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O Que Impede o Desenvolvimento e a Consolidação da Democracia na Guiné-Bissau?

Partilho a minha intervenção no ciclo de leitura da obra Da Democracia em África, do Doutor e Presidente Domingos Simões Pereira. Convergi com o insigne autor em alguns pontos e divergi noutros, sobretudo no que respeita à problemática da construção da nação guineense, ao papel da maioria populacional no desenvolvimento do nosso país e à identificação da principal causa impeditiva do desenvolvimento e da consolidação da democracia na Guiné-Bissau. 

Defendi que a Guiné-Bissau possui um conceito de nação claramente patente desde o processo da luta de libertação nacional – facto que se comprova pela mobilização e pelo triunfo da própria luta de libertação, liderada pelo Engenheiro Amílcar Lopes Cabral, cuja visão política assentava, entre outros fundamentos, na ideia de uma nação guineense e no direito à sua autodeterminação. 

Defendi, igualmente, que o desenvolvimento de qualquer país não depende necessariamente da maioria da sua população, mas pode resultar, sobretudo, da acção determinada e da capacidade de liderança de uma minoria esclarecida, competente e comprometida com o interesse nacional. 

Por fim, sustentei que a principal causa da obstrução do nosso desenvolvimento nacional reside, fundamentalmente, na incompetência e na corrupção de uma classe política e militar que, infelizmente, tem dominado a vida pública guineense ao longo dos anos, comprometendo seriamente a construção de um Estado funcional, o desenvolvimento do país e a consolidação da democracia. 

Deixo, abaixo, o conteúdo da minha intervenção, que reduzi para a forma escrita. Poderá optar por assistir ao vídeo ou, se preferir, ler o texto na íntegra. O conteúdo de ambos é, essencialmente, o mesmo. Boa leitura e bom proveito. 

O QUE IMPEDE O DESENVOLVIMENTO E A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA NA GUINÉ-BISSAU? 

Vou fazer apenas uma pergunta ao Engenheiro Domingos Simões Pereira, embora tenha, na realidade, três. Antes, porém, gostaria de dizer que este debate merece, mais uma vez, os meus parabéns a todos os intervenientes, particularmente à Editora Nimba, na pessoa do Dr. Luís Vicente. 

Este debate tem tido, por incrível que possa parecer, uma dimensão que ultrapassa largamente o espaço em que estamos. Falo por mim: temos debatido aqui, mas tenho passado várias horas a discutir estes assuntos com pessoas que me telefonam para conversar sobre a obra e sobre as perspectivas nela apresentadas, começando por familiares e amigos. É, verdadeiramente, um debate que parece não ter fim, e nem conseguimos ainda imaginar toda a sua projecção. O penúltimo vídeo que partilhei, precisamente sobre este propósito, está já próximo das 100 000 visualizações. Isto demonstra que as pessoas estão interessadas neste assunto, por mais denso que possa parecer do ponto de vista intelectual. Por isso, deixo também os meus parabéns ao Engenheiro Domingos Simões Pereira. 

Neste capítulo, em que a ideia subjacente incide sobre a construção da nação e da democracia, bem como sobre o Estado, a questão da nação e a herança colonial, gostaria de colocar algumas perguntas que permitissem trazer novamente para o centro do debate questões que já havíamos discutido anteriormente. 

A primeira questão é a seguinte: relativamente à construção da nação e da democracia, que relação estabelece Domingos Simões Pereira entre a construção da identidade nacional e a consolidação da democracia? No caso concreto da Guiné-Bissau, considera que a fragilidade democrática decorre, em alguma medida, de ainda não termos conseguido transformar a nossa diversidade étnica, cultural e histórica numa verdadeira identidade política nacional? Esta é a primeira pergunta. 

Embora tenha uma outra questão, talvez seja pertinente colocá-la já, porque existe uma relação entre ambas. Se considerarmos que o Estado guineense nasceu dentro das fronteiras herdadas do colonialismo, até que ponto podemos falar de uma verdadeira nação guineense anterior ao próprio Estado? E será que a democracia pode consolidar-se plenamente quando o Estado não consegue produzir um sentimento suficientemente forte de pertença comum? São estas as duas perguntas que gostaria de colocar. 

Permita-me agora fazer algumas breves achegas. Não me vou alongar muito. É apenas um regresso à questão que anteriormente mencionei, relativamente à qual convergimos em alguns aspectos e divergimos noutros – o que é perfeitamente normal. Como se costuma dizer na minha faculdade, a doutrina nunca é unânime. E, quando é absolutamente unânime, isso pode ser um mau sinal, porque é precisamente através da divergência que temos a possibilidade de aprender mutuamente. Quando falei da questão da nação, procurei sustentar que o problema estrutural da Guiné-Bissau tem sobretudo a ver com a classe dirigente do nosso país, e não propriamente com a nossa diversidade étnica, com as diferenças culturais ou com as múltiplas realidades identitárias que integram o povo guineense. O problema reside, fundamentalmente, na classe política que nos representa. 

Com efeito, ao longo dos tempos, a classe política que nos representa tem sido, em abono da verdade, permeável à corrupção, à incompetência, ao nepotismo, à ausência de visão estratégica e a todo um conjunto de males que constituem verdadeiros obstáculos ao desenvolvimento da nossa sociedade. 

Por isso, por mais que se procurem instrumentalizar questões étnicas ou religiosas – e não estou a dizer que essas questões não existam –, a ideia de nação e o sentimento de pertença comum estão profundamente subjacentes à própria ideia de povo guineense. Eu dei o exemplo do Engenheiro Amílcar Lopes Cabral, embora o Engenheiro Domingos Simões Pereira tenha explicado – e, a meu ver, bem – que Amílcar Cabral não poderia resolver tudo. E tem razão nesse ponto. É verdade. É semelhante ao que acontece, por exemplo, com um chefe de família que tem vários filhos. Por vezes, a presença do pai assegura a unidade familiar; quando o pai desaparece ou morre, os filhos começam a antagonizar-se e a revelar divergências que já existiam ou que, entretanto, surgiram. Os problemas sempre existiram. Contudo, a mobilização de Amílcar Cabral e, sobretudo, a ideia de pertença à nação conseguiram triunfar sobre essas divisões. 

