A fé e o trabalho são
duas realidades que, ao longo da história do Cristianismo, têm gerado inúmeros
equívocos doutrinários no seio do povo de Deus, levando frequentemente a
extremos na forma de os conceber. Há quem dê prioridade exclusiva à fé,
negligenciando completamente o trabalho na sua rotina de vida. Inversamente, há
quem faça do trabalho o seu modus vivendi, sacrificando deliberadamente o
compromisso com Deus em nome da atividade profissional. Ambas as perspetivas
estão profundamente erradas à luz das Sagradas Escrituras.
O cristão deve viver a
sua fé de forma comprometida e devota diante de todo o mundo, dando testemunho
vivo da sua salvação. E isso implica honrar a Deus tanto na dimensão espiritual
como na dimensão civil. Do mesmo modo, o cristão deve viver a sua fé trabalhando.
Nenhum cristão, pelo simples facto de pertencer a uma comunidade eclesiástica,
deve sentir-se no direito de não trabalhar e de viver à custa dos outros (2 Ts
3, 6-12). Pelo contrário, todos os cristãos são exortados pelo apóstolo Paulo a
considerar uma honra trabalhar com as próprias mãos, de modo a não serem
“pesados a ninguém” (1 Ts 4, 11-12), e a praticar também uma solidariedade
material, partilhando os frutos do seu trabalho com o necessitado (Ef 4:28).
Os crentes, tal como
sustenta a Doutrina Social da Igreja, “devem viver o trabalho ao estilo de
Cristo e torná-lo ocasião de testemunho cristão diante dos «de fora» (1 Ts 4,
12). (…) Mediante o trabalho, o homem governa com Deus o mundo; juntamente com
Ele, permanece seu senhor e realiza coisas boas para si e para os outros. O
cristão é chamado a trabalhar não só para conseguir o pão, mas também por
solicitude para com o próximo mais pobre, ao qual o Senhor manda dar de comer,
de beber, vestir, acolhimento, atenção e companhia (cf. Mt 25, 35-36)” (LER). Cada
trabalhador, afirma Santo Ambrósio, “é a mão de Cristo que continua a criar e a
fazer o bem”.
Perante tudo o que
ficou exposto, a fé e o trabalho são dimensões complementares, intrínsecas e
irrenunciáveis na vida de um cristão, desde que colocadas na ordem correta.
Fazem parte do substrato identitário de um filho de Deus. Tanto assim é que o
apóstolo Paulo se empenhou em advertir a Igreja, com sabedoria divina, acerca
da importância cimeira de integrar a fé e o trabalho na dinâmica da vida
cristã, nomeadamente no capítulo terceiro da Segunda Epístola aos
Tessalonicenses.
É preciso trabalhar. É
precisamente neste ponto que o apóstolo Paulo aprofunda ainda mais a sua
exortação. Surge uma advertência clara, uma séria chamada de atenção, feita em
nome do Senhor Jesus Cristo. Isto significa que esta recomendação traz o selo do
nome mais sagrado e, por isso, não se trata de um assunto leviano ou
secundário, mas de algo profundamente importante.
Paulo escreve: “Irmãos,
em nome do Senhor Jesus Cristo, queremos recomendar-vos que se afastem de todos
aqueles irmãos que vivem sem fazer nada e que não seguem os ensinamentos da
tradição que receberam de nós” (2 Ts 3:6). Refere-se àqueles irmãos que viviam
sem nada fazer. Eram pessoas que não queriam trabalhar e que, além disso,
criavam intrigas, calúnias e conversas inúteis no meio da comunidade. Em vez de
edificarem, prejudicavam a vida da Igreja.
Na verdade, sabemos que
nem todas as pessoas têm a mesma disposição para o trabalho. Também
reconhecemos que há muitos que desejam trabalhar e não conseguem, por diversas
razões: falta de emprego, problemas de saúde, limitações físicas, dependência
de terceiros ou incapacidade temporária. Não é destes casos que Paulo fala. O
apóstolo dirige-se àqueles que, tendo saúde, capacidade e oportunidade,
simplesmente não querem trabalhar.
Ao que tudo indica,
alguns viviam influenciados pela ideia de que a vinda de Cristo seria imediata.
Por isso, abandonavam responsabilidades, desfaziam-se dos seus bens e
limitavam-se a esperar, sem produzir nem contribuir.
Nem todo o trabalho é,
automaticamente, uma bênção. Há contextos laborais profundamente nocivos. Quando uma pessoa
exerce a sua profissão na área de que gosta, isso já é um bom começo. Contudo,
não basta. Também contam o ambiente de trabalho, os colegas, as chefias e as
condições humanas em redor. Há quem trabalhe naquilo que ama, mas viva num
ambiente tóxico, marcado por humilhações, pressões abusivas ou bullying. Nesses
casos, o trabalho torna-se um peso que afeta a saúde mental, o equilíbrio
familiar e a dignidade pessoal.
