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Os Horrores da Guerra na Faixa de Gaza

Ninguém pode ficar indiferente com a catastrófica situação humanitária que se vive há muito tempo na Faixa de Gaza. Ninguém que esteja no seu perfeito juízo pode folgar-se com a indiscriminada mortandade das criancinhas palestinianas, mulheres e homens que, diariamente, de forma bruta e sem piedade, morrem perante as bombas e a fome provocada pelo bloqueio israelita. Realmente, nenhum ser humano pode ficar alheado, omitir, consentir ou aprovar a carnificina na Faixa de Gaza e na Cisjordânia que está a ser perpetrada arbitrariamente pelas tropas israelitas (LER)

Levantar ousadamente a voz para denunciar o despotismo, o abuso, a guerra e a matança deliberada dos inocentes palestinianos nas mãos das tropas israelitas é uma questão de bom senso e de razoabilidade. É uma questão de não pactuar com o esmagamento, a injustiça, a impunidade e a ditadura. Denunciar todos estes desumanos horrores da guerra é uma questão de humanismo e de humanidade.  Denunciar os deliberados crimes de guerra e a propagação do mal é, acima de tudo, uma questão de defesa intransigente dos Direitos Humanos. 

Esta monstruosa guerra ultrapassa qualquer tipo de crenças firmadas e status quo. Também ultrapassa as diferentes ideologias, modus vivendi e as mundividências que cada um de nós possa ter sobre a legitimidade, ou não, de uma guerra. Ultrapassa ainda qualquer tipo de querelas políticas e as crónicas disputas territoriais na Terra Santa entre os judeus e palestinianos. Esta vergonhosa guerra ultrapassa todos os pressupostos axiológicos da Carta das Nações Unidas, bem como tudo aquilo que é o mais correcto, sensato, justo, aceitável, tolerável e humano. 

Por isso, é urgente que o mundo inteiro levante a sua voz para travar definitivamente a ocupação israelita na Faixa de Gaza e a escandalosa política dos colonatos na Cisjordânia. É preciso, mais que isso, que o mundo e todos os homens e mulheres de “boa vontade” convirjam num único esforço de, com carácter de urgência, obrigar Israel a cessar imediatamente com a descabida guerra e negociar a libertação dos reféns israelitas que ainda estão nas mãos dos terroristas do Hamas. 

Se na primeira fase da guerra, depois do inesperado massacre que Israel foi vítima por parte dos terroristas do Hamas, culminando na injustificada e horripilante morte de mais de mil inocentes israelitas, fazia todo o sentido que Israel reagisse e defendesse a sua integridade, isto é, responsabilizar os perpetradores desta inenarrável barbaridade humana. A pronta e justa resposta de Israel, no início, tinha a completa justificação legal, política, ética e moral à luz do Direito Internacional (LER)

No entanto, depois de algum tempo, já não fazia sentido continuar teimosamente com a prejudicial guerra, tal como Israel tem vindo a fazer, ignorando todas as evidências e chamadas de atenção de países e entidades internacionais. Continuar ad aeternum com esta mortífera guerra colide frontalmente com todos os princípios e disposições de Direito Internacional, sobretudo o Direito Internacional Humanitário estabelecido nas Convenções de Genebra e os seus Protocolos Adicionais (LER)

Neste momento, não se pode falar da legítima defesa por parte de Israel, tendo em conta a desproporcionalidade abismal do saldo da guerra para ambos os lados. Estamos a caminhar para aproximadamente 60 mil mortes e milhares de feridos palestinianos contra mil e tal mortes e algumas centenas de feridos por parte de Israel. 

Da mesma sorte que não hesitei em condenar publicamente o horripilante massacre do Hamas contra Israel no dia sete de Outubro de 2023 (LER), também não hesito em condenar aqui publicamente a mortífera guerra que Israel está a fazer de algum tempo a esta parte na Palestina, principalmente na Faixa de Gaza, ceifando milhares de vidas e deixando um rasto de destruição incalculável. 

É com bastante dor, e com o coração completamente dilacerado, que tenho estado a acompanhar de perto esta sangrenta guerra sem fim à vista (LER). É com bastante sofrimento e impotência que vejo a apatia, impotência e falta de boa vontade por parte dos actores políticos mundiais para solucionar definitivamente esta assustadora guerra. É, por fim, com bastante dor e coração partido que me tenho curvado diante do nosso Todo-Poderoso DEUS em oração, pedindo-Lhe a urgente ajuda para que acabe com esta loucura mortandade. 

Estão no meu coração todos os inocentes palestinianos que estão a ser diariamente atormentados pelas indiscriminadas bombas dos israelitas. Estão no meu coração todos os Cristãos palestinianos, os meus irmãos na Fé, que estão desesperados, com perdas humanas dos seus entes familiares e amigos. Estão no meu coração todas as inocentes vítimas de forma directa e indirecta desta maldita guerra – tanto do lado judeu como do lado palestiniano –, especialmente as vítimas mortais de ambos os lados. 

É impreterível acabar com esta terrifica guerra que não é benéfica para ninguém. Acabar com esta mortífera guerra, que não é proveitosa para as partes beligerantes e também para o mundo em geral. É extremamente importante acabar com esta hedionda guerra para, desta forma, o mais rapidamente possível, libertar todos os reféns israelitas que ainda estão no cativeiro do Hamas na Faixa de Gaza. Só cessando esta guerra se poderá abrir caminho para a libertação dos pobres reféns israelitas e a tão almejada paz naquela conturbada região do globo. 

Em suma, é importante acabar com a guerra para poupar vidas e, consequentemente, cessar os tremendos horrores humanitários que se vivem na Faixa de Gaza há muito tempo. Esta interminável e abominável guerra é uma autêntica desumanização e vergonha para toda a humanidade. E deve acabar já para o bem de todos! 

Reflexão Proustiana

Li algures, em tom de acolhimento, que toda a existência e o percurso do Homem se baseiam meramente no factor tempo. É um entendimento minimalista, redutor e bastante discutível do ponto de vista antropológico. Confesso publicamente que não sou proustiano. Não lamento a nostalgia do tempo e nem tão pouco fico ansioso por ele. 

