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O Trágico Acidente do Elevador da Glória em Lisboa

Há três dias que estou a tentar digerir o funesto acidente do Elevador da Glória em Lisboa, reflectindo de forma demorada e profunda na brevidade da vida e na sua fugacidade, sobretudo no sofrimento brutal e incalculável que a morte causa nas famílias enlutadas. Realmente, nunca sabemos o dia em que vamos morrer, não obstante termos a consciência plena que viemos a este mundo para morrer e que, cedo ou tarde, teremos um dia que enfrentar a morte. Todos nós, sem excepção, vamos morrer um dia. É só uma questão de tempo até chegar aquele dia. 

Mesmo assim, apesar desta inequívoca verdade humano-antropológica manifestamente conhecida por todos nós, ninguém idealiza que vai morrer na sua correria do dia-a-dia e, muito menos, num acidente ou de forma prematura. A morte é imprevisível, repentina, surpreendente, implacável, assustadora e trágica. Ela ainda é extremamente maléfica, dolorosa, injusta, impiedosa, horrorosa e diabólica. Com a morte morre com ela todas as capacidades, criatividades, potencialidades, desafios e os legítimos sonhos do ser humano, deixando a dor e o sofrimento no seio dos familiares e amigos daqueles que são vítimas dela. 

O trágico acidente do Elevador da Glória em Lisboa, no passado dia 3 do corrente mês, enquadra-se em tudo aquilo que acabei de salientar: da monstruosidade e impiedade da morte. Um terrível acidente com o histórico e famoso elétrico de Lisboa dizimou, em poucos minutos, vidas de dezasseis pessoas que estavam apenas nos seus afazeres de vida. Um devastador acidente que, de uma só vez, ceifou vidas de dezasseis pessoas. O desolador acidente matou prematuramente inocentes homens e mulheres – que tinham ainda incontáveis e legítimos sonhos de vida que, deste modo, ficaram por realizar. Um fatídico acidente, que ninguém previa, matou cinco portugueses, dois sul-coreanos, um suíço, três britânicos, dois canadianos, um ucraniano, um americano e um francês, deixando mais de duas dezenas internadas no hospital, estando alguns destes internados a correr ainda sérios riscos de vida. 

Lamento do fundo do meu coração toda esta trágica situação. Lamento profundamente a irrecuperável perda de vidas humanas que resultou do maldito acidente. Lamento imenso a condição clínica de todos aqueles que, neste momento, estão internados nos hospitais em consequência do sinistro acidente. Lamento sentidamente a situação de dor e sofrimento de todos aqueles que perderam ente-queridos no acidente e, em consequência, estão em grande pranto e sofrimento. Ninguém merece este destino fatídico. É um destino doloroso com séries implicações directas e colaterais na vida das vítimas e dos seus familiares. Ninguém merece mesmo isso: nem os que infelizmente morreram, nem os que estão hospitalizados, nem os que tiveram ferimentos ligeiros e nem mesmo a nossa cidade de Lisboa. 

Deixo aqui publicamente a minha singela e sentida homenagem a todos aqueles que foram directa e indirectamente vítimas deste mortífero acidente, rogando ao Todo-Poderoso DEUS que possa amparar, consolar, fortalecer e ajudar todos aqueles que perderam infelizmente as suas famílias, bem como curar com o Seu Poder Restaurador os que se encontram ainda hospitalizados e completamente traumatizados com o macabro acidente. Que o Eterno DEUS seja com todos que estão a sofrer com a desoladora situação e a todos abençoe na Sua graça, amor, perdão, consolação e protecção. Que assim seja. 

A Precariedade da Vida Humana


A vida é precária em todas as suas dimensões humano-antropológicas. Tão precária que ela é que hoje estamos aqui e amanhã já não estamos. Estamos sempre a correr sérios riscos de vida a todos os níveis. Riscos que acautelamos e riscos que não conseguimos acautelar. Riscos previsíveis e riscos imprevisíveis. E, por fim, riscos visíveis e riscos invisíveis. Somos seres condicionados, vulneráveis, limitados, transitórios, mortais e finitos. A nossa vida é extremamente curta e passageira. Passa tão rápido que nos ultrapassa completamente. 

