O título da nossa lição
de hoje é “A Resposta Bíblica à Depressão”. Trata-se de um tema particularmente
sugestivo e pertinente. Quero também sublinhar, por uma questão de justiça, a
evolução que a nossa revista da Escola Bíblica Dominical (EBD) tem vindo a
demonstrar. Faço esta observação porque os assuntos relacionados com a saúde
psicológica não são habitualmente abordados de forma sistemática ou recorrente
nos nossos meios. Existe um tabu significativo em torno destas questões. Ao
longo dos meus anos de vivência na Igreja, por exemplo, nunca ouvi uma pregação
especificamente dedicada à depressão, nem participei num estudo orientado para
a análise desta temática.
No entanto, sabemos que
estas questões fazem parte da realidade quotidiana e que podem afectar qualquer
pessoa, incluindo os Cristãos. Como estava a dizer, existe um tabu que, em
parte, se compreende, uma vez que este assunto envolve diferentes
sensibilidades. No meio Evangélico, há quem associe este tipo de perturbação a
uma origem diabólica ou demoníaca. Refiro-me, sobretudo, a determinadas
perspectivas presentes em algumas igrejas pentecostais e neopentecostais,
embora também se verifique, nos meios evangélicos tradicionais, uma dificuldade
considerável em reconhecer que estas doenças podem afectar a vida dos crentes.
Se perguntasse aqui aos
irmãos o que pensam sobre esta matéria, certamente alguns reconheceriam que a
depressão é uma perturbação que pode atingir qualquer pessoa, incluindo os Cristãos.
Outros, porém, poderiam considerar que um verdadeiro crente não pode estar
deprimido. Sem me alongar demasiado nestas considerações introdutórias,
gostaria de realçar a evolução que temos vindo a observar na revista da Escola Bíblica
Dominical. Como sabemos, anteriormente estudávamos uma revista proveniente dos
Estados Unidos da América e, actualmente, estudamos uma revista do Brasil.
É curioso notar que, há
cerca de sete anos, lecionei uma lição baseada, em grande medida, no mesmo
texto bíblico, embora com o título “Ter Esperança em Deus” (OUVIR). Nessa ocasião, não foi abordada especificamente a questão da depressão, muito
menos a temática do suicídio, apesar de ambas poderem ser relacionadas com a
passagem que vamos analisar: 1 Reis, capítulo 19, versículos 1 a 18.
A depressão e o
suicídio são duas questões particularmente relevantes nos nossos dias. Contudo,
a revista que estudámos naquela altura não desenvolveu suficientemente estes
assuntos. Por esse motivo, procurei abordar a questão do suicídio à luz das
Escrituras Sagradas, reflectindo sobre a forma como podemos compreender esta
realidade. Esta última questão é ainda mais complexa: poderá um Cristão correr
o risco de cometer suicídio? A posição predominante no meio Evangélico e Cristão
é de rejeição do suicídio, embora existam perspectivas minoritárias que admitam
outras possibilidades de análise teológica desta questão.
Regressemos, então, ao
nosso texto bíblico. Convido-vos a abrir comigo o livro de 1 Reis, capítulo 19,
versículos 1 a 18, para analisarmos esta passagem à luz da temática da
depressão. Sou de opinião de que a depressão pode atingir inclusivamente os
crentes no Senhor Jesus Cristo. Mais adiante, procurarei fundamentar esta
posição. Quando falamos de doenças, devemos reconhecer que nenhuma pessoa está
necessariamente imune à possibilidade de adoecer pelo simples facto de
professar a Fé Cristã. Esta é a minha perspectiva pessoal.
Entendo, portanto, que
um Cristão pode atravessar períodos de sofrimento depressivo. Ao mesmo tempo,
considero fundamental distinguir as perturbações de natureza psicológica
daquilo que, numa determinada perspectiva espiritual, algumas pessoas
interpretam como uma manifestação ou insinuação diabólica. Naturalmente, há
quem atribua uma dimensão espiritual negativa a diferentes doenças. Todavia,
reconhecer que um Cristão pode sofrer de depressão conduz-nos também a
reflectir sobre a relação entre o sofrimento psicológico e a problemática do
suicídio.