Para mim não existe “o tempo perdido” e “o tempo reencontrado”. Da mesma sorte, “o tempo medido” e “o tempo contado”, tal como convencionado unanimemente pelos seres humanos, são configurações diferentes da mesma realidade, consubstanciando simples fenómenos naturais que o próprio tempo encarna e processa no seu âmago. Qualquer tempo é tempo. Logo, nesta ordem de ideias, tudo é tempo. Considero-me mais salomónico a nível do tempo, sobretudo na sua pré-determinada implicação teológica e teleológica. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”, observava inspiradamente o sábio Salomão na sua construção dogmática no livro de Eclesiastes (Ec 3:1). 

Não tenho qualquer tipo de preferência por nenhuma estação do ano em concreto – nem pelos fusos horários que se vão alternando no universo. Gosto da manhã, da tarde e da noite. Sou do calor e, concomitantemente, do frio. Tropicalista por natureza e subantártico por afinidade. Tanto que, por esta razão, maravilho-me com o Inverno, a Primavera, o Verão e o Outono. Gosto, igualmente, de períodos de chuva e de seca. As mudanças climatéricas não passam, a meu ver, de meras ocorrências cíclicas resultantes do movimento de rotação e de translação da Terra. Nada mais. Tudo o que extravasa este raio de compreensão é pura especulação e raciocínios falazes. Por isso, aprecio imenso todas as épocas do ano, procurando, na medida do possível, ajustar as suas cómodas e/ou incómodas particularidades naturais. 

É o destino que marca a hora e esta, por sua vez, traça o tempo. Sem o destino não há horas e tão pouco agendas temporais. São as duas primeiras conjugações que formam e caracterizam o tempo que concebemos e idealizamos. A existência do Homem é o produto da providência Divina que se veio concretizar milagrosamente no âmago do tempo. Talvez seja por esta mesma razão que damos demasiada primazia ao tempo, sem nos apercebermos disso. Ansiamo-lo, a cada momento que passa, e vivemos toda a nossa vida dependente dos seus sinais e condicionalismos, conformando-nos com a subtil ideia de que somos produtos casuísticos do tempo, até ao dia que o tempo nos consuma para sempre no curso infinito do tempo.

Desumanização da Eutanásia


Partilho aqui, mais uma vez, o vídeo que gravei no ano passado intitulado “A Desumanização da Eutanásia”. A legalização da eutanásia, tal como oportunamente escrevi (LER), é uma das piores aberrações comportamentais contemporâneas. Uma autêntica abominação em todas as suas dimensões humano-antropológicas. É um acto monstruoso e inqualificável. A eutanásia é a provocação deliberada da morte antes do seu tempo natural. É matar literalmente, sob o pretexto de “boa morte” ou “morte suave”. Também configura um insulto à razão conotar a eutanásia como um ato de compaixão e de respeito pela liberdade dos outros. A eutanásia é claramente incompatível com o personalismo ético e quaisquer valores axiológicos da Dignidade da Pessoa Humana e do Direito à Vida (VER)

Não Nascemos Para Sofrer

Não nascemos para sofrer. Sim, não nascemos mesmo para sofrer. Nós, os seres humanos, não viemos a este mundo para sofrer. Não estamos minimamente preparados, em nenhuma fase ou circunstância, para sofrer. Não esperamos o sofrimento entrar no nosso percurso de vida. Não fazemos votos para o sofrimento ou conviver pacificamente com ele. Não folgamos ou ansiamos o sofrimento, antes pelo contrário detestamo-lo a todos os níveis. O sofrimento remete-nos, em última instância, para a fragilidade do ser humano e o prenúncio da sua degeneração, fatalidade, perecibilidade e finitude. O sofrimento está intrinsecamente ligado à debilidade, à fraqueza, à incapacidade, à doença, à dor e à morte. O sofrimento descaracteriza e mata.  Por isso, ele é “contranatura” porque afecta e coloca em causa a nossa constituição física, estrutura psicossomática e a própria existência, criando em nós atrofiamentos e lesões de personalidade insuperáveis e, em casos extremos, funestos. 

Qualquer sofrimento carrega um pesar. É um pressuposto assente em todo e qualquer tipo de sofrimento humano. Podemos infelizmente sofrer por nós próprios, pelos nossos familiares, pelos nossos amigos, pelos terceiros e pela humanidade em geral. O sofrimento indiscriminadamente atinge tudo e todos. Nenhum ser humano à face da terra é imune ao sofrimento ou lida bem com ele. O sofrimento afecta os pobres e, concomitantemente, os ricos. Também apanha pessoas doutas e pessoas indoutas. Abarca homens e mulheres. Atinge os adultos e as inofensivas criancinhas. Podemos, a título exemplificativo, sofrer pelo amor, pela injustiça, pela traição, pela decepção, pela agressão, pela discriminação, pela rejeição, pela solidão, pela doença e pela perda de um ente querido, etc. Praticamente todo o mundo vive sofrendo (naturalmente, com graduações diferentes, dependendo da situação e contexto que cada um está inserido). O objectivo do sofrimento é arruinar-nos, aliás, ele ilustra bem a condição de depravação do ser humano e da sua destruição (as almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Veja, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri[1]. Tanto que, por esta razão, numa perspectiva geral, o sofrimento não é tomado comummente como sendo algo de bom[2]

O ilustre Escritor Fernando Pessoa, no seu “Livro do Desassossego”, apelidava manifestamente o sofrimento como sendo “a dura opressão do coração”. O reputado autor alemão Johann Wolfgang von Goethe, na sua emblemática obra “Fausto”, considerava-o “ausência completa da alegria” (ALI) e (AQUI). O Salmista Hemã de Canaã classificava o sofrimento de “companhia das trevas” (Sl 88:1-18 (ALI) e (AQUI). O “sufoco permanente da alma”, definia-o desta forma o autor bíblico do livro de Job. 

Todos estes autores conotam o sofrimento com a solidão, a angústia, a dor, o quebrantamento, o fracasso, a fatalidade e o choro. No Bilhete Amarrotado de Odonato, citado pelo poeta angolano Ondjaki, em “Os Transparentes”, desabafa em tom fatídico que «acabou o tempo de lembrar/choro no dia seguinte/as coisas que devia chorar hoje» (LER)“Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus”, lamentavam os oprimidos escravos afro-americanos neste famoso hino Cristão[3]. Na mesma esteira do pensamento, os conhecidos sertanejos brasileiros Tonico & Tinoco, na melancólica música “Saudade de Matão”, consideravam aflitivamente que “esta dor que me consome/Não posso viver/Quero morrer/Vou partir pra bem longe daqui/Já que a sorte não quis/Me fazer feliz” (LER). Vejo, desabafa uma mulher profundamente deprimida citada no Segundo Sexo da feminista Simone de Beauvoir, “que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam (LER)[4]. O sofrimento, de uma forma esboçada e subsumida, é um acidente no percurso do Homem e, simultaneamente, uma desgraça que ele vai carregando no seu dia-a-dia, culminando com a sua degeneração e morte. 

