Partilho aqui a mensagem bíblica que tive a oportunidade de pregar no passado domingo, dia 9 do corrente mês, na minha Igreja. O tema que constituiu o objecto da minha pregação foi “A Nossa Nova Identidade no Senhor Jesus Cristo”, tendo como base o texto sagrado de 2 Coríntios 5:16-21.
Aproveitei também para reduzir por escrito todo o conteúdo da mensagem, que se encontra igualmente disponível no vídeo que acompanha esta publicação. Poderá, assim, ler o texto na íntegra, se assim o entender, ou, em alternativa, assistir apenas ao vídeo. O conteúdo de ambos é exactamente o mesmo.
Desejo-lhe uma excelente leitura ou, caso opte pelo vídeo, uma proveitosa visualização da mensagem. Que DEUS o abençoe ricamente e o assista continuamente com a Sua graça e a Sua paz.
A NOSSA NOVA IDENTIDADE NO SENHOR JESUS CRISTO – 2 CORÍNTIOS 5:16-21
A identidade, como sabemos, é aquilo que caracteriza cada ser humano. É precisamente por essa razão que temos um documento de identificação. Hoje, naturalmente, falamos do cartão de cidadão, que substituiu o antigo bilhete de identidade, mas a sua finalidade essencial permanece a mesma: identificar-nos.
Através de um documento de identificação, conseguimos obter determinadas informações sobre uma pessoa e, de algum modo, compreender a sua origem, a sua naturalidade, quem são os seus pais, a sua data de nascimento e outras informações relevantes, embora algumas delas sejam atualmente omitidas por razões de privacidade. O cartão de cidadão, que corresponde ao antigo bilhete de identidade, permite-nos conhecer a nossa proveniência, as nossas origens, a nossa filiação e a nossa idade. Sabemos, aliás, que há pessoas que têm alguma dificuldade em revelar a sua idade e que, por vezes, procuram ocultar o documento precisamente porque, através dele, é possível conhecer a idade que têm.
Mas a identidade é muito mais do que um simples documento. É aquilo que nos qualifica, que nos caracteriza e que está relacionado com a forma como nos apresentamos e com a maneira como os outros nos percecionam. Todos nós temos uma identidade. Não há ninguém que não tenha uma identidade. Somos cidadãos e, nesta sala, encontramos pessoas com identidades diversas. Algumas pessoas têm mais do que uma identidade no sentido da nacionalidade. Há pessoas que possuem uma nacionalidade; outras têm dupla nacionalidade; outras, ainda, podem ter tripla nacionalidade, etc.
Essas nacionalidades e essas identidades são elementos que nos qualificam, mas também nos colocam perante determinados direitos e obrigações. A identidade é, portanto, a forma como nos apresentamos e como demonstramos quem somos. Quando uma pessoa olha para nós e conhece a nossa proveniência, consegue, de algum modo, compreender quem somos. Naturalmente, pode haver equívocos, mas, pelo menos, consegue formar uma determinada perceção acerca da nossa origem e daquilo que podemos revelar sobre nós próprios. Por isso, a identidade é algo importante. Todos temos uma identidade e não há qualquer problema em assumirmos essa identidade numa perspetiva humana e social.
Mas sabemos que existe uma dimensão muito mais profunda da identidade. Há outras formas de identidade. É precisamente sobre essa dimensão que eu gostaria de falar: a nossa nova identidade no Senhor Jesus Cristo.
Quando falamos de uma nova identidade no Senhor Jesus Cristo, pressupõe-se que anteriormente tínhamos outra identidade. Tínhamos uma identidade antiga e passamos agora a possuir uma nova identidade. Esta nova identidade, para além de nos unificar, confere-nos uma posição de destaque perante Deus, porque elimina os vestígios da nossa velha identidade, dessa identidade transitória e pecaminosa, própria desta vida, e estabelece a nossa ligação com a nova identidade no Senhor Jesus Cristo. Aliás, é precisamente sobre a nossa nova identidade no Senhor Jesus Cristo que vamos refletir.
E, tomando rapidamente como ponto de partida o texto bíblico que acabámos de ler e que foi objeto da leitura, isto é, 2 Coríntios 5:16-21, procuremos compreender aquilo que esta passagem significa e quais são as suas repercussões espirituais para a nossa compreensão da nova identidade no Senhor Jesus Cristo.
