Partilho aqui este excerto da minha pregação sobre “Saber
Discernir o Tempo em Que Vivemos” (Mateus 24:1-14). Procurei abordar os
pressupostos teológico-doutrinários da segunda vinda do Senhor Jesus Cristo,
nomeadamente no que toca à manifestação da Graça de DEUS pelos eleitos para a
salvação; a pregação do Evangelho para todas as nações; a grande tribulação;
apostasia dos últimos dias; a depravação moral; o surgimento da figura do
anti-Cristo; a proliferação de guerras em todas as dimensões, etc.
Tenha um proveito na visualização e auscultação do
vídeo.
Partilho aqui o vídeo
que gravei hoje no final da tarde sobre “A Morte do Papa Bento XVI e o Seu Legado
Religioso”. Tenha um bom proveito na sua visualização e auscultação.
Assinalam-se hoje os 505 anos da data oficial daquilo
que mais tarde ficou célebre na história moderna como a “Reforma Protestante”.
Foi precisamente no dia 31 de Outubro de 1517 que o inconformado teólogo
Martinho Lutero afixou as suas 95 teses na porta da basílica do castelo de
Wittenberg, na Alemanha, distanciando-se completamente das práticas heréticas
reinantes no seio da Igreja Apostólica Romana, vincando a inquestionável
primazia das Escrituras Sagradas em todas as esferas da vida Cristã. Em
consequência disso, insurgiu-se intrepidamente contra a profana prática da
indulgência, o culto mariano, a infalibilidade da autoridade papal, a veneração
dos santos, o ecumenismo teológico, a interpretação lato sensu das Escrituras
Sagradas e toda a sorte de idolatria e corrupção associada ao catolicismo ao
longo dos séculos. Deste modo, ofereceu aos fiéis Cristãos um “novo paradigma”
bíblico centralizado exclusivamente na pessoa do Senhor Jesus Cristo e na Sua
obra expiatória na Cruz do Calvário em favor da humanidade outrora decaída.
Para o teólogo alemão isto resume-se em cinco grandes
imperativos salvíficos, a saber: somente a fé, somente a Escritura, somente a
Cristo, somente a graça e somente a DEUS a glória devida como únicos meios
intrínsecos, indispensáveis e irrenunciáveis para levar o homem ao pleno
conhecimento da verdade redentora e, consequentemente, à sua salvação.(VER).
Com a Reforma Protestante, a Igreja ganhou uma outra
dinâmica na forma de conceber a Fé bíblica e encarar a santidade da vida
Cristã, sobretudo na democratização e expansão do Cristianismo pelo mundo. Os
teólogos protestantes desdobraram-se incansavelmente em traduzir a Bíblia
Sagrada por diversas línguas, com o intuito de habilitar todos os crentes a
poderem lê-la directamente na sua própria língua, sem qualquer tipo de intermediário
humano, cumprindo assim a máxima do Novo Testamento do “sacerdócio universal”
(1Pd 2:9-10). Esta realidade reformada e reformista ganhou ainda enfâse mais acentuada
com o surgimento dos movimentos carismático-pentecostais nos finais do séc.
XIX, coadjuvados posteriormente com as mobilizadoras e poderosíssimas campanhas
evangelísticas de Billy Graham, catapultando um boom bastante acentuado a nível
da aderência massiva à salvífica mensagem do Evangelho, principalmente dos
sectores mais desfavorecidos e humildes da sociedade que, até então, não se
reviam tanto no protestantismo elitista dos círculos mais tradicionais da
Reforma Protestante.
Hoje graças aos significativos esforços missionários
destes homens e mulheres de DEUS, o protestantismo evangélico está consolidado
nos quatro cantos do mundo – e com a previsão de continuar a crescer
paulatinamente nos próximos anos, décadas e séculos. A Igreja do Senhor Jesus
Cristo vai continuar a ser “sal e luz do mundo” que tanto carece da graça, o
amor, a paz e o perdão de DEUS, para combater ousadamente o ateísmo, o
relativismo, o materialismo, o paganismo, o fanatismo religioso e todo o tipo
de malignidade que abafa e controla desgraçadamente este maldito mundo.
Volvidos quase estes cinco séculos da pertinente
Reforma Protestante, e vendo holisticamente a realidade espiritual das igrejas
nos dias que correm, ainda ficam bastante aquém daquilo que deveria ser o seu
ideal bíblico à imagem e semelhança de Cristo. A Igreja continua a
confrontar-se com seríssimos e preocupantes desvios doutrinários. A começar,
desde logo, por todos eles, com a incongruência no testemunho Cristão, a
descomprometida e corrupta liderança que promovem escândalos espirituais no
seio dela, o racionalismo e liberalismo teológico, o secularismo da fé e o
evangelho da prosperidade, a letargia missionária e o indecoroso ecumenismo
bíblico. Tudo isto, em suma, consubstancia uma autêntica crise de fé em que a
igreja infelizmente está submergida, colocando em causa os sublimes Princípios
e Valores das Escrituras Sagradas(VER).
Esperamos, de facto, que o nosso Todo-poderoso DEUS
continue a levantar homens e mulheres devidamente comprometidos com a Sua Santa
Palavra para oferecerem a esperança e salvação ao mundo perdido, tal como fez
outrora com Lutero, Swinglio, Calvino, Simons e tantos outros anónimos heróis
da fé ao longo da história do Cristianismo, para conduzir a Sua amada Igreja na
prossecução da sua sagrada missão aqui na terra que é, acima de tudo,
evangelizar e ganhar muitas almas para o Reino de Cristo. Que assim seja. Assim
sempre será pela fé no Salvador Jesus Cristo.
“Bendito seja Deus que
faz com que a vitória de Cristo seja vista também nos nossos trabalhos. Por
nosso intermédio vai Deus espalhando por toda a parte o perfume do conhecimento
de Cristo. Nós somos como o aroma de Cristo para Deus, tanto para os que se
salvam como para os que se perdem. Para uns este perfume é mortal: leva-os à
morte; para outros é perfume de vida: dá-lhes a vida. Quem é que estará à
altura de uma tal missão? Nós não somos como muitos outros que fazem negócio
com a palavra de Deus. Nós falamos com sinceridade diante de Deus que nos
enviou, em união com Cristo.
Será que com isto estamos outra vez a
elogiar-nos a nós próprios? Porventura temos necessidade, como alguns têm, de
pedir que nos passem cartas de recomendação ou de vo-las enviar da nossa parte?
A nossa carta de recomendação são vocês mesmos. É uma carta escrita no nosso
coração e que pode ser lida e conhecida por todos. É evidente que vocês são uma
carta de Cristo que nos foi confiada. Foi escrita, não com tinta, mas com o Espírito
do Deus vivo. Não uma carta gravada em pedras, mas em corações humanos.
Temos esta certeza em
Deus por meio de Cristo. Não queremos com isso mostrar que é pela nossa
capacidade que fazemos estas coisas. Pelo contrário, a nossa capacidade vem de
Deus. Ele é que fez com que nós pudéssemos estar ao serviço da nova aliança.
Não é uma aliança fundada na lei escrita, mas no Espírito de Deus. Pois a lei escrita
produz morte; o Espírito é que dá vida[1]”.
[1] (Apóstolo Paulo, in
A Bíblia Sagrada, 2 Coríntios 2:14-17; 3:1-6, Versão, A Boa Nova Em Português
Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004).
Partilho convosco, mais
uma vez, caros leitores, o vídeo que gravei intitulado “A Questão do
Carnivorismo e do Vegetarismo à Luz das Escrituras Sagradas”(LER). Esta reflexão, tal como as últimas que tenho feito aqui, vem na sequência da
celebração do décimo quarto aniversário deste espaço – “As Verdades”(LER).
