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Fábula Guineense: O Jagudi e o Falcão


“À sombra duma árvore, um alto poilão secular descansa tranquilo um Jagudi (abutre). No mesmo ramo em que ele assenta, caiado pelos dejectos brancos de tantos que por ali passaram, veio pousar um falcão. Depois de trocarem cumprimentos, o falcão sempre palreiro e irrequieto, increpou o jagudi de desprezível, de cobarde, madraceiro e quantos nomes lhe acudiram à sua cabeça, louca e leviana. Chamou-o e tornou-o a chamar o ser mais miserável da criação. 
O Jagudi, paciente, ouviu tudo e não teve o mínimo gesto de protesto, de indignação sequer. Nisto, porém, em grande velocidade, passou entre os dois uma avesita de penas multicores. 
Doido, desordenado, o falcão lançou-se em perseguição da ave; mas tão desastradamente o fez, que, de encontro a um tronco robusto foi bater em cheio com o peito. Louco, cheio de dor, piando e repiando, caiu ao chão, exânime, sobre as folhas secas. 
Nesta altura, o abutre, lentamente, levanta o vôo e vai poisar sereno, junto ao moribundo. O falcão, nas vascas da agonia, ainda poude ver, a seu lado, cheio de horror, a silhueta tenebrosa e agoirenta do jagudi. E trémulo perguntou: 
– Que vens aqui fazer? 
Grave e imperturbável, o abutre respondeu: 
– Aguardo o teu fim.”  

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(Citado ilustrativamente por Álvaro Nóbrega, in “A Luta pelo Poder na Guiné-Bissau”, p. 23, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, 2003). 

O Homem Também Chora


O Homem também chora. Chorar é humano. Compreender esta grande verdade antropológica é reconhecer o óbvio – ao contrário do mito urbano que se propala por aí. O Homem também chora. Ele derrama lágrimas porque tem necessidade de fazê-lo, uma vez que que dispõe de coração, sentidos, emoções, inclinações, aspirações, paixões e sofre contradições e contrariedades da madrasta vida. Não tem nada a ver com tibieza, tal como algumas almas equivocadamente julgam. Mesmo os colossos choram perante a impotência momentânea que lhes vão enturvando. É um cardápio inevitável e indispensável da nossa transitória peregrinação neste “Vale de Lágrimas”

O Homem pode chorar por inúmeras razões concomitantemente. O choro, em última instância, remete-nos para a mutabilidade, fragilidade, incapacidade e vulnerabilidade da vida. O Homem, nesta esteira do pensamento, pode chorar para aplacar os anseios, insucessos, perdas, frustrações, desgostos, sofrimentos, felicidades súbitas e desequilíbrios emocionais que vai tendo no seu percurso para, deste modo, libertar o estado de alma. Pode da mesma sorte chorar tanto pelas coisas boas como pelas coisas más. É um processo completamente natural, tendo em conta os desencontros e antagonismos subjacentes que encerram a vida. Por isso, não há nenhuma inconveniência em manifestar a sua sensibilidade psico-emocional através do choro e pensar o oposto é totalmente surreal. 

PIROGA FANTASMA (1): A Mitomania dos Guineenses


Que os guineenses são mitómanos na sua esmagadora maioria não é surpresa para qualquer pessoa, que conheça bem a realidade viva do nosso miscigenado povo. E levamos essa mitomania em tudo o que idealizamos e concretizamos na prática. E aplicámo-la, ainda, de forma irracional, a qualquer causa-efeito que acontece no mundo físico, procurando sempre justificá-lo com base nessa enraizada crendice, resultante da nociva herança animista que recebemos dos nossos antepassados. O guineense típico é todo ele formatado pelas concepções supersticiosas, que por sua vez persegui-lo-ão para o resto da vida, e com agravantes bastante preocupantes do ponto de vista social. 

Vem este breve intróito a propósito da mítica história que se conta na Guiné-Bissau de que a deriva política, e consequente instabilidade político-governativa, que o país tem experimentado ao longo da sua autodeterminação, deve-se somente à suposta piroga de ferro que os chefes autóctones da etnia papel enterraram nos arredores de Bissau, juntamente com dois jovens vivos: um rapaz e uma rapariga traduzindo assim o não à campanha de "pacificação", levado a cabo pelas forças coloniais, no início do século passado, com vista a efectivarem cabalmente a sua colonização na antiga Guiné-Portuguesa. Lembro-me, perfeitamente, nos meus longínquos tempos de criança, em Bissau, que ouvia pessoas mais velhas contarem efusivamente esta lendária história. 

A moral da ardilosa fábula é a seguinte: todo o sonho e o destino colectivo do desenvolvimento sustentável da Guiné-Bissau estão encarcerados nesse enigmático barco. Por outras palavras, “esta parábola da canoa enterrada potencia a alegorização do desnorte e estagnação a que se entregou a terra guineense. Porque, sem canoa, a água está ali, mas não podemos navegar e sair desta ilha para qualquer outra ilha; à persistente frustração e impotência da falta de canoa, seguir-se-á a perda do rumo já que o nosso horizonte experiencial cinge-se ao perímetro da ilha que nos prende. A canoa é uma embarcação que nos transporta para algum lado, do presente para o futuro. Ora, estando ela enterrada, estará igualmente estancado o nosso horizonte espácio-temporal. Um futuro que se esgota no nosso presente e um horizonte que não ultrapassa o chão que pisamos agora[1]. E crê-se, ainda, segundo os relatos apurados e registados pelo Professor Doutor Emílio Kafft Kosta no livro infra citado, que "a condição incontornável para o país sair do lamaçal onde se meteu, ganhar alguma perspectiva de desenvolvimento e conquistar definitivamente a paz e a irmandade nacional é localizar o dito barco, desenterrá-lo e, através de operações de natureza místico-transcendental, dar um outro destino ao barco e ao seu conteúdo”. 

De acordo com esta fictícia narrativa (digo isto porque não acredito minimamente nela, visto que não passa de um mito urbano construído para ludibriar o bom senso do humilde povo guineense, diferentemente de muita boa gente no país que dela faz afincadamente fé) as únicas pessoas habilitadas para localizar o misterioso barco e fazer cessar a sua mensagem de anátema são os anciãos pepelis e grandes muruss/marabus ("dunus di tchon"), dotados de poderes mágicos e conhecedores profundos da trágica história. Caso contrário, sentenciam os mitómanos, jamais a Guiné-Bissau alcançará a verdadeira Paz, Harmonia Social e o Progresso nacional que o povo tanto almeja. 



[1] Professor Emílio Kafft Kosta, in Estado de Direito [O Paradigma Zero: Entre Lipoaspiração e Dispensabilidade], p. 169-170, Almedina, Coimbra, 2007).