Por isso, somos meros peregrinos e forasteiros neste maldito mundo em que abundam desgraçadamente a miséria, a traição, a decepção, o ódio, a vingança, a guerra, a dor, o sofrimento e a morte. Viemos a este mundo para morrer, infelizmente (LER)Esta é a nossa pior tragédia. A tragédia das tragédias que herdámos do pecado original de Adão Eva. A nossa existência é manifestamente insignificante perante o tamanho desafio da morte que nos espera a todos, razão pela qual não nos serve de nada encarnar a soberba, a maldade e toda a sorte de desumanidade no nosso substrato identitário. É contraproducente incorporar tais malévolos vícios, tendo em conta a fugacidade da vida e a nossa finitude. O certo, e mais sensato e proveitoso, é reconhecermos a nossa inutilidade e cultivar diariamente a virtude do amor, tolerância, perdão, solidariedade e reconciliação com DEUS e com o próximo à nossa volta, preparando assim, da melhor forma possível, a nossa passagem para o além. 

A vida é realmente curta, madrasta e efémera. Tanto que, por esta razão, os autores sagrados convergiam unanimemente em adjectivar a vida de “sopro”, “neblina” e “sombra passageira”, confirmando deste modo a sua transitoriedade e finitude. O rei David, no seu famoso Salmo, considerava que “o homem é como um suspiro; a sua vida passa como uma sombra” (Sl 144:3). O servo Tiago questionava os seus leitores em tom exortativo, demonstrando-lhes a insignificância da natureza humana e a fragilidade da vida: “que é a vossa vida? Sois um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece” (Tg 4:14). Na mesma esteira do pensamento, o sábio Salomão escrevia que “nem do sábio nem do ignorante ficará recordação que dure para sempre. Com o passar dos tempos, tudo se esquece. Tanto morre o sábio como o ignorante. (…). Sim, tudo é ilusão. É correr atrás do vento!” (Ec 2:16-17). 

Não obstante esta grande verdade exposta, que todos nós conhecemos e sabemos, doem-me imensamente o coração das perdas de vidas que vamos reiteradamente assistindo e ouvindo. Perdas vindas de perto e de longe. Perdas repentinas dos nossos familiares, amigos, colegas, conhecidos, desconhecidos e semelhantes nossos. Perdas que acontecem por causas naturais e acidentais, bem como perdas precipitadas pelas acções deliberadas do Homem. Perdas, sobretudo, provocadas pelas hediondas guerras que matam milhões de pessoas em todo o mundo e deixam rastos de destruição funestas e incalculáveis. 

Entristece-me profundamente a alma todas essas sistémicas e sistemáticas catástrofes, tragédias e desgraças sem fim à vista, a que vamos impotentemente presenciando, de perto e de longe, através das notícias que nos vão chegando. Tudo isto reforça ainda, cada vez mais, a minha descrença completa no ser humano e no mundo em geral. A minha inabalável fé e esperança estão unicamente firmados no Todo-Poderoso DEUS e no Seu Unigénito Filho Jesus Cristo, o meu eterno e Senhor e Salvador. 

A vida, em suma, é demasiado passageira e nós não somos absolutamente nada sem DEUS. Eis a grande e inequívoca verdade soteriológica, que precisamos interiorizar na nossa árdua e instantânea peregrinação neste “Vale de Lágrimas”, que tem impreterivelmente os dias contados pela mortalidade no curso do tempo.