Se observarmos, por exemplo, o que aconteceu no decorrer do processo da nossa independência, com todos os seus avanços e recuos, o Engenheiro Domingos Simões Pereira sabe muito bem que, durante a guerra civil da Guiné-Bissau, a Junta Militar teve anuência e apoio popular. E não foi necessariamente porque as pessoas se reviam no projecto de Ansumane Mané. Então, porquê? Porque, quando o Presidente Nino Vieira decidiu introduzir no país forças senegalesas e da Guiné-Conacri, despertou-se novamente aquilo que poderíamos designar como a ideia da nação. E essa ideia da nação fez com que pessoas provenientes de diferentes regiões, pertencentes a diferentes etnias e religiões, aderissem à Junta Militar, porque aquilo que estava em causa era, aos seus olhos, a defesa da própria nação. A defesa da dignidade nacional mobilizou, assim, muitas pessoas em torno da Junta Militar, com o objectivo de expulsar do território as forças estrangeiras do Senegal e da Guiné-Conacri. 

Por isso, para mim, esse sentimento de pertença está presente. Aliás, basta observarmos o próprio Engenheiro Domingos Simões Pereira. Refiro-me a si porque, neste momento, é uma das pessoas que vemos a defender essas causas e que, ao longo de todo este tempo, tem mantido uma visão coerente e vertical. E nós revemo-nos nessas ideias democratas e nacionalistas. Se observarmos a realidade, Domingos Simões Pereira consegue congregar pessoas de diferentes sensibilidades, religiões e etnias. Pessoas que, apesar das suas diferenças, encontram nessa figura uma referência comum em torno da ideia de nação. Não é porque Domingos Simões Pereira seja animista, muçulmano ou Cristão, nem porque seja fula ou balanta. Não é por isso. É porque é guineense, porque é patriótico, porque defende os valores da democracia e porque está comprometido com a causa nacional. 

É precisamente por essa razão que muitas pessoas – e, na minha perspectiva, constituem a maioria dos guineenses, e não uma minoria – lhe têm dado vitórias eleitorais, contra todas as evidências e apesar de toda a perseguição. Mas essa maioria fá-lo em nome de quê? Não o faz porque pertence à mesma religião de Domingos Simões Pereira. Não o faz porque pertence à mesma etnia ou religião. Fá-lo em nome dessa ideia de nação, dessa ideia de dignidade e de pertença comum. 

Ora, tem havido uma obstrução a esse desiderato. Porquê? Porque, como tenho vindo a dizer, o segredo não está necessariamente na maioria. O segredo de qualquer processo de desenvolvimento encontra-se muitas vezes numa minoria esclarecida, numa minoria capaz de produzir luz, orientação e direcção, conduzindo depois a maioria. E é precisamente essa pequena minoria que, a meu ver, tem obstruído o desenvolvimento do país ao longo deste tempo: uma pequena minoria de militares e uma pequena minoria de políticos com influência, que têm criado obstáculos ao desenvolvimento nacional. 

Por isso, volto a vincar a ideia fundamental: a questão não tem propriamente a ver com o pertencimento étnico ou religioso, porque esse sentimento de pertença enquanto guineenses já existe. Aliás, basta observar o guineense que vive fora do país. Quando encontra outro guineense, a alegria que sente não decorre de uma identidade religiosa ou étnica partilhada. Decorre, antes de mais, dessa consciência de pertença comum, dessa ideia de nação. 

O problema reside, portanto, na falta de compromisso de uma determinada classe política que instrumentaliza uma pequena minoria dotada de influência. Essa pequena minoria exerce, sobretudo, influência no seio das Forças Armadas e acaba por produzir grande parte da obstrução que temos vindo a testemunhar. E há um aspecto que considero importante: nas vitórias eleitorais, Domingos Simões Pereira conseguiu obter apoio também entre os elementos da classe castrense. Sabemo-lo através de informações que nos chegam. Não aconteceu uma vez nem duas. Mas é essa pequena parcela corrupta das estruturas militares que, a meu ver, tem contribuído para obstruir o desenvolvimento do país. Não são muitos. 

Voltando novamente à ideia de que venho defendendo, temos bem presente a ideia de nação. Se não tivéssemos esse sentimento, a luta pela independência nacional não teria triunfado e, muito menos, as pessoas se teriam unido em torno de Ansumane Mané e da Junta Militar para expulsar as forças estrangeiras do território. Naquela altura, as pessoas não tinham necessariamente um problema pessoal com o Presidente Nino Vieira. Aliás, Nino Vieira possuía ainda, nesse período, um capital político bastante abrangente no país. Contudo, quando introduziu forças senegalesas e da Guiné-Conacri, a percepção mudou. Até eu, que estou aqui a falar, me voltei contra essa situação. Nunca defendi nem apoiei Nino Vieira, em abono da verdade, até porque era ainda adolescente naquela época. Nunca o defendi, porque considero que era um ditador e que não representava os princípios e valores que defendo. Mas também não foi porque eu fosse simpatizante de Ansumane Mané. Eu nem sequer conhecia Ansumane Mané. 

O que aconteceu foi que uma grande parte dos guineenses se alinhou com a Junta Militar porque considerava estranho que forças estrangeiras tivessem entrado no nosso território e pudessem, de algum modo, pôr em causa o nosso país. 

Em suma, engenheiro Domingos Simões Pereira, para além das perguntas que lhe coloquei, gostaria apenas de reforçar uma ideia: é muitas vezes uma pequena minoria que desencadeia as grandes transformações de uma sociedade. Se observarmos, por exemplo, a história de África e a emancipação dos povos africanos, verificamos que os grandes pan-africanistas constituíam um grupo relativamente pequeno de pessoas que tiveram acesso à educação, adquiriram conhecimento e conseguiram mobilizar as populações. 

Precisamos, agora, de voltar a mobilizar. O povo não precisa, necessariamente, de conhecer todos os detalhes de um projecto político para depositar a sua confiança em alguém. Se houver espaço para a democracia e imaginarmos, por exemplo, Domingos Simões Pereira a chegar ao poder, as pessoas poderão confiar em si, mesmo que não conheçam integralmente tudo aquilo que defende. Há quem conheça profundamente as suas ideias político-governativas, mas há também quem simplesmente confie na sua pessoa, na sua integridade e naquilo que representa. 

A questão que se coloca é: por que razão não lhe permitem governar? E, perante tudo aquilo que aconteceu – a perseguição, o sequestro e a privação da liberdade de que foi injustamente alvo –, o que é que isso poderá produzir? Em última análise, não produzirá nada de positivo. Porquê? Porque as instituições não funcionam devidamente. 

