Simões Pereira apresenta evidentes paralelismos com aquela que envolveu o Engenheiro Amílcar Cabral. DSP é um homem humilde, afável, altamente qualificado e detentor de uma vasta experiência política e governativa. É, indiscutivelmente, um dos mais competentes quadros e dos mais prestigiados líderes políticos que a Guiné-Bissau possui, beneficiando de amplo reconhecimento e credibilidade no plano internacional. 

Apesar disso, os seus adversários persistem na construção de narrativas falsas e difamatórias destinadas a destruir a sua imagem pública. Entre essas acusações figuram a alegação de que não gosta dos muçulmanos nem das populações do interior do país, bem como a imputação de práticas de corrupção e da intenção de alienar as riquezas nacionais a interesses estrangeiros. Foi, em larga medida, devido à disseminação sistemática dessas narrativas que Domingos Simões Pereira viu frustradas, por duas vezes, as suas legítimas aspirações ao exercício do poder. 

O Engenheiro Domingos Simões Pereira não é apenas alvo da hostilidade de cidadãos menos esclarecidos, facilmente influenciáveis por boatos e campanhas de desinformação. Também em determinados sectores mais instruídos da sociedade existe uma crescente aversão à sua figura política. Esta verdadeira “Domingos-fobia” resulta, em larga medida, da inveja, do ressentimento e do ódio que frequentemente recaem sobre aqueles que se distinguem pela sua inteligência, competência e visão reformista. 

Infelizmente, uma parte significativa da sociedade guineense tende a olhar com desconfiança para homens e mulheres intelectualmente preparados, portadores de ideais progressistas, dotados de elevado sentido de Estado e genuinamente comprometidos com o desenvolvimento nacional. Quem reúne essas qualidades transforma-se, quase inevitavelmente, num alvo a eliminar política e fisicamente. 

Assim aconteceu com o Engenheiro Amílcar Cabral e, hoje, procura repetir-se o mesmo padrão em relação ao Engenheiro Domingos Simões Pereira, numa tentativa de afastar definitivamente um dos principais defensores da democracia guineense e, desse modo, consolidar um regime de natureza ditatorial na Guiné-Bissau. 

Perante este cenário, impõe-se uma convergência nacional de esforços entre os partidos políticos, as organizações da sociedade civil e todos os homens e mulheres de “boa vontade” que acreditam na liberdade e na democracia. Torna-se imperioso mobilizar todos os meios legítimos e pacíficos ao serviço da justiça, do direito e da legalidade democrática, com o objetivo de exigir a libertação incondicional e imediata do Engenheiro Domingos Simões Pereira, bem como de todos aqueles que se encontram atualmente privados da liberdade de forma arbitrária, ilegal e manifestamente injusta na Guiné-Bissau. 

É imperioso agir com urgência para salvar o nosso país das mãos dos golpistas criminosos, antes que seja demasiado tarde e a Guiné-Bissau seja precipitada para um conflito armado de consequências potencialmente irreversíveis. Impõe-se, em última instância, travar a deriva autoritária que se apoderou do Estado, resgatando-o do jugo opressor daqueles que, pela força e pela arbitrariedade, procuram subverter a ordem democrática. 

A Guiné-Bissau precisa de justiça, de tolerância, de democracia e do respeito pelos direitos humanos. Precisa, acima de tudo, de liberdade, de paz, de unidade nacional e de progresso. É esse o caminho que deve inspirar todos os guineenses comprometidos com a construção de um país mais justo, mais livre e verdadeiramente democrático. Que assim seja. 

Ser Pobre ou Rico: Qual é o Caminho Certo Segundo o Cristianismo?


O título da nossa reflexão desta manhã é “Riqueza ou Pobreza?”. Trata-se de um tema particularmente relevante, à semelhança de muitos outros que temos vindo a estudar nesta revista e nas diversas publicações que têm servido de base ao nosso aprendizado ao longo dos anos. 

Todavia, quando abordamos a questão da riqueza e da pobreza, entramos num domínio que dificilmente reúne consenso absoluto. Cada indivíduo tende a construir a sua própria visão do mundo, desenvolvendo conceções, interpretações e perspetivas distintas acerca destes assuntos (LER)

A riqueza e a pobreza constituem temas recorrentes no contexto social e na vivência quotidiana. Desde cedo, os seres humanos são incentivados a procurar a prosperidade, a afastar-se da pobreza e a esforçar-se por alcançar uma situação económica mais favorável. De forma generalizada, convencionou-se que a riqueza é sinónimo de felicidade e que aqueles que possuem abundância material desfrutam, necessariamente, de uma vida melhor. 

Esta perceção encontra-se presente em praticamente todas as culturas. Existe a convicção de que quanto maior for a capacidade financeira de uma pessoa, maior será também o seu grau de felicidade. Tal entendimento decorre da ideia de que o dinheiro proporciona poder, e que esse poder permite alcançar objetivos e adquirir bens que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis. É por essa razão que, desde a infância ou desde o momento em que começamos a desenvolver consciência de nós próprios, somos estimulados a trabalhar, a poupar e a procurar condições que nos permitam ascender social e economicamente. 

Até aqui, nada existe de intrinsecamente errado. É natural e legítimo que o ser humano procure melhorar as suas condições de vida, progredir e alcançar um patamar mais estável e digno. Contudo, existe um reverso da questão: quando essa procura é orientada por pressupostos equivocados ou por motivações desordenadas. Sabemos que a posse de bens materiais não constitui garantia absoluta de felicidade, de realização pessoal ou de superioridade moral. Embora a sociedade frequentemente promova essa ideia, ela revela-se profundamente ilusória. O dinheiro, por si só, não assegura paz interior, equilíbrio emocional, harmonia familiar nem amor verdadeiro. 

Por outro lado, a pobreza é frequentemente encarada como uma realidade exclusivamente negativa. Em determinadas circunstâncias, tal perceção possui fundamento. Quando uma pessoa vive privada do mínimo indispensável à sua subsistência, encontrando-se numa situação de pobreza extrema, estamos perante uma condição que compromete seriamente a sua qualidade de vida. Todo o ser humano deveria ter acesso a uma habitação digna, alimentação adequada, oportunidades de trabalho e, acima de tudo, cuidados de saúde. Sem estas condições básicas, muitas potencialidades permanecem por desenvolver e multiplicam-se os obstáculos à realização pessoal. 

A pobreza extrema constitui, de facto, uma ameaça à dignidade humana. Quem vive em condições de privação severa torna-se frequentemente mais vulnerável à exclusão, à dependência e à marginalização social. Deus não criou o ser humano para viver destituído de dignidade; pelo contrário, a própria dignidade pressupõe a existência das condições mínimas necessárias à sobrevivência e ao florescimento da pessoa. 

Contudo, como veremos através do ensino do Apóstolo Paulo, o verdadeiro mérito não reside nem na pobreza nem na riqueza. O mérito reside em Deus. Uma pessoa pode ser pobre e plenamente realizada, assim como pode ser rica e viver uma existência equilibrada e bem-sucedida, desde que a sua vida esteja firmemente alicerçada em Deus. O elemento decisivo não é a condição económica, mas a presença de Deus no coração e na conduta do indivíduo. 

Não obstante, na ânsia de alcançar riqueza, muitas pessoas tornam-se dominadas pela avareza e pela ganância. Quando alguém passa a considerar a acumulação de bens como o objetivo supremo da sua existência, corre o risco de ignorar princípios morais e espirituais para atingir esse fim. É precisamente por isso que, ao longo da história, se têm observado inúmeras fortunas construídas à custa de práticas eticamente condenáveis e moralmente reprováveis. 

