Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofia. Mostrar todas as mensagens

Devemos Ser Tolerantes Com os Intolerantes?


Devemos ser tolerantes com os intolerantes? Como relacionar com as pessoas que não têm a cultura democrática? É concebível, num estado de direito democrático, lidar com os ditadores numa lógica da democracia? Será que a democracia aceita pessoas que não são democratas? Uma pessoa radical, extremista, violenta e autoritária pode beneficiar das regras integrativas da democracia participativa? Como é que podemos resistir e, simultaneamente, vencer pessoas antidemocráticas, sem pôr em causa o regime democrático? São todas as pertinentes questões que, de forma subsumida, procurei responder neste brevíssimo vídeo. 

Tenha um bom proveito na sua visualização e auscultação. 

O Coronavírus e a Mutabilidade da Vida


Se há grande lição que esta pandemia do coronavírus nos vem reconfirmar é que nada é definitivamente garantido na vida, tal como alguns julga(va)m. Tudo é dinâmico, maleável e efémero. A política e a governação são efémeras. O trabalho e a estabilidade são efémeros. A democracia participativa e a liberdade dos cidadãos são efémeras. A comodidades e o bem-estar do dia-a-dia são efémeros. A família e os relacionamentos são efémeros. Da mesma sorte, a saúde e a vida são efémeras. Estamos sempre em constante mudança no espaço e no tempo – tanto para o bem como para o mal. Tudo é mutável, transitório e, em última instância, perecível. 

Há cinco meses, antes de germinar propriamente esta maldita praga do coronavírus, milhares e milhões de pessoas em todo o mundo organizaram as suas vidas de acordo com a condição expectável de cada um. No entanto, viram repentinamente tais expectativas alterarem-se drasticamente e com as profundas implicações práticas a que estamos impotentemente a assistir todos os dias: recessão económico-financeira em todos os países do mundo, desemprego galopante, famílias e amigos forçosamente separados, somando a milhares de pessoas que estão neste momento entre a vida e a morte e os que infelizmente já morreram e vão continuar a morrer paulatinamente, bem como muitas outras calamitosas situações colaterais que se auguram ainda num futuro breve. Tudo se alterou subitamente num abrir e fechar de olhos, deixando-nos reduzidos ao confinamento social e condicionados significativamente no nosso modo de viver. 

Há, para além da verdade acabada de se mencionar, ainda uma outra importantíssima lição que podemos extrair com este maldito coronavírus, nomeadamente que o interesse público deve sempre prevalecer em detrimento do interesse privado. Digo isto porque tem havido uma grande querela doutrinária ao longo dos tempos, persistindo até aos nossos dias, entre os defensores do Individualismo e do Colectivismo. Aqueles, de forma subsumida, dão demasiada primazia à liberdade individual e autodeterminação em detrimento do corporativismo. Ao passo que estes assentam nos pressupostos da realização do individuo dentro da colectividade em que ele está inserido. 

A meu ver, julgo que tem de haver a interdependência entre as duas distantes mundividências da vida, contando que não se ponha em causa a sobrevivência do Homem. E, justamente, por isso, nesta esteira do pensamento, oponho-me manifestamente à legalização da hedionda prática do aborto, do casamento homossexual, da eutanásia e das outras práticas aberrantes que colocam em causa a natureza da vida humana (LER). Com a pandemia do coronavírus, máxime as medidas preventivamente excepcionais que têm sido adoptadas pelos países, vem reforçar ainda mais a verdade de que a sobrevivência humana está acima da democracia, da liberdade e da auto-determinação, razão pela qual somos duramente afectados na nossa autonomia privada em nome da inquestionável sobrevivência colectiva. 

Tudo isto remete-nos primeiramente sobre a ideia cimeira da mutabilidade e transitoriedade da madrasta vida. Somente quando temos a consciência plena da volubilidade da vida e da sua fugacidade é que realmente estamos em condições necessárias de cultivar a sábia arte de viver bem, isto é, reconhecer acima de tudo a nossa insuficiência, fragilidade, finitude, depositar a nossa confiança e esperança exclusivamente em DEUS, amar o próximo como a nós mesmos e consequentemente preparar da melhor forma possível a nossa instantânea morte (LER). Infelizmente, muitas vezes, esquecemo-nos desta importante realidade, optando por nos refugiarmos inutilmente nas garantias ilusórias que não proporcionam uma vida bem-sucedida e feliz. Só quando nos chegam desgraças, tal como a do coronavírus, é que nos lembramos da nossa insignificância, mutabilidade, transitoriedade e perecibilidade. Em suma, nada neste mundo é garantido. De facto, excepto a morte, nada é garantido. 

Discriminação Racial e Trans-humanismo: O Novo Desafio do Século XXI, Pelo Professor Catedrático Paulo Otero


“1. Discriminar alguém sem um fundamento racional é atentar contra a sua dignidade – uma vez que todos somos criados à imagem e semelhança de Deus (Gn, 1,27), todos temos a mesma dignidade.
2. Toda a discriminação racial é profundamente contrária aos postulados cristãos: há uma incompatibilidade axiológica entre cristianismo e racismo – nenhum cristão pode ser racista e nenhum racista se pode dizer cristão.
3. Em sentido diferente, a apologia da discriminação racial tem em Nietzsche e nos seus herdeiros um expoente máximo: a defesa de “uma raça dominante” ou de “homens superiores” (“Para Além do Bem e do Mal”, nºs 61 e 62), em que se alicerçou o nazismo, encontra hoje novas formas de projeção – o trans-humanismo é uma delas.
4. Uma utilização da técnica e da ciência tendo o propósito da criação de super-homens, transformando as condições físicas e psíquicas naturais do ser humano, por via de uma alteração tecnológica da nossa identidade genética, numa fusão entre o artificial e o humano, procurando construir uma nova raça, poderá tornar-se a preocupação central do século XXI – aqui reside o problema do trans-humanismo.
5. Se a ciência e a tecnologia deixam de estar ao serviço da pessoa humana viva e concreta e da sua dignidade, sem quaisquer limites éticos ou jurídicos, tudo se torna possível – através do trans-humanismo, o ser humano arrisca-se, arvorando-se em Deus, a destruir a sua própria humanidade.
6. Tal como o antissemitismo e o “apartheid” traduzem formas radicais de discriminação racial do século XX, o trans-humanismo poderá ser a discriminação racial do século XXI, criando, acima da raça humana, uma raça trans-humana e, pelas suas características artificiais, também super-humana – a ideia de Platão de “indivíduos superiores” e “indivíduos inferiores” (“A República”, 459e, 460a e c) terá, por manipulação humana, existência biológica.
7. A vitória do trans-humanismo, criando um “homem novo”, expressão de uma nova civilização, numa “ascensão da humanidade à sobre-humanidade” (Miguel de Unamuno, “La Dignidad Humana”, Madrid, 4ª ed., 1957, p. 145), recuperando o mito de Hitler sobre a raça ariana, conduzirá ao suicídio da igual dignidade de todo o género humano.”[1]



[1] Pensamento do senhor Professor Catedrático Paulo Otero, extraído no seu Facebook. 

