Os Camaradas Estão a Perguntar Se é Assim Que Se Toma a Independência de um País


O título do artigo foi uma paráfrase da grande reportagem feita pelo jornal Público há cinco anos para retratar os contornos e implicações político-diplomáticas que encerraram o inesperado processo da auto-determinação da Guiné-Bissau e a forma surpreendente como as pessoas reagiram o tal instantâneo acontecimento nacional (LER)

Hoje, passadas quatro décadas, estamos em condições de refutar manifestamente que o caminho desordeiro e sanguinário trilhado para obter a nossa independência foi malévolo e um autêntico fracasso a todos os níveis (LER). Também estamos em condições de pôr em causa o projecto ideológico-político do Engenheiro Amílcar Lopes Cabral sobre a Guiné-Bissau e o plano que traçou a curto, médio e longo prazo para o desenvolvimento do nosso país era e é inexequível. A ideologia marxista-leninista, que ele desde a primeira hora perfilhou e promoveu afincadamente (LER), não passava de uma utopia política tal como se podem constatar, por todos, nos escritos de Karl Marx e Vladimir Lenine. 

Estamos, da mesma sorte, em condições de afirmar categoricamente que Amílcar Cabral não foi um grande líder, como o PAIGC tem propalado e veiculado ao longo dos anos, visto que não soube conviver bem com as diferenças e simultaneamente preparar homens capazes à altura dos desafios da governação. Sob a sua liderança e orientação política, eliminou fisicamente os opositores nas matas do país, sobretudo na vindicta do congresso de Cassacá, em 1964, onde muitos ditos destacados "camaradas" foram barbaramente assassinados por não obedecerem aos transmites e ordens superiores do partido, transmitindo assim ao PAIGC este autoritário e violento  método na resolução dos diferendos – que se tem feito sentir reiteradamente no partido até à data presente e com todas as consequências nefastas que tal censurável conduta acarreta no país, isto é, de silenciar os opositores através dos bárbaros métodos "di bibi udju boka iem". Os homens que Cabral preparou, os cognominados "pioneiros do partido" ou "cabralistas" foram, na sua generalidade, corruptos, violentos, assassinos, medíocres, incompetentes, gananciosos, mulherengos. Uma autêntica nulidade. Vedes, por todos os exemplos, o legado de Luís Cabral, João Bernardo Vieira (Nino), Malam Bacai Sanhá, Koumba Ialá, José Mário Vaz (e aqui somente enumeramos os que foram eleitos democraticamente Presidentes da República, excepto Luís Cabral, uma vez que a lista é bastante enormíssima e infindável). 

Estamos ainda em devidas condições de negar liminarmente os factos históricos apresentados pelo PAIGC, máxime a grosseira mentira que consolidou ao longo das décadas entre os guineenses que haviam esgotados todos os meios pacíficos para prosseguir a resistência da nossa independência por meios do diálogo. Esta alegação não corresponde à mínima verdade, não obstante a priori ter havido inflexibilidade e intransigência por parte do governo de Salazar. Desde logo, como é possível um partido que havia sido criado sete anos antes já queria ver total abertura por parte de Portugal, que estava a colonizar a Guiné-Bissau há cinco séculos e abdicar rapidamente desse privilégio dominador? Era bastante prematuro aos olhos do colonizador, sem prejuízo naturalmente de nos podermos condenar sempre o comportamento da escravatura em todas as suas configurações e facetas antropológicas. 

E mais, havia factores objectivos auspiciosos que apontavam a não continuidade de Portugal no nosso país num futuro breve, nomeadamente na geopolítica e geoestratégia internacional. Em 1963, ano em que começou a nossa luta de libertação nacional, a maioria dos países africanos já havia tomado a sua independência, principalmente os nossos vizinhos da Guiné-Conacri e Senegal. Em 25 de Maio, do mesmo ano, já tinha sido criado a Organização de Unidade Africana (OUA), vulgarmente conhecida hoje como Unidade Africana (UA), que tinha como uma das suas finalidades lutar pela descolonização e emancipação dos países africanos (LER), especialmente devido ao facto de em 1945 a Carta das Nações ter preceituado no seu artigo 1º o inovador Princípio da Autodeterminação dos Povos e a censurabilidade da escravatura na ordem internacional (um entendimento, igualmente, acolhido pelo Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP), bem como no Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais (PIDESC)). Além destas importantes aberturas, acresce ainda o facto da antiga União Soviética (URSS), os Estados Unidos da América (EUA) e a China, membros permanentes do Conselho Segurança das Nações Unidas, se terem demarcado com a prática da colonização, lançando-se explicitamente na campanha para a sua erradicação no mundo. Todas essas mudanças positivas acabariam, cedo ou tarde, por contribuir para a nossa independência – sem necessariamente ser pela via armada, tal como sofridamente foi. 

Estamos ainda em condições de concluir que o Engenheiro Amílcar Lopes Cabral e o seu sanguinário partido PAIGC foram uma maldição para a Guiné-Bissau, bem com o método armado empregado para a nossa (in)dependência foi bastante pernicioso para o país. Os custos da guerra foram claramente mais elevados do que propriamente os seus benefícios. Morreu em vão muita gente (e ainda hoje continua a morrer colateralmente) para não haver nenhuma mudança positiva em prol dos guineenses. O PAIGC é um partido viciado e concomitantemente incurável, tal como o tribalista e golpista PRS (LER) e os seus comparsas de APU-PDGB, MADEM-15, somando todos os politiqueiros, vigaristas, oportunistas, incompetentes, padronos de fraude, ladrões do erário público, corruptos, traidores da pátria "i barri duris di padja" que tão bem conhecemos de outros carnavais. Por causa da acção vergonhosa desses badamecos – "ndaures" –, continuamos ainda a ser um país inviável e desprestigiado na arena internacional, levando-nos a conformar cegamente com a pobreza como sendo o determinismo da vida. 

É assim que se toma a independência de um país? É isto que chamam orgulhosamente de "Setembro Vitorioso"? Vitorioso, afinal, em quê? Só se for na ignorância, incompetência, corrupção, discriminação, miséria, retrocesso e cabalindadi (LER) e não certamente na Emancipação, Dignidade e Dignificação, Direitos Humanos, Meritocracia, Ordem e Progresso. 

