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Será Verdade Que os Baptistas Não Fazem Evangelização e Missões?

Venho, uma vez mais, partilhar convosco uma brevíssima reflexão sobre uma questão que, há algum tempo, uma amiga me colocou: porque é que os Baptistas não fazem missões nem evangelização? Esta pergunta não é inocente. Ela resulta de uma convicção relativamente difundida em diversos meios evangélicos protestantes, segundo a qual os Baptistas não atribuem grande importância à evangelização e às missões, privilegiando antes outras dimensões da vida da Igreja. 

Contudo, antes de responder directamente a esta questão, importa fazer um breve enquadramento histórico e teológico que permita compreender a génese desta percepção e, sobretudo, as razões pelas quais os Baptistas e outras tradições protestantes históricas tendem a enfatizar mais o ensino da Palavra de Deus e a formação doutrinária. Com o surgimento da Reforma Protestante, uma das principais preocupações dos seus grandes reformadores – entre os quais Martinho Lutero, João Calvino, Menno Simons, Ulric Zuínglio e muitos outros – consistiu em denunciar aquilo que entendiam serem desvios doutrinários existentes no seio da Igreja Católica e, simultaneamente, restaurar a centralidade das Sagradas Escrituras na vida Cristã. 

Nesse contexto, procuraram traduzir a Bíblia para as línguas vernáculas e ensinar os cristãos a conhecerem profundamente a Palavra de Deus, convencidos de que uma fé sólida depende necessariamente de um conhecimento sólido das Escrituras. Foi precisamente esta herança que marcou profundamente as denominações protestantes que surgiram posteriormente. O ensino, a formação bíblica e a instrução doutrinária passaram a ocupar um lugar central, por se entender que o conhecimento da Palavra constitui o fundamento de uma vida cristã equilibrada, madura e espiritualmente saudável. 

Daí a forte ênfase que os meios protestantes tradicionais colocam no estudo das Escrituras. Entende-se que quanto mais profundamente uma pessoa conhecer a Palavra de Deus, quanto mais alicerçada estiver nela e quanto maior for a sua consistência doutrinária, mais preparada estará para enfrentar as adversidades, discernir o erro, identificar heresias, cultivar uma vida santa e crescer na comunhão com Deus. Em grande medida, esta convicção continua a ser amplamente partilhada no universo protestante, especialmente entre as denominações históricas, das quais os Baptistas fazem parte. 

Entretanto, com o surgimento do movimento pentecostal, no final do século XIX e início do século XX, começou a verificar-se uma maior valorização da evangelização, das missões e do serviço cristão. Desenvolveu-se uma espiritualidade particularmente orientada para a proclamação do Evangelho, para o testemunho activo da Fé e para o exercício dos dons espirituais ao serviço da Igreja. Segundo a compreensão tradicional deste movimento, o avivamento pentecostal moderno evidenciou-se, entre outros aspectos, pela manifestação do dom de línguas, entendida como um sinal da capacitação do Espírito Santo para anunciar o Evangelho às nações, à semelhança do que é narrado em Actos dos Apóstolos, capítulo 2. 

Por essa razão, o pentecostalismo estabeleceu, desde a sua origem, uma forte ligação entre a acção do Espírito Santo, a evangelização, as missões e a proclamação da Boa Nova da salvação. É, por isso, natural encontrar nas igrejas pentecostais uma preocupação particularmente intensa com a evangelização, as missões e o serviço Cristão. Já os Baptistas e outras denominações protestantes históricas procuraram concentrar-se mais no estudo sistemático das Escrituras, no ensino doutrinário e na formação teológica, entendendo que um conhecimento profundo da Palavra sustentará todas as restantes áreas do ministério Cristão. Daí a importância que atribuem à Escola Dominical, ao ensino bíblico para todas as faixas etárias e à formação teológica, possuindo, em muitos casos, instituições académicas de elevado nível. 

Feito este enquadramento, importa afirmar que não corresponde à realidade dizer que os Baptistas não fazem missões nem evangelização. Fazem-no, efectivamente. Apenas não costumam conferir a essa dimensão a mesma visibilidade ou intensidade que, de um modo geral, se observa nos meios pentecostais. Da mesma forma, as denominações protestantes históricas têm dado um contributo inestimável para a edificação da Igreja através do trabalho desenvolvido por biblistas, exegetas, teólogos e comentadores bíblicos, cujos estudos beneficiam cristãos pertencentes às mais diversas denominações. 

Em rigor, tanto os meios tradicionais como os meios pentecostais contribuem significativamente para o avanço do cristianismo. Cada um tende a colocar maior ênfase numa determinada dimensão da vida da Igreja, mas ambos procuram servir fielmente a Deus. É evidente que ninguém pode desenvolver uma compreensão sólida acerca das missões, da evangelização ou do serviço cristão sem conhecer profundamente a Palavra de Deus. Do mesmo modo, esse conhecimento deve necessariamente conduzir ao Serviço, à Evangelização e ao cumprimento da Missão confiada pelo Senhor Jesus Cristo. 

Por isso, considero que tanto os Baptistas como os pentecostais ainda podem crescer nesta área. Nenhuma igreja pode afirmar que já cumpriu plenamente a Missão que lhe foi confiada. É verdade que os meios tradicionais, particularmente os Baptistas, não costumam enfatizar tanto as Missões. Todavia, investem fortemente noutras áreas essenciais do ministério cristão. Aliás, um dos maiores evangelistas da era moderna foi Billy Graham, que era Baptista e proclamou o Evangelho a milhões de pessoas através das suas poderosas campanhas evangelísticas. 