É por isso que podemos falar de refundação do Estado, de alteração do sistema político ou da adopção de novos mecanismos institucionais. Podemos discutir tudo isso. Mas, enquanto aqueles que detêm o poder continuarem a controlar as estruturas do Estado e enquanto as instituições não forem suficientemente fortes, essas mudanças dificilmente se traduzirão em resultados concretos. Não é necessário que a maioria domine todos os detalhes. O próprio Domingos Simões Pereira referiu que uma percentagem significativa da nossa população é analfabeta e não sabe ler a Constituição. Mas existem os esclarecidos, os “iluminados”, como dizia Amílcar Cabral: aqueles que sabem e que têm a responsabilidade de ensinar aqueles que ainda não sabem. 

Se tivermos governantes verdadeiramente competentes e comprometidos com o Estado de Direito democrático e com o desenvolvimento nacional, pessoas do calibre de Domingos Simões Pereira, e se tivermos igualmente cidadãos com esse nível de competência, responsabilidade e compromisso no Supremo Tribunal de Justiça, nas Forças Armadas e nas diferentes instituições do Estado, então o problema da Guiné-Bissau poderá começar a ser resolvido. Não há margem para dúvida quanto a isso. 

Não é necessária, necessariamente, uma quantidade enorme de pessoas. O que se exige é a existência de uma minoria suficientemente competente, esclarecida, comprometida e capaz de assumir responsabilidades decisivas na condução do Estado e na transformação das instituições. É essa massa crítica de homens e mulheres, dotados de competência, integridade e sentido de Estado, que pode desencadear um processo de mudança profunda e sustentável na Guiné-Bissau.  As instituições podem ser transformadas por uma minoria verdadeiramente comprometida, porque são precisamente aqueles que detêm o poder institucional que, muitas vezes, fazem e desfazem a seu bel-prazer. Por isso, termino reiterando essa convicção. 

Quero ainda fazer uma última observação relativamente à questão das leis, que foi abordada ontem. Eu não estava, por exemplo, a defender que fosse necessário elaborar uma Constituição que especificasse detalhadamente tudo. Não. A Constituição não precisa de especificar tudo. Mas há uma coisa que lhe garanto, Engenheiro Domingos Simões Pereira: como referiu, o desconhecimento da lei não isenta ninguém do seu cumprimento. 

As pessoas, mesmo que não conheçam integralmente as leis, se souberem que as instituições funcionam e que as regras são efectivamente aplicadas, tenderão a alinhar o seu comportamento com essas regras. Dei o exemplo do homem guineense que, na Guiné-Bissau, agride a sua mulher, a sua filha ou outros membros da família e que, quando vem para a Europa, não recebe necessariamente uma formação específica que o transforme numa pessoa civilizada. No entanto, comporta-se de maneira diferente. Porquê? Porque sabe que, no momento em que levantar a mão contra a sua mulher, contra a sua filha ou contra o seu filho, poderá enfrentar consequências. É precisamente essa consciência das consequências que o leva a reeducar o seu comportamento, porque o sistema não lhe permite agir da mesma forma violenta que agia na Guiné-Bissau. 

Quando está aqui, passa a viver segundo as regras da sociedade europeia, como qualquer cidadão europeu. Não é necessariamente porque estudou Direito ou porque recebeu uma formação cívica específica. É porque sabe que, se praticar determinados actos, terá de responder por eles e suportará as respectivas consequências. 

Por isso, não devemos partir do princípio de que o povo precisa de ser sensibilizado para tudo. O que precisamos, acima de tudo, é de instituições fortes. Precisamos de homens e mulheres verdadeiramente comprometidos com a República, com a democracia, com o Estado de Direito Democrático e com os Direitos Humanos, capazes de fazer avançar o nosso país.

Há Ou Não Uma Consciência de Nação no Povo Guineense? A Lição do Eng. Amílcar Lopes Cabral

Partilho aqui uma parcela da minha intervenção no ciclo de leitura da obra “Da Democracia em África”, do Presidente Domingos Simões Pereira. A minha intervenção incidiu, sobretudo, na demonstração de que o povo guineense possui um conceito bastante apurado de nação, não obstante a diversidade sociocultural e a crónica divergência que nos caracterizam – fruto, acima de tudo, da instrumentalização levada a cabo pelos politiqueiros que grassam na nossa sociedade, obstruindo, desse modo, a afirmação do ideal de nação guineense e, consequentemente, o desenvolvimento nacional. 

Mesmo assim, apesar de todos estes reveses significativos que têm afectado o postulado da nossa “guineendadi”, não se pode negar que os guineenses possuem um conceito bem definido de nação. A ideia de nação está profundamente presente no imaginário do povo guineense, desde o bem-sucedido processo de mobilização conduzido pelo Eng.º Amílcar Lopes Cabral em torno da luta de libertação nacional. Um dos grandes pressupostos da autodeterminação do povo guineense prende-se precisamente com o conceito de nação e com a sua nacionalidade. Este conceito de nação estava incorporado no postulado da “Unidade, Luta e Progresso”, tendo sempre como horizonte a afirmação da nação guineense, da sua liberdade e da sua independência. 

No início, comecei a minha intervenção com uma questão retórica e, posteriormente, acabei por lhe responder directamente. Interroguei o Presidente Domingos Simões Pereira nos seguintes termos: como é que o Presidente explica a extraordinária capacidade de mobilização que Amílcar Cabral conseguiu alcançar no processo de luta de libertação nacional. 

Sabemos que, no processo de luta pela nossa independência, se convergiu para uma ideia de nação. Foi um dos grandes factores que impulsionaram a convergência de todas aquelas etnias que, apesar das suas idiossincrasias, divergências e identidades próprias, conseguiram encontrar um elo comum de unidade em torno de uma ideia de pertença à nação e, a partir dessa consciência nacional, afirmar o direito à autodeterminação. 

Sabemos, portanto, que o objectivo nacional de Amílcar Cabral triunfou. E isso aconteceu num contexto particularmente difícil, porque, naquela altura, estávamos a falar de pessoas que, na sua maioria, não possuíam formação escolar nem estudos e dispunham de reduzidos recursos intelectuais e materiais. Ainda assim, Amílcar Cabral conseguiu realizar essa extraordinária proeza de mobilização em torno da causa da “guineendadi” – isto é, da nação guineense. 

Ora, se isso foi possível, menciono-o precisamente para demonstrar que a questão da nação guineense permanece presente. Creio que até os próprios guineenses, apesar de todas as dificuldades e contradições, conservam uma ideia de nação, um sentimento de pertença e uma consciência nacional assente na convicção de que somos todos guineenses e filhos daquela terra que nos viu nascer. Existe, portanto, um sentimento patriótico que permanece profundamente enraizado nos guineenses, independentemente das suas etnias, crenças religiosas, culturas ou localizações geográficas. 