A temática
da “doutrinação alimentar” tem ganhado nas últimas três décadas um
destaque cimeiro praticamente em todas as culturas e sociedades, entrando também
esta problemática na hermenêutica bíblica. Até aqui nada de anormal ou mal. É bastante
pertinente que os filhos de DEUS tenham as noções fundamentais sobre alimentação
e adoptem, com isso, nas suas rotinas diárias, hábitos alimentares equilibro-balanceados,
tal como sadiamente prescrevem as Escrituras Sagradas, evitando deliberadamente
cair no pecado de comezainas e glutonarias que afectam drasticamente a saúde
física, mental e espiritual do corpo – o templo do Espírito Santo. O problema
prende-se máxime com o facto de alguns teólogos extrapolarem na sua exegese
bíblica, veiculando equivocamente que no início da criação o propósito original
de DEUS para o Homem era que ele perfilhasse exclusivamente as dietas vegetarianas
no seu cardápio diário, sustentando esta tese com base em Génesis 1:30. O
referido texto versa da seguinte forma: “Deus continuou: «Dou-vos todas as
plantas que produzem semente e que existem em qualquer parte da terra e todas
as árvores de fruto, com a sua semente própria. É isso que devem comer”. Só posteriormente, formulam ainda os tais teólogos, que o Homem passou a incorporar o mundo animal na sua alimentação”(Génesis 9:3).
Da nossa
parte, refutamos manifestamente este entendimento redutor. Não comungamos dele.
Jamais podemos subscrevê-lo, uma vez que não tem qualquer tipo de suporte ou
acolhimento bíblico. O preceito sagrado em apreço, circunscreve uma sugestão
meramente facultativa de DEUS para com o Homem e não vinculo-imperativa. Isto
porque tudo aquilo que DEUS tinha criado era muito bom (Génesis 1:31) e
não havia qualquer problema que o Homem desfrutasse daquilo que achasse mais
conveniente para a sua alimentação quotidiana, excepto “a árvore do
conhecimento do bem e do mal”(Génesis 2:9). No dia em que dela
comer, advertia peremptoriamente o Eterno Jeová, fica condenado a morrer (Gênesis
2:17). Do resto, o Homem podia perfeitamente comer de tudo, uma vez que
tudo estava sob o seu domínio, inclusive a carne, “pois tudo aquilo que Deus
fez é bom. E nada merece desprezo, se nos servirmos disso dando graças a Deus.
Com a oração e a palavra de Deus, tudo fica santificado (1 Timóteo 4:4-5).
E mais, logo
depois da queda do Homem no jardim do Éden, DEUS planeou salvá-lo dos seus
pecados, proporcionando-lhe concomitantemente as túnicas de peles para vesti-lo
com vista a ocultar a sua nudez do pecado (Génesis 3:9-24). O sacrifício
de alguns animais fora preciso para tal providência Divina, tal como ficou
implicitamente em Génesis 3:21. Para alguns biblistas isto significava a
providência de DEUS por meio do Messias em face da Sua obra redentora na Cruz
do Calvário. O Todo-Poderoso DEUS vai usar assim, desta forma, um animal para
concretizar os seus soberanos propósitos salvíficos para com a Humanidade outrora
decaída. Animal este que, em última instância, representa o Senhor Jesus Cristo
e o Seu sacrifício expiatório na Cruz do Calvário, simbolizado no pão e no
vinho da Santa Ceia do Senhor, que todos precisam comer e beber para alcançarem
realmente a salvação (Mateus 26:26-30; 1 Coríntios 11:23-26). “Aquele que come o meu corpo e bebe o meu
sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois o meu corpo
é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer o meu corpo
e beber o meu sangue vive unido a mim e eu a ele”, formula o Senhor Jesus
Cristo aquando da Sua encarnação (João 6:54-56). A carne sempre fez
parte dos hábitos alimentares dos seres humanos desde os primórdios, estendendo
tal realidade até aos dias coevos e projectando-se na eternidade, através da
festa das “bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19-7-10), obviamente numa
outra dimensão alimentar, isto é, a espiritual.
Naturalmente
que, depois da queda do Homem no Jardim do Éden, toda a natureza ficou
deteriorada por causa do pecado original. Perdeu-se significativamente o
brilho, a perfeição e a harmonia inicial que havia no universo, ficando a terra
amaldiçoada por causa de Adão e Eva, passando também a produzir espinhos e
cardos (Génesis 3:17-19). Por isso, nesta mesma esteira do pensamento, “sabemos
que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não
só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em
nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Romanos
8:22-23), razão pela qual, “segundo a sua promessa, aguardamos novos
céus e nova terra, em que habita a justiça” (2 Pedro 3:13). O Homem ficou
drasticamente atingido pelo cancro do pecado, bem como pelo universo e tudo o
que nele há, criando assim um desequilíbrio estrutural na natureza sem
precedentes. E justamente por isso, a comida que extraímos na natureza para
comermos encerra fungos, parasitas, bactérias e vírus perniciosos à saúde. Da
mesma forma, o ar que respiramos está também poluído e contaminado,
independentemente de acção directa do Homem, tal como temos vindo a assistir mais
acentuadamente nos últimos séculos, mormente com a revolução industrial do séc.
XVIII. Toda a obra da criação passou a ser significativamente contaminada pelo
vírus do pecado, fazendo com que as coisas que precisamos para a nossa
sobrevivência sejam susceptíveis de criar-nos danos colaterais na nossa saúde
físico-mental. E esta realidade se aplica também em dimensões alimentares,
infelizmente. Somente a comida vegetariana não dispõe de nutrientes suficientes
para garantir uma boa saúde. Da mesma forma, a dieta exclusiva do mundo animal está
desprovida de garantir a uma pessoa a estabilidade desejada a nível da sua saúde.
Mesmo conjugadas as duas dietas no cardápio alimentar, elas continuam a ficar
bastante aquém daquilo que realmente o nosso organismo espera, tendo em conta a
contaminação que ambas incorporam, por causa do “pecado original”,
insistimos.
No início
da criação o Homem tinha toda a liberdade para comer aquilo que lhe aprouvesse,
exceptuando a árvore do conhecimento do bem e do mal. Não havia “exclusão”
dele optar pelo carnivorismo, tal como sustentam erradamente alguns teólogos.
Ele podia perfeitamente adoptar unicamente a comida do mundo animal, bem como
optar somente pelo vegetarismo ou, inclusive, conjugar os dois regimes alimentares
na sua dieta, pois tudo o que DEUS tinha feito era bom e não havia qualquer
tipo de inconveniências, desequilíbrios, falta, vírus, aversões e malignidade
na obra da criação. Foi o pecado que trouxe todos estes cancros no mundo,
criando assim patentes inimizades entre o Homem e a natureza, culminando funestamente
com a morte.
Mesmo assim, o Omnipresente JEOVÁ delineou o
projecto da salvação desde a eternidade, partilhando-o com a Humanidade. Nesta
partilha evidenciou aquilo que era a condição original que se esperava do Homem
– tanto a nível da sua imaculabilidade espiritual, moral, ética e forma de
viver e consequentemente cuidar do seu próprio corpo. E neste último ponto, tal
como se pode verificar nos textos sagrados sobre as ofertas alçadas ao SENHOR
que reflectem o processo da salvação, estavam incluídas as ofertas da vertente
vegetariana e também do mundo animal. Naquela através da apelidada “oferta
de cereais” composta por flor da farinha, azeite, incenso aromático e sal (Levítico
2:1-16; 6:14-15; 24:5-9). E nesta, conhecida por sacrifícios de
holocaustos, que envolvem pombos, rolas, cabrito, cordeiro e vaca (Levítico
1:5-17; 6-13; 12:6-8; 22:17-19). Todas essas ofertas eram “para ser
queimada em honra do Senhor e que será do seu agrado” (Levítico 2:2; 6:14-23).
Tudo isto para
concluir que as dietas vegetarianas e do mundo animal, desde os primórdios da
Humanidade, estavam inteiramente à disposição do Homem para ele deliberadamente
optar por aquilo que bem entendesse, mantendo esta opção no seu estado de pós
queda e, ao mesmo tempo, na eternidade junto com o nosso Soberano e
Todo-Poderoso Jeová. Por isso, não temos de ficar espantados com estas
artimanhas e heresias dos homens que induzem ao erro, antes pelo contrário, devemos
continuar sóbrios, vigilantes doutrinalmente e esperar pacientemente no Senhor
Jesus Cristo. E mais, sabemos que há pessoas que de forma ignorante e
inconsciente caem nestas heresias, fazendo a apologia de doutrinas que não têm
apoio bíblico. Outros, de forma deliberada e consciente, adulteram as
Escrituras Sagradas com o intuito de confundir os santos Filhos de DEUS.