Não Nascemos Para Sofrer

Não nascemos para sofrer. Sim, não nascemos mesmo para sofrer. Nós, os seres humanos, não viemos a este mundo para sofrer. Não estamos minimamente preparados, em nenhuma fase ou circunstância, para sofrer. Não esperamos o sofrimento entrar no nosso percurso de vida. Não fazemos votos para o sofrimento ou conviver pacificamente com ele. Não folgamos ou ansiamos o sofrimento, antes pelo contrário detestamo-lo a todos os níveis. O sofrimento remete-nos, em última instância, para a fragilidade do ser humano e o prenúncio da sua degeneração, fatalidade, perecibilidade e finitude. O sofrimento está intrinsecamente ligado à debilidade, à fraqueza, à incapacidade, à doença, à dor e à morte. O sofrimento descaracteriza e mata.  Por isso, ele é “contranatura” porque afecta e coloca em causa a nossa constituição física, estrutura psicossomática e a própria existência, criando em nós atrofiamentos e lesões de personalidade insuperáveis e, em casos extremos, funestos. 

Qualquer sofrimento carrega um pesar. É um pressuposto assente em todo e qualquer tipo de sofrimento humano. Podemos infelizmente sofrer por nós próprios, pelos nossos familiares, pelos nossos amigos, pelos terceiros e pela humanidade em geral. O sofrimento indiscriminadamente atinge tudo e todos. Nenhum ser humano à face da terra é imune ao sofrimento ou lida bem com ele. O sofrimento afecta os pobres e, concomitantemente, os ricos. Também apanha pessoas doutas e pessoas indoutas. Abarca homens e mulheres. Atinge os adultos e as inofensivas criancinhas. Podemos, a título exemplificativo, sofrer pelo amor, pela injustiça, pela traição, pela decepção, pela agressão, pela discriminação, pela rejeição, pela solidão, pela doença e pela perda de um ente querido, etc. Praticamente todo o mundo vive sofrendo (naturalmente, com graduações diferentes, dependendo da situação e contexto que cada um está inserido). O objectivo do sofrimento é arruinar-nos, aliás, ele ilustra bem a condição de depravação do ser humano e da sua destruição (as almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Veja, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri[1]. Tanto que, por esta razão, numa perspectiva geral, o sofrimento não é tomado comummente como sendo algo de bom[2]

O ilustre Escritor Fernando Pessoa, no seu “Livro do Desassossego”, apelidava manifestamente o sofrimento como sendo “a dura opressão do coração”. O reputado autor alemão Johann Wolfgang von Goethe, na sua emblemática obra “Fausto”, considerava-o “ausência completa da alegria” (ALI) e (AQUI). O Salmista Hemã de Canaã classificava o sofrimento de “companhia das trevas” (Sl 88:1-18 (ALI) e (AQUI). O “sufoco permanente da alma”, definia-o desta forma o autor bíblico do livro de Job. 

Todos estes autores conotam o sofrimento com a solidão, a angústia, a dor, o quebrantamento, o fracasso, a fatalidade e o choro. No Bilhete Amarrotado de Odonato, citado pelo poeta angolano Ondjaki, em “Os Transparentes”, desabafa em tom fatídico que «acabou o tempo de lembrar/choro no dia seguinte/as coisas que devia chorar hoje» (LER)“Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus”, lamentavam os oprimidos escravos afro-americanos neste famoso hino Cristão[3]. Na mesma esteira do pensamento, os conhecidos sertanejos brasileiros Tonico & Tinoco, na melancólica música “Saudade de Matão”, consideravam aflitivamente que “esta dor que me consome/Não posso viver/Quero morrer/Vou partir pra bem longe daqui/Já que a sorte não quis/Me fazer feliz” (LER). Vejo, desabafa uma mulher profundamente deprimida citada no Segundo Sexo da feminista Simone de Beauvoir, “que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam (LER)[4]. O sofrimento, de uma forma esboçada e subsumida, é um acidente no percurso do Homem e, simultaneamente, uma desgraça que ele vai carregando no seu dia-a-dia, culminando com a sua degeneração e morte. 

