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A Páscoa do Senhor Jesus Cristo na Teologia da Salvação



Hoje é um dia bastante especial para todo o Mundo Cristão. Celebra-se a Páscoa, isto é, o triunfo do Senhor Jesus Cristo sobre a morte e consequentemente a libertação da Raça Humana outrora perdida pelo lamaçal do pecado (LER). Partilho, por isso, convosco, este vídeo onde procuro abordar tão importante temática nas suas várias vertentes teológicas dentro das Escrituras Sagradas. Tenha um bom proveito na visualização e uma boa Páscoa. 

I Remember Calvary



Como não lembrar da Via-Sacra do Senhor Jesus para a nossa redenção? Espero, com a ajuda do Santo Espírito Santo, nunca esquecer esta Grande Verdade soteriológica na minha vida e poder permanentemente partilhá-la com os meus familiares, amigos, conhecidos, desconhecidos e o mundo em geral. 

Considerações Pascais: A Teologia da Salvação


Depois de nos termos lançado numa prolixa análise sobre a suma importância do Senhor Jesus tomar o livre-arbítrio de ir a Jerusalém e toda a Via-sacra que isto acarretou até à Sua cruenta morte e ressurreição, sentimo-nos agora compelidos a fazer um enquadramento histórico-teológico da Páscoa no Processo da Salvação. Desde logo, quando falamos da Páscoa falamos do livramento do mundo decaído; do sofrido sacrifício expiatório do Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário em favor dos pecadores; da libertação da Raça Humana outrora transviada, que vivia sob o jugo do Diabo. 

No início da criação o Homem deliberadamente rebelou-se contra DEUS e, em consequência disso, foi destituído da glória da sua criação, perdendo significativamente a maioria dos direitos e privilégios que lhe foram outorgados no jardim do Éden, levando consigo a sentença de morte, devido ao seu acto prevaricador (Génesis 2:16-19). Apesar desta situação extremamente irregular e bastante complexa no percurso do Homem, DEUS jamais desistiu dele. Foi o Todo-poderoso DEUS que, no Seu incondicional e infinito Amor, tomou a iniciativa de comunicar com ele depois da sua queda, bem como proporcionar-lhe as túnicas de peles para vesti-lo, com vista a ocultar a sua nudez do pecado (Génesis 3:9-24). O sacrifício de alguns animais fora preciso para tal providência Divina como ficou implicitamente em Génesis 3:21. Para alguns exegetas Cristãos isto significava a providência por meio do Messias, em face da Sua obra Redentora na Cruz do Calvário. Dito por outras palavras, DEUS na Sua Omnisciência e mediante o Senhor Jesus Cristo anularia definitivamente o poder de Satanás sobre o Homem, ferindo-lhe na cabeça e este por sua vez lhe ferirá no calcanhar (Génesis 3:15). Ficou assim manifesto a inimizade entre a semente da mulher e a da serpente, o Diabo, tudo apontando para a morte e ressurreição do Filho de DEUS. 

Com o plano da salvação delineado e traçado, antes da fundação do mundo, DEUS ainda fez questão de compartilhá-lo com a Humanidade, através do Seu povo eleito, a nação israelita, da qual descenderia o Messias Prometido. A começar com o Patriarca Abraão que vislumbrou a concretização do referido plano. Viu-o, dizia o autor sagrado, e alegrou-se (João 8:56). E a mesma revelação com o rei David no sentido da promessa: "eu lhe serei por pai, e ele me será por filho… Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti: o teu trono será para sempre" (2Samuel 7:14; 16). Tanto a promessa abraâmica (Génesis 12:1-3) e a davídica têm como pano de fundo central o Senhor Jesus Cristo e a Sua obra Redentora na Cruz do Calvário em prol da Humanidade. 

Desde o Livro de Génesis até Malaquias DEUS conduziu o Seu povo de múltiplas formas com o intuito de moldá-lo à realidade espiritual. Permitiu-lhe passar por tremendas provações e adversidades, isto é, foi escravizado no Egipto por 400 anos (Génesis 15:13; 46:1-34), invadido pelos Assírios (2 Reis17:1-6; 18-9-15) e, posteriormente, conquistado pelos babilónios (2 Reis 24:8-17; 2 Crónicas 36:9-10; 2 Reis 25:1-21; Crónicas 36:11-21). Mesmo assim, o Eterno Jeová jamais desamparou o Seu eleito povo, sempre esteve presente com ele para lhe dar a lição e orientação na conduta irrepreensível que deveria seguir, que é a de voltar à origem da verdadeira adoração. Apesar da difícil experiência de atravessar "o vale da sombra da morte", que o povo teve mesmo que enfrentar em algumas ocasiões, o SENHOR libertou-o definitivamente de toda esta ignomínia e tremendos desafios, fazendo-o triunfar em tudo perante os seus temíveis inimigos. Ora, é este o grande cerne da mensagem da Páscoa: a libertação da Humanidade decaída, que outrora vivia da opressão e da escravidão do pecado, obtendo deste modo a Misericórdia, o Perdão, a Paz e a Reconciliação com DEUS por intermédio do sacrifício do Senhor Jesus Cristo. 

Tal como aconteceu à nação israelita no cativeiro do Egipto e na Babilónia, vivendo subjugada pela opressão dos seus inimigos, assim também aconteceu com cada um de nós. Estávamos todos perdidos e mortos nos nossos delitos e pecados, alheios à vontade de DEUS nas nossas vidas (Efésios 2:2-3). Por isso, o Filho do Homem veio ao mundo tomando a forma do servo e cumprindo cabalmente a Missão do Pai (Filipenses 2:5; João 17:4). Viveu como um simples homem, transmitindo todos os desígnios de DEUS, durante a Sua peregrinação terrena. Foi crucificado de forma bárbara e injusta e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, deixando-nos a sublime promessa da vida eterna a todos quantos O recebem como SENHOR e Salvador em suas vidas (João 1:12; João 3:16). 

