A Páscoa de Cristo à Luz da Teologia da Salvação
A Alegria do Dia do SENHOR
O domingo, o dia do SENHOR, é um grande dia da salvação. É também um dia do testemunho Cristão e de proclamação da mensagem salvífica do Senhor Jesus Cristo. O domingo é sagrado e deve ser livremente respeitado e guardado com amor por todos os filhos de DEUS. Nenhum autêntico Cristão jamais prescindirá este importante dia na sua vida e, muito menos, negligenciá-lo na sua agenda eclesiástica. O domingo deve ser vivido e celebrado com bastante alegria no coração na presença do nosso Magnífico e Bom DEUS. Nenhuma actividade secular pode ofuscar ou sobrepor-se ao sagrado Dia do SENHOR, excepto situações extremamente atendíveis e justificáveis à luz das Escrituras Sagradas. Todos os Cristãos devem, de forma consciente e obediente, na medida possível, estar na Igreja com os irmãos nesse dia da salvação para cultuar o nosso Todo-Poderoso DEUS, através do Senhor Jesus Cristo.
Num mundo, cada vez mais secular e ímpio, em que tudo que é Divino é completamente negligenciado, ridicularizado e liminarmente rejeitado por causa do ateísmo, do egocentrismo, do sincretismo, do materialismo, do hedonismo e na busca insaciável pela vida de boémia e de auto-satisfação, impõe-se a todos os eleitos filhos de DEUS a reafirmarem, com força e vigor, o seu inabalável compromisso com a Causa Evangélico-Missionária, dando assim um poderoso testemunho do Evangelho do Senhor Jesus Cristo para o mundo perdido. Devemos, tal como a Palavra de DEUS nos exorta, ser o sal da terra e luz do mundo, com vista a resplandecer a nossa luz diante dos homens, para que vejam as nossas boas obras e glorifiquem a nosso Pai, que está nos céus (Mt 5:13-16).
O domingo, o primeiro dia da semana, é o dia especialmente consagrado para os Cristãos. É um dia de descanso dos afazeres seculares para, desta forma, dedicar exclusivamente os assuntos do Reino de DEUS. É um dia a ser santificado por todo o Cristão com uma caridade operosa, disponibilizando-se para estar na Igreja e servir de acordo com os nossos dons e talentos. Também este dia dominical deve ser canalizado para o repouso, o silêncio, a meditação, o estudo, a oração e o ministério da hospitalidade e visitação, que enriquecem e favorecem o crescimento da vida espiritual. Os fiéis devem distinguir-se, também neste dia, sustenta a Igreja Católica Romana na sua Doutrina Social da Igreja, “pela sua moderação, evitando todos os excessos e as violências que não raro caracterizam as diversões de massas. O dia do Senhor deve ser sempre vivido como o dia da libertação, que faz participar da assembleia festiva dos primogénitos que estão inscritos nos céus” (Heb 12, 22-23) e antecipa a celebração da Páscoa definitiva na glória do céu”.
Estive hoje, com imensa alegria no coração, tal como de costume, na minha Igreja, a cultuar ao nosso Omnipresente DEUS com os meus irmãos na Fé. Primeiro, na Escola Bíblica Dominical (EBD) e depois no Culto de Adoração ao Altíssimo DEUS. Foi um culto onde foi celebrada a Ceia do SENHOR – uma das ordenanças mais importantes do Cristianismo. Realmente, foi um tempo agradável e de edificação na presença gloriosa do nosso Bom DEUS. Que assim seja.
Uma Guerra Pode Ser Considerada Justa à Luz do Cristianismo?
Depois de atermo-nos no artigo anterior a debruçar sobre se uma guerra pode ser ou não justa, de acordo com as disposições do Direito Internacional Público (LER), vamos procurar também aqui analisar se, realmente, o conceito da guerra justa tem ou não algum acolhimento bíblico para depois dar no final a nossa humilde opinião.
Desde logo, como devotos, convictos e fiéis Cristãos Evangélico que somos, dizer que a generalidade dos destacados teólogos Cristãos defende manifestamente o conceito da guerra justa, seguindo a mesma esteira do pensamento de Santo Agostinho, embora vincando algumas atenuantes bastantes consideráveis. Por outras palavras, advogam estes ilustres teólogos, “a guerra deve ser declarada só quando é necessário, e para reduzir a injustiça; e para que através dela Deus possa livrar os homens da necessidade e preservá-los em paz”. Mesmo na guerra, sustentam ainda, “o espírito do pacificador deve ser estimado (…) a sua conduta deve ser justa – manter a fé com o inimigo, cumprir promessas, evitar a violência desnecessária, o espólio, o massacre, a vingança, as atrocidades e as represálias”.
Esta concepção foi amplamente defendida e difundida por Santo Tomas de Aquino, arrastando posteriormente os grandes Reformadores Protestantes, especialmente Martinho Lutero, João Calvino. O Anabaptista Menno Simões, um dos importantes teólogos protestantes, foi o único que se distanciou radicalmente deste entendimento, defendendo uma posição do pacifismo, ou seja, contra a guerra. Menno Simões, formulando a sua oposição a guerra, baseou-se no facto de “o cristão ser seguidor do Príncipe da Paz, tendo recebido a ordem expressa de amar os seus inimigos e fazer bem aos perseguidores, dando a outra face a quem lhe bater” para rejeitar categoricamente a possibilidade de um Cristão participar na guerra, ou mesmo defendê-la. Importa ainda salientar que este pacifismo foi posteriormente adoptado pelo Pastor Baptista e Activista Político americano, Martin Luther King Jr., na sua grande luta pelos direitos iguais entre os negros e os brancos nos Estados Unidos da América (EUA).
