O meu irmão, Roberto Vieira (LER), num ambiente descontraído com os colegas da CPLP, no "Curso sobre Crescimento Inclusivo" organizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco de Portugal, em Lisboa.
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Um Dia, Uma Fotografia
O meu irmão, Roberto Vieira (LER), num ambiente descontraído com os colegas da CPLP, no "Curso sobre Crescimento Inclusivo" organizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco de Portugal, em Lisboa.
O Triunfo do Capital Financeiro
A crise grega com os credores internacionais (LER) pode ser vista também nesse prisma teológico da "Parábola do Credor Incompassivo" (LER):
o problema de perdão ou a renegociação da dívida não vem de hoje. Sempre
existiu desde os primórdios da Humanidade. E ninguém se furta de não ter débito
com alguém, mesmo que não seja pecuniário. Com DEUS todos nós, sem excepção,
somos eternos devedores. Se Ele nos perdoou – porque não tínhamos qualquer
outra alternativa para pagá-Lo – da mesma sorte temos o dever e a obrigação de
perdoar aqueles que nos são devedores e que não têm meios suficientes para
fazê-lo, sob pena de DEUS voltar a acertar contas connosco, tal como esta
parábola bem ilustra.
A Grécia não está a pedir o perdão da sua exorbitante
dívida mas sim a extensão do prazo para a sua amortização. Esperava-se por
parte da troika, mormente das instâncias europeias, a maior sensibilidade
humano-social e compreensão para com os milhares de gregos que são expostos à
miséria e autêntica pobreza.
Sinais dos Tempos
«De tanto ver triunfar as
nulidades,
de
tanto ver prosperar a desonra,
de
tanto ver crescer a injustiça,
de
tanto ver agitarem-se os poderes
nas
mãos dos maus,
o
homem chega a desanimar-se da virtude,
a
rir-se da honra,
a
ter vergonha de ser honesto.»
(Ruy
Barbosa, citado no livro de José Pacheco Pereira, in "Crónicas dos Dias do
Lixo", Círculo de Eleitores, Junho 2013).
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As notícias que nos chegam todos os
dias dos media mostram-nos galopantemente as mudanças que o nosso mundo
processa, a cada instante que passa, nos mais diversos domínios do
conhecimento. As mudanças sempre fizeram parte da rotina dos seres humanos. E
como escrevia sabiamente o colosso português, Luís Vaz de Camões, "todo
o mundo é composto de mudança". Tudo está em constante mudança,
encerrava o "pai
da dialéctica” Heráclito na sua construção filosófica sobre os Cosmos.
O ilustre António Gedeão, no longínquo ano de 1954, vai ao ponto de considerar "que
sempre que um homem sonha o mundo pula e avança". As mudanças são
sempre bem-vindas quando visam melhorar qualitativamente a vida das pessoas. E
temos que reconhecer que, nos últimos séculos, o mundo tem dado passos
gigantescos de inúmeras mudanças positivas como nunca antes visto na sua velha
História, máxime no que toca ao elevado índice do desenvolvimento
humano-tecnológico alcançado.
Se de um lado nos orgulhamos vivamente
com estes significativos avanços da tão propalada "era
das luzes" temos, igualmente, motivos suficientes para estarmos
inteiramente preocupados com algumas evoluções que temos experimentado e que
são bastantes perniciosas à sociedade e ao mundo em geral. Refiro-me
concretamente aos padrões do nosso comportamento Ético-moral, Familiar,
Político-governativo, Económico, Social e Relacional; mudanças essas que ficam
muito aquém daquilo que deveria ser o ideal. Tais maléficas vicissitudes
comportamentais, a que nos acomodamos perfeitamente, mas que noutros tempos
mereciam um completo repúdio dos nossos antepassados, passaram a ser encaradas
por muitas almas presunçosas como sendo de "avanços
civilizacionais". E assim, resvalamos na tamanha imbecilidade de
chamar bem ao mal e mal ao bem; de tomar o santo por profano e vice-versa. Dito
por outras palavras, assistimos incomensuravelmente a uma séria adulteração dos
Grandes Princípios e Valores Sociais, que até então serviam de modelos
basilares e norteadores das Sociedades, "sem que nenhuma
alternativa credível surgisse com suficiente consenso social para preencher o
vazio das referências nas sociedades. Emergiu, assim, um relativismo moral que
praticamente remeteu para o foro de cada um a hierarquia dos valores
intangíveis e, por conseguinte, desvalorizou o seu papel na orientação dos
comportamentos sociais"[1].