De qualquer
das maneiras, temos de nos consciencializar que tudo isto evidencia os “sinais
dos tempos” que precederão o fim do mundo. Tal como oportunamente nos
advertem as Escrituras Sagradas, para finalizar, “que, nos últimos tempos,
alguns deixarão a fé, para prestar atenção a espíritos mentirosos e seguir
doutrinas de demónios. Hão de seguir os que lhes ensinam a mentira como se
fosse verdade, que abafaram a voz da sua consciência e impedem as pessoas de
casar e proíbem certos alimentos. Mas Deus criou todos os alimentos para que os
crentes que aceitaram a verdade se pudessem servir deles, dando graças a Deus.
Pois tudo aquilo que Deus fez é bom. E nada merece desprezo, se nos servirmos
disso dando graças a Deus. Com a oração e a palavra de Deus, tudo fica
santificado” (1 Timóteo 1-5). Que assim seja.
“E, desde os dias
de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força
se apoderam dele.” (O Senhor Jesus Cristo, Evangelho segundo Mateus 11:12).
Temos, nos últimos sete anos, demorado
imenso a matutar e a digerir sobre o alcance teológico desta misteriosa
afirmação do Senhor Jesus Cristo. A nossa dúvida prendia-se, mais, especialmente,
com o seguinte questionamento: será que o Reino de DEUS pode mesmo ser tomado
de assalto, tal como fez transparecer o Senhor Jesus nessa Sua peremptória
afirmação? E de que maneira? São estas pertinentes questões que nos levaram a
vasculhar vários comentários bíblicos para nos tentarmos reconciliar
definitivamente com esta passagem bíblica, sem prejuízo obviamente daquele que
sempre foi o nosso convicto entendimento inicial sobre ela.
Confessamos que, por razões várias, os
inúmeros comentários que lemos ao longo deste tempo todo, até então, não nos
convenceram na sua generalidade. Muitos deles pareceram-nos abstratos e
colaterais do real cerne da questão. Por outras palavras, ficaram bastante
aquém. A título exemplificativo, por todos eles, excluindo nesta abordagem a
referência de teólogos e intérpretes bíblicos que também tivemos o cuidado de
ler, a Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, com afinidades mais com a doutrina
Pentecostal, considera que existem três interpretações comuns para essa
afirmação do Senhor Jesus e passa a enumerá-las: “(1) Ele pode
referir-se ao esforço das pessoas para se aproximar de Deus, que havia começado
com a pregação de João Baptista. (2) Pode ter usado a expectativa dos
activistas judeus que de que o Reino de Deus chegaria por meio de uma violenta
derrota de Roma (que representa o mundo). (3) Pode estar dizendo que, para
entrar no Reino de Deus, é necessário ter coragem, fé inabalável, determinação
e resignação, porque a crescente oposição se manifesta a todos os seguidores de
Jesus”. Diferentemente dessas interpretações, a Bíblia de Estudo de
Genebra, da ala tradicional e conservadora do protestantismo, comentando o
mesmo trecho bíblico, considera que “o Reino está avançado
poderosamente, embora homens violentos como Herodes, que havia aprisionado João
Baptista, tentassem sobrepujá-lo pela força. Não são, porém, os fortes e
poderosos que alcançam o reino, mas os fracos e humildes (vs. 28:30), que
conhecem suas próprias fraquezas e estão dispostos a depender de Deus (cf. Lc
16:16, nota)”.
Há, como se pode constatar, vários
entendimentos e patentes divergências doutrinárias sobre esta afirmação do
Senhor Jesus Cristo. De forma subsumida, há os que entendem que aqueles que
tomam o Reino
de DEUS à força são agentes que foram convocados pela mensagem do Reino que se
iniciou com a pregação do Profeta João Baptista, razão pela qual corresponderam-na
imediatamente nas suas vidas e, deste modo, pela força, se apoderam dele. São,
com base neste entendimento, as pessoas que fariam parte do Reino de DEUS pela
soberana vontade de DEUS – e que o tomam de assalto, beneficiando assim da
salvação que foi reservada por elas antes da fundação do mundo. Diferentemente
desta leitura, outros entendem que os que usam de violência para conquistar o
Reino de DEUS são elementos estranhos a ele, procurando a todo o custo, com
força do maligno, tomá-lo de assalto e, consequentemente, obstruir a sua
vigorosa mensagem evangelístico-salvífica. Por isso, conseguiram concretizar
tal diabólico plano com a decapitação do Profeta João Baptista e,
posteriormente, com a horrenda morte do Senhor Jesus Cristo na Cruz do
Calvário. São, de acordo com este entendimento, pessoas que querem obstruir e
destruir definitivamente a mensagem do Evangelho, levando-os a humilhar,
perseguir e matar todos aqueles que são os verdadeiros filhos do Reino de DEUS.
Há ainda outras posições intermédias que, a nosso ver, julgamos inoportunas
reproduzir aqui, uma vez que os dois importantes entendimentos opostos esboçam na
íntegra a problemática teológico-doutrina de Mateus 11:12.
Antes de manifestar a nossa humilde opinião sobre esta
afirmação do Senhor Jesus, importa, desde logo, definir para os leitores o
Reino de DEUS para assim poderem estar holisticamente dentro do assunto. O Reino
de Deus, tal como formula inspiradamente a Declaração da Fé Baptista Portuguesa,
que também subscrevemos na íntegra, “inclui a sua soberania geral sobre o
universo e sobre todos os homens que espontânea e voluntariamente O reconhecem
como Rei e Senhor. Todos os crentes devem orar e esforçar-se para que o reino
de Deus venha em plenitude e a sua vontade seja feita sobre a Terra. A
consumação plena do seu reino aguarda a segunda vinda de Jesus Cristo e o fim
da era presente” (LER).
Posto isto, estamos agora em condições de responder
diretamente à pergunta do título do artigo: Sim, a nosso ver, o Reino de DEUS pode
ser tomado de assalto, aliás, é claramente isso que se pode depreender da
afirmação do Senhor Jesus na passagem bíblica em apreço. Até aqui nada de
surpreendente ou anormal, uma vez que a querela doutrinária não se prende com o
facto de o Reino de DEUS ser tomado de assalto, mas sim quem são os tais “violentos”
que o conquistam pela força. E isto remete-nos novamente para a exegese do
texto de Mateus 11:12 e o seu alcance teológico e teleológico, isto é, para
aferir com precisão quem são os ditos violentos que se apoderam do Reino de DEUS
pela violência – se são ou não agentes afectos ao próprio Reino.
Para responder a
esta última questão, julgamos que é imprescindível perceber se o verbo “tomado
por esforço” está na voz activa ou passiva, tal como desdobram vários
biblistas com o intuito de perceber da melhor forma o alcance da afirmação do
Senhor Jesus. Isto é amiúde determinante para concluirmos se o Reino de DEUS,
na passagem bíblica em questão, está sendo atacado num sentido positivo ou
negativo. As duas realidades são extremamente importantes para compreender o
alcance prático da afirmação do Senhor Jesus, insistimos. A referida passagem
bíblica, fazendo fé aos inúmeros comentários que lemos, é de difícil
compressão. Não está manifestamente claro se o verbo grego “tomado por
esforço” está na voz activa ou passiva. No entanto, tendo em consideração o
contexto e a afirmação do Senhor Jesus, não hesitamos em concluir que o verbo “tomado
por esforço” está na voz passiva, fazendo com que o Reino de DEUS seja
apoderado desfavoravelmente pelos“violentos” (LER).
Na nossa leitura,
respondendo agora directamente à pergunta em questão, as pessoas que fazem
violência ao Reino de DEUS, e pela força se apoderam dele, são elementos
estranhos a ele, que procuram pela força de Satanás controlar o Reino de DEUS.
