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Será Que a Mulher Guineense é Realmente Emancipada?


Venho novamente hoje dar sequência à minha rúbrica habitual em defesa do futuro da Guiné-Bissau. Pretendo continuar nesta senda de reflexão sobre a problemática, os desafios, os dilemas, as contradições e as contrariedades que as mulheres guineenses enfrentam no seu quotidiano, aproveitando também o ensejo do mês de março, consagrado à celebração da mulher. 

O tema que trago hoje prende-se com uma questão pertinente: será que a mulher guineense é, de facto, emancipada? A minha resposta é, claramente, negativa. Não considero que a mulher guineense seja verdadeiramente emancipada. Quando falamos de emancipação, devemos ter em conta pressupostos fundamentais como a autonomia e a autodeterminação. Estes conceitos desdobram-se em várias dimensões da vida humana, começando, desde logo, pela emancipação intelectual. 

A emancipação intelectual traduz-se na capacidade de uma pessoa compreender o que está em jogo, reconhecer os interesses que a rodeiam e, a partir daí, tomar decisões mais acertadas e conscientes para a sua vida. Em suma, trata-se de decidir o próprio futuro de forma esclarecida e livre de manipulação. Assim, uma pessoa intelectualmente emancipada é capaz de fazer escolhas informadas e responsáveis. 

Ora, não considero que a generalidade das mulheres guineenses esteja intelectualmente emancipada. Tal condição exige, entre outros fatores, o acesso à educação, sendo que muitas mulheres ainda são privadas desse direito básico. A negação da instrução condiciona a liberdade, sobretudo no que diz respeito à capacidade de fazer escolhas conscientes e autónomas. Como consequência, a mulher continua, muitas vezes, a ser manipulada, instrumentalizada e relegada para um plano secundário nas relações com o homem. 

Neste contexto, a mulher guineense tende a viver em função do homem, ajustando as suas expectativas, esperanças e projetos de vida à figura masculina, frequentemente idealizada como a fonte da sua felicidade. Desde tenra idade, muitas são incutidas com a ideia de que devem encontrar um homem – de preferência poderoso e financeiramente estável – que lhes proporcione realização. Assim, a sua felicidade é frequentemente associada à presença masculina, o que limita a sua autonomia. 

Este paradigma impede a verdadeira emancipação intelectual. Uma mulher verdadeiramente emancipada não aceitaria, por exemplo, situações de abuso, violência ou violação. Contudo, verifica-se que tais práticas são, por vezes, toleradas ou até legitimadas. Recordo que, em certos contextos, comportamentos violentos eram interpretados como manifestações de amor, o que evidencia uma profunda distorção de valores. Sabemos, porém, que o amor se expressa através do respeito, do cuidado, da consideração e do afeto – nunca pela violência. 

Para além da dimensão intelectual, importa considerar a emancipação financeira. Também neste domínio, a mulher guineense, de forma geral, ainda não se encontra plenamente emancipada. Mesmo quando trabalha e aufere rendimento, persiste a ideia de que o homem deve assumir o papel de provedor principal, o que gera dependência económica. 

Essa dependência leva muitas mulheres a aceitar situações de desrespeito, traição ou violência, por receio de perder o suporte financeiro. Assim, o poder económico do homem acaba por reforçar relações desiguais, nas quais a mulher se vê condicionada a manter o silêncio ou a tolerar comportamentos prejudiciais. Mesmo entre mulheres instruídas, esta mentalidade ainda persiste, revelando que a emancipação financeira não se resume apenas à obtenção de rendimento, mas também à mudança de mentalidade. 

Outra dimensão essencial é a emancipação sexual. Neste aspeto, verifica-se igualmente que a mulher guineense ainda enfrenta fortes limitações. A sua sexualidade é frequentemente vivida em função do homem, orientada para satisfazer os seus desejos, enquanto o prazer feminino continua a ser um tabu. 

Práticas como a mutilação genital feminina constituem exemplos extremos dessa realidade, representando uma grave violação dos direitos humanos e da dignidade da mulher. Mesmo fora desses casos, muitas mulheres são socializadas para não reconhecer ou reivindicar o seu próprio prazer, sendo frequentemente estigmatizadas quando o fazem. Deste modo, a mulher continua, em muitos casos, a viver a sua sexualidade de forma condicionada, sujeita a normas sociais que favorecem o homem e reprimem a sua autonomia. 