A Páscoa traduz o incondicional Amor de DEUS para com o mundo perdido e a inauguração de uma Nova Era do relacionamento entre DEUS e os seres humanos, através da vitória do Senhor Jesus sobre a morte. E como sustentava peremptoriamente o Apóstolo Paulo, "mas de facto Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem" (1 Coríntios 15:20-21). Seguindo a mesma esteira do pensamento, o conceituado Teólogo e Reformador da Igreja, Ulrich Zuínglio, regista que "Cristo é o único caminho para a salvação de todos os que existiram, existem ou existirão" (Timothy George, em Teologia dos Reformadores, p. 125, Vida Nova, São Paulo, SP, 2004). O único pré-requisito indispensável para usufruir dessa maravilhosa dádiva da salvação é, simplesmente, confiar inteiramente o Senhor Jesus Cristo os vossos corações, pedindo-Lhe perdão e orientação para as vossas almas. Amém! 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário V


Passaremos agora a analisar sucintamente as restantes aleivosias e vexames cometidos contra o Filho do Altíssimo na Sua Via-sacra para o Calvário. Desde logo, a II. A Injustiça. O Senhor Jesus Cristo ao ser traído, por tudo e todos ao Seu redor, abriu portas para ser simultaneamente objecto de inauditas arbitrariedades por parte "dos homens que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18), que "ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" (Isaías 5:20). O processo acusatório que incidia sobre Ele, de início ao fim, estava completamente viciado. A forma como foi preso e sentenciado é o exemplo manifesto disso. Não havia nenhum crime que o Filho do Homem praticasse, que justificasse a condenação à morte (Isaías 53:9; 2 Coríntios 5:21), tal como o próprio Pôncio Pilatos reconheceu depois de interrogá-Lo (João 18:34-35). No entanto, tudo isto aconteceu porque odiaram-Lhe sem causa (Salmo 35:19 ; 69:4 ; João 15:25). O Príncipe da Paz (Isaías 9:6) não representava objectivamente qualquer tipo de ameaça contra as autoridades vigentes, isto é, de querer usurpar os seus postos governativos ou fazê-los algum tipo de mal. Mesmo assim o Sinédrio, em conluio com a turba ululante e com a aquiescência do sanguinário governador romano (Lucas 13:1), declarou Jesus culpado de blasfémia contra DEUS e consequentemente condenou-O à pena capital (Mateus 26:65-66; Marcos 14:63-64), contra todas as evidências legais. Aquele que nunca conheceu o pecado (2 Coríntios 5:21), o Amado Filho de DEUS (Marcos 1:11), foi reduzido a um malfeitor. E assim, a mentira triunfou momentaneamente sobre a Verdade. O mal silenciando o Bem. O ódio ofuscando o Amor. Somente por três dias... 

III. A Humilhação. Quando a injustiça reina nos corações das pessoas elas passam a ser extremamente insensíveis, susceptíveis de praticar as piores barbáries que excedem a lógica do bom senso e da razoabilidade. Foi o que aconteceu no caso particular do Senhor Jesus. Desde o Seu despótico julgamento, ferido de tremenda ilegalidade, até à Sua crucificação na Cruz do Calvário, foi exposto ao opróbrio dos homens, tendo sido injuriado, cuspido no rosto, levado punhadas, enquanto outros o esbofeteavam lançando sorte sobre as suas vestimentas (Mateus 26:67-68), inclusive um dos criminosos a troçar Dele (Lucas 23:39). O autor sagrado regista que "os soldados entrelaçaram uma coroa de espinhos que puseram na cabeça de Jesus. Depois colocaram-lhe aos ombros um manto vermelho. Aproximavam-se e faziam pouco dele: «Viva o rei dos judeus!» E davam-lhe bofetadas" (João 19.1-3). Uma passagem bíblica, que coaduna com a profecia sobre a condição terrena do “Servo Sofredor” (Isaías 53:1-12). Este sofrimento e tremenda humilhação, a que foi sujeito para nos livrar da condenação eterna, encerrava toda a Verdade central do Evangelho – a salvação da Humanidade pecadora. Se o primeiro homem, por causa da soberba, almejou chegar à natureza Divina (Génesis 3:1-7), desobedecendo às ordens expressas de DEUS, o Senhor Jesus, de forma inversa, abdicou da Sua natureza Divina e tomou a forma de escravo, "tornando-se igual aos homens. E, vivendo como homem, humilhou-se a si mesmo, obedecendo até à morte, e morte na cruz" (Filipenses 2:5-8). Viveu como escravo e acabou como um criminoso, encarando tudo isto com total obediência, com vista a honrar a vontade soberana de DEUS na Sua Vida. Aquele que é o obreiro de todas as coisas, o Alfa e o Omega (Colossenses 1:13-18), o Verbo de DEUS (João 1:10; 14), a Humildade em Pessoa  (Mateus 11:28), agora foi reduzido a um grau de insignificância como se de um marginal tratasse, por causa do Seu infinito e incondicional amor para com os pecadores, amando-os até ao fim (João 13:1). Um autêntico paradoxo e "loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus" (1 Coríntios 1:18). Por isso, "Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Filipenses 2:9-11). 

IV. A Morte. Chegado ao ponto fulcral da Sua missão salvífica, que é o inevitável sacrifício expiatório que Lhe esperava dentro de algumas horas, o Senhor Jesus manteve-se sereno até ao fim. Não cedeu às provocações e tentações que estava a ser objecto na Cruz (Marcos 15:29-32). Foi vexado e humilhado, escrevia o profeta Isaías, "mas a sua boca não se abriu para protestar; como um cordeiro que é levado ao matadouro ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador, a sua boca não se abriu para protestar. Levaram-no à força e sem resistência nem defesa (Isaías 53:7-8). Relutou firmemente, tal como aquando da Sua tentação no deserto  (Mateus 4:1-11). Não Se distraiu uma única vez do Seu verdadeiro intento. Teve ainda a amabilidade de pedir ao Pai para perdoar aqueles que estavam a trespassar-Lhe (Lucas 23:34), sendo deste modo coerente com a mensagem do perdão que sempre pregou, sobretudo a de não pagar o mal com o mal e amar os inimigos, independentemente das circunstâncias favoráveis ou adversas a que se possa estar circunscrito (Mateus 5:41-44). É nesta postura congruente de amor incondicional, que clamou com grande brado, dizendo: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou" (Lucas 23:46). Com a morte do Senhor Jesus estava tudo consumado. Definitivamente consumado (João 19:30). Em consequência disso, "o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo" (Mateus 27:51-52; Lucas 23:45). A barreira de inimizade que separava o Eterno DEUS dos seres humanos foi agora dissipada, fazendo com que se iniciasse uma nova era de Paz e Reconciliação entre ambos, mediante o sangue do Senhor Jesus (Romanos 5:1-2; 2 Coríntios 5:17-19). 

