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Leão XIV e o Desafio Antropológico da Inteligência Artificial


Comecei, desde anteontem, a ler a nova e primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial. Confesso que esta tem sido uma leitura acutilante, estimulante e intelectualmente desafiante. Trata-se de uma obra bem estruturada e densamente argumentada, que aborda questões de grande relevância, sobretudo no que respeita à problemática antropológica suscitada pela inteligência artificial no contexto contemporâneo – tanto nas suas potencialidades benéficas como nos riscos e dilemas que encerra. 

Todo o Cristão Evangélico Protestante deveria, em certa medida, possuir também uma compreensão da tradição católica. Existem, sem dúvida, numerosos pontos de divergência entre o Protestantismo e a Igreja Católica. Contudo, existem igualmente múltiplos elementos de convergência que não podem ser ignorados. Compete-nos, portanto, examinar cuidadosamente todas as coisas e reter aquilo que é verdadeiro, rejeitando o que não encontra respaldo nas Escrituras Sagradas. 

Não devemos, como advertia o Teólogo Martinho Lutero, citado por Timothy George, rejeitar indiscriminadamente tudo o que se encontra sob a esfera de influência do papado. Nas suas palavras, não se deve rejeitar «tudo que esteja sob o domínio do papa. Porque assim deveríamos rejeitar também a igreja cristã. Muito do património cristão pode-se encontrar no papado e dele descende» (LER)

Assim que concluir a leitura desta obra – o que deverá acontecer nos próximos dias – tenciono elaborar uma apreciação crítica do seu conteúdo, apresentando a minha modesta reflexão sobre os seus principais contributos, méritos e eventuais limitações. Até lá, continuarei dedicado e perseverante nesta leitura, convicto de que ela constitui uma oportunidade valiosa para aprofundar a reflexão sobre um dos temas mais decisivos do nosso tempo.

Da Democracia na América: A Minha Leitura Sobre os Dois Candidatos Presidenciais e o Possível Vencedor


A forma mais fidedigna de aferir com precisão os hábitos, costumes e mundividências do povo americano é ler “Da Democracia na América” de Alexis de Tocqueville. É uma obra colossal que dispensa glosas. Nela o célebre autor francês reduzia sabiamente a peculiaridade civilizacional do povo americano, destacando todas as importantes áreas subjacentes a uma sociedade moderna. Aborda ainda os grandes pilares da democracia participativa, nomeadamente o direito, a igualdade, a liberdade, a segurança, a protecção, a economia e o progresso. É um dos mais reputados livros alguma vez escritos sobre a sociologia dos EUA e um dos mais influentes a nível da filosofia política. 

Por isso, propomos analisar as eleições norte-americanas com base nele, fazendo concomitantemente as devidas adaptações aos nossos dias coevos. Desde já, antes de prosseguirmos com o nosso pensamento, importa esclarecer que não estamos a apoiar nenhum dos candidatos. Se porventura fôssemos americanos, por imperativo de consciência, teríamos optado por abstenção como oportunamente justificamos aqui em outras ocasiões. Temos vindo a acompanhar, com particular atenção e interesse, o desenrolar de todo o processo de eleições para o próximo Presidente dos EUA, máxime o aparente paradoxo que o mesmo encerra. O delirante espectáculo político que os republicanos e os democratas estão a proporcionar ao mundo inteiro é a manifestação visível do “espírito americano” na sua plenitude. 

Neste momento é bastante prematuro augurar um possível vencedor das eleições. Numa leitura superficial e descuidada alguns precipitar-se-ão em atribuir a vitória à Kamala Harris, tendo em conta a sua posição mais ou menos ortodoxa e equilibrada à luz do “progressismo moderno”, comparativamente com o seu adversário Donald Trump, e acrescentando o facto de ser a segunda mulher na história do país a concorrer ao tão cobiçado cargo da República.  No entanto, numa visão meramente tocquevilliana, o candidato republicano Trump parte com um ligeiro avanço face à Kamala, dado que encarna melhor os valores do “America safe again” e/ou “America great again”. 

