Caricatura Francesa


Consolidei há muito tempo o meu palpite determinista sobre a crescente e sistemática barafunda que se vive em França, depois de me ter dado conta que os franceses não se emendam, por causa do seu exacerbado complexo de superioridade, não obstante serem uma grande nação. E a nível de invenções humanas então são praticamente imbatíveis. Eles, desde os primórdios, sempre tiveram a genialidade de inventar tudo o que lhes aprouvesse, diferentemente dos outros povos. Conta-se, parafraseando o "Jansenista", que foram os franceses que inventaram a "burguesia" e a "ideologia"; inventaram a "esquerda" e a "direita"; inventaram a traição de Dreyfus e o "soixante-huitard"; inventaram o "mercantilismo" e as "porcelanas de Limoges"; inventaram o "jardim à francesa" e o "bouillon"; inventaram a "chinoiserie" e metade dos "queijos do mundo"; inventaram a "nacionalidade" e a "república"; inventaram a "liberdade" e o "princípio da igualdade"; inventaram a "politiquice" e os "limites dos mandatos"; inventaram a "arte" e o "impressionismo"; inventaram o "relativismo" e o "ateísmo"; inventaram "o conceito do amor" e o "romantismo"; inventaram o "progressismo" e o "feminismo"; inventaram o "género" e a "emancipação feminina";  inventaram a "auto-determinação sexual" e a "homossexualidade"; diz-se ainda que inventaram "ménage à trois" e outras aberrações sexuais, que os dissolutos tanto se orgulham. Não surpreende que pareçam hoje reféns de todas essas "invenções", interagindo assim com o resto do mundo. 

Por isso, nestas eleições (LER), apropriando-me ainda das sábias palavras do "Jansenista", «que estejam a inventar algo de novo, uma desconcertante baralhação de categorias que lhes devolve a oportunidade de irem na vanguarda, deixando o resto do mundo com a caduca herança daquilo que para os franceses já não serve. Ils se payent nos têtes, em suma. É assim desde o século XVII.».

O Novo Sultão Otomano


O turbilhão que se vive na Turquia nos últimos anos deve-se, acima de tudo, ao diferendo a nível da concepção do poder político e o modelo organizacional de Estado entre os apologistas do laicismo, o islamismo, o secularismo e o populismo que alguns apelidam de autoritarismo governativo do presidente Recep Tayyip Erdogan. Todos eles se provaram manifestamente incompatíveis e irreconciliáveis, pelo menos, por enquanto. E quem sai a ganhar com toda esta demanda é o Erdogan. Vai paulatinamente consolidar cada vez mais as suas atribuições constitucionais e, deste modo, absolutizando no poder. O exemplo manifesto disso é o resultado do recente referendo no país  (LER)(ALI) (AQUI)Um caminho perigoso para a Democracia. Bastante perigosíssimo. 

A Narcisista do Segundo Sexo IV


«Adorável, acho-me adorável» 

(Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 472). 

A Narcisista do Segundo Sexo III


«Estou diante do meu espelho. Gostaria de ser mais bela. Debato-me com a minha crina de leoa. Faíscas desprendem-se do meu pente. A minha cabeça é um sol no meio dos meus cabelos erguidos como raios de ouro.» 

(Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 472). 

A Narcisista do Segundo Sexo II


«Que sou eu? Nada. Que gostaria de ser? Tudo? (…) Sou a minha heroína (…) É pena, entretanto, que ninguém me veja os braços e o torso, todo esse frescor e toda essa juventude.» 

(Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 470). 

A Narcisista do Segundo Sexo I


«Ao voltar, dispo-me, ponho-me nua e fico impressionada com a beleza do meu corpo, como se nunca tivesse visto. É preciso fazer a minha estátua, mas como? Sem me casar é quase impossível. E é absolutamente necessário, só poderei ficar feia, estragar-me… Preciso de arranjar um marido, ainda que seja apenas para mandar fazer a minha estátua…» 

(Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 472). 

Considerações Pascais: A Teologia da Salvação


Depois de nos termos lançado numa exaustiva análise sobre a importância do Senhor Jesus tomar a decisão de ir a Jerusalém e toda a via-sacra que isto acarretou até à Sua cruenta morte e ressurreição, sentimo-nos agora compelidos a fazer um enquadramento histórico-teológico do Processo da Salvação contido nas Escrituras Sagradas. Desde logo, quando falamos da Páscoa falamos do livramento do mundo decaído; do doloroso sacrifício expiatório de Jesus Cristo na Cruz do Calvário em favor dos pecadores; da libertação da Raça Humana transviada, que vivia sob o jugo do Diabo. 

No início da criação o Homem deliberadamente rebelou-se contra DEUS e, em consequência disso, foi destituído da glória da sua criação, perdendo significativamente a maioria dos direitos e privilégios que lhe foram outorgados no jardim do Éden, levando consigo a sentença de morte, devido ao seu acto prevaricador (Génesis 2:16-19). Apesar desta situação extremamente irregular e bastante complexa no percurso do Homem, DEUS jamais desistiu dele. Foi o Todo-poderoso que, no Seu incondicional e infinito Amor, tomou a iniciativa de comunicar com ele depois da sua queda, bem como proporcionar-lhe as túnicas de peles para vesti-lo, com vista a ocultar a sua nudez do pecado (Génesis 3:9-24). O sacrifício de alguns animais fora preciso para tal providência Divina, como ficou implicitamente em Génesis 3:21. Para alguns exegetas isto significava a providência por meio do Messias, em face da Sua obra Redentora na Cruz do Calvário. Dito por outras palavras, DEUS na Sua Omnisciência e mediante o Senhor Jesus Cristo, anularia definitivamente o poder de Satanás sobre o Homem, ferindo-lhe na cabeça e este, por sua vez, lhe ferirá no calcanhar (Génesis 3:15). Ficou assim manifesto a inimizade entre a semente da mulher e a da serpente, o Diabo, tudo apontando para a morte e ressurreição do Filho de DEUS. 

Com o plano da salvação delineado e traçado, antes da fundação do mundo, DEUS ainda fez questão de compartilhá-lo com a Humanidade através do Seu povo eleito, a nação israelita, da qual descenderia o Messias Prometido. A começar com o Patriarca Abraão que vislumbrou a concretização do referido plano. Viu-o, diz o autor sagrado, e alegrou-se (João 8:56). E a mesma revelação com o rei David, no sentido da promessa: "eu lhe serei por pai, e ele me será por filho… Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti: o teu trono será para sempre" (2Samuel 7:14; 16). Tanto a promessa abraâmica (Génesis 12:1-3) e a davídica têm como pano de fundo central o Senhor Jesus Cristo e a Sua obra Redentor na Cruz do Calvário em prol da Humanidade. 

