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A Prematura Morte do Meu Querido Tio Duarte Vieira

Nos últimos tempos, mais precisamente de há sete meses para cá, a minha família tem sido fustigada penosamente com situações dramáticas de perdas, sobretudo de pessoas cruciais e determinantes que, até então, eram baluartes da nossa família. Ainda recentemente, no mês de Julho do ano passado, perdemos o nosso querido tio Domingos Vieira – que era chefe da nossa família. Estamos, por enquanto, num processo de luto, a digerir esta importante e irremediável perda (LER). E novamente fomos surpreendidos no dia 25 de Janeiro com a morte prematura do nosso estimado tio Duarte Vieira, que carinhosamente era apelidado pelos familiares e amigos de “Duvi”. 

Em poucos meses, contra todas as previsões e expectativas, perdemos duas pessoas relevantes e imprescindíveis no seio da nossa família: o tio Domingos Vieira e agora o tio Duarte Vieira. Ambos eram os únicos patriarcas que nos restavam ainda na família, sendo irmãos mais novos do meu falecido pai Jorge Vieira. Infelizmente, com a morte dos dois, deixámos definitivamente de ter patriarcas na família, visto que da parte da minha saudosa e falecida mãe, Andjepo Có, já não tínhamos nenhum tio nem tia de vida. Todos, sem excepção, morreram. 

Da mesma sorte, por parte do meu pai Jorge Vieira, dos seis irmãos que tinha, isto é, quatro homens e duas mulheres, morrerem todos, restando apenas a nossa tia Fina Indi (LER). Os mesmos destinos funestos tiveram todos os meus avós – tanto do lado paterno como do lado materno. Por outras palavras, estamos órfãos no mundo e a orfandade tem sido o grande flagelo do nosso desassossego ao longo dos anos. 

A precoce e repentina morte do nosso tio Duarte Vieira (“Duvi”) só veio agravar, ainda mais, de forma drástica e considerável, a nossa condição de orfandade, retirando-nos a fortiori a figura do patriarca na família. Ou seja, por outras palavras, já não temos praticamente “garandis” e “firkidjas” na família – com todas as implicações que tais importantes ausências comportam do ponto de vista humano-social no seio da nossa família. Morreram todos, restando apenas a tia Fina Indi, para grande tristeza nossa. 

O tio Duarte Vieira era o filho caçula (“codé”) dos meus avós paternos. Foi sempre um homem responsável e de família. Desde muito cedo, assumiu proeminentes responsabilidades, principalmente com a morte do meu pai Jorge Vieira e da minha mãe Andjepo Có. Eu, inclusive, depois da morte da minha mãe Andjepo Có, em 1992, fiquei sob os seus cuidados no que toca ao meu sustento, juntamente com o meu irmão mais velho Ginésio Diabelito Vieira (“Ngunga”), durante alguns anos. 

Por isso, estou-lhe eternamente grato pela enorme bênção e cuidado que tem sido na minha vida e dos meus irmãos em geral. O tio Duarte Vieira serviu sempre a nossa família até ao fim da sua momentânea vida, seguindo neste aspecto o exemplo do meu pai Jorge Vieira e dos seus respectivos irmãos e irmãs. Aliás, a coexistência, a coesão, a unidade, a solidariedade e o espírito de entreajuda são os nobres princípios e valores sedimentados no seio da nossa família, fruto da orientação visionária do meu pai Jorge Vieira, que era o mais velho dos irmãos. 