E mais, acresce ainda o facto de Trump defender no seu programa eleitoral temas bastantes caros aos americanos, especialmente a questão da economia, a segurança interna, o mercado protecionista, a política anti-imigração e a guerra aos radicais islâmicos. É um populista nato. Fala coisas agradáveis aos ouvidos dos seus conterrâneos que muitos pensam, mas que receiam dizer em público para não ferir susceptibilidades e serem politicamente incorrectos. O candidato Trump não teme este risco continuo das coisas, razão pela qual veicula vigorosamente o mote da expulsão massiva dos imigrantes ilegais nos EUA para, deste modo, atrair mais votos e consolidar o seu favoritismo perante o eleitorado. 

A Kamala, diferentemente, não definiu uma estratégia clara na sua agenda política. Ela tem limitado somente a contrariar a política de Trump, aproveitando alguns louros da actual administração que ela é Vice-presidente. Kamala é muito vaga no seu posicionamento sobre a temática da imigração, a economia, a guerra no Médio Oriente, especialmente entre Israel e o Hamas, assim como o impasse acentuado no conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia. Tem focalizado mais na sua bandeira ultra progressista de liberalizar a hedionda pratica do aborto – e com todas implicações nefastas que isto terá e representará na vida de milhões dos americanos. 

Há ainda dois relevantes factores que jogam a desfavor de Kamala Harris: por ter sido conotada com os fracassos políticos de Washington, D.C. nos últimos anos e ser uma mulher na corrida presidencial. Ali, através da política menos conseguida do Presidente Joe Biden e por ser braço-direito deste como Vice-presidente, sendo manifestamente imputados todos os aspectos menos bons da actual administração. Aqui, tão-simplesmente, por ser uma mulher. É isto mesmo: uma mulher. Aquilo que poderia ser um triunfo inicial para ela poderá vir a ser uma autêntica pedra de tropeço. Isto porque os americanos, ao contrário dos outros povos, têm um conceito particular da concretização do Princípio da Igualdade. E como escrevia Tocqueville, para ilustrar e vincar esta grande realidade: “a América é o país do Mundo onde se teve o cuidado mais continuado de traçar para os dois sexos linhas de acção nitidamente distintas, querendo-se que eles andassem simultaneamente a par e por caminhos diferentes. Não se vê nenhuma americana a dirigir os assuntos externos da família, ou à frente de uma actividade comercial, ou agindo na esfera política, mas também não se encontra nenhuma mulher que seja obrigada a dedicar-se aos duros trabalhos da agricultura ou aos penosos labores que exigem o desenvolvimento da força física; e não existem famílias tão pobres que sejam obrigadas a fazer excepção a esta regra” (in “Da Democracia na América”, p. 724, Principia, Estoril, 2007). Os homens e as mulheres, nos EUA, há pelo menos um século, desempenhavam funções distintas uns dos outros, sem beliscar o Princípio da Igualdade na sua essência e construção, obviamente na óptica do autor francês. 

É verdade que já não se nota assim tanto uma diferenciada função entre os homens e as mulheres no mundo Ocidental. Houve, de facto, significativos avanços a nível da mentalidade das pessoas e na legislação dos países, minimizando assim as barreiras outrora existentes entre ambos os sexos, inclusive nos EUA. No entanto, tal não quer dizer que não haja ainda certos vestígios de preconceitos generalizados em relação à capacidade comprovada da mulher para conduzir os destinos políticos de uma nação. Uma coisa é ela ter vindo a desempenhar funções relevantes no aparelho do Estado e nas grandes empresas. Outra coisa, e bem diferente, é ser-lhe conferida a oportunidade única de ser Presidente de um país. Neste campo as mulheres continuam ainda a ser manifestamente discriminadas e relegadas para segundo plano, por serem apenas aquilo que são em termos biológicos, não obstante algumas melhorias verificadas no nosso mundo actual. Nos EUA, fazendo fé os relatos de Tocquiville e também no “cadastro histórico” do país, ficam ainda bastante aquém na matéria de Direitos Humanos. São ainda, em abono da verdade, tendenciosamente machistas. 