Em suma, só se poderá falar de verdadeira emancipação da mulher guineense quando esta se concretizar nas dimensões intelectual, financeira e sexual. Estas três vertentes são fundamentais para que a mulher possa exercer plenamente a sua liberdade e autodeterminação. 

A emancipação intelectual permite-lhe compreender e decidir com consciência; a emancipação financeira liberta-a da dependência económica; e a emancipação sexual assegura-lhe o direito de viver a sua intimidade com liberdade e dignidade. 

Contudo, importa referir que, nos dias de hoje, tem-se falado cada vez mais em “empoderamento” em vez de “emancipação”. Isto porque não basta possuir, em teoria, certas condições – é necessário que a mulher tenha também a capacidade prática de agir, decidir e afirmar-se. 

Apesar de alguns progressos, sobretudo ao nível da educação, muitas mulheres continuam a viver em função do homem, acreditando que a sua felicidade depende dele. No entanto, a verdadeira felicidade reside no próprio indivíduo. As relações devem acrescentar valor, e não servir como única fonte de realização pessoal. 

Por fim, importa sublinhar que o caminho para a emancipação passa, inevitavelmente, pela educação. É através dela que se promove a consciência crítica, a autonomia e a capacidade de transformação social. Só com investimento sério na educação será possível alcançar uma sociedade mais justa, onde a mulher tenha igualdade de oportunidades, liberdade e dignidade. 

Em conclusão, considero que a mulher guineense ainda não é plenamente emancipada. Há progressos, sem dúvida, mas o caminho a percorrer continua a ser longo. É necessário continuar a lutar por uma verdadeira igualdade, onde a mulher possa exercer plenamente os seus direitos, viver com liberdade e alcançar a sua realização pessoal. 

Fico por aqui. Até uma próxima ocasião, se Deus quiser.

Dia Internacional da Mulher

Hoje é o Dia Mundial da Mulher. Ser mulher no nosso hostilizado, cruento, machista e injusto mundo não é uma tarefa nada fácil. Comporta enormíssimos riscos e obstáculos que, nalgumas circunstâncias, são bastantes penosas e inultrapassáveis. O pior ainda é ser mulher africana. A mulher africana carrega dolorosamente sobre si todas as desgraças deste maldito mundo – e com todas as implicações humano-sociais que isto acarreta no seu quotidiano e na sua autodeterminação. Continua ainda arbitrariamente a ser reduzida cegamente à ignorância, à objectificação, ao abuso, à miséria, à prostituição, à violação e à violência, etc. 

Por isso num dia como o de hoje, em que celebra “O Dia Internacional da Mulher”, impõe-se uma genuína reflexão a todos os Homens de “boa vontade” no sentido de contribuir resolutamente para uma cabal melhoria da condição humilhante e deplorável em que se encontram a generalidade daquelas que constituem as nossas esposas, mães, avós, filhas, irmãs, tias, primas, companheiras e exclusivamente mulheres. 

Quero, por ocasião do nobre espírito deste dia, através das mulheres africanas, estender amigavelmente os meus profundos votos de reconhecimento e de um futuro ditoso para todas as nossas valentes mulheres em geral, esperando com fé que possam num futuro breve libertarem-se definitivamente do jugo opressor masculino em que são votadas ao longo dos séculos. Que assim seja. 

Dia da Mulher Africana

Celebra-se hoje em todo o continente negro o “Dia da Mulher Africana”. Uma efeméride bastante importante para reflectirmos sobre os inúmeros flagelos com que milhões de mulheres africanas são confrontadas diariamente, não dispondo muitas das vezes de protecção legal para fazer valer os seus legítimos direitos. Ao longo dos tempos, temos assistido pacificamente a uma diferença abismal no tratamento entre o homem e a mulher que urge alterar. É justamente sobre esse fosso de desigualdades de género que centralizaremos a nossa abordagem, procurando fidedignamente descortinar aquilo que, a nosso ver, consideramos ser um dos males e causa de tremendas injustiças praticadas contra as mulheres africanas, obstaculizando desta forma a sua maior e melhor integração na sociedade. 