A minha questão, contudo, é a seguinte: se existe essa consciência nacional, onde reside a falha da mobilização em torno da unidade, da paz, da democracia e do desenvolvimento? Eu diria que o problema reside, em grande medida, na incompetência e na corrupção das elites políticas guineenses. Diria, antes, que existe uma dificuldade de mobilização e de convergência em torno de um propósito comum, que é o desenvolvimento nacional. Há um certo desnorte, e esse desnorte não pode ser atribuído simplesmente ao povo. Deve, sim, ser atribuído, sobretudo, à impreparada classe política que nos governa. 

Mesmo aqui na Europa, no Ocidente, as pessoas não possuem todas, necessariamente, uma compreensão aprofundada da democracia. Isto acontece porque o desenvolvimento, as ideias liberais e o próprio modelo liberal de organização da sociedade foram, historicamente, processos conduzidos por uma pequena parcela da sociedade. Como explicou, e muito bem, o Presidente Domingos Simões Pereira, é uma pequena nata que, muitas vezes, consegue mobilizar a sociedade e traçar determinado caminho. 

Por isso, talvez, em vez de afirmarmos que não existe uma ideia de nação entre os guineenses – porque, pessoalmente, considero que ela existe –, devêssemos questionar se o verdadeiro problema não estará relacionado com os dirigentes políticos que temos e com a sua incapacidade de estar à altura das exigências históricas e pós-modernas do país. 

Amílcar Cabral, acompanhado por um número relativamente reduzido de pessoas, conseguiu realizar uma proeza extraordinária: mobilizar uma população inteira em torno de um propósito comum e conduzi-la à independência. Então, como é que nós, hoje, não conseguimos alcançar uma convergência semelhante em torno do desenvolvimento e do bem-estar do povo guineense? 

Para mim, a tarefa que se coloca actualmente consiste precisamente em conseguirmos concentrar-nos num único foco e num único objectivo. Sei que Cabral falava de uma tarefa maior e de um programa maior, mas, para mim, esse grande programa já foi, em larga medida, delineado pelo próprio Amílcar Cabral. Foi Amílcar Cabral quem lançou as balizas e estabeleceu os fundamentos a partir dos quais poderíamos, posteriormente, seguir um caminho mais estruturado e coerente. Talvez, por isso, a meu ver, a questão central resida nas lideranças políticas que temos e na sua falta de compromisso efectivo com a ideia de nação. 

Ora, se é verdade que é quase sempre uma pequena nata que consegue desencadear grandes transformações numa sociedade – e não necessariamente a maioria da população –, também é verdade que o povo, por si só, raramente produz essas grandes rupturas históricas. É, muitas vezes, uma pequena classe dirigente que consegue mobilizar as massas e transformar uma determinada consciência colectiva em acção política, como aconteceu com Amílcar Cabral e com outros grandes pan-africanistas que protagonizaram feitos históricos dessa dimensão. 

Se temos poucas pessoas com essa capacidade no nosso continente – e não me refiro apenas ao caso da Guiné-Bissau –, talvez a implementação do modelo liberal e da democracia de que se falou, e muito bem, não fosse assim tão difícil quanto poderíamos imaginar. 

Mas, para mim, a questão da nação é precisamente aquela que se encontra mais claramente evidenciada na realidade quotidiana dos guineenses. Há guineenses que vivem nos lugares mais longínquos da nossa terra e do mundo e que, apesar da distância, continuam a ter uma ideia muito clara de que são guineenses. Muitos orgulham-se, inclusive, dessa identidade e desse sentimento de pertença. Então, por que razão não conseguimos transformar essa consciência de pertença numa verdadeira mobilização em prol do bem comum? 

A minha leitura é que o problema reside, em grande medida, naqueles que exercem responsabilidades políticas. A elite política que temos – embora eu hesite em classificá-la verdadeiramente como uma elite – acaba, muitas vezes, por assumir comportamentos sectários e egocêntricos, instrumentalizando essas sensibilidades identitárias para fins que não correspondem aos interesses superiores da nação. 

É essa a minha leitura. E fico por aqui, para não prolongar excessivamente o debate. Obrigado.

Democracia, Liberdade e Felicidade: Que Caminho Para os Povos Africanos?

Esta é, em síntese, a questão que coloquei ao Presidente Domingos Simões Pereira no âmbito do ciclo de leitura da sua obra Da Democracia em África. A minha pergunta foi a seguinte: até que ponto a democracia em África deve preocupar-se não apenas com a realização periódica de eleições e com a defesa das liberdades e garantias fundamentais, mas também com a construção da felicidade, do bem-estar e de melhores condições de vida para as populações? 

A questão fundamental que se coloca é, portanto, a seguinte: será possível falar de uma verdadeira felicidade dos povos africanos, ou de uma verdadeira construção do desenvolvimento das sociedades africanas, quando se colocam em segundo plano as liberdades, as garantias fundamentais e os próprios princípios democráticos? Será isso realmente possível? 

Esta é, no essencial, a minha interrogação. Ainda na mesma senda interrogativa, procurei compreender a legitimidade de determinadas opções que, por vezes, são apresentadas como necessárias ou inevitáveis para a consolidação do Estado de direito democrático. Fala-se, com frequência, da necessidade de aplicar determinados modelos políticos e institucionais e, como ficou aqui vincado, aponta-se a democracia e o modelo liberal como exemplos a seguir. 

No entanto, há também um princípio guineense que merece ser considerado: «remedi ku kata kura» deve continuar a ser administrado indefinidamente? Se estamos, há algum tempo, a procurar aplicar determinado critério ou determinado modelo e constatamos que ele não está a produzir os resultados esperados, será que não devemos, pelo menos, admitir a possibilidade de procurar outros caminhos e outras soluções?

Embora esta não seja necessariamente a minha perspetiva ou posição pessoal, a questão permanece pertinente: será possível falar de uma verdadeira felicidade dos povos africanos, ou de uma verdadeira construção do bem-estar das sociedades africanas, sem considerar a democracia, as liberdades e as garantias fundamentais? 

É esta, em última análise, a questão que deixei para reflexão e que indaguei ao Doutor Domingos Simões Pereira, na expectativa de obter uma resposta. 

Confesso que a resposta do Presidente Domingos Simões Pereira se coadunou com aquilo que também tenho defendido. Não se pode falar de verdadeira felicidade sem, simultaneamente, falar de liberdade. Um dos pressupostos da felicidade é precisamente a liberdade - tanto na dimensão intrapessoal como nas dimensões política, social e em todas as demais dimensões da vida humana.