Se é verdade que todos nós, sem excepção, sofremos neste “vale de lágrimas” por razões múltiplas supramencionadas, também é verdade que somente aqueles que não se resignam conseguem usar o sofrimento para o seu aperfeiçoamento ético, moral e espiritual. Por outras palavras, não se deixar nunca vencer pelo sofrimento, mas superá-lo de forma determinada com bastante fé em DEUS. 

O Servo Sofredor, o Senhor Jesus Cristo, o Homem experimentado nos sofrimentos (Is 53:1-12), foi o maior e melhor exemplo de todos da forma como podemos sair vitoriosos em meio do sofrimento. Ele, conhecedor profundo das implicações humano-sociais do sofrimento na vida de uma pessoa, exortava categoricamente no Sermão do Monte: “bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mateus 5:4 –  [VER] ). Os que semeiam em lágrimas neste mundo, asseverava o salmista no cântico da peregrinação, “segarão com alegria” (Sl 126:5 – [VER]). São os mesmos homens e mulheres de boa vontade que “Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap 21:4). Que assim seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor e Salvador Jesus Cristo. 



[1] As almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Vide, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri. 

[2] Embora haja correntes de pensamento que defendem, em determinados casos, o sofrimento como antídoto para o amadurecimento e aperfeiçoamento humano, nomeadamente o Cristianismo e o Estoicismo. Mesmo assim, estas duas correntes não o tomam de per si como um fim para o melhoramento, mas como um instrumento pontual que pode nos ajudar a ter noção real das coisas e, desta forma, ampliar os nossos horizontes na maneira de encarar os enormes desafios da vida (LER)

[3] Verso de um famoso espiritual negro, “Nobody knows the trouble i've seen”. (N. do T.), extraído in “Eu Tenho um Sonho – A Autobiografia de Martin Luther King, Jr., Bizâncio, Lisboa, 2003, p. 389. 

[4] Simone de Beauvoir, in Segundo Sexo2, Quetzal, Lisboa, 2015, p. 485 (LER)

A Geopolítica de Sangue da Rússia de Putin


Qualquer ser humano que prime genuinamente pelo valor sagrado da vida humana não pode ficar indiferente às tremendas chacinas que a Rússia está a cometer neste momento na Ucrânia e, muito menos, hesitar em condenar firmemente o tal despotismo e posicionar-se ao lado do bombardeado povo ucraniano. Não há nenhuma geopolítica ou geoestratégia que possa servir de pretexto para legitimar uma hedionda guerra e consequentemente validar a cultura da morte dos inocentes. A guerra é a pior faceta que o ser humano herdou do pecado original de Adão e Eva. Ela é exclusivamente do Diabo e de todos aqueles que são da perdição eterna. É a manifestação visível do poder destruidor das trevas e o triunfo momentâneo da maldade no mundo. A guerra é a perfeita personificação dos filhos do Diabo na sua actuação com os terceiros. Por isso, é claramente oposta à razão, à paz, à vida, ao humanismo e à humanidade. 

Confesso que fico completamente estupefacto e triste quando vejo determinadas pessoas a procurarem esgrimir argumentos falaciosos, tautológicos e inúteis para justificar o injustificável, isto é, consentir com o massacre da Rússia de Putin na Ucrânia, apontando falsamente a culpa da guerra aos Estados Unidos de América (EUA), NATO, União Europeia (UE). E pergunto: onde ficam então nesta história todos os inocentes e indefesos que todos os dias estão a morrer à nossa vista de forma injusta? Há, porventura, alguma desconfiança ou provocação que possa legitimar uma guerra armada? Será que a geopolítica ou geoestratégia é mais importante do que a vida humana? 

Toda esta fatídica realidade só reforça a decadência ético-moral em que a Humanidade vive há bastante tempo, convergindo cada vez mais para a sua completa ruína e autodestruição. Estamos mesmo a caminhar, paulatinamente, em várias frentes, para os dias do fim: fim do amor, fim da verdade, fim da paz, fim da sobrevivência, fim da humanidade e o fim do mundo. 

Não Nascemos Para Sofrer

Não nascemos para sofrer. Sim, não nascemos para sofrer. Nós, os seres humanos, não viemos a este mundo para sofrer. Não estamos minimamente preparados, em nenhuma fase da nossa vida, para sofrer, insisto. Não esperamos o sofrimento. Não fazemos votos para o sofrimento. Da mesma sorte não folgamos ou ansiamos o sofrimento, antes pelo contrário detestamo-lo a todos os níveis. O sofrimento remete-nos, em última instância, para a fragilidade do ser humano e o prenúncio da sua degeneração e perecibilidade. O sofrimento está intrinsecamente ligado à debilidade, à incapacidade, à doença, à dor e à morte. O sofrimento, sem dúvida, descaracteriza e mata.  Por isso, ele é “contranatura” porque afecta e coloca em causa a nossa constituição física, estrutura psicossomática e a própria existência, criando em nós atrofiamentos e lesões de personalidade insuperáveis e, em casos extremos, funestos. 

Todo o sofrimento carrega um pesar. É um pressuposto assente em todo e qualquer tipo de sofrimento humano. Podemos infelizmente sofrer por nós próprios, pelos nossos familiares, amigos e terceiros. O sofrimento indiscriminadamente atinge tudo e todos. Nenhum ser humano é imune ao sofrimento ou lida bem com ele. Afecta os pobres e os ricos. Também apanha pessoas doutas e indoutas. Abarca homens e mulheres. Podemos, a título exemplificativo, sofrer pelo amor, pela injustiça, pela agressão, pela discriminação, pela rejeição, pela doença e pela perda de um ente querido. Praticamente todo o mundo vive sofrendo (naturalmente com graduações diferentes, dependendo da situação e contexto de cada um). O objectivo do sofrimento é arruinar-nos, aliás, ele ilustra bem a condição de depravação do ser humano e da sua destruição (as almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Vide, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri). 