O grande pensador francês, Eustache
Deschamps, antevendo de longe as abomináveis mutações enfatizadas pelo
Iluminismo do séc. XVIII, mormente na sua vertente jacobina, aversivo ao
conceito da Moral e dos Bons Costumes, expressava um sentimento geral de
desânimo e melancolia face à depravação político-social que observava nos seres
humanos do seu tempo, afirmando peremptoriamente que existiam apenas "fêmeas
e machos estúpidos", apontando para o fim apocalíptico do mundo como
sendo corolário desta desordenada e condenada forma de encarar a vida.
Não é preciso grande sagacidade para
deduzir que vivemos num mundo de estupidez; tantas vezes se manifesta a
estupidez na conduta das pessoas que passa a ser acolhida como algo natural,
sem praticamente qualquer tipo de censura ou questionamento no fórum da
consciência. Sabemos que tudo isto não passa de um autêntico sofisma,
consubstanciando na sua essência grandes contradições comportamentais, que se
limita a conformar cegamente com o secularismo materialista, alheado à
realidade dos factos e entregue a um desnorte, porventura, irreversível.
Um exemplo paradigmático que poderá
ser trazido aqui à colação, para confirmar as manifestas contradições
subjacentes à afirmação acabada de se mencionar, prende-se com a ideia de
adopção por parte dos casais homossexuais (isto ainda para não falar da própria
legalização da hedionda homossexualidade, do aborto, da eutanásia e barriga de
aluguer, etecetera). Se um casal opta por ter uma conduta homossexual ele está
obviamente a assumir de forma implícita todas as consequências decorrentes
desta sua livre decisão, que passa desde logo por não poder procriar, e
consequentemente estar condenado a viver durante toda a sua vida sem ter
filhos, visto ser uma orientação contra
natura. Conhecendo previamente tais realidades associadas ao seu
esclarecido arbítrio, de ter uma conduta homossexual, por que razão estes
mesmos casais vêm contraditoriamente invocar um direito de ter prole provinda
de pessoas heterossexuais, quando foram os próprios que deliberadamente optaram
por ter uma conduta sexual incompatível com a reprodução? Um autêntico
paradoxo, que traduz venire
contra factum proprium. Mais outros argumentos são passíveis de serem
usados: tais como o legítimo direito que assiste às crianças de ter um pai e
uma mãe como qualquer outra pessoa, mesmo que seja em termos hipotéticos. O
direito dos homossexuais em ter filhos não pode, de modo algum, sobrepor-se aos
superiores interesses das pobres criancinhas. Estes exemplos representam apenas
uma gota no oceano quando pensamos no conjunto de outras inverdades e de
falsidades da realidade, que nos querem impingir a todo o custo, fazendo-nos
crer com os seus raciocínios falazes, aquilo que jamais se poderia enquadrar na
lógica da razão.
Importa ainda salientar que a
decadência político-social não fica somente nos exemplos assinalados. Basta
pensarmos na forma como o mundo é governado, a começar com a corrupta política
financeira, influenciada pelos grandes grupos económicos, apelidados de
Mercados Financeiros (LER), que assentam toda a sua actuação na
especulação, sem ver meios dignos para atingir os sórdidos fins. Aliás, a
recente crise mundial foi precipitada pela avidez do lucro fácil de grandes
grupos económicos que se locupletaram inescrupulosamente com ela, com as
implicações nefastas que ainda hoje se fazem sentir drasticamente na vida de
milhões de pessoas em todo o mundo. Tudo isto somando à instrumentalização da
justiça pelos poderosos em prejuízo total dos pobres. A Justiça hoje em dia é
totalmente descaracterizada e falida do seu nobre propósito, uma vez que
somente se aplica aos que têm influência e meios financeiros para dela se
beneficiarem.