Se é verdade que todos nós, sem excepção, sofremos neste “vale de lágrimas” por razões múltiplas supramencionadas, também é verdade que somente aqueles que não se resignam conseguem usar o sofrimento para o seu aperfeiçoamento ético, moral e espiritual. Por outras palavras, não se deixar nunca vencer pelo sofrimento, mas superá-lo de forma determinada com bastante fé em DEUS. 

O Servo Sofredor, o Senhor Jesus Cristo, o Homem experimentado nos sofrimentos (Is 53:1-12), foi o maior e melhor exemplo de todos da forma como podemos sair vitoriosos em meio do sofrimento. Ele, conhecedor profundo das implicações humano-sociais do sofrimento na vida de uma pessoa, exortava categoricamente no Sermão do Monte: “bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mateus 5:4 –  [VER] ). Os que semeiam em lágrimas neste mundo, asseverava o salmista no cântico da peregrinação, “segarão com alegria” (Sl 126:5 – [VER]). São os mesmos homens e mulheres de boa vontade que “Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap 21:4). Que assim seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor e Salvador Jesus Cristo. 



[1] As almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Vide, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri. 

[2] Embora haja correntes de pensamento que defendem, em determinados casos, o sofrimento como antídoto para o amadurecimento e aperfeiçoamento humano, nomeadamente o Cristianismo e o Estoicismo. Mesmo assim, estas duas correntes não o tomam de per si como um fim para o melhoramento, mas como um instrumento pontual que pode nos ajudar a ter noção real das coisas e, desta forma, ampliar os nossos horizontes na maneira de encarar os enormes desafios da vida (LER)

[3] Verso de um famoso espiritual negro, “Nobody knows the trouble i've seen”. (N. do T.), extraído in “Eu Tenho um Sonho – A Autobiografia de Martin Luther King, Jr., Bizâncio, Lisboa, 2003, p. 389. 

[4] Simone de Beauvoir, in Segundo Sexo2, Quetzal, Lisboa, 2015, p. 485 (LER)

Não Nascemos Para Sofrer

Não nascemos para sofrer. Sim, não nascemos para sofrer. Nós, os seres humanos, não viemos a este mundo para sofrer. Não estamos minimamente preparados, em nenhuma fase da nossa vida, para sofrer, insisto. Não esperamos o sofrimento. Não fazemos votos para o sofrimento. Da mesma sorte não folgamos ou ansiamos o sofrimento, antes pelo contrário detestamo-lo a todos os níveis. O sofrimento remete-nos, em última instância, para a fragilidade do ser humano e o prenúncio da sua degeneração e perecibilidade. O sofrimento está intrinsecamente ligado à debilidade, à incapacidade, à doença, à dor e à morte. O sofrimento, sem dúvida, descaracteriza e mata.  Por isso, ele é “contranatura” porque afecta e coloca em causa a nossa constituição física, estrutura psicossomática e a própria existência, criando em nós atrofiamentos e lesões de personalidade insuperáveis e, em casos extremos, funestos. 

Todo o sofrimento carrega um pesar. É um pressuposto assente em todo e qualquer tipo de sofrimento humano. Podemos infelizmente sofrer por nós próprios, pelos nossos familiares, amigos e terceiros. O sofrimento indiscriminadamente atinge tudo e todos. Nenhum ser humano é imune ao sofrimento ou lida bem com ele. Afecta os pobres e os ricos. Também apanha pessoas doutas e indoutas. Abarca homens e mulheres. Podemos, a título exemplificativo, sofrer pelo amor, pela injustiça, pela agressão, pela discriminação, pela rejeição, pela doença e pela perda de um ente querido. Praticamente todo o mundo vive sofrendo (naturalmente com graduações diferentes, dependendo da situação e contexto de cada um). O objectivo do sofrimento é arruinar-nos, aliás, ele ilustra bem a condição de depravação do ser humano e da sua destruição (as almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Vide, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri). 