Carrilho, o Filósofo (4)


«As polémicas são um dos modos mais interessantes de testar a força e o valor das nossas ideias, bem como das dos outros. Hoje há um problema que tem a ver com o tom pejorativo que se pretende dar ao que é polémico, mas isso tem a ver com o espaço público estar cheio  de gente que se exprime só para dizer que existe, mas sem que tenha o que quer que seja para dizer. Daí o terror das polémicas, que não é senão o do próprio vazio.» 

------------------------------------
(Manuel Maria Carrilho, in Política à Conversa, p. 87, Editorial Notícias, Lisboa, 2003). 

Carrilho, o Filósofo (3)


«Vivemos em sociedades atordoadas pelo carrossel dos acontecimentos, presas ao instante e à sua caótica fugacidade, incapazes de se ler no seu passado e de se projectar no futuro. Há várias razões para isto. Uma, evidente, tem que ver com as dificuldades de adaptação do modelo representativo à sociedade mediática, nomeadamente à constante pressão do instantâneo, do vivido e do directo, sobre as áreas da ponderação, da deliberação e da decisão.» 

-----------------------------------
(Manuel Maria Carrilho, “De Olhos Bem Abertos”, p. 83, Sextante, Porto, 2011). 

Carrilho, o Filósofo (2)


«A extraordinária «história» de Dominique Strauss-Kahn vem, mais uma vez, lembrar como a tragédia é uma experiência de que se podem tirar lições únicas, tanto sobre a fragilidade da vida e as contingências que a atravessam, como sobre os paradoxos do destino e os desígnios que os selam. Mas ela permite – independentemente da evolução judicial do caso – tirar algumas conclusões mais, que o nosso tempo acrescenta à imemorial sabedoria da tragédia.» 

----------------------------------
(Manuel Maria Carrilho, in “De Olhos Bem Abertos”, p. 92, Sextante, Porto, 2011). 

Carrilho, O Filósofo (1)


«Vivemos numa época que tende a folhetinizar tudo – acontecimentos, crises, vidas públicas, catástrofes, aventuras privadas. O folhetim tornou-se talvez mesmo a única versão da História que a época comporta – de anteontem até depois de amanhã, e o esforço já é grande». 

---------------------------------------
(Manuel Maria Carrilho, “De Olhos Bem Abertos”, P. 29, Sextante, Porto, 2011).

O Que é a Felicidade?


A pergunta é bastante sugestiva e pertinente nos ansiosos, conturbados e depressivos dias que correm. Definir a felicidade é uma tarefa complicadíssima, visto que não é uma questão assim tão nítida e linear de abordar. Ela remete-nos concomitantemente para várias considerações dogmáticas, nomeadamente etimológicas, filosóficas, religiosas e culturais, para assim podermos holisticamente aferir com precisão o seu verdadeiro substrato axiológico. Apesar de todas essas diversas formulações e mundividências subjacentes em torno dela, é um facto universalmente assente e manifestamente incontestável que todas os seres humanos à face da Terra almejam e buscam afincadamente a felicidade como supremo bem, mesmo desconhecendo, na generalidade de situações, no que ela realmente consiste ou as vias mais correctas de encontrá-la. Esta legítima aspiração é notória na ênfase e primazia que as pessoas incansavelmente vão dando à felicidade no seu quotidiano, desdobrando-se no domínio pessoal, afectivo-amoroso, familiar, relacional, literário, musical, profissional, político e governativo. A felicidade faz parte do cardápio indispensável do ser humano. Sem ela a vida seria completamente monótona e não faria qualquer tipo de sentido, razão pela qual é a legítima meta de todos os seres humanos. 

Do ponto de vista etimológico, a felicidade é associada ao estado de quem anda feliz, abarcando adjectivos como sorte, boa fortuna, êxito, contentamento, satisfação, realização e o bem-estar do individuo. Estes valores antropológicos conjugados ganham um peso relevantíssimo na globalidade dos seres humanos. Acontece que, por razões cognoscíveis, o enquadramento da felicidade no âmbito filosófico ultrapassa esta mera definição, máxime no pensamento classicista de Sócrates, Platão e Aristóteles, respectivamente. Na doutrina socrática, a que se pode extrair nos escritos dos seus discípulos Xenofonte e Platão, parte da premissa utilitarista para definir o conceito da felicidade, precedendo neste importante debate as concepções filosóficas de Epicuro, Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Este, sobretudo, já no século XIX, definia o utilitarismo como sendo “a doutrina que aceita como fundamento da moral a utilidade, ou o princípio da maior felicidade, defende que as acções são correctas na medida em que tendem a promover a felicidade, e incorrectas na medida em que tendem a gerar o contrário da felicidade. Por felicidade entendemos o prazer, e a ausência de dor; por infelicidade a dor, e a privação de prazer[1].  O Professor Miguel Nogueira de Brito considera que é possível identificar pelo menos quatro propostas para definir o que seja utilidade, ou o bem-estar das pessoas. De acordo com a primeira dessas propostas, e talvez a mais influente, “o bem-estar consiste na experiência ou sensação de prazer. Uma segunda forma de definir utilidade recusa a orientação hedonista e, em vez disso, aceita que uma experiência recompensadora pode não ser necessariamente fonte de prazer. Uma terceira opção, talvez a mais difundida entre os filosóficos que se reclamam utilitaristas, consiste na definição da utilidade em termos da satisfação de preferências. Nesta perspectiva, aumentar a utilidade das pessoas significa satisfazer as suas preferências, sejam elas quais forem. A quarta forma de conceber a utilidade: trata-se daquela que procura resolver o problema das falsas preferências através da definição do bem-estar como a satisfação das preferências racionais ou informais[2]

Comungando holisticamente do eudemonismo, Sócrates vai resumindo que o que importa é a felicidade de todos e não a individual, tratando-se em última instância da do sábio. Um entendimento igualmente defendido por Platão, nas suas construções doutrinárias, ainda com maior alcance. Este, de forma subsumida, associa e identifica a felicidade com o bem e o prazer como sendo conceitos interligo-determinados e redutos últimos da verdadeira felicidade. Aristóteles, por sua vez, discorda parcialmente com esta mundividência de Platão em que a ideia do bem tomado como modelo não é modelo de coisa alguma, uma vez que o bem em si, mesmo tendo por objecto tornar conhecidas as diferentes formas de bens concretos, não passa de uma ideia indeterminada do bem. Nesta ordem de ideias, define a felicidade como actividade da alma de acordo com a virtude mais perfeita do homem. Ainda na mesma esteira do pensamento, segundo a obra conjunta de Caillé, Lazzeri e Senellart que cita Ética Nicómaco de Aristóteles, “o homem deve descobrir o que constitui a sua tarefa, aquilo que o visa e lhe diz respeito em supremo grau. Tal descoberta constitui o facto da ciência política. Tal ciência, soberana e dirigente possui por objecto o bem próprio do homem, bem idêntico para o individuo e para a cidade, mas mais perfeito quando atingindo e perseverado por toda uma cidade. A procura da felicidade adquire, pois, de imediato uma índole colectiva e política (…) É vivendo com os outros que o homem pode ser feliz”[3], encerrava advertidamente. 