A Kamala Harris do ponto de vista objectivo tem tudo para ser a próxima Presidente da República dos EUA. Além da inquestionável tarimba política que acumulou ao longo dos anos, e mais precisamente nos últimos quatro anos, conhece muito bem os dossiers governativos. Está habilitada para ocupar a Casa Branca do que propriamente o radical, sectário e condenado Trump. Só que, por vicissitudes várias, as coisas não são assim tão lineares como aparentam. Ela para ganhar as eleições vai depender de vários factores conjugados, nomeadamente que Trump continue a cometer constantes gafes, a radicalização do discurso deste, a acentuação de cisão no seio do partido republicano e, por fim, que não haja nenhuma alteração brusca e em grande escala na política internacional nas próximas horas que se avizinham, sobretudo no Médio Oriente, aqui na Europa e no Indo-Pacifico. São estes importantes factores que vão garantir-lhe a eleição, caso contrário, tal será bastante difícil. 

A Kamala Harris se ganhar as eleições amanhã não é por ter um programa de governo auspicioso, mas sim pelo demérito do seu adversário Trump. Um homem com uma ideologia política extremamente perigosa: sexista por convicção, suprematista, belicoso, hipócrita, prepotente e ultranacionalista. Tanto que, por esta razão, foi condenado por fraude fiscal. Trump será uma ameaça para o mundo inteiro, isto é, se conseguir concretizar o seu maléfico intento, tal como tem veiculado por inúmeras vezes. Apesar dessas suas posições fraturantes e preocupantes, mesmo assim elas têm tido um acolhimento favorável na sociedade americana. Isto deve-se ao facto de os americanos darem demasiada primazia aos pontos chave do seu programa eleitoral, tal como supra destacamos. 

Vai correr muita tinta até as eleições de amanhã. Não temos margem para duvidar disso. Tudo ainda pode acontecer. É isto que faz os EUA ser o grande país que é e uma das maiores democracias do mundo. Cabe tudo nele. E nele tudo cabe. Consegue conviver pacificamente com os paradoxos. E estas eleições são uma autêntica manifestação dos antagonismos e da imprevisibilidade do povo americano. Os dois candidatos presidenciais são medíocres e ficam bastantes aquém daquilo que o povo americano merece. 

Da nossa parte, vamos aguardar serenamente o que o futuro dirá daqui algumas horas. De uma coisa temos absoluta certeza, e não hesitaremos em afiançá-lo publicamente: os EUA jamais serão iguais com o próximo Presidente da República – para o bem e para o mal. 

Confissões de Santo Agostinho


Já tenho comigo as Confissões de Santo Agostinho. Tenho comigo a obra que tanto desejava ter de a uns tempos para cá. Tenho felizmente um grande clássico de Teologia e um dos maiores vultos da milenar história do Cristianismo. Tenho comigo uma das mais emblemáticas, brilhantes, importantes, estudadas e influenciadoras obras da história da Humanidade. Segundo o historiador protestante Campenhausen, citado por Hans Küng em Os Grandes Pensadores do Cristianismo (LER)“Agostinho é um génio, é o único padre da Igreja que pode reclamar o título atribuído pela Modernidade às personagens célebres”. E mais, tanto para o bem como para o mal, influenciou decisivamente a teologia e a religiosidade ocidentais como nenhum outro teólogo. Por isso, todos aqueles que são amantes de Teologia, independentemente das suas denominações, orientações ou convicções doutrinárias, deveriam impreterivelmente conhecer um pouco do pensamento de Santo Agostinho. 

Depois de ter lido “A Cidade de Deus” do Doutor da Igreja (LER), sinto-me novamente compelido em mergulhar nas suas Confissões, tal como já estou a fazer. Espero, com a graça Divina, terminar esta penetrante leitura nos próximos dias. Assim espero mesmo. 

