Desde tempos imemoriais, os franceses parecem ter cultivado a peculiar genialidade de inventar tudo aquilo que lhes aprouvesse, distinguindo-se, nessa propensão, dos demais povos do mundo. Conta-se, parafraseando o Jansenista, que foram os franceses que inventaram a “burguesia” e a “ideologia”; inventaram a “esquerda” e a “direita”; inventaram o “caso Dreyfus” e o “soixante-huitard”; inventaram o “mercantilismo” e as “porcelanas de Limoges”; inventaram o “jardim à francesa” e o “bouillon”; inventaram a “chinoiserie” e metade dos “queijos do mundo”.
Foram igualmente os franceses que inventaram a “nacionalidade” e a “república”; inventaram a “liberdade” e o “princípio da igualdade”; inventaram a “revolução” e a “laicidade”; inventaram a “alternância governativa” e os “limites dos mandatos”; inventaram a “arte” e o “impressionismo”; inventaram o “relativismo” e o “ateísmo”; inventaram o “secularismo” e o “progressismo”; inventaram o “género” e o “feminismo”; inventaram o “amor” e o “romantismo”; inventaram a “autodeterminação sexual” e o “poliamor”. Diz-se, ainda, que lhes coube a invenção do “ménage à trois” e de outras práticas sexuais que tantos defensores de concepções liberais e permissivas da moralidade parecem ostentar com particular orgulho (os dissolutos, bem entendido).
E a lista, como facilmente se compreenderá, está longe de se esgotar. Foram os franceses ainda que inventaram a “Encyclopédie” e a ambição iluminista de sistematizar o conhecimento humano; inventaram o “sistema métrico decimal” e a pretensão de conferir uma medida universal às coisas; inventaram o “existencialismo” e o “estruturalismo”; inventaram o “desconstrucionismo” e o pós-estruturalismo”; inventaram a “nouvelle vague” e o “nouveau roman”; inventaram a “alta-costura” e o “chic parisiense”; inventaram “o cinematógrafo” e uma nova maneira de representar o mundo; inventaram a “baguete”, o “croissant moderno” e a “liturgia gastronómica”. Foram também eles que deram ao mundo o “rendez-vous”, o “savoir-faire”, a “joie de vivre” e o “coup de foudre”. E, como se tudo isto ainda não bastasse, popularizaram expressões como “coup d'État”, “raison d'État” e “esprit de corps”, projectando a língua francesa para os domínios da política, da diplomacia e da organização social. Até a ruptura com a tradição teve, em França, direito a escola, manifesto, terminologia própria e pretensão de universalidade.
Não surpreende, por conseguinte, que os franceses pareçam hoje, reféns de muitas dessas “invenções”, “reinvenções” e “convenções”, com as quais interagem não apenas entre si, mas também com o resto do mundo. Como se a incessante necessidade de inovar, desconstruir, redefinir e voltar a classificar a realidade constituísse, por si só, uma espécie de imperativo histórico e cultural, ao qual a sociedade francesa se sentisse compelida a obedecer. Afinal, para uma certa tradição intelectual francesa, parece não bastar transformar o mundo: é igualmente necessário baptizar cada transformação, elaborar a respectiva teoria e apresentá-la como uma nova conquista do pensamento universal.
Por isso, não me surpreenderia que as violentas manifestações estudantis que tomaram conta do país, causando prejuízos incalculáveis, pudessem ser interpretadas à luz desta peculiar lógica gaulesa da “invenção”. Dito de outro modo, talvez estejamos perante mais uma tentativa de inventar algo de novo: uma desconcertante baralhação de categorias, conceitos e referências que devolve aos franceses a oportunidade de reivindicarem, uma vez mais, o seu lugar na “vanguarda”, deixando ao resto do mundo a incómoda herança de ideias, modelos e princípios que, aos seus olhos, já perderam a validade. Como se a mera necessidade de romper com o que existe constituísse, por si só, uma prova de superioridade intelectual e como se cada ruptura, independentemente das suas consequências, merecesse ser celebrada como um avanço civilizacional.
No fundo, talvez resida precisamente aqui o paradoxo: a mesma sociedade que se orgulha de ter legado ao mundo os ideais da liberdade, da igualdade e da cidadania parece, por vezes, enredar-se nas contradições das suas próprias construções ideológicas, transformando a inovação numa obsessão e a contestação numa espécie de ritual permanente. E, enquanto se multiplicam as experiências sociais, as disputas doutrinárias e as redefinições conceptuais, o resto do mundo assiste, entre a perplexidade e o cepticismo, à sucessão de novidades que lhe são apresentadas como inevitáveis conquistas da modernidade. Ils se paient nos têtes, em suma. É assim desde o século XVII…[1]
[1] Escrevi este artigo há 9 anos aqui (LER) e cheguei, inclusivamente, a partilhá-lo no meu Facebook em algumas ocasiões. A versão que hoje publico resulta apenas de algumas reformulações pontuais, às quais acrescentei uma referência às violentas manifestações estudantis que têm vindo a ocorrer em França.