Tanto que, por esta razão, numa perspectiva geral, o sofrimento não é tomado commumente como sendo algo de bom[1]. O ilustre escritor Fernando Pessoa, no seu livro do Desassossego, apelidava-o como sendo “a dura opressão do coração”. O reputado autor alemão Johann Wolfgang von Goethe, na sua emblemática obra Fausto, considera o sofrimento como a “ausência completa da alegria” (LER). O Salmista Hemã de Canaã chamava-o de “companhia das trevas” (Salmo 88:1-18 (VER)). O “sufoco permanente da alma”, definia-o desta forma o autor bíblico do livro de Job. 

Todos estes autores conotam o sofrimento com a solidão, a angústia, a dor, o quebrantamento, o fracasso, a fatalidade e o choro persistente. No bilhete amarrotado de Odonato, citado pelo renomado Poeta angolano Ondjaki, em Os Transparentes, desabafa em tom fatídico e de prolongamento que «acabou o tempo de lembrar/choro no dia seguinte/as coisas que devia chorar hoje» (LER)“Nobody knows the trouble I've seen”/“Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus”, denunciavam os escravos afro-americanos neste famoso hino Cristão. Na mesma esteira do pensamento, os famosos sertanejos brasileiros Tonico & Tinoco, na melancólica música Saudade de Matão, consideravam que “ninguém conhece a razão porque eu choro no mundo assim” (VER). Vejo, desabafa uma mulher deprimida citada no Segundo Sexo da feminista Simone de Beauvoir, “que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam” (LER). O sofrimento, de forma esboçada, é um acidente no percurso do Homem e concomitantemente uma desgraça que vai carregando no seu dia-a-dia, culminando com a sua degeneração e morte. 

Se é verdade que todos nós, sem excepção, sofremos neste “vale de lágrimas” por razões múltiplas, também é verdade que somente aqueles que não se resignam conseguem usar o sofrimento para o seu aperfeiçoamento Ético, Moral e Espiritual. Por outras palavras, não se deixar vencer pelo sofrimento, mas superá-lo de forma determinada. O Servo Sofredor, o Senhor Jesus Cristo, o Homem experimentado nos sofrimentos (Isaías 53:1-12), foi o maior e melhor exemplo de todos da forma como podemos sair vitoriosos  em meio do sofrimento. ELE, conhecedor profundo das implicações humano-sociais do sofrimento na vida de uma pessoa, exorta peremptoriamente no Sermão do Monte que “bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mateus 5:4. (VER)Os que semeiam em lágrimas neste mundo, asseverava o salmista, “segarão com alegria” (Salmos 126:5). São os mesmos homens e mulheres de boa vontade que “Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4). Que assim seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor Jesus Cristo.


[1] Embora haja correntes de pensamento que defendem, em determinados casos, o sofrimento como antídoto para o amadurecimento e aperfeiçoamento humano, nomeadamente o Cristianismo e o Estoicismo. Mesmo assim, estas duas correntes, não o tomam de per si como um fim para o melhoramento, mas como um instrumento pontual que pode nos ajudar a ter noção real das coisas e, desta forma, ampliar os nossos horizontes na maneira de encarar os enormes desafios da vida (LER)

O Coronavírus e a Mutabilidade da Vida


Se há grande lição que esta pandemia do coronavírus nos vem reconfirmar é que nada é definitivamente garantido na vida, tal como alguns julga(va)m. Tudo é dinâmico, maleável e efémero. A política e a governação são efémeras. O trabalho e a estabilidade são efémeros. A democracia participativa e a liberdade dos cidadãos são efémeras. A comodidades e o bem-estar do dia-a-dia são efémeros. A família e os relacionamentos são efémeros. Da mesma sorte, a saúde e a vida são efémeras. Estamos sempre em constante mudança no espaço e no tempo – tanto para o bem como para o mal. Tudo é mutável, transitório e, em última instância, perecível. 

Há cinco meses, antes de germinar propriamente esta maldita praga do coronavírus, milhares e milhões de pessoas em todo o mundo organizaram as suas vidas de acordo com a condição expectável de cada um. No entanto, viram repentinamente tais expectativas alterarem-se drasticamente e com as profundas implicações práticas a que estamos impotentemente a assistir todos os dias: recessão económico-financeira em todos os países do mundo, desemprego galopante, famílias e amigos forçosamente separados, somando a milhares de pessoas que estão neste momento entre a vida e a morte e os que infelizmente já morreram e vão continuar a morrer paulatinamente, bem como muitas outras calamitosas situações colaterais que se auguram ainda num futuro breve. Tudo se alterou subitamente num abrir e fechar de olhos, deixando-nos reduzidos ao confinamento social e condicionados significativamente no nosso modo de viver. 

Há, para além da verdade acabada de se mencionar, ainda uma outra importantíssima lição que podemos extrair com este maldito coronavírus, nomeadamente que o interesse público deve sempre prevalecer em detrimento do interesse privado. Digo isto porque tem havido uma grande querela doutrinária ao longo dos tempos, persistindo até aos nossos dias, entre os defensores do Individualismo e do Colectivismo. Aqueles, de forma subsumida, dão demasiada primazia à liberdade individual e autodeterminação em detrimento do corporativismo. Ao passo que estes assentam nos pressupostos da realização do individuo dentro da colectividade em que ele está inserido. 

A meu ver, julgo que tem de haver a interdependência entre as duas distantes mundividências da vida, contando que não se ponha em causa a sobrevivência do Homem. E, justamente, por isso, nesta esteira do pensamento, oponho-me manifestamente à legalização da hedionda prática do aborto, do casamento homossexual, da eutanásia e das outras práticas aberrantes que colocam em causa a natureza da vida humana (LER). Com a pandemia do coronavírus, máxime as medidas preventivamente excepcionais que têm sido adoptadas pelos países, vem reforçar ainda mais a verdade de que a sobrevivência humana está acima da democracia, da liberdade e da auto-determinação, razão pela qual somos duramente afectados na nossa autonomia privada em nome da inquestionável sobrevivência colectiva. 