Para falarmos na integração da mulher no continente africano, é preciso ter uma visão holística acerca das matrizes e pressupostos valorativos que caracterizam a filosofia dos africanos. E isto remete-nos para um enquadramento cultural com vista a apurar o substrato sociocultural que separa os dois géneros. Este enquadramento humano-sociológico prende-se com o facto da sociedade africana ser composta concomitantemente por múltiplas idiossincrasias e mundividências. A começar, desde logo, no plano étnico, religioso e social. Todos estes factores conjugados acabam por não contribuir em nada para uma autêntica emancipação das mulheres, nomeadamente no que toca aos Direitos Fundamentais que lhes assistem e que continuam a ser-lhes flagrantemente negados.  

a) A Diversidade Étnica. Esta, baseada nos poderes autóctones, limita significativamente a intervenção das autoridades na concretização do estado de direito democrático na esfera jurídica dos particulares. Como se sabe, pelo menos por aqueles que conhecem bem a realidade concreta de África, a maioria das etnias africanas firma as suas arreigadas crenças na supremacia do homem face à mulher, que já vinham de tradições remotas herdadas pelos antepassados. Esta obsoleta e machista ideologia está profundamente enraizada na concepção da generalidade do povo africano, obstaculizando vigorosamente a autonomia e afirmação das mulheres no sentido de comprovarem devidamente o seu potencial humano. 

b) A Ordem Religiosa. Destaca-se também como um dos factores de acentuação das desigualdades sociais, mormente no que concerne à submissão total das mulheres em relação aos homens e certos privilégios que somente são reservados a estes. Os animistas defendem manifestamente essa redutora mundividência, juntamente com os islâmicos (por mais que possam surgir objecções contrárias acerca disso, a forma como estas duas predominantes religiões em África tratam a mulher torna passível extrair delas a conclusão que acabámos de afirmar). A única excepção nesta matéria prende-se com o Cristianismo, que tem tido uma postura um pouco diferente das duas religiões mencionadas, embora não tão nítida como deveria ser à luz dos impolutos princípios e valores bíblicos. A universalidade dos fundamentos e da mensagem do Evangelho tem como consequência a afirmação de uma regra de igualdade entre todos os seres humanos. O Apóstolo Paulo, nesta mesma esteira do pensamento, vai peremptoriamente afirmar que “não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher” (Gálatas 3:28). 

c) A Ordem Sociológica – sobre a qual assenta a tradição de usos e costumes (este último caracterizado pela prática reiterada com convicção de obrigatoriedade), que a sociedade africana emana e incorpora no seu seio, tal como qualquer outra sociedade, e com as suas múltiplas tendências para um machismo exacerbado, consubstanciando na sua essência um monopólio absoluto do homem face à mulher, através da encarnação do hierárquico  titulo de “chefe de família”, isto é, uma subalternização completa do sexo feminino e na inquestionável primazia do homem em todas as circunstâncias e dinâmica da vida. Todas essas vicissitudes comportamentais acabam, naturalmente, por ter repercussões extremamente negativas na forma de ver e considerar a figura da mulher em África. 

Importa ainda salientar que um dos grandes e urgentes desafios que se colocam ainda hoje às mulheres africanas prende-se com o analfabetismo, a desprotecção legal, a mortalidade materno-infantil, o flagelo do HIV, a injustiça social e do mercado laboral, a ofensa à integridade física e psicológica que engloba a prática da mutilação genital, a violência doméstica e o casamento forçado, a que a maioria é submetida em nome da religião ou tradição, e que resultam sempre nos danos psicológicos irreparáveis e, em casos extremos, na morte prematura das visadas. Todos estes gritantes males cometidos contra as inofensivas mulheres africanas, que não têm merecido uma atenção especial dos sucessivos governantes do continente, violam flagrantemente as disposições consagradas na Declaração Universal dos Direitos do Homem, que os países africanos ratificaram nas suas respectivas constituições da república, conhecidas como Direitos Fundamentais a qualquer pessoa humana. 

Por isso, ser mulher em África não é uma tarefa nada fácil. Comporta enormíssimos riscos e obstáculos praticamente inultrapassáveis. A mulher africana carrega dolorosamente sobre si todas as desgraças deste mundo – e com todas as implicações humano-sociais que isto acarreta no seu quotidiano e na sua autonomia e autodeterminação. Continua ainda arbitrariamente a ser reduzida e votada cegamente à ignorância, à objectificação, ao abuso, à miséria, à prostituição, à violência e à violação, etc. 

Num dia como o de hoje, em que se celebra o “Dia da Mulher Africana”, impõe-se uma genuína reflexão a todos os homens e mulheres de “boa vontade”, no sentido de contribuir resolutamente para uma cabal melhoria da condição humilhante e deplorável em que se encontram a generalidade daquelas que constituem as nossas esposas, mães, avós, filhas, irmãs, tias, primas, companheiras e mulheres em geral. Que assim seja. 