Os Deveres de Ofício


Consigo compreender perfeitamente toda a celeuma criada em torno do indecoro do Primeiro-ministro António Costa na sua chegada ontem a Luanda, Angola (LER). Não esteve bem, infelizmente. Ficou bastante aquém daquilo que deveria ser a sua irrepreensível postura do homem de estado. A república de Angola não merecia, de todo, este irreflectido desdém por parte da terceira figura de Portugal. Na política, tal como se costuma dizer, o que parece é. O facto de António Costa se apresentar de maneira informal e desleixada, usando calças de ganga e mocassins à chegada a Angola, demonstra manifestamente a forma como Portugal olha ainda com alguma sobrançaria para as suas ex colónias. 

Obviamente, neste ponto, é irrelevante invocar "o princípio da subjectividade" que assisti a qualquer ser humano, sobretudo no que toca aos seus gostos indumentários, uma vez que o senhor Primeiro-ministro António Costa não estava num evento de foro particular e tão pouco efectuar uma visitinha qualquer ou encontro de café. Estava a representar Portugal num país irmão. Impunha-se-lhe, por isso, "o dever de ofício" para corresponder com todas as formalidades protocolares inerentes a essas visitas, tendo em conta a posição de relevo que ocupa. Não levar em conta essas observações consubstancia inequivocamente a falta de respeito e consideração para com o país terceiro – a república de Angola. E como alguns pertinentemente questionaram, e bem, se fosse numa visita a um país europeu o senhor Primeiro-ministro ter-se-ia apresentação desta forma desleixada? Isso é maneira de vestir numa visita de Estado? Que sentido de Estado é este? 

Pode parecer, à primeira vista, insignificante esta inobservância do senhor Primeiro-ministro António Costa. No entanto, ela diz tudo da forma como Portugal olha para Angola, insistimos. Na minha Escola, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a título de exemplo, os alunos apresentam-se normalmente para os exames orais – tanto de passagem como de melhoria da nota – a rigor, isto é, de forma formal, especialmente quando vão comparecer perante os Excelentíssimos Professores Catedráticos. Espera-se sempre, por parte dos alunos, uma boa apresentação, que se coadune com o nobre curso dos "obreiros da justiça". É um costume enraizado ao longo dos anos. E, neste ponto, a "doutrina" não diverge. Ela é praticamente unânime. Também, nesta óptica, à luz dos costumes e convenções internacionais, é unânime a ideia de respeito pelos outros estados. Acontece que, de forma inconsciente, o senhor Primeiro-ministro António Costa cometeu uma desnecessária gaffe protocolar. 

Não é uma questão de gosto de determinadas peças de roupas que está aqui em causa e, tão pouco, a liberdade individual ou de escolha. É muito mais que isso. Tem a ver com o cargo que se ocupa e a maneira de estar e de se apresentar. É verdade que Angola é um país que está ainda à procura da sua identidade democrática, fazendo com que tenha sido palco de corrupção de várias naturezas e tremendas violações de Direitos Humanos, mesmo assim é um país soberano que merecia mais respeito de Portugal. E não este tratamento menosprezível, que se vai desdobrando em inúmeras prepotências que em nada contribuí para consolidar as tensas relações político-diplomáticas bilaterais entre ambos os estados da CPLP. 

Quem é o Diabo?


Tem-se falado muito pouco no seio do Cristianismo sobre a execrável figura do Diabo e do enormíssimo perigo que representa para a Humanidade, máxime na vida dos crentes no Senhor Jesus Cristo. Ele, o Belzebu, também conhecido como o grande dragão, Satanás, Lúcifer ou Antiga Serpente (Apocalipse 12:9), é a origem e perfeita encarnação do pecado na sua multiforme configuração cosmo-antropológica e do caos existente no Mundo. Deleita com a depravação e toda a sorte de abominação. Milita contra DEUS, a Sua impoluta Palavra e obra da Sua criação, bem como contra as suas criaturas e filhos em especial. O Diabo é a autêntica personificação do mal em todos os sentidos do termo. O seu debalde objectivo é desorientar e arruinar definitivamente os eleitos de DEUS, levando-os para a arena do pecado e consequentemente para a morte eterna. Desdobra-se incansavelmente em promover injustiças, corrupções, desconfianças, inimizades, descriminações, rivalidades, invejas, ódios, abusos, vinganças, guerras e matanças entre as pessoas. Consciente deste facto, o reputado Teólogo Protestante João Calvino escrevia que "Satanás […] mil vezes por dia nos tira do caminho certo. Não digo nada acerca do fogo, e da espada, e dos exílios, e de todos os furiosos ataques a nossos inimigos. Não digo nada acerca de difamações e outros vexames similares. Quantas coisas piores do que essas existem aqui dentro! Homens ambiciosos atacam-nos abertamente, epicureus e lucianistas redicularizam-nos, homens insolentes insultam-nos, hipócritas enraivecem-se conosco, os sábios segundo a carne ferem-nos, e somos atormentados de muitas formas diferentes por todos os lados"[1]

Como é do conhecimento dos Cristãos, ou pelo menos presumimos, o Diabo é a causa inicial e última de todos os males existentes no mundo. Foi ele que induziu engenhosamente Adão e Eva a desobedecerem deliberadamente às ordens expressas de DEUS no início da criação (Génesis 3:1-7) e continua ainda hoje a fazê-lo astutamente com a Humanidade em geral. O Apóstolo Pedro, de forma manifesta, apelida-o como o nosso "adversário, andando em redor, como leão que ruge procurando alguém para devorar" (1 Pedro 5:8). O Senhor Jesus, a seu respeito, sustentava peremptoriamente que "foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (João 8:44). Com efeito, somos exortados pelas Escrituras Sagradas a não lhe dar a mínima manobra de oportunidade (Efésios 4:27), antes pelo contrário, resistir-lhe firme e constantemente na fé, através da obediência plena à Palavra de DEUS. E assim, com esta decente e firme postura Cristã, ele fugirá de nós (Tiago 4:7)

Para concretizarmos estes elevados propósitos bíblicos e triunfarmos espiritualmente precisamos, acima de tudo, de nos revestirmos fortemente de toda a armadura de DEUS, "orando em todo o tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica incessante por todos os santos" (Efésios 6:10-18). Só assim conseguiremos triunfar sobre ele. 