Tanto que, por esta razão, numa perspectiva geral, o sofrimento não é tomado commumente como sendo algo de bom[1]. O ilustre escritor Fernando Pessoa, no seu livro do Desassossego, apelidava-o como sendo “a dura opressão do coração”. O reputado autor alemão Johann Wolfgang von Goethe, na sua emblemática obra Fausto, considera o sofrimento como a “ausência completa da alegria” (LER). O Salmista Hemã de Canaã chamava-o de “companhia das trevas” (Salmo 88:1-18 (VER)). O “sufoco permanente da alma”, definia-o desta forma o autor bíblico do livro de Job. 

Todos estes autores conotam o sofrimento com a solidão, a angústia, a dor, o quebrantamento, o fracasso, a fatalidade e o choro persistente. No bilhete amarrotado de Odonato, citado pelo renomado Poeta angolano Ondjaki, em Os Transparentes, desabafa em tom fatídico e de prolongamento que «acabou o tempo de lembrar/choro no dia seguinte/as coisas que devia chorar hoje» (LER)“Nobody knows the trouble I've seen”/“Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus”, denunciavam os escravos afro-americanos neste famoso hino Cristão. Na mesma esteira do pensamento, os famosos sertanejos brasileiros Tonico & Tinoco, na melancólica música Saudade de Matão, consideravam que “ninguém conhece a razão porque eu choro no mundo assim” (VER). Vejo, desabafa uma mulher deprimida citada no Segundo Sexo da feminista Simone de Beauvoir, “que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam” (LER). O sofrimento, de forma esboçada, é um acidente no percurso do Homem e concomitantemente uma desgraça que vai carregando no seu dia-a-dia, culminando com a sua degeneração e morte. 

Se é verdade que todos nós, sem excepção, sofremos neste “vale de lágrimas” por razões múltiplas, também é verdade que somente aqueles que não se resignam conseguem usar o sofrimento para o seu aperfeiçoamento Ético, Moral e Espiritual. Por outras palavras, não se deixar vencer pelo sofrimento, mas superá-lo de forma determinada. O Servo Sofredor, o Senhor Jesus Cristo, o Homem experimentado nos sofrimentos (Isaías 53:1-12), foi o maior e melhor exemplo de todos da forma como podemos sair vitoriosos  em meio do sofrimento. ELE, conhecedor profundo das implicações humano-sociais do sofrimento na vida de uma pessoa, exorta peremptoriamente no Sermão do Monte que “bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mateus 5:4. (VER)Os que semeiam em lágrimas neste mundo, asseverava o salmista, “segarão com alegria” (Salmos 126:5). São os mesmos homens e mulheres de boa vontade que “Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4). Que assim seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor Jesus Cristo.


[1] Embora haja correntes de pensamento que defendem, em determinados casos, o sofrimento como antídoto para o amadurecimento e aperfeiçoamento humano, nomeadamente o Cristianismo e o Estoicismo. Mesmo assim, estas duas correntes, não o tomam de per si como um fim para o melhoramento, mas como um instrumento pontual que pode nos ajudar a ter noção real das coisas e, desta forma, ampliar os nossos horizontes na maneira de encarar os enormes desafios da vida (LER)

Luto Pela Minha Flagelada Guiné-Bissau


«A minha casa é escura, o centro do meu jardim e o deserto são escuros,
[…] todos os cantos desta cidade arruinada são pretos.
O céu está cansado; o sol rendeu-se.
Tal como a cela duma prisão, a lua viajante é escura[1]



[1] Quhar Ausi, Trevas (Tareeq), 1990, citado por Robert Fisk, in «A Grande Guerra Pela Civilização», p. 767, Edições 70, Lisboa, 2009. 

O Drama Sírio


«Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até à eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor: (…)
Deixai toda a esperança, vós que entrais.» 

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(Dante Alighieri, in “A Divina Comédia”, Quetzal, Lisboa, 2013, p. 47). 

