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Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre VI
“Pedi tão pouco à
vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo
próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, [o] não me pesar muito o
conhecer que existo, o não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim…
Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma,
mas para não ter que desabotoar o casaco. Escrevo, triste, no meu quarto
quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a
minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares
de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de
almas, submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à
esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência
dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa,
uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim
desce-me da inteligência…”
(Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, Lisboa,
2012, p. 44).
Lachrimae Caravaggio
«acabou o tempo de lembrar
choro no dia seguinte
as coisas que devia chorar hoje».
as coisas que devia chorar hoje».
(do bilhete amarrotado de Odonato,
citado por Ondjaki, in Os Transparentes, Caminho, 2013).
O Homem Também Chora
O homem também chora. Chorar é
humano. Compreender esta grande verdade antropológica é reconhecer o óbvio,
ao contrário do mito urbano que se propala por aí. Ele derrama lágrimas porque
tem necessidade de fazê-lo, uma vez que que dispõe de coração, sentidos,
emoções, inclinações, aspirações, paixões e sofre contradições e contrariedades
da vida. Não tem nada a ver com tibieza, tal como algumas almas erradamente
julgam. Mesmo os colossos choram perante a impotência momentânea que lhes vão enturvando.
É um cardápio inevitável e indispensável da nossa transitória peregrinação
neste "Vale de Lágrimas".
O Homem chora para aplacar os anseios,
insucessos, perdas, frustrações, desgostos, sofrimentos, felicidades súbitas e desequilíbrios
emocionais que vai tendo no seu percurso para, deste modo, libertar o estado de
alma. Pode, nesta esteira do pensamento, chorar tanto pelas coisas boas como
pelas coisas más. É um processo completamente natural, tendo em conta os desencontros
e antagonismos que encerram a madrasta vida. Por isso, não há nenhuma
inconveniência em manifestar a sua sensibilidade psicoemocional através do choro
e pensar o oposto é totalmente surreal.
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