Aberrações do Comportamento Sexual, por Frank S. Caprio


“A ignorância das questões sexuais leva frequentemente a distorções ideológicas no que concerne a aberrações sexuais, tais como a homossexualidade, o incesto, o exibicionismo, a violação e outros desvios” (LER)

Um Longo Caminho Para a Liberdade, de Nelson Mandela


“Todos os que queriam falar, falavam. Era a democracia na sua forma mais pura. Podia haver uma hierarquia de importância entre os oradores, mas todos eram ouvidos, o chefe e o súbdito, o guerreiro e o homem de medicina, o lojista e o lavrador, o dono de terras e o jornaleiro … O fundamento do autogoverno estava em que todos os homens eram livres de dar voz às suas opiniões e eram iguais no seu valor enquanto cidadãos”[1]


[1] Nelson Mandela, citado por Amartya Sen, em “A Ideia de Justiça”, p. 438, Almedina, 2012.

Relações Humanas, de Evaristo de Vasconcelos


“As emoções devem ser comunicadas, expressas ou descarregadas: caso contrário produzem recalcamentos e endurecimentos que perturbam a personalidade” (LER)

A Mulher e os Livros


Ponho hoje um ponto final na série de publicações “A Mulher e os Livros” –  depois de longos e ininterruptos cinco anos a retratar as várias facetas, origens e faixas etárias de “nô padiduris” (VER). Escolhi deliberadamente as mulheres para retratar, tendo em conta o meu intrínseco “lado feminino” – poderá, porventura, esperar-se algo diferente de um homem com quatro irmãs consanguíneas? A resposta é obviamente negativa (LER). O livro deve ao facto de ser uma das ferramentas imprescindíveis e irrenunciáveis para uma genuína emancipação de qualquer ser humano, máxime das inofensivas mulheres do jugo opressor que, infelizmente, nos dias pós-modernos, a sociedade continua insensivelmente a reduzi-las. A instrução, a cultura, a civilização, a sabedoria, a autonomia e a autodeterminação são valores que se adquirem facilmente nos livros de vários saberes humanos. Uma mulher com boa bagagem literária (boa formação, bem entendido) certamente que tem mais antídotos necessários para, de forma sábia e eficaz, fazer face aos abusos da sociedade machista e injusta a que estamos circunscritos. Dito por outras palavras, está mais habilitada a viver condignamente no mundo dos homens. 

Sem entrar mais em prolegómenos, retratar a Mulher não é tarefa fácil, uma vez que ela não pode ser delimitada por apenas uma única formulação. Por isso, na mesma esteira do pensamento, “os poetas exaltaram as qualidades, os moralistas colocaram a nu os defeitos, os publicistas discutiram os direitos, os médicos descreveram as doenças, os fisiologistas mostraram os mais íntimos segredos da sua organização”, escrevia peremptoriamente Cérise. Mesmo assim, a mulher será sempre mulher independentemente do estudo realizado e do juízo formado a seu respeito no contexto em que esteja inserida. Ela será sempre o mistério vivente, por virtude do qual o homem nasce, vive e morre. Eis, em última instância, a verdadeira definição e encarnação da Mulher na sua multiforme configuração antropológica. 

O Ente e a Essência, de São Tomás de Aquino


«De entre os factores que podem mudar o homem, alguns são fisiológicos e outros psicológicos. Os últimos podem ser sensíveis ou inteligíveis e os primeiros podem ser práticos ou teóricos. Dos primeiros, o mais forte é o vinho, dos segundos, as mulheres; dos terceiros, o poder de governar, dos quartos, a verdade. Devem ser subordinados uns aos outros na ordem inversa». 

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(São Tomás de Aquino, Quodlibet. XII, 20, citado pelo mesmo autor em “O Ente e a Essência”, p. 9, Instituto PIAGET, Lisboa, 2000). 

A Ler

A ler o Courrier Internacional. É uma das minhas revistas favoritas há sensivelmente nove anos, tal como o suplemento semanal da revista Expresso. Não prescindo de nenhuma edição delas. Tenho-as sempre comigo. São revistas extremamente boas e que nos enriquecem bastante do ponto de vista intelecto-cultural. Gosto imenso dos livros e sou um leitor compulsivo (LER). Emprego a generalidade do meu tempo a ler e a escrever. Por isso, gasto uma verba significativa do meu dinheiro nos livros e nas revistas (LER). Mesmo assim, não compro livros de conteúdos “pobres” e, tão pouco, não perco tempo a ler coisas que não vão acrescentar-me nada culturalmente. Sou, mesmo assim, bastante selectivo naquilo que vou lendo diariamente. Aprecio praticamente os livros de todos os géneros literários, especialmente os de Teologia, Literatura e Política. Não sou muito dado a poesia, mas sim a prosa. Tanto que, por esta razão, escrevo somente crónicas e nunca me aventurei nas águas poéticas. Tenciono, num futuro breve, começar também a escrever sobre os textos poéticos. 