Feito este brevíssimo enquadramento geral, cabe dizer que nada nos surpreendem quando vemos pessoas não crentes ou não Cristãs no Senhor Jesus Cristo a defenderem ideologicamente a legitimidade da guerra ou “guerra justa”. É natural que eles tenham esse entendimento de “ajustes de contas” e de “vingança” para com o inimigo, visto que não têm o temor de DEUS nos seus corações, diferentemente dos Cristãos. Somos inteiramente contra a guerra e também contra a denominada “guerra justa”, independentemente da sua justificação legal, política, moral, ética e económica. Por mais chocante que possa ser uma situação, como tem acontecido inúmeras vezes, de vermos pessoas inocentes a serem maltratadas, mortas de forma bruta e injusta, precisamos sempre de consciencializar que o nosso Eterno DEUS está sempre no controle da situação e que no devido tempo ELE manifestará o Seu soberano poder para repor a Justiça e punir os malfeitores.
Nada, mais nada do que é feito neste maldito mundo, transcende o domínio efectivo DEUS ou, porventura, que ELE não saiba. Devemos procurar sempre aplacar os nossos ímpetos de vingança e esperar pacientemente em DEUS. O papel que nos cabe, como seus filhos, é, simplesmente, o de dobrar os nossos joelhos em oração, intercedendo incessantemente a favor destes flagelos e tragedias humanas, pedindo a ajuda Divina e intervenção para a sua eficaz resolução. Jamais esperançando que a guerra é solução ideal dos problemas. Não é com a guerra que se faz a Paz, tal como o mundo apregoa, mas sim com o espírito do diálogo e da paz, procurando humildemente alcançar os consensos das partes beligerantes. Só assim poderemos fazer pontes viáveis e exequíveis e construir solidamente o caminho da tão ambicionada Paz entre os seres humanos, os povos e os países em geral.
Perante tudo que ficou exposto, sem qualquer tipo de hesitação, consideramos extremamente desprovido do fundamento bíblico a tese dos grandes teólogos que supra mencionamos e de tantos outros Cristãos que, ao longo dos tempos, e ainda hoje, continuam a defender convictamente a legitimidade da “guerra justa” – como sendo solução para os reais problemas que afectam a Humanidade. Apropriando-nos das inspiradoras palavras do Teólogo Menno Simões, perguntamos a estes nossos irmãos na fé: “digam-me, como é que um cristão pode defender biblicamente a retaliação, a rebelião, a guerra, o golpear, o matar, o torturar, o roubar, o espoliar e o queimar cidades e vencer países? … Toda a rebelião é da carne e do diabo … Oh abençoado leitor, as nossas armas não são espadas nem lanças, mas a paciência, o silêncio e a esperança e a Palavra de Deus”.
Consideramos que qualquer tipo de guerra está sempre subjacente as forças do mal. A guerra, seja justa ou não, é do diabo e dos seus agentes no mundo inteiro. A guerra é uma coisa bruta, sangrenta, horrorosa e macabra. Ela é inequivocamente maléfica, injusta, trágica e diabólica. Com a guerra morrem inúmeras pessoas, principalmente pessoas inocentes. Morrem as criancinhas indefesas, juniores, adolescentes, jovens e adultos. Morrem pessoas doentes, morrem pessoas incapacitadas, morrem os pobres e os ricos, bem como morrem os fracos e os poderosos, morrem as mulheres, morrem as grávidas, morrem os idosos, morrem os homens, morrem, acima de tudo, os seres humanos. Morrem os sonhos e triunfa o ódio, a vingança, as bombas, a destruição, a matança, a carnificina, os horrores, a maldade e a malignidade. As forças do mal conseguem com a guerra abafar transitoriamente as forças do bem. Nós, os Cristãos, somos os discípulos do “Príncipe da Paz”, o Senhor Jesus Cristo, e devemos seguir sempre o Seu Evangelho da Paz, que é viver holisticamente na paz, promover a paz, defender a paz, transmitir os ideais da paz, estar em paz com tudo e todos à nossa volta.
A paz do Senhor Jesus Cristo habilita-nos a reconciliar primeiramente com DEUS, connosco, com os nossos semelhantes e com tudo à nossa volta. Não é uma paz débil, podre, momentânea ou de fachada e, tão pouco, delimitada no curso do tempo. Ela é efectiva e eterna na vida de todos os homens e mulheres de “boa vontade”. Ela tem o poder para sarar as feridas, transformar o carácter, libertar dos corrosivos vícios e salvar do pecado. É a Paz de DEUS que excede qualquer tipo de arbítrio ou entendimento humano (2 Co 5:17-18, Lc2:14, Fp 4:7).
Com a vinda do Senhor Jesus ao mundo, a palavra paz passou a ganhar o mais elevado significado teológico e teleológico. A começar, desde logo, com o jubiloso anúncio da grande multidão de milícia celestial que entoava alegremente: “glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem”. E, ainda, nos momentos precedentes, a ascensão do Senhor Jesus aos céus, Ele encorajou os seus discípulos com as afectuosas palavras de determinação e perseverança: “deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. A paz que, em última instância, sem dúvida, traduz a presença constante do Espírito Santo na vida daqueles que verdadeiramente “nasceram de novo”. Estas inequívocas verdades salvíficas estão também contempladas no Evangelho Lc 2:13-14 e Jo 14:27.
Tanto a encarnação do Senhor Jesus como a Sua glorificação enceraram com a palavra paz. Por isso, o Senhor Jesus Cristo proclamou incessantemente a paz, durante todo o Seu ministério terreno, sem fazer excepção de pessoas, confirmando assim pelo Seu impoluto testemunho de vida ser o “Príncipe da Paz”. Ele não presenteou os pobres pastores com nada que não fosse a paz, emanada pelos anjos e personificada na Sua humilde manjedoura. Da mesma sorte, o único legado que ELE deixou aos seus discípulos, aquando da Sua assunção aos céus, foi a mesma paz de DEUS. É uma paz que consegue na perfeição preencher plenamente todo o vazio do ser humano e, concomitantemente, despertá-lo para os sublimes Princípios e Valores da vida consagrada e de entrega incondicional ao Senhor Jesus Cristo. Cristo, sustentava o Apóstolo Paulo, para reforçar esta manifesta verdade salvadora, “é de facto a nossa paz”. O Senhor Jesus, reafirmamos pela fé e de forma convicta, é realmente a nossa Paz (Ef 2:14 a17 e Is 9:6).