Desde o Livro de Génesis até Malaquias DEUS conduziu o Seu povo de múltiplas formas, com o intuito de moldá-lo à realidade espiritual. Permitiu-lhe passar por tremendas provações e adversidades, isto é, foi escravizado no Egipto por 400 anos (Génesis 15:13; 46:1-34), invadido pelos Assírios (2 Reis17:1-6; 18-9-15) e, posteriormente, conquistado pelos babilónios (2 Reis 24:8-17; 2 Crónicas 36:9-10; 2 Reis 25:1-21; Crónicas 36:11-21). Mesmo assim, o Eterno Jeová jamais desamparou o Seu eleito povo, sempre esteve presente com ele para lhe dar a lição e orientação na conduta exemplar que deveria seguir, que é a de voltar à origem da verdadeira adoração. Apesar da difícil experiência de atravessar "o vale da sombra da morte", que o povo teve mesmo que enfrentar, o SENHOR libertou-o definitivamente de toda esta ignomínia e tremendos desafios, fazendo-o triunfar em tudo perante os seus temíveis inimigos. Ora, é este o grande cerne da mensagem da Páscoa: a libertação da Humanidade decaída, que outrora vivia da opressão e da escravidão do pecado, obtendo deste modo a Misericórdia, o Perdão, a Paz e a Reconciliação com DEUS por intermédio do sacrifício de Jesus Cristo. 

Tal como aconteceu à nação israelita no cativeiro do Egipto e na Babilónia, vivendo subjugada pela opressão dos seus inimigos, assim também aconteceu com cada um de nós. Estávamos todos perdidos e mortos nos nossos delitos e pecados, alheios à vontade de DEUS nas nossas vidas (Efésios 2:2-3). Por isso, o Filho do Homem veio ao mundo tomando a forma do servo e cumprindo cabalmente a Missão do Pai (Filipenses 2:5; João 17:4). Viveu como um simples homem, transmitindo todos os desígnios de DEUS, durante o Seu impoluto percurso de vida aqui na Terra. Foi crucificado de forma bárbara e injusta e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, deixando-nos a sublime promessa da vida eterna a todos quantos O recebem como SENHOR e Salvador em suas vidas (João 1:12; João 3:16). 

A Páscoa, em suma, traduz o incondicional Amor de DEUS para com o mundo perdido e a inauguração de uma Nova Era do relacionamento pacífico de reconciliação entre DEUS e os humanos; a vitória do Senhor Jesus sobre a morte. E como sustenta peremptoriamente o Apóstolo Paulo, "mas de facto Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem" (1 Coríntios 15:20-21). Seguindo a mesma esteira do pensamento, o conceituado Teólogo e Reformador da Igreja, Ulrich Zuínglio, regista que "Cristo é o único caminho para a salvação de todos os que existiram, existem ou existirão" (Timothy George, em Teologia dos Reformadores, p. 125, Vida Nova, São Paulo, SP, 2004). O único pré-requisito indispensável para usufruir dessa maravilhosa dádiva da salvação é, simplesmente, confiar inteiramente a Jesus Cristo os vossos corações, pedindo-Lhe perdão e orientação para as vossas almas. Amém! 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário V


Passaremos agora a analisar sucintamente as restantes aleivosias e vexames cometidos contra o Filho do Homem na Sua determinada trajectória para a Cruz do Calvário. Desde logo, a II. A Injustiça. O Senhor Jesus Cristo ao ser traído, por tudo e todos ao Seu redor, abriu portas para ser concomitantemente objecto de inauditas arbitrariedades por parte "dos homens que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18), que "ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" (Isaías 5:20). O processo acusatório que incidia sobre Ele, de início ao fim, estava completamente viciado. A forma como foi preso e sentenciado é o exemplo manifesto disso. Não havia nenhum crime que o Filho do Homem praticasse, que justificasse a condenação à morte  (Isaías 53:9; 2 Coríntios 5:21), tal como o próprio Pôncio Pilatos reconheceu depois de interrogá-Lo  (João 18:34-35). No entanto, tudo isto aconteceu porque odiaram-Lhe sem causa (Salmo 35:19 ; 69:4 ; João 15:25). O Príncipe da Paz (Isaías 9:6) não representava qualquer tipo de ameaça contra as autoridades vigentes, isto é, de querer usurpar os seus postos governativos ou fazê-los algum tipo de mal. Mesmo assim o Sinédrio, em conluio com a turba ululante e com a aquiescência do sanguinário governador romano  (Lucas 13:1), declarou Jesus culpado de blasfémia contra DEUS e consequentemente condenou-O à pena capital  (Mateus 26:65-66; Marcos 14:63-64), contra todas as evidências legais. Aquele que nunca conheceu o pecado  (2 Coríntios 5:21), o Amado Filho de DEUS (Marcos 1:11), foi reduzido a um malfeitor. E assim, a mentira triunfou momentaneamente sobre a Verdade. O mal silenciando o Bem. O ódio ofuscando o Amor. Somente por três dias... 