Não se pode, no entanto, falar de todos estes vexames que evidenciámos e a série de outros que não foram enumerados aqui sem falar da ressurreição do Messias. Depois de três dias retido na tumba Ele ressuscitou com a Força e o Poder de DEUS (Mateus 28:1-10; Marcos 16:1-8; Lucas 24:1-12; João 20:1-10), apresentando-se com provas irrefutáveis (1 Coríntios 15:5-8). Sem a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, tal como expressamente sustentava o Apóstolo Paulo, é vã a nossa fé (1 Coríntios 15: 12-18). A fé Cristã está alicerçada na morte e ressurreição gloriosa do Senhor Jesus, pois Ele ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem (1 Coríntios 15:20). A humilhante e difícil "Via Dolorosa para o Calvário" que teve que enfrentar passou agora a ser o caminho aconchegado e ideal do Perdão, do Amor, da Paz, da Reconciliação, da Esperança e da Vida Eterna em Cristo Jesus nosso Senhor e Salvador. Louvado seja DEUS agora e para todo o sempre! Que assim seja! 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário IV


Nos artigos precedentes centralizamos apenas a nossa abordagem na suma importância do Senhor Jesus ir a Jerusalém, bem como traçar a similitude dessa discernida decisão com a do patriarca Abraão na Teologia da Salvação. Agora, para uma melhor compreensão dos leitores, procuraremos abordar as implicações práticas da curta e complicadíssima estadia do Messias na Cidade Santa durante a “Semana da Paixão”, máxime pela forma como sofreu tamanha oposição dos pecadores (Hebreus 12:2-3), que culminou com a Sua horrenda morte na Cruz do Calvário. O Senhor Jesus, ao tomar o livre-arbítrio de ir a Jerusalém, estava a perfilhar inteiramente com a Sua missão redentora em favor da Humanidade. E esta impreterível decisão envolveria, em última instância, a traição, a injustiça, a humilhação, a morte e a Sua ressurreição. Analisaremos infra, de forma sumária e sistemática, cada uma dessas deliberadas aleivosias cometidas contra o Filho de DEUS. 

(I) A Traição. Começou, desde logo, com a multidão que rodeou o Senhor Jesus na Sua entrada triunfal no "Domingo de Ramos", na Cidade Santa, pedindo posteriormente a Pilatos para crucificá-Lo (Marcos 15:8-15). Uma tamanha incongruência comportamental sem precedentes. Embora não seja clarividente, nas Escrituras Sagradas, se é a mesma multidão, todavia há um entendimento praticamente generalizado no seio dos biblistas no sentido que não é a mesma multidão que se revoltou contra Ele, sob o argumento que a turba que entrou com  o Senhor Jesus não era da cidade de Jerusalém, porque vinha das urbes circunvizinhas para onde Ele passou e seguiram-No até Jerusalém, tendo depois regressado às suas origens. O agora emérito Papa Bento XVI, por todos, defende esta posição no seu segundo volume de Jesus de Nazaré. 

Não comungamos deste entendimento preconizado pelos reputados teólogos. Temos uma leitura completamente diferente. É verdade que a multidão que entrou com o Senhor Jesus em Jerusalém era forasteira, contudo acreditamos piamente que foi a mesma que dias antes O clamava devotamente: "hosana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!" (Mateus 21:9-10) e subsequentemente mudaram de opinião pedindo a Sua injusta crucificação. Não fazia qualquer sentido a caravana que entrou com o Senhor Jesus na Cidade Santa, percorrendo inúmeros quilómetros (alguns seguiram-No desde Jericó) para estar apenas um ou poucos dias em Jerusalém e logo a seguir regressar imediatamente às suas terras, sem ficar para celebrar a grande festa da páscoa judaica. Aliás, a maioria das pessoas estava precisamente ali por causa da referida efeméride que decorria naquela mesma altura do calendário. E não estamos a falar de uma mera celebração. É das mais importantes festas judaicas que atraía numerosos peregrinos a Jerusalém, tal como acontecera em algumas ocasiões com o Senhor Jesus e a Sua família – que tiveram de deslocar-se de Nazaré para ir assistir à aludida festividade (Lucas 2:41-52). Esperava-se, por parte desta multidão, o ardente desejo de aproveitar a oportunidade aí presente para comemorar a páscoa como é commumente prática, hospedando-se em alguma parte da cidade. 

Acresce ainda o facto que, ao longo dos três anos volvidos no ministério evangelístico, o Senhor Jesus granjeou uma enorme simpatia e fama incontornável perante o povo – tanto na região da Judeia, Samaria e da Galileia, fazendo com que conquistasse uma grande popularidade nacional. E, justamente, por isso, havia diferentes entendimentos a Seu respeito, comparando-O com figuras proeminentes e bastante consensuais no panorama religioso de Israel, nomeadamente João Baptista, Elias, Jeremias ou um dos profetas antigos que havia ressuscitado (Mateus 16:13-16; Marcos 8:27-30 Lucas 9:18-20). Toda essa compreensão, que o povo tinha Dele, demonstrava a elevada estima e admiração que nutria por Ele. É evidente que o Senhor Jesus era mais importante em comparação com todas essas colossais figuras mencionadas. Ele é o Filho de DEUS, o Salvador do mundo. 

E mais, esta fama popular contribuiu decisivamente para que Ele não fosse preso e morto prematuramente, tal como sempre desejaram os chefes dos sacerdotes e doutores da lei (João 7:30). Sabemos que isto nunca iria acontecer precocemente, uma vez que "a sua hora ainda não tinha chegado" (João 7:32:44). Com efeito, para gerir esse compasso de espera até chegar mesmo a Sua hora, foi preciso DEUS usar a multidão para "protege-Lo" provisoriamente da morte certa, razão pela qual Jesus gozou desta "imunidade temporária" até ao tempo limite da Sua passagem desta vida para o além (João 13:1). Se não fosse a multidão há muito que O Senhor Jesus teria sido morto. Não há dúvida disso, porque ele não andava com guarda-costas e, tão pouco, armado. Havia, desde muito cedo, um plano bem traçado para tirar-Lhe a vida, mas por causa da multidão ninguém teve coragem de deitar-Lhe a mão. Por isso, quando chegou a Sua hora de deixar este mundo que coincidiu igualmente com "o poder das trevas" (Lucas 22:53; João 13:1) perdeu completamente a "legitimidade" que beneficiava no seio do povo e, em consequência disso, foi preso e condenado à morte (Lucas 22:53)

A chegada da hora do Senhor Jesus aconteceu concomitantemente com a manifestação visível do "poder das trevas", tal como o Próprio vai reconhecendo: “Vieram aqui com espadas e paus para me prenderem, com se eu fosse um ladrão? Estava convosco todos os dias no templo e não me prenderam! Mas esta é a vossa hora, é o poder das trevas” (Lucas 22:52-53). É este poder das trevas, que por sua vez, confundiu espiritualmente a multidão em Jerusalém e, mais tarde, os próprios discípulos. Começou a dar sinais com a cidade a ficar em "alvoroço" com a entrada triunfal do Senhor Jesus  (Mateus 21:10), curiosamente o mesmo termo "alvoroço" que havia em Jerusalém aquando do Seu nascimento em Belém de Judeia  (Mateus 2:3)  que, posteriormente, culminou com a matança das criancinhas inocentes por parte do rei Herodes para poder liquidá-Lo   (Mateus 2:16-18). Da mesma sorte, este último "alvoroço" resultou na predestinada morte do Filho do Homem. São os efeitos devastadores do referido "poder das trevas" que contagiou tudo e todos na cidade de Jerusalém, incluindo a mesma multidão que O aclamava dias antes e até mesmo os seus discípulos. 