O nosso mundo está bastante descrente, corrompido, desnorteado, conflituoso e na deriva espiritual sem precedentes, porque teima em declinar a maravilhosa paz do Senhor Jesus (Is 55:1-13), preferindo refugiar-se nas efémeras ilusões que não proporcionam uma vida bem-sucedida, realizada e feliz. A Paz de DEUS está visceralmente ligada à harmonia, ao amor, ao perdão, ao gozo, à bondade, à esperança e à herança da vida eterna. Ela é a manifestação visível do fruto do Espírito na vida dos eleitos filhos de DEUS e infalíveis garantias das bem-aventuranças eternas (Is 55:1a13, Gl 5:22 e Mt 5:1a12).
Por isso, para terminar, sigamos vivamente o nobre exemplo do Senhor Jesus Cristo, que é o “Príncipe da Paz”. Rejeitemos firmemente todo e qualquer tipo de engano, descrença, mundanismo, pecado, guerras ou conflitos, porque são de trevas e do diabo. Nós, os Cristãos, somos filhos de DEUS para andarmos na luz e na paz. Somos salvos pelo Senhor Jesus Cristo, através da acção do Espírito Santo em nós, para encarnarmos plenamente a paz, viver em paz, proclamar a mensagem da paz, defender afincadamente a paz para a glória e honra do nosso Todo-Poderoso DEUS. Que assim seja. E assim sempre será pela fé no nome Bendito do Senhor e Salvador Jesus Cristo. Amém, Amém e Amém!
Os Pressupostos Teológicos da Segunda Vinda do Senhor Jesus Cristo
Os Últimos Momentos de Vida do Senhor Jesus Cristo
A Mulher Adúltera e a Sua Absolvição pelo Senhor Jesus Cristo
Mesmo assim, o amor venceu o legalismo hipócrita, a misericórdia a religiosidade, a verdade a mentira, a vida a morte. O Senhor Jesus conferiu um novo estatuto a esta pobre mulher, restaurando-lhe completamente a dignidade, como faz com todos aqueles que beneficiam da Sua graça salvífica. O Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para justificar e salvar os miseráveis pecadores. Aleluia!
A Paz Perpétua do Reino do Messias Salvador
Um feliz e abençoado Natal na Paz do Senhor Jesus Cristo. DEUS vos abençoe e vos guarde na Sua Graça e Paz.
A Incompatibilidade da Teologia do Novo Testamento Com a Guerra
A Precariedade da Vida Humana
Natal de Cristo: Contexto e Implicação Teológica para a Humanidade
Partilho aqui convosco este meu artigo no jornal Observador intitulado “Natal de Cristo: Contexto e Implicação Teológica para a Humanidade” (LER).
Faço votos que estejamos todos a ter um óptimo momento de confraternização, lembrando sempre da razão primária e última da encarnação do Filho de DEUS neste mundo, que é a nossa salvação. Que haja, por isso, da nossa parte, uma autêntica e inteira predisposição em aceitar fielmente no nosso coração o Senhor Jesus Cristo como o único Salvador nas nossas vidas.
Um feliz Natal a todos na graça, paz e o amor do nosso Eterno DEUS. Que assim seja.
Teologia de Natal e a Matança das Criancinhas
“Em Ramá se
ouviu um grito,
choro
amargo, imensa dor.
É Raquel a
chorar os filhos;
e não quer
ser consolada,
porque eles já não existem” (Mateus 2:18).
O nascimento do Senhor Jesus Cristo e o Seu ministério terreno foram profundamente marcados por grandes e reiteradas conspirações por parte dos filhos da perdição, com a finalidade última de liquidá-Lo fisicamente e, deste modo, frustrar os salvíficos planos de DEUS para com a Humanidade. Apesar de todas estas orquestrações diabólicas bem montadas, o Todo-poderoso DEUS jamais perdeu o controle da história e o curso dos acontecimentos. As vãs tentativas contra o Filho Unigénito de DEUS acabaram meramente por cooperar para o cumprimento escrupuloso das profecias bíblicas a respeito do Messias outrora prometido.
A passagem bíblica supramencionada é o reflexo manifesto de várias conspirações falhadas contra a vida do Senhor Jesus. O rei Herodes, de forma dissimulada e mentirosa, garantiu aos magos do oriente a sua falsa intenção de ir também adorar o infante Jesus, ordenando-lhes para se informarem “cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo” (Mt 2:8). Quando se apercebeu que os magos partiram para sua terra, sob a Divina orientação, depois de terem previamente adorado o Senhor Jesus, aumentou ainda mais a sua fúria “e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios” (Mt 2.16). O objectivo do rei Herodes era exclusivamente matar o inofensivo menino Jesus. Este foi sempre o seu plano inicial quando soube do nascimento do novo Rei dos reis em Belém da Judeia.
O rei Herodes, descrevia Hernandes Dias Lopes no seu comentário expositivo de Mateus, “era paranoico em relação ao poder. Foi um rei truculento, egoísta, assassino e tirano. Era a essência da crueldade e do terror. Governou com mão de ferro e esmagou impiedosamente todos aqueles que julgava serem uma ameaça ao seu governo. Assassinou seus rivais um após o outro. Foi esse rei cruel que quis eliminar o infante Jesus, mandando matar todas as crianças de Belém e arredores de 2 anos para baixo”[1]. Confirmando holisticamente este carácter tresloucado e perverso do rei Herodes, Joseph Ratzinger sustenta que este “no ano 7 a.C., justiçara os seus filhos Alexandre e Aristóbulo, porque sentia o seu poder ameaçado por eles. No ano 4 a. C., pelo mesmo motivo eliminara também o filho Antípatro. Herodes raciocinava apenas segundo as categorias do poder; a notícia de um pretendente ao trono, que ouvira dos magos, deve tê-lo alarmado. Tendo em conta o seu caráter, é claro que nenhum escrúpulo poderia detê-lo”[2].