III. A Humilhação. Quando a injustiça reina nos corações das pessoas elas passam a ser extremamente insensíveis, susceptíveis de praticar as piores barbáries que excedem a lógica do bom senso e da razoabilidade. Foi o que aconteceu no caso particular do Senhor Jesus. Desde o Seu despótico julgamento, ferido de tremenda ilegalidade, até à Sua crucificação na Cruz do Calvário, foi exposto ao opróbrio dos homens, tendo sido injuriado, cuspido no rosto, levado punhadas, enquanto outros o esbofeteavam lançando sorte sobre as suas vestimentas  (Mateus 26:67-68), inclusive um dos criminosos a troçar Dele  (Lucas 23:39). O autor sagrado regista que "os soldados entrelaçaram uma coroa de espinhos que puseram na cabeça de Jesus. Depois colocaram-lhe aos ombros um manto vermelho. Aproximavam-se e faziam pouco dele: «Viva o rei dos judeus!» E davam-lhe bofetadas" (João 19.1-3). Uma passagem bíblica, que coaduna com a profecia sobre a condição terrena do Servo Sofredor  (Isaías 53:1-12). Este sofrimento e tremenda humilhação, a que foi sujeito para nos livrar da condenação eterna, encerra toda a Verdade central do Evangelho – a salvação da Humanidade pecadora. Se o primeiro homem, por causa da soberba, almejou chegar à natureza Divina (Génesis 3:1-7), desobedecendo às ordens expressas de DEUS, o Senhor Jesus, de forma inversa, abdicou da Sua natureza Divina e tomou a forma de escravo, "tornando-se igual aos homens. E, vivendo como homem, humilhou-se a si mesmo, obedecendo até à morte, e morte na cruz" (Filipenses 2:5-8). Viveu como escravo e acabou como um criminoso, encarando tudo isto com total naturalidade e obediência, com vista a honrar a vontade soberana de DEUS na Sua Vida. Aquele que é o obreiro de todas as coisas, o Alfa e o Omega (Colossenses 1:13-18), o Verbo de DEUS (João 1:10; 14), a Humildade em Pessoa  (Mateus 11:28), agora foi reduzido a um grau de insignificância como se de um marginal tratasse, por causa do Seu infinito e incondicional amor para com os pecadores, que mesmo assim amou até ao fim (João 13:1). Um autêntico paradoxo e "loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus" (1 Coríntios 1:18). Por isso, "Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Filipenses 2:9-11). 

IV. A Morte. Chegado ao ponto fulcral da Sua missão salvífica, que é o inevitável sacrifício expiatório que Lhe esperava dentro de algumas horas, o Senhor Jesus manteve-se sereno até ao fim. Não cedeu às provocações e tentações que estava a ser objecto na Cruz  (Marcos 15:29-32). Foi vexado e humilhado, escrevia o profeta Isaías, "mas a sua boca não se abriu para protestar; como um cordeiro que é levado ao matadouro ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador, a sua boca não se abriu para protestar. Levaram-no à força e sem resistência nem defesa (Isaías 53:7-8). Relutou firmemente, tal como aquando da Sua tentação no deserto  (Mateus 4:1-11). Não Se distraiu uma única vez do Seu verdadeiro intento. Teve ainda a amabilidade de pedir ao Pai para perdoar aqueles que estavam a trespassar-Lhe  (Lucas 23:34), sendo deste modo coerente com a mensagem do perdão que sempre pregou, sobretudo a de não pagar o mal com o mal e amar os inimigos, independentemente das circunstâncias favoráveis ou adversas a que se possa estar circunscrito  (Mateus 5:41-44). É nesta postura congruente de amor incondicional, que clamou com grande brado, dizendo: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou" (Lucas 23:46). Com a morte do Senhor Jesus estava tudo consumado. Definitivamente consumado (João 19:30). Em consequência disso, "o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo" (Mateus 27:51-52; Lucas 23:45). A barreira de inimizade que separava o Eterno DEUS dos seres humanos foi agora dissipada, fazendo com que se iniciasse uma nova era de Paz e Reconciliação entre ambos, mediante o sangue do Senhor Jesus (Romanos 5:1-2; 2 Coríntios 5:17-19). 

Por conseguinte, não se pode falar de todos estes vexames que evidenciámos e a série de outros que não foram enumerados aqui sem falar da ressurreição do Messias. Depois de três dias retido na tumba Ele ressuscitou com a Força e o Poder de DEUS  (Mateus 28:1-10; Marcos 16:1-8; Lucas 24:1-12; João 20:1-10), apresentando-se com provas irrefutáveis  (1 Coríntios 15:5-8). Sem a ressurreição do Senhor Jesus Cristo, tal como expressamente sustenta o Apóstolo Paulo, é vã a nossa fé  (1 Coríntios 15: 12-18)A fé Cristã está alicerçada na morte e ressurreição gloriosa do Senhor Jesus, pois Ele ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem (1 Coríntios 15:20). A humilhante e difícil "Via Dolorosa para o Calvário" que teve que enfrentar passou agora a ser o caminho aconchegado e ideal do Perdão, do Amor, da Paz, da Reconciliação, da Esperança e da Vida Eterna em Cristo Jesus nosso Senhor e Salvador. Louvado seja DEUS agora e para todo o sempre! Que assim seja! 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário IV


Nos artigos precedentes centralizamos apenas a nossa abordagem na suma importância do Senhor Jesus ir a Jerusalém, bem como traçar a similitude dessa discernida decisão com a do patriarca Abraão na Teologia da Salvação. Agora, para uma melhor compreensão dos leitores, procuraremos abordar as implicações práticas da curta e complicadíssima estadia do Messias na Cidade Santa durante a Semana da Paixão, mormente pela forma como sofreu tamanha oposição dos pecadores (Hebreus 12:2-3), que culminou com a Sua horrenda morte na cruz do Calvário. O Senhor Jesus, ao tomar o livre-arbítrio de ir a Jerusalém, estava a perfilhar inteiramente com a Sua missão redentora em favor da Humanidade. E esta impreterível decisão envolveria, em última instância, a traição, a injustiça, a humilhação, a morte e a sua ressurreição. Analisaremos infra, de forma sumária e sistemática, cada uma dessas aleivosias para com o Filho de DEUS. 

(I) A Traição. Começou, desde logo, com a multidão que rodeou o Senhor Jesus na Sua entrada apoteótica no "Domingo de Ramos" na Cidade Santa, pedindo posteriormente a Pilatos para crucificá-Lo (Marcos 15:8-15). Uma tamanha incongruência comportamental sem precedentes. Embora não seja clarividente, nas Escrituras Sagradas, se é a mesma multidão, todavia há um entendimento praticamente generalizado no seio dos biblistas no sentido que não é a mesma multidão que se revoltou contra Ele, sob o argumento que a turba que entrou com Jesus não era da cidade de Jerusalém, porque vinha das urbes circunvizinhas para onde Ele passou e seguiram-No até Jerusalém, tendo depois regressado às suas origens. O agora emérito Papa Bento XVI, por todos, defende esta posição no seu segundo volume de Jesus de Nazaré. 