A obsessão pela riqueza gera inevitavelmente conflitos, inquietações e múltiplas formas de sofrimento. Pelo contrário, quando vivemos no centro da vontade de Deus, deixamos de depender das coisas materiais para alcançar felicidade e passamos a fundamentar a nossa existência na relação com o Criador. 

Se eu perguntasse a cada um de vós se preferiria ser rico ou pobre, é provável que a maioria respondesse que gostaria de ser rica. E não existe qualquer mal nisso, desde que a riqueza seja procurada de forma honesta, legítima e em conformidade com os princípios divinos. O trabalho diligente, a competência, a disciplina e uma gestão prudente dos recursos podem conduzir ao sucesso material. Porém, o verdadeiro crente não vive obcecado pela riqueza; para ele, a prosperidade material é apenas uma consequência eventual, nunca a finalidade última da vida. 

O problema surge quando alguém passa a acreditar que a sua felicidade, a sua segurança e a sua paz dependem exclusivamente do dinheiro. Nesse momento, abre-se o caminho para a frustração e para a desilusão. 

O Apóstolo Paulo afirma, em 1 Timóteo 6, que «é grande ganho a piedade com contentamento». Esta declaração revela uma verdade profunda: a verdadeira riqueza consiste numa vida marcada pela piedade e pelo contentamento. Quando a fé é vivida de forma autêntica, produz uma riqueza espiritual incomparável, caracterizada pela paz, pela plenitude e pela harmonia interior – bens que nenhum património financeiro pode adquirir. 

Apóstolo Paulo recorda ainda que «nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele». Ao nascermos, chegamos de mãos vazias; ao partirmos desta vida, também nada levaremos connosco. Se possuímos alimento, vestuário e os recursos necessários para uma vida digna, já temos razões suficientes para cultivar a gratidão. Porém, aqueles que vivem consumidos pelo desejo de enriquecer acabam frequentemente por cair em tentações, armadilhas e desejos insensatos que conduzem à ruína espiritual e moral. A raiz de todos os males não é o dinheiro em si mesmo, mas o amor desordenado ao dinheiro. Em nome dele, muitos mentem, traem, corrompem-se, exploram os seus semelhantes e chegam até a destruir vidas. 

O dinheiro pode ser um excelente servo, mas é um péssimo senhor. O problema não está em possuir dinheiro, mas em permitir que o dinheiro possua o coração. Quando a riqueza se transforma no propósito fundamental da existência, o ser humano entra num caminho espiritualmente perigoso. 

Vivemos numa sociedade que, muitas vezes, se esquece de Deus, ama as coisas e utiliza as pessoas, quando deveria precisamente fazer o contrário: adorar a Deus, amar as pessoas e utilizar as coisas. O verdadeiro desafio não consiste na posse de recursos materiais, mas em impedir que a ganância domine o coração humano. É preferível possuir o suficiente para viver com serenidade, equilíbrio e consciência tranquila do que acumular grandes riquezas sem paz interior. Quando Deus ocupa o lugar central da nossa vida, o dinheiro torna-se um instrumento ao serviço do bem: para socorrer os necessitados, apoiar causas nobres e contribuir para a expansão do Reino de Deus. 

Por essa razão, ninguém pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro. Onde estiver o nosso tesouro, aí estará também o nosso coração. O amor excessivo pelas riquezas tem levado muitos a afastarem-se da fé, da comunhão da Igreja e do caminho de Deus, passando a viver exclusivamente em função da acumulação material. 

Que Deus nos ajude a não “naufragarmos na fé” e a reconhecermos que a nossa verdadeira riqueza não se encontra nos bens transitórios deste mundo, mas na pessoa do Senhor Jesus Cristo, na Sua Palavra e no Seu glorioso Evangelho. Que assim seja.  

Leão XIV e o Desafio Antropológico da Inteligência Artificial


Comecei, desde anteontem, a ler a nova e primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial. Confesso que esta tem sido uma leitura acutilante, estimulante e intelectualmente desafiante. Trata-se de uma obra bem estruturada e densamente argumentada, que aborda questões de grande relevância, sobretudo no que respeita à problemática antropológica suscitada pela inteligência artificial no contexto contemporâneo – tanto nas suas potencialidades benéficas como nos riscos e dilemas que encerra. 

Todo o Cristão Evangélico Protestante deveria, em certa medida, possuir também uma compreensão da tradição católica. Existem, sem dúvida, numerosos pontos de divergência entre o Protestantismo e a Igreja Católica. Contudo, existem igualmente múltiplos elementos de convergência que não podem ser ignorados. Compete-nos, portanto, examinar cuidadosamente todas as coisas e reter aquilo que é verdadeiro, rejeitando o que não encontra respaldo nas Escrituras Sagradas. 

Não devemos, como advertia o Teólogo Martinho Lutero, citado por Timothy George, rejeitar indiscriminadamente tudo o que se encontra sob a esfera de influência do papado. Nas suas palavras, não se deve rejeitar «tudo que esteja sob o domínio do papa. Porque assim deveríamos rejeitar também a igreja cristã. Muito do património cristão pode-se encontrar no papado e dele descende» (LER)

Assim que concluir a leitura desta obra – o que deverá acontecer nos próximos dias – tenciono elaborar uma apreciação crítica do seu conteúdo, apresentando a minha modesta reflexão sobre os seus principais contributos, méritos e eventuais limitações. Até lá, continuarei dedicado e perseverante nesta leitura, convicto de que ela constitui uma oportunidade valiosa para aprofundar a reflexão sobre um dos temas mais decisivos do nosso tempo.

A Democracia em África: Aprender Com o Ocidente ou Construir Um Caminho Próprio?


A meu ver, e respondendo diretamente à questão colocada, no que respeita à democracia, não perfilho qualquer postura de rejeição sistemática do Ocidente nem de tudo aquilo que dele provém. Tal atitude revelar-se-ia não apenas intelectualmente redutora, mas também historicamente injustificada. As sociedades ocidentais percorreram um longo e complexo percurso de construção política, institucional e civilizacional, acumulando experiências, conhecimentos e práticas que não devem ser ignorados por aqueles que procuram compreender os desafios da organização das sociedades contemporâneas. 

Evidentemente, nem tudo o que foi construído deve ser imitado. Há elementos que podem revelar-se incompatíveis com os nossos valores, tradições e circunstâncias históricas. Contudo, aquilo que é manifestamente benéfico deve ser acolhido sem complexos nem preconceitos. 

Neste contexto, considero que a democracia continua a ser o melhor modelo político disponível. A experiência histórica demonstra que os países mais democráticos tendem, em regra, a apresentar níveis mais elevados de desenvolvimento económico, social e humano. Existe, naturalmente, uma correlação significativa entre a qualidade das instituições democráticas e o grau de prosperidade das sociedades. 

Alguns poderão invocar o caso da China como uma aparente refutação desta tese. De facto, quando analisamos o Produto Interno Bruto (PIB), verificamos que a China ocupa uma posição cimeira na economia mundial. Todavia, o PIB, por si só, não constitui um indicador suficiente para aferir o verdadeiro nível de desenvolvimento de um país. É necessário considerar igualmente o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e, sobretudo, a forma como a riqueza produzida é distribuída pela população. 

É precisamente aqui que importa estabelecer uma distinção fundamental. Uma coisa é a riqueza que um país gera; outra, muito diferente, é o modo como essa riqueza beneficia os seus cidadãos. Se utilizássemos exclusivamente o PIB como critério de avaliação, também poderíamos considerar Angola um país altamente desenvolvido, dado o volume dos seus recursos naturais. Contudo, a realidade evidencia que a riqueza nacional nem sempre se traduz em melhoria efetiva das condições de vida da população. 