O rei Herodes era um homem vil, implacável, prepotente, cruel e desumano, que não tinha nenhuma hesitação em matar os seus opositores, inclusive familiares, por causa do poder ou para obter o poder. O seu currículo estava completamente manchado por crimes horripilantes e de sangue. Mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo, julgando que conseguiria desta forma matar o menino Jesus. Felizmente, pela providência Divina, Maria e José haviam previamente fugido com Jesus para o Egipto. E, assim, escaparam da desgraça mortal promovida por Herodes em Belém e nas regiões circunvizinhas.
Depois da mortandade das criancinhas em Belém, o Evangelista Mateus relata-nos o pranto generalizado que tomou conta das mães judias que perderam injustamente os seus filhos pelo maquiavélico decreto de Herodes, personificada na mulher de Jacob – Raquel. Narra o autor sagrado que “Em Ramá se ouviu um grito, /choro amargo, imensa dor. /É Raquel a chorar os filhos;/e não quer ser consolada,/porque eles já não existem” (Mt 2:18), citando assim o texto original de Jeremias 31:15, como o cumprimento da referida profecia do Antigo Testamento. Raquel, a mulher predilecta do patriarca Jacó, simbolicamente a mãe das tribos do Norte, chora amargamente pelo desaparecimento dos seus filhos, pois já não existiam mais. A mãe Raquel, comenta sobre o alcance teológico deste versículo a Bíblia de Estudo de Genebra, “representa todo o Israel em suas lágrimas, a partida de Cristo para o Egipto é como a partida dos filhos de Raquel, José e Benjamim para o Egipto (Gn 37.28; 43.15)”[3].
Este grande pranto da desolada mãe Raquel para com os seus filhos desaparecidos, Israel de DEUS, a nosso ver, pode igualmente ser enquadrado lato senso na destruição e conquista do reino do Norte pelos assírios em 722 a. C., bem como no penoso cativeiro babilónico profetizado por Jeremias (2 Rs 17:1-6; 18-9-15; 2 Rs 24:8-17; 25:1-21; 2 Cr 36:9-21). O Evangelista Mateus interpreta este acontecimento no tempo de Jeremias, como uma profecia do clamor que se ouviu na matança das crianças em Belém. Tasker, citado por Hernandes Dias Lopes, formula que “quando a fina flor da população de Jerusalém foi deportada pelos babilónios, deve ter parecido que Deus tinha abandonado o seu povo; e Jeremias nessa notável passagem retratou Raquel lamentando a sorte desses exilados passando cambaleantes diante do túmulo dela em Ramá, a caminho de uma terra estranha”[4].
Raquel, que teve um processo de parto dificílimo e trágico a caminho de Efrata, tal como nos contam os relatos bíblicos, morreu depois ter dado à luz Benjamim. Raquel morreu e foi sepultada junto do caminho para Efrata, isto é, em Belém (Gn 35:16-20). O biblista Matthew Henry, colaborando com o título atribuído a Raquel de “mater dolorosa”, e justificando esta profecia bíblica com a letra e o espírito do Novo Testamento, comentava que “o sepulcro de Raquel estava junto a Belém (Gn 35:16-19). O coração de Raquel estava sobre os seus filhos, como estava sobre o seu filho naquele trabalho de parto que a levou à morte e a quem ela deu o nome de Benoni, que significa filho do meu sofrimento. Essas mães eram como Raquel, moravam perto do seu túmulo e muitas delas eram suas descendentes. Portanto, seus lamentos foram elegantemente representados no pranto de Raquel”[5].
O alcance teológico e teleológico desta passagem bíblica em apreço não pode ser dissociado – primeiramente – das verdades soteriológicas do cativeiro do Egipto e, posteriormente, assírio e babilónico. Todos estes cativeiros humilhantes que Israel de DEUS teve de enfrentar foram uma autêntica dor para as mães judias, simbolicamente representadas por Raquel, porque envolviam expropriação, exílio, escravatura e morte, razão pela qual choravam dolorosamente a desgraça dos seus filhos e não se deixavam consolar, “porque eles já não existiam mais”. Choravam desconsoladamente o desaparecimento dos seus filhos que foram brutalmente massacrados e assassinados. Não estão mais no mundo dos vivos. Uns, neste vasto leque de filhos, morreram barbaramente e outros foram levados pelas terras estranhas e distantes para serem escravos.
Sabemos, no entanto, que estas duras realidades que Israel teve de enfrentar visava, em última instância, moldar o povo de DEUS para o caminho certo e para uma verdadeira adoração. Em todos estes cativeiros “Egipto”, o Eterno DEUS providenciou-lhe um salvador, enquanto ainda não tinha aparecido o maior e o único Salvador de todos: o Senhor e Salvador Jesus Cristo. Mas, para isso, seguindo a narrativa de Mateus, era importante que o Messias fugisse momentaneamente para o Egipto “para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egipto chamei o meu Filho (Mt 2:15).” Assim, foi dada a resposta cabal da fuga de Maria, José e o menino Jesus para o Egipto. Além do cumprimento efectivo da profecia de Oseias 11:1 que encerra esta pertinente fuga, o Egipto também era a terra da escravidão para o povo de DEUS e, concomitantemente, da salvação. Um paradoxo, não é? O Todo-poderoso DEUS usou o patriarca Moisés para libertar o seu povo do cativeiro dos faraós egípcios, assim também usou poderosamente o Seu Filho Amado Jesus Cristo, com alcance ainda maior e perfeito, para salvar definitivamente o Seu povo da escravidão do pecado.
