O Cinismo Político de Braima Camará Derrotado Pelo Maquiavelismo de Umaro Sissoko Embaló


Braima Camará é uma figura profundamente incongruente, cínica, mentirosa, dissimulada, traidora, corrupta, maquiavélica, narcisista e moralmente decadente. Encontrou, porém, em Umaro Sissoco Embaló um dirigente que personifica, em larga medida, essas mesmas características, mas que se revelou politicamente mais astuto e estrategicamente mais hábil. É precisamente essa superior capacidade de manobra que explica a perseguição política de que Braima Camará é hoje alvo e a perda gradual de tudo aquilo que conquistou através de expedientes que considero fraudulentos. 

Ontem, o Tribunal Regional de Bissau indeferiu o recurso interposto por Braima Camará, atribuindo o controlo do MADEM-G15 à ala liderada por Adja Satu Camará. Na minha perspetiva, trata-se de uma decisão judicial instrumentalizada, desprovida de verdadeiro fundamento de legalidade e manifestamente injusta. Ainda assim, Braima Camará limita-se, neste momento, a colher os frutos daquilo que semeou. Como ensina o velho provérbio, «quem semeia ventos colhe tempestades». Dificilmente haverá expressão mais adequada para descrever esta decisão arbitrária. 

Gravei o vídeo que agora volto a divulgar há cerca de dois anos. Nele denunciei o cinismo político de Braima Camará e alertei para as consequências imprevisíveis da ditadura de Umaro Sissoco Embaló, cuja consolidação contou, em larga medida, com o apoio de Braima Camará. Os acontecimentos atuais demonstram que esses alertas não eram infundados. 

Importa, desde logo, referir a situação que atualmente se vive no seio do MADEM-G15. Como afirmei no vídeo anterior, não pretendo voltar a desenvolver exaustivamente essa matéria. O meu propósito é apenas destacar o profundo cinismo político que sempre caracterizou a atuação de Braima Camará. 

Como já tive oportunidade de afirmar, Braima Camará é, na minha perspetiva, uma pessoa marcada pela hipocrisia, pela falsidade e pela deslealdade. É alguém cuja atuação política se desenvolveu frequentemente à margem dos princípios do Estado de Direito. Foi precisamente essa forma de fazer política, assente na deslealdade, no oportunismo e na hipocrisia, que o conduziu à situação em que hoje se encontra. 

Existe um conhecido provérbio popular que afirma: «Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades.» É exatamente isso que está agora a acontecer. Muitas das verdades que começam finalmente a emergir resultam do confronto político entre Braima Camará e Umaro Sissoco Embaló. Torna-se hoje evidente que Braima Camará nunca agiu exclusivamente em defesa do interesse nacional. Grande parte das suas decisões foi orientada pelos seus próprios interesses, pela ambição pessoal e pelo desejo de reforçar o seu poder político, frequentemente em detrimento dos superiores interesses da Guiné-Bissau. 

Confesso que atribuo credibilidade a uma parte significativa das declarações que tem vindo recentemente a proferir. Muitas delas contêm elementos que poderão corresponder à realidade. É plausível que tenham existido compromissos políticos com Umaro Sissoko Embaló relativos à limitação do mandato presidencial, bem como outros entendimentos entretanto quebrados por este. Contudo, importa recordar que essas revelações surgem apenas quando os seus próprios interesses deixaram de ser salvaguardados. 

A verdade essencial permanece inalterada: Braima Camará sempre pautou a sua atuação por um calculismo político permanente. Trata-se de um dirigente que colocou sistematicamente os seus interesses particulares acima do interesse nacional. O momento que atualmente atravessa representa, em larga medida, a consequência natural das opções políticas que fez ao longo dos últimos anos. 

Há, porém, um aspeto particularmente revelador do seu cinismo. Ainda há relativamente pouco tempo, Braima Camará afirmava publicamente que não era um homem de arrependimentos. Quem acompanha a política guineense recordar-se-á da entrevista concedida à RTP África, durante a qual lhe foi perguntado se se arrependia de ter apoiado Umaro Sissoco Embaló. A resposta foi inequívoca: declarou que nunca se arrependia das suas decisões. Todavia, as suas intervenções públicas mais recentes demonstram precisamente o contrário. Tornou-se evidente que lamenta profundamente o apoio político que concedeu a Umaro Sissoco Embaló. 