O Corrier Internacional é daquelas revistas imprescindíveis, porque dão-nos sempre um panorama abrangente e transversal daquilo que passa no nosso mundo pós-moderno, nos mais variados domínios, através de reputados jornais, revistas e articulistas. Vale, portanto, a pena, sempre comprá-la, lê-la e guardá-la. Recomendo. 

Um Dia, Uma Fotografia


Eu (LER). Sentado no meu reduto de isolamento, ou melhor, casulo de protecção – a minha aconchegante e inspiradora biblioteca. Gosto bastante dos livros, da leitura, da escrita, da intelectualidade, da racionalidade, da cultura geral e de refugiar-me no confronto saudável de ideias como forma de tentar reconciliar-me com o Mundo (LER). É aqui, no meu “admirável mundo novo”, que me inspiro e produzo todas “As Verdades” que vou partilhando nos mais diversos fóruns de interacção (LER).  O melhor de mim, confesso publicamente, advém também da sapiência dos livros. 

Uma Nova Aquisição Bíblica



Escusado seria dizer que gosto bastante dos livros e de ler em particular. Nutro uma atenção especial pela literatura e escrita (ALI) (AQUI). É uma forma peculiar a que disponho para me "libertar" e reconciliar-me comigo e com o mundo em geral, razão pela qual me tenho desdobrado em inúmeros investimentos nestas importantes áreas do saber. Amo os livros. Aprecio a leitura. Sou um fã incondicional da escrita (LER). Os livros, de diferentes géneros, integram a minha humilde biblioteca. E quando se trata ainda dos livros de Teologia, nomeadamente da Bíblia Sagrada, fico ainda mais fascinado. Por isso, tenho coleccionado algumas versões bíblicas – tanto as versões normais como as de Estudo para enriquecer ainda mais os meus conhecimentos Teológicos e consolidar a minha espiritualidade. 

Seguindo essa lógica livresca adquiri, num passado recente, a Bíblia de Estudo MacArthur para incorporar o meu leque bíblico. Temos a Palavra de DEUS em suporte de papel, digital e, sobretudo, no coração, para responder com mansidão e temor a qualquer que nos pedir a razão da esperança que há em nós (1 Pedro 3:15)

A Organização Sociopolítica da Etnia Papel


«As sete linhagens que compõem a etnia dos pepeis reagrupam-se nos diferentes clãs, cada um simbolizado por um animal cujo nome se torna o nome da família dos membros do clã: o clã Intchassu leva o nome de NANKE (a onça). Este clã, que é também o dos nobres, utiliza igualmente o nome IE. Dizem-se bravos como a onça, razão pela qua exercem funções de comando (os reis, os Djagras). O clã Intsutu, o de DJÔ (“urso-formigueiro”) admitem ser idiotas como o timba (o tamanduá, “urso formigueiro”); o clã de Intsáfintê, o de TE (a lebre), são astutos como a lebre; o clã de Intsô, o de KÓ (o sapo). Dedicam-se à cultura da terra e estão sempre imersos em água, na lama como o sapo; o clã de Indjókomo, o de Ká (a hiena). Foram, no seu tempo, guerreiros temidos. Atacavam como a hiena; o clã de Iga, o Sá (o antílope frintambá). Fazem-se notar pela sua graciosidade e a sua elegância, à imagem do antílope (frintambá); o clã Intsatê, o de INDI (macaco). Tornaram-se mestres em matéria de extracção de vinho de palma e sobem às palmeiras como os macacos. A organização social do grupo Papel baseia-se na filiação uterina. A criança recebe automaticamente o totem da sua mãe. Eles praticavam a exogamia. Trata-se, aliás, de um princípio observado por todos os grupos animistas para determinar a pertença à linhagem (Djorçon)». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 59 e 60). 