Como veremos, a
depressão pode apresentar diferentes graus de gravidade. Existem situações
menos graves, com repercussões relativamente limitadas, nas quais a pessoa
consegue continuar a gerir a sua vida. Há, porém, situações mais preocupantes,
que podem envolver pensamentos suicidas e, em casos extremos, o risco de
suicídio. É precisamente por isso que estas questões suscitam tantas
divergências. Se admitirmos que um Cristão pode atravessar um período de
depressão, teremos também de reflectir sobre os casos mais graves. Poderá um
crente chegar a cometer suicídio?
A minha posição é a de
que um Cristão pode sofrer de depressão. Considero, contudo, importante
distinguir a existência de pensamentos suicidas da concretização desse acto. O
suicídio constitui uma situação extrema, com consequências irreversíveis,
porquanto implica a perda de uma vida humana. Na minha perspectiva teológica
pessoal, tenho dificuldade em conceber que alguém verdadeiramente regenerado,
habitado pelo Espírito Santo, chegue a destruir deliberadamente a própria vida.
Reconheço, porém, que esta é uma questão complexa, que exige reflexão teológica
cuidadosa e não deve ser tratada de forma superficial.
Antes de analisarmos o
texto sagrado em apreço, importa colocar uma questão fundamental: o que é,
afinal, a depressão? Procurei informar-me, sobretudo, através dos conteúdos
disponibilizados pelo Serviço Nacional de Saúde. A nossa revista apresenta
igualmente algumas indicações sobre esta matéria. A depressão é uma perturbação
da saúde mental que pode manifestar-se através de tristeza persistente, perda
de interesse ou de prazer nas actividades habituais, falta de motivação,
alterações do sono e do apetite, fadiga, dificuldades de concentração,
sentimentos de desvalorização pessoal e, em determinados casos, ansiedade e
irritabilidade.
Verificamos, portanto,
que estamos perante uma condição que pode afectar profundamente a esfera
emocional e psicológica da pessoa, repercutindo-se igualmente nas suas relações
familiares, profissionais e sociais. A pessoa pode perder a vontade, o ânimo e
a predisposição para realizar as actividades habituais, chegando, em situações
mais graves, a sentir dificuldades em cuidar de si própria. Quanto maior for a
gravidade da perturbação, maior poderá ser o comprometimento da sua capacidade
de gerir a vida quotidiana.
Importa, por isso,
perguntar: quais são os principais sintomas da depressão? Em primeiro lugar,
devemos distinguir a depressão da tristeza. A tristeza faz parte da experiência
emocional de qualquer ser humano. Podemos sentir-nos tristes perante
circunstâncias desfavoráveis, perdas ou acontecimentos inesperados, sem que
isso signifique, necessariamente, que estamos perante uma perturbação
depressiva. A depressão, porém, pode constituir uma condição clínica
significativa, com repercussões em diferentes dimensões da vida. Por
conseguinte, não devemos confundir uma reacção emocional normal com uma
perturbação depressiva, embora também não devamos desvalorizar o sofrimento
associado à tristeza.
Em termos clínicos, a
persistência dos sintomas durante pelo menos duas semanas constitui um dos
critérios habitualmente considerados na avaliação de um episódio depressivo. O
diagnóstico, todavia, depende igualmente da natureza e da intensidade dos sintomas,
bem como do impacto que exercem sobre a vida da pessoa. Podemos ficar tristes
durante um dia, dois dias ou até mais tempo. Existem, naturalmente,
circunstâncias particularmente dolorosas, como a perda de uma pessoa querida ou
de algo de grande importância, que podem desencadear um processo de luto
prolongado. O luto e a depressão não são, contudo, realidades necessariamente
equivalentes, embora possam apresentar manifestações semelhantes e, em
determinadas circunstâncias, coexistir.