O autor sagrado diz, logo no versículo 16: «Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo» (2 Coríntios 5:16). Ele começa por introduzir esta ideia de «daqui por diante». Esta expressão aponta para uma nova perspetiva, uma nova realidade, uma nova forma de ver e de encarar as coisas. Ou seja: «daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne». Isto significa que já não julgamos as pessoas segundo critérios meramente humanos.
O julgamento segundo critérios humanos, que anteriormente fazíamos, já não deve orientar a nossa nova identidade em Cristo. O Apóstolo Paulo mostra-nos que já não devemos julgar as pessoas segundo esses critérios, tal como também acontecia relativamente à forma como Jesus Cristo era visto.
Nós sabemos que, de certo modo, todos somos juízes – não no sentido profissional do termo, mas porque constantemente avaliamos, julgamos, tiramos conclusões e formamos opiniões. Ouvimos determinados factos, por vezes sem conhecermos todas as circunstâncias e, ainda assim, tiramos as nossas conclusões. Isso é próprio da natureza humana. O ser humano tende constantemente a formular julgamentos, inclusive julgamentos precipitados. Costuma dizer-se que existem diferentes tipos de tribunais. Há, por exemplo, aquilo a que podemos chamar o tribunal popular, que é extremamente rápido nos seus julgamentos. Não são necessárias muitas informações. Basta ouvir uma versão dos acontecimentos para, imediatamente, se tirarem conclusões, proferirem sentenças e, muitas vezes, condenar ou absolver alguém.
A justiça popular é rápida, mas é falível. Porquê? Porque o julgamento não pode ser precipitado e rápido. Se uma pessoa nos conta apenas uma versão da história, essa versão pode impressionar-nos e condicionar o nosso entendimento. Mas, quando ouvimos a outra versão – aquilo que juridicamente se designa por contraditório –começamos a ter uma perspetiva diferente e reunimos elementos que nos permitem julgar de forma mais correta. O tribunal popular, muitas vezes, julga sem ter em consideração todos esses elementos.
Depois, temos também os tribunais formais, designadamente os tribunais civis, nos quais os processos podem ser muito mais demorados, precisamente porque é necessário conhecer todas as implicações de determinada situação antes de se poder proferir uma decisão. Por vezes, os processos levam anos. Sabemos também que alguns acabam por prescrever, infelizmente, mas muitos chegam ao seu termo e são proferidas sentenças. Mesmo essas sentenças, contudo, não significam necessariamente que o julgamento seja absolutamente correto, porque os seres humanos são falíveis. É precisamente por isso que existem mecanismos de recurso: para permitir a reapreciação das decisões e procurar corrigir eventuais injustiças.
Temos, portanto, o tribunal popular, que é célere, e os tribunais formais, que são mais demorados, mas que também são suscetíveis de erro. Mas existe um terceiro tribunal: o tribunal Divino. Este tribunal é infalível. Quando Deus julga, porém, não baseia o Seu julgamento em versões, rumores, factos aparentes ou qualificações humanas. Deus não julga segundo esses critérios. Deus julga segundo critérios objetivos, claros e justos.
Apesar disso, sabemos que, quando olhamos para as pessoas segundo os critérios humanos, segundo a lógica da velha vida e do mundo em que vivemos, tendemos a fazê-lo através dos nossos olhos humanos. E, quando olhamos através dos olhos humanos, avaliamos as pessoas tendo em conta a sua proveniência, as suas origens, as suas qualificações, as suas famílias e a sua posição social. Tudo isso influencia a nossa avaliação da realidade. Porquê? Porque julgamos segundo critérios humanos. E esses critérios humanos são frequentemente critérios de afinidade, de pertença, de convergência, de proximidade e de conveniência, acabando por adulterar aquilo que deveria ser um verdadeiro julgamento.
O Apóstolo Paulo está precisamente a mostrar-nos que também fazíamos isso, sobretudo relativamente a Jesus Cristo. Quando olhamos para a vida do Apóstolo Paulo, percebemos que ele próprio perseguiu o Senhor Jesus Cristo porque O julgava segundo uma perspetiva humana e racional. Ora, quando fazemos julgamentos exclusivamente segundo uma perspetiva humana, corremos muitos riscos, porque tendemos a concluir que aquilo que parece ser corresponde necessariamente àquilo que é. E, quando olhamos para Jesus Cristo, percebemos que a Sua vida, segundo os critérios humanos, não despertava necessariamente nas pessoas uma perceção da Sua verdadeira natureza Divina.