Em relação à mundividência religiosa, máxime nas três grandes religiões monoteístas, nomeadamente no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, a felicidade transcende o comummente raio antropológico. Só é feliz nestas três religiões quem obedece aos cânones divinos pré-estabelecidos por ambas as denominações religiosas. O Judaísmo centraliza parte da sua adoração na Torah, que resumidamente se encerra em dez mandamentos outorgados pelo Patriarca Moisés (Êxodo 20:1-17). Cabe, por sua vez, a todos os fiéis, pôr escrupulosamente em prática a Lei de DEUS nos seus corações, afastando-se de qualquer tipo de mal, pois “feliz o homem que não segue o conselho dos maus, não se detém no caminho dos pecadores, nem toma parte na reunião dos provocadores! Antes põe toda a sua alegria na lei do Senhor e nela medita de dia e de noite. Ele é como uma árvore plantada à beira da água corrente, que dá o seu fruto na estação própria e cujas folhas não murcham. Em tudo o que faz é bem-sucedido”, exortava peremptoriamente o salmista para esboçar a ideia da felicidade no judaísmo (Salmo 1:3; 119:1-3). 

O Cristianismo parte deste postulado teológico, no entanto vai reinterpretando harmoniosamente o conceito teleológico da Lei, demonstrando que a justificação do Homem (a felicidade suprema, bem entendido) é unicamente pela Graça Redentora de DEUS, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo (Efésios 2:8-10), diferentemente do entendimento do Judaísmo. Para que serve então a Lei no Cristianismo? A Lei, de acordo com o Apóstolo Paulo, servia “para mostrar aquilo que é contra a vontade de Deus. E só devia durar até que viesse aquela descendência, a quem a promessa se destinava. (…) Dessa maneira, a lei foi a nossa educadora, até que viesse Cristo, a fim de sermos justificados por meio da fé. Agora que veio o tempo da fé, já não estamos sujeitos à lei como nossa educadora, visto que pela fé que nos une a Jesus Cristo somos filhos de Deus. Com efeito, todos os que foram baptizados em Cristo revestiram-se das qualidades de Cristo” (Gálatas 3:19; 24-26). Um entendimento também reforçado em toda a epístola aos Romanos. A fé no Senhor Jesus Cristo, ancorada na Graça Soteriológica, é o único meio para o Homem usufruir plenamente das Bem-aventuranças eternas (vide, por todos os exemplos bíblicos, o grande Sermão do Monte do Senhor Jesus em Mateus 5:1-12 onde estas grandes verdades foram manifestamente proclamadas). E isto se evidencia, em última instância, na Lei do Amor (1 Coríntios 13:1-13), que consiste em amar a DEUS acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Destes dois mandamentos, admoestava firmemente o Senhor Jesus, dependem toda a lei e os profetas (Mateus 22:37-40; Marcos 12:30-31; Lucas 10-27-28)

Ao contrário do Judaísmo e o Cristianismo o Islão exorta os seus fiéis a esforçarem-se a fazer a Jihad[4] e a Sharia[5]. Para superar as forças dos ímpios pode ser necessário lançar mão da jihad contra os infiéis, o que por sua vez pode significar recorrer à “guerra santa”. O martírio está na essência do estado de pureza religiosa e felicidade. Como afirmava Hassan al-Banna, fundador e líder da Irmandade Muçulmana, assassinado em 1949, para ilustrar este postulado: “o Corão é a nossa constituição, o Profeta é o nosso guia; a morte em nome da glória de Alá é a nossa maior ambição”[6]. O principal objectivo de todas as acções humanas, escreve ainda Manuel Castells e reconfirmado por Hans Küng na sua emblemática obra “Islão”, deve ser o estabelecimento da lei de Deus para toda a humanidade, colocando assim um ponto final na actual oposição entre Dar al-islam (o mundo muçulmano) e Dar al-Harb (o mundo não muçulmano). Verificado este processo "natural” de harmonização deixa automaticamente de haver subjectividade e tudo se passa a desenrolar por meio da umma[7]: o individuo torna-se parte da comunidade dos fiéis, um mecanismo básico de igualdade que oferece apoio mútuo, solidariedade e significados compartilhados. Tudo isto fundando-se com base na Sharia, que prevalece sobre a ideia do Estado-Nação e vincula toda a comunidade muçulmana, que aguarda determinadamente a devida recompensa na glória por ter honrado este ditame religioso. 

No âmbito cultural a concepção da felicidade acaba por ser praticamente idêntica em todas as culturas e os povos do mundo, registando apenas algumas nuances. A base da felicidade prende-se, mormente, por ser portador de uma boa saúde, educação, honrar os pais, ter uma boa formação profissional, um bom emprego que lhe habilite a possuir riquezas materiais, casar com uma pessoa bem-sucedida e construir com ela uma família estável, tendo inclusive filhos saudáveis e bem-aprumados nessa união matrimonial. A partir do momento que uma pessoa consegue preencher estes pressupostos convencionais, ela é automaticamente vista e considerada como sendo feliz. A felicidade acaba assim por ser entendida e esgotada, em todas as dimensões culturais, com a exterioridade do ter, isto é, ter saúde, ter formação/profissão, ter trabalho, ter família, ter filhos, ter poder, ter riqueza e ter uma vida desafogada, ter sucesso, etecetera. Justamente por isso, levando à letra esta máxima, todo o mundo luta incansavelmente para ter o poder, a riqueza, a glória e a fama, uma vez que todos os outros “teres” advêm destes efémeros atributos humanos. 