Tudo isto remete-nos primeiramente sobre a ideia cimeira da mutabilidade e transitoriedade da madrasta vida. Somente quando temos a consciência plena da volubilidade da vida e da sua fugacidade é que realmente estamos em condições necessárias de cultivar a sábia arte de viver bem, isto é, reconhecer acima de tudo a nossa insuficiência, fragilidade, finitude, depositar a nossa confiança e esperança exclusivamente em DEUS, amar o próximo como a nós mesmos e consequentemente preparar da melhor forma possível a nossa instantânea morte (LER). Infelizmente, muitas vezes, esquecemo-nos desta importante realidade, optando por nos refugiarmos inutilmente nas garantias ilusórias que não proporcionam uma vida bem-sucedida e feliz. Só quando nos chegam desgraças, tal como a do coronavírus, é que nos lembramos da nossa insignificância, mutabilidade, transitoriedade e perecibilidade. Em suma, nada neste mundo é garantido. De facto, excepto a morte, nada é garantido. 

Uma Questão da Liberdade Semântica


Uma das palavras mais usadas no mundo inteiro durante esta pandemia do coronavírus a que estamos infelizmente ainda a viver, sobretudo na imprensa, são “quarentena”, “distanciamento”, “isolamento” e “confinamento” para reforçar a ideia de as pessoas protegerem-se da maléfica doença e simultaneamente protegerem também os outros. Todas elas acompanhadas, na generalidade das situações, do suplemento “social”, ou seja, quarentena, distanciamento social, isolamento social e confinamento social. A meu ver, sem propriamente ater na origem semântica das expressões em questão, julgo que as três primeiras formulações poderão mais induzir ao “erro morfológico” do que propriamente esta última. 

Desde logo, quando se fala e veicula nos media “quarentena”, “distanciamento social” ou “isolamento social” passa implicitamente a ideia, em última instância, de que tudo isto consubstancia na ausência da sociabilidade e sociabilização. Ora, não é nada disso que está a acontecer, mesmo estando a viver em estado de emergência nacional. O coronavírus não nos reduziu ainda a seres eremitas e tão pouco anacoretas. Continuamos, apesar dos assinaláveis constrangimentos diários, a nos suster pela rede social e também pelas redes sociais, confirmando assim a nossa natureza e substrato gregário. 

Por isso, prefiro mais a expressão “confinamento social” comparativamente com as outras, uma vez que consegue espelhar mais e melhor a realidade de excepção a que estamos infelizmente circunscritos. No entanto, é tudo uma mera questão da liberdade semântica e de arbitrariedade. 

O Valor Sagrado da Vida Humana

A vida humana é sagrada em todas as suas várias configurações antropológicas. Uma premissa que recebeu primeiramente um amplo acolhimento no pensamento Judaico-Cristão, acabando posteriormente por influenciar decisivamente a Magna Carta Inglesa do século XIII, a Revolução Francesa do século XVIII e todas as outras civilizações mundiais. Um valor sagrado que é intrinsecamente indissociável da dignidade, da liberdade, da segurança e da auto-determinação. A todos os seres humanos, sem excepção, são garantidos os Direitos Fundamentais para se auto-realizarem na sociedade, aliás, este também é o entendimento abraçado na disposição da Declaração Universal dos Direitos Humanos e na generalidade das constituições dos países. 

Este valor sagrado da vida não é compatível com as discriminações negativas, independentemente das condições biológico-naturais de cada cidadão no seu círculo de convivência diária ou estatuto social. Ele assegura a todos os cidadãos o princípio da igualdade e das oportunidades. A partir da concepção, período em que começa a vida, até à morte, todos devem beneficiar destes importantíssimos direitos e serem protegidos pela sociedade e o Estado em particular. A começar, desde logo, pelos nascituros, as crianças, os adultos, as mulheres, os homens, os doutos e indoutos, pessoas portadoras de deficiências, nomeadamente os inabilitados e interditos. Em suma, pessoas capacitadas e incapacitadas. Não podemos, em circunstância alguma, beneficiar uns em detrimento dos outros. Todas estas pessoas têm direito à vida, à dignidade, à segurança, à protecção e ao usufruto dos Direitos Fundamentais. 

Por comungar holisticamente com estes postulados axiológicos, razão pela qual sou inteira e manifestamente contra a hedionda prática do aborto (LER), da eutanásia (LER), da barriga de aluguer (LER), da manipulação de células estaminais, da pena de morte, da escravatura, da xenofobia e do racismo (LER), porque não condizem minimamente com os nobres valores da vida e da dignidade da pessoa humana. Sabemos que a “ditadura do relativismo” em que estamos infelizmente mergulhados, sob a capa da modernidade, não valoriza a vida humana na sua verdadeira acepção, não obstante passar inutilmente a ideia de se preocupar com ela. É um relativismo que nada reconhece como absoluto e que deixa como última medida apenas o próprio eu, as suas vontades e libertinagens. 

Os mesmos países que estão hoje empenhados em proteger as pessoas contra a pandemia do coronavírus, são os mesmos países que não medem esforços para promover a “cultura da morte”, através da legalização da prática do aborto, da eutanásia, da pena de morte e infindáveis guerras que ceifam diariamente a vida de milhares e milhões de pessoas em todo o mundo. São, da mesma sorte, países que criam barreiras entre as pessoas e raças, mediante políticas deliberadas de discriminação, exploração, segregação, racismo. Onde está o valor sagrado da vida e da dignidade da pessoa humana com tudo isto? Um autêntico paradoxo.

O Que é a Felicidade?


A pergunta é bastante sugestiva e pertinente nos ansiosos, conturbados e depressivos dias que correm. Definir a felicidade é uma tarefa complicadíssima, visto que não é uma questão assim tão nítida e linear de abordar. Ela remete-nos concomitantemente para várias considerações dogmáticas, nomeadamente etimológicas, filosóficas, religiosas e culturais, para assim podermos holisticamente aferir com precisão o seu verdadeiro substrato axiológico. Apesar de todas essas diversas formulações e mundividências subjacentes em torno dela, é um facto universalmente assente e manifestamente incontestável que todas os seres humanos à face da Terra almejam e buscam afincadamente a felicidade como supremo bem, mesmo desconhecendo, na generalidade de situações, no que ela realmente consiste ou as vias mais correctas de encontrá-la. Esta legítima aspiração é notória na ênfase e primazia que as pessoas incansavelmente vão dando à felicidade no seu quotidiano, desdobrando-se no domínio pessoal, afectivo-amoroso, familiar, relacional, literário, musical, profissional, político e governativo. A felicidade faz parte do cardápio indispensável do ser humano. Sem ela a vida seria completamente monótona e não faria qualquer tipo de sentido, razão pela qual é a legítima meta de todos os seres humanos. 