Também o trabalho deixa
de ser bênção quando ocupa o lugar que pertence a outras prioridades da vida,
mormente o lugar de Deus. O excesso de trabalho destrói lares, fragiliza
casamentos, afasta pais dos filhos e rouba a paz interior. Para o cristão, o trabalho
é importante, mas não pode ocupar o lugar central da existência.
Qual é, então, a
prioridade máxima? O próprio Senhor Jesus ensinou: “Mas, buscai primeiro o
reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”
(Mt 6:33). O Reino de Deus vem em primeiro lugar; depois seguem-se as demais
áreas da vida, incluindo a família e o trabalho. Quando o trabalho sobe ao topo
dessa pirâmide, instala-se o desequilíbrio e inicia-se uma rampa deslizante
para a perdição.
Apesar dessas exceções,
de forma geral o trabalho é uma bênção. O trabalho oferece autonomia, liberdade
e dignidade. Quem não trabalha, quando o poderia fazer, torna-se frequentemente
dependente do Estado, da família, dos amigos ou de instituições diversas. Essa
dependência pode limitar a liberdade pessoal e enfraquecer o sentido de
responsabilidade.
Trabalhar não é fácil.
Exige esforço, disciplina, sacrifício e perseverança. Obriga a levantar cedo,
suportar pressões e enfrentar dificuldades. Contudo, no final, há recompensa: a
pessoa pode pagar as suas contas, organizar a sua vida e viver com maior independência.
Mesmo quando ainda não
alcançámos o emprego ideal, muitas vezes é necessário enfrentar circunstâncias
menos favoráveis enquanto se espera por algo melhor. Isso faz parte do
pragmatismo da vida cristã. Em tempos difíceis, importa perseverar, suportar
com paciência e continuar a orar para que Deus abra portas melhores no tempo
certo.
Naturalmente, há
situações em que o trabalho perde toda a sua dignidade: exploração, escravidão
moderna, salários injustos, abuso patronal ou ambientes de violência
psicológica extrema. Quando o trabalho destrói a pessoa e fere a sua dignidade,
deixa de cumprir o seu propósito.
Paulo apresenta-se como
exemplo: “Não andámos por aí sem fazer nada, nem comemos de graça o pão de
ninguém. Antes trabalhámos duramente, noite e dia, para não nos tornarmos
pesados a nenhum de vocês” (2 Ts 3:7). O apóstolo mostra que o trabalho
dignifica. Ele não queria ser peso para ninguém e esforçava-se por
sustentar-se, mesmo tendo direito a receber apoio.
Depois recorda uma
frase firme e conhecida do texto sagrado: “Se alguém não quiser trabalhar,
também não coma” (2 Ts 3:10). O sentido
deste versículo é claro: quem recusa voluntariamente o dever do trabalho não
deve esperar usufruir dos frutos produzidos pelo trabalho dos outros.
A ociosidade voluntária
gera muitos males. Pessoas desocupadas entregam-se facilmente a intrigas,
mexericos e conflitos inúteis. Por isso Paulo diz “que andam por aí alguns sem
fazer nada ou ocupando-se com ninharias” (2Ts 3:11).
A solução apostólica é
simples e profunda: “que trabalhem em paz e ganhem o pão que comem” (2 Ts
3:12). O trabalho deve ser feito em paz, com responsabilidade e honestidade.
Mas Paulo vai ainda
mais longe: “'E da vossa parte, irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (2 Ts
3:13). O cristão não trabalha apenas para sobreviver, acumular ou enriquecer.
Trabalha também para servir, partilhar e abençoar os outros. Aqui entra a mordomia
cristã: usar os recursos com sabedoria para a glória de Deus e para socorrer o
próximo.
Fazer o bem nem sempre
traz reconhecimento. Muitas vezes encontramos ingratidão. Ainda assim, somos
chamados a perseverar, porque ao fazer o bem honramos a Deus e revelamos uma
vida transformada.
No final da carta,
Paulo deseja que o Senhor da paz conceda paz em todas as circunstâncias. Essa
paz começa na reconciliação com Deus, estende-se ao interior da pessoa e
alcança também o relacionamento com os outros.
Quem vive em guerra
consigo mesmo dificilmente terá paz com Deus ou com o próximo. Mas quem se
submete ao Senhor encontra equilíbrio, direção e descanso.
Fé e trabalho não são
inimigos. Pelo contrário, completam-se quando colocados na ordem correta. O
trabalho deve ser visto como vocação, serviço e meio de dignidade, nunca como
ídolo. A fé ensina-nos a trabalhar com honestidade, equilíbrio e propósito.
Que Deus nos ajude a
guardar estas verdades no coração e a vivê-las no dia a dia. Não é fácil, mas
com a ajuda Divina e a orientação do Espírito Santo, é possível. Que assim
seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor Jesus Cristo.