Ainda em jeito de contra-argumento, para os Teólogos que têm uma leitura diferente da nossa sobre esta temática, importa salientar que Jesus tinha muitos admiradores em Jerusalém, insistimos, apesar de nem todos eles considerarem-No o Messias. Mesmo assim, nutriam um enorme carinho e admiração por Ele (João 7:40-52). Eis a grande questão que se coloca: onde estariam, então, essas pessoas na hora da Sua condenação? Será, porventura, que todos os habitantes de Jerusalém eram contra Ele? Porque é que alguns não saíram à rua para defendê-Lo ou, pelo menos, tentar protegê-Lo da injustiça que estava a ser alvo? Não repara, caro leitor, que algo não bate certo aqui em termos da coerência argumentativa da posição que estamos a refutar? 

É verdade que nem todos em Jerusalém, como em outras cidades de Israel, gostavam do Senhor Jesus. Mas havia um número bastante significativo da multidão que O tinha como profeta e alguns deles como Messias. Foi por causa disso que Pilatos tentou arranjar uma alternativa escapatória para libertá-Lo, usando assim uma prerrogativa que não era comum naquela altura, isto é, colocando o povo como juiz num famoso e controverso processo político-religioso. Terá pensando que com isso conseguiria salvar o Senhor Jesus da sentença capital de que traiçoeiramente estava a ser acusado pelas autoridades judaicas, uma vez que o marginal Barrabás jamais seria preferido pelo povo em comparação com o Santo Filho de DEUS. Presumia, de forma equivocada, o tirano governador romano. Debalde foram as suas "benévolas pretensões” para com o Messias (Mateus 27:15-26; Marcos 15:6-15; Lucas 23:13-25; João 18:38-40). Não resultaram e caíram por terra. 

Estando a reinar "o poder das trevas", por causa da chegada da hora do Filho do Homem (João 13:1; 17:1), conseguiu obnubilar completamente todos aqueles seguidores que aclamavam Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém, razão pela qual não há que admirar a mudança repentina operada na multidão. Em certas ocasiões, a própria multidão intitulada nos Evangelhos de "seguidores", teve esta postura redutora e antagónica sobre quem é o Senhor Jesus  (João 6:47-58), chegando ao ponto de abandoná-Lo só porque demonstrava claramente quem realmente É  (João 6:66). Por isso, não temos que ficar completamente surpreendidos com a momentânea mudança de posição da mesma multidão em Jerusalém. 

O impacto abismal desta manifestação do "poder das trevas" foi de tal ordem que afectou drasticamente a espiritualidade dos discípulos. A começar com a censura gananciosa que fizeram com a mulher que devotadamente ungiu o Senhor Jesus na casa de Simão, o "leproso", em Betânia (Mateus 26:6-13; Marcos 14:3-9; João 12:1-8). E, ulteriormente, o sono anormal que se apoderou deles em Getsémani, ao ponto de não conseguirem resistir apenas uma hora com o Senhor Jesus em oração, não obstante estarem predispostos espiritualmente, mas a carne estava bastante fraca (Mateus 26:40-46), somando o facto de abandonarem o seu Mestre aquando da Sua humilhante prisão (Mateus 26:56). Foi o mesmo "poder das trevas" que levou Judas Iscariotes a trair Jesus, vendendo-O por trinta moedas de prata, apoderando-se definitivamente dele ao ponto de levá-lo ao suicídio (João 3:19; Mateus 26:14-16; 27:3-5; Lucas 22:53). Outrossim, foi efeitos do mesmo "poder das trevas" que levou o Apóstolo Pedro a negar o Senhor Jesus por três vezes (Mateus 26:69-75; Marcos 14:66-72; Lucas 22:55-62; João 18:15-18), bem como todos os discípulos a duvidar da Sua Ressurreição, mesmo estando a falar visivelmente com eles de carne e osso (Marcos 16:9-13; Lucas 24:10-49). 

Somente com a crucificação do Senhor na cruz que vislumbramos a manifestação visível deste "poder das trevas". A Terra ficou literalmente escura desde a hora sexta até à hora nona (Mateus 27:45). Neste melancólico e sofrimento atroz, que o Filho de DEUS estava reduzido nas mãos dos pecadores, levou-Lhe a clamar em alta voz: "Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?"  Eis que, continua ainda o autor sagrado na sequência dos acontecimentos que sucederam, "o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo; tremeu a terra, fenderam-se as rochas; abriram-se os sepulcros depois, e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mateus 27:46; 51-53). O Senhor Jesus lutou com os “principados e potestades”, vencendo-os com Seu impoluto testemunho de vida (Hebreus 12:2.3). 

"poder das trevas", que confundiu tudo e todos com a chegada hora do Senhor Jesus, somente esvaneceu nos discípulos quando "abriram os olhos" (Lucas 24:30-35; 45-49) e começaram a interiorizar melhor a verdade central das Escrituras Sagradas, que é a vitória do Messias sobre a morte. Naquele momento passaram a compreender, de forma holística, que Ele é o Único Caminho para a Salvação de todo aquele que Nele crê (Actos 4:11-12). A partir daí, foram definitivamente revestidos pelo poder do Espírito Santo (Actos 1:8), e o impacto imediato que tudo isto teve depois no testemunho miraculoso que deram na propagação do Evangelho pelo mundo inteiro.  

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário III


É extremamente importante salientar o paralelismo entre o patriarca Abraão e o Senhor Jesus Cristo no processo da salvação, especialmente o dever de obediência que caracterizaram ambos na decisiva trajectória a Jerusalém para ofertar sacrifício a DEUS. Não se pode falar do Messias Prometido sem, no entanto, falar previamente de Abraão e vice-versa. O primeiro é o grande precursor da Lei e o segundo e a perfeita personificação da Graça. As duas incontornáveis figuras bíblicas estão visceralmente ligados a Teologia da Salvação. A promessa dada ao patriarca Abraão teria apenas a concretização plena com a encarnação, morte e ressurreição do Filho do Homem. 

Tal como Abraão foi desafiado para se dirigir ao "Santo Monte", em Jerusalém e ali sacrificar o seu único filho, assim também foi com o Senhor Jesus em relação à Sua vida oferecida para resgatar a Humanidade outrora perdida no lamaçal do pecado. Tanto um como o outro correspondeu, sem hesitação, à solicitação Divina. Abraão fez-se acompanhar, para a longa viagem ao Monte Mória, em Sião, dos seus dois servos. Da mesma sorte Jesus levou com ele os seus discípulos, granjeando, durante o percurso, outros tantos peregrinos que seguiam rumo a Jerusalém para assistir à páscoa dos Judeus. Na sua oração em Getsémani, momentos antes de ser preso e condenado à morte, já apenas com um grupo restritos dos seus discípulos, levou apenas consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu  (Mateus 26:37), equivalendo, deste modo, o mesmo número de pessoas que cercava Abraão na viagem   (Génesis 22:3). 