As virtudes da Verdade, da Honra, da
Honestidade, da Humildade, da Tolerância e do Respeito deixaram de ter a devida
primazia que outrora gozavam. Passaram praticamente para um estágio de desuso
social em detrimento da desobediência, da descrença, da vaidade, da falsidade,
da mentira, da traição, da ganância pelo poder e ostentação da riqueza
material. Nos dias que correm ter princípios e valores austeros é sinónimo de
anormalidade, arriscando-se a ser objecto de chacota por parte dos amigos,
colegas e conhecidos. E muitos acabam por ceder à torpeza, tão-somente para
serem aceites socialmente como pessoas "progressistas" ou
de "mente
aberta" como equivocadamente os devassos denominam aqueles que
adoptam tal ignóbil postura. Por isso, não é de admirar o conjunto de dramas
que este mundo enfrenta e com consequências funestas, directa e indirectamente,
na vida de todos nós.
O quadro alarmante que está patente
remete-nos sem excepção para uma profunda reflexão, com vista a readoptar
novamente os valores tradicionais que há muito foram postergados. Só assim
construiremos uma sociedade ordeira, justa e equilibrada, onde todos possam
sentir-se plenamente felizes e realizados com a condição de vida
expectável.
A Dupla Face dos Estados Europeus
Ultimamente tenho vindo a reflectir seriamente e com muita
preocupação a política de austeridade que a maioria dos governos europeus estão
a implementar, principalmente nos países ditos periféricos do continente, entre
os quais Portugal, Espanha, Itália e Grécia como sendo a primeira opção
política com vista a satisfazer as exigências dos mercados financeiros e,
consequentemente, fazer face aos elevados défices nas contas públicas
nacionais, que direccionam alguns países para a miséria e a bancarrota.
As medidas de austeridade não implicam por si só a infelicidade
humana, nem tão pouco uma tragédia como prima facie poderão
aparentar. Um homem de virtudes é por sinal um homem de austeridade. O problema
coloca-se quando as ditas medidas de austeridade são impostas de forma
arbitrária e obrigatória, ao ponto de porem em causa certos direitos que
outrora foram adquiridos com espírito de sacrifício e de luta. Aqui sim, a
austeridade deixa de ter a legitimidade de que poderia beneficiar.
A questão fundamental que se levanta perante todas estas
famosas medidas de austeridade que temos vindo assistir diariamente na zona
euro, é a de saber até que ponto podemos considerá-las de interesse público,
uma vez que os seus efeitos nocivos têm prejudicado drasticamente inúmeras
empresas, pessoas, famílias, conduzindo-as para o autêntico flagelo da miséria
e do desemprego, sem verem no horizonte alternativas convincentes para
reverterem o quadro da desgraça em que se encontram mergulhadas.
E mais: há ainda a questão de saber se o interesse
público deve sempre sobrepor-se (mesmo sendo cegamente como tem acontecido) aos
interesses dos particulares. A meu ver, nem sempre tal pode acontecer,
sobretudo quando se toca os núcleos inalienáveis de direitos fundamentais, não
obstante reconhecer concomitantemente que em determinadas situações os
interesses dos particulares devem ceder perante os nobres interesses públicos,
por exemplo quando estamos perante um Estado de Necessidade Nacional,
que requer de todos os cidadãos um esforço adicional, porque isso é saudável e
necessário numa Sociedade, contando que os direitos fundamentais não sejam
postos em causa.
A concepção política que os governos da União
Europeia (UE) têm adoptado na sua actuação para consolidar as
inflexíveis metas orçamentais, não se distancia tanto do modelo preconizado
pelo filósofo alemão Hegel, que ficou conhecido como "A Dupla
Face", apelidado posteriormente pelos moralistas do século XVII e
XVIII como “Astucia da Razão”, que se traduz num
artifício interpretativo hipostasiado, através do qual se apreciaria o efeito
colectivamente benéfico da alienação individual.