Da nossa parte, como devotos Cristãos que somos, comungamos plenamente com o conceito da felicidade do Cristianismo. A maior felicidade que uma pessoa pode ter durante a sua peregrinação neste tenebroso mundo é crer resolutamente no Senhor Jesus Cristo (Actos 16:31), e procurar diariamente ajustar a sua transitória vida aos impolutos mandamentos do Todo-Poderoso DEUS (Actos 26:20). Entendemos ainda que a felicidade vai muito mais além de que qualquer tipo de exterioridade, aparente sucesso social ou a ideia de um mero prazer passageiro, tal como é erradamente enfatizado no nosso mundo pós-moderno. Ela é, sem dúvida, um estado de alma. Há muitas pessoas afortunadas e com grandes sucessos sociais, mas, mesmo assim, destituídas da verdadeira felicidade, vivendo atormentadas, depressivas, desorientadas e completamente infelizes. Têm uma vida totalmente oca, triste e miserável. Outras, pobres, sem qualquer tipo de conforto material, são genuinamente felizardas. Um autêntico paradoxo, não é? Tudo isto para vincar que a felicidade não tem propriamente que ver com o “ter” ou com a falsa ideia do prazer imediato, mas sim com o “ser”. É no “ser”, aquilo que realmente somos, na nossa simplicidade de ver e encarar a vida, que a felicidade se manifesta com toda a sua força e vigor, porque ela é de interioridade e habita unicamente na interioridade da pessoa. Saber, acima de tudo, conviver e conformar-se com aquilo de que dispomos. Sermos realistas nas nossas abordagens e legítimas expectativas de vida, especialmente saber valorizar as pequenas coisas. Cultivar a gratidão pela vida e tudo aquilo que ela nos vai proporcionando – quer sejam coisas boas e más, uma vez que a felicidade consiste sobretudo neste binómio. Ser, igualmente, humildes, virtuosos, amorosos, solidários e pensar sempre no bem do próximo, bem como nunca se cansar de praticar boas acções. Afastar do mal e praticar sempre o bem, buscando a paz e reconciliação com tudo e todos à nossa volta. Eis, de forma abreviada, a definição e receita para a verdadeira felicidade. 



[1] John Stuart Mill, in Utilitarismo, p. 50 e 51, Editora, Gradiva, Lisboa, 2005.
[2] Miguel Nogueira de Brito, “As Andanças de Cândido [Introdução ao Pensamento Político do século XX, p. 19 e 20, Edições 70, Lisboa, 2009.
[3] História Crítica da Filosofia Moral e Política, p. 73, Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 2005.
[4] Palavra que na sua raiz etimológica significa empenho, consubstanciando a luta interior e exterior em nome de Alá.
[5] Legislação – o primado da lei islâmica face a qualquer tipo de Direito.
[6] Manuel Castells, O Poder Da Identidade [A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura], Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, p. 14.
[7] Comunidade de fiéis, em que todos são iguais na sua submissão perante Alá. 

O Que é a Felicidade?


A pergunta é bastante sugestiva e pertinente nos ansiosos, conturbados e depressivos dias que correm. Definir a felicidade é uma tarefa complicadíssima, visto que não é uma questão assim tão nítida e linear de abordar. Ela remete-nos concomitantemente para várias considerações dogmáticas, nomeadamente etimológicas, filosóficas, religiosas e culturais, para assim podermos holisticamente aferir com precisão o seu verdadeiro substrato axiológico. Apesar de todas essas diversas formulações e mundividências subjacentes em torno dela, é um facto universalmente assente e manifestamente incontestável que todas os seres humanos à face da Terra almejam e buscam afincadamente a felicidade como supremo bem, mesmo desconhecendo, na generalidade de situações, no que ela realmente consiste ou as vias mais correctas de encontrá-la. Esta legítima aspiração é notória na ênfase e primazia que as pessoas incansavelmente vão dando à felicidade no seu quotidiano, desdobrando-se no domínio pessoal, afectivo-amoroso, familiar, relacional, literário, musical, profissional, político e governativo. A felicidade faz parte do cardápio indispensável do ser humano. Sem ela a vida seria completamente monótona e não faria qualquer tipo de sentido, razão pela qual é a legítima meta de todos os seres humanos. 

A Questão do Livre-arbítrio


O livre-arbítrio é um termo bastante riquíssimo nos seus múltiplos significados etimológicos, filosóficos e teológicos que atraiu ao longo dos séculos. Talvez seja por esta razão que tem despertado o interesse dos grandes pensadores que marcaram profundamente a nossa História Universal. O debate sobre as implicações práticas do termo começou precisamente com Santo Agostinho de Hipona e demais filósofos coevos. Ganhou posteriormente mais relevo e projecção mediática com o Protestantismo do Séc. XVI e no pensamento escolástico de Guilherme de Ockham. Este, por sua vez, tal como dizia um ilustre desconhecido, “santificava” completamente a vontade humana e a liberdade individual em detrimento de qualquer tipo de realidade subjacentes ao ser humano. Com os moralistas do séc. XVII e XVIII tudo ficou diferente. O livre-arbítrio passou a ser objecto de rigorosa avaliação não apenas por aquilo que representa do ponto de vista humano-filosófico, mas também pelo fim que visa atingir em termos práticos e como este é atingido. É no âmbito destas maleáveis construções doutrinarias e dogmáticas que surgiu Immanuel Kant que veio relançar decisivamente o debate, rejeitando a priori a ênfase perfeccionista do conceito. Para Kant “a boa vontade não é boa por aquilo que promove ou realiza, pela aptidão para alcançar qualquer finalidade proposta, mas tão-somente pelo querer, isto é em si mesma, e, considerada em si mesma, deve ser avaliada em grau muito muito mais alto do que tudo o que por seu intermédio possa ser alcançado em proveito de qualquer inclinação, ou mesmo, se se quiser, da soma de todas as inclinações”[1]. Vai, com efeito, nesta ordem de ideias, traçar o conceito do “dever ser” como a única máxima de todo o conteúdo moral, concluindo peremptoriamente que qualquer acção que não seja revestida do “imperativo categórico” não passa de uma intenção meramente egoísta, desprovida de qualquer significado valorativo do ponto de vista humano-social. 

Da nossa parte, não se pode falar do livre-arbítrio sem primeiramente falar da liberdade, do voluntarismo e da autodeterminação. E falar destes três conceitos concomitantemente torna o problema ainda mais complexo e de difícil posicionamento, uma vez que envolve vários mistérios que, as mais das vezes, não conseguimos penetrar e, muito menos, decifrar na íntegra. Do livre-arbítrio e auto-determinação do Homem pode-se esperar tudo. Desde a aparente encarnação de excelentes virtudes morais, que consubstanciam as práticas de boas obras, até aos actos individualistas que visam unicamente mera auto-promoção, ou até mesmo, em circunstâncias anormais, de actos bárbaros contra o próximo e a Humanidade em geral. 