Génesis e Etimologia do Etnónimo Papel


«O nome tradicional dos pepeis é Ba-Sáu, Basháu ou Ba-são (Ensháu). Este é o nome que os Balantas usavam para designar os originários da ilha de Bissau. Etimologicamente, o termo Ba-Sáu significa em Balanta “eles são exterminados”. A tradição oral explica que esta expressão teria sido utilizada pelo único sobrevivente de uma das batalhas entre os Balantas e os Pepeis. À sua chegada à aldeia, o único sobrevivente dos invasores teria explicado aos seus que todos os seus companheiros tinham sido mortos, Ba-Sáu. Trata-se do grupo único que Valentim Fernandes tinha chamado de Cacheos, reagrupando assim Brames, Pepeis e, posteriormente, Manjacos. A. A. De Almada, tinha colocado em conjunto Buramos e Pepeis, chamando estes últimos de Biçaos ou Bissáus (Parece que Biçaos é o plural de Biçao ou Bissau, uma deformação do nome de um dos sete clãs que compõem o grupo Pepel. O nome exato é Bissassu, plural d´Intchassu. Esta palavra ter-se-ia tornado Bissahu e mais tarde Bissau. A cidade de Bissau é o local onde o clã Intchassu se instalou. Da mesma maneira, o termo Sapi (Sapij ou Tiapys), seria uma deformação de Safi ou Safim, derivado de N´sáfinte, nome de outro clã do qual vem o topónimo de Safim, região onde o clã se tinha instalado). Alguns consideram-nos descendentes dos Biafadas (segundo a lenda, os Pepeis descenderiam de um casamento entre um príncipe Biafada com uma mulher Brama da Ilha de Bissau. Os dois grupos contam que um caçador, chamado Mecau, filho do todo-poderoso rei de Quínara, da família Buduque, teria ido para a ilha de Bissau num torneio de caça, onde ele teria finalmente escolhido casar com as suas mulheres e uma das suas irmãs. A lenda apresenta os Pepeis como descendentes das suas seis esposas e da sua irmã». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 58).

Dia Mundial do Livro


Eu com o único livro da minha vida, a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Efésios 6:17). 


Dizem que hoje é o “Dia Mundial do Livro” e acredito que sim. Gosto imenso dos livros, da leitura, da escrita, da intelectualidade e de refugiar-me no confronto saudável de ideias. É uma forma peculiar que disponho para tentar reconciliar-me com o mundo à minha volta. Naturalmente, para ser bem-sucedido nestes salutares hábitos, é extremamente importante gostar de livros e da leitura em especial, razão pela qual tenho feito inúmeras aquisições literárias ao longo dos anos e me desdobrado concomitantemente num rigoroso plano de leitura. Sou, de facto, em abono da verdade, um leitor compulsivo e amante da escrita. A começar, desde logo, com a leitura de livros de várias mundividências, jornais credenciados e reputadas revistas. 

A vida ensina-nos de múltiplas formas. E uma delas é através dos livros que vamos lendo na nossa trajectória. A instrução, a civilização, a cultura geral, o raciocínio lógico, o pensamento crítico, a autonomia do pensamento e a autodeterminação são todos valores indispensáveis contidos nos livros de vários saberes. Ter o hábito de leitura e capacidade cognitiva suficiente de discernimento, para saber examinar correctamente tudo e reter o bem, é um passo amiúde determinante para trilhar o almejado caminho da sabedoria. E a sabedoria é a única virtude que nos dá acesso directo à felicidade (um postulado igualmente formulado há séculos nas Escrituras Sagradas, com ênfase mais acentuada nos Provérbios e Eclesiastes de Salomão, acabando posteriormente por receber um amplo acolhimento no estoicismo, no utilitarismo de Jeremy Bentham e John Stuart Mill). A sabedoria e a felicidade, sem qualquer tipo de hesitação, moram nos livros e nas enriquecedoras experiências práticas que vamos tendo no nosso percurso de vida. 