Concluo esta primeira reflexão com um apelo dirigido a todos aqueles que acompanham os acontecimentos no seio do MADEM-G15. Devemos observar esta crise com serenidade, equilíbrio e sentido crítico, recusando transformar este conflito numa disputa de lealdades pessoais. Não somos chamados a defender Braima Camará, nem qualquer outra personalidade política. O verdadeiro compromisso deve ser com a Constituição da República, com a legalidade democrática e com o Estado de Direito. Quem durante anos desprezou a Constituição e a Lei dificilmente pode reclamar, mais tarde, a proteção dessas mesmas normas apenas quando elas passam a servir os seus interesses. 

Braima Camará invoca agora a violação dos estatutos do partido e da legalidade. Esquece-se, porém, de que foi ele próprio um dos principais protagonistas da violação sistemática da Constituição da República e dos Princípios do Estado de Direito. Se Umaro Sissoco Embaló lhe tivesse permitido conservar a influência política de que desfrutou durante estes anos, muito provavelmente continuaria em silêncio. 

Há quem procure apresentar Braima Camará e os seus apoiantes como vítimas desta conjuntura política. Não partilho dessa leitura. Na minha perspetiva, nem ele nem aqueles que o acompanharam possuem autoridade moral para assumir esse papel. Exerceram o poder sem demonstrarem o devido respeito pela Constituição, pelas instituições democráticas e pelos princípios da legalidade, razão pela qual dificilmente poderão reclamar agora a proteção dos mesmos valores que durante tanto tempo desconsideraram. 

A questão relacionada com Umaro Sissoco Embaló merecerá uma análise autónoma, mais aprofundada, em momento oportuno. Ainda assim, importa recordar que muitos dos protagonistas deste processo não chegaram ao poder através de uma vitória eleitoral inequívoca. Encontravam-se na oposição e, apesar disso, beneficiaram, ao longo dos últimos anos, de uma prática política frequentemente desenvolvida à margem da Constituição e das regras do Estado de Direito. 

Na minha opinião, as verdadeiras vítimas deste processo foram os partidos políticos e os cidadãos que sofreram as consequências da degradação institucional, designadamente o PAIGC, a coligação PAI-Terra Ranka e muitos outros atores políticos que viram os seus direitos políticos diminuídos em consequência deste hostil contexto. 

Entretanto, Braima Camará continua a afirmar que foi ele quem fez isto, quem decidiu aquilo e quem tornou possível esta ou aquela solução política. Esse discurso revela um acentuado personalismo e um evidente narcisismo político. Na realidade, aquilo que verdadeiramente ajudou a consolidar foi um sistema de progressiva desvalorização das instituições e de enfraquecimento da ordem constitucional. Hoje limita-se a enfrentar as consequências dessa mesma opção. 

Por isso, renovo o meu apelo a todos os cidadãos: não devemos cair na tentação de defender pessoas ou partidos. O nosso compromisso deve centrar-se na defesa da Constituição, da legalidade democrática e das instituições da República. Sempre que a Constituição é respeitada e a legalidade prevalece, todos os cidadãos, sem distinção, veem assegurados os seus direitos, as suas liberdades e as suas garantias fundamentais. É precisamente esse o verdadeiro fundamento de um Estado de Direito. 

É por essa razão que insisto, repetidamente, na mesma ideia: devemos defender os princípios constitucionais e não indivíduos concretos. Quando substituímos a defesa das instituições pela defesa de pessoas, abrimos inevitavelmente caminho à arbitrariedade, à discriminação e à injustiça. Braima Camará nunca colocou a Constituição no centro da sua atuação política. Pelo contrário, durante largos anos legitimou práticas incompatíveis com o Estado de direito e contribuiu para a consolidação de um ambiente político marcado pelo desrespeito sistemático pela legalidade. Quando me refiro a Braima Camará, incluo igualmente muitos dos dirigentes e colaboradores do MADEM-G15 que, na minha perspetiva, revelaram reduzida cultura democrática, escasso respeito pelas instituições republicanas e uma atuação predominantemente orientada por interesses particulares, em detrimento do interesse nacional. 

Como afirma o conhecido provérbio, «zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades». É exatamente essa realidade que hoje observamos. À medida que os conflitos internos se intensificam, vão sendo revelados factos que durante muito tempo permaneceram ocultos. 