Há, por este motivo, o paralelismo entre Moisés e o Senhor Jesus no processo da salvação do povo de DEUS. Assim como Moisés levantou a serpente de bronze no deserto, escreve o evangelista João para ilustrar esta grande e inequívoca verdade salvífica, “assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3:14-15). Hernandes Dias Lopes, citando Tasker que comenta o alcance teológico da profecia bíblica de Oseias 11:11, sustenta “que o Messias é a personificação do verdadeiro Israel antigo e também que ele era um segundo Moisés, maior que o primeiro. Sua suprema obra de salvação tinha como modelo o poderoso ato de salvação realizado por Deus por meio de Moisés em favor do povo escolhido. E, tal como Moisés foi chamado para ir ao Egito e libertar Israel, filho primogênito de Deus (Ex 4.22), da escravidão física, assim também Jesus foi chamado do Egito em sua infância, por meio da divina mensagem transmitida a José, para salvar a humanidade da escravidão do pecado”[6]. Joseph Aloisius Ratzinger, nesta mesma esteira do pensamento, vai ao ponto de considerar que “a história de Israel recomeça do princípio e de modo novo com o regresso de Jesus do Egipto à Terra Santa. Certamente, o primeiro chamamento para se regressar do país da escravidão tinha falhado sob muitos aspetos. (…). Com a fuga para o Egipto e o seu regresso à Terra Prometida, Jesus opera o êxodo definitivo. Ele é verdadeiramente o Filho. Ele não sai de casa para se afastar do Pai; Ele volta a casa e conduz a casa. Ele está sempre a caminho para Deus e assim conduz da alienação à «pátria», àquilo que é essencial e próprio. Jesus, o verdadeiro Filho, saiu Ele mesmo, em sentido muito profundo, para o «exílio» a fim de nos trazer a todos da alienação para casa”[7].
Este regresso definitivo a casa do povo de DEUS concretizou-se com a morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Antevendo de longe esta realidade, o Profeta Jeremias, ainda na mesma profecia desoladora, consola de forma peremptória o povo com as seguintes palavras: “Não chores mais — diz o Senhor, e limpa as lágrimas dos teus olhos. Tudo o que fizeste terá a sua paga e os teus filhos regressarão da terra do inimigo. Há esperança para o teu futuro; os teus filhos voltarão para casa. Palavra do Senhor!” (Jr 31:16). Na tristeza do exílio babilónico, “uma nova vida se tornou possível para um Israel revivificado. Semelhantemente, a tristeza das mães privadas de seus filhos assassinados por Herodes estava destinada, na divina providência, a resultar em grande recompensa”, fundamenta Tasker[8]. Por outras palavras, as lágrimas desoladoras transformar-se-iam agora em alegria contagiante e permanente (Sl 126:1), através da milagrosa libertação do povo de DEUS.
Diferentemente da profecia de Jeremias, que contém logo a seguir esta mensagem de esperança para os que foram torturados, mortos e espalhados com o cativeiro, em Mateus não foi descrita esta esperança. Porquê? Porque o Evangelista Mateus não tinha ainda dado a conhecer a ressurreição e glorificação do Senhor Jesus. O autor sagrado preocupou-se apenas, numa primeira fase, em evidenciar na sua abordagem o processo do nascimento do Messias, no cumprimento das profecias bíblicas e a mão poderosa de DEUS no curso dos acontecimentos. A resposta da esperança em Mateus só veria a luz do dia com a morte expiatória do Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário e a Sua eterna glorificação – onde recebeu todo o poder no céu e na terra (Mt 28:18). Um entendimento previamente defendido por Joseph Ratzinger, que esclarece que “em Mateus, a palavra do profeta – a lamentação da mãe sem a resposta consoladora – é como um grito dirigido ao próprio Deus, um pedido da consolação não dada e ainda esperada: um grito ao qual realmente só o próprio Deus pode responder, já que a única verdadeira consolação – que vai para além das simples palavras – seria a ressurreição. Só com a ressurreição seria superada a injustiça, revogada a palavra amarga «já não existem»”[9].
Sim, com a morte expiatória do Senhor Jesus Cristo e a Sua gloriosa ressurreição foram banidos todo o pecado: a escravidão, a dor, a lágrima e a morte para todos os eleitos filhos de DEUS. ELE poderosamente enxugou todas as lágrimas dos seus olhos e já não haverá mais morte nem luto nem pranto nem dor” (Ap 21:4). A nossa esperança e eterna salvação estão unicamente firmados nos méritos do Senhor Jesus Cristo. Por isso, nenhuma mãe jamais chorará o desaparecimento físico dos seus filhos ou algum ente querido. Não haverá mais sofrimento, desgraça, maldade e pecado. Tudo transformar-se-á em eterno gozo, louvor e adoração ao nosso DEUS Altíssimo para todo o sempre. Que assim seja. Vai ser sempre assim. E assim sempre será.
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[1] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus (Jesus, o Rei dos reis), Hagnos, São Paulo, 2019, p.62 e 63.
[2] Joseph Ratzinger/Bento XVI, in Jesus de Nazaré [A Infância de Jesus], Principia, Cascais, 2012, p. 92.
[3] Bíblia de Estudo de Genebra, in comentário bíblico de Mateus 2:18.
[4] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus, p. 75 e 76.
[5] Matthew Henry, in Comentário Bíblico do Novo Testamento (Mateus a João), Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, 2008, p. 15 e 16.
[6] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus, p.75.
[7] Joseph Ratzinger/Bento XVI, in Jesus de Nazaré (A Infância de Jesus), p. 94.
[8] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus, p. 76.
[9] Joseph Ratzinger/Bento XVI, in Jesus de Nazaré, p. 95 e 96.
Os Demónios São Muitos no Mundo
Judas e o Alto Preço da Traição
A traição é um vício pernicioso e com alcance poderosíssimo para destruir vidas. Ela mina os relacionamentos e cria profundas inimizades entre as pessoas. A traição tem o poder de repelir as amizades duradouras, afastar as pessoas umas das outras, arruinar relacionamentos saudáveis, cessar o amor e, por fim, em última instância, matar. A traição é um repositório fértil de toda a sorte de pecados existenciais e existentes no mundo, que se vai desdobrando na desconsideração do outro, na humilhação, na infidelidade, na hipocrisia, na mentira, na manipulação, no egoísmo, no materialismo, na cobiça, no homicídio, na maldade e na malignidade. A traição é um cancro incurável e, concomitantemente, mortal no seu substrato. Ela é diabólica, a todos os níveis, e um dos piores malefícios que o ser humano herdou do pecado original no início da criação.