O Senhor Jesus Cristo encarnou na humildade e na simplicidade. Era um homem inserido num contexto social desfavorecido. Viveu de forma simples, rodeado de pessoas simples, sem as marcas exteriores de poder, riqueza ou prestígio que, segundo os critérios humanos, poderiam conferir-Lhe autoridade. Não tinha uma posição social de destaque, não fazia parte das elites e, segundo os padrões humanos, não reunia as características que muitos esperariam encontrar numa figura com uma missão Divina, principalmente messiânica. E, sobretudo, a forma como foi crucificado contribuiu para que muitos O vissem como um marginal, como alguém derrotado e condenado.
Como poderia uma pessoa assim ser o Salvador do mundo? Como poderia alguém naquela condição trazer alguma coisa de bom? Segundo os critérios humanos, não havia nada naquela pessoa que justificasse a expectativa de salvação. É precisamente isso que estou a dizer: as aparências e os critérios através dos quais, muitas vezes, julgamos as pessoas – critérios de influência, de poder, de posse, de nobreza e de estatuto – condicionam profundamente o nosso julgamento. O ser humano faz esse tipo de julgamento.
O Apóstolo Paulo também o fazia, sobretudo relativamente a Jesus Cristo. Mas essa realidade mudou, porque a nova identidade já não nos permite julgar as pessoas segundo esses critérios humanos. A nova identidade em Cristo não nos permite avaliar uma pessoa pela sua cor, pela sua aparência, pela sua qualificação, pelo seu nível social ou pelas suas posses. O crente no Senhor Jesus Cristo já não deve proceder dessa maneira. Se o fizer, estará novamente a julgar segundo os critérios humanos.
É isso que o Apóstolo Paulo pretende demonstrar quando afirma: «Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo» (2 Coríntios 5:16). Já não olhamos para Jesus Cristo como um homem fracassado, como muitos O olharam – quer os gentios, quer até o próprio povo de Deus. Passamos a contemplá-Lo segundo uma perspetiva diferente: uma perspetiva espiritual e Divina. Esse novo olhar permite-nos reconhecer o Seu brilho, as Suas qualidades, as Suas virtudes e, sobretudo, contemplar n’Ele o Salvador que verdadeiramente é.
Por isso, o Apóstolo Paulo afirma que já não fazemos esses julgamentos segundo os antigos critérios. E, depois, no versículo 17, apresenta-nos uma verdade extraordinária:
"E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas" (2 Coríntios 5:17). Ou seja, esta nova identidade permite-nos adquirir uma visão mais abrangente e mais profunda da realidade. Permite-nos evitar precipitações, raciocínios falaciosos e julgamentos motivados pela conveniência, pelo desejo de agradar ou por interesses pessoais. A nova identidade permite-nos olhar para as pessoas com um olhar Divino. E, quando olhamos para as pessoas com esse olhar, reconhecemos nelas dignidade, respeito e consideração. Tratamo-las com humanidade. Não fazemos isso apenas relativamente àqueles que consideramos merecedores de destaque. Fazemo-lo também relativamente àqueles que, segundo os critérios humanos, poderiam não merecer esse reconhecimento. É a nova identidade em Cristo que nos permite ter esse olhar Divino.
O próprio Senhor Jesus Cristo viveu dessa maneira. Ele não excluiu as pessoas. Procurava ajudá-las, servi-las e devolver-lhes dignidade, inclusive àquelas que, segundo os padrões sociais e religiosos do Seu tempo, eram marginalizadas. Vemos isso em diversas histórias das Escrituras: na mulher adúltera, no publicano Zaqueu e em tantas outras pessoas que Jesus encontrou, incluindo aqueles que sofriam de diversas enfermidades e opressões. Jesus procurava ver a pessoa para além da sua condição. Afinal, somos criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus e, por isso, possuímos dignidade.
Mas a nova identidade permite-nos precisamente esse olhar. É um olhar que reflete aquilo que contemplamos no Senhor Jesus Cristo e em Deus, porque já somos novas criaturas em Cristo. Esta nova criatura e esta salvação que nos foram concedidas permitem-nos também adquirir uma forma mais objetiva e justa de olhar para a realidade. Por isso, Paulo diz: "E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas".