A depressão pode
envolver tristeza persistente, alterações do apetite e dos padrões de sono,
fadiga, dificuldades de concentração, problemas na tomada de decisões,
sentimentos de inutilidade ou desvalorização pessoal e uma profunda sensação de
desespero. Em alguns casos, podem surgir pensamentos relacionados com a morte
ou com o suicídio. A pessoa pode chegar a um estado em que sente enormes
dificuldades em gerir a própria vida. Se estiver empregada, por exemplo, poderá
começar a ter dificuldades em cumprir os horários, levantar-se a horas, cuidar
da higiene pessoal e desempenhar as suas funções profissionais. Estas
dificuldades podem comprometer as relações sociais, os compromissos
profissionais e outras responsabilidades que integram a vida quotidiana.
Uma pessoa que esteja
simplesmente triste pode continuar a gerir os seus negócios, a tratar dos seus
assuntos e a relacionar-se com os outros. Numa situação de depressão mais
grave, porém, essas capacidades podem ficar significativamente comprometidas. Nestas
circunstâncias, poderá ser necessário recorrer a acompanhamento médico e
psicológico, bem como a medicação, quando prescrita por profissionais de saúde.
É igualmente importante evitar o recurso ao álcool, às drogas ou à utilização
inadequada de medicamentos como forma de tentar controlar o sofrimento
emocional.
Já abordámos o conceito
de depressão, os seus principais sintomas e as diferenças entre esta
perturbação e a tristeza. Sabemos também que a depressão pode manifestar-se de
diferentes formas, através de sintomas físicos, emocionais e comportamentais,
consoante as circunstâncias e a gravidade da situação. Existem pessoas que
vivem com uma depressão profunda sem que aqueles que as rodeiam se apercebam do
seu sofrimento. Por vezes, quando ocorre uma situação trágica, familiares,
amigos e conhecidos ficam surpreendidos e questionam-se sobre como foi possível
chegar àquele desfecho, sobretudo quando ainda recentemente tinham visto a
pessoa sorridente, acompanhada pela família e aparentemente bem-disposta.
Há situações em que a
pessoa procura ocultar o seu sofrimento ou consegue manter uma aparência de
normalidade, apesar de estar a enfrentar dificuldades emocionais profundas. Por
isso, não devemos presumir que alguém está bem apenas porque sorri, conversa ou
aparenta estar bem-disposto. O sofrimento psicológico nem sempre é visível, e a
aparência exterior nem sempre corresponde à realidade interior.
Sabemos também que
existem diversos factores que podem contribuir para o desenvolvimento da
depressão. Entre eles, encontram-se a predisposição genética, as experiências
traumáticas, os abusos, a violência, a rejeição, as perdas significativas e as
dificuldades relacionadas com o contexto familiar e social. A forma como uma
pessoa é tratada durante a infância pode igualmente influenciar o seu
desenvolvimento emocional. Diferentes estudos sublinham a importância dos
cuidados parentais e da maneira como os pais comunicam com os filhos,
nomeadamente no processo de construção da autoestima.
É importante que os
pais valorizem os filhos, lhes transmitam afecto e os ajudem a reconhecer as
suas capacidades. Estas atitudes podem contribuir para o desenvolvimento de uma
autoestima saudável, com repercussões positivas na idade adulta. Não devemos,
contudo, confundir autoestima com uma valorização excessiva ou distorcida da
própria pessoa, susceptível de conduzir à arrogância, à vaidade ou à convicção
de superioridade relativamente aos outros. A autoestima saudável ajuda-nos a
desenvolver confiança nas nossas capacidades e a enfrentar os desafios da vida.
Pelo contrário, uma autoestima excessivamente reduzida pode levar a pessoa a
considerar-se incapaz, a desvalorizar as suas qualidades e a desenvolver uma
percepção profundamente negativa de si própria.