Na filosofia hegeliana está claramente subjacente a
ideia de que o Estado deve procurar acima de tudo preservar a
universalidade, elevando-se acima dos interesses corporativos e da sociedade
civil, integrando em si os interesses particulares e os interesses colectivos,
isto em termos tais que ambos os interesses apenas adquirem plena satisfação no
Estado. Com efeito, vai ainda mais longe ao ponto de salvaguardar
contraditoriamente os interesses particulares das colectividades
integrantes da sociedade civil deverem estar subordinados ao interesse superior
do Estado. Com esta concepção de Hegel podemos concluir uma completa
divinização do papel de Estado na esfera jurídica dos particulares e ao mesmo tempo
passando uma ideia de transpersonalismo do indivíduo dentro do Estado.
Hegel, numa única formulação, tanto hipervaloriza o
Estado como o indivíduo, este último como razão última da intervenção daquele.
Isto é, defende uma coisa para depois voltar a defender o seu contrário. Por
isso, tal como a "A Dupla Face" de Hegel, há um
cunho ideológico por detrás de todas estas incompreensíveis medidas de
austeridade, que se manifestam claramente em absolutizar o papel de Estado e
procurar em simultâneo evidenciar a supremacia do indivíduo dentro do mesmo
Estado. Uma contradição em princípio insanável.
Os argumentos esgrimidos pelos governos europeus para
justificar as suas falhadas políticas de austeridade, prendem-se sobretudo com
a ideia de defender os interesses públicos e garantir as melhores condições de
vida para os seus cidadãos no futuro. Por outras palavras, o governo
reconhece o valor sagrado dos direitos fundamentais, mas decide
deliberadamente violá-los com o argumento de que estão em causa os valores
superiores dos interesses públicos. Agora, podemos interrogar: O que são os
interesses públicos? Até que ponto a afectação dos direitos aos particulares se
poderá traduzir na defesa dos interesses públicos? Uma boa questão para
reflexão.
Sem margem para dúvida, sou completamente a favor da
alienação individual em favor dos interesses públicos, uma vez que isso é
indispensável para que o homem sobreviva e prospere colectivamente, desde que
isso não ponha em causa a dignidade da pessoa humana e os direitos fundamentais
a ela inerente. E, tal como adverte sabiamente um ilustre Jurisprudente e com
bastante razão, "é a dignidade da pessoa humana viva e concreta e os
direitos fundamentais dela decorrentes que justificam o Estado e a Constituição
e não o Estado ou a Constituição que outorgam ou justificam a dignidade da
pessoa humana e os direitos humanos".
A Política e os Mercados Financeiros
Não é preciso ser douto em economia para se aperceber que a culpa da crise em que estamos profundamente mergulhados deve-se muito aos desequilíbrios e desregulamentação dos Mercados Financeiros. Os Mercados Financeiros estão a arruinar-nos até ao limite. Obrigam os Estados e as Instituições da República a adoptarem severas medidas de austeridade e de contenção nas despesas para se ajustarem escrupulosamente às suas exigências. Estamos sufocados de tal forma que não temos alternativas consistentes para travar esta dependência e monopólio dos mercados (o objectivo do nosso artigo, não é fazer um tratado sobre os Mercados Financeiros uma vez que isso levar-nos-ia a ter que debater o funcionamento da Banca, dos Seguros e dos Valores Mobiliários. E para tal há variadíssimas bibliografias muito boas no assunto, vide, por todos, Carlos Costa Pina – “Instituições e Mercados Financeiros”, Editora: Almedina, 2004 onde estes assuntos são muito bem explorados). O objectivo do presente texto é, tão simplesmente, fazer uma análise crítica da situação económico-política actual que está a levar os países a fazerem um esforço fora do comum.