Confessamos publicamente aqui que somos bastante cépticos em relação à boa vontade humana. Não acreditamos minimamente nela, ou seja, na sua impoluta moralidade, razão pela qual nos identificamos plenamente com a concepção Calvinista da “depravação total” do Homem, que posteriormente veio a ser acolhida pelo excomungado Bispo de Ypres, Cornelius Jansen, conhecido doutrinalmente pelo “Jansenismo”, que consiste na limitação e impossibilidade do Homem só por si ter suficientes capacidades de praticar o bem na sua imaculada essência. Somente beneficiando da Graça Redentora de DEUS, através da morte expiatória do Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário, que o Homem tem a faculdade plena de poder praticar o bem. Por isso, seguindo a mesma esteira do pensamento, o Monargismo vai sustentar que a regeneração espiritual dos Homens depende exclusivamente do Espírito Santo, independentemente da boa vontade humana, diferentemente das teses do Sinergismo que faz a apologia da liberdade individual, defendendo que o Homem tem participação na obtenção da sua salvação e da graça Divina, através do Livre-arbítrio (um entendimento que é amplamente abraçado pelos círculos pentecostais e neo-pentecostais, através da influência teológica da corrente arminiana). 

O livre-arbítrio do Homem está inteiramente manchado pelo pecado original de Adão e Eva no início da criação no jardim do Éden (LER), levando-o a ficar bastante aquém do ideal da sua boa vontade. Se avaliarmos, cuidadosamente, ao ínfimo pormenor, todas as acções do Homem logo chegaremos à sábia conclusão de que ela está sempre viciada de egoísmo, contrapartidas, ganância, calculismo, hipocrisia, vaidade, auto-promoção, etc., sem prejuízo, obviamente, de se ter em conta nesta análise os pressupostos valorativos que as sociedades convencionam e traçam como o “modelo ideal” de “acções legítimas” a seguir nos relacionamentos com os terceiros. 

O livre-arbítrio do Homem, em suma, é completamente condicionado e submetido à manifesta vontade Divina. Não acreditamos na suficiência dele ao ponto de proporcionar ao Homem a libertação soteriológica, visto que está maculado, insistimos, tal como supra sustentamos.  É nestas indubitáveis formulações que entendemos e desenvolvemos a liberdade individual de cada ser humano, independentemente da sua raça, condição de vida ou estatuto social que vai ostentando na sua convivência diária (LER)


[1] Immanuel Kant, In Fundamentação da Metafisica dos Costumes, p. 23, Edições 70, Lisboa, Portugal, 2005. 

A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos

Faz hoje 20 anos sobre o desaparecimento físico do austríaco Karl Popper (1902-1994), considerado por muitos intelectuais como um dos grandes pensadores do séc. XX (LER)Ler a sua emblemática obra “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” é uma sensação única. 

A meu ver o socialismo marxista-leninista é pura utopia, tal como a sociedade idealizada por Tomás More. Os volumes de Lénine (Obras Escolhidas) e O Capital de Marx são obras cheias de ambiguidades e bastantes paradoxais nas suas concretizações práticas. Preconizam uma ideologia híbrida, completamente aversiva ao modelo liberal da sociedade que, como sabemos, trouxe imensuráveis ganhos à Humanidade no que toca aos ideais da Democracia, da Igualdade, da Justiça Social, da Liberdade, da Tolerância e da Propriedade Privada. 

Popper rejeitava, numa primeira abordagem, só mesmo numa primeira abordagem, o uso da violência, proclamando a tolerância nos domínios político, religioso e ético. No entanto, advertia, como meio de prevenção, que a sociedade aberta não é uma forma plena e garantida, antes comporta inimigos personificados nos nomes de Platão, Hegel e Marx, e nas ideias do historicismo, colectivismo e o naturalismo ético. E, de seguida, à luz deste entendimento, numa segunda fase, defender a tese de “paradoxo de tolerância” ou a não “tolerância ilimitada” com os intolerantes da sociedade aberta. Isto porque, segundo a formulação do insigne filosofo, “a tolerância ilimitada levará ao desaparecimento da tolerância. Se estendemos tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes, se não estamos preparados para defender a sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, juntamente com a tolerância”. 

Por isso, em última instância, concluía que “a verbalização de filosofias intolerantes devemos reservar o direito de suprimi-las, mesmo através de força; porque poderá facilmente acontecer que os intolerantes se recusem a ter uma discussão racional, ou pior, renunciarem a racionalidade, proibindo os seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são traiçoeiros, e responder a argumentos com punhos e pistolas. Devemos pois reservar o direito, em nome da tolerância, de não tolerar os intolerantes”. 

Este debate da tolerância ou não tolerância com os intolerantes não tem sido pacífico ao longo de várias décadas e tem sido objecto de infindas querelas ideológico-filosóficas nos círculos intelectuais. Julgo, na minha humilde opinião, que há limite para tudo na vida. Não se pode em nome da falsa tolerância legitimar ideais e modus vivendi que colocam em causa os superiores Princípios e Valores da sã convivência entre os seres humanos, sobretudo os valores do humanismo e da humanidade. 

A miscigenada sociedade aberta confronta-se com inúmeros inimigos – quer a nível interno como externo. Ali, desde logo, a relativização de grandes Princípios e Valores que outrora nortearam-na, máxime a sua identidade judaico-Cristã que há muito foi posta em causa, sem que nenhuma alternativa credível surgisse com suficiente consenso social para preencher o vazio das referências nas sociedades, somando isto às ideologias extremistas – tanto de Esquerda como de Direita – que têm vindo a crescer paulatinamente no seu seio. Aqui, a nível externo, a ameaça real vem mesmo do radicalismo islâmico e na parte dos seus lacaios que promovem desumanamente os actos macabros de terrorismo em nome da falsa “guerra santa”.

O Existencialismo Antropológico


Quando matuto nas grandes questões que afectam directa e indirectamente a Humanidade no seu todo, a minha mente projecta-se sempre em várias direcções, procurando encontrar respostas satisfatórias às múltiplas interrogações que vão inundando o meu pobre espírito. É um exercício cognitivo bastante aliciante e concomitantemente desafiante que, muitas das vezes, carrega o sentimento de impotência em compreender holisticamente os infindáveis mistérios subjacentes ao ser humano. 

A origem do Homem e a sua natureza (i)mortal, bem como o surgimento do mal no mundo, é toda coberta de arcanos que jamais conseguiremos penetrar do ponto de vista gnosiológico. Por isso, muitos dos reputados filósofos e pensadores ao longo da História precipitaram-se nas suas argúcias construções dogmáticas em torno da ontologia do ser humano, ficando bastante aquém da verdade objectiva. Tanto as concepções de Platão, René Descartes, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Søren Kierkegaard, e tantos outros, precisam ser reformuladas porque reduzem aquilo que é a teleologia do Homem, descuidando, máxime, a sua componente de "Imago Dei" graciosamente imputado nele aquando da sua impoluta criação no jardim do Éden. Infelizmente a sistemática querela doutrinária no seio do Cristianismo ofusca em larga medida o importantíssimo esclarecimento que se poderia fazer a esse nível, especialmente na mitigação de inúmeras dúvidas comummente enraizadas na mente das pessoas. 