Quando lidamos com
pessoas que apresentam uma autoestima reduzida, encontramos, por vezes,
indivíduos que não reconhecem as suas capacidades ou que vivem permanentemente
insatisfeitos consigo próprios. Há pessoas que afirmam, por exemplo, não se
sentirem bem consigo mesmas. Quando procuramos compreender as razões dessa
insatisfação, percebemos que, em determinadas situações, ela está relacionada
com uma imagem pessoal profundamente negativa. Também existem pessoas cuja
percepção de si próprias é excessivamente elevada, levando-as a considerar-se
superiores aos outros. Por isso, é necessário encontrar um equilíbrio.
É preferível
desenvolver uma autoestima saudável a viver desprovido de confiança nas
próprias capacidades. A forma como nos vemos influencia muitas das decisões que
tomamos e a maneira como procuramos afirmar-nos na vida. Como estava a dizer,
os estudos sobre esta matéria sublinham a importância de os pais valorizarem os
filhos, contribuindo para o desenvolvimento da sua autoestima e para a
construção de uma identidade pessoal equilibrada. Por outro lado, uma
valorização excessiva e indiscriminada também pode ter consequências negativas.
Algumas perspectivas psicológicas alertam para a possibilidade de determinadas
práticas educativas, excessivamente centradas na criança e desprovidas de
limites adequados, favorecerem atitudes egocêntricas e narcísicas.
O importante é
encontrar um equilíbrio entre a valorização e a correcção, sem humilhar a
criança nem transmitir-lhe a ideia de que ocupa uma posição de superioridade
relativamente aos outros. Se uma criança crescer convencida de que é o centro
de tudo, poderá desenvolver uma visão distorcida de si própria e das relações
que estabelece com as outras pessoas. Não me vou alongar nesta questão, porque
o nosso tema é a depressão. Importa, contudo, reconhecer que os factores
sociais, os traumas, as perdas, os abusos e as experiências de rejeição podem
ter repercussões profundas na vida emocional das pessoas.
Naturalmente, nem todas
as pessoas reagem da mesma forma às adversidades. Há quem passe por
experiências extremamente difíceis e consiga superá-las, enquanto outras
pessoas enfrentam maiores dificuldades em recuperar emocionalmente. As
experiências vividas podem, assim, produzir consequências significativas no
futuro, dependendo de múltiplos factores individuais, familiares e sociais.
Já dediquei algum tempo
à explicação da depressão. Vamos agora regressar ao texto bíblico que lemos, em
1 Reis, capítulo 19. Nesta passagem, encontramos um episódio particularmente
difícil na vida de um servo de DEUS. Trata-se de uma realidade que pode afectar
qualquer pessoa, incluindo os Cristãos e os próprios líderes religiosos,
nomeadamente os pastores.
Como tenho vindo a
dizer, a depressão continua a ser um assunto tabu em muitos dos nossos meios.
Quando alguém fala abertamente sobre o seu sofrimento psicológico, pode ser mal
compreendido ou rotulado de diferentes formas. Há quem atribua imediatamente a
situação à acção do diabo ou considere que a pessoa está a desenvolver algum
tipo de paranoia, inclusive falta de fé. Sabemos, porém, que existem diversas
perturbações psicológicas que podem afectar qualquer pessoa, incluindo os
crentes. Entre elas encontram-se as perturbações de ansiedade, a perturbação
bipolar e outras condições que exigem compreensão, avaliação e acompanhamento
adequados.
Vejamos, então, o que
nos diz o texto sagrado. O capítulo começa por relatar que o rei Acabe contou a
Jezabel, rainha má, tudo o que Elias tinha feito e como mandara matar à espada
todos os profetas de Ball. O rei Acabe transmitiu, assim, a Jezabel informações
sobre os acontecimentos relacionados com o Profeta Elias, incluindo o confronto
com os profetas de Baal e os acontecimentos que culminaram na manifestação do
poder de DEUS e na chegada da chuva milagrosa. Jezabel, mulher do rei Acabe,
era hostil ao Profeta do Altíssimo. Perante aqueles acontecimentos, enviou um
mensageiro a Elias com uma ameaça, declarando que, até àquela hora do dia
seguinte, faria com que ele tivesse o mesmo destino dos profetas que tinham
sido mortos.