Não são filhos de DEUS, mas sim filhos da perdição. Há dois factores que nos
levam a chegar esta conclusão. A primeira prende-se sobretudo com duas palavras
manifestamente pejorativas do ponto de vista bíblico, que encerram a frase do
Senhor Jesus no referido texto, nomeadamente a “força” e a “violência”
que os violentos usam para se apoderarem do Reino de DEUS. Nós sabemos, pela
revelação Divina, “não por força nem por violência, mas sim pelo meu
Espírito” que triunfaremos ou ganharemos a simpatia do Todo-Poderoso DEUS (Zacarias
4:6). E mais, a violência, seja ela qual for, é manifestamente censurada e
reprovada nas Escrituras Sagradas. Por isso, o Senhor Jesus rejeitou
liminarmente a visão zelota de empreender a força e a violência como meios
legítimos para fazer vincar a todo o custo a vontade de DEUS. Acresce ainda ao facto
de, considerando inversamente que os “violentos” que tomam de assalto o
Reino de DEUS são as pessoas que se esforçaram legitimamente para se beneficiar
da salvação, entrar flagrantemente com a doutrina da graça e da eleição que nos
ensinam manifestamente que a salvação é toda ela fruto do trabalho exclusivo do
nosso Omnisciente DEUS, excluindo qualquer tipo de colaboração humana nela (Efésios
2:8-10). Ninguém é salvo por alguma obra ou espontânea decisão sua, mas
tão-somente pela imerecida graça de DEUS. O Todo-Poderoso DEUS escolhe quem ELE
quer salvar e os salva. Se é assim, como é que é possível as pessoas, por
iniciativa delas, conquistarem por mérito o Reino de DEUS, tal como sustenta a
tese oposta?
A par dos
argumentos e contra-argumentos que acabamos de expor, há ainda um conjunto de
situações que apoiam a tese que estamos a defender. A começar, desde logo, com o
arbítrio aprisionamento e decapitação do Profeta João Baptista nos capítulos
subsequentes (Mateus 14:1-12, Marcos 6:14-29, Lucas 9-7-9), bem como o
próprio Senhor Jesus Cristo e a ininterrupta perseguição e martírio, sem
precedentes, que os filhos de DEUS têm sido objecto ao longo de toda a história
do Cristianismo persistindo até à data
presente, com vista a impedir a proclamação do Evangelho. E isto evidencia-se
tanto para os declarados inimigos da Fé e concomitantemente com os falsos
profetas e cristãos, que vêm a nós, os filhos de DEUS, disfarçadamente em
ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores (Mateus 7:15). Com efeito, “eles mataram o Senhor Jesus e os
profetas e perseguiram-nos também a nós. Eles não agradam a Deus e estão contra
toda a gente, pois querem impedir que preguemos a salvação aos não-judeus. Isto
acabou de encher completamente a medida dos seus pecados e por isso o castigo
de Deus caiu finalmente sobre eles”(1 Tessalonicenses 2:15-16). São
eles que tentaram tomar pela violência o Reino de DEUS e consequentemente
impedir a propagação da Boa Nova da Salvação. Esta inequívoca verdade vai
ganhando contornos e implicações esclarecedoras na parábola do “trigo e
joio”, tendo como pano de fundo o Reino de DEUS representado soberanamente
pelos seus filhos como “trigo” e os inimigos do Reino representados pelo
“joio”. O Omnisciente DEUS é o semeador, ou seja, responsável máximo do
Reino. Enquanto semeou a boa semente no seu campo fértil, isto é, no Reino,
veio também o inimigo do Todo-Poderoso DEUS, semeando o joio no meio do trigo e
foi-se embora. Quando as plantas cresceram
e se começaram a formar as espigas, diz o texto sagrado, apareceu também o
joio. No entanto, o Eterno Jeová recomendou que deixassem-nos crescer os dois
até ao tempo da ceifa. Nessa altura dirá aos ceifeiros: “apanhem primeiro o
joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o
meu celeiro” (Mateus 13:24-30). A mesma verdade, é ilustrada na parábola do
“Bom Pastor”, que encerra vários figurantes, nomeadamente a porta, o curral,
as ovelhas, o ladrão e salteador, o Bom Pastor das Ovelhas, o porteiro, o
mercenário (João 10:1-18). Há nesta parábola uma usurpação do ladrão e
salteador ao Reino de DEUS, coadjuvados neste premeditado assalto às ovelhinhas
do Senhor Jesus pelo assalariado, isto é, os falsos profetas, os falsos pastores
e falsos líderes Cristãos, com o intuito de “a roubar, a matar, e a
destruir” os filhos do Reino do Reino (João 10:10). O Senhor Jesus,
por conseguinte, é “o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.
Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o
lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas.
Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu
sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido”
(João 10:11-14). Esta passagem bíblica esboça muito bem como o Reino tem
sido atacado ferozmente e tomado de assalto pelos inimigos da Cruz, que se vai
traduzir com a manifestação visível do anticristo “que se revolta e se coloca
acima de tudo o que se considera divino ou sagrado. Chegará mesmo a tomar
assento no templo de Deus, apresentando-se a si mesmo como deus” (2 Tessalonicenses
2:4). Porém, tal como admoesta ainda as Escrituras Sagradas sobre esta diabólica
figura, “o rebelde há de manifestar-se a seu devido tempo. Com efeito, as
forças misteriosas do mal já estão em atividade. Mas para que tudo se realize é
preciso que aquele que está a impedi-lo saia da sua frente. 8Então aparecerá o
rebelde e o Senhor Jesus vai vencê-lo com o sopro da sua boca e dominá-lo com o
esplendor da sua vinda. O rebelde aparecerá com a força de Satanás e fará
falsos milagres, sinais e prodígios. Utilizará todas as artimanhas do mal para
enganar os que se vão perder, porque não acolheram nem amaram a verdade a fim
de serem salvos. Por isso, o Senhor permitiu que fossem dominados por uma força
enganadora que os leva a acreditarem na mentira. Assim se faz o julgamento
daqueles que não acreditam na verdade, mas preferem praticar o mal” (2 Tessalonicenses
2:6-12).
Estes inimigos da
Fé Cristã tomam pela violência o Reino de DEUS, tal como os fariseus e doutores
da lei se apoderavam da chave do conhecimento religioso, sentando na cadeira de
Moisés (Mateus 23:2), mesmo assim não tomando posse da vida eterna,
impedindo deliberadamente os que gostariam de o fazer (Lucas 11:52). Em
consequência disso, “fecham-lhes na cara a porta do reino dos céus” (Mateus
23:13). São pessoas sem escrúpulos e autênticos malfeitores. Aproveitam-se
das suas posições privilegiadas dentro das congregações para sedimentar e
propagar heresias destruidoras de vidas humanas. Com as suas acções vergonhosas
descredibilizam a imaculada imagem do Evangelho aos olhos do mundo. Esta mesma
verdade aplica-se até aos dias de hoje: de pessoas que estão nas igrejas aparentando
serem “nascidas de novo”, inclusive muitas delas com posições de relevo
na Igreja, porém são autênticos agentes de Satanás dentro das congregações. Não
fazem parte do Reino de DEUS, mas infiltrados que entram nele com o objectivo
de fracassar os planos Divinos. São pessoas que não querem que se fale da santificação,
da vida consagrada de oração, da denúncia do pecado, de Missões e
Evangelizações. Estão nas congregações para, a todo o custo, impor uma agenda
contrária aos impolutos Princípios e Valores das Escrituras Sagradas, vedando a
materialização do avanço do Cristianismo. São dissimuladamente anticristos, uma
vez que tentam fechar as portas das Igrejas, perseguindo os filhos de DEUS e
até, em casos extremos, ceifando-lhes a vida. Usam a Igreja como antro de
promiscuidade, convertendo-a em plataforma para auto-promoções, tráfico de
influências, conluios, rivalidades, represálias, desvios de fundos,
enriquecimentos ilícitos, imoralidade sexual, idolatria, sincretismo, liberalismo,
misticismo e corrupção. Os falsos pastores e falsos cristãos apresentam-se
disfarçados em ovelhas, mas por dentro não passam de patronos de fraude e lobos
devoradores (Mateus 7:15). Disseminam sorrateiramente falsas doutrinas
dentro das congregações, arrastando consigo os inúmeros discípulos, com o
intuito de destruir, em última instância, a Igreja de Cristo (Actos 20:
29-30). São pessoas de mentes corrompidas e que andam longe da verdade. Têm
a religião como um negócio e fonte de lucro, escrevia o Apóstolo Paulo a seu
respeito (1 Timóteo 6:5). O Santo Pedro, seguindo a mesma esteira do
pensamento, vai ao ponto de considerá-los “atrevidos e arrogantes. Encontram
prazer em satisfazer as suas paixões em pleno dia. Os seus olhares são imorais
e os seus apetites sensuais, insaciáveis. Seduzem as pessoas menos firmes e
estão cheios de cobiça. É uma gente amaldiçoada. Afastaram-se do bom caminho e
perderam-se” (2 Pedro 2:10; 13-14). Leitura igualmente reforçada por Judas,
servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, lamentando o comportamento deles em tom
reprovador “ai deles”, traçando o seu destino final como “reservada a
sombria escuridão, para sempre” (Judas 1:11; 13) (LER).