A traição, por infelicidade nossa, não anda solta e nem vive sozinha. Ela é gregária e convive com pessoas. Não se pode falar da traição sem falar dos traidores e traídos. A traição envolve sempre pessoas e terceiros – dois ou mais. Todos nós, sem excepção, em alguma fase da nossa vida, tivemos de lidar com a traição. Pode ser na qualidade passiva de traídos ou, inversamente, na qualidade activa de traidores. Não há ninguém que esteja no seu perfeito juízo que desconheça liminarmente o significado da traição e as suas nefastas implicações humano-antropológicas, mormente na vida de quem foi vítima dela.
Podemos definir a traição, de forma abreviada e subsumida, como sendo uma atitude deliberada de deslealdade em quem se deposita a genuína confiança, mediante uma aliança. Por outras palavras, é praticar aleivosia. Chama-se traidor àquele que viola de forma consciente e prejudicial um compromisso firmado com o seu próximo ou terceiros, gerando-lhe significativos danos psicológicos, morais, religiosos, amorosos, reputacionais, patrimoniais e materiais, etc. O traído é parte vítima da infidelidade do traidor.
Levado nesta inqualificável maldade humano-diabólica, Judas Iscariotes traiu friamente o Senhor Jesus Cristo por apenas trinta moedas de prata (Mt 26:14-16; Mc14:10-11, Lc 22:3-6), conduzindo-o a fortiori à morte na Cruz do Calvário. Judas Iscariotes, desde o princípio, sempre foi falso, ganancioso e aldrabão. O autor sagrado chamou-lhe peremtoriamente de traidor (Lc 6:16). O Evangelista João, na mesma esteira do pensamento, caracterizava-o como um autêntico dissimulado, materialista e ladrão, “pois era ele que tinha a bolsa do dinheiro e roubava do que lá se metia” (Jo 11:6-7), dando-nos conta posteriormente que “o Diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a ideia de atraiçoar Jesus” (Jo 13:2). E o próprio Senhor Jesus, aquando da Sua arbitrária prisão em Getsémani, confrontou-lhe nos olhos com a lapidar expressão: “Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?” (Lc 22:48).
Durante três anos, sustenta Hernandes Dias Lopes no seu comentário expositivo sobre Evangelho segundo João, “Judas Iscariotes realizou a obra de Deus. Quando Jesus enviou os discípulos dois a dois, Judas Iscariotes estava no meio deles. Ele participou do grupo dos Doze e também do grupo dos Setenta. Judas Iscariotes pregou o evangelho para os outros, orou pelos enfermos e expulsou demônios em nome de Jesus. Mas agora estamos vendo esse homem possuído pelo diabo e caminhando para a destruição. Judas Iscariotes tapa os ouvidos à voz de Cristo e abre o coração aos sussurros do diabo. Ele abrigou em seu coração as sugestões do diabo; o diabo entrou nele e o levou para o inferno”. Judas Iscariotes teve excelentes oportunidades conferidas pelo Senhor Jesus Cristo para converter o seu empedernido coração e optou, mesmo assim, de forma livre e consciente, em escolher o caminho da traição e da perdição eterna.
A história funesta de Judas, escreve ainda Hernandes Dias Lopes, nos mostra quão longe um homem pode ir em sua profissão religiosa sem ser convertido, quão profundamente uma pessoa pode se envolver com as coisas de Deus e ser apenas um hipócrita. Judas Iscariotes nos mostra a inutilidade dos maiores privilégios sem um coração sincero diante de Deus. Privilégios espirituais sem a graça de Deus não salvam ninguém. Ninguém é salvo por ser um líder religioso, por ocupar um lugar de destaque na denominação ou por exercer um ministério espetacular. Judas Iscariotes nos alerta sobre o perigo de ter apenas um conhecimento intelectual do evangelho, mas um coração ainda não convertido. Judas Iscariotes nos mostra que ser batizado ou ser membro de igreja não é garantia de que estamos certos diante de Deus”. Quem realmente desdenha, goza, ridiculiza e trai o Senhor Jesus Cristo, tal como fez Judas Iscariotes, não toma parte na promessa da vida eterna, antes pelo contrário, segue inevitavelmente uma rampa deslizante para o fogo do inferno.
Sabemos que, por vicissitudes várias e supervenientes, os traidores jamais ficarão imunes aos seus censuráveis comportamentos. Há um preço bastante elevadíssimo a pagar para todos aqueles que vivem no crime da traição. Os traidores podem inicialmente julgar que serão beneficiados com a traição que perpetuam, saindo dela incólumes. Um prognóstico completamente equivocado. Com efeito, acabarão sempre por serem eles mesmos apanhados pela armadilha da traição que andaram a praticar durante a vida. Há consequências práticas e imputabilidade para os traidores. Todos os traidores, cedo ou tarde, serão coercivamente responsabilizados pela sua má conduta de traição.
Judas Iscariotes não chegou a beneficiar em nada com a traição que andou a fazer ao longo da sua vida de hipocrisia descarada. Também não beneficiou do dinheiro da bolsa que reiteradamente roubava do Senhor Jesus Cristo. Da mesma sorte, não chegou a usufruir de trinta moedas de prata que recebeu dos líderes religiosos para entregar o inocente Filho de DEUS à morte.
Durante a grande Ceia do Senhor com os seus discípulos, segundo os relatos do Evangelista João, “logo que Judas comeu o pedaço de pão, Satanás apoderou-se dele” (Jo 13:27). Satanás apossou completamente de Judas para concretizar o gigantesco plano diabólico de trair o Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, matá-Lo. Entrou nele o poder destruidor das trevas e com todas as suas implicações maléficas que isto acarretava na vida dele. Judas foi inteiramente controlado pelo Diabo para ser malignamente usado por ele, razão pela qual saiu imediatamente da presença do Senhor Jesus ainda no decorrer da Ceia. E era noite, vinca manifestamente o Evangelista João este importante pormenor (Jo 13:27; 30). Noite temporal e também completa escuridão no coração de Judas.