O Homem é um ser composto por componente material e imaterial na sua complexa estrutura antropológica, razão pela qual é perfeitamente natural que surjam séries especulações erráticas a seu respeito. Além dessas inevitáveis buscas conceptuais, existem ainda outras realidades obnubiladas que podemos extrair e sublinhar, desde logo: por que razão se deu a existência do Homem? E porque é que é condenado a um destino fatalístico, que vai culminando com a sua prematura morte? Qual é a finalidade última da morte? Porquê que alguns Homens são bons e outros maus? O que acontecerá depois da consumação dos séculos? E a rotina da vida no além, para aqueles que piamente acreditam nela, como será? São estes e mais outros conjuntos de perguntas que me levam a concluir, de forma peremptória, que a problemática do existencialismo é uma questão imanente e simultaneamente transcendental. Ali, em relação à explicação do âmago de toda a funesta desgraça no Universo, prende-se com a deliberada desobediência do próprio ser humano no início da criação, dando origem aos incalculáveis anátemas que temos assistido ao longo dos tempos. Aqui, tal realidade somente se afere com a preciosa coadjuvação divina, habilitando-nos, ao mesmo tempo, a contrair antídotos necessários para combatê-la eficazmente. 

Por mais doutos que sejamos nunca encontraremos autêntica resposta a estas difíceis interrogações com a faculdade da razão, não obstante amiudamente cismarmos nelas. Isto porque elas unicamente se discernem espiritualmente, sob pena de tornarmos ainda mais complexo aquilo que por si só é de difícil compreensão. Este é o motivo pelo qual, apesar da aparente "objecção de consciência" inicial assinalada, acabo sempre por chegar à harmonia derradeira e reconciliar-me definitivamente com todas as minhas curiosidades, reticências, inquietações, dúvidas, frustrações, interrogações, ideias e ideais de vida. A minha convicta e inabalável fé no Eterno Jesus Cristo, o meu único Senhor e Suficiente Salvador, capacita-me a isso: a divisar sabiamente as problemáticas do existencialismo antropológico e, simultaneamente, encontrar resposta cabal de tudo o que existe e acontece no Universo criado pela obra das Suas Mãos. 

Banhos Públicos: Voluntarismo ou Autopromoção?


O Voluntarismo é um termo bastante rico nos seus múltiplos significados que atraiu ao longo dos tempos. Talvez seja esta a razão pela qual tem despertado o interesse dos grandes pensadores mundiais que marcam, e marcaram, profundamente a nossa História Universal. 

O debate sobre as implicações práticas do termo começou, precisamente, com Santo Agostinho de Hipona e demais filósofos coevos. Posteriormente, ganhou mais relevo e projecção com o Teólogo Escolástico Guilherme de Ockham, que "santificava" completamente a vontade humana, e concomitantemente a liberdade individual, em detrimento de qualquer tipo de realidades subjacentes ao ser humano. Com os moralistas do séc. XVII e XVIII ficou tudo diferente. O Voluntarismo passou a ser objecto de rigorosa avaliação, não apenas por aquilo que representa do ponto de vista filosófico, mas também pelo fim que visa atingir e como este é atingido. 

É no âmbito destas construções dogmáticas que surge Immanuel Kant, que veio relançar decisivamente o debate, rejeitando a priori a enfase perfeccionista do conceito. Para Kant "a boa vontade não é boa por aquilo que promove ou realiza, pela aptidão para alcançar qualquer finalidade proposta, mas tão-somente pelo querer, isto é em si mesma, e, considerada em si mesma, deve ser avaliada em grau muito muito mais alto do que tudo o que por seu intermédio possa ser alcançado em proveito de qualquer inclinação, ou mesmo, se se quiser, da soma de todas as inclinações" (In Fundamentação da Metafisica dos Costumes, pág. 23, Edições 70, Lisboa, Portugal, 2005). Com efeito, vai traçar o conceito do Dever Ser como a única máxima de todo o conteúdo moral, concluindo peremptoriamente que qualquer acção que não seja revestida do Imperativo Categórico não passa de uma intenção meramente egoísta, desprovida de qualquer significado valorativo do ponto de vista humano-social. 

Da minha parte, não se pode falar do Voluntarismo sem primeiro se falar do Livre-arbítrio e, consequentemente, da Autodeterminação (LER). E falar destes três conceitos em simultâneo torna o problema ainda mais complexo e de difícil posicionamento, uma vez que envolve vários mistérios e enigmas que, as mais das vezes, não conseguimos penetrar e muito menos decifrar. Do Livre-arbítrio e Autodeterminação do homem pode-se esperar tudo, desde a encarnação de excelentes virtudes morais, que traduzem as práticas de boas obras, até aos actos individualistas que visam apenas autopromoção, ou até mesmo, em circunstâncias anormais, de actos bárbaros. 

Vem todo este intróito a propósito dos banhos públicos. A grande questão que se coloca é a seguinte: será que a generalidade de pessoas que têm aderido em massa a esta nobre campanha de solidariedade e de sensibilização, mormente as figuras públicas, com vista angariar dinheiro em favor da associação ALS, que visa ajudar pacientes e investigadores no combate da doença esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida por Lou Gehrig, estão verdadeiramente a praticar um acto voluntário, ou um mero acto de autopromoção (LER)? A resposta desta pergunta não é nada pacifica. Há profundas divergências de opiniões sobre o assunto. E cada parte tem algum pano de verdade por detrás. Jamais conseguiremos aferir na íntegra onde acaba o Voluntarismo e começa a Autopromoção. É uma linha bastante ténue. 

Sem querer propriamente assumir uma posição no debate instalado, confesso que sou ainda mais céptico em relação à boa vontade humana. Não acredito minimamente nela, ou seja, na sua impoluta moralidade na prática dos actos. Razão pela qual me identifico plenamente com a concepção pré-determinista de João Calvino, da Depravação Total, posteriormente abraçada pelo bispo de Ypres, Cornelius Jansen, conhecido por Jansenismo, que consiste na impossibilidade do homem só por si ter suficientes capacidades de praticar o bem na sua imaculada essência. O Livre-arbítrio do homem, está inteiramente manchada pelo pecado original de Adão e Eva no início da criação no jardim do Éden, ao ponto dele ficar muito aquém do ideal da sua boa vontade. Se avaliarmos, cuidadosamente, no ínfimo pormenor todas as acções do homem, chegaremos à sábia conclusão de que ela está sempre viciada de egoísmo, realização pessoal, calculismo, vaidade, autopromoção e outros adjectivos pejorativos que se lhes pode aplicar, sem prejuízo, obviamente, de se ter em conta os pressupostos valorativos que as sociedades convencionam e traçam como modelo a seguir nos relacionamentos que as pessoas vão desenvolvendo uns com os outros ao longo da transitória vida terrena, que podemos apelidar de acções legítimas (LER)

Sobre a verdadeira motivação das pessoas que estão aderir os banhos públicos há um facto indesmentível que importa salientar, quer queiramos, quer não: o desafio lançado com intuito de ajudar a causa da esclerose lateral amiotrófica tem tido um impacto mediático universal positivo. Não interessa se as pessoas que aderiram a proeza estão a fazê-la com intuito de ajudar a referida causa, ou estão, tão-simplesmente, a querer dar nas vistas por outras razões ocultas, desde que isso não prejudique o trabalho  que se propõem fazer. E parafraseando o Molomil, o que importa são os resultados. Se, no terreno, a autopromoção fizer algo de bom por quem precisa, então, viva a autopromoção (LER)

A Problemática do Existencialismo


Quando penso nas grandes questões que afectam directa e indirectamente a Humanidade no seu todo a minha mente projecta-se sempre em várias direcções, procurando encontrar respostas satisfatórias às múltiplas interrogações, que vão inundando o meu pobre espírito. É um exercício cognitivo bastante aliciante e concomitantemente desafiante que, muitas das vezes, carrega o sentimento de impotência em compreender holisticamente os infindáveis mistérios intrínsecos ao ser humano. 