Se é verdade que
estes filhos da perdição, os “violentos”, que tomam pela força o Reino
de DEUS, procurando inutilmente frustrar os planos de DEUS, jamais conseguirão
vencer ao ponto de travar o galopante progresso do Evangelho no mundo. O Reino
de DEUS vai continuar permanentemente a expandir poderosamente em todos os
cantos e direções da face da Terra, contra a vontade destes declarados inimigos
da Fé Cristã. Eles usam a violência para tomar o Reino de DEUS, obviamente com
a permissão Divina, mesmo assim não conseguirão ter o controlo Dele. O Autor e Consumador
da nossa Fé, o Senhor Jesus Cristo (Hebreus 12:2), através do Espírito
Santo, não permitirá que eles tenham sucesso nos amados filhos de DEUS, visto
que somos de Deus e vencer-lhes-emos, os falsos profetas e falsos cristãos, porque
aquele que vive em nós é mais forte do que aquele que está nos que são do mundo
(1 João 4:4). Por isso, não tenhamos medo de nada, porque são mais os
que estão connosco do que os que estão com eles (2 Reis 6:16). O
Todo-Poderoso DEUS continua soberanamente a ter o efetivo e absoluto controle
no Seu Reino e a guiar pela mão poderosa os seus eleitos filhos no caminho da
fé, do amor, da graça, da bondade, da justiça, da humildade, do perdão, da
santificação, da Evangelização e Missões, da esperança e da vida eterna. A
constante oposição destes violentos, que assaltam pela força o Reino DEUS, em
circunstância alguma, obstruirão os planos salvíficos Divinos e, muito menos,
travarão a vitória garantida dos filhos de DEUS.Em todas estas coisas, “somos mais que
vencedores, por aquele que nos amou” (Romanos 8:37). Os tais anticristos
serão, em tempo oportuno, definitivamente derrotados pelo poder de DEUS e,
simultaneamente, lançados para o fogo do inferno para sempre. Ao passo que a
Igreja do Senhor, os verdadeiros agentes do Reino de DEUS, vai sempre sair
vitoriosa em todas as ocasiões, contextos, circunstâncias e conjunturas, máxime
da letargia, dos escândalos, dos pecados, das traições, das perseguições, dos
falsos pastores, dos falsos líderes, dos falsos teólogos, dos falsos cristãos,
dos ímpios e destes violentos que assaltam pela força o Reino de DEUS. As
portas do inferno, em circunstância alguma, prevalecerão contra a Igreja de
Cristo (Mateus 16:18). A predeterminada visão gloriosa se cumprirá e a
Igreja Vitoriosa em paz repousará sobre as Bem-aventuranças Eternas. Que assim
seja. E assim sempre será (LER). Aleluia! Aleluia! Aleluia!
A Ceia do Senhor, à
semelhança do Baptismo, faz parte do sacramento deixado pelo Senhor Jesus
Cristo antes da Sua gloriosa assunção. É um ritual que nos remete
indubitavelmente ao sacrifício expiatório do Messias em favor dos eleitos de
DEUS e aponta-nos futuramente para o grande banquete celestial das “bodas do
Cordeiro”(Apocalipse 19:9). Foi expressamente narrada nos
Evangelhos e também na 1 Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios 11:23-32,
confirmando assim o carácter importante que ela reveste na história e vida da
Igreja. A Ceia do Senhor, de forma subsumida e abreviada, segundo a profissão
da Fé Baptista Portuguesa, “é um acto de obediência pelo qual os membros da
Igreja participam do pão e do vinho, comemorando juntos a morte de Jesus Cristo
e apontando para a sua segunda vinda. Esta ordenança da igreja local representa
também a nossa comunhão espiritual com Ele, a nossa participação na sua morte e
o testemunho vivo da nossa esperança” (LER).
Não há, no entanto,
patente divergência no meio Cristão sobre o seu sentido teleológico e
teológico. A querela doutrinária prende-se, mais, sobretudo, com a sua datação,
os elementos contidos nela e como se deve ajustar ao dinamismo da Igreja, razão
pela qual procuraremos humildemente tentar descortinar estas seculares
divergências e equívocos teológico-doutrinários. Apesar disso, não tencionámos
abordar a aparente contradição na datação seguida pelos Evangelhos sinópticos e
o Evangelista João, sem prejuízo obviamente da pertinência que o debate em
apreço comporta. A primeira narrativa reduzida a escrito sobre a Ceia do Senhor
foi a do Apóstolo Paulo que, nas sugestivas palavras de alguns reputados
biblistas, terá sido posteriormente seguida pelo evangelista Lucas,
diferentemente da narrativa de Marcos que Mateus seguiu. As quatro narrativas
não diferem umas das outras no seu substrato teológico. Apenas evidenciam
algumas diferenças pontuais que, a nosso ver, têm mais a ver com o estilo
literário dos referidos autores. Por isso, não tencionámos destacar os dois
modelos descritivos sobre a Ceia do Senhor, visto que ambos convergem
manifestamente no seu núcleo e alcance soteriológico.
O Apóstolo Paulo, o
primeiro autor sagrado a escrever sobre esta importantíssima temática
eclesiástica, que Lucas seguiu, insistimos, dizia expressamente: “porque eu
recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em
que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o
meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também,
depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu
sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque
todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando
a morte do Senhor, até que ele venha (1 Coríntios 11:23-26). O Evangelista
Mateus, por sua vez, seguindo na mesma esteira do pensamento de Marcos sobre
esta nobre ordenança, escrevia nestes termos: “e, quando comiam, Jesus tomou
o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei,
isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo:
Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que
é derramado por muitos, para remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora,
não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no
reino de meu Pai. E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras”
(Mateus 26:26-30). Os intérpretes bíblicos, ao longo da História do
Cristinismo, têm questionado de que forma o Apóstolo Paulo terá “recebido”
do Senhor a narrativa sobre a última Ceia. Alguns admitem a possibilidade de
ter sido através de revelação directa (2 Coríntios 12:1-4; Gálatas 1:12).
Outros, com um entendimento diferente, sustentam que Paulo recebeu as palavras
da Ceia no seio da comunidade primitiva, oriunda dos discípulos. Tendemos mais
para este último entendimento. É o que nos parece mais plausível. Apesar de
argumentos e contra-argumentos que se poderão invocar sobre as duas leituras, a
verdade é que o Apóstolo Paulo “recebeu” do Senhor e fidedignamente “entregou”
a Igreja às sagradas instruções, sem adulterá-las. Já quanto às fontes do
Evangelista Marcos não se levantam grandes questões. Os estudiosos não têm
margem de dúvida que foi através do Apóstolo Pedro. Papias, Bispo de Hierápolis
e mártir da Igreja no segundo século, refere-se a Marcos como o “interprete
de Pedro”.
Depois desta breve
consideração, importa enumerar as três clássicas posições doutrinárias
predominantes sobre o sentido dos elementos pão e vinho na Ceia do Senhor.