Não comungamos deste entendimento preconizado pelos reputados teólogos. Temos uma leitura completamente diferente. É verdade que a multidão que entrou com o Senhor Jesus em Jerusalém era forasteira, contudo acreditamos piamente que foi a mesma que dias antes O clamava devotamente: "hosana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!" (Mateus 21:9-10)  e, posteriormente, mudaram de opinião pedindo a Sua injusta crucificação. Não fazia qualquer sentido a caravana que entrou com Jesus na Cidade Santa, percorrendo inúmeros quilómetros (alguns seguiram-No desde Jericó) para estar apenas um ou poucos dias em Jerusalém e logo a seguir regressar imediatamente às suas terras, sem ficar para celebrar a grande festa da páscoa judaica. Aliás, a maioria das pessoas estava precisamente ali por causa da referida efeméride, que decorria naquela mesma altura do calendário. E não estamos a falar de uma mera celebração. É das mais importantes festas judaicas, que atraía numerosos peregrinos a Jerusalém, tal como acontecera em algumas ocasiões com o Senhor Jesus e a Sua família – que tiveram de deslocar-se de Nazaré para ir assistir à aludida festividade (Lucas 2:41-52). Esperava-se, por parte desta multidão, o ardente desejo de aproveitar a oportunidade aí presente para comemorar a páscoa, como é commumente prática, hospedando-se em alguma parte da cidade. 

Acresce ainda o facto que, ao longo dos três anos volvidos no ministério evangelístico, o Senhor Jesus granjeou uma enorme simpatia e fama incontornável perante o povo – tanto na região da Judeia, Samaria e da Galileia, fazendo com que conquistasse uma grande popularidade nacional. E, justamente, por isso, havia diferentes entendimentos a Seu respeito, comparando-O com figuras proeminentes e bastante consensuais no panorama religioso de Israel, nomeadamente João Baptista, Elias, Jeremias ou um dos profetas antigos que havia ressuscitado (Mateus 16:13-16; Marcos 8:27-30 Lucas 9:18-20). Toda essa compreensão, que o povo tinha Dele, demonstrava a elevada estima e admiração que nutria por Ele. É evidente que o Senhor Jesus era mais importante em comparação com todas essas colossais figuras mencionadas. Ele é o Filho de DEUS, o Salvador do mundo. 

E mais, esta fama popular contribuiu decisivamente para que Ele não fosse preso e morto prematuramente, tal como sempre desejaram os chefes dos sacerdotes e doutores da lei (João 7:30). Sabemos que isto nunca iria acontecer precocemente, uma vez que "a sua hora ainda não tinha chegado" (João 7:32:44). Com efeito, para gerir esse compasso de espera até chegar mesmo a Sua hora, foi preciso DEUS usar a multidão para "protege-Lo" provisoriamente da morte certa, razão pela qual Jesus gozou desta "imunidade temporária" até ao tempo limite da Sua passagem desta vida para o além  (João 13:1). Se não fosse a multidão há muito que Jesus teria sido morto. Não há dúvida disso, porque ele não andava com guarda-costas e, tão pouco, armado. Havia, desde muito cedo, um plano bem traçado para tirar-Lhe a vida, mas por causa da multidão ninguém teve coragem de deitar-Lhe a mão. Por isso, quando chegou a Sua hora de deixar este mundo que coincidiu, igualmente, com "o poder das trevas"  (Lucas 22:53; João 13:1)  perdeu completamente a "legitimidade" que beneficiava no seio do povo e, em consequência disso, foi preso e condenado à morte   (Lucas 22:53)

A chegada da hora do Senhor Jesus aconteceu concomitantemente com a manifestação visível do "poder das trevas", tal como o Próprio vai reconhecendo: “Vieram aqui com espadas e paus para me prenderem, com se eu fosse um ladrão? Estava convosco todos os dias no templo e não me prenderam! Mas esta é a vossa hora, é o poder das trevas” (Lucas 22:52-53). É este poder das trevas, que por sua vez, confundiu espiritualmente a multidão em Jerusalém e, mais tarde, os próprios discípulos. Começou a dar sinais com a cidade a ficar em "alvoroço" com a entrada triunfal de Jesus  (Mateus 21:10), curiosamente o mesmo termo "alvoroço" que havia em Jerusalém aquando do Seu nascimento em Belém de Judeia  (Mateus 2:3)  que, posteriormente, culminou com a matança das criancinhas inocentes por parte do rei Herodes para poder liquidá-Lo   (Mateus 2:16-18). Da mesma sorte, este último "alvoroço" resultou na predestinada morte do Filho do Homem. São os efeitos devastadores do referido "poder das trevas" que contagiou tudo e todos na cidade de Jerusalém, incluindo a mesma multidão que O aclamava dias antes e até mesmo os seus discípulos. 

Ainda em jeito de contra-argumento, para os Teólogos que têm uma leitura diferente da nossa sobre esta temática, importa salientar que Jesus tinha muitos admiradores em Jerusalém, insistimos, apesar de nem todos eles considerarem-No o Messias. Mesmo assim, nutriam um enorme carinho e admiração por Ele   (João 7:40-52). Eis a grande questão que se coloca: onde estariam, então, essas pessoas na hora da Sua condenação? Será, porventura, que todos os habitantes de Jerusalém eram contra Ele? Porque é que alguns não saíram à rua para defendê-Lo ou, pelo menos, tentar protegê-Lo da injustiça que estava a ser alvo? Não repara, caro leitor, que algo não bate certo aqui em termos da coerência argumentativa da posição que estamos a refutar? 

É verdade que nem todos em Jerusalém, como em outras cidades de Israel, gostavam de Jesus. Mas havia um número bastante significativo da multidão que O tinha como profeta e alguns deles como Messias. Foi por causa disso que Pilatos tentou arranjar uma alternativa escapatória para libertá-Lo, usando assim uma prerrogativa que não era comum naquela altura, isto é, colocando o povo como juiz num famoso e controverso processo político-religioso. Terá pensando que com isso conseguiria salvar o Senhor Jesus da sentença capital de que traiçoeiramente estava a ser acusado pelas autoridades judaicas, uma vez que o marginal Barrabás jamais seria preferido pelo povo em comparação com o Filho de DEUS. Presumia, de forma equivocada, o tirano governador romano. Debalde foram as suas "benévolas pretensões” para com o Messias   (Mateus 27:15-26; Marcos 15:6-15; Lucas 23:13-25; João 18:38-40). Não resultaram e caíram por terra. 