O Diabo, o nosso acusador, importa ainda salientar, já foi definitivamente derrotado na Cruz do Calvário e condenado a permanecer perpetuamente no inferno, juntamente com todos os demónios e aqueles que declinaram a Graça Redentora (Apocalipse 20:10): o Senhor Jesus venceu-o e deixou-nos a promessa de também vencermo-lo na força do Seu Poder. Por isso, "somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Romanos 8:37). É isto que nos deve alegrar e preencher a nossa rotina espiritual em todos os momentos, dias, meses, estações do ano e até à consumação dos séculos. Que assim seja. 



[1] Citado por Timothy George, in Teologia dos Reformadores, p. 244, Vida-Nova/São Paulo, 2004.

Um Dia, Uma Fotografia: Bissau, Há 17 anos


Uma pose clássica. Eu, na minha eterna escola secundária, no Pavilhão do Liceu Nacional Kwame Nkrumah, em Bissau. Tinha acabado de completar no dia anterior 17 anos de idade, isto é, em 2001. 

Antídotos Contra o Preconceito

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O preconceito é um vírus malévolo a todos os níveis. Baseia-se meramente num precipitado juízo temerário. Tem, por isso, o poder de repelir qualquer tipo de interacção, bloquear eventuais oportunidades de relacionamentos que poderão surgir, odiar, e, em casos extremos, destruir vidas, tal como a experiência milenar nos tem demonstrado. O preconceito é um cancro social que, em última instância, evidencia o carácter patológico da própria pessoa preconceituosa. É uma das melhores vias para consumar o pecado, pois baseia-se meramente na soberba e desconsideração do próximo, por razões socialmente estereotipadas, desdobrando-se nas infindáveis discriminações raciais, religiosas, políticas, condições financeiras e estrato social, cultural, etc. É um mundo interminável de malignidade, razão pela qual é deveras incongruente com o decoro Cristão e bastante feio haver preconceito no meio dos eleitos de DEUS. Infelizmente, pela tristeza nossa, temos assistido inúmeros flagrantes casos de preconceitos no meio Evangélico-Protestante que, por sua vez, vai ganhando cada vez mais contornos espirituais preocupantes na santificação dos crentes e na Obra Missionária. 

O Senhor Jesus Cristo foi, por todos os seres humanos, a maior vítima do preconceito por causa do seu aspecto físico que não tinha qualquer atractivo, somando a outros factores exteriores, nomeadamente religiosos e à Sua Humilde condição de vida. Em consequência disso, foi exposto ao opróbrio dos homens e desprezado pelo povo (Isaías 53:2-3; Salmos 22:6), teimando ainda este preconceito até aos dias de hoje, isto é, a clara rejeição da Sua salvífica mensagem perante os filhos da perdição, que "ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" (Isaías 5:20).  

Ora, nenhum destes preconceitos e abominações devem fazer parte do cardápio espiritual de um devoto Cristão. Somos todos chamados a dar “o benefício da dúvida” a qualquer ser humano, ou seja, tratar todos por igual e sem qualquer tipo de discriminação. Em outras palavras, viver autenticamente o amor Cristão na sua plenitude e consequentemente amar ao nosso próximo como requem e instam as Escrituras, independentemente da sua condição humano-social. 

Tal nobre propósito, no entanto, só se torna exequível incorporando diariamente os impolutos Princípios e Valores do Evangelho. Ele, o Evangelho, tal como escrevia peremptoriamente o Apóstolo Paulo, é o poder de Deus para salvar todos os que creem (Romanos 1:16-17), bem como “é proveitosa para ministrar a verdade, para repreender o mal, para corrigir os erros e para ensinar a maneira certa de viver; a fim de que todo homem de Deus tenha capacidade e pleno preparo para realizar todas as boas acções” (2 Timóteo 3:16-17). Somente, em suma, o Evangelho do Senhor Jesus Cristo é o único antídoto eficaz para erradicarmos definitivamente o preconceito do nosso meio, visto que é coisa do Diabo. E nós, os filhos de DEUS, temos que pautar a nossa vida e conduta com os frutos dignos de arrependimento, sobretudo com as virtudes do amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança (Gálatas 5:22), visto que contra estas coisas não há lei – condenação, bem entendido. Amém. 

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(Artigo da nossa autoria. Publicado primeiramente no Boletim Oficial da Igreja Evangélica Baptista da Amadora no dia 9 de Setembro de 2018, tal como está ilustrado nas imagens supra, a propósito de sermos encarregados pelo Pastor Marcos Mendes Ferraz (LER) a dirigir o culto nesse dia, isto é, a parte do louvor/adoração e posteriormente entregarmos a mensagem. O Tema da nossa pregação foi “O Impreterível Percurso da Salvação”, baseado no texto sagrado do Evangelho segundo Lucas 9:51-62. Nos próximos dias, querendo o Todo-poderoso DEUS, disponibilizaremos o conteúdo visual da referida pregação bem como um comentário escrito). 

Carta de Um Amante Apaixonado


«"Maria" à medida que te fui conhecendo fui criando uma grande e genuína admiração por ti e percebi que és uma pessoa diferente no bom sentido. Foi algo inesperado, mas muito bem-vindo. Fazes-me acreditar realmente que ainda há pessoas pelas quais vale a pena lutar na vida. Espero que não tomes esta minha franqueza como ofensiva, compreende que eu simplesmente não podia fingir que não sentia o que sinto por ti. Independentemente de sentires ou não o mesmo por mim não me arrependo deste sentimento, pelo contrário. De facto, és uma pessoa especial e o mínimo que mereces é o máximo que alguém possa fazer por ti. Não te contentes com menos do que isso. Gostava de saber realmente o que tens a dizer sobre isto e se de facto vislumbras a possibilidade de virmos a ter algo mais sério e profundo...»

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(Esta carta chegou-me na semana passada, através de um amigo, para emitir um parecer, ou melhor, "visto prévio". E assim fiz com algumas pontuais observações que, por razões óbvias, não vou reproduzir aqui. A carta em questão já seguiu para a sua destinatária "Maria" (e já agora, por questão de confidencialidade, entendi conveniente colocar ficticiamente o nome de "Maria" para assegurar a privacidade das pessoas envolvidas).    