Hernandes Dias Lopes, a propósito disso, formula que “o traidor Judas Iscariotes foi mergulhado na escuridão (13.30). E era noite. Noite lá fora e também noite em seu coração. A noite trevosa da traição levou-o à noite eterna, de escuridão sem fim. A escuridão que estava em seu coração levou-o para as trevas eternas. Jesus é a luz do mundo, mas Judas rejeitou Jesus e saiu na escuridão; e, para Judas, ainda é noite!”. Um entendimento, igualmente, defendido por Joseph Ratzinger no seu livro Jesus de Nazaré, fundamentando que “Judas vai para fora num sentido mais profundo: entra na noite, vai-se embora da luz para a escuridão. O «poder das trevas» apoderou-se dele (cf. Jo 3; 19; Lc22, 53)”. Por outras palavras, Judas Iscariotes saiu de forma apressada durante a Ceia para trair o Filho do Homem na noite do pecado: no pecado da ambição, da avareza, da locupletação, da corrupção e do homicídio premeditado. Saiu da presença gloriosa do Senhor Jesus Cristo, a Luz do mundo, para entrar na noite das trevas e nele perder-se definitivamente, autodestruindo-se.
Para reforçar ainda esta ideia da ingratidão e infidelidade de Judas, escreve Charles Erdman, que “o caráter de Judas oferece-nos o retrato mais deplorável da incredulidade que o evangelho registra. Suas oportunidades de conhecer a Cristo foram inexcedíveis, mas resistiu à luz, alimentou o pecado da avareza, não se comoveu diante da manifestação inigualável do amor do mestre, que fora a ponto de baixar-se e lavar-lhe os pés. Agora, à mesa, Jesus lhe dá o último sinal de amizade; trava-se ali, na alma de Judas, a última batalha, porém Satanás prevalece; e ele sai para dentro da noite de sua eterna desgraça e condenação”.
O Diabo usou Judas Iscariotes para trair o inocente Filho de DEUS e depois de consumar este maléfico acto de traição descartou-lhe completamente, atormentando-lhe com todo o tipo de remorso, tal como faz com todos os filhos da perdição que resistem manifestamente a graça salvífica do Senhor Jesus Cristo. Já não valia Judas a ganância desenfreada pelo dinheiro fácil. Já não lhe valia mais as trinta moedas de prata da traição. Já não lhe valia a traição que julgava que fosse a sua salvação. E, por fim, já não lhe valia inclusive a sua vida, razão pela qual sufocou-se a autodestruiu-se na sua própria traição e miséria espiritual. Judas queria tudo e acabou por perder literalmente tudo.
O Apóstolo Mateus narra-nos que “quando Judas, o traidor, viu que Jesus tinha sido condenado, encheu-se de remorsos e foi entregar as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos. E confessou: «Pequei ao entregar um inocente à morte.» Eles replicaram: «Que temos nós com isso? O problema é teu!»” (Mt 27:3-4). E, de seguida, prossegue ainda o autor sagrado no seu fidedigno relato bíblico: “então Judas atirou as moedas de prata para dentro do templo, depois afastou-se dali e foi-se enforcar” (Mt 27:5). O evangelista Lucas, por sua vez, no livro de Actos dos Apóstolos, de forma mais pormenorizada, destaca o carácter violento do suicídio de Judas, sustentando que este “caiu morto, tendo rebentado os intestinos que se espalharam pelo chão” (At 1:18).
Para conjugar estes dois relatos sobre a morte de Judas Iscariotes, narradas por Mateus e Lucas, respectivamente, Mattthew Henry no seu comentário bíblico formula que Judas foi “estrangulado ou sufocado com aflição e horror, ele caiu impetuosamente (de cabeça no chão, segundo o Dr. Hammond) e, em parte com a inchação do próprio peito e em parte com a violência da queda, ele se arrebentou pelo meio, de forma que todos os seus intestinos saíram do corpo (v. 18). Seu enforcamento, conforme nos relata Mateus 27.5, o faria inchar até que se partisse, fato reportado por Pedro. Ele explodiu produzindo grande barulho (conforme o dr. Edwards) que foi ouvido pela vizinhança e, assim, como diz o texto, foi notório a todos os que habitam em Jerusalém (v.19), pois todas as suas entranhas se derramaram (v.18)”. A Bíblia de Estudo de Aplicação Pessoal, comentando sobre isso, explica que “Judas tentou enforcar-se, a corda se rompeu ou galho quebrou, Judas caiu, e seu corpo se despedaçou”. Aparentemente durante, ou logo depois do enforcamento, segundo a versão da Bíblia de Estudo de Genebra, o corpo de Judas “caiu no chão e foi rompido ou decomposto”. Um entendimento tradicional, igualmente, acolhido e sustentado por Augustus Nicodemus Lopes no seu estudo bíblico aqui.
O traidor Judas, como ficou demonstrado, não conseguiu voltar para trás no sentido de remediar o seu abominável pecado e, tão pouco, acreditar na lei do amor e do perdão Divino. Joseph Ratzinger, indo mais além no seu comentário teológico, considera que “Judas não conseguia acreditar num perdão. O seu arrependimento torna-se desespero. Já só se vê a si mesmo e às suas trevas, já não vê a luz de Jesus – aquela luz que pode iluminar e vencer as próprias trevas. Deste modo faz-nos ver a forma errada do arrependimento: um arrependimento que já não consegue esperar, mas só vê a própria obscuridade, é destrutivo, não é um verdadeiro arrependimento. Faz parte do justo arrependimento a certeza da esperança – uma certeza que nasce da fé no poder maior da Luz que Se fez carne em Jesus”. Judas Iscariotes traiu o Senhor Jesus Cristo, mas acabou inevitavelmente por sufocar-se na sua própria traição e suicidou-se (Mt 27:5). O avarento judas colocou deliberadamente o termo à sua própria vida e foi definitivamente para a perdição.