Por essa razão, a análise do caso chinês exige cautela. Apesar da impressionante dimensão da sua economia, milhões de cidadãos continuam a enfrentar dificuldades significativas, e uma parte substancial da população não beneficia proporcionalmente da riqueza produzida. Porém, esta é uma discussão que nos conduziria para outro debate. 

Regressando à questão central, continuo a sustentar que a democracia permanece o modelo político mais adequado para promover a liberdade, a estabilidade institucional e o desenvolvimento. Isso não significa, contudo, que os sistemas democráticos devam ser copiados mecanicamente. Pelo contrário, cada sociedade deve adaptar os princípios democráticos às suas especificidades históricas, culturais e sociais. Sabemos que a democracia pode assumir diversas configurações institucionais, desde o presidencialismo ao semipresidencialismo, passando pelo parlamentarismo e por outras variantes. O desafio consiste em identificar quais dessas fórmulas melhor se adequam às realidades africanas. 

A meu ver, um dos principais obstáculos à consolidação da democracia em África não reside na ausência de constituições ou de quadros legais apropriados. A maioria dos países africanos dispõe já de textos constitucionais que consagram os princípios fundamentais do Estado de direito democrático. O verdadeiro problema encontra-se na dificuldade de transformar esses princípios formais em práticas efetivas. A democracia exige mais do que eleições periódicas. Requer uma cultura cívica sólida, respeito pelas instituições, compromisso com a legalidade e sentido de responsabilidade coletiva. Quando estes elementos não se encontram suficientemente enraizados, as instituições democráticas tornam-se frágeis e vulneráveis. 

Não se pode atribuir essa realidade apenas ao desconhecimento da lei. Em qualquer sociedade, a maioria dos cidadãos desconhece uma parte significativa da legislação em vigor. Ainda assim, esse desconhecimento não os exime das suas obrigações. Quando as instituições funcionam adequadamente, os indivíduos acabam por ajustar os seus comportamentos às normas estabelecidas. O problema é que, frequentemente, os próprios governantes africanos não demonstram o compromisso necessário com as regras democráticas. Muitos combatem a perpetuação dos seus antecessores no poder, mas, uma vez alcançadas posições de liderança, procuram alterar ou contornar os mecanismos institucionais que garantem a alternância governativa. 

O caso angolano ilustra bem esta problemática. Quando a Constituição estabelece limites claros para o exercício do poder, esses limites devem ser respeitados. A alternância política não constitui uma ameaça à democracia; constitui, antes, uma das suas expressões mais importantes. Sem respeito pelas regras do jogo democrático, dificilmente será possível consolidar instituições fortes e credíveis. 

No entanto, o facto de eu defender a incorporação dos aspetos positivos da experiência ocidental não significa que considere desejável importar indiscriminadamente todos os seus valores e orientações culturais. Existem domínios em que cada sociedade deve preservar a liberdade de definir os seus próprios referenciais morais, culturais e civilizacionais. 

Uma das dificuldades que enfrentamos enquanto africanos prende-se precisamente com a forma como encaramos a nossa própria identidade. Muitos dos nossos concidadãos desenvolveram uma perceção negativa de si mesmos e das suas sociedades. África continua frequentemente associada à pobreza, à instabilidade política, aos conflitos armados e ao subdesenvolvimento. Consequentemente, muitos africanos acabam por interiorizar essa imagem depreciativa e por sentir uma certa vergonha da sua própria condição. Esta realidade manifesta-se de diversas formas, incluindo na adoção acrítica de padrões culturais e estéticos importados. Em muitos casos, aquilo que é estrangeiro é automaticamente valorizado, enquanto aquilo que é africano tende a ser desvalorizado. Trata-se de um fenómeno complexo, cujas raízes são históricas, psicológicas e sociológicas. 

Porém, uma identidade forte não se constrói através da negação de si mesmo. Pelo contrário, exige a valorização da própria história, da própria cultura e da própria herança civilizacional. Isto não significa fechar-se ao mundo, mas sim relacionar-se com ele a partir de uma posição de confiança e autoestima coletiva. 

Todavia, essa recuperação da autoestima africana depende, em larga medida, da qualidade da governação. Enquanto persistirem a corrupção, a pobreza, a exclusão social e a má administração dos recursos públicos, será difícil gerar um sentimento genuíno de orgulho coletivo. Os povos tendem a identificar-se positivamente com sociedades que funcionam, que produzem resultados e que oferecem esperança aos seus cidadãos. 

Em síntese, considero que África deve estar aberta à aprendizagem e ao intercâmbio com o resto do mundo. Não devemos rejeitar aquilo que é bom apenas porque tem origem noutras civilizações. Vivemos num contexto globalizado, onde a circulação de ideias, conhecimentos e experiências constitui uma fonte indispensável de progresso. 

Contudo, o desenvolvimento não depende apenas da abertura ao exterior. Exige igualmente educação de qualidade, instituições sólidas, transparência governativa, justiça social, distribuição equitativa dos recursos e uma cultura política assente na responsabilidade e no mérito. Só assim será possível lançar os alicerces de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável. 

Quando se levanta a questão da incorporação das especificidades étnicas, culturais e tradicionais africanas nos modelos democráticos contemporâneos, importa reconhecer que estamos perante um desafio particularmente complexo. A sociedade africana não constitui uma realidade homogénea. Pelo contrário, caracteriza-se por uma extraordinária diversidade de povos, línguas, culturas, tradições e crenças religiosas. Tomemos como exemplo a Guiné-Bissau. Trata-se de uma sociedade marcada pela coexistência de múltiplas etnias, cada uma delas portadora de hábitos, costumes e visões do mundo distintas. A essa diversidade cultural acresce ainda a pluralidade religiosa, onde convivem tradições animistas, cristãs e islâmicas. 

Neste contexto, a tentativa de construir um modelo político integralmente assente nessas particularidades poderia revelar-se extremamente difícil e até contraproducente. Isso não significa que as tradições africanas devam ser ignoradas, mas apenas que a sua integração exige prudência, reflexão e elevado rigor intelectual. Por essa razão, não considero que esta seja, neste momento, a questão mais urgente. Antes de discutirmos modelos alternativos de organização política, precisamos de enfrentar desafios mais imediatos e mais graves, como a fome, a pobreza, a ignorância, a corrupção e a má governação. 

Além disso, a construção de modelos genuinamente adaptados às realidades africanas exige a existência de uma elite intelectual altamente qualificada. Exige investigadores, académicos, historiadores, juristas, sociólogos e cientistas políticos capazes de estudar profundamente as nossas sociedades e de formular propostas sólidas e consistentes. O mesmo se aplica ao sistema educativo. Em muitos países africanos, os currículos continuam fortemente influenciados por modelos herdados do período colonial. É legítimo questionar até que ponto os conteúdos ensinados refletem adequadamente as nossas realidades históricas e culturais. Talvez seja necessário reforçar o estudo da história africana, das línguas nacionais e das tradições locais. Contudo, uma reforma curricular séria não pode ser conduzida de forma improvisada. Exige investigação científica, recursos técnicos, planeamento estratégico e vontade política. 

Finalmente, importa sublinhar que a construção de uma identidade africana forte não depende exclusivamente da escola. Grande parte do património cultural africano continua a ser transmitido pela oralidade, através das famílias, das comunidades e das gerações mais velhas. Essa tradição oral constitui uma das maiores riquezas da civilização africana e continua a desempenhar um papel fundamental na preservação da memória coletiva. 

Em última análise, o futuro de África dependerá da capacidade dos seus povos para conciliarem modernidade e tradição, abertura ao mundo e fidelidade às suas raízes, progresso material e afirmação cultural. Só através desse equilíbrio será possível construir sociedades verdadeiramente livres, prósperas e conscientes da sua própria dignidade histórica. 