Uma Nova Aquisição Bíblica



Escusado seria dizer que gosto bastante dos livros e de ler em particular. Nutro uma atenção especial pela literatura e escrita (ALI) (AQUI). É uma forma peculiar a que disponho para me "libertar" e reconciliar-me comigo e com o mundo em geral, razão pela qual me tenho desdobrado em inúmeros investimentos nestas importantes áreas do saber. Amo os livros. Aprecio a leitura. Sou um fã incondicional da escrita (LER). Os livros, de diferentes géneros, integram a minha humilde biblioteca. E quando se trata ainda dos livros de Teologia, nomeadamente da Bíblia Sagrada, fico ainda mais fascinado. Por isso, tenho coleccionado algumas versões bíblicas – tanto as versões normais como as de Estudo para enriquecer ainda mais os meus conhecimentos Teológicos e consolidar a minha espiritualidade. 

Seguindo essa lógica livresca adquiri, num passado recente, a Bíblia de Estudo MacArthur para incorporar o meu leque bíblico. Temos a Palavra de DEUS em suporte de papel, digital e, sobretudo, no coração, para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós (1 Pedro 3:15)

O Ministério do Púlpito (7): Vivendo em União Com Cristo



No passado domingo estive a pregar no culto matutino da minha Igreja, a Evangélica Baptista da Amadora, subordinado ao tema "Vivendo em União Com Cristo", baseado no texto sagrado de Colossenses 3:1-16. O Apóstolo Paulo, depois de vincar nos primeiros capítulos, a proeminência do Senhor Jesus na Doutrina Cristã, com ênfase mais acentuado na Sua obra criadora e remidora, bem como a Sua suficiência em contraposição à heresia dos colossenses, já no capítulo três lança-se nas pertinentes considerações práticas daquilo que deve caracterizar a postura congruente de um devoto Cristão. Começa, assim, primeiramente, a fazer uma clara destrinça entre "as coisas lá do alto", onde Cristo vive, assentado à direita de DEUS, que encerram todas as Beatitudes Eternas, opondo-as liminarmente às degradantes "coisas que são aqui da terra"

Por isso, todos aqueles que ressuscitaram com Cristo, devem abandonar resolutamente os corruptos valores do mundo, nomeadamente a imoralidade sexual, a devassidão, as paixões desordenadas, os maus desejos, a cobiça, atitudes de ira e irritação, a malícia, a blasfémia, a linguagem obscena e a mentira etc., visto que estes aberrantes comportamentos faziam parte da sua velha natureza pecaminosa. Os crentes devem, sem qualquer tipo de hesitação, despojá-los, subjugá-los e mortificá-los nas suas rotinas diárias de vida. Morrer, em suma, para os rudimentos do mundo e viver uma nova vida com Cristo glorificado, pois já somos o povo santo de DEUS, escolhido e amado por ELE. 

Se até aqui os crentes devem libertar-se definitivamente dos pecados mencionados, nos versículos doze e subsequentes, o Apóstolo Paulo insta-lhes a adornarem-se com os frutos do Espírito Santo (Gálatas 5:22), sobretudo da misericórdia, da bondade, da humildade, da mansidão, da longanimidade, do perdão e, acima de tudo, que o amor seja o vínculo da perfeição. Por outras palavras, a conduta Cristã deve sempre ser pautada pela virtude do amor em todas as situações e circunstâncias; amor esse paciente e prestável para com o próximo. Que não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor que não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal. Um amor que jamais se alegra com uma injustiça causada a alguém, mas alegra-se sempre com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (LER)

É o mesmo amor que nos habilita a deixar a Paz de Cristo ser o arbitro dos nossos corações e actos, guiando-nos para toda a boa obra (2 Timóteo 3:16), bem como conferindo-nos concomitantemente a disponibilidade espiritual de dar sempre graças a DEUS Pai em tudo o que dizemos e fazemos, por intermédio do Senhor Jesus Cristo. Amém. 

Um Dia, Uma Fotografia


O meu querido irmão Roberto Vieira  (ALI) e (AQUI), num ambiente bastante descontraído, ontem, em Bissau. 

A PALAVRA DO SENHOR (21): Quem Tem Ouvidos Para Ouvir, Que Ouça


“Um dia, um fariseu convidou Jesus para comer em sua casa. Jesus foi e sentou-se à mesa. Então uma mulher pecadora, que havia naquela terra, ao saber que Jesus estava à mesa em casa do fariseu, foi lá com um frasco de alabastro cheio de perfume puro. Pôs-se atrás, aos pés de Jesus, a chorar. Com as lágrimas começou a molhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, beijava-os e deitava-lhes perfume. Quando o fariseu viu aquilo, disse para consigo: «Se este homem fosse um profeta devia saber que espécie de mulher é esta que lhe está a tocar nos pés, pois é uma pecadora.» 

Então Jesus dirigiu-se assim ao fariseu: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te.» E ele retorquiu: «Diz lá, Mestre.» Jesus prosseguiu: «Havia dois homens que deviam dinheiro a outro: um devia-lhe quinhentas moedas de prata, e o outro cinquenta. Nenhum dos dois tinha possibilidades de pagar a dívida, por isso ele perdoou a ambos. Qual deles ficará com mais amor ao credor?» Simão respondeu: «Julgo que será aquele a quem mais perdoou.» Jesus acrescentou: «Julgaste muito bem.» E apontando para a mulher disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés, mas ela lavou-mos com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não me recebeste com um beijo, mas ela, desde que entrou, não deixou de me beijar os pés. Não me deste óleo perfumado para a cabeça, mas ela deitou-me perfume nos pés. Digo-te que os seus muitos pecados lhe foram perdoados, porque muito amou. A quem pouco se perdoa, pouco amor mostra.» Depois disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.» Os convidados puseram-se a comentar assim: «Quem será este que até perdoa pecados?» Jesus continuou para a mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz.” 

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(O Senhor Jesus Cristo, in A Bíblia Sagrada, Evangelho segundo Lucas 7:36-50, Versão, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004). 