A traição tem um elevado preço a pagar. O seu galardão é a morte. Todos aqueles que vivem deliberadamente a trair, especialmente traindo o Senhor Jesus Cristo, a Sua Amada Igreja e Obra em geral, o fim deles é a perdição eterna, se previamente não se arrependerem dos seus maus caminhos. Os traidores e injustos, tal como preceitua claramente a Palavra de DEUS, não herdarão a promessa da vida eterna (1Co 6:10; Ap 21:8). Não há falso Cristão ou ninguém que consiga enganar o Senhor Jesus Cristo, com a sua vida de hipocrisia ou mentira, saindo ileso, uma vez que Ele sabe de tudo e nada se furta ao Seu raio de conhecimento.
Judas Iscariotes, sumaria Hernandes Dias Lopes, que subscrevo na íntegra, “é um alerta para nós sobre o perfeito conhecimento que Cristo tem de todo o seu povo. Jesus pode distinguir entre uma falsa profissão de fé e a verdadeira graça. A igreja pode ser enganada, mas Jesus não. Homens maus como Judas Iscariotes podem ocupar os postos mais altos na liderança da igreja, mas nunca enganarão Jesus. Jesus conhece aqueles a quem ele escolheu (13.18,19; 2Tm 2.19). Esse conhecimento de Jesus alerta os hipócritas sobre o arrependimento. Jesus deu todas as oportunidades para Judas Iscariotes se arrepender. Ele o chamou, o ensinou, o comissionou e lhes lavou os pés. Jesus o tratou como amigo. Deu-lhe todos os privilégios que deu aos outros discípulos”. No entanto, sabemos que, mesmo assim, Judas rejeitou todas essas nobres e graciosas oportunidades da salvação oferecidas pelo Senhor Jesus Cristo.
Que o nosso Todo-Poderoso DEUS realmente nos livre do crime da traição e de toda a sorte de pecados. Que ELE nos ajude e nos oriente para os caminhos do amor, santidade, bondade, perdão, reconciliação, fidelidade, paz e, acima de tudo, da vida eterna. Que assim seja. E assim sempre será pela fé no nome Bendito do Senhor Jesus Cristo. Amém.
Culto Natalício e a Sua Relativização Pelas Igrejas Evangélicas
Nunca me conformei com o facto de muitas Igrejas Evangélicas não celebrarem o culto no dia de Natal, preferindo refugiar-se na cómoda confraternização familiar e nas comezainas que a própria quadra proporciona. Nunca aceitei os argumentos falaciosos e tautológicos utilizados para legitimar a não realização do culto no dia a que se atribui, universalmente, o nascimento do Senhor Jesus Cristo, nosso Eterno Salvador. Faz-me ainda imensa confusão como é que as lideranças das igrejas, e os pastores em especial, conseguem conviver tranquilamente com a inexistência do culto nas suas congregações neste grande dia da salvação e permanecem conformados nas suas casas, entregues às festividades familiares.
A Igreja Católica Romana, por exemplo, tem uma postura irrepreensível neste ponto do culto natalício do dia 25 de Dezembro. Tanto o Vaticano como os católicos praticantes atribuem uma importância cimeira à “missa do galo”, procurando suspender toda a azáfama da confraternização familiar para assistirem à referida celebração, que recorda e exalta a encarnação do Senhor Jesus Cristo no mundo. Testemunhei in loco esta realidade em Bissau e também na cidade de Munique, na Alemanha. Aliás, trata-se de uma prática transversal a todas as igrejas católicas do mundo. Infelizmente, por razões inaceitáveis, as igrejas protestantes tentam, a todo o custo e sem fundamento justificável, relativizar o culto do nascimento do Senhor Jesus Cristo no dia 25 de Dezembro.
É verdade que, possivelmente, o Senhor Jesus Cristo não terá nascido no dia 25 de Dezembro. Também é verdade que podemos celebrar o Seu nascimento todos os dias do ano, inclusive antecipando-o ou adiando-o conforme entendermos. É ainda verdade que o culto de Natal não é um barómetro decisivo para aferir, na íntegra, a qualidade da nossa fé e o grau da nossa espiritualidade. No entanto, em circunstância alguma estas arbitrariedades inoportunas podem levar-nos a relativizar a data oficial da encarnação do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Além disso, os Cristãos que negligenciam o culto no dia de Natal são, praticamente, os mesmos que o festejam socialmente no dia 25 de Dezembro, através de convívios familiares e da troca de presentes com os seus entes queridos. Não será isto uma enorme incongruência? Esperar-se-ia, igualmente, que essas pessoas não se associassem a qualquer tipo de festividade nesse dia, uma vez que, do ponto de vista eclesiástico-religioso, não lhe atribuem qualquer importância — por considerarem não ser a data oficial do nascimento do Senhor Jesus Cristo. “As más conversações”, como já dizia o Apóstolo Paulo, “corrompem os bons costumes” (1 Co 15:33).
Nós, os evangélicos, por natureza, somos protestantes praticamente em tudo. Há coisas que, a meu ver, protestamos em demasia e que não fazem qualquer sentido à luz da Palavra de DEUS. Em contrapartida, nas questões em que realmente deveríamos protestar com mais vigor, ficamos calados, adotando uma postura de relativização e, em muitos casos, de letargia espiritual, o que não condiz minimamente com o irrepreensível testemunho Cristão.
Que DEUS nos perdoe e nos ajude a interiorizar, da melhor forma possível, a importância cimeira que o culto de Natal no dia 25 de Dezembro representa no nosso testemunho Cristão. Que as lideranças das igrejas que não celebram o culto nesse grande dia da salvação nas suas congregações, sobretudo os pastores, possam reconsiderar seriamente esta infeliz postura eclesiástica, para a glória do nosso Senhor Jesus Cristo. Que assim seja.