A Independência de África do Jugo Colonial Europeu Valeu Mesmo a Pena?


Importa, antes de responder directamente a esta pertinente questão, proceder a um breve enquadramento histórico-político, procurando compreender com maior profundidade de onde partimos, onde nos encontramos actualmente e quais os desafios que se colocam ao futuro do continente africano, para, só então, formular uma resposta final devidamente fundamentada. 

Desde logo, quando se aborda a questão das independências africanas, parece-me evidente que qualquer pessoa de boa-fé, minimamente razoável e intelectualmente honesta reconhecerá que a libertação dos povos africanos do jugo colonial era não apenas legítima, mas absolutamente necessária. O que sucedia em África durante o período colonial – e, antes disso, durante séculos de escravatura – constitui uma das maiores negações da dignidade humana na história da civilização. 

A escravatura, em todas as suas formas, representa uma afronta intolerável à condição humana. Nenhum povo pode desenvolver-se plenamente quando lhe é negada a sua humanidade, a sua liberdade e a sua capacidade de autodeterminação. O africano não era apenas explorado economicamente; era, muitas vezes, desumanizado, reduzido a um objecto de dominação e privado do reconhecimento da sua própria condição de ser humano. Ora, a partir do momento em que um povo deixa de ser reconhecido na sua humanidade essencial, a discussão sobre se “valeu ou não a pena” conquistar a independência torna-se, em certa medida, absurda. 

Por isso, a independência africana não foi um capricho ideológico nem uma mera ambição política: foi uma necessidade histórica, moral e civilizacional. Houve, nesse sentido, uma convergência de vontades, uma mobilização colectiva e um profundo espírito de unidade entre os movimentos nacionalistas africanos. Apesar das perseguições, da repressão colonial, das guerras de libertação e dos inúmeros obstáculos impostos pelas potências europeias, o ideal emancipador acabou por triunfar. Graças a esse esforço histórico, África libertou-se formalmente do colonialismo, sobretudo a partir das décadas de 1950 e 1960, quando uma parte significativa dos países africanos alcançou a independência. 

Contudo, se a primeira fase – a da libertação política – pode ser considerada uma vitória histórica, a segunda fase – a do desenvolvimento e da verdadeira autodeterminação – ficou profundamente aquém das expectativas.  E ficou aquém por várias razões. Desde logo, porque muitos dos dirigentes que assumiram os destinos dos novos Estados africanos não possuíam preparação adequada para governar sociedades complexas e estruturalmente fragilizadas. E, em muitos casos, mesmo aqueles que detinham alguma formação técnica ou intelectual não revelaram verdadeiro sentido patriótico nem compromisso genuíno com os interesses superiores das suas nações e do continente. 

É precisamente aqui que reside uma das grandes tragédias do pós-independência africano: a substituição do ideal colectivo pelo interesse pessoal, do patriotismo pelo materialismo e da visão estratégica pelo oportunismo político. O projecto de construção de uma África desenvolvida, soberana e influente no plano geopolítico acabou, pelo menos até ao momento, por fracassar em larga medida. 

Basta observar a realidade contemporânea do continente. África continua a enfrentar graves problemas estruturais: fome, pobreza extrema, guerras civis, instabilidade política, corrupção sistémica, dependência económica e fragilidade institucional. Em muitos aspectos, o continente ainda não conseguiu ultrapassar desafios básicos que deveriam já ter sido superados há décadas.  Naturalmente, isto não significa que a independência tenha sido um erro. Pelo contrário: o saldo histórico da libertação continua a ser amplamente positivo. O problema não reside na independência em si, mas na incapacidade de transformar essa liberdade política em desenvolvimento efectivo, estabilidade institucional e progresso humano. 

Muitas vezes procura-se justificar o fracasso africano exclusivamente através das interferências externas. É evidente que essas interferências existem e continuarão a existir. Aliás, elas não acontecem apenas em África; fazem parte da dinâmica das relações internacionais. Todas as grandes potências procuram defender os seus interesses estratégicos e exercer influência sobre regiões consideradas importantes do ponto de vista económico ou geopolítico. 

No entanto, o verdadeiro problema não está apenas na interferência externa, mas sobretudo na forma como os dirigentes africanos lidam com ela. Países governados por líderes competentes, patrióticos e institucionalmente comprometidos conseguem resistir melhor às pressões externas. O problema surge quando aqueles que ocupam o poder são vulneráveis à corrupção, movidos por interesses pessoais e destituídos de visão nacional. 

Por isso, considero improdutivo reduzir todos os males africanos a uma narrativa simplista de culpabilização do Ocidente. É evidente que houve exploração histórica e continuam a existir interesses externos. Porém, nenhuma sociedade evolui verdadeiramente enquanto não assumir também responsabilidade pelos seus próprios fracassos internos. 

Nesse sentido, recordo frequentemente o pensamento de Amílcar Cabral, que defendia a necessidade de os africanos pensarem “com a sua própria cabeça”. Ouvir o mundo é importante, mas a decisão sobre aquilo que serve verdadeiramente os interesses africanos deve partir dos próprios africanos. 

Além disso, importa recordar que muitos dos movimentos de libertação transformaram-se, posteriormente, em estruturas de poder fechadas, autoritárias e incapazes de aceitar alternância democrática. Muitos dos que participaram nas lutas de independência passaram a considerar-se proprietários históricos do Estado, perpetuando-se no poder em nome de uma legitimidade revolucionária já ultrapassada. 

O próprio Amílcar Cabral advertia contra esse risco. Para ele, os combatentes da libertação não deveriam assumir automaticamente o direito de governar após a independência. A condução do Estado deveria caber às pessoas mais capacitadas, mais competentes e mais preparadas para essa missão. Contudo, em muitos países africanos, sucedeu exactamente o contrário: os aparelhos militares e revolucionários converteram-se em elites políticas permanentes. 

Daí resulta um dos principais bloqueios ao desenvolvimento africano. Quando os destinos de um país são entregues a indivíduos sem preparação adequada, sem visão estratégica e sem compromisso democrático, torna-se inevitável o surgimento de mecanismos de repressão, corrupção e perpetuação do poder. 

Acresce ainda outro factor decisivo: a insuficiência histórica de uma elite intelectual robusta no momento das independências. O colonialismo não preparou África para a governação autónoma. A formação de quadros era limitada, o acesso à educação era profundamente desigual e a construção de uma verdadeira massa crítica nacional encontrava-se ainda numa fase embrionária. 

Todavia, essa já não pode ser hoje a principal justificação. Actualmente, África possui homens e mulheres suficientemente qualificados para impulsionar o desenvolvimento do continente. O problema deixou de ser apenas a falta de quadros; passou a ser, sobretudo, a ausência de sistemas políticos transparentes, democráticos e meritocráticos. 

E aqui chegamos ao ponto central: sem democracia verdadeira, não existe desenvolvimento sustentável. A democracia não deve ser entendida apenas como realização periódica de eleições, mas como construção de instituições sólidas, transparência governativa, separação de poderes, liberdade de expressão, fiscalização pública e responsabilização política. Sem esses mecanismos, mesmo os países que possuem recursos naturais abundantes e capital humano qualificado tendem inevitavelmente à estagnação. 

Quando observamos os países africanos que apresentam melhores indicadores de desenvolvimento humano, estabilidade institucional e crescimento económico, verificamos quase sempre uma correlação directa com níveis relativamente mais elevados de democracia, transparência e funcionamento institucional. 

Infelizmente, muitos Estados africanos continuam marcados por tendências autoritárias, personalização do poder e ausência de cultura democrática. Nesses contextos, os cidadãos vivem frequentemente impedidos de expressar livremente o seu descontentamento, denunciar abusos ou exigir responsabilização política. 