Nós já temos uma nova identidade. E essa nova identidade permite-nos despir a velha identidade – a identidade deste mundo, marcada pela parcialidade, pela injustiça, pela discriminação, pela vaidade, pela violência, pela violação e por toda a espécie de maldade e malignidade. Uma nova identidade em Cristo permite-nos viver uma vida eficaz, uma vida santificada, uma vida de virtude e, acima de tudo, uma vida capaz de dar um testemunho coerente do Senhor Jesus Cristo. As coisas antigas – a nossa velha natureza, os vícios, a carnalidade e a vida pecaminosa – são abandonadas, e passamos a viver uma nova identidade em Cristo Jesus. As coisas velhas passam, e as coisas novas passam a fazer parte da nossa vida, conduzindo-nos a uma permanente novidade de vida.
Mas tudo isto não é obra do acaso. Não acontece por mérito nosso nem pelas nossas próprias forças. Como vemos no texto, tudo provém de Deus: "Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação" (2 Coríntios 5:18). Que grande afirmação encontramos aqui! Tudo isto provém de Deus.
Nós somos agentes passivos nesta ação. Por isso, vemos que a salvação é de Deus. É um ato unilateral de Deus. Não parte do homem. É Deus quem chama o ser humano para a salvação. Mas, antes de tudo isso, vemos que Deus nos chamou e nos concedeu o ministério da reconciliação. Deus tomou a iniciativa. «Tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação» (2 Coríntios 5:18). Deus reconciliou-nos por intermédio de Jesus Cristo.
Sabemos que, para haver reconciliação, tem de existir um problema. Ninguém precisa de se reconciliar com alguém com quem está plenamente reconciliado. Se uma pessoa está bem com o seu irmão ou com o seu amigo, não existem motivos para reconciliação. Só há reconciliação quando existe um problema. E, para haver um problema, existe um ofendido e um ofensor. Existe alguém que sofreu o dano e alguém que o provocou. É essa a razão pela qual é necessária a reconciliação. Mas por que razão isso aconteceu? Sabemos que a queda de Adão e Eva originou a inimizade. E essa inimizade permanece até aos nossos dias.
O ser humano é um ser gregário. É verdade. Mas, ao mesmo tempo, também é um ser conflituoso. É por isso que existem conflitos em todas as dimensões da vida: no domínio familiar, nas amizades, no contexto profissional e até dentro da própria Igreja. As pessoas estão constantemente envolvidas em conflitos e problemas. Há uma máxima que diz: mais contacto, mais problemas; menos contacto, menos problemas. Somos seres gregários; juntamo-nos uns aos outros e, inevitavelmente, acabamos por nos magoar. Por vezes, de forma deliberada; outras vezes, de forma inconsciente. Mas acabamos frequentemente envolvidos em situações de conflito. E é também por essa razão que, humanamente, existe necessidade de reconciliação.
O pecado cria problemas, intrigas, inveja, dano, dor, sofrimento e separação. As pessoas magoam-nos, e nós também magoamos outras pessoas. Há, portanto, inúmeras situações que exigem reconciliação. O problema existe entre todos nós, e ninguém pode afirmar que nunca magoou outra pessoa. Todos nós, de forma consciente ou inconsciente, sem excepção, já magoámos alguém. Do mesmo modo, todos nós já fomos magoados. Não há aqui ninguém que possa dizer que nunca foi prejudicado, ferido ou magoado por outra pessoa.
Todos carregamos essas cicatrizes. Por vezes, alguns carregam cicatrizes mais profundas, que acabam por produzir consequências duradouras na sua vida, na sua autoestima e na forma como se afirmam perante os outros. Mas todos somos, de algum modo, afectados por essas situações de conflito que, em casos extremos, podem culminar em violência e até na morte. Esta realidade é uma das consequências do pecado original de Adão e Eva.
A partir do momento em que ocorreu o pecado, surgiu a inimizade. Houve inimizade entre Deus e o ser humano, em consequência do pecado de Adão e Eva no princípio da criação, pecado que colocou toda a humanidade sob a condenação e a perspectiva da perdição eterna. E, para que a inimizade seja quebrada, torna-se necessária a reconciliação. Para que haja reconciliação, uma das partes tem de tomar a iniciativa. Alguém tem de dar o primeiro passo e procurar construir a paz. Por isso, o texto sagrado diz: "Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação" (2 Coríntios 5:18).