Do ponto de vista etimológico, a felicidade é associada ao estado de quem anda feliz, abarcando adjectivos como sorte, boa fortuna, êxito, contentamento, satisfação, realização e o bem-estar do individuo. Estes valores antropológicos conjugados ganham um peso relevantíssimo na globalidade dos seres humanos. Acontece que, por razões cognoscíveis, o enquadramento da felicidade no âmbito filosófico ultrapassa esta mera definição, máxime no pensamento classicista de Sócrates, Platão e Aristóteles, respectivamente. Na doutrina socrática, a que se pode extrair nos escritos dos seus discípulos Xenofonte e Platão, parte da premissa utilitarista para definir o conceito da felicidade, precedendo neste importante debate as concepções filosóficas de Epicuro, Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Este, sobretudo, já no século XIX, definia o utilitarismo como sendo “a doutrina que aceita como fundamento da moral a utilidade, ou o princípio da maior felicidade, defende que as acções são correctas na medida em que tendem a promover a felicidade, e incorrectas na medida em que tendem a gerar o contrário da felicidade. Por felicidade entendemos o prazer, e a ausência de dor; por infelicidade a dor, e a privação de prazer[1].  O Professor Miguel Nogueira de Brito considera que é possível identificar pelo menos quatro propostas para definir o que seja utilidade, ou o bem-estar das pessoas. De acordo com a primeira dessas propostas, e talvez a mais influente, “o bem-estar consiste na experiência ou sensação de prazer. Uma segunda forma de definir utilidade recusa a orientação hedonista e, em vez disso, aceita que uma experiência recompensadora pode não ser necessariamente fonte de prazer. Uma terceira opção, talvez a mais difundida entre os filosóficos que se reclamam utilitaristas, consiste na definição da utilidade em termos da satisfação de preferências. Nesta perspectiva, aumentar a utilidade das pessoas significa satisfazer as suas preferências, sejam elas quais forem. A quarta forma de conceber a utilidade: trata-se daquela que procura resolver o problema das falsas preferências através da definição do bem-estar como a satisfação das preferências racionais ou informais[2]

Comungando holisticamente do eudemonismo, Sócrates vai resumindo que o que importa é a felicidade de todos e não a individual, tratando-se em última instância da do sábio. Um entendimento igualmente defendido por Platão, nas suas construções doutrinárias, ainda com maior alcance. Este, de forma subsumida, associa e identifica a felicidade com o bem e o prazer como sendo conceitos interligo-determinados e redutos últimos da verdadeira felicidade. Aristóteles, por sua vez, discorda parcialmente com esta mundividência de Platão em que a ideia do bem tomado como modelo não é modelo de coisa alguma, uma vez que o bem em si, mesmo tendo por objecto tornar conhecidas as diferentes formas de bens concretos, não passa de uma ideia indeterminada do bem. Nesta ordem de ideias, define a felicidade como actividade da alma de acordo com a virtude mais perfeita do homem. Ainda na mesma esteira do pensamento, segundo a obra conjunta de Caillé, Lazzeri e Senellart que cita Ética Nicómaco de Aristóteles, “o homem deve descobrir o que constitui a sua tarefa, aquilo que o visa e lhe diz respeito em supremo grau. Tal descoberta constitui o facto da ciência política. Tal ciência, soberana e dirigente possui por objecto o bem próprio do homem, bem idêntico para o individuo e para a cidade, mas mais perfeito quando atingindo e perseverado por toda uma cidade. A procura da felicidade adquire, pois, de imediato uma índole colectiva e política (…) É vivendo com os outros que o homem pode ser feliz”[3], encerrava advertidamente. 

Em relação à mundividência religiosa, máxime nas três grandes religiões monoteístas, nomeadamente no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, a felicidade transcende o comummente raio antropológico. Só é feliz nestas três religiões quem obedece aos cânones divinos pré-estabelecidos por ambas as denominações religiosas. O Judaísmo centraliza parte da sua adoração na Torah, que resumidamente se encerra em dez mandamentos outorgados pelo Patriarca Moisés (Êxodo 20:1-17). Cabe, por sua vez, a todos os fiéis, pôr escrupulosamente em prática a Lei de DEUS nos seus corações, afastando-se de qualquer tipo de mal, pois “feliz o homem que não segue o conselho dos maus, não se detém no caminho dos pecadores, nem toma parte na reunião dos provocadores! Antes põe toda a sua alegria na lei do Senhor e nela medita de dia e de noite. Ele é como uma árvore plantada à beira da água corrente, que dá o seu fruto na estação própria e cujas folhas não murcham. Em tudo o que faz é bem-sucedido”, exortava peremptoriamente o salmista para esboçar a ideia da felicidade no judaísmo (Salmo 1:3; 119:1-3). 

O Cristianismo parte deste postulado teológico, no entanto vai reinterpretando harmoniosamente o conceito teleológico da Lei, demonstrando que a justificação do Homem (a felicidade suprema, bem entendido) é unicamente pela Graça Redentora de DEUS, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo (Efésios 2:8-10), diferentemente do entendimento do Judaísmo. Para que serve então a Lei no Cristianismo? A Lei, de acordo com o Apóstolo Paulo, servia “para mostrar aquilo que é contra a vontade de Deus. E só devia durar até que viesse aquela descendência, a quem a promessa se destinava. (…) Dessa maneira, a lei foi a nossa educadora, até que viesse Cristo, a fim de sermos justificados por meio da fé. Agora que veio o tempo da fé, já não estamos sujeitos à lei como nossa educadora, visto que pela fé que nos une a Jesus Cristo somos filhos de Deus. Com efeito, todos os que foram baptizados em Cristo revestiram-se das qualidades de Cristo” (Gálatas 3:19; 24-26). Um entendimento também reforçado em toda a epístola aos Romanos. A fé no Senhor Jesus Cristo, ancorada na Graça Soteriológica, é o único meio para o Homem usufruir plenamente das Bem-aventuranças eternas (vide, por todos os exemplos bíblicos, o grande Sermão do Monte do Senhor Jesus em Mateus 5:1-12 onde estas grandes verdades foram manifestamente proclamadas). E isto se evidencia, em última instância, na Lei do Amor (1 Coríntios 13:1-13), que consiste em amar a DEUS acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Destes dois mandamentos, admoestava firmemente o Senhor Jesus, dependem toda a lei e os profetas (Mateus 22:37-40; Marcos 12:30-31; Lucas 10-27-28)