A Mulher e os Livros

O Valor Sagrado da Amizade


Considero-me uma pessoa extrovertida e com o espírito aberto. Tenho predisposição mental suficiente para me adaptar à generalidade de situações. Aprecio imenso as diferenças, o contraditório e a reciprocidade relacional. Apesar dessas evidentes qualidades que são inerentes ao meu substrato identitário sou, da mesma sorte, em determinadas situações, bastante circunspecto, eremita e com uma personalidade vincada e irredutível (LER). No entanto, mesmo assim, tendo em conta os impolutos Princípios e Valores Cristãos que me enformam desde a mais tenra idade, procuro diariamente libertar-me de tudo aquilo que poderá obstaculizar o meu vigoroso testemunho de vida como um fiel seguidor do Senhor Jesus Cristo. Tento cultivar na minha acção aquilo que entendo ser benéfico para com o meu próximo. 

Por isso, gosto da interculturalidade, da religiosidade, de lidar com as pessoas, de estimular novas amizades em todas as suas dimensões antropológicas. Todos estes atributos só serão exequíveis quando envolverem os terceiros, bem como a genuína amizade em última instância. Caso contrário, seria tudo uma autêntica fachada, desprovida de qualquer tipo de "humanismo social". A amizade, tal como escrevi num passado recente, é uma característica riquíssima nos seus vários sentidos etimológicos, especialmente nos tenebrosos dias que correm. É uma das nobres e maiores afeições naturais que o ser humano dispõe no seu relacionamento com o próximo. Encarná-la autenticamente é reflectir, em última instância, a natureza Divina na nossa identidade (LER)

O Padre Jacinto Bento é um amigo que consegui granjear aquando da minha grata passagem pela Terra Santa (isto demonstra claramente que os Protestantes e os Católicos podem ser perfeitamente amigos, sem prejuízo de cada um continuar a defender a sua convicção doutrinária). Foi uma pessoa extraordinária, que me marcou pela positiva, razão pela qual continuamos a dar-nos bem até aos dias de hoje (LER). É um conhecedor profundo da realidade do Médio Oriente, sobretudo de Israel e Cisjordânia. Já empreendeu dezenas viagens de peregrinação à Terra Santa, levando consigo inúmeros fiéis de várias profissões religiosas até à data presente. Em 27 de Fevereiro de 2017, o Padre Jacinto Bento foi investido Cónego Honorário do Santo Sepulcro de Jerusalém, na Concatedral, pelo Bispo Marcuzzo, Vigário Patriarcal para Jerusalém e Palestina, pelo Decreto nº 9/2017, do Administrador Apostólico, o Arcebispo Pierbattista Pizzaballa. É este Padre Jacinto que publicou este ano o livro "Terra Santa [Itinerário de uma Peregrinação", fazendo questão de oferecer-me um exemplar devidamente autografado. Muito obrigado, estimado Padre Jacinto. Que o Todo-Poderoso DEUS continue a abençoá-lo e a ajudá-lo em todos os seus desafios de vida. 

O Impacto Negativo do Mau Uso das Redes Sociais


Foi o tema objecto de debate ontem no programa da nossa "Dama di Ferro" Sali Mané Semedo. Tive o gosto de ser um dos convidados especiais, juntamente com a nossa estimada e grande activista guineense Amélia Costa Injai. O tema por si só não foi inocente, tendo em conta a indecorosa vociferação e onda de linchamento de carácter que se tem arreigado no nosso meio, ganhando cada vez mais proporções preocupantes. Na minha explanação, tal como de costume, fiz um breve enquadramento geral do imprevisível poder das redes sociais – tanto no bom como no mau sentido. Acontece que, por razões cognoscíveis, os exemplos malévolos acabam momentaneamente por sobressair mais, criando assim impactos destruidores, do que propriamente as boas acções, como a realidade prática nos tem demonstrado. 

Dito isto, salientei que esta ignobilidade das redes sociais dos guineenses não me surpreende em nada. Tão, simplesmente, espelha aquilo que é a "identidade transversal" da generalidade do nosso povo. O guineense típico não respeita as regras democráticas, não convive bem com as diferenças de opiniões e o contraditório em particular, bem como confunde equivocadamente a política com politiquices, o activismo social com a personificação, a liberdade com libertinagem (LER). Tal verdade é notória na nossa convivência social e, de forma mais vincada, no meio Político. Em suma, o debate de ideias acaba por ser reduzido e esgotado meramente a uma arena de confrontação e de ajustes de contas uns com os outros, razão pela qual não me surpreende em nada o comportamento destes badamecos das redes sociais que, presunçosamente, se armam debalde de"intelectuais" e "agentes de mudança". E mais, augurei ainda que esta onda de insultos e intimidações vai paulatinamente aumentar à medida que se aproxima o período das eleições. Temo mesmo que, em casos extremos, poderão vir a surgir prisões arbitrárias e espancamentos e outras "cabalindadi" à moda guineense com motivações político-eleitorais. 

Procurei ainda destacar que esta vergonhosa situação de insultos nas redes sociais não tem nada que ver com o critério de razão ou culpa de quem quer que seja. Ela ultrapassa este binómio minimalista. Apenas consubstancia o verdadeiro carácter daqueles que precisam de usar os hediondos artifícios de chantagens, intimidações e insultos para silenciar os opositores e fazer valer as suas convicções. São pessoas desprovidas dos princípios e valores de uma boa educação, confirmando assim o adagio crioulo-guineense – "fidju di mal falan mal". O mais triste de tudo isso é ver esses insignificantes a serem instrumentalizados por alguns caudilhos a troco de uns míseros valores pecuniários para destilarem veneno nas redes sociais. É mesmo triste. Terminei a minha intervenção, repudiando tais vergonhosos e sectários comportamentos que em nada acrescentam ao debate político. Era suposto neste momento estarmos todos a debater os programas eleitorais dos partidos políticos, o cenário governativo pós-eleitoral e o futuro do nosso País a todos os níveis (LER), com o intuito de elucidarmos uns aos outros para podermos fazer uma escolha mais acertada no escrutínio que se avizinha. Mas, infelizmente, não é isso que está a acontecer. Antes pelo contrário, está-se a discutir mais a intimidade da vida privada das pessoas, somando a aleivosas acusações e linchamento público sem fim à vista. Não me revejo nesta lamentável postura que tem como objectivo principal enxovalhar, humilhar, instaurar a divisão, o anarquismo e o caos. Por isso, não contem comigo. Estou fora. Mesmo fora à distância. 