A origem do Homem e a sua natureza (i)mortal, bem como o surgimento do mal no mundo, é toda coberta de arcanos que jamais conseguiremos penetrar do ponto de vista gnosiológico. Por isso, muitos filósofos e pensadores ao longo da História precipitaram-se nas suas argúcias construções dogmáticas em torno da ontologia do ser, ficando bastante aquém da verdade objectiva. Tanto as concepções de Platão, René Descartes, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Søren Kierkegaard, e tantos outros, precisam ser reformuladas porque reduzem aquilo que é a teleologia do Homem descuidando, sobretudo, a sua componente de "Imago Dei" graciosamente imputado nele aquando da sua impoluta criação no jardim do Éden. A sistemática querela doutrinária no seio do Cristianismo ofusca, no entanto, em larga medida, o importantíssimo esclarecimento que se poderia fazer a esse nível, especialmente na mitigação de inúmeras dúvidas comummente enraizadas na mente de muita boa gente. 

O Homem é um ser composto por componente material e imaterial no seu substrato, razão pela qual é perfeitamente natural que surjam inúmeras especulações equivocadas a seu respeito. Além dessas incessantes buscas conceptuais, existem ainda outras realidades obnubiladas que podemos extrair e sublinhar, desde logo: por que razão se deu a existência do Homem? E porque é que é condenado a um destino fatalístico, que vai culminando com a sua prematura morte? Qual é a finalidade última da morte? Porquê que alguns Homens são bons e outros maus? O que acontecerá depois da consumação dos séculos? E a rotina da vida no além, para aqueles que piamente acreditam nela, como será? São estes e mais outros conjuntos de perguntas que me levam a concluir, de forma peremptória, que a problemática do existencialismo é uma questão imanente e ao mesmo tempo transcendental. Ali, em relação à explicação do âmago de toda a funesta desgraça no Universo, prende-se com a deliberada desobediência do próprio Homem no início da criação, dando assim origem aos incalculáveis anátemas que temos assistido ao longo dos tempos. Aqui, tal realidade somente se afere com a coadjuvação divina, habilitando-nos, deste modo, a contrair antídotos necessários para combatê-las eficazmente. 

Por mais doutos que sejamos nunca encontraremos autêntica resposta a estas difíceis interrogações com a faculdade da razão, não obstante amiudamente cismarmos nelas, porque elas unicamente se discernem espiritualmente, sob pena de tornarmos ainda mais complexo aquilo que por si só é de difícil compreensão na mente humana. Este é o motivo pelo qual, apesar da aparente "objecção de consciência" inicial assinalada, acabo sempre por chegar à harmonia derradeira e reconciliar-me com todas as minhas curiosidades, inquietações, reticências, dúvidas, frustrações, interrogações, ideias e ideais. A minha convicta e inabalável fé no Senhor Jesus Cristo, o meu único e Suficiente Salvador, capacita-me a isso: a divisar sabiamente as problemáticas do existencialismo e encontrar resposta correctas de tudo o que existe e acontece no Universo criado pelo Todo-poderoso DEUS. 

A Morada Final das Almas Virtuosas


«Ora, é por estes motivos que acabo de vos expor, Símias, que devemos dar tudo para participar nesta vida da virtude e da razão: é que a recompensa é bela, e grande a esperança! Claro que insistir ponto por ponto na veracidade desta narrativa não ficaria bem a uma pessoa de senso; mas sustentar que as coisas se passam mais ou menos desta forma, no que respeita às almas e suas moradas, uma vez que se reconhece que alma é imortal, eis o que, a meu ver, não só fica bem como vale a pena arriscar (e, com efeito o risco é belo…), quando assim se crê; convém, pois, que cada um de nós dirija a si mesmo encantamentos destes, e, justamente por isso, me alonguei tanto nesta minha história. 

Estas, pois, as razões por que deve confiar no destino da sua alma todo aquele que, durante a vida, disse adeus aos prazeres do corpo e aos seus adornos; que, considerando-os de um efeito mais nocivo do que benéfico, se empenhou, pelo contrário, em alcançar os prazeres da sabedoria, em adornar à sua alma, não com adornos alheios a ela, mas com aqueles que lhe são próprios – isto é, temperança, justiça, coragem, liberdade e verdade – e, nestas condições, aguarda a viagem para o Hades [e se prepara para empreender quando a sua hora soar]. Vós dois, Símias e Cebes, e bem assim todos os outros, lá ireis ter depois, cada um a seu tempo. Por mim, eis já chegada a minha hora, como diria um herói trágico, e pouco mais me resta do que ir para o banho: Julgo, com efeito, preferível fazê-lo antes de beber o veneno e poupar assim as mulheres ao incómodo de lavarem um cadáver (…). E dizendo isto, segurando a taça com a mesma naturalidade e serenidade de espírito, despejou-a de um só trago. Nós, que de há algum tempo a essa parte ainda conseguíamos, mais ou menos, reter o pranto, quando o vimos beber até ao fim, não pudemos mais: a mim, pelo menos, as lágrimas corriam-me perdidamente, a ponto de esconder o rosto para chorar à vontade – não por ele, decerto, mas pela desgraça de ficar, eu, privado de um companheiro como este! Críton, ainda primeiro do que eu, incapaz de conter as lágrimas, levantou-se e saiu. Quanto a Apolodoro, que já antes não deixara de chorar, esse soltava rugidos tais, por entre lágrimas e lamentações, que, ao ouvi-lo, não havia ninguém a quem não se partisse o coração – exceptuando, naturalmente, o próprio Sócrates, que exclamou: – Mas que é isto, meus caros?... Que estão a fazer? Eu, se mandei sair as mulheres, não foi por outro motivo – para que não perturbassem … Sempre ouvi dizer que se morrer em serenidade. Sosseguem e dominem-se. (…) E já praticamente toda a região do ventre estava gelada quando Sócrates, descobrindo o rosto – pois tinha-o, com efeito, coberto – , disse estas palavras, as ultimas que proferiu: – Críton, devemos um galo a Asclépio… Paguem-lhe, não se esqueçam! – Assim se se fará – assegurou Críton. – Vê se tens mais alguma coisa a dizer… A esta pergunta já nada respondeu. Passado pouco tempo, estremeceu e o homem descobriu-lhe o rosto: Tinha o olhar fixo. Vendo isto, Críton fechou-lhe a boca e os olhos.» 

