Há Ou Não Uma Consciência de Nação no Povo Guineense? A Lição do Eng. Amílcar Lopes Cabral

Partilho aqui uma parcela da minha intervenção no ciclo de leitura da obra “Da Democracia em África”, do Presidente Domingos Simões Pereira. A minha intervenção incidiu, sobretudo, na demonstração de que o povo guineense possui um conceito bastante apurado de nação, não obstante a diversidade sociocultural e a crónica divergência que nos caracterizam – fruto, acima de tudo, da instrumentalização levada a cabo pelos politiqueiros que grassam na nossa sociedade, obstruindo, desse modo, a afirmação do ideal de nação guineense e, consequentemente, o desenvolvimento nacional. 

Mesmo assim, apesar de todos estes reveses significativos que têm afectado o postulado da nossa “guineendadi”, não se pode negar que os guineenses possuem um conceito bem definido de nação. A ideia de nação está profundamente presente no imaginário do povo guineense, desde o bem-sucedido processo de mobilização conduzido pelo Eng.º Amílcar Lopes Cabral em torno da luta de libertação nacional. Um dos grandes pressupostos da autodeterminação do povo guineense prende-se precisamente com o conceito de nação e com a sua nacionalidade. Este conceito de nação estava incorporado no postulado da “Unidade, Luta e Progresso”, tendo sempre como horizonte a afirmação da nação guineense, da sua liberdade e da sua independência. 

No início, comecei a minha intervenção com uma questão retórica e, posteriormente, acabei por lhe responder directamente. Interroguei o Presidente Domingos Simões Pereira nos seguintes termos: como é que o Presidente explica a extraordinária capacidade de mobilização que Amílcar Cabral conseguiu alcançar no processo de luta de libertação nacional. 

Sabemos que, no processo de luta pela nossa independência, se convergiu para uma ideia de nação. Foi um dos grandes factores que impulsionaram a convergência de todas aquelas etnias que, apesar das suas idiossincrasias, divergências e identidades próprias, conseguiram encontrar um elo comum de unidade em torno de uma ideia de pertença à nação e, a partir dessa consciência nacional, afirmar o direito à autodeterminação. 

Sabemos, portanto, que o objectivo nacional de Amílcar Cabral triunfou. E isso aconteceu num contexto particularmente difícil, porque, naquela altura, estávamos a falar de pessoas que, na sua maioria, não possuíam formação escolar nem estudos e dispunham de reduzidos recursos intelectuais e materiais. Ainda assim, Amílcar Cabral conseguiu realizar essa extraordinária proeza de mobilização em torno da causa da “guineendadi” – isto é, da nação guineense. 

Ora, se isso foi possível, menciono-o precisamente para demonstrar que a questão da nação guineense permanece presente. Creio que até os próprios guineenses, apesar de todas as dificuldades e contradições, conservam uma ideia de nação, um sentimento de pertença e uma consciência nacional assente na convicção de que somos todos guineenses e filhos daquela terra que nos viu nascer. Existe, portanto, um sentimento patriótico que permanece profundamente enraizado nos guineenses, independentemente das suas etnias, crenças religiosas, culturas ou localizações geográficas. 

A minha questão, contudo, é a seguinte: se existe essa consciência nacional, onde reside a falha da mobilização em torno da unidade, da paz, da democracia e do desenvolvimento? Eu diria que o problema reside, em grande medida, na incompetência e na corrupção das elites políticas guineenses. Diria, antes, que existe uma dificuldade de mobilização e de convergência em torno de um propósito comum, que é o desenvolvimento nacional. Há um certo desnorte, e esse desnorte não pode ser atribuído simplesmente ao povo. Deve, sim, ser atribuído, sobretudo, à impreparada classe política que nos governa. 

Mesmo aqui na Europa, no Ocidente, as pessoas não possuem todas, necessariamente, uma compreensão aprofundada da democracia. Isto acontece porque o desenvolvimento, as ideias liberais e o próprio modelo liberal de organização da sociedade foram, historicamente, processos conduzidos por uma pequena parcela da sociedade. Como explicou, e muito bem, o Presidente Domingos Simões Pereira, é uma pequena nata que, muitas vezes, consegue mobilizar a sociedade e traçar determinado caminho. 

Por isso, talvez, em vez de afirmarmos que não existe uma ideia de nação entre os guineenses – porque, pessoalmente, considero que ela existe –, devêssemos questionar se o verdadeiro problema não estará relacionado com os dirigentes políticos que temos e com a sua incapacidade de estar à altura das exigências históricas e pós-modernas do país. 

Amílcar Cabral, acompanhado por um número relativamente reduzido de pessoas, conseguiu realizar uma proeza extraordinária: mobilizar uma população inteira em torno de um propósito comum e conduzi-la à independência. Então, como é que nós, hoje, não conseguimos alcançar uma convergência semelhante em torno do desenvolvimento e do bem-estar do povo guineense? 

Para mim, a tarefa que se coloca actualmente consiste precisamente em conseguirmos concentrar-nos num único foco e num único objectivo. Sei que Cabral falava de uma tarefa maior e de um programa maior, mas, para mim, esse grande programa já foi, em larga medida, delineado pelo próprio Amílcar Cabral. Foi Amílcar Cabral quem lançou as balizas e estabeleceu os fundamentos a partir dos quais poderíamos, posteriormente, seguir um caminho mais estruturado e coerente. Talvez, por isso, a meu ver, a questão central resida nas lideranças políticas que temos e na sua falta de compromisso efectivo com a ideia de nação. 

Ora, se é verdade que é quase sempre uma pequena nata que consegue desencadear grandes transformações numa sociedade – e não necessariamente a maioria da população –, também é verdade que o povo, por si só, raramente produz essas grandes rupturas históricas. É, muitas vezes, uma pequena classe dirigente que consegue mobilizar as massas e transformar uma determinada consciência colectiva em acção política, como aconteceu com Amílcar Cabral e com outros grandes pan-africanistas que protagonizaram feitos históricos dessa dimensão. 

Se temos poucas pessoas com essa capacidade no nosso continente – e não me refiro apenas ao caso da Guiné-Bissau –, talvez a implementação do modelo liberal e da democracia de que se falou, e muito bem, não fosse assim tão difícil quanto poderíamos imaginar. 

Mas, para mim, a questão da nação é precisamente aquela que se encontra mais claramente evidenciada na realidade quotidiana dos guineenses. Há guineenses que vivem nos lugares mais longínquos da nossa terra e do mundo e que, apesar da distância, continuam a ter uma ideia muito clara de que são guineenses. Muitos orgulham-se, inclusive, dessa identidade e desse sentimento de pertença. Então, por que razão não conseguimos transformar essa consciência de pertença numa verdadeira mobilização em prol do bem comum? 

A minha leitura é que o problema reside, em grande medida, naqueles que exercem responsabilidades políticas. A elite política que temos – embora eu hesite em classificá-la verdadeiramente como uma elite – acaba, muitas vezes, por assumir comportamentos sectários e egocêntricos, instrumentalizando essas sensibilidades identitárias para fins que não correspondem aos interesses superiores da nação. 

É essa a minha leitura. E fico por aqui, para não prolongar excessivamente o debate. Obrigado.