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre VII


«Salva-me, ó Deus, porque estou quase a afogar-me;
estou a afundar-me num pântano profundo,
não tenho onde apoiar os pés.
Vim parar em águas muito fundas
e a corrente está a arrastar-me.
Estou rouco de gritar, dói-me a garganta;
os meus olhos cansaram-se de esperar, ó meu Deus!
São mais os que me odeiam sem razão
do que os cabelos da minha cabeça;
mais numerosos são ainda os inimigos
que mentem contra mim.
Terei então de restituir aquilo que não roubei? 

Tu, ó Deus, conheces bem a minha insensatez;
não posso esconder de ti as minhas culpas.
Que não passem vergonha por minha causa
os que confiam em ti, ó Senhor, Deus todo-poderoso.
Que aqueles que te procuram
não fiquem desiludidos por causa de mim, ó Deus de Israel.
Por amor de ti tenho sofrido insultos;
a minha cara cobriu-se de vergonha.
Sou como um estranho para os meus irmãos;
sou um desconhecido para os filhos da minha mãe. 

O zelo da tua casa me consome;
as ofensas dos que te insultam caíram sobre mim.
Mesmo quando eu choro e jejuo
eles fazem troça de mim;
mesmo quando me visto de luto
eles escarnecem de mim.
Falam de mim pelas ruas da cidade
e os bêbedos cantam cantigas sobre mim. 

Eu, porém, Senhor, dirijo-me a ti em oração;
responde-me, ó Deus, quando achares oportuno,
responde-me, pelo teu grande amor!
Tu que és ajuda fiel,
tira-me do lodo para que não me afunde!
Salva-me dos que me odeiam e das águas profundas!
Não deixes que a corrente me arraste;
não deixes que o abismo me engula,
nem que a boca do poço se feche sobre mim! 

Responde-me, Senhor, porque o teu amor é bondade;
olha para mim, pela tua grande compaixão.
Não desvies o olhar deste teu servo;
responde-me depressa, porque estou em perigo!
Aproxima-te de mim e salva-me;
livra-me dos meus inimigos!
Tu sabes as ofensas, a vergonha e a desonra, que sofri;
tu conheces os meus inimigos!
As ofensas e a doença despedaçam-me o coração.
Esperei compaixão de alguém, mas foi em vão;
não encontrei ninguém que me confortasse.
Deram-me fel, em vez de comida
e, quando tive sede, deram-me vinagre. 

Que os seus banquetes se transformem em armadilha,
para ele e para os seus convidados.
Escurece-lhes a vista, para que não vejam;
enfraquece-lhes os músculos, para que tremam.
Descarrega sobre eles a tua indignação;
Sejam atingidos pelo furor da tua ira!
Que o seu acampamento fique deserto
e que não haja quem habite nas suas tendas,
pois perseguem aqueles que tu castigaste
e troçam das dores dos que tu feriste.
Deixa que aumentem o rol dos seus pecados
e não permitas que alcancem o teu perdão.
Risca-os do livro da vida!
Não os ponhas na lista dos justos!
Mas a mim, que estou aflito e triste,
levanta-me, ó Deus, e salva-me. 

Louvarei com cânticos o nosso Deus;
glorificá-lo-ei, com ações de graças.
Isto será mais agradável para o Senhor
do que sacrifícios de touros e novilhos.
Que os humildes vejam isto e se alegrem
e os que procuram a Deus se encham de coragem,
porque o Senhor escuta os necessitados
e não despreza o seu povo na aflição. 

Louvem o Senhor os céus e a terra,
o mar e todos os seres que o habitam!
Na verdade, Deus há de restaurar Sião,
e reconstruir as cidades de Judá,
e hão de regressar os que tinham sido expulsos.
Os descendentes dos seus servos são herdeiros de Sião
e lá hão de habitar aqueles que o amam.» 

(Ao regente do coro, um Salmo de David, para ser entoado com a melodia de “Os Lírios”, in Salmo 69:1-36, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004). 