Génesis e Etimologia da Etnia Manjaca


«O etnónimo manjaco é uma outra designação usada desde o século XVIII por Beaver para falar dos Buramos (Brames, Berames, Mancanhas) ou Pepeis. Ameal relata-nos que os interessados se chamam a si próprios Bandjaku (Nandjaku). A outra expressão é a de Má-Djaco e Indji-Djaco, composta por três partículas: Mã “eu”, “nós”, Dja “dizer” (de Pe-Djá) e Ko (Có) “partícula afirmativa”. Assim, os grupos que ocupavam as regiões de Cacheu, Churo, Bianga, Jol, Pantufã e a ilha de Bissau conservam o etnónimo Papel; os de Bula e Cô tornam-se Brame ou Mancanha  e os habitantes da parte central do território, as ilhas de Pecixe e Jeta  (Ilheta) são chamados Manjacos. Bocandé faz referência em 1849 aos “Pepeis da Costa Baixa ou Bassarel e Manjacos” cuja região seria dividida em Bassarel e Baboc. Carreira cita uma passagem do estudo de Bocandé (1849) falando dos Manjacos como pessoas que “(…) se colocam ao serviço de todas as nações que fazem comércio na costa ocidental da África. Eles servem como marinheiros em todas as embarcações. Primeiro empregados pelos portugueses, eles aprendem a sua língua, o que os faz serem considerados portugueses nas colónias francesas e inglesas. São chamados de Manjacos porque, ao conversar na língua da sua região, repetem muitas vezes a palavra “Manjagó” que significa: “Diga” ou “Eu digo”. 

J. Ameal defende que os Manjacos são o resultado de uma mestiçagem entre os Pepeis e Brames, ou mesmo com os Floup e Biafadas. Como em muitos outros casos, a utilização deste etnónimo generalizou-se na Guiné Portuguesa. Carlos Lopes vê nesta divisão dos Brames “…um dos melhores exemplos da utilização da etnicidade pelo colonislismo que conseguiu classificar estas populações sob diferentes etnónimos emprestando-lhes particularidades artificiais que eles acabaram por aceitar como factos.» 


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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 55 e 56). 

O Reino de DEUS Poderá Ser Tomado de Assalto?


“Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de violência se apoderam dele” (Palavras do Senhor Jesus, in Mateus 11:12 [LER]). 

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Nos últimos cinco anos tenho demorado imenso a matutar sobre o alcance teleológico e teológico-prático desta misteriosa afirmação do Senhor Jesus. A minha dúvida prendia-se, mais, especialmente, com o seguinte questionamento: Será que o Reino de DEUS pode mesmo ser tomado de assalto, tal como fez transparecer o Senhor Jesus nessa Sua peremptória afirmação? E de que maneira? São estas pertinentes questões que me levaram a vasculhar vários comentários bíblicos e a falar com alguns Pastores para tentar reconciliar-me definitivamente com esta passagem bíblica, sem prejuízo obviamente daquilo que sempre foi o meu convicto entendimento inicial sobre ela. 

Confesso que, por razões várias, os inúmeros comentários que li, até então, não me convenceram. Pareceram-me todas abstratas e colaterais do real cerne da questão. Por outras palavras, ficaram todas aquém. A Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, com afinidades mais com a doutrina Pentecostal, por exemplo, considera que existem três interpretações comuns para essa afirmação de Jesus e passa a enumerá-las: "(1) Ele pode referir-se ao esforço das pessoas para se aproximar de Deus, que havia começado com a pregação de João Baptista. (2) Pode ter usado a expectativa dos activistas judeus que de que o Reino de Deus chegaria por meio de uma violenta derrota de Roma (que representa o mundo). (3) Pode estar dizendo que, para entrar no Reino de Deus, é necessário ter coragem, fé inabalável, determinação e resignação, porque a crescente oposição se manifesta a todos os seguidores de Jesus". Diferentemente dessas interpretações, a Bíblia de Estudo de Genebra, da ala tradicional e conservadora do Protestantismo, comentando o mesmo trecho bíblico, considera que "o Reino está avançado poderosamente, embora homens violentos como Herodes, que havia aprisionado João Baptista, tentassem sobrepujá-lo pela força. Não são, porém, os fortes e poderosos que alcançam o reino, mas os fracos e humildes (vs. 28:30), que conhecem suas próprias fraquezas e estão dispostos a depender de Deus (cf. Lc 16:16, nota)"

Da minha parte, somente estes dias – por tanto meditar na problemática que o versículo em apreço encerra – acabei por encontrar a “válvula de escape” e, assim, sedimentar ainda mais a minha reiterada posição inicial. Por isso, nos próximos dias, querendo o Todo-poderoso DEUS, reduzirei a escrito um prolixo artigo para dar a conhecer a minha humilde opinião sobre esta importante afirmação do Senhor Jesus, bem como contra-argumentar outras posições assumidas em torno dela. Até lá, de forma sequencial e sistemática, vou partilhando as várias versões bíblicas sobre este complexo versículo bíblico. 

A Mulher e os Livros

A Organização Socio-Política da Etnia Bijagó


«A organização política dos Bijagós é baseada numa estrutura que conta com quatro clãs: Ominga ou Etchongara, Ogubane ou Ondjôcomo, Orraga, Djagra e Orrakuma ou Batabis. Estes clãs têm todos igual importância. A única nuance reside no facto de descenderem da linhagem dos dona de chão, aqueles que a tradição considera como os primeiros habitantes da ilha. A direção de cada clã cabe a uma mulher, a Oquinka, que exerce ao mesmo tempo as funções de sacerdotisa, como já foi mencionado. A instituição real é muito recente entre os Bijagós e determina-se segundo a linhagem que, ela própria, se determina por via uterina. Por outras palavras, ela é “matriclã” em exclusão do parentesco paternal. A escolha e a entronização dos Reis é da competência do “Conselho dos Anciãos” dos quais ele é o principal auxiliar. Devido ao direito consuetudinário bijagó, aconteceu várias vezes que, após a morte do rei, não tivesse sido possível encontrar um sucessor. Nestes casos é a Oquinka que toma o poder. Foi desta forma que apareceram as “rainhas” D. Aurélia Correia, Pampa de Orango e D. Juliana. Estas personalidades eram apenas rainhas provisórias porque o direito consuetudinário bijagó não permite às mulheres ocupar o trono real. 