A ofensa que cometemos contra Deus, através do pecado, da rebelião e da desobediência, colocou-nos numa situação de afastamento que jamais conseguiríamos reverter pelos nossos próprios meios, de modo a restabelecer a paz com Deus. Estávamos completamente afastados de Deus e destituídos da Sua glória. A nossa condenação era a morte, como afirma a Palavra de Deus: "O salário do pecado é a morte" (Romanos 6:23). Mas, em contraste com esta realidade, a mesma Palavra declara: "O dom gratuito de Deus é a vida eterna" (Romanos 6:23).
É precisamente com base nesse dom gratuito e na graça de Deus que Ele nos reconciliou consigo mesmo através do Senhor Jesus Cristo, mediante a morte expiatória de Cristo na cruz do Calvário. Deus reconciliou-nos consigo. Ou seja, perdoou-nos, estendeu-nos a mão e permitiu-nos voltar a fazer parte da Sua comunhão. Aleluia!
É precisamente isso que acontece quando as pessoas se reconciliam. Quando estavam afastadas, voltam a estabelecer uma relação. Se não falavam, passam a falar. Se tinham cortado relações, voltam a reatar. Essa realidade aplica-se às relações pessoais, mas também às relações entre comunidades, sociedades e até entre países. É necessário haver reconciliação. E a reconciliação tem um dos seus pressupostos fundamentais: o perdão. Se uma pessoa não perdoa, não pode haver verdadeira reconciliação. Pode até aparentar que houve reconciliação, mas, quando surgir uma oportunidade, a pessoa poderá procurar vingar-se. Sabemos que existem pessoas que dizem: "Eu reconciliei-me com fulano", quando, na realidade, talvez estejam apenas a procurar ganhar a confiança da outra pessoa, aproveitar a sua vulnerabilidade e, posteriormente, destruí-la.
Quando falamos de verdadeira reconciliação, porém, temos de falar de algo genuíno. E aquilo que Deus fez connosco foi genuíno. Deus perdoou-nos. Para além de nos perdoar aquilo que merecíamos – a morte –, porque Cristo morreu por nós na cruz do Calvário, Deus também nos conferiu o ministério da reconciliação. Ou seja, Deus reconciliou-nos consigo e concedeu-nos também um ministério de reconciliação.
E o que envolve esse ministério, que faz parte da nossa nova identidade? Envolve apaziguamento, porque a reconciliação implica paz, concórdia e a criação de um ambiente saudável de relacionamento. O texto afirma:
"Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação" (2 Coríntios 5:18). Esse ministério da reconciliação existe para que também possamos reconciliar-nos com os outros. Nós tínhamos uma dívida para com Cristo. Cristo perdoou-nos, e nós também devemos perdoar aqueles que têm alguma dívida para connosco. Mas este ministério da reconciliação não se refere apenas aos nossos problemas pessoais. É também o ministério do Evangelho que fomos chamados a partilhar com o mundo perdido, porque o Evangelho possui o poder de conferir uma nova identidade. E essa nova identidade traz consigo o poder da reconciliação.
Depois, o autor sagrado afirma "que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação" (2 Coríntios 5:19). Vejam bem: Deus reconciliou-nos consigo. Não teve em consideração aquilo que nós merecíamos nem as nossas transgressões. Como já dissemos, para haver reconciliação tem de existir um ofendido e alguém que provocou a ofensa. Foi isso que aconteceu na nossa relação com Deus. Mas Deus não apenas deixou de imputar-nos as nossas ofensas: perdoou-nos e confiou-nos o ministério da reconciliação.
Por isso, quando analisamos estes versículos, podemos identificar alguns pontos fundamentais. Em primeiro lugar, existe uma necessidade imperiosa de reconciliação entre o homem e Deus. Depois, o ministério da reconciliação tem a sua origem em Deus e passa de Deus para o homem. Mas a reconciliação é também uma experiência pessoal. Não é uma experiência que passe automaticamente de pai para filho, de filho para pai ou de cônjuge para cônjuge. É uma experiência pessoal. Cada pessoa tem de estar aberta a beneficiar dessa reconciliação e a manifestá-la através da sua nova identidade em Cristo. Este ministério estende-se, portanto, a todo o universo e aponta também para a eliminação da condenação.