O Uso do Cabelo Humano: Uma Descaracterização da Identidade da Mulher Africana

A temática da beleza tem sofrido revezes significativos, a todos os níveis, nas últimas três décadas, impulsionado sobretudo a crescente globalização e influência inquestionável das grandes agências de moda, coadjuvadas pelos media que, de forma lobby-imperativa, ditam as tendências e padrões universais da moda e beleza. Estas mudanças comportamentais, a nível da estética e da beleza, tiveram mais impactos perniciosos nas mulheres em geral, particularmente nas mulheres africanas, por serem o elo mais fraco em toda esta crescente dinâmica multicultural da pós-modernidade a que estamos submergidos. 

Por isso, a mulher africana confronta-se, cada vez mais, com seríssimas crises de identidade ideológico-cultural sem precedentes, apostatando deste modo o seu substrato de africanidade, numa amálgama paradoxal de falso empoderamento feminista, procurando inutilmente conquistar a legitimação de terceiros (dos homens, bem entendido). Mulheres que, na generalidade das situações, já não se revêm tanto no conceito de africanidade, tendo inclusive repulsa dela, assumindo-se despudoradamente de “modernas”, mas que não conseguem assimilar na perfeição a mundividência do mundo ocidental e serem aceites, tal como almejariam. 

E justamente por todas estas vicissitudes comportamentais que as nossas mulheres fazem de tudo para parecerem com as caucasianas, procurando renegar as suas idiossincrasias, traços, feições, fisionomia, estética, tom de pele, africanidade, hábitos e costumes. O complexo de inferioridade, com o seu cabelo natural, é mais um dilema num conjunto de dilemas que encerra o paradoxo da mulher africana. 

O famigerado cabelo humano, em abono da verdade, não confere pergaminhos à mulher africana e, tão pouco, estatuto ou qualquer tipo de afirmação social. Não lhe acrescenta a beleza e a honra. Não lhe torna mais destacadamente bonita, antes pelo contrário retira-lhe o brilho e a sua peculiaridade tropical, ofuscando de forma drástica a sua beleza natural, reduzindo-a à inferioridade perante as outras mulheres. 

Com isso, não estamos a pôr em causa o perfil multifacetado que está inerente à mulher na forma de se apresentar perante os terceiros. Não estamos a colocar em causa a liberdade que assiste às mulheres africanas para se exibirem como bem entenderem no seu círculo de convivência diária. Não estamos igualmente a pôr em causa a vaidade feminina e a sua autodeterminação em todas as esferas e dimensões sociais. Não estamos, da mesma sorte, a negar às nossas mulheres a faculdade de, forma livre e unilateral, aculturarem-se aos padrões predominantes da beleza do mundo ocidental ou qualquer outro tipo de cultura que julgassem mais conveniente para se sentirem auto-realizadas e felizes. Nada disso é a nossa pretensão nesta esboçada e subsumida crónica. Os gostos não se discutem, já dizia peremptoriamente a sabedoria popular. Realmente, os gostos não se discutem. 

E mais, importa ainda salientar, não estamos a ser alheios às constantes pressões que as próprias mulheres africanas vivem no seu quotidiano no que concerne à sua apresentação físico-visual, mormente por parte dos grunhos homens. Estamos plenamente cientes de toda esta triste realidade. O que estamos a questionar, e concomitantemente a refutar, é um amplo acolhimento que o cabelo humano tem tido no seio das mulheres africanas em detrimento do afro, desvalorizando completamente este pela opção preferencial daquele, como sendo um requisito indispensável para se estar bonita. Só se é bonita quando se coloca o cabelo humano, entende de forma equivocada a generalidade das mulheres africanas, desprezando assim a carapinha. 

Há mulheres que até têm vergonha de ostentarem o seu cabelo natural, preferindo reiteradamente refugiar-se no afamado e proliferado cabelo humano. Não se sentem bem com o seu cabelo afro por considerarem-no pouco atraente, feio e desprestigiante. Não lhe reconhecendo o mérito e a dignidade devida ao ponto de sentir orgulho nele, optando inversamente por disfarçá-lo com cabelo humano de proveniência bastante duvidosa. Muitas mulheres africanas só se sentem bonitas quando estão ornamentadas com cabelo humano ou consideram bonitas as suas congéneres quando estas também colocam o mesmo cabelo. 