Esta organização político-administrativa bijagó permaneceu por muito tempo não reconhecida pelas autoridades coloniais portuguesas que continuavam a apresentar, nos documentos oficiais, os reis de Canhabaque e de Orango como simples chefes de aldeias. Este reconhecimento ocorre mais tarde, mas as autoridades administrativas nomeiam por seu lado “chefes administrativos”. Estes chefes fazem figura de fantoches e tornam-se muitas vezes os porta-vozes dos chefes legítimos. Além, do mais, o poder colonial tinha dificuldades em encontrar Bijagós dispostos a desempenhar essas funções». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 51). 

Um Dia, Uma Fotografia


Eu e o meu queridíssimo sobrinho Reginaldo Sá Vieira na histórica cidade de Múnster, Alemanha, num dos emblemáticos lugares onde foi assinado o afamado "Tratado de Vestefália", que pôs termo à ferrenha guerra dos trinta anos na Europa. Tive a grata oportunidade de explicar cuidadosamente ao meu sobrinho as implicações políticas que isto teve na coesão, pacificação e afirmação do Velho Continente nos anos subsequentes. 

Os Equívocos Teológico-doutrinários sobre a Ceia do Senhor I


A Ceia do Senhor, à semelhança do Baptismo, faz parte do sacramento deixado pelo Senhor Jesus Cristo antes da Sua gloriosa assunção. É um ritual que nos remete indubitavelmente ao sacrifício expiatório do Messias, em favor dos eleitos de DEUS, e aponta-nos futuramente para o grande banquete celestial das "bodas do Cordeiro" (Apocalipse 19:9). Foi expressamente narrada nos Evangelhos e também na 1 Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios 11:23-32, confirmando assim o carácter importante que reveste na história e vida da Igreja. A Ceia do Senhor, de forma subsumida e abreviada, segundo a profissão da Fé Baptista Portuguesa, “é um acto de obediência pelo qual os membros da Igreja participam do pão e do vinho, comemorando juntos a morte de Jesus Cristo e apontando para a sua segunda vinda. Esta ordenança da igreja local representa também a nossa comunhão espiritual com Ele, a nossa participação na sua morte e o testemunho vivo da nossa esperança”. 

Não há, no entanto, patente divergência no meio Cristão sobre o seu sentido teleológico e teológico. A querela doutrinária prende-se, mais, sobretudo, com a sua datação, os elementos contidos nela e como se deve ajustar ao dinamismo da Igreja, razão pela qual procuraremos humildemente tentar descortinar estas seculares divergências e equívocos teológico-doutrinários. Apesar disso, não tencionámos abordar a aparente contradição na datação seguida pelos Evangelhos sinópticos e o Evangelista João, sem prejuízo obviamente da pertinência que o debate em apreço comporta. A primeira narrativa reduzida a escrito sobre a Ceia do Senhor foi a do Apóstolo Paulo que, nas sugestivas palavras de alguns reputados biblistas, terá sido posteriormente seguida pelo evangelista Lucas, diferentemente da narrativa de Marcos, que Mateus seguiu. As quatro narrativas não diferem umas das outras no seu substrato teológico. Apenas evidenciam algumas diferenças pontuais que, a nosso ver, têm mais a ver com o estilo literário dos referidos autores. Por isso, não tencionámos destacar os dois modelos descritivos sobre a Ceia do Senhor, visto que ambos convergem manifestamente no seu núcleo e alcance soteriológico. 

O Apóstolo Paulo, o primeiro autor sagrado a escrever sobre esta importante temática eclesiástica, que Lucas seguiu, insistimos, dizia expressamente: “porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha (1 Coríntios 11:23-26). O Evangelista Mateus, por sua vez, seguindo na mesma esteira do pensamento de Marcos sobre esta nobre ordenança, escrevia nestes termos: “e, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai. E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mateus 26:26-30). Os intérpretes bíblicos, ao longo da História, têm questionado de que forma o Apóstolo Paulo terá “recebido” do Senhor a narrativa sobre a última Ceia. Alguns admitem a possibilidade de ter sido através de revelação directa (2 Coríntios 12:1-4; Gálatas 1:12). Outros, com um entendimento diferente, sustentam que Paulo recebeu as palavras da Ceia no seio da comunidade primitiva, oriunda dos discípulos. Tendemos mais para este último entendimento. É o que nos parece mais plausível. Apesar de argumentos e contra-argumentos que se poderão invocar sobre as duas leituras, a verdade é que o Apóstolo Paulo "recebeu" do Senhor e fidedignamente "entregou" a Igreja às sagradas instruções, sem adulterá-las. Já quanto às fontes do Evangelista Marcos não se levantam grandes questões. Os estudiosos não têm margem de dúvida que foi através do Apóstolo Pedro. Papias, Bispo de Hierápolis e mártir da Igreja no segundo século, refere-se a Marcos como o "interprete de Pedro"

Depois desta breve consideração, importa enumerar as três clássicas posições doutrinárias predominantes sobre o sentido dos elementos pão e vinho na Ceia do Senhor. Desde logo, a tese da "Transubstanciação". Ela foi abraçada, desde muito cedo, pela Igreja Católica Romana. Preconiza que o pão e o vinho tornam-se realmente o corpo e o sangue de Cristo – a eucaristia. Tal acontece quando o sacerdote diz: “isto é o meu corpo” durante a celebração da missa. Quando o sacerdote diz isso, escreve Wayne Grudem na sua Teologia Sistemática, “o pão é levantado (elevado) e adorado. Esse acto de elevar o pão e de pronunciá-lo corpo de Cristo só pode ser feito por um sacerdote”. Quando isso acontece, segundo a doutrina católica, concede-se graça aos presentes ex opere operato, isto é, “realizada a obra”, mas a quantidade de graça dispensada ocorre em proporção à disposição subjectiva de quem recebe a graça. Além disso, toda vez que se celebra a missa, o sacrifício de Cristo é repetido (em algum sentido), e a igreja católica é cautelosa em afirmar que se trata de um sacrifício real, embora não corresponda ao sacrifício que Cristo fez na cruz”. O Reformador Martinho Lutero demarca-se deste dogma do Vaticano, formulando a tese da “Consubstanciação”, isto é, que o pão e o vinho não se transformam, de facto, no corpo e sangue do Senhor Jesus, mas ganham o seu cunho. Em outras palavras, o corpo do Senhor Jesus está presente através das preposições “em”, “com” e “sob” o pão e o vinho da Ceia do Senhor. Acontece que, por razões de divergências doutrinárias, a generalidade dos teólogos Evangélico-protestantes discordam liminarmente de Lutero e da Igreja Católica, formulando um entendimento diferente que consiste na doutrina da “Substanciação”, ou seja, que os elementos contidos na Ceia do Senhor não passam meramente da presença simbólica e espiritual do Senhor Jesus. Este é o entendimento que ganha mais relevo e acolhimento favorável no mundo Evangélico-protestante. 