Desde logo, a tese da “Transubstanciação”. Ela foi abraçada, desde muito
cedo, pela Igreja Católica Romana. Preconiza que o pão e o vinho tornam-se
realmente o corpo e o sangue de Cristo – a eucaristia. Tal acontece quando o
sacerdote diz: “isto é o meu corpo” durante a celebração da missa.
Quando o sacerdote diz isso, escreve Wayne Grudem na sua Teologia Sistemática, “o
pão é levantado (elevado) e adorado. Esse acto de elevar o pão e de
pronunciá-lo corpo de Cristo só pode ser feito por um sacerdote”. Quando
isso acontece, segundo a doutrina católica, concede-se graça aos presentes ex
opere operato, isto é, “realizada a obra”, mas a quantidade de graça
dispensada ocorre em proporção à disposição subjectiva de quem recebe a graça.
Além disso, toda vez que se celebra a missa, o sacrifício de Cristo é repetido
(em algum sentido) e a igreja católica é cautelosa em afirmar que se trata de
um sacrifício real, embora não corresponda ao sacrifício que Cristo fez na
cruz. O Reformador Martinho Lutero demarca-se deste dogma do Vaticano,
formulando a tese da “Consubstanciação”, isto é, que o pão e o vinho não
se transformam, de facto, no corpo e sangue do Senhor Jesus, mas ganham o seu
cunho. Por outras palavras, o corpo do Senhor Jesus está presente através das
preposições “em”, “com” e “sob” o pão e o vinho da Ceia do
Senhor. Acontece que, por razões de divergências doutrinárias, a generalidade
dos teólogos Evangélico-protestantes discordam liminarmente de Lutero e da
Igreja Católica, formulando um entendimento diferente que consiste na doutrina
da “Substanciação”, ou seja, que os elementos contidos na Ceia do Senhor
não passam meramente da presença simbólica e espiritual do Senhor Jesus. Este é
o entendimento que ganha mais relevo e acolhimento favorável no mundo
Evangélico-protestante.
A nosso ver a doutrina
da “Transubstanciação” defendida pela Igreja Católica Romana não tem
qualquer tipo de suporte bíblico, uma vez que se limita apenas a fazer uma
interpretação literal das palavras do Senhor Jesus sobre os elementos da Ceia.
Uma interpretação, segundo as regras da hermenêutica, não deve cingir-se
unicamente à letra. Deve procurar através da letra o espírito do autor, “pois
a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6). Quando o Senhor
Jesus afirma: “isto é o meu corpo e sangue” estava apenas a usar de uma
análise analógica, tal como tem feito ao longo de todo o Seu ministério
terreno, nomeadamente nas afirmações “eu sou o pão da vida”(João 6:48-59),
“eu sou a porta” (João 10:9), “eu sou o bom pastor” (João 10:11-16), “eu sou
a luz do mundo” (João 12:8), “eu sou o bom pastor”, “eu sou o caminho, e a
verdade e a vida” (João 14:6), respectivamente. É nesta lógica que as
palavras “isto é o meu corpo e sangue” devem ser enquadradas, extraindo
depois as verdades salvíficas que elas encerram. E mais, há ainda uma tamanha
incongruência da Igreja Católica de não servir o vinho aos seus fiéis,
limitando-o apenas aos sacerdotes, entrando assim em flagrante contradição com
o sentido da sagrada ordenança – que é para todos e de todos os fiéis.
Quanto à tese da “Consubstanciação”
também fica bastante aquém. O argumento esgrimido que o pão e o vinho não se
transformam no corpo e sangue do Senhor Jesus, mas ganham o Seu “cunho”
é um raciocínio falacioso. Desde logo, sabemos que DEUS é Omnipresente e “toda
a terra está cheia da sua glória” (Isaías 6:3). Porque, tal como dizia o
Senhor Jesus, “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu
no meio deles” (Mateus 18:20), confirmando assim a presença constante do
Senhor Jesus nas nossas vidas, bem como em todo o Universo. Logo, nesta ordem
de pensamento, podemos concluir que todas as coisas de alguma certa forma
ganham “cunho” da presença do Senhor Jesus, sem cairmos no erro de
julgar que os elementos da Ceia acompanham o corpo do Filho de DEUS. E, por
fim, a tese da “Substanciação” parece-nos, em abono da verdade, ser a
que se coaduna melhor com a afirmação do Senhor Jesus. O pão e o vinho não
passam exclusivamente de meros elementos. Não mais que substâncias que foram
usadas pelo Senhor Jesus para transmitir a grande verdade soteriológica sobre a
Santa Ceia, razão pela qual subscrevemos integralmente esta tese: há apenas a
presença simbólica e espiritual do Senhor Jesus na Ceia. Os elementos pão e
vinho não sofrem nenhuma metamorfose. Apenas servem como ilustração daquilo que
o Senhor Jesus fez por nós. Julgamos que, sem qualquer tipo de hesitação
prévia, é assim que os discípulos interpretaram as analógicas palavras do Senhor
Jesus sobre o pão e o vinho.
Igreja Católica Romana sempre
surpreendeu teologicamente pela negativa. É uma instituição eclesiástica com
profundíssimos desvios doutrinários. Incorpora no seu âmago tremendas heresias,
arrastando consigo milhões dos seus fiéis ao longo dos séculos para o
obscurantismo espiritual. O exemplo manifesto disso prende-se máxime com a
prática do culto mariano, a veneração dos santos, o baptismo das crianças, o
ecumenismo e liberalismo teológico, a interpretação lato sensu das
Escrituras Sagradas, a imposição do celibato ao clero, a inflexibilidade sobre
o divórcio em caso de adultério (LER), a infalibilidade da autoridade papal
e toda a capa no sentido de considerá-lo hereticamente como o sumo
representante de DEUS na Terra. Valeu-nos felizmente a intrépida correção dos
Reformadores Protestantes para recolocar a Igreja no caminho certo da verdade
soteriológica (LER). A intransigente apologética sobre a
permanente virgindade de Maria, posteriormente ao nascimento do Senhor Jesus
Cristo, bem como a sua divinização são dogmas que não têm qualquer tipo de
suporte e acolhimento bíblico. E para o caro leitor entender melhor as duas
ardilosas doutrinas da Igreja Católica é preciso, acima de tudo, conhecer os
pressupostos teológicos que caracterizam ambas para assim chegar à verdade da
Palavra de DEUS. Por isso, ater-nos-emos, em primeiro lugar, à temática da
permanente virgindade de Maria para depois abordar os raciocínios falazes sobre
a sua divinização.
A concepção do Senhor Jesus Cristo,
tal como é unanimemente acolhido em todas as denominações do Cristianismo, foi
um acto miraculoso que não teve qualquer tipo de participação humana. Foi
exclusivamente fruto da vontade soberana de DEUS para fazer cumprir o Seu
soberano propósito salvífico para com a Humanidade outrora decaída pelo pecado
original de Adão e Eva (Genesis
3:1-15). Ora, como ficou bem registado nos evangelhos sinópticos, depois do
Anjo Gabriel ter terminado a conversa com José, que estava tomado no seu
profundo sonho, este “recebeu
Maria por esposa; sem terem tido antes relações conjugais” (Mateus 1:24).
Acontece que, por vicissitudes várias, depois do nascimento do Senhor Jesus
Cristo, não temos mais nenhuma passagem bíblica que sustente a continuidade da
virgindade de Maria, antes pelo contrário, há indicações e relatos claríssimos
que nos mostram que Maria se envolveu maritalmente com José, o seu marido,
tendo em consequência disso outros filhos e filhas. O exemplo manifesto
disso foi narrado pelo Evangelista Mateus e Marcos ao referirem-se à incredulidade
e concomitante admiração que o Senhor Jesus suscitava perante a multidão
aquando do seu regresso à cidade de Nazaré, levando-os a interrogar-se de forma
surpreendente: “donde
lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é este o filho do carpinteiro?
Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José Simão e Judas? Não
vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?” (Mateus
13:54-56; Marcos 6:2-3). São estes mesmos irmãos do Senhor Jesus, que ao
aproximar-se a “Festa
dos Tabernáculos” dos judeus, “não
criam nele” (João 7:5). Ao ressuscitar dos mortos os tais, juntamente com
os Seus discípulos e algumas mulheres, acabaram finalmente por crer Nele, “preservando
unânimes em oração e súplicas” (Actos 1:14). O “abortivo” Apóstolo
Paulo, volvidos três anos da sua milagrosa conversão no caminho de Damasco e
consolidado três anos nas regiões das arábias, voltou a Jerusalém, tendo apenas
a oportunidade de se cruzar com o Apóstolo Pedro e também “Tiago,
o irmão do Senhor” (Gálatas 1:17-19).
Pese embora a divergência doutrinária
entre os teólogos Católicos e Protestantes, levando aqueles a considerar que “os
seus irmãos e suas irmãs” não são de facto irmãos verdadeiros do
Senhor Jesus, isto é, irmãos de sangue, mas sim aquilo a que podemos denominar “primos-irmãos”.
Cingindo-se à linha condutora da interpretação dos versículos em apreço, a
fundamentação dos biblistas Católicos não corresponde à mínima verdade, por
razões muito simples: desde logo, a multidão começa por mencionar os pais
terrenos do Senhor Jesus, o carpinteiro José e Maria, aludindo depois aos seus
irmãos e irmãs. Ou seja, vimos aqui o cuidado especial da multidão a dar primazia
à família mais directa do Senhor Jesus que traduzia o grau de parentesco mais
próximo, começando com a linha recta para depois entrar na primeira linha
colateral. Se de facto estes “seus
irmãos e suas irmãs” fossem mesmo primos-irmãos do Senhor Jesus, tal
como sustentam os teólogos Católicos, obviamente que a multidão teria
igualmente o cuidado de enumerar também os seus tios e tias, como fizeram
questão com os primos-irmãos, se verdadeiramente considerarmos que estes assim
o são, uma vez que deveriam viver outrossim estas pessoas na mesma localidade
de Nazaré. Falando à multidão do pai e da mãe do Senhor Jesus para depois
saltar e referir unicamente os seus primos-irmãos sem, no entanto, fazer
qualquer tipo de menção aos seus tios e tias não tem qualquer tipo de lógica e/ou
coerência interpretativa. Afirmamos isto porque objectivamente os tios e tias
do Senhor Jesus são mais próximos Dele em termos de parentesco do que
propriamente os seus primos-irmãos. Por que razão, então, a multidão relevaria
os primos-irmãos do Senhor Jesus Cristo em detrimento dos seus tios e tias?
Logicamente, não faz qualquer tipo de sentido a multidão omitir a primeira
linha colateral do Senhor Jesus, dando primazia à segunda linha colateral. Isto
somente reforça a convicção que sempre perfilhámos de que realmente “os
seus irmãos e suas irmãs” são mesmo irmãos de sangue do Senhor Jesus e
não meros “primos
irmãos”, tal como equivocadamente faz crer a Igreja Católica Romana.
Acresce ainda o facto de, depois de
Maria ter dado à luz ao Senhor Jesus Cristo em Belém de Judeia, o Evangelista
Mateus e Lucas usaram a expressão seu “filho
primogénito” (Mateus 1:25; Lucas 2:7), contrastando com o termo do filho “Unigénito
de Deus” empregue em João
3:16 e em inúmeros outros trechos sagrados. Atentando no significado
etimológico da palavra “primogénito”, concluir-se-á
que difere do sentido e alcance de “Unigénito”. Dito
por outra forma, segundo o conceituado dicionário português Priberam, a
palavra primogénito advém de “que
ou aquele que nasceu antes dos outros irmãos; filho mais velho”, ao
passo que o unigénito traduz “o único gerado por seus pais; Filho
único”. As mesmas definições foram igualmente dadas pelo prestigiado
Dicionário Porto Editora. Nas Escrituras Sagradas, o Senhor Jesus Cristo
encarnou as duas denominações em simultâneo. O termo “Filho
de Deus” tem quatro grandes significados bíblicos que, de forma
elucidativa e subsumida, procuraremos descortinar.
Segundo o reputado Teólogo George
Eldon Ladd, na sua afamada obra “Teologia
do Novo Testamento”, formalizou “que uma criatura de Deus pode ser
denominada filho de Deus em um sentido nativista, em virtude de dever sua
existência à atividade criativa imediata de Deus (Êxodo 4:22; Ml. 2:10; At.
17:28). Na segunda maneira, a expressão filho de Deus pode ser
usada para descrever a relação que os homens podem manter com Deus como objetos
peculiares de seu cuidado amoroso. Este é o uso moral-religioso e pode ser
aplicado tanto às pessoas em geral como à nação de Israel (Êxodo 4:22; Jo. 3:3;
1:12; Rm. 8:14-19; Gl. 3:26; 4:5). Um terceiro significado é messiânico; o rei
da linhagem de Davi é designado como filho de Deus (2 Sm. 7:14). Esse uso não
envolve uma implicação necessária quanto à natureza divina do personagem messiânico;
o termo refere-se à posição oficial de Messias. Um quarto significado é
teológico. Na revelação contida no Novo Testamento e na teologia cristã que se
desenvolveu posteriormente, a expressão Filho de Deus veio a ter um significado
mais elevado: Jesus é o Filho de Deus porque Ele é Deus e participa da natureza
divina. O propósito do Evangelho de João é demonstrar que Jesus é tanto Cristo
como o Filho de Deus, e fica claro, de uma análise do prólogo de João, que
Jesus, como o Filho de Deus, o Logos, era pessoalmente preexistente; Ele
próprio era Deus, e encarnou-se com o propósito de revelar Deus à humanidade
(Rm. 8:3; Gl. 4:4; Hb. 4:14)”[1].
Subscrevemos na íntegra esta tese
defendida pelo insigne teólogo canadiano. E salientamos ainda que, para efeitos
de maior e melhor esclarecimento do assunto em apreço, em relação ao facto do
Senhor Jesus Cristo ser o Filho Unigénito de DEUS revela a Sua eterna divindade
como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Aqui não se colocam grandes
dificuldades de interpretação, nem tão pouco há divergência sobre isso. A
querela doutrinária prende-se mais com a expressão “filho
primogénito” de Mateus
1:25; Lucas 2:7, levando a Igreja Católica a entender que o
primogénito não é necessariamente o primeiro duma série em sucessão. Por todos
os exemplos, o agora Papa Emérito Bento XVI vai ao ponto de sustentar que “o
termo primogénito não alude a uma numeração em ato, mas indica uma qualidade
teológica expressa nas mais antigas coleções de leis de Israel”. É,
assim, enfatizando “que
o conceito de primogenitura adquire uma dimensão cósmica: Cristo, o Filho
encarnado, é por assim dizer, o primeiro de Deus e antecede toda a criatura,
que está ordenada para Ele e a partir d´Ele”. Por isso, sumaria, “é
também princípio e fim da nova criação, que teve início com a ressurreição”[2].
Não comungamos deste entendimento
redutor do Papa Bento XVI, não obstante algumas verdades parcelares que
astutamente encerra. Julgamos que parte de uma pressuposição equivocada na sua
construção teológica. O primogénito a que o Evangelista alude no texto sagrado
é referente ao recém-nascido filho de Maria. Não hesitamos em admitir que a
mesma expressão vai ganhando outros significados nas epístolas sagradas sobre o
papel preponderante e amiúde determinante do Messias no processo da Criação e
Salvação da Humanidade. A começar, desde logo, o facto de o Senhor Jesus Cristo
ser “o
primogénito entre muitos irmãos (Romanos 8:29)”, não somente
consubstancia a Sua primazia na ordem da dignidade, mas Aquele que inaugura uma
nova Humanidade – o primogénito de toda a criação. Ele é antes de todas as
coisas e nele subsistem todas as coisas, e ele é a cabeça do corpo, da igreja.
Ele é o Princípio, o primogénito dentre os mortos para que em todas as coisas
tenha a primazia (Colossenses
1:17-18). É através Dele que herdamos a vida eterna, mediante o Seu
sacrifício expiatório na Cruz do Calvário, ou seja, todos aqueles que no Baptismo
morreram e ressuscitaram com Ele. Uma coisa é o Senhor Jesus Cristo ser o nosso
irmão mais velho pela Graça de DEUS. Outra coisa, e bem diferente, é Ele ser o “primogénito” do
casal Maria e José.