Ao contrário do Judaísmo e o Cristianismo o Islão exorta os seus fiéis a esforçarem-se a fazer a Jihad[4] e a Sharia[5]. Para superar as forças dos ímpios pode ser necessário lançar mão da jihad contra os infiéis, o que por sua vez pode significar recorrer à “guerra santa”. O martírio está na essência do estado de pureza religiosa e felicidade. Como afirmava Hassan al-Banna, fundador e líder da Irmandade Muçulmana, assassinado em 1949, para ilustrar este postulado: “o Corão é a nossa constituição, o Profeta é o nosso guia; a morte em nome da glória de Alá é a nossa maior ambição”[6]. O principal objectivo de todas as acções humanas, escreve ainda Manuel Castells e reconfirmado por Hans Küng na sua emblemática obra “Islão”, deve ser o estabelecimento da lei de Deus para toda a humanidade, colocando assim um ponto final na actual oposição entre Dar al-islam (o mundo muçulmano) e Dar al-Harb (o mundo não muçulmano). Verificado este processo "natural” de harmonização deixa automaticamente de haver subjectividade e tudo se passa a desenrolar por meio da umma[7]: o individuo torna-se parte da comunidade dos fiéis, um mecanismo básico de igualdade que oferece apoio mútuo, solidariedade e significados compartilhados. Tudo isto fundando-se com base na Sharia, que prevalece sobre a ideia do Estado-Nação e vincula toda a comunidade muçulmana, que aguarda determinadamente a devida recompensa na glória por ter honrado este ditame religioso. 

No âmbito cultural a concepção da felicidade acaba por ser praticamente idêntica em todas as culturas e os povos do mundo, registando apenas algumas nuances. A base da felicidade prende-se, mormente, por ser portador de uma boa saúde, educação, honrar os pais, ter uma boa formação profissional, um bom emprego que lhe habilite a possuir riquezas materiais, casar com uma pessoa bem-sucedida e construir com ela uma família estável, tendo inclusive filhos saudáveis e bem-aprumados nessa união matrimonial. A partir do momento que uma pessoa consegue preencher estes pressupostos convencionais, ela é automaticamente vista e considerada como sendo feliz. A felicidade acaba assim por ser entendida e esgotada, em todas as dimensões culturais, com a exterioridade do ter, isto é, ter saúde, ter formação/profissão, ter trabalho, ter família, ter filhos, ter poder, ter riqueza e ter uma vida desafogada, ter sucesso, etecetera. Justamente por isso, levando à letra esta máxima, todo o mundo luta incansavelmente para ter o poder, a riqueza, a glória e a fama, uma vez que todos os outros “teres” advêm destes efémeros atributos humanos. 

Da nossa parte, como devotos Cristãos que somos, comungamos plenamente com o conceito da felicidade do Cristianismo. A maior felicidade que uma pessoa pode ter durante a sua peregrinação neste tenebroso mundo é crer resolutamente no Senhor Jesus Cristo (Actos 16:31), e procurar diariamente ajustar a sua transitória vida aos impolutos mandamentos do Todo-Poderoso DEUS (Actos 26:20). Entendemos ainda que a felicidade vai muito mais além de que qualquer tipo de exterioridade, aparente sucesso social ou a ideia de um mero prazer passageiro, tal como é erradamente enfatizado no nosso mundo pós-moderno. Ela é, sem dúvida, um estado de alma. Há muitas pessoas afortunadas e com grandes sucessos sociais, mas, mesmo assim, destituídas da verdadeira felicidade, vivendo atormentadas, depressivas, desorientadas e completamente infelizes. Têm uma vida totalmente oca, triste e miserável. Outras, pobres, sem qualquer tipo de conforto material, são genuinamente felizardas. Um autêntico paradoxo, não é? Tudo isto para vincar que a felicidade não tem propriamente que ver com o “ter” ou com a falsa ideia do prazer imediato, mas sim com o “ser”. É no “ser”, aquilo que realmente somos, na nossa simplicidade de ver e encarar a vida, que a felicidade se manifesta com toda a sua força e vigor, porque ela é de interioridade e habita unicamente na interioridade da pessoa. Saber, acima de tudo, conviver e conformar-se com aquilo de que dispomos. Sermos realistas nas nossas abordagens e legítimas expectativas de vida, especialmente saber valorizar as pequenas coisas. Cultivar a gratidão pela vida e tudo aquilo que ela nos vai proporcionando – quer sejam coisas boas e más, uma vez que a felicidade consiste sobretudo neste binómio. Ser, igualmente, humildes, virtuosos, amorosos, solidários e pensar sempre no bem do próximo, bem como nunca se cansar de praticar boas acções. Afastar do mal e praticar sempre o bem, buscando a paz e reconciliação com tudo e todos à nossa volta. Eis, de forma abreviada, a definição e receita para a verdadeira felicidade. 



[1] John Stuart Mill, in Utilitarismo, p. 50 e 51, Editora, Gradiva, Lisboa, 2005.
[2] Miguel Nogueira de Brito, “As Andanças de Cândido [Introdução ao Pensamento Político do século XX, p. 19 e 20, Edições 70, Lisboa, 2009.
[3] História Crítica da Filosofia Moral e Política, p. 73, Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, 2005.
[4] Palavra que na sua raiz etimológica significa empenho, consubstanciando a luta interior e exterior em nome de Alá.
[5] Legislação – o primado da lei islâmica face a qualquer tipo de Direito.
[6] Manuel Castells, O Poder Da Identidade [A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura], Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, p. 14.
[7] Comunidade de fiéis, em que todos são iguais na sua submissão perante Alá. 

O Que é a Felicidade?