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre VI


“Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, [o] não me pesar muito o conhecer que existo, o não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim… Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco. Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas, submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência…” 

(Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, p. 44). 

O Cristianismo e o Sofrimento


O Homem é um ser frágil no seu substrato. Tanto que, por esta razão, é susceptível às doenças, à dor, ao envelhecimento e à mortalidade. A sua constituição física e estrutura psicossomática estão condenadas à degeneração. Esta debilidade no seu arcaboiço deve-se à sentença condenatória que lhe foi imputada aquando da sua impoluta criação no jardim do Éden, tendo em conta as desastrosas consequências do “pecado original” (LER). A partir daí, no percurso do Homem, entraram todas as desgraças mundanais que vão culminando na sua funesta morte. Estes flagelos humano-naturais não estavam previstos no perfeito e ideal mundo em que ele tranquilamente vivia no início e, tão pouco, no seu ADN. Foi tudo acidental. Ele apenas fora criado para viver em plena felicidade e usufruir da agradável companhia do seu Criador. Por isso, o Homem jamais estará preparado para encarar o insucesso, a enfermidade, a desgraça, o sofrimento e a morte. Apenas conta com o estado de felicidade e idealiza-o perenemente em todos os ciclos e vertentes da sua momentânea vida. O que é completamente natural, visto que para isso fora criado. Acontece que, pelas razões sublinhadas, o outrora imaculado destino do Homem ficou obliterado por culpa superveniente do próprio, dando assim lugar à calamidade no mundo. Dito por outras palavras, a inimizade, a tragédia, o sofrimento e a morte passaram  fatalmente a fazer parte do quotidiano do ser humano (LER)

Ora, tais calamitosas situações agravam-se consideravelmente quando se trata particularmente dos eleitos filhos de DEUS. O Cristianismo é uma religião pautada pela renúncia, intensos combates espirituais e sofrimento para assim poder ganhar a imarcescível Coroa da Glória (1 Pedro 5:4; 2 Timóteo 4:8). O símbolo dele é a Cruz e esta, em última instância, representa o sofrimento nas suas várias vertentes humano-antropológica, tal como foi o do Messias (ALI) e (AQUI). E quem quer ser fiel discípulo do Senhor Jesus deve, acima de tudo, estar preparado para carregar a sua Cruz e segui-Lo determinadamente até ao fim (Mateus 16:24). A Fé bíblica e o sofrimento estão visceralmente ligados e completamente indissociáveis, porque somos chamados soberanamente para o sofrimento  (1 Tessalonicenses 3:3) [Ler] e também [AQUI]. Consciente desta grande e inequívoca verdade soteriológica, o Apóstolo Paulo vai ao ponto de vincar que “nós sentimos alegria nos nossos sofrimentos, porque o sofrimento produz a perseverança; a perseverança provoca a firmeza de caráter nas dificuldades e a firmeza produz a esperança. Esta esperança não nos engana, porque Deus encheu-nos o coração com o seu amor, por meio do Espírito Santo que é dom de Deus” (Romanos 5:3-5). 

O sofrimento, diferentemente de uma visão epicurista, ímpia e mundana, é uma virtude Cristã. O sucesso de uma vida piedosa, bem-sucedida e feliz passa inevitavelmente por sofrimento, caso contrário é tudo fachada religiosa que consubstancia o herético “evangelho da prosperidade” que não tem qualquer tipo de acolhimento nas Escrituras Sagradas. Isto não quer dizer que os Cristãos são masoquistas, tal como alguns indoutos e inconstantes poderão precipitadamente distorcer para a sua própria condenação (2 Pedro 3:16). Apenas confirma a identificação e comunhão plena do crente com a essência da mensagem do Evangelho, máxime “conhecer a Cristo e experimentar o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos, chegando a ser como ele na morte, com a esperança de alcançar a ressurreição de entre os mortos” (Filipenses 3:10-11). O sofrimento é um precioso instrumento que o nosso Omnisciente DEUS usa para moldar a vida dos seus eleitos filhos e, deste modo, prepará-los espiritualmente para entrar no Céu – como aconteceu com os grandes heróis da fé (Hebreus 11:1-40). 