Jezabel jurou,
portanto, que tiraria a vida ao servo de DEUS. Quando Elias recebeu a mensagem,
levantou-se e fugiu para salvar a vida. Dirigiu-se a Berseba, que pertencia a
Judá, e deixou ali o seu servo. Começou, assim, uma fuga motivada pela
necessidade de escapar à perseguição e à ameaça de morte. Elias caminhou pelo
deserto durante um dia inteiro, sentou-se debaixo de um zimbro e pediu a morte,
dizendo: “Já basta, ó SENHOR! Toma agora a minha vida, pois não sou melhor do
que os meus pais”. Encontramos aqui um Profeta que, perante uma situação de
perseguição e de enorme pressão emocional, chegou a desejar a morte.
A depressão pode surgir
em consequência de acontecimentos inesperados ou de circunstâncias que alteram
profundamente a nossa vida. Uma pessoa pode encontrar-se bem e, de repente,
perder o emprego, enfrentar dificuldades financeiras ou passar por uma separação
conjugal que transforme radicalmente a sua realidade. Há pessoas que entram num
estado de profundo sofrimento emocional depois de perderem o trabalho,
sobretudo quando têm responsabilidades financeiras e familiares que precisam de
assegurar. Outras enfrentam enormes dificuldades perante um divórcio
inesperado, uma situação de infidelidade conjugal ou uma experiência traumática
que não conseguem superar facilmente. Existem, naturalmente, muitos outros
factores que podem contribuir para o sofrimento psicológico.
No caso de Elias, a sua
vida estava ameaçada. Perante esse cenário, o profeta entrou num estado de
profundo desânimo e chegou a desejar morrer.A passagem bíblica descreve que
caminhou pelo deserto durante um dia inteiro, se sentou debaixo de um zimbro e manifestou
a DEUS o desejo de que a sua vida terminasse. Numa tradução da Bíblia em
português corrente, encontramos a seguinte declaração: “Basta, SENHOR! Tira a
minha vida, pois não valho mais do que os meus antepassados.”
Elias queria morrer. A
primeira questão que podemos colocar é esta: poderá um Cristão ter pensamentos
relacionados com a morte ou chegar a desejar que a sua vida termine? Esta é uma
questão que merece uma reflexão séria. A ideia da morte pode atravessar a
experiência humana, incluindo a de pessoas que professam a Fé Cristã. Há
crentes que, perante situações de sofrimento extremo, podem desejar que a vida
termine. Na minha perspectiva, devemos distinguir esse sentimento da decisão de
pôr deliberadamente termo à própria vida.
Ao longo da existência,
enfrentamos dificuldades, injustiças, rejeições, maldade, desilusões e doenças
que podem alterar profundamente a nossa rotina. Há situações em que uma pessoa
sente que já não dispõe de forças para suportar o sofrimento. Perante
circunstâncias desta natureza, pode chegar a desejar que tudo termine. Não
considero que a simples existência desse pensamento deva ser automaticamente
interpretada como falta de fé ou uma manifestação diabólica. É necessário
compreender o sofrimento da pessoa, escutá-la com atenção e procurar perceber
aquilo por que está a passar.
Gostaria de saber o que
pensam os irmãos sobre esta questão. Consideram que é pecado um crente desejar
morrer? Ou entendem que esse tipo de pensamento deve ser necessariamente
associado a uma acção diabólica? Uma pessoa pode dizer: “Já estou farta de
viver. Não quero continuar assim. Gostava de desaparecer.” Como estava a dizer,
não excluo a possibilidade de um Cristão, incluindo alguém que considere
verdadeiramente regenerado, experimentar pensamentos suicidas.