A pergunta é bastante sugestiva e pertinente nos ansiosos, conturbados e depressivos dias que correm. Definir a felicidade é uma tarefa complicadíssima, visto que não é uma questão assim tão nítida e linear de abordar. Ela remete-nos concomitantemente para várias considerações dogmáticas, nomeadamente etimológicas, filosóficas, religiosas e culturais, para assim podermos holisticamente aferir com precisão o seu verdadeiro substrato axiológico. Apesar de todas essas diversas formulações e mundividências subjacentes em torno dela, é um facto universalmente assente e manifestamente incontestável que todas os seres humanos à face da Terra almejam e buscam afincadamente a felicidade como supremo bem, mesmo desconhecendo, na generalidade de situações, no que ela realmente consiste ou as vias mais correctas de encontrá-la. Esta legítima aspiração é notória na ênfase e primazia que as pessoas incansavelmente vão dando à felicidade no seu quotidiano, desdobrando-se no domínio pessoal, afectivo-amoroso, familiar, relacional, literário, musical, profissional, político e governativo. A felicidade faz parte do cardápio indispensável do ser humano. Sem ela a vida seria completamente monótona e não faria qualquer tipo de sentido, razão pela qual é a legítima meta de todos os seres humanos. 

O Admirável Mundo da Maternidade


Debruçar-se sobre o misterioso mundo da maternidade tem muito que se lhe diga. Não é uma tarefa facílima para o comum dos mortais, uma vez que encerra vários pressupostos axiológicos que, nalgumas situações, transcendem a lógica racional (VER). Mesmo assim, apesar da complexidade que o tema acarreta, não nos iliba de reflectir sobre ela como estamos a fazer. A maternidade é, por excelência, a maior vocação que DEUS outorgou às mulheres para perpetuar a Raça Humana. Ela está intrinsecamente ligada à concepção, à procriação, à protecção, ao sustento e à educação. Em todas estas fases, desde a intra-uterina até à idade adulta, os progenitores têm um papel preponderante e determinante no sucesso ou insucesso de um filho, sobretudo as mães, tendo em conta o cordão umbilical que os une. 

Cabe, por isso, aos pais proporcionar uma boa educação aos seus filhos e, deste modo, ajudando-lhes a ser pessoas dignas e bem-sucedidas na sociedade. Só assim, poupar-lhes-ão de inúmeros dissabores e agruras da madrasta vida, contribuindo positivamente para uma sociedade melhor. É extremamente importante ensinar “o menino o caminho que deve seguir, e assim, mesmo quando for velho, não se afastará dele”, exorta a Palavra de DEUS (Provérbios 22:6). É de pequenino, sentencia a sabedoria popular, que se torce o pepino. Não há dúvida que é no berço que se formata o carácter e o substrato identitário. E sabemos que, na generalidade das situações, a influência da mãe é mais importante e amiúde determinante. Tem, por razões cognoscíveis, um maior impacto no carácter do filho do que propriamente do pai. Desde logo, o filho está mais dependente dela – pelo menos nos primeiros anos de vida. Além disso, a herança cultural e a conjuntura social em que estamos inseridos faz com que as mães passem mais tempo com os filhos, comparativamente com os pais. E todos estes factores conjugados acabam por dar uma primazia abismal às mães na vida dos filhos. 

Muitas das grandes figuras na longínqua história da Humanidade foram educadas pelas mulheres humildes e piedosas. Estes homens honrados conseguiram feitos extraordinários graças à nobre educação que receberam das suas mães. Nenhuma mãe deve subestimar a sua capacidade pedagógica e, tão pouco, descurar a responsabilidade que tem na educação e afirmação do seu filho na sociedade, independentemente das condições favoráveis ou adversas que possa estar a viver no seu contexto específico do lar. Não é preciso ser uma mãe erudita ou rica para dar uma boa educação a um filho. Basta querer e procurar transmiti-lo reiteradamente os Grandes Princípios e Valores da vida. 

E mais, importa ainda salientar, os filhos são dos melhores adornos e bens que uma pessoa possa ter, contando que sejam bem planeados. Não consubstanciam fardos ou gastos, tal como a ímpia visão secularista e materialista dos nossos dias tem vindo a propalar. Os filhos são uma dádiva do Senhor. Eles são uma verdadeira bênção, escrevia o rei Salomão (Salmo 127:3-5; 128:1-6). Acontece que, perante esta magnífica bênção Divina, está a maternidade com toda a sua pompa e transcendência. Ser mãe é uma das maiores riquezas e manifestações do amor. Não há amor como o de mãe. Não há mãe, na pura acepção do termo, sem o amor. As duas realidades são visceralmente intrínsecas e indissociáveis uma da outra. A mãe é o sustentáculo, amparo e reduto último para os filhos. É tudo que uma pessoa pode ter neste “Vale de lágrimas”. Por isso, em suma, “quem tem uma mãe tem tudo, quem não tem mãe, não tem nada”

Le Plus Important Est Toujours Aimer


Muito bem pensado e bastante pertinente a frase ilustrada na imagem. O essencial é que a virtude do Amor esteja sempre presente no nosso cardápio relacional uns para com os outros. O mais importante é, sem dúvida, o Amor. 

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre II


«Senhor, meu Deus e salvador,
de dia e de noite te peço ajuda.
Aceita a minha oração,
atende a minha súplica! 

Estou cansado de tanto sofrer,
encontro-me às portas da morte.
Já me podem contar entre os mortos,
pois estou completamente sem forças.
Estou abandonado entre os que morreram;
sou como aqueles que já foram enterrados,
sou como os que foram separados de ti
e dos quais já te não lembras.
Lançaste-me no abismo mais profundo;
nas profundezas da escuridão.
A tua indignação pesa sobre mim;
humilhas-me com tantas aflições.
Afastaste de mim os meus amigos;
fizeste-me insuportável para eles.
Estou como um preso que não pode escapar.
Os meus olhos apagaram-se de sofrimento.
Todos os dias te invoco, Senhor,
e levanto as mãos em oração. 

Acaso farás milagres para os mortos?
Poderão os mortos levantar-se e louvar-te?
Poderá alguém anunciar no sepulcro a tua bondade,
ou no reino da morte a tua fidelidade?
Conhecerão as tuas maravilhas no reino das trevas
e a tua generosidade na terra do esquecimento? 

Eu, porém, Senhor, clamo por ti;
de madrugada te dirijo a minha oração.
Por que me rejeitas, Senhor,
e desvias o teu olhar?
Desde a mocidade que ando aflito e atribulado;
tenho suportado os terrores da tua ira.
Por cima de mim passou a tua grande indignação;
os teus ataques aniquilaram-me.
Rodeiam-me todo o dia, como vagas,
como uma inundação, que me afoga.
Afastaste de mim amigos e companheiros;
a minha companhia são as trevas.» 

(Poema de Hemã, natural de Canaã, Salmo 88:1:19, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004).