A nosso ver a doutrina da "Transubstanciação" defendida pela Igreja Católica Romana não tem qualquer tipo de suporte bíblico, uma vez que se limita apenas a fazer uma interpretação literal das palavras do Senhor Jesus sobre os elementos da Ceia. Uma interpretação, segundo as regras da hermenêutica, não deve cingir-se unicamente à letra. Deve procurar através da letra o espírito do autor, "pois a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6).  Quando o Senhor Jesus afirma: "isto é o meu corpo e sangue"  estava apenas a usar de uma análise analógica, tal como tem feito ao longo de todo o Seu ministério terreno, nomeadamente nas afirmações "eu sou o pão da vida" (João 6:48-59), "eu sou a porta" (João 10:9), "eu sou o bom pastor" (João 10:11-16), "eu sou a luz do mundo" (João 12:8), "eu sou o bom pastor", "eu sou o caminho, e a verdade e a vida" (João 14:6), respectivamente. É nesta lógica que as palavras "isto é o meu corpo e sangue" devem ser enquadradas, extraindo depois as verdades salvíficas que elas encerram. E mais, há ainda uma tamanha incongruência da Igreja Católica de não servir o vinho aos seus fiéis, limitando-o apenas aos sacerdotes, entrando assim em flagrante contradição com o sentido da sagrada ordenança, que é para todos e de todos os fiéis. 

Quanto à tese da "Consubstanciação" também fica bastante aquém. O argumento esgrimido que o pão e o vinho não se transformam no corpo e sangue do Senhor Jesus, mas ganham o Seu cunho é um raciocínio falaz. Desde logo, sabemos que DEUS é Omnipresente e "toda a terra está cheia da sua glória” (Isaías 6:3). Porque, tal como dizia o Senhor Jesus, "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mateus 18:20), confirmando assim a presença constante do Senhor Jesus nas nossas vidas, bem como em todo o Universo. Logo, podemos concluir que todas as coisas de alguma certa forma ganham "cunho" da presença do Senhor Jesus, sem cairmos no erro de julgar que os elementos da Ceia acompanham o corpo do Filho de DEUS. E, por fim, a tese da "Substanciação". Parece-nos, em abono da verdade, ser a que se coaduna melhor com a afirmação do Senhor Jesus. O pão e o vinho não passam exclusivamente de meros elementos. Não mais que substâncias que foram usadas pelo Senhor Jesus para transmitir a grande verdade soteriológica sobre a Santa Ceia, razão pela qual subscrevemos integralmente esta tese: há apenas a presença simbólica e espiritual do Senhor Jesus na Ceia. Os elementos pão e vinho não sofrem nenhuma metamorfose. Apenas servem como ilustração daquilo que o Senhor Jesus fez por nós. Julgamos que, sem qualquer tipo de hesitação prévia, é assim que os discípulos interpretaram as analógicas palavras do Senhor Jesus sobre o pão e o vinho. 

Génesis e Etimologia do Etnónimo Bijagó


«Os Bijagós habitam no arquipélago com o mesmo nome, cuja denominação mais antiga é a das ilhas de Buam, assinalado na cartografia antiga a partir do século XV. Na sua língua, eles chamam-se Bidjigó (Odjógó, Odjokó), o que designa uma pessoa que possui duas dezenas de dedos, ou seja, uma pessoa inteira. De acordo com Carreira, o etnónimo Bidjógô, Budjógô em crioulo, seria derivado do termo Odjógô. Luís Álvares de Almada fala de Bigichos, termo que Dinis Dias retoma em Budjago ou Bidjágo e que ele afilia ao nome atual desta população. 

A origem dos Bijagós ainda hoje é muito controversa. Confrontam-se duas versões: uma mais antiga, apoia uma origem a partir do continente, de onde eles teriam sido expulsos pelos Biafadas (Francisco de Lemos Coelho [1943] e Domingos António Gomes) enquanto a outra versão vê neles os parentes próximos dos Biafadas ou dos Nalus (João Faria Leitão). Segundo o etnólogo Marcelino Marques de Barros, os Bijagós são o resultado da mestiçagem entre três grupos: 1) os Papeis de Bissau, instalados na ilha de Entoman ou Entomak (a “ilha dos suicídios”); 2) os escravos de origem diversa e 3) os Biafadas de Guínala. António Carreira parte da hipótese de uma origem do Fouta Djalon, de onde os Bijagós teriam fugido por razões políticas. Existem várias hipóteses, difíceis de verificar, em relação ao povoamento do conjunto do arquipélago. Adolf Ramos afirma que a população do Orango Grande é aparentada com a dos Pepeis de Bandim (um território de Bissau). A população das ilhas da Formosa e de Uno teria vindo do Orango Grande; a das Ilhas Eguba e Uracane de Uno e Orango; as ilhas de Ponta e de Maio seriam povoadas por povos da ilhas de Carache e Caravela, enviados pelos seus chefes (Carreira); os originários da ilha de Canhabaque são supostos serem parentes dos Tandas, que os fulas e os Biafadas teriam repelido para esta ilha. Tudo isto ilustra a extrema dificuldade em determinar a verdadeira origem dos Bijagós que, aliás, se consideram a eles próprios como Xangani (raça mista). 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 50).