Nas duas misteriosas histórias o burro esteve presente. Abraão viajou para o local de burro e Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém montado num burro. O patriarca Abraão levou apenas o seu filho Isaque para "o lugar de adoração", que que iria servir para a oblação. O Senhor Jesus, nos momentos cruciais, esteve praticamente sozinho. No primeiro momento, ainda em Getsémani com os discípulos, o Evangelista Lucas regista que "afastou-se deles a uma curta distância e, pondo-se de joelhos" a orar  (Lucas 22:41 ; Mateus 26: 39). No segundo momento, depois de ter sido preso, foi desamparado até à Sua horrenda morte na cruz  (Mateus 26:31-32). E mais, Abraão somente viu o lugar que DEUS lhe havia indicado já no terceiro dia da viagem. O Senhor Jesus, segundo as Escrituras, ressuscitou ao terceiro dia  (Lucas 24:46)

O patriarca Abraão e o Senhor Jesus representam o pacto de DEUS com a Humanidade, bem como a sua concretização holística. Podemos apenas evidenciar uma única diferença substancial neles: foi com Jesus que fomos definitivamente justificados e passámos a ter paz com DEUS  (Romanos 5:1-2)  que, aliás, é o Único que dispõe desse poder remidor. Com a vida e obra do Messias prometido, o Todo- Poderoso DEUS honrou dignamente a Sua sagrada promessa. 

Resta, pois, a cada um de nós, cumprir, igualmente, com a sua parte neste admirável processo da salvação. Somos todos desafiados, sem excepção, pelas Escrituras Sagradas, a subir ao "Santo Monte" e ali oferecer o nosso sacrifício vivo, santo e agradável a DEUS  (Romanos 12:1). Sacrifício que deverá traduzir o genuíno arrependimento, conversão, contrição e santificação  (Actos 26:20), fazendo com que "cheguemos à unidade da fé e ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao homem adulto, à medida completa da estatura de Cristo" (Efésios 4:13). Que assim seja. 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário II


Tal como vincámos no artigo precedente, era extremamente importante a partida do Senhor Jesus Cristo a Jerusalém, visto que era o lugar onde convergiam todas as profecias bíblicas a Seu respeito (LER). E mais, até então, era a cidade de oblação para a expiação dos pecados que o povo cometia, pelo que o Filho do Homem tinha que ser ali sacrificado, para selar definitivamente a Velha Aliança firmada pelo Eterno JEOVÁ e, deste modo, instaurar o Sacerdócio Real na ordem de Melquisedeque  (Génesis 14:18-21; Salmo 110:4; Hebreus 5:5-6; 6:20; 7:15-17). 

A decisão de Jesus em deslocar-se a Jerusalém tinha inúmeros sobressaltos e riscos, a todos os níveis, mormente do ponto de vista geográfico e espiritual. No lugar onde se encontrava, a região do mar da Galileia, segundo os reputados teólogos e exegetas, fica 200 metros abaixo do nível do mar enquanto a altitude média de Jerusalém é de 760 metros acima do referido nível. Por isso, subir até à Cidade Santa, era uma trajectória íngreme e bastante penosa. Aqui, o cumprimento escrupuloso de todas as profecias dependia dessa obediência plena do Filho de DEUS, bem como a salvação da Humanidade perdida no lamaçal do pecado. E tudo isto consubstanciava, em termos prático-espirituais, um tremendo desafio no itinerário deliberativo do Messias. 

No decorrer da viagem, o Senhor Jesus atraiu uma enorme turba dos peregrinos que seguiam igualmente para Jerusalém, a fim de assistir à celebração da páscoa dos judeus  (João 2:13), especialmente por ter curado dois cegos na circunscrição de Jericó  (Mateus 20:29-34). E, foi assim, de forma heróica, que o Senhor Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém com a multidão a render-Lhe o merecido louvor, adoração e acções de graças, entoando efusivamente: "hosana ao Filho de David; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!" (Mateus 21:1-10), contrariando todas as maléficas censuras dos fariseus  (Lucas 19:39-40). 

A decisão subordinada de Jesus, de se entregar em Jerusalém, era semelhante à prova que DEUS colocou ao Patriarca Abraão. Este também foi desafiado a sacrificar o seu único Filho, Isaque. E, prontamente, correspondeu com a vontade expressa do SENHOR, fazendo-se acompanhar nesta incompreensível missão dos seus servos. Era, outrossim, um percurso escarpado e com enorme carga espiritual, a priori, fatídica, tal como o do Messias. Durante a difícil viagem para Jerusalém, concretamente à região do Monte Mória, em Sião, Abraão, a determinada altura da caminhada, depois de vislumbrar o lugar que DEUS lhe indicara, disse então aos seus criados: "fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o Senhor e depois voltarmos para junto de vocês" (Génesis 22:4-5). 

Nas duas misteriosas histórias encontramos várias similitudes, que concorrem e apontam para a providência divina no processo da Salvação. A começar com um acto livre de obediência, a viagem efectuada a Jerusalém, as pessoas envolvidas durante o percurso que, por vicissitudes supervenientes, acabaram por ficar para trás, o burro, o sofrimento atroz e, por fim, o sacrifício expiatório (desenvolveremos estes pormenores nos artigos subsequentes). Mesmo assim, tanto o Patriarca Abraão como o Senhor Jesus, não desfaleceram no seu nobre intento de servir a DEUS e foram obedientes até ao fim. 

A fé de Abraão estava bem ancorada no Todo-Poderoso DEUS  (Hebreus 11:8-19)  e no Messias, o Salvador do Mundo, razão pela qual alegrou-se com a ideia de poder presenciar a vinda do Messias. Viu-o e regozijou-se  (João 8:56), alcançando assim a bem-aventurança eterna.  Deus, da mesma sorte, honrando a Sua Santa Palavra, tendo em conta a missão redentora do Seu Amado Filho, elevou-O "acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobrem todos os joelhos: no Céu, na Terra e debaixo da terra; e para que todos proclamem, para a glória de Deus Pai: Jesus Cristo é o Senhor!"  (Filipenses 2:9-11). 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário I


Um dos momentos mais conseguidos em todo o percurso terreno do Senhor Jesus Cristo foi o de ter tomado a discernida decisão de ir a Jerusalém. Esta difícil decisão, encerraria, em última instância, a Sua predeterminada morte expiatória na Cruz do Calvário em favor da Raça Humana decaída pelo pecado original, bem como a Sua ressurreição dos mortos, tal como ficou registado nas Escrituras Sagradas. O Senhor Jesus entrou triunfalmente na Cidade Santa num Domingo de Ramos, não obstante o sofrimento atroz que augurava que iria acontecê-Lo nos dias seguintes perante as autoridades judaicas. Mesmo assim, "tomou o firme propósito de ir a Jerusalém" (Lucas 9:51), trilhando assim a penosa via dolorosa. 