Mas o Apóstolo Paulo continua e, no versículo 20, apresenta uma afirmação extraordinária:
"De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio" (2 Coríntios 5:20). Somos embaixadores de Cristo. Isto significa que a nova identidade que temos em Cristo Jesus nos confere um estatuto privilegiado. Não é um estatuto qualquer. É o estatuto de filhos de Deus. Não somos apenas perdoados; passamos também a ser filhos de Deus. E esse estatuto inclui o privilégio de sermos embaixadores do Senhor Jesus Cristo. Ora, ser embaixador é um grande privilégio.
Muitas pessoas, ao longo da vida, sobretudo aquelas que fazem carreira diplomática, não conseguem chegar ao grau de embaixador, porque não é fácil alcançar essa posição. Uma pessoa pode passar vinte e cinco ou trinta anos na carreira diplomática sem necessariamente chegar a esse topo. Para entrar na carreira diplomática e percorrer os diferentes graus até alcançar a posição de embaixador, é necessário reunir diversas competências. As vagas são poucas e os candidatos são muitos. Esses candidatos precisam de ter conhecimentos sólidos sobre o país, a sua história, a sua realidade política e social, além de uma forte componente jurídica. É uma área multifacetada, que exige conhecimentos históricos, sociológicos, jurídicos e outras competências.
Entrar na diplomacia, contudo, não constitui garantia de que alguém chegará a embaixador. Muitos diplomatas não alcançam esse grau. Também sabemos que o cargo de embaixador é um cargo de confiança. Há embaixadores que chegam a essa posição através da carreira diplomática, mas existem também pessoas que, não tendo feito toda a carreira, são nomeadas para desempenhar essa função. Porquê? Porque se trata de um cargo político e de confiança. Não se coloca qualquer pessoa nessa posição. Escolhe-se alguém que mereça inteira confiança e confia-se-lhe a representação do país num Estado estrangeiro. Ser embaixador constitui, portanto, uma grande honra. É um privilégio e um estatuto, porque essa pessoa passa a representar o seu próprio país.
E nós somos chamados a ser embaixadores do Senhor Jesus Cristo. Esse embaixador de Cristo, como disse, possui um estatuto. Somos nós. Temos o ministério da reconciliação. E este ministério da reconciliação, em última instância, é o próprio Evangelho, porque fomos comissionados a anunciar a boa-nova da salvação (Mateus 28:16-20).
Logo, o primeiro ponto que podemos observar é que o embaixador possui o ministério da reconciliação, como vemos no versículo 18 do capítulo 5 de 2 Coríntios. Deus não só reconciliou o mundo consigo mesmo, como também comissionou os Seus mensageiros para proclamarem as Boas-Novas da salvação. O embaixador tem, portanto, um ministério de reconciliação.
Mas podemos também observar que um embaixador proclama a mensagem da reconciliação. O homem não tem poder, por si mesmo, para reconciliar-se com Deus. A reconciliação é efetuada pela morte de Cristo. E, a partir do momento em que somos embaixadores de Jesus Cristo, não estamos a fazer a nossa vontade, a apresentar as nossas convicções ou aquilo que nos apetece. Estamos em representação. Quem está em representação não está simplesmente a fazer aquilo que pensa ou aquilo que quer. Está a representar alguém. Logo, um embaixador do Senhor Jesus Cristo é alguém que proclama a mensagem da própria reconciliação.
Mas sabemos também que um embaixador normalmente vive em terra estrangeira. Nós temos uma nova identidade. E, nessa nova identidade, a nossa pátria é celestial. Já não somos deste mundo. Somos peregrinos e estrangeiros neste mundo. A nossa pátria não é aqui. Se voltarmos aos versículos iniciais deste capítulo, veremos que o apóstolo Paulo utiliza a metáfora do tabernáculo. A nossa tenda terrena está a desfazer-se, e nós caminhamos em direção ao céu. Estamos a caminhar para a nossa pátria celestial, para a terra prometida para a qual estamos orientados.
Logo, o embaixador vive em terra estrangeira. A partir do momento em que recebemos uma nova identidade, este mundo torna-se estranho para nós. Porquê? Porque os valores deste mundo não são os valores que devemos assumir. Temos nele a corrupção, a maldade, o pecado, a incredulidade, o secularismo, o materialismo e tantas outras realidades que entram em contradição com Deus. Nenhum Cristão pode fazer do mundo a sua referência última. A Bíblia Sagrada é clara nesse sentido: quem é amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus (Tiago 4:4). Ninguém pode servir simultaneamente a Cristo e ao mundo (Mateus 6:24).