Da Democracia em África do Presidente Domingos Simões Pereira

 

Partilho aqui convosco a minha intervenção no ciclo de leitura da obra do Doutor e Presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira. Tive a oportunidade de formular duas questões que considero pertinentes, bem como de apresentar algumas observações a propósito dos capítulos abordados pelo insigne autor. 

Foi, verdadeiramente, um momento privilegiado de partilha de conhecimentos, de reflexão e de aprendizagem em torno da obra «Da Democracia em África», num espaço de diálogo e de aprofundamento intelectual particularmente enriquecedor. 

Amanhã haverá mais e, nos próximos dias, continuaremos esta jornada de reflexão e de conhecimento. Estão todos convidados a juntarem-se a nós nesta grande odisseia científica e intelectual em torno de África, da sua realidade, dos seus desafios e das suas possibilidades.

Leão XIV e o Desafio Antropológico da Inteligência Artificial


Comecei, desde anteontem, a ler a nova e primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial. Confesso que esta tem sido uma leitura acutilante, estimulante e intelectualmente desafiante. Trata-se de uma obra bem estruturada e densamente argumentada, que aborda questões de grande relevância, sobretudo no que respeita à problemática antropológica suscitada pela inteligência artificial no contexto contemporâneo – tanto nas suas potencialidades benéficas como nos riscos e dilemas que encerra. 

Todo o Cristão Evangélico Protestante deveria, em certa medida, possuir também uma compreensão da tradição católica. Existem, sem dúvida, numerosos pontos de divergência entre o Protestantismo e a Igreja Católica. Contudo, existem igualmente múltiplos elementos de convergência que não podem ser ignorados. Compete-nos, portanto, examinar cuidadosamente todas as coisas e reter aquilo que é verdadeiro, rejeitando o que não encontra respaldo nas Escrituras Sagradas. 

Não devemos, como advertia o Teólogo Martinho Lutero, citado por Timothy George, rejeitar indiscriminadamente tudo o que se encontra sob a esfera de influência do papado. Nas suas palavras, não se deve rejeitar «tudo que esteja sob o domínio do papa. Porque assim deveríamos rejeitar também a igreja cristã. Muito do património cristão pode-se encontrar no papado e dele descende» (LER)

Assim que concluir a leitura desta obra – o que deverá acontecer nos próximos dias – tenciono elaborar uma apreciação crítica do seu conteúdo, apresentando a minha modesta reflexão sobre os seus principais contributos, méritos e eventuais limitações. Até lá, continuarei dedicado e perseverante nesta leitura, convicto de que ela constitui uma oportunidade valiosa para aprofundar a reflexão sobre um dos temas mais decisivos do nosso tempo.

Da Democracia na América: A Minha Leitura Sobre os Dois Candidatos Presidenciais e o Possível Vencedor


A forma mais fidedigna de aferir com precisão os hábitos, costumes e mundividências do povo americano é ler “Da Democracia na América” de Alexis de Tocqueville. É uma obra colossal que dispensa glosas. Nela o célebre autor francês reduzia sabiamente a peculiaridade civilizacional do povo americano, destacando todas as importantes áreas subjacentes a uma sociedade moderna. Aborda ainda os grandes pilares da democracia participativa, nomeadamente o direito, a igualdade, a liberdade, a segurança, a protecção, a economia e o progresso. É um dos mais reputados livros alguma vez escritos sobre a sociologia dos EUA e um dos mais influentes a nível da filosofia política. 

Por isso, propomos analisar as eleições norte-americanas com base nele, fazendo concomitantemente as devidas adaptações aos nossos dias coevos. Desde já, antes de prosseguirmos com o nosso pensamento, importa esclarecer que não estamos a apoiar nenhum dos candidatos. Se porventura fôssemos americanos, por imperativo de consciência, teríamos optado por abstenção como oportunamente justificamos aqui em outras ocasiões. Temos vindo a acompanhar, com particular atenção e interesse, o desenrolar de todo o processo de eleições para o próximo Presidente dos EUA, máxime o aparente paradoxo que o mesmo encerra. O delirante espectáculo político que os republicanos e os democratas estão a proporcionar ao mundo inteiro é a manifestação visível do “espírito americano” na sua plenitude. 

Neste momento é bastante prematuro augurar um possível vencedor das eleições. Numa leitura superficial e descuidada alguns precipitar-se-ão em atribuir a vitória à Kamala Harris, tendo em conta a sua posição mais ou menos ortodoxa e equilibrada à luz do “progressismo moderno”, comparativamente com o seu adversário Donald Trump, e acrescentando o facto de ser a segunda mulher na história do país a concorrer ao tão cobiçado cargo da República.  No entanto, numa visão meramente tocquevilliana, o candidato republicano Trump parte com um ligeiro avanço face à Kamala, dado que encarna melhor os valores do “America safe again” e/ou “America great again”. 

E mais, acresce ainda o facto de Trump defender no seu programa eleitoral temas bastantes caros aos americanos, especialmente a questão da economia, a segurança interna, o mercado protecionista, a política anti-imigração e a guerra aos radicais islâmicos. É um populista nato. Fala coisas agradáveis aos ouvidos dos seus conterrâneos que muitos pensam, mas que receiam dizer em público para não ferir susceptibilidades e serem politicamente incorrectos. O candidato Trump não teme este risco continuo das coisas, razão pela qual veicula vigorosamente o mote da expulsão massiva dos imigrantes ilegais nos EUA para, deste modo, atrair mais votos e consolidar o seu favoritismo perante o eleitorado. 

A Kamala, diferentemente, não definiu uma estratégia clara na sua agenda política. Ela tem limitado somente a contrariar a política de Trump, aproveitando alguns louros da actual administração que ela é Vice-presidente. Kamala é muito vaga no seu posicionamento sobre a temática da imigração, a economia, a guerra no Médio Oriente, especialmente entre Israel e o Hamas, assim como o impasse acentuado no conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia. Tem focalizado mais na sua bandeira ultra progressista de liberalizar a hedionda pratica do aborto – e com todas implicações nefastas que isto terá e representará na vida de milhões dos americanos. 