É curioso notar que o Apóstolo Paulo, quando estava ainda em Éfeso, tomou, igualmente, a decisão de ir a Jerusalém mesmo sabendo que lhe esperavam prisões e tribulações em todas as cidades que ia vistoriando (Actos 20:23). O facto de ter que percorrer a íngreme via dolorosa, não obstaculizou em circunstância alguma o nobre ministério que o Senhor Jesus lhe confiou – de dar testemunho do Evangelho da Graça de DEUS. 

Por isso, de forma analógica, o desafio que nos é lançado também pelo Filho do Todo-poderoso DEUS, é o de cada um em particular tomar a sua cruz e segui-Lo. Por outras palavras, é prosseguir determinadamente a via dolorosa rumo à Jerusalém Celestial, salvando assim a sua alma da condenação vindoura que recairá sobre os ímpios. É a sensata e impreterível decisão que todos deveriam tomar. A sorte está lançada.

CONSIDERAÇÕES PASCAIS (5): A Dolorosa Via-Sacra do Messias [II]


II. A Injustiça. O Senhor Jesus Cristo ao ser traído, por tudo e todos ao Seu redor, abriu portas para ser, concomitantemente, objecto de inauditas arbitrariedades por parte dos homens que detêm a verdade em injustiça (Romanos 1:18). O processo acusatório que incidia sobre Ele, de início ao fim, estava completamente viciado. A forma como foi preso e sentenciado é o exemplo manifesto disso. Não havia nenhum crime que o Filho do Homem praticasse que justificasse a condenação à morte (Isaías 53:9), tal como o próprio Pôncio Pilatos reconheceu depois de interrogá-Lo (João 18:34-35). A Mensagem que Ele encarnava e proclamava não representava qualquer tipo de ameaça real contra as autoridades vigentes. Mesmo assim o sinédrio, em conluio total com a turba ululante e com a aquiescência do sanguinário governador romano (Lucas 13:1), declarou Jesus culpado de blasfémia contra DEUS, e, consequentemente, condenou-O à pena capital (Mateus 26:65-66; Marcos 14:63-64), contra todas as evidências legais. Aquele que nunca conheceu o pecado (2 Coríntios 5:21), o Justo Filho de DEUS, foi reduzido a um marginal. E assim, a mentira triunfou momentaneamente sobre a Verdade. O mal silenciando o Bem. O ódio ofuscando o Amor. Somente por três dias.

III. Humilhação. Quando a injustiça reina nos corações das pessoas elas passam a ser capazes de praticar as piores barbáries, que excedem a lógica da razão. Foi o que aconteceu no caso particular do Senhor Jesus. Desde o Seu despótico julgamento, ferido de tremenda ilegalidade, até a Sua crucificação no Gólgota, foi exposto ao opróbrio, tendo sido injuriado, cuspido no rosto, dado punhadas, enquanto outros o esbofeteavam lançando, inclusive, sorte sobre as suas vestimentas (Mateus 26:67-68), sendo que até um dos incriminados troçava dele (Lucas 23:39). O autor sagrado regista que "os soldados entrelaçaram uma coroa de espinhos que puseram na cabeça de Jesus. Depois colocaram-lhe aos ombros um manto vermelho. Aproximavam-se e faziam pouco dele: «Viva o rei dos judeus!» E davam-lhe bofetadas" (João 19.1-3). Uma passagem bíblica, que se coaduna com a profecia sobre a condição terrena do Servo Sofredor (Isaías 53:1-12). Este sofrimento e tremenda humilhação, a que foi sujeito, encerra a Verdade central do Evangelho: A salvação da Humanidade pecadora. O Senhor Jesus abdicou, em primeiro lugar, da Sua natureza divina e tomou a forma de escravo, "tornando-se igual aos homens. E, vivendo como homem, humilhou-se a si mesmo, obedecendo até à morte, e morte na cruz" (Filipenses 2:5-8). Viveu como escravo e acabou como escravo, encarando tudo isto com bastante determinação, com vista a honrar a vontade de DEUS. Aquele que é o obreiro de todas as coisas, o Alfa e o Omega (Colossenses 1:13-18), a humildade em pessoa (Mateus 11:28), agora é reduzido a insignificância como se de um qualquer tratasse, por causa do Seu amor incondicional que nutre pela Humanidade.

IV. A Morte. Chegado ao ponto decisivo da Sua missão salvífica, que é a inevitável morte que Lhe esperava dentro de algumas horas, o Senhor Jesus manteve-se sereno até ao fim. Não cedeu às provocações e tentações que estava a ser objecto na cruz (Marcos 15:29-32). Resistiu na força do Espírito Santo, tal como aquando da Sua tentação no deserto (Mateus 4:1-11). Não se distraiu uma única vez do Seu verdadeiro intento. Teve ainda a amabilidade de pedir ao Pai para perdoar aqueles que estavam a trespassar (Lucas 23:34), sendo coerente com a mensagem do perdão que sempre pregou, sobretudo a de não pagar o mal com o mal e amar os inimigos, independentemente das circunstancias favoráveis ou adversas a que se possa estar circunscrito (Mateus 5:41-44). É nesta postura de amor incondicional, que clamou com grande brado, dizendo: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou" (Lucas 23:46). Com a morte de Jesus estava assim tudo consumado (João 19:30). Em consequência deste desfecho auspicioso, "o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras. E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos, que dormiam, foram ressuscitados" (Mateus 27:51-52; Lucas 23:45) culminando na barreira que separava o Eterno DEUS dos humanos, bem como a instauração de uma nova ordem de relacionamento entre ambos, graças à expiação do Senhor Jesus Cristo na cruz do Calvário.

Por isso, não se pode falar de todos estes vexames que evidenciamos e a série de outros que não foram aqui enumerados sem falar, acima de tudo, da ressurreição do Filho de DEUS. Depois de três dias retido na tumba Ele ressuscitou com força e poder (Mateus 28:1-10; Marcos 16:1-8; Lucas 24:1-12; João 20:1-10), apresentando-se com provas irrefutáveis (1 Coríntios 15:5-8). Sem a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, tal como expressamente sustenta o Apóstolo Paulo, é vã a nossa fé (1 Coríntios 15: 12-18). A fé Cristã está alicerçada na morte e ressurreição vitoriosa de Jesus, porque Ele ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem (1 Coríntios 15:20). A dolorosa via-sacra que teve que suportar até a cruz do Calvário passou agora a ser o caminho aconchegado do Perdão, do Amor, da Paz, da Reconciliação, da Esperança e da Vida Eterna em Cristo Jesus nosso Eterno Senhor e Salvador. Aleluia! 