Logo, somos estrangeiros neste mundo. Quando uma pessoa é estrangeira num determinado país, não está imediatamente integrada na cultura desse país. É precisamente por isso que se fala frequentemente da necessidade de integração dos imigrantes. Se uma pessoa não se integra na cultura e na sociedade do país onde vive, poderá enfrentar diversos problemas. Existem diferenças culturais e sociais que, se não forem bem conjugadas, podem desencadear conflitos. A atualidade política tem discutido amplamente esta questão: como devem os imigrantes integrar-se, de que forma devem participar na sociedade e como devem relacionar-se com os seus hábitos e costumes? Uma pessoa integra-se quando adota e aceita determinados hábitos e costumes da sociedade em que vive.
Mas nós, enquanto filhos de Deus, não somos chamados a integrar-nos neste mundo no sentido de adotarmos os seus decadentes valores. O Apóstolo Paulo, na Carta aos romanos, diz: "E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2). Ou seja, não somos chamados a conformar-nos com este corruptível mundo. Se nos conformarmos com este mundo, entraremos em contradição com a própria Palavra de Deus.
Por isso, o embaixador do Senhor Jesus Cristo vive numa terra estrangeira, mas não está ali para conformar a mensagem do seu país aos valores daquela terra. Está ali para transmitir a mensagem do seu país. É assim que vemos os embaixadores acreditados nos diferentes países: eles representam os interesses do Estado que os enviou. Da mesma forma, nós somos representantes do Reino de Deus.
Mas há outra característica importante do embaixador: ele fala em nome do seu governo. Quando um embaixador fala, aquilo que transmite não é simplesmente a sua opinião pessoal. Ele transmite a posição do seu governo e representa a política do Estado que o enviou. Se deixar de seguir essa orientação, poderá sofrer consequências e até ser afastado das suas funções.
Nós, como embaixadores do Senhor Jesus Cristo, também temos de falar em nome de Deus. Falar em nome de Deus significa entregar a mensagem, a Boa-Nova da salvação e o ministério da reconciliação tal como nos foram confiados. Não devemos acrescentar à Palavra de Deus aquilo que não está nela, mas também não devemos retirar aquilo que Deus revelou.
No entanto, vemos que muitas pessoas procuram adaptar a Mensagem Cristã aos valores deste mundo. É por essa razão que, cada vez mais, encontramos correntes teológicas, biblistas, exegetas e intérpretes que procuram fazer interpretações da Bíblia à luz da evolução social e cultural contemporânea. O que significa essa interpretação? Significa que a Bíblia passa a ser interpretada à luz das transformações sociais que estão a ocorrer. E é por essa razão que algumas pessoas consideram, por exemplo, o divórcio como algo normal e natural, procurando apresentar diversos motivos que não estão claramente estabelecidos na Bíblia para o legitimar.
Quando as pessoas procedem dessa forma, estão a adaptar a interpretação da mensagem bíblica às correntes do mundo. Poderíamos dar outros exemplos, mas a questão fundamental é esta: o embaixador não tem autoridade para alterar a mensagem que recebeu. A mensagem não pertence ao embaixador. A mensagem pertence ao seu governo. Da mesma forma, aquilo que nós anunciamos não deve ser simplesmente a nossa convicção pessoal. É a Palavra de Deus que fomos chamados a proclamar.
Há ainda outro pormenor importante: o embaixador tem nas suas mãos a honra do seu país. Se um embaixador viver de forma desonesta ou corrupta, o que acontece? Envergonha o seu próprio país, porque é um reflexo desse país. Imagine-se um embaixador envolvido numa situação de flagrante violação da lei ou do Estado de direito. Esse indivíduo poderá ser considerado persona non grata. E ser declarado persona non grata significa que deixa de ser bem-vindo naquele país. Isso terá repercussões porque, através do seu comportamento, envergonhou o Estado que representava.
Nós também somos assim. Qualquer crente no Senhor Jesus Cristo que não se comporte corretamente está, de certa forma, a envergonhar o Evangelho e o bom nome do Cristianismo. E isso torna-se ainda mais grave porque os filhos de Deus, aqueles que se identificam como Cristãos, podem criar obstáculos e escândalos que prejudicam o testemunho do Cristianismo no mundo. As pessoas observam a nossa vida. Se a nossa vida não as conduz ao Evangelho, pode, pelo contrário, afastá-las dele. Logo, o nosso testemunho é extremamente importante, sobretudo naquilo que fazemos.