Por isso, encarnando esta grande e inquestionável verdade soteriologica, tenho lido imenso e adoptado simultaneamente alguns excelentes livros comigo. Neste rol de livros favoritos, importa ainda salientar, o único livro de que jamais prescindo é a Bíblia Sagrada, a Palavra de DEUS. Leio-o praticamente todos os dias. Tem-me ensinando muito e transformado positivamente a minha forma de viver e encarar os desafios da vida a todos os níveis. Isto porque, tal como sustentava peremptoriamente o Apóstolo Paulo, “toda a Escritura é inspirada por Deus e serve para ensinar, convencer, corrigir e educar, segundo a vontade de Deus, a fim de que quem serve a Deus seja perfeito e esteja pronto para fazer tudo o que é bom” (2 Tm 3:16). Que assim seja.

Não Censuremos nos Outros Aquilo que Também nos Atinge


Não censuremos nos outros aquilo que também nos atinge, diz sabiamente o brocardo popular. Seguindo na mesma esteira do pensamento, escrevia o reputado Filósofo Plutarco, na sua célebre obra “Como Tirar Proveito dos Inimigos”, que Platão ao encontrar-se com homens que agiam torpemente, costumava perguntar a si mesmo: «por acaso, serei igual a eles?». Todo aquele que censura a vida de outro, e em seguida olha para a sua própria vida e a modifica, orientando-a e corrigindo-a, retirará algum proveito da censura que, de contrário, parece ser, e é, inútil e vazia. Por isso, prosseguia advertidamente, a maioria das pessoas ri-se se um calvo ou um corcunda censuram e troçam de outros pelas mesmas razões, e, em geral, é risível censurar e troçar de qualquer coisa que pode devolver-lhe a censura. 

E, de seguida, vai dando especificamente o exemplo do Leão, o Bizantino, que tendo sido injuriado por um corcunda pela enfermidade dos seus olhos, lhe disse: «Deitas-me em cara uma desgraça humana, quando levas aos ombros a vingança divina». E também, não injurieis outro por ser adúltero, se tu mesmo fores louco pelos jovens; nem por ser desregrado, se tu mesmo és ruim: «És da mesma estirpe da mulher que matou o marido», disse Alcmeão a Adrasto. Que fazia aquele, na verdade? Não deitava em cara a injúria de outro, mas a sua própria: «E tu és o assassino da mãe que te gerou», respondeu-lhe na mesma medida o primeiro. 

E Domicio[2] disse a Craso[3]: «Não choraste tu pela moreia[4] que alimentavas no teu viveiro?». E Craso respondeu-lhe: «Não enterraste tu três mulheres sem derramares uma única lágrima?». Não é necessário que aquele que vai injuriar seja gracioso, de voz potente e audaz, deve, contudo, ser irrepressível e inatacável. Pois, o conselho da divindade «conhece-te a ti mesmo» parece aplicar-se sobretudo àquele que vai censurar outro, para que, ao dizer o que quer, não vá escutar o que não quer. Certamente pessoa deste tipo «quer», segundo Sófocles, soltando a sua língua em vão, ouvir involuntariamente aquelas palavras que diz voluntariamente, sentenciava o Filósofo. 

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(Inspirado no livro de Plutarco, in “Como Tirar Proveito dos Inimigos”, Coisas de Ler, p. 9,18,19, Lisboa, 2008).

A Narcisista do Segundo Sexo V


«Da robusta menina que eu era, de membros delicados mas bem-feitos, de faces rosadas, fiquei com este carácter físico mais frágil, mas nebuloso (…). Não me vangloriarei da minha coragem, como teria o direito de fazê-lo. Assimilo-a às minhas forças e possibilidades. Poderia descrevê-la como se diz: tenho olhos verdes, cabelos pretos, mão pequena e forte»[1].  



[1] Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 476. 

A Narcisista do Segundo Sexo I


«Ao voltar, dispo-me, ponho-me nua e fico impressionada com a beleza do meu corpo, como se nunca tivesse visto. É preciso fazer a minha estátua, mas como? Sem me casar é quase impossível. E é absolutamente necessário, só poderei ficar feia, estragar-me… Preciso de arranjar um marido, ainda que seja apenas para mandar fazer a minha estátua…»[1]  


[1] Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2”(LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 472.