Em última análise, tanto os Baptistas como os pentecostais procuram anunciar o Evangelho e promover o Reino de Deus. Os Baptistas colocam uma especial ênfase no conhecimento da Palavra por entenderem que ela constitui o fundamento de toda a vida cristã. Contudo, a própria Palavra ensina que não devemos ser apenas ouvintes, mas também praticantes, conduzindo-nos naturalmente ao serviço, à Evangelização e às Missões. 

Uma igreja que negligencie a Evangelização e as Missões dificilmente reflectirá, em plenitude, o modelo bíblico de Igreja. Ao mesmo tempo, também não existe Evangelização verdadeiramente saudável sem um conhecimento sólido das Escrituras Sagradas. É precisamente a insuficiência desse conhecimento que, em muitos casos, explica determinados desvios doutrinários, heresias e escândalos que, infelizmente, também se verificam em alguns sectores do neopentecostalismo. 

Quem desconhece a Palavra torna-se mais vulnerável ao erro, porque é a Palavra de Deus que ilumina o caminho do crente. Quem conhece verdadeiramente a Palavra conhece também melhor o próprio Deus. E quem conhece Deus estará naturalmente mais disposto a cumprir a Sua vontade. 

Assim, tanto os meios tradicionais como os meios pentecostais cooperam na Obra de Deus. Não se trata de determinar quem faz mais ou menos, mas de reconhecer que cada denominação contribui segundo a vocação e a ênfase que Deus lhe tem permitido desenvolver. 

Por isso, não é correcto afirmar que os Baptistas não fazem Missões. Fazem, efectivamente. O ensino da Palavra prepara igualmente homens e mulheres para servirem melhor a Deus e cumprirem a Missão que lhes foi confiada. Do mesmo modo, também não é correcto afirmar que os pentecostais desconhecem a Palavra de Deus. Existem preconceitos de parte a parte, mas as generalizações raramente fazem justiça à realidade. 

Cada denominação possui uma ênfase própria, sem que isso signifique abandonar necessariamente as restantes dimensões do Ministério Cristão. 

Se me perguntarem se os meios tradicionais possuem, em regra, uma tradição académica mais sólida nas áreas da Teologia e dos Estudos Bíblicos, responderei afirmativamente. Se me perguntarem se os pentecostais, de um modo geral, enfatizam mais a Evangelização, as Missões e o serviço Cristão, responderei igualmente que sim. Nos meios pentecostais é frequente que os crentes sejam incentivados a identificar e exercer o seu ministério com maior rapidez. Nos meios tradicionais, esse processo tende, muitas vezes, a desenvolver-se de forma mais gradual. 

Todavia, todas estas diferentes abordagens cooperam para a glória de Deus e para o crescimento do Cristianismo no mundo. O essencial é que todos partilhemos a mesma convicção: tornar Deus conhecido através da nossa vida e cumprir fielmente a Grande Comissão. Uns dedicam-se mais ao estudo; outros dedicam-se mais à evangelização. Porém, todos podem contribuir para a edificação do Corpo de Cristo. Os meios pentecostais beneficiam amplamente do trabalho doutrinário produzido pelos biblistas e teólogos das denominações históricas, enquanto estas também beneficiam do dinamismo evangelístico frequentemente presente nos meios pentecostais. 

Quem conhece verdadeiramente o mundo evangélico sabe que persistem diversos preconceitos: afirma-se, por vezes, que nos meios tradicionais não existem Missões, oração ou vigílias; por outro lado, afirma-se também que nos meios pentecostais falta conhecimento bíblico. Estas generalizações não correspondem plenamente à realidade. Muito depende das lideranças locais, da visão pastoral e da sensibilidade espiritual de cada igreja. O importante é que tudo seja realizado segundo a Palavra de Deus e para a glória de Deus. Devemos abandonar preconceitos, sentimentos de superioridade e críticas infundadas, reconhecendo que Deus utiliza diferentes pessoas e diferentes tradições para cumprir os Seus propósitos. 

Não existe qualquer desmérito no facto de os pentecostais enfatizarem mais a Evangelização e as Missões. Da mesma forma, também não existe desmérito em reconhecer que os Baptistas costumam conferir maior relevo ao estudo da Palavra de Deus. Naturalmente, existem excepções em ambos os contextos. No final, todos somos filhos de Deus, crentes no Senhor Jesus Cristo e participantes da mesma Missão: glorificar a Deus e expandir o Seu Reino. 

Que Deus nos ajude e nos abençoe, concedendo a cada um de nós a graça necessária para utilizar os dons e talentos que recebeu para Sua glória. Quem recebeu o dom do serviço, sirva com diligência. Quem recebeu o dom do ensino, ensine para a glória de Deus. Quem recebeu outros dons, coloque-os igualmente ao serviço do Reino. Não devemos viver em rivalidade, mas como cooperadores na obra do SENHOR. Todos trabalhamos para o mesmo propósito: a glória e o louvor do nosso grande e Todo-Poderoso Deus. Que assim seja. 

Que Deus vos abençoe. Que Deus nos ajude. Amém.