Há ainda dois relevantes factores que jogam a desfavor de Kamala Harris: por ter sido conotada com os fracassos políticos de Washington, D.C. nos últimos anos e ser uma mulher na corrida presidencial. Ali, através da política menos conseguida do Presidente Joe Biden e por ser braço-direito deste como Vice-presidente, sendo manifestamente imputados todos os aspectos menos bons da actual administração. Aqui, tão-simplesmente, por ser uma mulher. É isto mesmo: uma mulher. Aquilo que poderia ser um triunfo inicial para ela poderá vir a ser uma autêntica pedra de tropeço. Isto porque os americanos, ao contrário dos outros povos, têm um conceito particular da concretização do Princípio da Igualdade. E como escrevia Tocqueville, para ilustrar e vincar esta grande realidade: “a América é o país do Mundo onde se teve o cuidado mais continuado de traçar para os dois sexos linhas de acção nitidamente distintas, querendo-se que eles andassem simultaneamente a par e por caminhos diferentes. Não se vê nenhuma americana a dirigir os assuntos externos da família, ou à frente de uma actividade comercial, ou agindo na esfera política, mas também não se encontra nenhuma mulher que seja obrigada a dedicar-se aos duros trabalhos da agricultura ou aos penosos labores que exigem o desenvolvimento da força física; e não existem famílias tão pobres que sejam obrigadas a fazer excepção a esta regra” (in “Da Democracia na América”, p. 724, Principia, Estoril, 2007). Os homens e as mulheres, nos EUA, há pelo menos um século, desempenhavam funções distintas uns dos outros, sem beliscar o Princípio da Igualdade na sua essência e construção, obviamente na óptica do autor francês. 

É verdade que já não se nota assim tanto uma diferenciada função entre os homens e as mulheres no mundo Ocidental. Houve, de facto, significativos avanços a nível da mentalidade das pessoas e na legislação dos países, minimizando assim as barreiras outrora existentes entre ambos os sexos, inclusive nos EUA. No entanto, tal não quer dizer que não haja ainda certos vestígios de preconceitos generalizados em relação à capacidade comprovada da mulher para conduzir os destinos políticos de uma nação. Uma coisa é ela ter vindo a desempenhar funções relevantes no aparelho do Estado e nas grandes empresas. Outra coisa, e bem diferente, é ser-lhe conferida a oportunidade única de ser Presidente de um país. Neste campo as mulheres continuam ainda a ser manifestamente discriminadas e relegadas para segundo plano, por serem apenas aquilo que são em termos biológicos, não obstante algumas melhorias verificadas no nosso mundo actual. Nos EUA, fazendo fé os relatos de Tocquiville e também no “cadastro histórico” do país, ficam ainda bastante aquém na matéria de Direitos Humanos. São ainda, em abono da verdade, tendenciosamente machistas. 

A Kamala Harris do ponto de vista objectivo tem tudo para ser a próxima Presidente da República dos EUA. Além da inquestionável tarimba política que acumulou ao longo dos anos, e mais precisamente nos últimos quatro anos, conhece muito bem os dossiers governativos. Está habilitada para ocupar a Casa Branca do que propriamente o radical, sectário e condenado Trump. Só que, por vicissitudes várias, as coisas não são assim tão lineares como aparentam. Ela para ganhar as eleições vai depender de vários factores conjugados, nomeadamente que Trump continue a cometer constantes gafes, a radicalização do discurso deste, a acentuação de cisão no seio do partido republicano e, por fim, que não haja nenhuma alteração brusca e em grande escala na política internacional nas próximas horas que se avizinham, sobretudo no Médio Oriente, aqui na Europa e no Indo-Pacifico. São estes importantes factores que vão garantir-lhe a eleição, caso contrário, tal será bastante difícil. 

A Kamala Harris se ganhar as eleições amanhã não é por ter um programa de governo auspicioso, mas sim pelo demérito do seu adversário Trump. Um homem com uma ideologia política extremamente perigosa: sexista por convicção, suprematista, belicoso, hipócrita, prepotente e ultranacionalista. Tanto que, por esta razão, foi condenado por fraude fiscal. Trump será uma ameaça para o mundo inteiro, isto é, se conseguir concretizar o seu maléfico intento, tal como tem veiculado por inúmeras vezes. Apesar dessas suas posições fraturantes e preocupantes, mesmo assim elas têm tido um acolhimento favorável na sociedade americana. Isto deve-se ao facto de os americanos darem demasiada primazia aos pontos chave do seu programa eleitoral, tal como supra destacamos. 

Vai correr muita tinta até as eleições de amanhã. Não temos margem para duvidar disso. Tudo ainda pode acontecer. É isto que faz os EUA ser o grande país que é e uma das maiores democracias do mundo. Cabe tudo nele. E nele tudo cabe. Consegue conviver pacificamente com os paradoxos. E estas eleições são uma autêntica manifestação dos antagonismos e da imprevisibilidade do povo americano. Os dois candidatos presidenciais são medíocres e ficam bastantes aquém daquilo que o povo americano merece. 

Da nossa parte, vamos aguardar serenamente o que o futuro dirá daqui algumas horas. De uma coisa temos absoluta certeza, e não hesitaremos em afiançá-lo publicamente: os EUA jamais serão iguais com o próximo Presidente da República – para o bem e para o mal. 

Confissões de Santo Agostinho


Já tenho comigo as Confissões de Santo Agostinho. Tenho comigo a obra que tanto desejava ter de a uns tempos para cá. Tenho felizmente um grande clássico de Teologia e um dos maiores vultos da milenar história do Cristianismo. Tenho comigo uma das mais emblemáticas, brilhantes, importantes, estudadas e influenciadoras obras da história da Humanidade. Segundo o historiador protestante Campenhausen, citado por Hans Küng em Os Grandes Pensadores do Cristianismo (LER)“Agostinho é um génio, é o único padre da Igreja que pode reclamar o título atribuído pela Modernidade às personagens célebres”. E mais, tanto para o bem como para o mal, influenciou decisivamente a teologia e a religiosidade ocidentais como nenhum outro teólogo. Por isso, todos aqueles que são amantes de Teologia, independentemente das suas denominações, orientações ou convicções doutrinárias, deveriam impreterivelmente conhecer um pouco do pensamento de Santo Agostinho. 

Depois de ter lido “A Cidade de Deus” do Doutor da Igreja (LER), sinto-me novamente compelido em mergulhar nas suas Confissões, tal como já estou a fazer. Espero, com a graça Divina, terminar esta penetrante leitura nos próximos dias. Assim espero mesmo. 