Dirijo, por isso, um apelo a todos os cidadãos e, de modo particular, aos militantes e simpatizantes dos diversos partidos políticos: acompanhem estes acontecimentos com serenidade, sentido crítico e responsabilidade cívica. No final, toda esta crise conduzir-nos-á inevitavelmente à mesma conclusão: a necessidade imperiosa de respeitar a Constituição da República e de restaurar a primazia da legalidade. 

O que temos vindo a assistir é à instrumentalização das instituições do Estado, incluindo dos tribunais, para servir interesses estritamente políticos e comprometer o normal funcionamento da justiça. Foi precisamente contra essa realidade que muitos cidadãos se bateram ao longo dos últimos anos, reclamando o respeito pela Constituição, pela independência das instituições e pelo Estado de Direito. Se estes princípios tivessem sido observados desde o início, Braima Camará não estaria hoje a denunciar alegadas violações dos estatutos do seu partido, nem o PRS se encontraria na situação em que atualmente se encontra. Mesmo que surgissem divergências políticas, estas poderiam e deveriam ser resolvidas através dos mecanismos previstos na Constituição e da atuação independente dos tribunais competentes. 

Infelizmente, ao longo destes anos permitiu-se que Umaro Sissoco Embaló concentrasse um poder cada vez mais amplo sobre as instituições do Estado. Hoje, essa concentração de poder atingiu um nível que lhe permite exercer uma influência determinante sobre o funcionamento institucional, sujeitando o país aos riscos inerentes à excessiva personalização do poder político. Esta é, em larga medida, a fatura que Braima Camará e aqueles que o acompanharam acabam agora por pagar. O velho provérbio permanece plenamente atual: “quem semeia ventos colhe tempestades”. 

Recordo, a este propósito, o conhecido poema frequentemente atribuído ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht, cuja mensagem continua extraordinariamente atual. A sua principal lição é simples, mas profundamente poderosa: quando permanecemos indiferentes perante as injustiças cometidas contra os outros, acabamos, inevitavelmente, por nos tornar vítimas dessas mesmas injustiças. 

Essa reflexão ajusta-se plenamente ao momento político que a Guiné-Bissau atravessa. O que hoje sucede a Braima Camará representa apenas uma parte das consequências das opções políticas que tomou ao longo dos últimos anos. Muitas pessoas sofreram, direta ou indiretamente, em consequência dessas decisões. Houve cidadãos que perderam oportunidades, inclusive vida, enfrentaram dificuldades económicas, viram restringidos os seus direitos e ficaram privados da possibilidade de construir um futuro mais digno para si e para as suas famílias. 

Perante esta realidade, importa continuar a acompanhar atentamente a evolução dos acontecimentos. Enquanto a Constituição não for plenamente respeitada e a Lei não prevalecer sobre a vontade dos governantes, será impossível travar os impulsos de vingança, de retaliação política e de abuso de poder. Sempre que a força substitui o direito, as instituições deixam de servir os cidadãos para passarem a servir quem momentaneamente controla o poder. 

Na minha perspetiva, Braima Camará foi um dos principais responsáveis pela criação deste contexto político ditatorial. Contudo, não esteve sozinho. Outros atores políticos, dirigentes partidários, titulares de órgãos de soberania, responsáveis institucionais e chefias militares contribuíram igualmente, por ação ou omissão, para o enfraquecimento progressivo do Estado de direito. Todos eles deverão, mais cedo ou mais tarde, assumir a responsabilidade histórica pelas consequências das suas decisões. 

Concluo reafirmando a ideia central que procurei desenvolver ao longo deste texto: o nosso compromisso não deve ser com pessoas, líderes ou partidos políticos, mas sim com a Verdade, com a Constituição da República, com a Legalidade Democrática e com as Instituições do Estado. São estes nobres Princípios – e apenas eles – que podem garantir a igualdade de todos os cidadãos perante a Lei, a segurança jurídica, a estabilidade institucional e a proteção efetiva dos Direitos, das Liberdades e das Garantias Fundamentais. 

Só um verdadeiro Estado de Direito pode assegurar uma democracia sólida, uma justiça independente e um futuro de liberdade, estabilidade e prosperidade para a Guiné-Bissau.