Celebra-se hoje a
Páscoa, razão pela qual me sinto compelido, no bom sentido do termo, a
partilhar convosco uma brevíssima reflexão sobre “A Páscoa de Cristo à Luz da
Teologia da Salvação”, isto é, no processo de redenção da humanidade.
Desde logo, importa
dizer que o Senhor Jesus Cristo veio a este mundo e viveu verdadeiramente como
homem, participando da nossa condição humana, embora sem pecado (2 Co 5:21).
Porém, quando faltava pouco tempo para passar desta vida para a eternidade, o
Senhor Jesus Cristo tomou a firme decisão de ir a Jerusalém (Lc 9:51).
Não se tratava de uma
decisão qualquer ou leviana, mas de uma resolução consciente, esclarecida e
profundamente determinada, pois implicava a sua humilhação, sofrimento e morte.
Ainda assim, o Senhor Jesus Cristo não desfaleceu no ânimo; antes, avançou firmemente
para cumprir a vontade do Pai. Foi assim que o Senhor Jesus Cristo entrou
triunfalmente em Jerusalém, enquanto a multidão lhe rendia o devido louvor,
clamando: “Hosana!
Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino do nosso pai Davi, que vem
em nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mc 11:9-10).
Passados poucos dias,
porém, o Senhor Jesus Cristo confrontou-se com a dura realidade: foi preso,
açoitado, humilhado e morto na cruz do Calvário (Lc 23:33). Contudo, ao
terceiro dia ressuscitou dentre os mortos e manifestou-se com provas
irrefutáveis, assinalando este grande marco da história do cristianismo (Mt
28:5-7).
Por essa razão, este
acontecimento central foi narrado nos quatro Evangelhos – Mateus, Marcos, Lucas
e João. O apóstolo Paulo, de forma ainda mais aprofundada, desenvolve esta
verdade em 1 Coríntios 15, salientando que, sem a ressurreição, vã seria a
nossa fé; a fé cristã estaria desprovida de sentido, fundamento e esperança (1
Co 15:12-23). Mas nós sabemos e proclamamos que Jesus Cristo ressuscitou dos
mortos. Ele é a esperança viva de todos aqueles que nele esperam (1 Co 15:20; Mc
16:6; Jo 11:25-26; Rm 10:9).
É também importante
traçar o paralelismo entre o Senhor Jesus Cristo e o homem caído, representado
em Adão. O primeiro homem, Adão, desejou ser como Deus. Inflamou-se na soberba,
no orgulho e na pretensão de igualdade com o Criador. Como consequência, foi
humilhado: destituído da glória original da sua criação, expulso do Jardim do
Éden e submetido à morte (Gn 3:16-23). Jesus Cristo, porém, sendo Deus, não se
apegou egoisticamente aos privilégios da sua glória. Antes, como afirma a
Escritura, “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:7-8).
Por isso, “Deus o
exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao
nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e
toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl
2:9-11).
Vemos aqui um profundo
contraste entre Adão e Cristo. Adão quis exaltar-se e foi humilhado. Cristo
humilhou-se voluntariamente e foi exaltado. Adão procurou elevar-se pela
desobediência (Gn 3:5-6; Cristo foi elevado pela obediência perfeita (Gn 3:5-6).
Adão trouxe condenação e morte (Rm
3:23; 5:12-15); Cristo trouxe justificação e vida eterna (Gl 2:16; Rm 5:1-2).
Eis uma grande lição
para nós: o caminho para o verdadeiro crescimento espiritual e para a comunhão
com Deus não passa pelo orgulho, pela arrogância ou pela exaltação pessoal.
Pelo contrário, passa pela humildade. Como o próprio Senhor ensinou: “Porquanto
qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se
humilhar será exaltado” (Lc 14:11; Mt 23:12).
Jesus Cristo foi
exaltado acima de todos os nomes, e toda a humanidade – os que já partiram, os
que vivem hoje e os que ainda hão de vir – reconhecerá um dia o seu senhorio
(Fl 2:11). Uns para salvação e vida eterna (Mt 25:32-34; Ap 7:14); outros para
juízo, por terem rejeitado a graça durante a sua peregrinação terrena (Mt
25:41).
Todavia, apesar de
todas as vicissitudes da paixão, o Senhor Jesus Cristo ressuscitou. Ele é a
esperança e a certeza de todos os que nele confiam. Sem a ressurreição do
Senhor Jesus Cristo, a fé bíblica não teria fundamento. A ressurreição
constitui o alicerce, a garantia e a esperança da nossa fé. Cristo é a
esperança de todos aqueles que existiram, existem e existirão; dos que creram
no passado, dos que hoje abraçam a fé e dos que no futuro ainda se renderão ao
Evangelho.
Mas tudo isto
confronta-nos com um desafio: renunciar a nós mesmos, tomar a nossa cruz e seguir
determinadamente Jesus Cristo todos os dias (Lc 9:23). Isto implica abandonar o
ego, rejeitar os prazeres pecaminosos, a corrupção e a maldade deste mundo (1 Pd
2:1-2), para nos convertermos sinceramente a Deus. Só assim demonstramos que “nascemos
de novo”, que somos filhos de Deus e que fomos transformados pela sua graça (Rm
12:1-2). Essa obra realiza-se em nós pela acção do Espírito Santo (1 Co 12:3; Rm
8:11; Ef 1:13-14; Tt 3:5), embora também exija da nossa parte uma disposição
sincera para corresponder à mensagem salvífica da Boa Nova (Rm 10:8-11).
Essa mensagem centra-se
na encarnação, vida, morte e ressurreição gloriosa do Senhor Jesus Cristo.
Sabemos que Jesus Cristo morreu e ressuscitou ao terceiro dia (Mt 28:6). A
morte não teve domínio sobre Ele (At 2:24). Aquele que durante o seu ministério
ressuscitou mortos (Mc 5:35-43; Jo 11:1-45), também ressuscitou pelo poder de
Deus, vencendo definitivamente a morte (Rm 6:9; Hb 2:14-15). Por outras palavras,
tal como escreve o Apóstolo Paulo, o Senhor Jesus Cristo “não só destruiu a
morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm
1:10).
Por isso, somos
chamados a confiar nesta mensagem salvífica, a entregar o coração ao Senhor
Jesus Cristo e a permitir que a verdade da ressurreição transforme a nossa
vida. Somos igualmente chamados a anunciá-la àqueles que estão ao nosso redor
(Mt 28:18-20).
Que Deus nos abençoe,
que Deus nos ajude a interiorizar estas verdades e, acima de tudo, a vivê-las
diariamente.
Jesus Cristo
ressuscitou. Ele é a certeza e a esperança da nossa fé. Aleluia! Aleluia!
Aleluia!