Todos nós já tomámos plena consciência de que com os Mercados Financeiros “não se brinca”, se nos é permitida a expressão. Eles estão constantemente a “olhar” para a nossa política de governação, e se não concordarem com ela ficam “nervosos” e alteram unilateralmente as regras do jogo sem aviso prévio, aplicando uma factura elevada a pagar, através dos mecanismos especulativos que consubstanciam a queda nas cotações de bolsas e o aumento dos juros das dívidas públicas dos países, que por sua vez vai tendo reflexos preocupantes na vida dos particulares, os governados.
Os Mercados Financeiros exigem como condição sine qua non políticas concretas, exequíveis e sustentadoras do curto, médio e longo prazo, de forma a que se proporcione um ambiente que lhes é o desejável: um ambiente de confiança e de estabilidade nos investimentos, evitando assim as oscilações económicas imprevisíveis. Isto quer dizer que a credibilidade e a confiança são requisitos indispensáveis para um bom relacionamento com os mercados, e, em consequência disso, são concedidos certos benefícios adicionais aos Estados e Instituições que souberam dignamente honrar tais virtudes.
Os países estão inteiramente dependentes dos sinais e imposições que os Mercados Financeiros lhes impõem, condicionando as suas agendas políticas de governação. É aquilo a que alguns especialistas na matéria denominam da vertente negra do “capitalismo selvagem” nas suas múltiplas formas de actuação e manifestação.
Não é surpresa para ninguém que este modelo a que nos habituámos já não funciona, e a maioria das pessoas não pactua mais com ele. Basta constatarmos as ondas de revolta e de indignações do chamado “movimento dos indignados”, que renasceu rapidamente nos Estados Unidos da América, alastrando-se para a Europa, Ásia e Oceânia, contestando duramente a maldita política financeira, para percebermos que de facto ninguém está mais satisfeito com a situação económico-financeira actual.
Com efeito, não basta somente ficar indignado ou não pactuar com o modelo económico imposto. Mais do que tudo isso, é preciso haver a boa vontade política daqueles que nos representam, os governos dos Países, para travar essa prepotência dos mercados financeiros. Há menos de quatro anos atrás (se a minha memória não me trai), quando estávamos ainda no auge dos efeitos nocivos da crise de subprime nos EUA, que acabou por afectar quase todo o mundo, os governantes dos países mais industrializados do mundo (G8), colocaram nas respectivas agendas políticas a alteração significativa do sistema financeiro mundial, o que demonstrava nos horizontes não dar tréguas aos países, através de uma política regularizadora e mais fiscalizadora das mesmas.
Por vicissitudes várias, tais condoeteris, acabaram por esquecer completamente o tão ambicioso programa político, ou, pelo menos, mantê-lo na gaveta, por enquanto. E não há margem para dúvidas de que os nossos próprios representantes, não estão minimamente interessados em resolver definitivamente essa questão de mais fiscalização e transparência do funcionamento dos Mercados.
A questão que se levanta perante todo este panorama, é saber o porquê de continuarmos à mercê dos mercados financeiros, não obstante os seus nefastos ataques à economia real. E como é que nos deixámos chegar até este ponto de quase total estado de necessidade económica? Porventura os mercados financeiros terão assim superpoderes face aos países, como aparentam?
Respondendo à primeira interrogação, de facto continuamos reféns dos mercados financeiros, porque colocamos as nossas frustrantes expectativas onde não convém depositá-las; imbuídos pelo espírito de ganância e de lucro fácil, querendo, com aquilo que dispomos, ganhar tudo de uma vez só. Ora, não admira que com essa tentação egoística e individualista, caiamos em sérias ciladas e artimanhas dos Mercados, como temos vindo a assistir atemorizadamente.