Para objectar ainda à ideia de que
Maria não chegou a ter mesmo filhos, como já provámos biblicamente que ela de
facto teve, alguns usam o texto sagrado de João 19:25-27para demonstrar que se ela tivesse tido filhos
eles estariam certamente na crucificação do irmão, caso contrário o Senhor
Jesus não teria dito para o seu discípulo amado: “Mulher, eis aí teu
filho”. Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”, ficando
Maria assim definitivamente sob os cuidados do Apóstolo João[3].
Antes de refutarmos o esgrimido argumento apoiado no texto bíblico, importa
transcrever primeiramente o referido trecho que versa da seguinte forma: “junto
da cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e
Maria Madalena. Jesus viu a sua mãe e junto dela o discípulo que ele amava. E
disse à sua mãe: «Mulher, aí tens o teu filho.» Depois disse ao discípulo: «Aí
tens a tua mãe.» E, desde esse momento, aquele discípulo recebeu-a em sua casa”
(João 19:25-27). A postura que o Senhor Jesus teve para com o
Seu “discípulo amado”, de incumbi-lo a responsabilidade plena da
Sua mãe, é praticamente normal na antiguidade e ainda recorrente nos nossos
dias. Ademais, se atentarmos cuidadosamente no ministério terreno do Senhor
Jesus nos Evangelhos concluiremos que este discípulo esteve sempre presente nos
momentos cruciais e determinantes da vida e morte do Senhor Jesus Cristo (João
13:23; 19:25-27; 21:7;21:20-23), razão pela qual ganhou a alcunha especial
de “discípulo amado”. É manifestamente normal, estando o Senhor
Jesus à beira da morte, confiar à Sua mãe este preciosíssimo amigo, uma vez
que “há um amigo mais chegado do que um irmão” (Provérbios 18:24).
Nesta ordem de ideias, e de acordo com o comentário da Bíblia de Estudo
MacArthur, “Jesus sendo o primogénito e o provedor de sustento para a
família antes de iniciar seu ministério, não entregou a responsabilidade aos
seus irmãos porque estes não foram simpáticos ao seu ministério e nem creram
nele (João 7.3-5). Possivelmente os irmãos nem estivessem presentes na ocasião
(ou seja, eles moravam em Cafarnaum – veja João 2:12)”. Os irmãos do Senhor
Jesus somente acreditaram Nele como Messias depois da Sua ressurreição e
ascensão aos céus. Talvez fosse por esta mesma razão que deve ser entendida a
ausência deles na crucificação do irmão na Cruz do Calvário e parte
significativa dos seus discípulos. “Todos vocês vão Me abandonar”,
vaticinava-lhes o Senhor Jesus durante a última Ceia, “porque Deus
declarou por meio dos profetas: “Eu matarei o Pastor, e as ovelhas se
dispersarão”” (Marcos 14:27). E assim foi.
Ora, não estando os irmãos ao pé
da Cruz é completamente normal o Senhor Jesus, como sendo “o
filho primogénito” da família, assegurar o amparo da mãe antes da Sua
partida como um bom filho faria em situações semelhantes (importa ainda
salientar que, nesta altura, José, marido de Maria, teria morrido, ou seja, ela
já se encontrava viúva). E mais, de forma analógica, o Direito Sucessório e o
Testamento do de
cujus (falecido) muitas vezes não contemplam os herdeiros legitimados
sem, no entanto, traduzir automaticamente que o falecido não tenha tido filhos
ou outros elementos familiares que possam realmente ter um papel preponderante
nos seus negócios ou património. Por isso, a postura que o Senhor Jesus tomou
na Cruz para proteger a Sua debilitada e desamparada mãe não deve ser entendida
como se não tivesse outros familiares, ou irmãos para cuidar dela, mas tão
simplesmente pela força das circunstâncias e, deste modo, reforçar
definitivamente o amparo da pobre mãe.
A Igreja Católica refugiando-se no seu
preconceito teológico-doutrinário não quer reconhecer esta manifesta verdade,
mesmo indo contra todas as evidências teológicas. Sabe que a partir do momento
em que admitisse a união marital de Maria e José colocaria automaticamente em
causa a sua divinização. Isto porque o sexo em muitos círculos católicos é algo
visto com bastante reservas. “O
pecado original”, como é designado primeiramente pelo santo Agostinho na “Confissão”,
entrou no mundo por via da sexualidade. A libido e os cuidados que o ser humano
normalmente tem com as regiões pudendas são as manifestações visíveis da
vergonha que procedem do castigo, encerrava peremptoriamente o Doutor da
Igrejana sua afamada obra “Cidade
de Deus”. E para justificar esta sua tese com a ordem dada a Adão e Eva, no
sentido de frutificarem e multiplicarem a Terra em Genesis
1:28 através do sexo e da sexualidade, santo Agostinho sustentava o
seguinte para fazer valer a sua doutrina: «está
muito longe de nós o pensamento de que aqueles esposos colocados no Paraíso
teriam de realizar, mediante esta paixão libidinosa (libido), de que viriam a
envergonhar-se tapando as regiões pudendas, aquilo que Deus prometeu na sua
bênção: Crescei a multiplicai-vos e enchei a terra. (…) Na ordem natural a alma
sobrepõe-se ao corpo; todavia, a alma tem mais fácil domínio sobre o corpo do
que sobre a si própria. Todavia, esta paixão libidinosa, de que agora estamos a
tratar, excita a vergonha tanto mais quanto mais o espírito nem se mostra capaz
de a si próprio se dominar eficazmente para se não deixar deleitar inteiramente
nessa paixão, nem sobre o corpo tem pleno domínio para que seja precisamente a
vontade (e não a paixão) a excitar as regiões vergonhosas: se assim fosse já
nem seriam vergonhosa.»[4]. Há, assim,
uma carga bastante negativa do sexo e a sexualidade na teologia do Bispo de
Hipona, levando-lhe inclusive a associá-lo com a libidinosidade e
consequentemente a censurá-lo. E toda esta doutrina vai ter fortes implicações
práticas na forma peculiar como a Igreja Católica encara e aborda o sexo,
sobretudo negando em última instância o seu carácter de fruição, reduzindo-a stricto
sensu à procriação. Portanto, em suma, a problemática sobre a intransigente
oposição do Vaticano ao uso de métodos contraceptivos entre os casais, no
âmbito matrimonial, só poderá ser holisticamente compreendida no “Pecado
Original” formalizado por santo Agostinho. E
para ilibar Maria do referido pecado, elevando-a ao título de “Virgem
Santíssima” e “Mãe
de Deus”, era importante dissociá-la do vírus do pecado de Adão e Eva que
se contrai no sexo, caso contrário ela não seria merecedora de tais
proeminentes títulos celestiais.
Não subscrevemos tais heresias. Não há
margem para dúvidas, usando as acertadas palavras da Declaração de Fé Baptista
Portuguesa, que “Deus criou o homem, concedendo-lhe a prerrogativa de
fecundidade, fertilidade e natalidade, permitindo-lhe a multiplicação da
espécie humana, povoando e dominando a Terra. Deus não condena o ato sexual em
si, mas a prática sexual desgovernada, sem limites e sem princípios divinos.
(...) A atração física, emocional e o verdadeiro amor no casamento são
condições indispensáveis para uma sexualidade abençoada” (LER).
[1]George Eldon Ladd, in Teologia do
Novo Testamento, p. 212 e 213, Editora, Hagnos, São Paulo, 2003.
[2]Joseph Aloisius Ratzinger, in Jesus
de Nazaré [Infância de Jesus], p. 62 e 63, Editora, Planeta, 2013.
[3]Segundo alguns testemunhos
recolhidos dizia que Maria viveu sob cuidados do Apóstolo João, em Jerusalém,
durante onze anos, e morreu. Outros dizem que ela viveu mais tempo, chegando a
acompanhá-lo até Éfeso.
[4]Santo Agostinho, in A Cidade de
Deus [Volume II], p. 1299; 1304, Fundação Calouste Gulbenkian.