O embaixador tem de preservar a honra do seu país. Nós, como filhos de Deus, também temos de preservar a honra do Evangelho. Estou a utilizar estas ilustrações para nos ajudar a compreender estas realidades. Mas vemos também que o embaixador recebe mensagens solenes e urgentes. Quais são essas mensagens? O embaixador transmite a mensagem que recebeu. Ele fala em nome do seu governo e transmite a mensagem que lhe foi confiada. Ele não cria a mensagem. Ele transmite-a. O embaixador entrega a mensagem do rei com a autoridade do rei. Não fala como substituto do rei, mas em nome deste.Por isso, alterar a mensagem do Evangelho para agradar aos homens ou para obter lucro constitui uma grave infidelidade à Missão recebida.
Muitos fazem isso, infelizmente. A exploração do Evangelho para benefício próprio, à semelhança do que faziam os falsos profetas, constitui um ato de rebelião contra Deus e contra a Sua Palavra.
Mas vemos também que, pela natureza da sua missão, o embaixador vai para onde o seu país o envia. O embaixador não escolhe simplesmente para onde quer ir. Quando é convocado, tem de estar disponível. É uma pessoa que está ao serviço do seu país e pode ser chamada a desempenhar funções em lugares distantes. O mesmo acontece connosco, enquanto filhos de Deus. Temos o testemunho de muitas pessoas que deixam o seu país e partem em missão. Os missionários não fazem isso simplesmente porque lhes apetece ou porque consideram que fica bem. Fazem-no porque receberam um chamamento e porque desejam proclamar a Boa-Nova da salvação. O embaixador vai para onde o seu país o envia. Não determina livremente o lugar para onde quer ser enviado. Ele está ao serviço do seu país.
Da mesma forma, o embaixador de Cristo é um servo da Missão e não alguém autónomo que dirige a sua própria agenda. A nossa agenda é a agenda do Reino de Deus. É a agenda do Senhor Jesus Cristo.
Mas há outro ponto que gostaria de salientar: o embaixador não se naturaliza no país onde está acreditado. Um embaixador pode permanecer num país durante muitos anos, mas continua a representar o Estado que o enviou. Ele está naquele país como representante de outro Estado. A razão é simples: o embaixador está em representação dos interesses do seu país.
Da mesma forma, nós, que somos embaixadores de Cristo, não podemos tornar-nos cidadãos deste mundo no sentido de adotarmos os seus valores como nossos valores fundamentais. Aliás, nós não somos deste mundo. Jesus disse, na Sua oração, que não era deste mundo e que os Seus discípulos também não eram deste mundo (João 17: 15-16). Se não somos deste mundo, os nossos valores também não podem ser os valores deste mundo. Não podemos simplesmente adaptar-nos ao mundo, muito menos suavizar ou modificar a mensagem para agradar a homens e mulheres. Não fomos chamados para fazer isso. O facto de não sermos deste mundo significa que defendemos interesses que não são determinados pelos valores deste mundo, mas que são compatíveis com a vontade do Senhor Jesus Cristo.
Por fim, vemos também que o embaixador possui uma mensagem solene e urgente: a proclamação da Boa-Nova da salvação. A mensagem que anunciamos é a maior, a mais importante, a mais vital e a mais urgente mensagem que um ser humano pode ouvir. É a mensagem da reconciliação. O Deus que reconciliou o mundo consigo mesmo através da morte do Seu Filho apela agora ao mundo, por intermédio dos Seus embaixadores, para que se reconcilie com ELE.
É precisamente isso que significa a nova identidade que temos no Senhor Jesus Cristo. Esta nova identidade não nos concede apenas privilégios. O privilégio de sermos filhos de Deus significa que passamos a fazer parte do Reino de Deus, mas significa também que recebemos a responsabilidade de transmitir a mensagem da reconciliação. E esta mensagem de reconciliação é a Boa-Nova da salvação. É a mensagem do amor. É a mensagem do perdão. É a mensagem da justiça. É a mensagem da paz e do apaziguamento. É a mensagem da liberdade. É a mensagem da alegria. É isso que Deus espera de nós.
É também este o desafio que quero deixar convosco: que possamos interiorizar estas verdades salvíficas nos nossos corações e procurar aplicá-las no nosso dia a dia, para glória e louvor do nosso Grande e Todo-Poderoso Deus. Que assim seja.