A resposta à segunda pergunta, na perspectiva do Professor Álvaro Santos Pereira, in “Medo do Insucesso Nacional”, pode-se dizer que chegámos a esse ponto devido à falha no sector “imobiliário americano, mais concretamente no chamado mercado do subprime, no qual se concediam empréstimos bancários para aquisição de casa a clientes de alto risco, ou seja, pessoas que não têm os meios financeiros nem um bom historial habitualmente necessários para aquisição de casa própria”. Álvaro Pereira escreve ainda que “não só estes empréstimos eram altamente lucrativos para as instituições financeiras que os concediam, mas também eram extremamente tentadores para muitas famílias americanas, que viam neles a única possibilidade de poderem comprar a sua própria habitação”.
Colaborando com as explicações dadas, o reconhecido Economista Vítor Bento no seu livro “Economia, Moral e Política”, considera que “tal convicção vai atraindo cada vez mais gente, alimentando um boom que muitos acreditam ser infindável e que vai gerando um incomensurável riqueza artificial (i.e., sem sustentação económica), até que… não há mais ninguém para entrar no jogo e alimentar o boom! Quando isso acontece, gera-se o pânico, dando-se origem a um crash desordenado”. E perante essa onda de “optimização”, as taxas de juros, que eram consideravelmente baixas, de um dia para outro subiram drasticamente, após esse período inicial, fazendo com que as famílias “que contraiam esses empréstimos viam, em poucos meses, as suas prestações imobiliárias mensais triplicar ou mesmo quadruplicar”, sustenta Álvaro Pereira. E tudo isso acabou por alastrar rapidamente, afectando significativamente os grandes bancos americanos e europeus e, consequentemente, os respectivos países, uma vez que foram obrigados a injectar milhares de milhões para travar a falência dos bancos e, deste modo, evitar o contágio e colapso económico-financeira mundial.
Essa onda de crash desordenado contribuiu para levar à especulação dos preços dos produtos nos mercados, que eram até então acessíveis ao consumidor, nomeadamente a gasolina, o gasóleo e os cereais, que dispararam descontroladamente, obrigando os países a fazerem esforços adicionais, acabando por se prejudicarem gravemente. E tudo isto deixou sequelas enormes nas grandes economias mundiais, que não conseguiram libertar-se tão-facilmente da crise, fazendo com que esta persistisse até aos nossos dias, mas já com configurações e contornos de uma outra natureza, que tem a ver sobretudo com a disciplina orçamental, nomeadamente o elevado défice nas contas públicas nacionais e insuportável dívida pública soberana.
E por fim, os Mercados Financeiros, obviamente, não têm assim tanto poder como em princípio poderia parecer, na medida em que tudo depende de políticas concertadas dos países e de medidas de fiscalização adequadas que vão ao encontro das reais expectativas da economia. Só assim os Estados poderão livrar-se dos efeitos nocivos dos Mercados e da austeridade desnecessária que visa, única e exclusivamente, complicar a vida dos países e dos seus cidadãos em particular.
Perante a verdade exposta, perguntamos: de quem é a culpa? “A culpa é de muita gente, ainda que com quotas de responsabilidade diferentes”, escreve Vitor Bento. Eu diria que não só podemos atribuir a culpa aos reguladores, aos banqueiros, e aos gestores, como também, e acima de tudo, aos políticos e governantes que continuam a não demonstrar coragem suficiente para adoptarem uma política económico-financeira firme, capaz de mudar drasticamente o rumo das coisas. Mantendo-se a mesma política económica até aqui vigente, certamente que vamos continuar a caminhar para um abismo cada vez mais profundo, no qual teremos muita dificuldade de sair tão facilmente.
O grande cerne da questão está no “bloqueio da democracia” (onde é que estão os conceitos de Heródoto e Tucicles sobre os valores fundamentais da democracia?) nas palavras do Professor Paulo Trigo Pereira, justificando a afirmação com o facto de esta (a democracia) ter “dificuldades em promover o bem comum”.
A promoção do bem comum deve ser o ideal supremo de qualquer Governo, com vista a melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos. Caso contrário, continuaremos neste lamaçal económico-financeiro sem fim à vista, que não é com certeza benéfico para ninguém: nem para os Estados, nem para as Instituições, muito menos para os Cidadãos em geral.
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