Estando a reinar "o poder das trevas", por causa da chegada da hora do Filho do Homem   (João 13:1; 17:1), conseguiu obnubilar completamente todos aqueles seguidores que aclamavam Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém, razão pela qual não há que admirar a mudança repentina operada na multidão. Em certas ocasiões, a própria multidão intitulada nos Evangelhos de "seguidores", teve esta postura dupla e redutora sobre quem é o Senhor Jesus  (João 6:47-58), chegando ao ponto de abandoná-Lo só porque demonstrava claramente quem realmente É  (João 6:66). Por isso, não temos que ficar completamente surpreendidos com a momentânea mudança de posição da mesma multidão em Jerusalém. 

O impacto abismal desta manifestação do "poder das trevas" foi de tal ordem que afectou drasticamente a espiritualidade dos discípulos. A começar com a censura gananciosa que fizeram com a mulher que devotadamente ungiu o Senhor Jesus na casa de Simão "leproso", em Betânia   (Mateus 26:6-13; Marcos 14:3-9; João 12:1-8). E, ulteriormente, o sono anormal que se apoderou deles em Getsémani, ao ponto de não conseguirem resistir apenas uma hora com o Senhor Jesus em oração, não obstante estarem predispostos espiritualmente, mas a carne estava bastante fraca  (Mateus 26:40-46), somando o facto de abandonarem o seu Mestre aquando da Sua humilhante prisão   (Mateus 26:56). Foi o mesmo "poder das trevas" que levou Judas Iscariotes a trair Jesus, vendendo-O por trinta moedas de prata, apoderando-se definitivamente dele ao ponto de levá-lo ao suicídio (João 3:19; Mateus 26:14-16; 27:3-5; Lucas 22:53). Outrossim, foi efeitos do mesmo "poder das trevas" que levou o Apóstolo Pedro a negar o Senhor Jesus por três vezes  (Mateus 26:69-75; Marcos 14:66-72; Lucas 22:55-62; João 18:15-18), bem como todos os discípulos a duvidar da Sua Ressurreição, mesmo estando a falar visivelmente com eles de carne e osso   (Marcos 16:9-13; Lucas 24:10-49). 

Somente com a crucificação do Senhor na cruz que vislumbramos a manifestação visível deste "poder das trevas". A Terra ficou literalmente escura desde a hora sexta até à hora nona  (Mateus 27:45). Neste melancólico e sofrimento atroz, que o Filho de DEUS estava reduzido nas mãos dos pecadores, levou-Lhe a clamar em alta voz: "Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?"  Eis que, continua ainda o autor sagrado na sequência dos acontecimentos que sucederam, "o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo; tremeu a terra, fenderam-se as rochas; abriram-se os sepulcros depois, e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mateus 27:46 ; 51-53). 

Essa escuridão (o poder das trevas, bem entendido), de acordo com o conceituado Comentário Bíblico de Matthew Henry, "representava aquela nuvem escura sob a qual estava agora a alma humana de nosso Senhor Jesus. Deus faz o seu sol brilhar sobre o justo e o injusto; mas até mesmo a luz do sol foi negada ao nosso Salvador quando Ele se fez pecado por nós. É agradável para os olhos contemplar o sol; mas, como agora a sua alma estava extremamente triste, e o cálice do divino desagrado fora enchido para Ele sem qualquer mistura, até a luz do sol fora afastada. Quando a terra lhe negou um gole de água fresca, o céu lhe negou um raio de luz; tendo que nos libertar das trevas absolutas, Ele próprio, na profundidade de seus sofrimentos, caminha nas trevas e não tem luz (Is 50:10)”. Aquele que é a Luz do mundo e a Estrela da Manhã  (João 8:12; Apocalipse 22:16)  foi agora ofuscado – momentaneamente – pelos poderes das trevas, que governam este tenebroso mundo  (Efésios 6:12). O Senhor Jesus lutou com tais “principados e potestades”, vencendo-os com Seu impoluto testemunho de vida (Hebreus 12:2.3). 

"poder das trevas", que confundiu tudo e todos com a chegada hora de Jesus, somente esvaneceu nos discípulos quando "abriram os olhos" (Lucas 24:30-35; 45-49)  e começaram a interiorizar melhor a verdade central das Escrituras Sagradas, que é a vitória do Messias sobre a morte: passaram a compreender, de forma holística, que Ele é o Único caminho para a salvação de todo aquele que Nele crê   (Actos 4:11-12). A partir daí, foram definitivamente revestidos pelo poder do Espírito Santo   (Actos 1:8), e o impacto imediato que tudo isto teve depois no testemunho miraculoso que deram na propagação do Evangelho pelo mundo inteiro.  

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário III


É extremamente importante salientar o paralelismo entre o patriarca Abraão e o Senhor Jesus Cristo no processo da salvação, especialmente o dever de obediência que caracterizaram ambos na decisiva trajectória a Jerusalém para ofertar sacrifício a DEUS. Não se pode falar do Messias Prometido sem, no entanto, falar previamente de Abraão e vice-versa. O primeiro é o grande precursor da Lei e o segundo e a personificação da Graça. As duas incontornáveis figuras bíblicas estão visceralmente ligados a Teologia da Salvação. A promessa dada ao patriarca Abraão teria apenas a concretização plena com a encarnação, morte e ressurreição do Filho do Homem. 

Tal como Abraão foi desafiado para se dirigir ao "Santo Monte", em Jerusalém e ali sacrificar o seu único filho, assim também foi com o Senhor Jesus em relação à Sua vida oferecida para resgatar a Humanidade outrora perdida no lamaçal do pecado. Tanto um como o outro correspondeu, sem hesitação, à solicitação Divina. Abraão fez-se acompanhar, para a longa viagem ao Monte Mória, em Sião, dos seus dois servos. Da mesma sorte Jesus levou com ele os seus discípulos, granjeando, durante o percurso, outros tantos peregrinos que seguiam rumo a Jerusalém para assistir à páscoa dos Judeus. Na sua oração em Getsémani, momentos antes de ser preso e condenado à morte, já apenas com um grupo restritos dos seus discípulos, levou apenas consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu  (Mateus 26:37), equivalendo, deste modo, o mesmo número de pessoas que cercava Abraão na viagem   (Génesis 22:3). 