Aberrações do Comportamento Sexual, por Frank S. Caprio


“A ignorância das questões sexuais leva frequentemente a distorções ideológicas no que concerne a aberrações sexuais, tais como a homossexualidade, o incesto, o exibicionismo, a violação e outros desvios” (LER)

Um Longo Caminho Para a Liberdade, de Nelson Mandela


“Todos os que queriam falar, falavam. Era a democracia na sua forma mais pura. Podia haver uma hierarquia de importância entre os oradores, mas todos eram ouvidos, o chefe e o súbdito, o guerreiro e o homem de medicina, o lojista e o lavrador, o dono de terras e o jornaleiro … O fundamento do autogoverno estava em que todos os homens eram livres de dar voz às suas opiniões e eram iguais no seu valor enquanto cidadãos”[1]


[1] Nelson Mandela, citado por Amartya Sen, em “A Ideia de Justiça”, p. 438, Almedina, 2012.

Relações Humanas, de Evaristo de Vasconcelos


“As emoções devem ser comunicadas, expressas ou descarregadas: caso contrário produzem recalcamentos e endurecimentos que perturbam a personalidade” (LER)

A Mulher e os Livros


Ponho hoje um ponto final na série de publicações “A Mulher e os Livros” –  depois de longos e ininterruptos cinco anos a retratar as várias facetas, origens e faixas etárias de “nô padiduris” (VER). Escolhi deliberadamente as mulheres para retratar, tendo em conta o meu intrínseco “lado feminino” – poderá, porventura, esperar-se algo diferente de um homem com quatro irmãs consanguíneas? A resposta é obviamente negativa (LER). O livro deve ao facto de ser uma das ferramentas imprescindíveis e irrenunciáveis para uma genuína emancipação de qualquer ser humano, máxime das inofensivas mulheres do jugo opressor que, infelizmente, nos dias pós-modernos, a sociedade continua insensivelmente a reduzi-las. A instrução, a cultura, a civilização, a sabedoria, a autonomia e a autodeterminação são valores que se adquirem facilmente nos livros de vários saberes humanos. Uma mulher com boa bagagem literária (boa formação, bem entendido) certamente que tem mais antídotos necessários para, de forma sábia e eficaz, fazer face aos abusos da sociedade machista e injusta a que estamos circunscritos. Dito por outras palavras, está mais habilitada a viver condignamente no mundo dos homens. 

Sem entrar mais em prolegómenos, retratar a Mulher não é tarefa fácil, uma vez que ela não pode ser delimitada por apenas uma única formulação. Por isso, na mesma esteira do pensamento, “os poetas exaltaram as qualidades, os moralistas colocaram a nu os defeitos, os publicistas discutiram os direitos, os médicos descreveram as doenças, os fisiologistas mostraram os mais íntimos segredos da sua organização”, escrevia peremptoriamente Cérise. Mesmo assim, a mulher será sempre mulher independentemente do estudo realizado e do juízo formado a seu respeito no contexto em que esteja inserida. Ela será sempre o mistério vivente, por virtude do qual o homem nasce, vive e morre. Eis, em última instância, a verdadeira definição e encarnação da Mulher na sua multiforme configuração antropológica. 

O Ente e a Essência, de São Tomás de Aquino


«De entre os factores que podem mudar o homem, alguns são fisiológicos e outros psicológicos. Os últimos podem ser sensíveis ou inteligíveis e os primeiros podem ser práticos ou teóricos. Dos primeiros, o mais forte é o vinho, dos segundos, as mulheres; dos terceiros, o poder de governar, dos quartos, a verdade. Devem ser subordinados uns aos outros na ordem inversa». 

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(São Tomás de Aquino, Quodlibet. XII, 20, citado pelo mesmo autor em “O Ente e a Essência”, p. 9, Instituto PIAGET, Lisboa, 2000). 

A Ler

A ler o Courrier Internacional. É uma das minhas revistas favoritas há sensivelmente nove anos, tal como o suplemento semanal da revista Expresso. Não prescindo de nenhuma edição delas. Tenho-as sempre comigo. São revistas extremamente boas e que nos enriquecem bastante do ponto de vista intelecto-cultural. Gosto imenso dos livros e sou um leitor compulsivo (LER). Emprego a generalidade do meu tempo a ler e a escrever. Por isso, gasto uma verba significativa do meu dinheiro nos livros e nas revistas (LER). Mesmo assim, não compro livros de conteúdos “pobres” e, tão pouco, não perco tempo a ler coisas que não vão acrescentar-me nada culturalmente. Sou, mesmo assim, bastante selectivo naquilo que vou lendo diariamente. Aprecio praticamente os livros de todos os géneros literários, especialmente os de Teologia, Literatura e Política. Não sou muito dado a poesia, mas sim a prosa. Tanto que, por esta razão, escrevo somente crónicas e nunca me aventurei nas águas poéticas. Tenciono, num futuro breve, começar também a escrever sobre os textos poéticos. 

O Corrier Internacional é daquelas revistas imprescindíveis, porque dão-nos sempre um panorama abrangente e transversal daquilo que passa no nosso mundo pós-moderno, nos mais variados domínios, através de reputados jornais, revistas e articulistas. Vale, portanto, a pena, sempre comprá-la, lê-la e guardá-la. Recomendo. 

Um Dia, Uma Fotografia


Eu (LER). Sentado no meu reduto de isolamento, ou melhor, casulo de protecção – a minha aconchegante e inspiradora biblioteca. Gosto bastante dos livros, da leitura, da escrita, da intelectualidade, da racionalidade, da cultura geral e de refugiar-me no confronto saudável de ideias como forma de tentar reconciliar-me com o Mundo (LER). É aqui, no meu “admirável mundo novo”, que me inspiro e produzo todas “As Verdades” que vou partilhando nos mais diversos fóruns de interacção (LER).  O melhor de mim, confesso publicamente, advém também da sapiência dos livros. 

Uma Nova Aquisição Bíblica



Escusado seria dizer que gosto bastante dos livros e de ler em particular. Nutro uma atenção especial pela literatura e escrita (ALI) (AQUI). É uma forma peculiar a que disponho para me "libertar" e reconciliar-me comigo e com o mundo em geral, razão pela qual me tenho desdobrado em inúmeros investimentos nestas importantes áreas do saber. Amo os livros. Aprecio a leitura. Sou um fã incondicional da escrita (LER). Os livros, de diferentes géneros, integram a minha humilde biblioteca. E quando se trata ainda dos livros de Teologia, nomeadamente da Bíblia Sagrada, fico ainda mais fascinado. Por isso, tenho coleccionado algumas versões bíblicas – tanto as versões normais como as de Estudo para enriquecer ainda mais os meus conhecimentos Teológicos e consolidar a minha espiritualidade. 