CONSIDERAÇÕES PASCAIS (4): A Dolorosa Via-Sacra do Messias [I]


Tal como sublinhámos nas nossas abordagens antecedentes: Jesus ao tomar o livre-arbítrio de ir a Jerusalém estava, sem margem de dúvida, a comungar inteiramente com a Sua missão redentora em favor da Humanidade (LER) e também (ALI) (AQUI). E tal impreterível decisão envolveria, em última instância, a traição, a injustiça, a humilhação, a morte e a sua ressurreição. Analisaremos infra, de forma sumária e sistemática, cada uma dessas aleivosas vias-sacras do Messias para o Calvário. 

(I) A traição. Começou, desde logo, com a multidão que rodeou o Senhor Jesus na Sua entrada apoteótica no "Domingo de Ramos" na Cidade Santa pedindo, dias depois, energicamente a Pilatos para crucificá-Lo (Marcos 15:8-15). Uma tamanha incongruência sem precedentes. Embora isso não seja manifestamente clarividente, nas Escrituras Sagradas, que é a mesma multidão que falseou Jesus, contudo há um entendimento generalizado no seio dos Teólogos Cristãos, sustentando que não é a mesma multidão que se revoltou contra Ele, sob o argumento que a turba que entrou com o Filho do Homem não era da cidade de Jerusalém, porque vinha das urbes circunvizinhas, para onde Ele passou, e seguiram-No até Jerusalém, tendo depois regressado às suas origens. O emérito papa Bento XVI defende esta posição no seu segundo volume de Jesus de Nazaré, bem como a maioria dos reputados Biblistas Protestantes.

Não comungamos deste entendimento preconizado. Temos uma leitura bastante diferente. É verdade que a multidão que entrou com o Senhor Jesus em Jerusalém era forasteira, no entanto acreditamos que foi, de facto, a mesma que dias precedentes O clamava devotamente: "hosana ao Filho de David! Bendito ou que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!" (Mateus 21:9-10) e, posteriormente, mudaram de opinião e pediram a Sua injusta crucificação. Isto porque não fazia qualquer sentido a caravana, que entrou com Jesus em Jerusalém, percorrer dezenas de quilómetros (alguns seguiram-No desde Jericó) para ficar apenas um ou poucos dias em Jerusalém e logo a seguir regressar às suas terras, sem ficar para celebrar a grande festa da Páscoa judaica. Aliás, a maioria das pessoas estava precisamente ali por causa da referida efeméride, que decorria naquela mesma altura do calendário. E não estamos a falar de uma mera celebração. É das mais importantes festas judaicas, que atraía montes de peregrinos para Jerusalém, tal como aconteceu em algumas ocasiões com o Senhor Jesus e a Sua família, que tiveram de deslocar-se de Nazaré para ir assistir à aludida festividade (Lucas 2:41-52). Esperava-se, por parte desta multidão, o ardente desejo de aproveitar a oportunidade aí presente para comemorar a Páscoa, como é commumente prática, hospedando-se em alguma parte da cidade.

Acresce ainda o facto que, ao longos dos três anos volvidos no ministério evangelístico, o Senhor Jesus granjeou uma enorme simpatia e fama incontornável perante o povo – tanto na região da Judeia, Samaria e da Galileia, fazendo com que conquistasse uma grande popularidade. E, justamente, por isso, havia diferentes entendimentos a Seu respeito, comparando-O com figuras proeminentes e bastante consensuais no panorama religioso de Israel, nomeadamente João Baptista, Elias, Jeremias ou um dos profetas antigos que ressuscitou e, por fim, Messias prometido (Mateus 16:13-16; Marcos 8:27-30 Lucas 9:18-20). Toda essa insigne compreensão, que o povo tinha Dele, demonstrava a elevada estima e admiração que nutria por Ele. É evidente que o Senhor Jesus era mais importante em comparação com todas essas mediáticas figuras mencionadas. Ele é o Filho de DEUS, o Salvador do mundo.

E mais, esta fama popular contribuiu decisivamente para que Ele não fosse preso e morto prematuramente, tal como sempre desejavam os chefes dos sacerdotes e doutores da lei (João 7:30). Sabemos que isto nunca iria acontecer assim tão depressa, uma vez que "a sua hora ainda não tinha chegado" (João 7:32:44). Com efeito, para gerir esse compasso de espera até chegar mesmo a Sua hora, foi preciso DEUS usar a multidão para "protege-Lo" provisoriamente, razão pela qual Jesus gozou desta "imunidade temporária" até ao tempo limite da Sua passagem desta vida para o além (João 13:1). Por isso, quando chegou a hora pré-estabelecida, que coincidiu, igualmente, com o poder das trevas (Lucas 22:53; João 13:1), perdeu completamente a "legitimidade" que beneficiava no seio do povo e, em consequência disso, foi preso e condenado à morte (Lucas 22:53).

A chegada da hora de Jesus coincidiu concomitantemente com a manifestação visível do poder das trevas (Lucas 22:53). É este poder das trevas, que por sua vez, confundiu espiritualmente a multidão em Jerusalém e mais tarde os próprios discípulos. Tal poder maléfico começou a dar sinais evidentes com a cidade a ficar em "alvoroço" com a Sua entrada triunfal (Mateus 21:10), curiosamente o mesmo termo "alvoroço" que havia em Jerusalém aquando do seu nascimento em Belém de Judeia (Mateus 2:3) que, posteriormente, culminou com a matança das criancinhas por parte do rei Herodes para poder liquidá-Lo (Mateus 2:16-18). Da mesma sorte, este último "alvoroço" resultou na predestinada morte do Filho do Homem. São os efeitos devastadores do poder das trevas, que contagiou tudo e todos na cidade de Jerusalém, incluindo a mesma multidão que aclamava Jesus, e até mesmo os seus discípulos.

Ainda em jeito de contra-argumento, para os Teólogos que têm uma leitura diferente da nossa, importa ainda salientar que Jesus tinha muitos admiradores em Jerusalém, apesar de nem todos eles considerarem-No o Messias. Mesmo assim nutriam um enorme carinho e admiração por Ele (João 7:40-52). Eis a grande questão que se coloca: onde estariam essas pessoas na hora da Sua condenação? Será, porventura, que todos os habitantes de Jerusalém eram contra Ele? Porque é que alguns não saíram à rua para defendê-Lo ou, pelo menos, tentar protegê-Lo? Não repara, caro leitor, que algo não bate certo aqui em termos da coerência argumentativa da posição que refutamos?