Importa, contudo,
distinguir entre ter pensamentos relacionados com o suicídio e concretizar esse
acto. São realidades diferentes, embora ambas devam ser levadas a sério. Na
minha interpretação teológica, considero que a presença do Espírito Santo na
vida de um Cristão constitui um elemento fundamental da sua relação com DEUS e
da forma como enfrenta as dificuldades da existência.Tenho, por isso,
dificuldade em aceitar que um Cristão verdadeiramente regenerado chegue a
cometer suicídio. Esta é a minha convicção pessoal, embora reconheça que o
assunto exige uma reflexão teológica cuidadosa.
Vemos, porém, que
Elias, um servo de DEUS, desejou morrer. Também encontramos, nas cartas do apóstolo
Paulo, reflexões profundas sobre a vida e a morte. Na Epístola aos Filipenses,
por exemplo, Paulo expressa o desejo de partir e estar com Cristo,
reconhecendo, ao mesmo tempo, a importância de continuar a viver para servir os
outros. A sua declaração de que viver é Cristo e morrer é ganho revela a
centralidade de Cristo na sua existência e a esperança que depositava na
comunhão eterna com o Senhor.
No caso de Elias, a
situação de desespero estava relacionada com a perseguição que enfrentava e com
a ameaça concreta à sua vida. Se lermos integralmente o capítulo 19 de 1 Reis,
verificaremos que o Profeta atravessou um período de profundo desânimo. Chegou
a sentir-se sozinho, esgotado e sem forças para continuar. A sua percepção da
realidade estava profundamente marcada pelo sofrimento e pelo sentimento de
isolamento. Contudo, DEUS interveio na sua vida, cuidou dele e conduziu-o a uma
nova etapa da sua missão. Esta passagem leva-nos a compreender que até um servo
de DEUS, depois de uma experiência extraordinária de manifestação do poder divino,
pode atravessar momentos de grande fragilidade emocional.
Convido-vos agora a
abrir comigo o Salmo 42, para aprofundarmos a nossa reflexão. Há um pormenor
importante que gostaria de acrescentar. O sofrimento emocional está
frequentemente relacionado com dificuldades, problemas por resolver e situações
perante as quais a pessoa sente que não dispõe de recursos suficientes para
encontrar uma solução. Por vezes, também interpretamos determinadas
circunstâncias de forma excessivamente negativa e sentimo-nos angustiados,
mesmo quando a situação não é tão grave como inicialmente imaginávamos. Isto
não significa que o sofrimento seja imaginário ou que deva ser desvalorizado.
Significa apenas que a forma como interpretamos a realidade pode influenciar a
maneira como nos sentimos e reagimos às circunstâncias.
Antes de desenvolvermos
a reflexão sobre o Salmo 42, gostaria de colocar uma pergunta aos irmãos. Conseguem
recordar alguma passagem bíblica que descreva explicitamente o Senhor Jesus
Cristo a rir-se ou a sorrir? Conhecemos, certamente, passagens em que Jesus
chorou. Recordamos, por exemplo, o episódio da morte de Lázaro e o momento em
que se aproximou de Jerusalém. Mas conseguem recordar alguma passagem em que a
Bíblia afirme expressamente que Jesus se riu ou deu uma gargalhada? É uma
pergunta interessante, porque não encontramos nas Escrituras uma passagem que
descreva explicitamente Jesus a rir-se. Isto não significa, evidentemente, que
tenha passado toda a sua vida a chorar ou que não tenha experimentado momentos
de alegria.
O que encontramos nas
Escrituras Sagradas é uma representação particularmente significativa do
sofrimento do Servo de DEUS, sobretudo nos textos proféticos e nos salmos
messiânicos. A figura do Servo Sofredor ajuda-nos a compreender a profundidade
do sofrimento que Cristo enfrentou. Não devemos, contudo, concluir que a sua
existência tenha sido exclusivamente marcada pela tristeza.