Nas duas misteriosas histórias o burro esteve presente. Abraão viajou para o local de burro e Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém montado num burro. O patriarca Abraão levou apenas o seu filho Isaque para "o lugar de adoração", que que iria servir para a oblação. O Senhor Jesus, nos momentos cruciais, esteve praticamente sozinho. No primeiro momento, ainda em Getsémani com os discípulos, o Evangelista Lucas regista que "afastou-se deles a uma curta distância e, pondo-se de joelhos" a orar  (Lucas 22:41 ; Mateus 26: 39). No segundo momento, depois de ter sido preso, foi desamparado até à Sua horrenda morte na cruz  (Mateus 26:31-32). E mais, Abraão somente viu o lugar que DEUS lhe havia indicado já no terceiro dia da viagem. O Senhor Jesus, segundo as Escrituras, ressuscitou ao terceiro dia  (Lucas 24:46)

O patriarca Abraão e o Senhor Jesus representam o pacto de DEUS com a Humanidade, bem como a sua concretização holística. Podemos apenas evidenciar uma única diferença substancial neles: foi com Jesus que fomos definitivamente justificados e passámos a ter paz com DEUS  (Romanos 5:1-2)  que, aliás, é o Único que dispõe desse poder remidor. Com a vida e obra do Messias prometido, o Todo- Poderoso DEUS honrou dignamente a Sua sagrada promessa. 

Resta, pois, a cada um de nós, cumprir, igualmente, com a sua parte neste admirável processo da salvação. Somos todos desafiados, sem excepção, pelas Escrituras Sagradas, a subir ao "Santo Monte" e ali oferecer o nosso sacrifício vivo, santo e agradável a DEUS  (Romanos 12:1). Sacrifício que deverá traduzir o genuíno arrependimento, conversão, contrição e santificação  (Actos 26:20), fazendo com que "cheguemos à unidade da fé e ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao homem adulto, à medida completa da estatura de Cristo" (Efésios 4:13). Que assim seja. 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário II


Tal como vincámos no artigo precedente, era extremamente importante a partida do Senhor Jesus Cristo a Jerusalém, visto que era o lugar onde convergiam todas as profecias bíblicas a Seu respeito (LER). E mais, até então, era a cidade de oblação para a expiação dos pecados que o povo cometia, pelo que o Filho do Homem tinha que ser ali sacrificado, para selar definitivamente a Velha Aliança firmada pelo Eterno JEOVÁ e, deste modo, instaurar o Sacerdócio Real na ordem de Melquisedeque  (Génesis 14:18-21; Salmo 110:4; Hebreus 5:5-6; 6:20; 7:15-17). 

A decisão de Jesus em deslocar-se a Jerusalém tinha inúmeros sobressaltos e riscos, a todos os níveis, mormente do ponto de vista geográfico e espiritual. No lugar onde se encontrava, a região do mar da Galileia, segundo os reputados teólogos e exegetas, fica 200 metros abaixo do nível do mar enquanto a altitude média de Jerusalém é de 760 metros acima do referido nível. Por isso, subir até à Cidade Santa, era uma trajectória íngreme e bastante penosa. Aqui, o cumprimento escrupuloso de todas as profecias dependia dessa obediência plena do Filho de DEUS, bem como a salvação da Humanidade perdida no lamaçal do pecado. E tudo isto consubstanciava, em termos prático-espirituais, um tremendo desafio no itinerário deliberativo do Messias. 

No decorrer da viagem, o Senhor Jesus atraiu uma enorme turba dos peregrinos que seguiam igualmente para Jerusalém, a fim de assistir à celebração da páscoa dos judeus  (João 2:13), especialmente por ter curado dois cegos na circunscrição de Jericó  (Mateus 20:29-34). E, foi assim, de forma heróica, que o Senhor Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém com a multidão a render-Lhe o merecido louvor, adoração e acções de graças, entoando efusivamente: "hosana ao Filho de David; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!" (Mateus 21:1-10), contrariando todas as maléficas censuras dos fariseus  (Lucas 19:39-40). 

A decisão subordinada de Jesus, de se entregar em Jerusalém, era semelhante à prova que DEUS colocou ao Patriarca Abraão. Este também foi desafiado a sacrificar o seu único Filho, Isaque. E, prontamente, correspondeu com a vontade expressa do SENHOR, fazendo-se acompanhar nesta incompreensível missão dos seus servos. Era, outrossim, um percurso escarpado e com enorme carga espiritual, a priori, fatídica, tal como o do Messias. Durante a difícil viagem para Jerusalém, concretamente à região do Monte Mória, em Sião, Abraão, a determinada altura da caminhada, depois de vislumbrar o lugar que DEUS lhe indicara, disse então aos seus criados: "fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o Senhor e depois voltarmos para junto de vocês" (Génesis 22:4-5). 

Nas duas misteriosas histórias encontramos várias similitudes, que concorrem e apontam para a providência divina no processo da Salvação. A começar com um acto livre de obediência, a viagem efectuada a Jerusalém, as pessoas envolvidas durante o percurso que, por vicissitudes supervenientes, acabaram por ficar para trás, o burro, o sofrimento atroz e, por fim, o sacrifício expiatório (desenvolveremos estes pormenores nos artigos subsequentes). Mesmo assim, tanto o Patriarca Abraão como o Senhor Jesus, não desfaleceram no seu nobre intento de servir a DEUS e foram obedientes até ao fim. 

A fé de Abraão estava bem ancorada no Todo-Poderoso DEUS  (Hebreus 11:8-19)  e no Messias, o Salvador do Mundo, razão pela qual alegrou-se com a ideia de poder presenciar a vinda do Messias. Viu-o e regozijou-se  (João 8:56), alcançando assim a bem-aventurança eterna.  Deus, da mesma sorte, honrando a Sua Santa Palavra, tendo em conta a missão redentora do Seu Amado Filho, elevou-O "acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobrem todos os joelhos: no Céu, na Terra e debaixo da terra; e para que todos proclamem, para a glória de Deus Pai: Jesus Cristo é o Senhor!"  (Filipenses 2:9-11). 

Considerações Pascais: A Via Dolorosa para o Calvário I


Um dos momentos mais conseguidos em todo o percurso terreno do Senhor Jesus Cristo foi o de ter tomado a discernida decisão de ir a Jerusalém. Esta difícil decisão, encerraria, em última instância, a Sua predeterminada morte expiatória na Cruz do Calvário em favor da Raça Humana decaída pelo pecado original, bem como a Sua ressurreição dos mortos, tal como ficou registado nas Escrituras Sagradas. O Senhor Jesus entrou triunfalmente na Cidade Santa num Domingo de Ramos, não obstante o sofrimento atroz que augurava que iria acontecê-Lo nos dias seguintes perante as autoridades judaicas. Mesmo assim, "tomou o firme propósito de ir a Jerusalém" (Lucas 9:51), trilhando assim a penosa via dolorosa. 