Por essa razão, não considero justo atribuir aos povos africanos a responsabilidade principal pelo fracasso do continente. Os governados só podem agir plenamente quando existem condições mínimas de liberdade política. Onde não há democracia, a contestação é reprimida; onde não há instituições independentes, a corrupção prospera; e onde não há alternância política, instala-se inevitavelmente a degradação do Estado. 

O problema de fundo em África é, portanto, um problema de liderança, de cultura política e de construção institucional. Os mais preparados foram frequentemente afastados dos centros de decisão, enquanto indivíduos sem visão nacional permaneceram no comando dos destinos dos seus países.  Mas a solução não passa apenas pela substituição de líderes. Exige também a construção de uma consciência colectiva africana fundada na cidadania, na responsabilidade pública, na transparência e no fortalecimento da democracia. 

Só assim África poderá transformar a independência política conquistada no século XX numa verdadeira emancipação civilizacional, económica e institucional no século XXI. 

A Democracia Como Arquitectura do Desenvolvimento: A Lição Cabo-verdiana Para África


Quis, antes de encerrar este dia, registar estas breves palavras em vídeo para felicitar publicamente Cabo Verde pelo notável exemplo democrático que deu ao mundo, e de modo muito particular ao continente africano.  Ao longo de sucessivas décadas, Cabo Verde tem consolidado, de forma consistente e progressiva, as bases da sua democracia. O que ontem se testemunhou não constitui um acontecimento isolado ou fortuito; é, antes, o corolário natural de um longo e paciente processo de edificação institucional, de amadurecimento cívico e de afirmação de uma cultura política assente no respeito pela legalidade democrática. 

Para aqueles que acompanham com atenção a realidade política do continente africano, é evidente que um dos seus mais persistentes desafios reside precisamente na consolidação da democracia, sobretudo no momento em que os processos eleitorais, em vez de representarem a celebração da vontade soberana dos povos, degeneram frequentemente em focos de tensão, confrontação e, em casos extremos, em conflitos armados com consequências humanas devastadoras. 

Infelizmente, esta é uma realidade transversal a várias geografias africanas. Mesmo no espaço dos PALOP, temos assistido a episódios reveladores dessa fragilidade institucional. Angola, Moçambique e a Guiné-Bissau são exemplos recentes de contextos em que divergências político-eleitorais desencadearam cenários de crispação, instabilidade e perda de vidas humanas. Em muitos destes casos, quem perde recusa-se a reconhecer a derrota, enquanto quem vence, não raras vezes, encontra obstáculos artificiais à assunção legítima do poder. Este bloqueio à normal alternância democrática acaba, inevitavelmente, por gerar conflitos que corroem o tecido social, comprometem a paz civil e hipotecam o futuro colectivo. 

Cabo Verde, porém, constitui uma honrosa excepção a esta tendência. O país tem demonstrado, com assinalável maturidade política, que a democracia não é apenas um modelo formal de governação, mas um exercício concreto de civilidade, responsabilidade institucional e respeito pela soberania popular. Essa maturidade democrática reflecte-se não apenas na serenidade com que decorrem os processos eleitorais, mas igualmente na forma como o país tem sido governado e na repercussão directa que essa estabilidade produz na vida quotidiana dos seus cidadãos. 

Se compararmos Cabo Verde com muitos outros países africanos – particularmente no universo lusófono – verificamos que o arquipélago apresenta melhores indicadores de desenvolvimento humano, maior transparência governativa e condições de vida significativamente mais favoráveis para a sua população. A razão é simples: a democracia funciona. Quando a democracia funciona, abrem-se caminhos para a transparência administrativa, para a fiscalização efectiva das instituições, para a mobilidade social e para uma redistribuição mais equitativa dos recursos nacionais. Estes factores conjugados geram impactos concretos na qualidade de vida dos cidadãos e promovem um desenvolvimento socialmente sustentável. 

É precisamente isso que Cabo Verde demonstra ao continente: um país pequeno na sua dimensão territorial, mas imenso na robustez das suas instituições democráticas; uma nação desprovida de abundantes recursos naturais, mas rica em capital humano, em visão estratégica e em compromisso cívico. A sua aposta na democracia permitiu-lhe investir de forma consistente na educação, qualificar os seus recursos humanos, reforçar a boa governação e criar as condições estruturais para um desenvolvimento harmonioso. 

Em contraste, outros países africanos, embora dotados de vastíssimos recursos naturais, continuam incapazes de converter essa riqueza em prosperidade colectiva. E isso acontece, em larga medida, porque a democracia permanece deficitária ou meramente aparente. Onde a democracia não se consolida, abrem-se inevitavelmente espaços para o autoritarismo, para a corrupção, para a captura das instituições e para a perseguição política. Nessas circunstâncias, a riqueza nacional deixa de servir o interesse público e passa a alimentar estruturas de poder excludentes e predatórias. É por isso que tantos desses países permanecem reféns da pobreza, do atraso e da frustração histórica, apesar do imenso potencial de que dispõem. 

Cabo Verde, pelo contrário, tem demonstrado que o verdadeiro desenvolvimento não depende exclusivamente da abundância de recursos materiais, mas da existência de instituições sólidas, de cultura democrática e de compromisso genuíno com o bem comum. Por isso afirmo, sem hesitação, que Cabo Verde é um país pequeno em geografia, mas gigante na afirmação democrática e na dignificação política do continente africano. 

Quero, por isso, felicitar o povo cabo-verdiano e expressar o desejo sincero de que o país prossiga firmemente nesta senda, pois só assim continuará a colher frutos em benefício da sua população, elevando as condições de vida dos seus cidadãos e consolidando a sua projecção no panorama africano e internacional. Que este exemplo de maturidade democrática possa servir de inspiração aos demais países africanos, em especial aos Estados-membros dos PALOP. 

África precisa de compreender, de uma vez por todas, que não haverá desenvolvimento sustentável, justiça social nem verdadeira emancipação colectiva sem uma democracia autêntica, funcional e respeitada. 

Os meus sinceros parabéns a Cabo Verde. E que esta lição de civismo político ecoe para além das suas ilhas, iluminando o caminho de todo o continente africano. 

Um Dia, Uma Aniversariante

A nossa estimada irmã Maria José Alexandre celebra hoje mais um aniversário, acrescentando uma nova primavera à sua vida, graças a DEUS. Ninguém fica indiferente ao cruzar-se com a nossa querida irmã Maria José ou ao fazer parte do seu círculo de relações, tendo em conta a sua visão elevada, abrangente e apurada da vivência cristã. 

Marca todos de forma positiva e demonstra amor para com todos os que a rodeiam, sem fazer aceção de pessoas. Encarna, de forma evidente, os grandes princípios e valores da fé cristã no seu quotidiano, servindo de exemplo para os demais (LER)

A estimada irmã Maria José Alexandre é, de facto, uma grande mulher de DEUS. É também uma mulher de família, vivendo sempre em torno dos seus entes queridos. A Igreja e a família constituem pilares estruturantes do seu substrato identitário. Vive servindo incansavelmente a Igreja do Senhor Jesus Cristo, a família e o próximo, com todas as suas forças e inteligência. 

A irmã Maria José Alexandre é uma pessoa piedosa, amorosa, aberta, acessível e profundamente humilde. Possui um perfil pacífico, agregador, altruísta, generoso e desprendido; relaciona-se bem com todos, sem preconceitos nem atitudes de superioridade para com quem quer que seja. 

Guardo comigo, ao longo de muitos anos até à presente data, apenas boas recordações da nossa estimada irmã Maria José. Sempre me tratou com amor e carinho, tal como faz com todos os que cruzam o seu caminho. Acompanhou de perto o meu percurso no Seminário Teológico Baptista (STB) e na Igreja Evangélica Baptista da Amadora, inteirando-se, com genuína preocupação, dos meus desafios de vida e procurando ajudar na medida do possível. Assim procedeu, primeiramente, com o meu irmão Evaristo Vieira e, posteriormente, comigo. 

