Faço parte da pequena
parcela de pessoas desencantadas com os políticos e que, em consequência disso,
optam deliberadamente por não exercer o direito fundamental do sufrágio
directo. Integro também o grupo daqueles que estão profundamente desavindos com
a classe política e que, por essa razão, não lhe reconhecem idoneidade nem
autoridade moral para exercer cargos públicos. Não confio minimamente nos
partidos nem nos políticos em particular. Não confio nos programas que, durante
o período de campanha eleitoral, são proclamados com pompa e circunstância, até
à exaustão, com o único intuito de angariar votos. Não confio, literalmente, em
nada disto: na concepção ideológica que hoje se apregoa, na proliferação
partidária que contamina o debate político, nem nos politiqueiros que grassam
no nosso espaço público.
Sou completamente
céptico quanto à forma como a política é feita e vivida nos nossos dias,
marcados por uma acentuada polarização. Sou igualmente céptico relativamente à
ardilosa e redutora dicotomia entre esquerda e direita, sustentada como forma
de balizamento entre reaccionarismo e liberalismo. Este entendimento
minimalista tem vindo, aliás, a ser cada vez mais refutado por reputados
politólogos e cientistas políticos – veja-se, entre outros, o saudoso Norberto
Bobbio, na sua afamada obra Esquerda e Direita. Sou ainda manifestamente
céptico em relação à chamada “astúcia da razão” dos políticos (expressão de
Hegel) e aos seus discursos tautológicos e alienantes, cujo objectivo último é
apenas alcançar o poleiro governativo com a maior celeridade possível.
Gosto da política, mas
não gosto da maioria dos políticos. Gosto de acompanhar a política, mas não
gosto de participar activamente nela. Falo cada vez menos de política no espaço
público, restringindo a minha intervenção ao domínio privado da minha socialização.
Tenho plena consciência da implicação da política na vida das pessoas e na res
publica, sobretudo no que respeita ao seu impacto no desenvolvimento das
sociedades e dos países em geral. Tenho, do mesmo modo, uma percepção clara do
servilismo, da mentira, da corrupção e da podridão que a política
frequentemente encerra. Não estou alheio a estas realidades; tanto assim é que,
por essa razão, optei, há muito tempo, por ser um assumido abstencionista.
Sou declaradamente
abstencionista porque não me consigo identificar plenamente com uma única
ideologia ou partido político, pelas razões anteriormente invocadas. Possuo, de
forma sintética, uma concepção ideológica interligada que não se deixa
circunscrever a uma única corrente política. Considero-me um personalista
assumido, com uma mundividência híbrida – nem inteiramente de esquerda, nem de
direita, nem de centro –, comungando parcialmente do keynesianismo, do
liberalismo económico e, simultaneamente, do intervencionismo estatal (um
paradoxo, não é? Admito que sim). Sou ainda reaccionário no que toca à moral e
aos bons costumes. Diria mesmo que, em última instância, me oriento pela
Doutrina Social da Igreja e pelos ideais do progressismo de matriz Cristã,
advindos com a Reforma Protestante do século XVI.
Por tudo isto, não me
enquadro em nenhuma ideologia política concreta nem em qualquer partido,
agravando-se esta posição pelo facto de não confiar, literalmente, nos
políticos. Não confio nos partidos nem nos políticos (insisto).
Assim sendo, e sem
qualquer hesitação prévia, renuncio ao direito de votar. Não voto apenas por
votar. Não voto naquilo em que não acredito e que não me inspira confiança. Não
voto, acima de tudo, em programas eleitorais que entram em flagrante contradição
com os princípios e valores que professo. Renuncio ainda ao direito de voto por
uma questão de objecção de consciência. Renuncio convictamente ao voto para me
reconciliar comigo mesmo e viver em paz com a minha consciência. E, por fim, de
forma esclarecida, consciente e determinada, renuncio deliberadamente ao
direito de votar. É um direito que me assiste: o direito à abstenção.