É curioso notar que o Apóstolo Paulo, quando estava ainda em Éfeso, tomou, igualmente, a decisão de ir a Jerusalém mesmo sabendo que lhe esperavam prisões e tribulações em todas as cidades que ia vistoriando (Actos 20:23). O facto de ter que percorrer a íngreme via dolorosa, não obstaculizou em circunstância alguma o nobre ministério que o Senhor Jesus lhe confiou – de dar testemunho do Evangelho da Graça de DEUS. 

Por isso, de forma analógica, o desafio que nos é lançado também pelo Filho do Todo-poderoso DEUS, é o de cada um em particular tomar a sua cruz e segui-Lo. Por outras palavras, é prosseguir determinadamente a via dolorosa rumo à Jerusalém Celestial, salvando assim a sua alma da condenação vindoura que recairá sobre os ímpios. É a sensata e impreterível decisão que todos deveriam tomar. A sorte está lançada.

Uma Guerra Pode Ser Considerada Justa?


O mundo em que vivemos está cheio de conflitos. Não precisamos de estar plenamente sintonizados com a realidade político-internacional para disso nos apercebermos. Basta constatarmos os alarmantes sinais que nos vão chegando, de perto e de longe, através dos media, para compreendermos que de facto vivemos num mundo turbulento e bastante hostilizado. Por isso, Eugene Dechamps, não podia ter mais razão na sua análise crítica da Sociedade Universal face à indiferença que constatava nos seres humanos do seu tempo, afirmando peremptoriamente que existiam apenas fêmeas e machos estúpidos, apontando para o fim apocalíptico do mundo como sendo corolário desta belicosa forma de estar e encarar a vida. 

A guerra que estamos a referir é no sentido lato sensu, isto é, do conflito armado entre Estados, ou no caso da denominada guerra civil, o terrorismo dos radicais islâmicos, que envolve mortes de pessoas e destruição em massa. Obviamente que o título do artigo não é inocente, tendo em conta as circunstâncias adversas que se vive há muito na Síria, mormente a decisão unilateral dos EUA de atacar anteontem o regime de Bashar al-Assad sob pretexto que este terá possivelmente usado as armas químicas contra o seu inofensivo povo, sendo considerada por muitos comentadores e países como uma Guerra Justa (ALI) e (AQUI). Perante esta atitude dos EUA, que actuou à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a pertinente questão que se levanta é a seguinte: será que podemos considerar uma guerra como justa? A nosso ver, numa perspectiva meramente subjectivista, a resposta é negativa por razões várias que pormenorizaremos infra

Temos demorado imenso a ponderar sobre essa problemática questão, de difícil posicionamento, procurando na medida do possível formular publicamente uma opinião sensata que vai ao encontro com os ideais bíblicos que abraçamos. E isto levou-nos a vasculhar a doutrina Jus Internacionalista e Cristã para nos inteirarmos, de forma aprofundada, do assunto. Naquela doutrina, os seus defensores são completamente a favor da Guerra Justa, fruto de influência do pensamento de Santo Agostinho, nomeadamente John Locke, Hugo Grócio, Francisco Suares e Francisco Vitória. Para estes reputados autores, que marcaram profundamente a nossa História, a Guerra Justa serve para "vingar o mal, quando um Estado tem que ser atacado pela sua negligência em reparar males cometidos pelos seus cidadãos, ou em restaurar aquilo que por maldade lhe foi retirado (…) as guerras justas podem incluir guerras por motivos de segurança, guerras para vingar o mal, ou guerras declaradas a países que recusam a passagem a outros".  

Por influência destes autores a Carta das Nações Unidas adoptou na íntegra este postulado, habilitando o Conselho de Segurança a recorrer ao uso da força em caso de ameaça à paz, ruptura da paz e acto de agressão. Quanto aos Estados membros da ONU importa frisar que a Carta apenas consente o uso da força pelos Estados membros em apenas duas circunstâncias: a) em caso da legítima defesa, individual ou colectiva (artigo 51.º); b) em caso de assistência às próprias Nações Unidas (artigo 2.º, nº5), como a participação em acções por elas levadas a cabo ao abrigo do capítulo VII ou noutras, a título excepcional (as operações de paz e de ingerência humanitária, por elas determinadas ou admitidas). Ora, tendo essas realidades em consideração, e numa visão secular, é legítimo afirmar que a legislação Internacional em vigor aceita manifestamente o conceito da Guerra Justa, contando que se reúnam os pressupostos acabados de se mencionar. Apesar de discordarmos na íntegra com essa orientação política, não deixamos, no entanto, de reconhecer o livre arbítrio dos povos e dos Estados Soberanos no que toca à sua autodeterminação. Uma coisa é a nossa posição individual sobre a realidade das coisas. Outra coisa, e bem mais diferente, é a jurisdição que a sociedade em geral traça como sendo modelo de conduta e orientação para o seu destino colectivo. É claro que somos contra qualquer tipo de acção levado a cabo por via armada, porque entendemos que a solução dos problemas não passa por essa via. Mesmo assim, respeitamos as disposições legais dos Estados e de Organismos Internacionais, sem prejuízo da nossa firme convicção Cristã. 

Com algumas surpresas, a doutrina dos autores Cristãos, seguindo a mesma esteira do pensamento de Santo Agostinho, embora com algumas atenuantes, advogam que a guerra deve ser declarada só quando é necessário, "e para reduzir a injustiça; e para que através dela Deus possa livrar os homens da necessidade e preservá-los em paz. Mesmo na guerra, o espírito do pacificador deve ser estimado (…) a sua conduta deve ser justa – manter a fé com o inimigo, cumprir promessas, evitar a violência desnecessária, o espólio, o massacre, a vingança, as atrocidades e as represálias", a começar por Santo Tomás de Aquino, arrastando posteriormente os grandes Reformadores Protestantes, máxime Martinho Lutero e João Calvino. O Anabaptista Menno Simões, um dos consagrados precursores do Protestantismo, distanciou-se radicalmente deste entendimento, defendendo uma posição mais equilibrada à luz dos Princípios da revelação bíblica, à qual aderimos sem nenhumas reservas. Menno Simões, sustentando a sua oposição ao conceito da Guerra Justa, baseou-se no facto de "o cristão ser seguidor do Príncipe da Paz, tendo recebido a ordem expressa de amar os seus inimigos e fazer bem aos perseguidores, dando a outra face a quem lhe bater”, para rejeitar categoricamente a possibilidade de um Cristão participar na guerra ou mesmo defendê-la, independentemente de qualquer tipo de situação ou justificação. 