Todas estas nobres qualidades humano-espirituais que destaco na irmã Maria José Alexandre são igualmente evidentes na vida e no ministério do seu marido, o Pastor Manuel Alexandre Jr., confirmando, assim, a máxima popular: “ao lado de um grande homem há uma grande mulher”. 

Sem me alongar mais, apresento os meus mais sinceros parabéns e votos de feliz aniversário à estimada irmã Maria José Alexandre. Que o nosso Eterno e Todo-Poderoso DEUS continue a abençoá-la rica e poderosamente em todos os aspetos da sua vida, concedendo-lhe vida abundante e saúde, juntamente com toda a sua amada família. Que a graça e a bondade do Senhor Jesus estejam sempre consigo, hoje e para todo o sempre. Que se cumpra sobre a sua vida a bênção: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6:24-26). Que assim seja. 

Em suma, estimada irmã Maria José Alexandre, desejo-lhe felicidades espirituais, familiares, ministeriais, relacionais e terrenas, bem como todas as felicidades do tempo e da eternidade. 

Fé e Trabalho: Como Unir os Dois


A fé e o trabalho são duas realidades que, ao longo da história do Cristianismo, têm gerado inúmeros equívocos doutrinários no seio do povo de Deus, levando frequentemente a extremos na forma de os conceber. Há quem dê prioridade exclusiva à fé, negligenciando completamente o trabalho na sua rotina de vida. Inversamente, há quem faça do trabalho o seu modus vivendi, sacrificando deliberadamente o compromisso com Deus em nome da atividade profissional. Ambas as perspetivas estão profundamente erradas à luz das Sagradas Escrituras. 

O cristão deve viver a sua fé de forma comprometida e devota diante de todo o mundo, dando testemunho vivo da sua salvação. E isso implica honrar a Deus tanto na dimensão espiritual como na dimensão civil. Do mesmo modo, o cristão deve viver a sua fé trabalhando. Nenhum cristão, pelo simples facto de pertencer a uma comunidade eclesiástica, deve sentir-se no direito de não trabalhar e de viver à custa dos outros (2 Ts 3, 6-12). Pelo contrário, todos os cristãos são exortados pelo apóstolo Paulo a considerar uma honra trabalhar com as próprias mãos, de modo a não serem “pesados a ninguém” (1 Ts 4, 11-12), e a praticar também uma solidariedade material, partilhando os frutos do seu trabalho com o necessitado (Ef 4:28). 

Os crentes, tal como sustenta a Doutrina Social da Igreja, “devem viver o trabalho ao estilo de Cristo e torná-lo ocasião de testemunho cristão diante dos «de fora» (1 Ts 4, 12). (…) Mediante o trabalho, o homem governa com Deus o mundo; juntamente com Ele, permanece seu senhor e realiza coisas boas para si e para os outros. O cristão é chamado a trabalhar não só para conseguir o pão, mas também por solicitude para com o próximo mais pobre, ao qual o Senhor manda dar de comer, de beber, vestir, acolhimento, atenção e companhia (cf. Mt 25, 35-36)” (LER). Cada trabalhador, afirma Santo Ambrósio, “é a mão de Cristo que continua a criar e a fazer o bem”. 

Perante tudo o que ficou exposto, a fé e o trabalho são dimensões complementares, intrínsecas e irrenunciáveis na vida de um cristão, desde que colocadas na ordem correta. Fazem parte do substrato identitário de um filho de Deus. Tanto assim é que o apóstolo Paulo se empenhou em advertir a Igreja, com sabedoria divina, acerca da importância cimeira de integrar a fé e o trabalho na dinâmica da vida cristã, nomeadamente no capítulo terceiro da Segunda Epístola aos Tessalonicenses. 

É preciso trabalhar. É precisamente neste ponto que o apóstolo Paulo aprofunda ainda mais a sua exortação. Surge uma advertência clara, uma séria chamada de atenção, feita em nome do Senhor Jesus Cristo. Isto significa que esta recomendação traz o selo do nome mais sagrado e, por isso, não se trata de um assunto leviano ou secundário, mas de algo profundamente importante. 

Paulo escreve: “Irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, queremos recomendar-vos que se afastem de todos aqueles irmãos que vivem sem fazer nada e que não seguem os ensinamentos da tradição que receberam de nós” (2 Ts 3:6). Refere-se àqueles irmãos que viviam sem nada fazer. Eram pessoas que não queriam trabalhar e que, além disso, criavam intrigas, calúnias e conversas inúteis no meio da comunidade. Em vez de edificarem, prejudicavam a vida da Igreja. 

Na verdade, sabemos que nem todas as pessoas têm a mesma disposição para o trabalho. Também reconhecemos que há muitos que desejam trabalhar e não conseguem, por diversas razões: falta de emprego, problemas de saúde, limitações físicas, dependência de terceiros ou incapacidade temporária. Não é destes casos que Paulo fala. O apóstolo dirige-se àqueles que, tendo saúde, capacidade e oportunidade, simplesmente não querem trabalhar. 

Ao que tudo indica, alguns viviam influenciados pela ideia de que a vinda de Cristo seria imediata. Por isso, abandonavam responsabilidades, desfaziam-se dos seus bens e limitavam-se a esperar, sem produzir nem contribuir. 

Nem todo o trabalho é, automaticamente, uma bênção. Há contextos laborais profundamente nocivos. Quando uma pessoa exerce a sua profissão na área de que gosta, isso já é um bom começo. Contudo, não basta. Também contam o ambiente de trabalho, os colegas, as chefias e as condições humanas em redor. Há quem trabalhe naquilo que ama, mas viva num ambiente tóxico, marcado por humilhações, pressões abusivas ou bullying. Nesses casos, o trabalho torna-se um peso que afeta a saúde mental, o equilíbrio familiar e a dignidade pessoal. 

Também o trabalho deixa de ser bênção quando ocupa o lugar que pertence a outras prioridades da vida, mormente o lugar de Deus. O excesso de trabalho destrói lares, fragiliza casamentos, afasta pais dos filhos e rouba a paz interior. Para o cristão, o trabalho é importante, mas não pode ocupar o lugar central da existência. 

Qual é, então, a prioridade máxima? O próprio Senhor Jesus ensinou: “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33). O Reino de Deus vem em primeiro lugar; depois seguem-se as demais áreas da vida, incluindo a família e o trabalho. Quando o trabalho sobe ao topo dessa pirâmide, instala-se o desequilíbrio e inicia-se uma rampa deslizante para a perdição. 

Apesar dessas exceções, de forma geral o trabalho é uma bênção. O trabalho oferece autonomia, liberdade e dignidade. Quem não trabalha, quando o poderia fazer, torna-se frequentemente dependente do Estado, da família, dos amigos ou de instituições diversas. Essa dependência pode limitar a liberdade pessoal e enfraquecer o sentido de responsabilidade. 

Trabalhar não é fácil. Exige esforço, disciplina, sacrifício e perseverança. Obriga a levantar cedo, suportar pressões e enfrentar dificuldades. Contudo, no final, há recompensa: a pessoa pode pagar as suas contas, organizar a sua vida e viver com maior independência. 

Mesmo quando ainda não alcançámos o emprego ideal, muitas vezes é necessário enfrentar circunstâncias menos favoráveis enquanto se espera por algo melhor. Isso faz parte do pragmatismo da vida cristã. Em tempos difíceis, importa perseverar, suportar com paciência e continuar a orar para que Deus abra portas melhores no tempo certo. 