Regressemos, então, ao
Salmo 42. O salmista exprime a sua profunda necessidade de DEUS através de uma
imagem particularmente significativa: “Como a corça sedenta em busca dos rios,
assim suspiro por ti, meu Deus.” E prossegue, manifestando a sede espiritual
que sente: “Tenho sede de Deus, do Deus da vida. Quando poderei contemplar a
presença de Deus”» Mais adiante, descreve a intensidade do seu sofrimento: “As
minhas lágrimas são o meu alimento, de dia e de noite, enquanto me perguntam
continuamente: “Onde está o teu Deus?” O salmista recorda também os momentos em
que se dirigia ao templo, acompanhado pelo povo, entre cânticos de alegria e
expressões de gratidão, para se apresentar diante de DEUS.
Reparem que o salmista
atravessa uma situação particularmente difícil. Recorda com saudade os momentos
em que podia estar na presença de DEUS, participando nas celebrações e na
adoração colectiva. Contudo, as circunstâncias da sua vida impediram-no de
continuar a viver essas experiências da mesma maneira. A distância em relação
àquilo que anteriormente lhe proporcionava alegria e comunhão contribuiu para o
seu sofrimento. Mais adiante, no mesmo Salmo, encontramos uma pergunta de
grande profundidade espiritual: “Porque estás abatida, ó minha alma, e porque
te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei. Ele é o meu
Deus e o meu Salvador.” Esta ideia é retomada ao longo do Salmo.
O salmista reconhece a
tristeza e o abatimento da sua alma, mas dirige a si próprio uma exortação à
esperança. Não esconde o seu sofrimento, nem procura fingir que está tudo bem.
Pelo contrário, reconhece a sua condição e, simultaneamente, procura reorientar
o seu pensamento para DEUS. A questão que devemos colocar é esta: por que razão
estamos tristes? É importante reflectirmos sobre aquilo que sentimos e
procurarmos compreender as causas do nosso sofrimento. Por vezes, conseguimos
identificar claramente as razões da nossa tristeza. Noutras ocasiões,
experimentamos um abatimento cuja origem não conseguimos compreender
imediatamente. A autorreflexão pode ajudar-nos a reconhecer o que estamos a
sentir e a identificar aquilo de que precisamos para enfrentar determinada
situação.
No entanto, devemos ter
presente que nem sempre conseguimos ultrapassar o sofrimento apenas através da
reflexão pessoal ou da força de vontade. Existem situações em que precisamos de
ajuda exterior, de acompanhamento especializado e do apoio daqueles que nos
rodeiam. O salmista, apesar da sua angústia, declara: “Espera em Deus.”
Na minha perspectiva Cristã,
a esperança em DEUS ocupa um lugar fundamental na forma como enfrentamos a
tristeza, a ansiedade, a depressão e as dificuldades da vida. A fé pode
proporcionar consolo, força espiritual e sentido, mesmo nos períodos mais
difíceis da nossa existência. É esta confiança que procuro destacar na nossa
reflexão.
Quando olhamos para
aquilo que DEUS é e para aquilo que, segundo a Fé Cristã, fez por nós,
encontramos razões para continuar a ter esperança, mesmo quando nos sentimos
incapazes de resolver os nossos problemas. Alguns círculos Cristãos defendem
que a depressão é necessariamente uma manifestação diabólica e que um
verdadeiro Cristão não pode sofrer desta perturbação. Como já referi, não
partilho inteiramente dessa interpretação. Considero que devemos distinguir a
tristeza circunstancial, que faz parte da experiência humana, da depressão
enquanto perturbação da saúde mental.
É natural que uma
pessoa sofra durante algum tempo quando perde alguém que ama ou enfrenta uma
situação dolorosa. Contudo, não devemos estabelecer prazos rígidos para o
sofrimento, nem presumir que a fé elimina automaticamente todas as dificuldades
emocionais. O salmista reconhece que a sua alma está abatida. Fala das
adversidades que enfrenta e dos inimigos que o rodeiam. Apesar disso, continua
a dirigir-se a DEUS e a afirmar a sua esperança.