Seguindo essa lógica livresca adquiri, num passado recente, a Bíblia de Estudo MacArthur para incorporar o meu leque bíblico. Temos a Palavra de DEUS em suporte de papel, digital e, sobretudo, no coração, para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós (1 Pedro 3:15)

A Organização Sociopolítica da Etnia Papel


«As sete linhagens que compõem a etnia dos pepeis reagrupam-se nos diferentes clãs, cada um simbolizado por um animal cujo nome se torna o nome da família dos membros do clã: o clã Intchassu leva o nome de NANKE (a onça). Este clã, que é também o dos nobres, utiliza igualmente o nome IE. Dizem-se bravos como a onça, razão pela qua exercem funções de comando (os reis, os Djagras). O clã Intsutu, o de DJÔ (“urso-formigueiro”) admitem ser idiotas como o timba (o tamanduá, “urso formigueiro”); o clã de Intsáfintê, o de TE (a lebre), são astutos como a lebre; o clã de Intsô, o de KÓ (o sapo). Dedicam-se à cultura da terra e estão sempre imersos em água, na lama como o sapo; o clã de Indjókomo, o de Ká (a hiena). Foram, no seu tempo, guerreiros temidos. Atacavam como a hiena; o clã de Iga, o Sá (o antílope frintambá). Fazem-se notar pela sua graciosidade e a sua elegância, à imagem do antílope (frintambá); o clã Intsatê, o de INDI (macaco). Tornaram-se mestres em matéria de extracção de vinho de palma e sobem às palmeiras como os macacos. A organização social do grupo Papel baseia-se na filiação uterina. A criança recebe automaticamente o totem da sua mãe. Eles praticavam a exogamia. Trata-se, aliás, de um princípio observado por todos os grupos animistas para determinar a pertença à linhagem (Djorçon)». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 59 e 60). 

Génesis e Etimologia do Etnónimo Papel


«O nome tradicional dos pepeis é Ba-Sáu, Basháu ou Ba-são (Ensháu). Este é o nome que os Balantas usavam para designar os originários da ilha de Bissau. Etimologicamente, o termo Ba-Sáu significa em Balanta “eles são exterminados”. A tradição oral explica que esta expressão teria sido utilizada pelo único sobrevivente de uma das batalhas entre os Balantas e os Pepeis. À sua chegada à aldeia, o único sobrevivente dos invasores teria explicado aos seus que todos os seus companheiros tinham sido mortos, Ba-Sáu. Trata-se do grupo único que Valentim Fernandes tinha chamado de Cacheos, reagrupando assim Brames, Pepeis e, posteriormente, Manjacos. A. A. De Almada, tinha colocado em conjunto Buramos e Pepeis, chamando estes últimos de Biçaos ou Bissáus (Parece que Biçaos é o plural de Biçao ou Bissau, uma deformação do nome de um dos sete clãs que compõem o grupo Pepel. O nome exato é Bissassu, plural d´Intchassu. Esta palavra ter-se-ia tornado Bissahu e mais tarde Bissau. A cidade de Bissau é o local onde o clã Intchassu se instalou. Da mesma maneira, o termo Sapi (Sapij ou Tiapys), seria uma deformação de Safi ou Safim, derivado de N´sáfinte, nome de outro clã do qual vem o topónimo de Safim, região onde o clã se tinha instalado). Alguns consideram-nos descendentes dos Biafadas (segundo a lenda, os Pepeis descenderiam de um casamento entre um príncipe Biafada com uma mulher Brama da Ilha de Bissau. Os dois grupos contam que um caçador, chamado Mecau, filho do todo-poderoso rei de Quínara, da família Buduque, teria ido para a ilha de Bissau num torneio de caça, onde ele teria finalmente escolhido casar com as suas mulheres e uma das suas irmãs. A lenda apresenta os Pepeis como descendentes das suas seis esposas e da sua irmã». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 58).

Dia Mundial do Livro


Eu com o único livro da minha vida, a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Efésios 6:17). 


Dizem que hoje é o “Dia Mundial do Livro” e acredito que sim. Gosto imenso dos livros, da leitura, da escrita, da intelectualidade e de refugiar-me no confronto saudável de ideias. É uma forma peculiar que disponho para tentar reconciliar-me com o mundo à minha volta. Naturalmente, para ser bem-sucedido nestes salutares hábitos, é extremamente importante gostar de livros e da leitura em especial, razão pela qual tenho feito inúmeras aquisições literárias ao longo dos anos e me desdobrado concomitantemente num rigoroso plano de leitura. Sou, de facto, em abono da verdade, um leitor compulsivo e amante da escrita. A começar, desde logo, com a leitura de livros de várias mundividências, jornais credenciados e reputadas revistas. 

A vida ensina-nos de múltiplas formas. E uma delas é através dos livros que vamos lendo na nossa trajectória. A instrução, a civilização, a cultura geral, o raciocínio lógico, o pensamento crítico, a autonomia do pensamento e a autodeterminação são todos valores indispensáveis contidos nos livros de vários saberes. Ter o hábito de leitura e capacidade cognitiva suficiente de discernimento, para saber examinar correctamente tudo e reter o bem, é um passo amiúde determinante para trilhar o almejado caminho da sabedoria. E a sabedoria é a única virtude que nos dá acesso directo à felicidade (um postulado igualmente formulado há séculos nas Escrituras Sagradas, com ênfase mais acentuada nos Provérbios e Eclesiastes de Salomão, acabando posteriormente por receber um amplo acolhimento no estoicismo, no utilitarismo de Jeremy Bentham e John Stuart Mill). A sabedoria e a felicidade, sem qualquer tipo de hesitação, moram nos livros e nas enriquecedoras experiências práticas que vamos tendo no nosso percurso de vida. 

Por isso, encarnando esta grande e inquestionável verdade soteriologica, tenho lido imenso e adoptado simultaneamente alguns excelentes livros comigo. Neste rol de livros favoritos, importa ainda salientar, o único livro de que jamais prescindo é a Bíblia Sagrada, a Palavra de DEUS. Leio-o praticamente todos os dias. Tem-me ensinando muito e transformado positivamente a minha forma de viver e encarar os desafios da vida a todos os níveis. Isto porque, tal como sustentava peremptoriamente o Apóstolo Paulo, “toda a Escritura é inspirada por Deus e serve para ensinar, convencer, corrigir e educar, segundo a vontade de Deus, a fim de que quem serve a Deus seja perfeito e esteja pronto para fazer tudo o que é bom” (2 Tm 3:16). Que assim seja.