Tanto que, por esta razão, esta unidade e vínculo umbilical teve reflexos bastantes positivos em toda a nossa família, fazendo com que nos relacionássemos todos como irmãos e família. Crescemos todos juntos e recebemos praticamente a mesma educação, uma vez que a nossa casa, as casas dos meus tios e da tia Fina Indi estão localizadas e delimitadas na mesma zona e circunscrição territorial em Bissau, concretamente em Bandim. Somos realmente uma família unida, forte e grande, graças a DEUS (LER)

Por força do destino, o nosso querido tio Duarte Vieira faleceu no passado dia 25 de Janeiro no Ceará, capital da Fortaleza, Brasil, vítima de doença prolongada. Estava neste país lusófono há cinco meses a fazer o tratamento médico, sob os cuidados do seu filho primogénito Crucires Duarte Vieira, depois de ter deixado a sua terra natal, Bissau, no dia16 de Agosto do ano passado. Não conseguiu resistir e sucumbiu à brutalidade da doença. Tinha 63 anos de idade. Era casado e pai de seis filhos, nomeadamente Astrides Vieira da Costa, Crucires Vieira, Heine Vieira, Euler Vieira, Tales Vieira, Elen, e avô de quatro netos. 

O nosso tio Duarte Vieira formou-se na área da Matemática pela Escola Normal Superior “Chico Té” e, posteriormente, também em Gestão Empresarial na Universidade Católica de Bissau, dando aulas na disciplina da Matemática e Estatística – primeiramente no liceu e depois como docente universitário na Universidade Colinas de Boé, em Bissau. Serviu como funcionário público em Bissau por aproximadamente quatro décadas, lecionando sempre Matemática em várias escolas e também na universidade mencionada, formando milhares de homens e mulheres ao longo de todo o seu percurso de vida. 

O corpo do nosso querido tio Duarte Vieira foi transladado para Bissau e foi sepultado esta tarde no cemitério de Antula, em Bissau, seguindo assim o mesmo destino dos seus antepassados, mais concretamente dos meus avós paternos e do meu pai Jorge Vieira, bem como todos os seus respectivos irmãos e irmãs já falecidos. Até sempre, querido tio Duarte Vieira (“Duvi”). 

A Mesma Saudade de Sempre, Mãe!


Faz hoje 26 anos que a minha queridíssima mãe Anjeipo Có morreu. Partiu repentina e prematuramente para surpresa de todos nós. A partir dessa funesta data eu e os meus irmãos ficámos definitivamente órfãos, pobres, desventurados e desamparados no mundo. Perdemos, com o desaparecimento físico dela, o núcleo fundamental e suporte insubstituível e irreparável da nossa família. Nada nesta transitória vida poderá preencher o incomensurável vazio e a falta que ela vai sempre fazendo durante toda a nossa peregrinação neste “vale de lágrimas”. Perdemos tudo e estamos sozinhos no mundo. Não temos, desde muito cedo, a legítima protecção dos nossos progenitores e com as profundas mazelas que tudo isto representa no nosso crescimento e equilíbrio humano-emocional. Tivemos de crescer “fora do tempo”. Ganhar cedo o juízo e noção de responsabilidade. Aprender, acima de tudo, a conviver com as injustiças, o abuso, a discriminação e toda a sorte de arbitrariedades que somente uma pessoa órfã conhece tão perfeitamente. 

Por isso diz o ditado popular, para vincar esta grande verdade antropológica, “quem tem uma mãe tem tudo, quem não tem mãe não tem nada”. E de facto eu e os meus irmãos já não temos uma das maiores e melhores preciosidades que um ser humano possa ter nesta madrasta vida. Mesmo assim, temos connosco o Todo-Poderoso DEUS que defende a nossa causa, orientando-nos e suprindo todas as nossas necessidades (Deuteronómio 10:18; Salmo 146:9), bem como o resquício da família que ainda nos resta (ALI) (AQUI)

Cientes da nossa limitada condição de orfandade, continuaremos a ornamentarmo-nos com a herança que recebemos dos nossos progenitores. Procurar ser coerentes com a nobre educação que humildemente nos confiaram, isto é, de nunca renegarmos aquilo que é o nosso substrato identitário e afirmar-se na sociedade como homens e mulheres de bem. Só assim poderemos, de forma vigorosa, perpetuar a memória dos nossos queridos pais. 

A minha querida mãe Anjeipo Có partiu, desapareceu e morreu precocemente para tamanha infelicidade de todos nós. “O Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor” (Job 1:21). Resta-nos, agora, apenas, recordá-la com a mesma saudade de sempre. Até sempre, mãe!