É verdade que nem todos em Jerusalém, como em outras cidades, gostavam de Jesus. Mas havia um número bastante significativo da multidão que O tinha como profeta, e alguns deles como Messias. Talvez fosse por esta mesma razão que Pilatos tentou arranjar uma alternativa momentânea para libertá-Lo, usando assim uma prerrogativa que não era comum naquela altura, isto é, colocando o povo como juiz num mediático processo religioso-político. Porventura, terá pensando que com isso conseguiria salvar o Senhor Jesus da sentença capital, de que traiçoeiramente estava a ser acusado, uma vez que o marginal Barrabás jamais seria preferido pelo povo em comparação com o Filho de DEUS. Presumia equivocadamente o governador romano. Debalde foram as suas "benévolas" pretensões (Mateus 27:15-26; Marcos 15:6-15; Lucas 23:13-25; João 18:38-40). Não resultaram e caíram literalmente por terra.

Estando manifestamente a reinar o poder das trevas, por causa da chegada da hora do Filho do Homem (João 13:1; 17:1), conseguiu obnubilar completamente todos aqueles seguidores, que aclamavam Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém, razão pela qual não há que admirar a mudança rápida operada na multidão. Em certas ocasiões, a própria multidão, intitulada pelo o autor sagrado de discípulos, teve esta postura dupla e redutora sobre quem é realmente o Senhor Jesus (João 6:47-58), chegando ao ponto de abandoná-Lo só porque demonstrava claramente quem deveras É (João 6:66). Por isso, não temos que ficar completamente surpreendidos com a momentânea mudança de posição da mesma multidão em Jerusalém.

O impacto abismal desta manifestação do poder das trevas foi de tal maneira que afectou drasticamente a espiritualidade dos discípulos. A começar com a censura gananciosa que fizeram com a mulher, que devotadamente ungiu o Senhor Jesus, na casa de Simão "leproso", em Betânia (Mateus 26:6-13; Marcos 14:3-9; João 12:1-8). E, ulteriormente, o sono anormal que se apoderou deles em Getsémani, ao ponto de não conseguirem resistir apenas uma hora com o Senhor Jesus em oração, não obstante estarem predispostos espiritualmente, mas a carne estava bastante fraca (Mateus 26:40-46), bem como por, finalmente, abandonarem o seu Mestre aquando da Sua prisão (Mateus 26:56). Foi, igualmente, o mesmo poder das trevas que levou Judas a trair Jesus, vendendo-O por trinta moedas de prata, e, consequentemente, ao seu suicídio (Mateus 26:14-16; 27:3-5). Da mesma sorte, levando o Apóstolo Pedro a negá-Lo três vezes (Mateus 26:69-75; Marcos 14:66-72; Lucas 22:55-62; João 18:15-18), bem como todos os discípulos a duvidar da Sua Ressurreição dos mortos, mesmo estando a falar visivelmente com eles em carne e osso (Marcos 16:9-13; Lucas 24:10-49). 

Este poder das trevas somente esvaneceu nos discípulos quando "abriram os olhos" (Lucas 24:30-35; 45-49) e começaram a interiorizar melhor a verdade central das Escrituras Sagradas, que é a vitória do Messias sobre a morte, e sendo Ele o único caminho para a salvação de todo aquele que Nele crê (Actos 4:11-12). A partir daí foram definitivamente revestidos pelo poder do Espírito Santo (Actos 1:8) e o impacto imediato que tudo isto teve depois no testemunho miraculoso dos discípulos, tal como ficou registado nas Sagradas Escrituras, sobretudo no livro de Actos dos Apóstolos.

CONSIDERAÇÕES PASCAIS (3): A Teologia da Salvação


A promessa dada ao patriarca Abraão teria apenas a concretização com a vinda, morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo na cruz do Calvário, razão pela qual a história de ambos se entrecruza e apresenta similitudes. Desde logo, as duas proeminentes figuras bíblicas foram instrumentos usados por DEUS para resgatar a Humanidade outrora perdida pelo pecado original (Génesis 3:1-24)

Tal como Abraão foi desafiado para se dirigir ao "Santo Monte" e ali sacrificar o seu único filho, assim foi com Jesus em relação à sua vida. Tanto um como o outro correspondeu, sem margem de dúvida, à solicitação divina. Abraão fez-se acompanhar, para a viagem, dos seus dois servos. Da mesma sorte Jesus levou com ele os seus discípulos e durante o percurso granjeou outros peregrinos, que também seguiam rumo a Jerusalém para assistir à Páscoa dos Judeus. Na sua oração em Getsémani, momentos antes de ser preso, já apenas com os seus restritos discípulos, levou consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu (Mateus 26:37), equivalendo deste modo o mesmo número de pessoas que cercava Abraão na viagem (Génesis 22:3). 

Nas duas misteriosas histórias o burro esteve presente. Abraão viajou para o local de burro e Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém montado num burro. O patriarca Abraão levou apenas o seu filho Isaque para "o lugar de adoração", que que iria servir para a oblação. O Senhor Jesus, nos momentos cruciais, esteve praticamente sozinho. No primeiro momento, ainda em Getsémani com os discípulos, o Evangelista Lucas regista que "afastou-se deles a uma curta distância e, pondo-se de joelhos" a orar (Lucas 22:41 ; Mateus 26: 39). No segundo momento, depois de ter sido preso, foi desamparado até à Sua horrenda morte na cruz (Mateus 26:31-32). E mais, Abraão somente viu o lugar que DEUS lhe havia indicado já no terceiro dia de viagem. O Senhor Jesus, segundo as Escrituras, ressuscitou ao terceiro dia (Lucas 24:46)

O patriarca Abraão e o Senhor Jesus representam o pacto de DEUS com a Humanidade, bem como a sua concretização holística. Podemos apenas salientar uma única diferença substancial neles: foi com Jesus que fomos definitivamente justificados e passámos a ter paz com DEUS (Romanos 5:1-2) que, aliás, é o único que dispõe desse poder remidor. Com a vida e obra do Messias prometido, o Todo Poderoso DEUS honrou dignamente a Sua sagrada promessa. 

Resta, pois, a cada um de nós, cumprir, igualmente, com a sua parte neste admirável processo da salvação. Somos todos desafiados, sem excepção, pelas Escrituras Sagradas, a subir ao "Santo Monte" e ali oferecer o nosso sacrifício vivo, santo e agradável ao eterno DEUS (Romanos 12:1). Sacrifício que deverá traduzir o genuíno arrependimento, conversão, contrição e santificação (Actos 26:20), fazendo com que "cheguemos à unidade da fé e ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao homem adulto, à medida completa da estatura de Cristo" (Efésios 4:13). Amém.