Naturalmente, há situações em que o trabalho perde toda a sua dignidade: exploração, escravidão moderna, salários injustos, abuso patronal ou ambientes de violência psicológica extrema. Quando o trabalho destrói a pessoa e fere a sua dignidade, deixa de cumprir o seu propósito. 

Paulo apresenta-se como exemplo: “Não andámos por aí sem fazer nada, nem comemos de graça o pão de ninguém. Antes trabalhámos duramente, noite e dia, para não nos tornarmos pesados a nenhum de vocês” (2 Ts 3:7). O apóstolo mostra que o trabalho dignifica. Ele não queria ser peso para ninguém e esforçava-se por sustentar-se, mesmo tendo direito a receber apoio. 

Depois recorda uma frase firme e conhecida do texto sagrado: “Se alguém não quiser trabalhar, também não coma” (2 Ts 3:10).  O sentido deste versículo é claro: quem recusa voluntariamente o dever do trabalho não deve esperar usufruir dos frutos produzidos pelo trabalho dos outros. 

A ociosidade voluntária gera muitos males. Pessoas desocupadas entregam-se facilmente a intrigas, mexericos e conflitos inúteis. Por isso Paulo diz “que andam por aí alguns sem fazer nada ou ocupando-se com ninharias” (2Ts 3:11). 

A solução apostólica é simples e profunda: “que trabalhem em paz e ganhem o pão que comem” (2 Ts 3:12). O trabalho deve ser feito em paz, com responsabilidade e honestidade. 

Mas Paulo vai ainda mais longe: “'E da vossa parte, irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (2 Ts 3:13). O cristão não trabalha apenas para sobreviver, acumular ou enriquecer. Trabalha também para servir, partilhar e abençoar os outros. Aqui entra a mordomia cristã: usar os recursos com sabedoria para a glória de Deus e para socorrer o próximo. 

Fazer o bem nem sempre traz reconhecimento. Muitas vezes encontramos ingratidão. Ainda assim, somos chamados a perseverar, porque ao fazer o bem honramos a Deus e revelamos uma vida transformada. 

No final da carta, Paulo deseja que o Senhor da paz conceda paz em todas as circunstâncias. Essa paz começa na reconciliação com Deus, estende-se ao interior da pessoa e alcança também o relacionamento com os outros. 

Quem vive em guerra consigo mesmo dificilmente terá paz com Deus ou com o próximo. Mas quem se submete ao Senhor encontra equilíbrio, direção e descanso. 

Fé e trabalho não são inimigos. Pelo contrário, completam-se quando colocados na ordem correta. O trabalho deve ser visto como vocação, serviço e meio de dignidade, nunca como ídolo. A fé ensina-nos a trabalhar com honestidade, equilíbrio e propósito. 

Que Deus nos ajude a guardar estas verdades no coração e a vivê-las no dia a dia. Não é fácil, mas com a ajuda Divina e a orientação do Espírito Santo, é possível. Que assim seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor Jesus Cristo. 

A Páscoa de Cristo à Luz da Teologia da Salvação


Celebra-se hoje a Páscoa, razão pela qual me sinto compelido, no bom sentido do termo, a partilhar convosco uma brevíssima reflexão sobre “A Páscoa de Cristo à Luz da Teologia da Salvação”, isto é, no processo de redenção da humanidade. 

Desde logo, importa dizer que o Senhor Jesus Cristo veio a este mundo e viveu verdadeiramente como homem, participando da nossa condição humana, embora sem pecado (2 Co 5:21). Porém, quando faltava pouco tempo para passar desta vida para a eternidade, o Senhor Jesus Cristo tomou a firme decisão de ir a Jerusalém (Lc 9:51). 

Não se tratava de uma decisão qualquer ou leviana, mas de uma resolução consciente, esclarecida e profundamente determinada, pois implicava a sua humilhação, sofrimento e morte. Ainda assim, o Senhor Jesus Cristo não desfaleceu no ânimo; antes, avançou firmemente para cumprir a vontade do Pai. Foi assim que o Senhor Jesus Cristo entrou triunfalmente em Jerusalém, enquanto a multidão lhe rendia o devido louvor, clamando:Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino do nosso pai Davi, que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mc 11:9-10). 

Passados poucos dias, porém, o Senhor Jesus Cristo confrontou-se com a dura realidade: foi preso, açoitado, humilhado e morto na cruz do Calvário (Lc 23:33). Contudo, ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos e manifestou-se com provas irrefutáveis, assinalando este grande marco da história do cristianismo (Mt 28:5-7). 

Por essa razão, este acontecimento central foi narrado nos quatro Evangelhos – Mateus, Marcos, Lucas e João. O apóstolo Paulo, de forma ainda mais aprofundada, desenvolve esta verdade em 1 Coríntios 15, salientando que, sem a ressurreição, vã seria a nossa fé; a fé cristã estaria desprovida de sentido, fundamento e esperança (1 Co 15:12-23). Mas nós sabemos e proclamamos que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Ele é a esperança viva de todos aqueles que nele esperam (1 Co 15:20; Mc 16:6; Jo 11:25-26; Rm 10:9). 

É também importante traçar o paralelismo entre o Senhor Jesus Cristo e o homem caído, representado em Adão. O primeiro homem, Adão, desejou ser como Deus. Inflamou-se na soberba, no orgulho e na pretensão de igualdade com o Criador. Como consequência, foi humilhado: destituído da glória original da sua criação, expulso do Jardim do Éden e submetido à morte (Gn 3:16-23). Jesus Cristo, porém, sendo Deus, não se apegou egoisticamente aos privilégios da sua glória. Antes, como afirma a Escritura, “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:7-8). 

Por isso, “Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl 2:9-11). 

Vemos aqui um profundo contraste entre Adão e Cristo. Adão quis exaltar-se e foi humilhado. Cristo humilhou-se voluntariamente e foi exaltado. Adão procurou elevar-se pela desobediência (Gn 3:5-6; Cristo foi elevado pela obediência perfeita (Gn 3:5-6). Adão trouxe condenação e morte (Rm 3:23; 5:12-15); Cristo trouxe justificação e vida eterna (Gl 2:16; Rm 5:1-2). 

Eis uma grande lição para nós: o caminho para o verdadeiro crescimento espiritual e para a comunhão com Deus não passa pelo orgulho, pela arrogância ou pela exaltação pessoal. Pelo contrário, passa pela humildade. Como o próprio Senhor ensinou: “Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Lc 14:11; Mt 23:12). 

Jesus Cristo foi exaltado acima de todos os nomes, e toda a humanidade – os que já partiram, os que vivem hoje e os que ainda hão de vir – reconhecerá um dia o seu senhorio (Fl 2:11). Uns para salvação e vida eterna (Mt 25:32-34; Ap 7:14); outros para juízo, por terem rejeitado a graça durante a sua peregrinação terrena (Mt 25:41). 

Todavia, apesar de todas as vicissitudes da paixão, o Senhor Jesus Cristo ressuscitou. Ele é a esperança e a certeza de todos os que nele confiam. Sem a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, a fé bíblica não teria fundamento. A ressurreição constitui o alicerce, a garantia e a esperança da nossa fé. Cristo é a esperança de todos aqueles que existiram, existem e existirão; dos que creram no passado, dos que hoje abraçam a fé e dos que no futuro ainda se renderão ao Evangelho. 