Feito este brevíssimo enquadramento geral cabe dizer que nada nos surpreende quando vemos os ímpios defenderem ideologicamente a legitimidade da Guerra Justa. É natural que eles tenham esse entendimento de "ajustes de contas", visto que não têm o temor de DEUS nos seus corações, diversamente dos Cristãos. Congruentemente com aquilo que acabamos de dizer, e que defendemos também noutros fóruns da nossa convivência, somos inteiramente contra o conceito da Guerra Justa e espanta-nos ver certos Cristãos a defenderem o contrário. Por mais chocante que possa ser uma situação, como tem acontecido múltiplas vezes, de vermos pessoas inocentes a serem maltratadas, mortas de forma bruta e injusta, precisamos consciencializar que o nosso Eterno DEUS está sempre no controle da situação e que no devido tempo manifestará o Seu Soberano Poder para repor a Justiça e punir os malfeitores. Nada do que é feito neste mundo transcende o Seu domínio de acção ou, porventura, que ELE não saiba. O papel que nos cabe como seus filhos é, simplesmente, o de dobrar os nossos joelhos em oração, intercedendo incessantemente a favor destes flagelos humanos, pedindo a ajuda Divina e intervenção para a sua eficaz resolução. Jamais esperançando que a guerra é solução ideal dos problemas. Não é com a guerra que se faz a paz, mas sim com o espírito do diálogo, procurando pacientemente, e com humildade, alcançar os consensos das partes beligerantes. Só assim poderemos fazer pontes e construir solidamente o caminho da tão ambicionada paz entre os seres humanos e os povos em geral. 

Perante o exposto, em suma, consideramos extremamente desprovido do fundamento bíblico a tese dos grandes teólogos que supra mencionamos e de tantos outros Cristãos que ainda hoje continuam a defender o conceito da Guerra Justa como sendo solução para os reais problemas que afectam a Humanidade. Tal como o Teólogo Menno Simões, perguntamos a estes nossos irmãos na fé: "Digam-me, como é que um cristão pode defender biblicamente a retaliação, a rebelião, a guerra, o golpear, o matar, o torturar, o roubar, o espoliar e o queimar cidades e vencer países? … Toda a rebelião é da carne e do diabo … Oh abençoado leitor, as nossas armas não são espadas nem lanças, mas a paciência, o silêncio e a esperança e a Palavra de Deus". 

A Influência Política do Reino Unido no Mundo


Não compreendo a postura de represália que algumas almas estão a exigir à União Europeia (UE) adoptar, nas negociações com o Reino Unido, por causa do Brexit. Julgo completamente reprovável tal atitude à luz dos Princípios e Valores democráticos, não obstante não concordar com a precipitada saída dos ingleses da UE. Mesmo assim, não auguro nenhum fracasso político ao país de Sua Majestade. Continuo a entender que a Europa tinha mais a ganhar com o Reino Unido no seu seio do que propriamente fora dele. E mais, o erro não se deve pagar com outro erro. Ele combate-se fazendo o bem e não vice-versa. 

Só quem não conhece bem a História e a influência política que o Reino Unido sempre teve no mundo é que avalia, com alguma leviandade, a sua definitiva saída da UE. Desde logo, para efeitos de esclarecimento, foram os ingleses os grandes precursores e impulsionadores da valorização da Pessoa Humana no século XIII com a inovadora Magna Carta, em 1215, que acabou por influenciar decisivamente a Europa Continental, ganhando eco importantíssimo na Revolução Francesa do séc. XVIII. Foram os ingleses que inventaram a máquina a vapor, dando início à Revolução Industrial, em 1760, transformando radicalmente os meios de trabalho e de produção. Foram, igualmente, os ingleses, uma das destacadas nações que lutaram incansavelmente para travar o maléfico intento do regime nazi de instaurar "uma nova ordem mundial", juntamente com os países Aliados. 

O Reino Unido sempre esteve na vanguarda da Modernidade, razão pela qual é um dos países mais poderosos do mundo, desdobrando a sua influência política em várias regiões do planeta, fruto da sua mundividência expansionista desde os primórdios. Integra o restrito e privilegiado grupo dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, estatuto especial detido apenas por cinco influentes países que não se alternam, nomeadamente os EUA, a China, a Rússia e a França, tendo o poder de veto em matérias de grande relevância na ordem internacional, diferentemente dos dez membros não permanentes que são eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos rotativos com os restantes países. Ocupa, por mérito próprio, lugares cimeiros a nível da ciência, economia, inovação tecnológica, cultura, desporto, literatura, política, música, artes plásticas, valorização dos Direitos Humanos e qualidade de vida. As universidades inglesas, mormente a de Cambridge e Oxford, constam na lista das dez melhores do mundo, apenas superadas pelas escolas norte-americanas, sendo igualmente o segundo país com mais detenção de prémios Nobel. Dispõe ainda de instituições democráticas bastante consolidadas e concomitantemente de uma economia robusta, tendo a moeda, a libra, mais valorizada do que qualquer outra, somado ao facto de ter a quarta maior Bolsa de Valores e ser o sétimo país mais rico à face da Terra, bem como o inglês ser a língua mais falada pelos humanos. Todas estas inegáveis façanhas servem apenas para elucidar as mentes alheadas com a realidade, e, sobretudo, demonstrar a importância geopolítica e o peso do Reino Unido na dignificação e afirmação global de qualquer organização ou instituição em que esteja inserido. 

Os ingleses, em suma, não são um povo qualquer. Sempre demonstraram um espírito de valentia e resiliência em tudo o que fazem. Não dependem da UE para a sua sobrevivência ou afirmação no mundo, tal como alguns países. Conseguem andar sozinhos, sem ajuda de ninguém. Deram inequívocos exemplos disso ao longo dos séculos. Uma coisa é questionar legitimamente a inoportunidade do Brexit (AQUI) (ALI). Outra coisa, e bem diferente, é vaticinar um anátema sobre um país irmão e grande aliado da UE. Ora, isto consubstancia uma falta de cultura democrática e uma postura profundamente de lamentar.