Na minha compreensão da
Fé Cristã, a acção do Espírito Santo e a confiança em DEUS são fundamentais
para uma vida espiritual bem-sucedida. Isso não significa, porém, que os cristãos
estejam imunes às doenças ou que nunca precisem de ajuda perante o sofrimento
psicológico. A fé, a oração, o apoio da comunidade Cristã e o acompanhamento
médico e psicológico podem desempenhar papéis importantes na vida de quem
enfrenta estas dificuldades. Não devemos encarar estas formas de apoio como realidades
necessariamente incompatíveis, mas como recursos que, em circunstâncias
apropriadas, podem contribuir para o bem-estar da pessoa. A esperança em DEUS
não exige que neguemos a realidade do sofrimento. Pelo contrário, podemos
reconhecer as nossas fragilidades, procurar ajuda e continuar a confiar no
Senhor Jesus Cristo, mesmo quando não compreendemos plenamente as
circunstâncias pelas quais estamos a passar.
Estamos, assim, a
chegar ao fim da nossa lição da Escola Bíblica Dominical. Este tema constitui
um desafio para todos nós, mas existem medidas que podem contribuir para a
promoção da saúde mental e do bem-estar. É importante adoptarmos hábitos
saudáveis, praticarmos exercício físico, cuidarmos da alimentação e procurarmos
manter padrões de sono adequados. Devemos cuidar do nosso corpo e estar atentos
à forma como os nossos hábitos quotidianos influenciam o nosso bem-estar físico
e psicológico. A prática regular de exercício físico pode contribuir para a
redução do stress e para a melhoria da qualidade do sono. O sedentarismo, por
sua vez, pode ter repercussões negativas na saúde e no bem-estar.
Naturalmente, estes
hábitos não substituem o acompanhamento profissional quando este é necessário.
Constituem, porém, elementos que podem integrar uma abordagem mais abrangente
aos cuidados de saúde. Acima de tudo, devemos aprender a olhar para aqueles que
sofrem com compreensão, sensibilidade e espírito de solidariedade. Em vez de
julgarmos precipitadamente alguém que atravessa um período de depressão,
procuremos escutar essa pessoa, compreender as suas dificuldades e ajudá-la a
encontrar o apoio de que necessita.
A depressão não deve
ser motivo de vergonha, nem a pessoa que dela sofre deve ser alvo de condenação
ou estigmatização. A nossa responsabilidade, enquanto Cristãos, é também
manifestar amor ao próximo, oferecendo apoio espiritual e encorajando a procura
de acompanhamento médico e psicológico adequado.
Vamos terminar a nossa
lição da Escola Bíblica Dominical com uma palavra de oração. Convido os irmãos
a ficarem de pé para encerrarmos o estudo, pedindo a DEUS que nos livre desta
doença e proteja também aqueles que nos são próximos. Acima de tudo,
peçamos-Lhe que nos ajude a continuar a viver com alegria, contentamento e fé,
apesar das dificuldades que enfrentamos. Sabemos que isso nem sempre é fácil,
porque somos seres humanos e vivemos num mundo marcado por desequilíbrios,
injustiças e sofrimentos. Ainda assim, procuremos manter a nossa confiança em
DEUS e fortalecer a nossa fé e esperança, pedindo-Lhe que nos conceda
sabedoria, discernimento e força para enfrentarmos as adversidades da vida.
Que o Senhor nos ajude
igualmente a desenvolver uma atitude de compreensão perante o sofrimento dos
outros, para que saibamos acolher, apoiar e acompanhar aqueles que atravessam
momentos de fragilidade. Vou pedir ao irmão que termine a nossa lição com uma
palavra de oração, se faz favor. Amém.