Mas tudo isto confronta-nos com um desafio: renunciar a nós mesmos, tomar a nossa cruz e seguir determinadamente Jesus Cristo todos os dias (Lc 9:23). Isto implica abandonar o ego, rejeitar os prazeres pecaminosos, a corrupção e a maldade deste mundo (1 Pd 2:1-2), para nos convertermos sinceramente a Deus. Só assim demonstramos que “nascemos de novo”, que somos filhos de Deus e que fomos transformados pela sua graça (Rm 12:1-2). Essa obra realiza-se em nós pela acção do Espírito Santo (1 Co 12:3; Rm 8:11; Ef 1:13-14; Tt 3:5), embora também exija da nossa parte uma disposição sincera para corresponder à mensagem salvífica da Boa Nova (Rm 10:8-11). 

Essa mensagem centra-se na encarnação, vida, morte e ressurreição gloriosa do Senhor Jesus Cristo. Sabemos que Jesus Cristo morreu e ressuscitou ao terceiro dia (Mt 28:6). A morte não teve domínio sobre Ele (At 2:24). Aquele que durante o seu ministério ressuscitou mortos (Mc 5:35-43; Jo 11:1-45), também ressuscitou pelo poder de Deus, vencendo definitivamente a morte (Rm 6:9; Hb 2:14-15). Por outras palavras, tal como escreve o Apóstolo Paulo, o Senhor Jesus Cristo “não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm 1:10). 

Por isso, somos chamados a confiar nesta mensagem salvífica, a entregar o coração ao Senhor Jesus Cristo e a permitir que a verdade da ressurreição transforme a nossa vida. Somos igualmente chamados a anunciá-la àqueles que estão ao nosso redor (Mt 28:18-20). 

Que Deus nos abençoe, que Deus nos ajude a interiorizar estas verdades e, acima de tudo, a vivê-las diariamente. 

Jesus Cristo ressuscitou. Ele é a certeza e a esperança da nossa fé. Aleluia! Aleluia! Aleluia! 

Será Que a Mulher Guineense é Realmente Emancipada?


Venho novamente hoje dar sequência à minha rúbrica habitual em defesa do futuro da Guiné-Bissau. Pretendo continuar nesta senda de reflexão sobre a problemática, os desafios, os dilemas, as contradições e as contrariedades que as mulheres guineenses enfrentam no seu quotidiano, aproveitando também o ensejo do mês de março, consagrado à celebração da mulher. 

O tema que trago hoje prende-se com uma questão pertinente: será que a mulher guineense é, de facto, emancipada? A minha resposta é, claramente, negativa. Não considero que a mulher guineense seja verdadeiramente emancipada. Quando falamos de emancipação, devemos ter em conta pressupostos fundamentais como a autonomia e a autodeterminação. Estes conceitos desdobram-se em várias dimensões da vida humana, começando, desde logo, pela emancipação intelectual. 

A emancipação intelectual traduz-se na capacidade de uma pessoa compreender o que está em jogo, reconhecer os interesses que a rodeiam e, a partir daí, tomar decisões mais acertadas e conscientes para a sua vida. Em suma, trata-se de decidir o próprio futuro de forma esclarecida e livre de manipulação. Assim, uma pessoa intelectualmente emancipada é capaz de fazer escolhas informadas e responsáveis. 

Ora, não considero que a generalidade das mulheres guineenses esteja intelectualmente emancipada. Tal condição exige, entre outros fatores, o acesso à educação, sendo que muitas mulheres ainda são privadas desse direito básico. A negação da instrução condiciona a liberdade, sobretudo no que diz respeito à capacidade de fazer escolhas conscientes e autónomas. Como consequência, a mulher continua, muitas vezes, a ser manipulada, instrumentalizada e relegada para um plano secundário nas relações com o homem. 

Neste contexto, a mulher guineense tende a viver em função do homem, ajustando as suas expectativas, esperanças e projetos de vida à figura masculina, frequentemente idealizada como a fonte da sua felicidade. Desde tenra idade, muitas são incutidas com a ideia de que devem encontrar um homem – de preferência poderoso e financeiramente estável – que lhes proporcione realização. Assim, a sua felicidade é frequentemente associada à presença masculina, o que limita a sua autonomia. 

Este paradigma impede a verdadeira emancipação intelectual. Uma mulher verdadeiramente emancipada não aceitaria, por exemplo, situações de abuso, violência ou violação. Contudo, verifica-se que tais práticas são, por vezes, toleradas ou até legitimadas. Recordo que, em certos contextos, comportamentos violentos eram interpretados como manifestações de amor, o que evidencia uma profunda distorção de valores. Sabemos, porém, que o amor se expressa através do respeito, do cuidado, da consideração e do afeto – nunca pela violência. 

Para além da dimensão intelectual, importa considerar a emancipação financeira. Também neste domínio, a mulher guineense, de forma geral, ainda não se encontra plenamente emancipada. Mesmo quando trabalha e aufere rendimento, persiste a ideia de que o homem deve assumir o papel de provedor principal, o que gera dependência económica. 

Essa dependência leva muitas mulheres a aceitar situações de desrespeito, traição ou violência, por receio de perder o suporte financeiro. Assim, o poder económico do homem acaba por reforçar relações desiguais, nas quais a mulher se vê condicionada a manter o silêncio ou a tolerar comportamentos prejudiciais. Mesmo entre mulheres instruídas, esta mentalidade ainda persiste, revelando que a emancipação financeira não se resume apenas à obtenção de rendimento, mas também à mudança de mentalidade. 

Outra dimensão essencial é a emancipação sexual. Neste aspeto, verifica-se igualmente que a mulher guineense ainda enfrenta fortes limitações. A sua sexualidade é frequentemente vivida em função do homem, orientada para satisfazer os seus desejos, enquanto o prazer feminino continua a ser um tabu. 

Práticas como a mutilação genital feminina constituem exemplos extremos dessa realidade, representando uma grave violação dos direitos humanos e da dignidade da mulher. Mesmo fora desses casos, muitas mulheres são socializadas para não reconhecer ou reivindicar o seu próprio prazer, sendo frequentemente estigmatizadas quando o fazem. Deste modo, a mulher continua, em muitos casos, a viver a sua sexualidade de forma condicionada, sujeita a normas sociais que favorecem o homem e reprimem a sua autonomia. 

Em suma, só se poderá falar de verdadeira emancipação da mulher guineense quando esta se concretizar nas dimensões intelectual, financeira e sexual. Estas três vertentes são fundamentais para que a mulher possa exercer plenamente a sua liberdade e autodeterminação. 

A emancipação intelectual permite-lhe compreender e decidir com consciência; a emancipação financeira liberta-a da dependência económica; e a emancipação sexual assegura-lhe o direito de viver a sua intimidade com liberdade e dignidade. 

Contudo, importa referir que, nos dias de hoje, tem-se falado cada vez mais em “empoderamento” em vez de “emancipação”. Isto porque não basta possuir, em teoria, certas condições – é necessário que a mulher tenha também a capacidade prática de agir, decidir e afirmar-se. 

Apesar de alguns progressos, sobretudo ao nível da educação, muitas mulheres continuam a viver em função do homem, acreditando que a sua felicidade depende dele. No entanto, a verdadeira felicidade reside no próprio indivíduo. As relações devem acrescentar valor, e não servir como única fonte de realização pessoal. 

Por fim, importa sublinhar que o caminho para a emancipação passa, inevitavelmente, pela educação. É através dela que se promove a consciência crítica, a autonomia e a capacidade de transformação social. Só com investimento sério na educação será possível alcançar uma sociedade mais justa, onde a mulher tenha igualdade de oportunidades, liberdade e dignidade. 

Em conclusão, considero que a mulher guineense ainda não é plenamente emancipada. Há progressos, sem dúvida, mas o caminho a percorrer continua a ser longo. É necessário continuar a lutar por uma verdadeira igualdade, onde a mulher possa exercer plenamente os seus direitos, viver com liberdade e alcançar a sua realização pessoal. 

Fico por aqui. Até uma próxima ocasião, se Deus quiser.