E foi este, Equécrates, o fim do nosso amigo – o homem que, poderíamos dize-lo, foi, de todos com quem privámos, o mais excelente, e também o mais sensato e o mais justo.» 

(Platão [Fédon – Texto Integral], Lisboa Editora, Portugal, págs. 118, 119, 122, 123, 2004). 

Uma Vida com Propósitos


Somos nós que construímos o mundo à nossa volta. E fazemo-lo de acordo com os Princípios e Valores que transmitimos no círculo de convivência diária em que estamos inseridos. Além de sermos os principais responsáveis por aquilo que idealizamos e concretizamos, somos da mesma sorte o produto da nossa finita existência naturalista que consubstancia a condição humano-social. O Homem é um ser bastante complexo, composto por enigmas praticamente impenetráveis do ponto de vista gnosiológico. Um autêntico mistério por descodificar. Por haver essas obscuridades subjacentes à sua estrutura antropológica torna bastante difícil precaver infalivelmente o comportamento padrão que é capaz de levar a cabo no seu domínio de influência. O ser humano é um produto de imprevisibilidade – tanto no bom como no mau sentido. E tudo isto acarreta, de facto, agravantes consideráveis a nível da sua personalidade e trato interpessoal que vai tendo com os terceiros (LER)

Para compreendermos, em parte, os paradoxos intrínsecos ao Homem é necessário prima facie um estudo aprofundado sobre a sua genealogia, mundividência, aspiração e o destino final que lhe é reservado. São grandes questões que permitem extrair parcialmente de onde veio e para onde vai e o porquê desta trajectória aparentemente predestinada que tem obrigatoriamente que percorrer neste tenebroso mundo. Tendo presente tais importantes realidades é um meio caminho andado na descoberta da verdade sobre os mistérios envolventes aos comuns dos mortais. Somente conhecendo de antemão a sua personalidade é que o Homem consegue libertar-se das amarras da vida e simultaneamente triunfar. Tal proeza, no entanto, apenas se alcança através da adopção de hábitos sóbrios e vigilantes, adaptando-se progressivamente às constantes adversidades que vão surgindo pelo caminho, procurando obter a perfeição numa vida de tamanhas contradições e contrariedades. Por isso somos desafiados pelos antigos a nos conhecermos a nós mesmos, com o intuito de responder satisfatoriamente aos condicionalismos da madrasta vida e, deste modo, atingirmos os nossos legítimos sonhos. 

O Homem não se limita apenas às complexidades acabadas de se mencionar. Ele ainda é um ser visceralmente antinómico. Como corolário disto depara-se com duas grandes opções de escolha a tomar durante a sua trajectória neste "vale de lágrimas": (1) perfilhar uma vida regrada recheada de valores axiológicos tais como o Amor ao Próximo, a Bondade, a Misericórdia, a Solidariedade, a Temperança, a Humildade e o Bom senso, etecetera; ou (2) a opção de enveredar pelo desregramento ético-moral que se traduz em dissolução, concupiscência, ganância, egoísmo, rivalidade, homicídio e um cúmulo de decadências sem fim à vista. O ser humano é composto por este binómio de antagonismos existenciais, lutando permanentemente consigo. Cabe-lhe, pois, a faculdade do livre-arbítrio para decidir a opção que queira filiar na sua rotina diária. Se preferir a opção do Bem estará automaticamente a superar-se a si próprio e a reconstruir saudavelmente o seu percurso de vida de forma sábia, ordeira, justa, irrepreensível e progressista, culminando assim nas Bem-aventuranças eternas. Diferentemente, se optar pelo engodo do Mal, está sem margem para dúvidas, a atrair sobre si todas as desgraças mundanais e a ficar muito aquém daquilo que deveria ser o seu ideal testemunho de vida. 

A primeira eleição representa a Paz e a segunda a Guerra. A Paz no pensar e no exteriorizar os sentimentos que terão reflexos saudáveis na vida do próprio, bem como na dos seus semelhantes. A consequência de tal sensata postura é ser bastante útil à sociedade, fazendo-a sempre o bem, independentemente da gratidão ou ingratidão que possa advir da sua boa acção (LER). É um caminho direccionado, em última instância, para uma vida com nobres propósitos e feliz. Ao passo que a Guerra gera inimizades e ódio que, por sua vez, vão criando estropícios inimagináveis na vida do próprio e na dos terceiros. É um caminho sombrio que conduz à prisão da alma, uma vez que o homem é escravo daquilo que o domina. O resultado final é a perdição eterna. 

A dualidade da Guerra e da Paz emana da natureza do Bem e do Mal intrinsecamente ligados ao Homem. Obviamente que é mais fácil praticar as más acções do que o Bem. Não somos ensinados a fazer o mal. Ele está enraizado no nosso ADN desde a concepção, razão pela qual estamos constantemente a transgredir as regras pré-estabelecidas. O equilíbrio da vida bem-sucedida está em purificar-se das vaidades do mundo. Saber, sobretudo, agir e viver honestamente. Os Princípios e Valores ético-morais que nos são ensinados na família, na igreja, na escola, no relacionamento que vamos fazendo e na sociedade em geral, só por si não chegam. Não nos levam a lado algum, caso houvesse indolência da nossa parte. É preciso uma postura proactiva com vista a adoptar os melhores ensinos que, certamente, terão um impacto positivo na nossa convivência.

Tudo isto para concluir peremptoriamente que somos nós que construímos o mundo e delineamos o nosso destino final, através do caminho que deliberadamente escolhemos. Uma vereda que pode ser de conformismo, insensibilidade, prepotência e de auto-destruição no caso de nos acomodarmos e deixarmos a tendência do mal, que está profundamente enraizada em nós, triunfar. Ou podemos, inversamente, optar pelo caminho da Resiliência, Verdade, Humildade, Justiça, Paz, Amor e Reconciliação. Só incorporando estas excelentes virtudes ético-morais é que o Homem consegue reassumir vigorosamente a sua outrora condição original perdida, isto é, viver em harmonia consigo próprio e com tudo e todos à sua volta. Pode, muitas vezes, resvalar no clima das incertezas e no desânimo presentâneo mas nunca perderá definitivamente o horizonte e o objectivo último da sua real existência: que é viver para o Bem e somente o Bem-fazer. Eis a verdadeira e plena felicidade!