É verdade que há sofrimento resultante do pecado, como tem acontecido ao longo da História do Cristianismo. Apesar disso, sabemos que, independentemente do pecado, o sofrimento é algo que faz e fará sempre parte da vida do crente no Senhor Jesus Cristo. O sofrimento é manifestamente inevitável e indispensável na via-sacra Cristã, pois “é preciso passar muitos sofrimentos até entrar no reino de Deus” (Actos 14:22), razão pela qual não temos qualquer receio ou medo de sofrer e encarámo-lo com bastante fé e coragem, uma vez que maior é o que está em nós do que o que está no mundo e nas adversidades que vamos enfrentando neste “vale de lágrimas”  (1 João 4:4). Por isso, “sofremos em tudo dificuldades, mas não ficamos angustiados. Sentimos insegurança, mas não nos deixamos vencer. Perseguem-nos, mas não nos sentimos abandonados. Deitam-nos por terra, mas não nos destroem. Trazemos continuamente no nosso próprio corpo o sofrimento mortal de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nós” (2 Coríntios 4:8-10). 

O sofrimento, importa ainda frisar, não tem a palavra final na vida do Cristão. Os mensageiros de Satanás podem-nos desferir vários golpes e sobretudo  “espinhos na carne”, levando-nos em casos limites a atravessar o “vale da sombra da morte”, mas temos a certeza absoluta que o nosso Todo-poderoso DEUS está e estará sempre connosco para nos auxiliar naquilo que eventualmente precisamos para definitivamente triunfarmos, pois “muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas” (Salmo 34:19). Somos mais que vencedores por Aquele que nos amou e “estamos certos de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:38-39). 

É nesta inabalável certeza de Fé que vivemos, todos os dias, aguardando, sereno e pacientemente, a bem-aventurada esperança eterna (Tito 2:13; Filipenses 3:20-21). Louvado seja DEUS agora e para todo o sempre. Que assim seja; e assim será com a imprescindível ajuda de DEUS. 

O Homem Também Chora. Chorar é Humano

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre V


«O homem está na terra a cumprir duro serviço,
os seus dias são semelhantes aos de um assalariado.
Como um escravo, suspira pela sombra,
como um assalariado, anseia pela paga.
A sorte que me coube foram meses a esperar em vão,
o que me deram foram noites e noites de sofrimento.
Quando me deito, penso:
“Quando conseguirei levantar-me?”
A noite é longa e farto-me de dar voltas até de manhã.
O meu corpo está coberto de vermes e pó,
a minha pele, cheia de chagas purulentas.
Os meus dias passam mais rápidos que uma lançadeira
e chegam ao fim sem qualquer esperança. 

Lembra-te de que a minha vida é como o vento
e nunca mais voltarei a ver a felicidade.
Quem olhar para mim deixará de me ver,
porque o teu olhar caiu sobre mim e me aniquilou.
Como nuvem que se desfaz e desaparece,
também o que desce ao sepulcro não volta a subir.
Não regressa mais à sua casa
e a sua morada nunca mais o reconhecerá.
Por isso, não vou deixar de falar;
falarei da angústia que me oprime,
darei a conhecer a minha amargura.
Será que sou algum dos monstros marinhos,
para voltares contra mim o teu olhar?  
Ainda pensei que, se me deitasse, estaria sossegado,
que isso aliviaria as minhas queixas.
Mas tu aterrorizas-me com pesadelos,
fazes-me ver coisas que me metem medo,
de modo que eu preferia morrer estrangulado
a viver com este meu horrível esqueleto
Não posso viver para sempre;
deixa-me, que os meus dias não passam de uma ilusão!» 

(Queixa de Job a DEUS, in A Bíblia Sagrada, Job 7:16, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004).