Ora, é este entendimento redutor, complexado e descabido que somos manifestamente contra. O cabelo humano não acrescenta beleza à mulher africana e nem lhe torna mais bonita, insistimos. O cabelo humano, antes pelo contrário, consubstancia uma autêntica descaracterização da identidade da mulher africana em todas as suas facetas e dimensões.

Os Paradoxos da Mulher Moderna Guineense


Falar do substrato identitário da mulher guineense não é uma tarefa nada fácil, tendo em conta a heterogeneidade que ela encerra nas suas várias mundividências. E esta heterogeneidade remete-nos indubitavelmente para as considerações antropológicas, sociológicas, culturais e etnológicas para podermos aferir com precisão os pressupostos valorativos que caracterizam a multiforme configuração da mulher guineense (LER)

Não vamos, naturalmente, atermo-nos a todas essas idiossincrasias nesta nossa breve crónica. Apenas procuraremos cingir a condição da mulher moderna guineense, isto é, as que tiveram a oportunidade de minimamente estudarem e, consequentemente, aculturarem-se. Mulheres que, no bom crioulo, são apelidadas como “ku panhá pé” (esclarecidas, bem entendido). A parte significativa delas vive em Bissau, nas grandes cidades do nosso país e na diáspora em particular. São ainda mulheres que conseguiram absorver muito bem a cultura misógina e machista do nosso país e, concomitantemente, do mundo ocidental (LER). Por outras palavras, são mulheres formatadas nesta dupla realidade sociocultural, razão pela qual costumam autoproclamar-se ou de serem apelidas de mulheres “civilizadas” (LER)

Apesar desta híbrida experiência cultural que as mulheres modernas guineenses adquiriram, ao longo dos anos de vida, comparativamente com a maioria das nossas indoutas donas di casa” ou “mindjeris garandis”, mesmo assim elas têm ficado bastante aquém a nível comportamental. Isto porque muitas delas são mulheres levianas, fúteis, gananciosas, aproveitadoras, materialistas, interesseiras, promíscuas e sem escrúpulos; mulheres que vivem acima de tudo pela conveniência circunstancial e de convergências de interesses, ignorando deliberadamente as virtudes da dignidade humana e da emancipação feminina. 

A mulher moderna guineense, por ser bastante astuta na sua articulação e actuação, procura sempre tirar dividendos das duas realidades culturais que lhe estão intrinsecamente subjacentes. Somente usam a cultura guineense para tirar contrapartidas em relação ao homem, nomeadamente quando este lhe sustenta os seus ávidos luxos e insaciáveis vícios. Da mesma sorte, quando lhe convém enveredar pela libertinagem e autodeterminação, à revelia do homem, daí é que se lembra de fazer uso das prerrogativas da sua vertente cultural pós-moderna. 

A generalidade da mulher moderna guineense de modernidade não tem nada. São mulheres que ainda não conseguiram interiorizar bem o conceito do feminismo igualitário e da emancipação feminina, não obstante passarem inutilmente a ideia de assimilação neste sentido e de comungarem da cultura ocidental. A emancipação, para ser realmente uma verdadeira emancipação, deve contemplar, desde logo, a emancipação intelectual, a emancipação financeira e a emancipação sexual – emancipações essas de que a mulher moderna guineense está manifestamente desprovida (VER)

A título exemplificativo, para testar a nossa afirmação: como é que é possível uma mulher arrogar-se de emancipada se não consegue pensar pela sua própria cabeça ou reduzir a sua felicidade a um homem endinheirado que case com ela e lhe faça feliz? Não será inconcebível uma mulher achar-se de emancipada se se relaciona ainda com os homens a troco de uns míseros tostões, convertendo o seu corpo numa clara prestação de serviço? Como é que é possível uma mulher julgar que ela é emancipada quando reduz a sua sexualidade aos caprichos egoístas do homem, consentindo sobretudo a este actos de infidelidade conjugal, violência doméstica e outras práticas infames? Mulheres que não têm nenhumas reservas ou pudor em pedir dinheiro aos seus parceiros para alimentarem as suas extravagâncias do dia-a-dia, nomeadamente viajar, comprar o carro, a roupa, as jóias, o cabelo humano, o telemóvel e, em suma, sustentar as suas polutas mordomias. 

A realidade da mulher moderna guineense é tudo isto que acabamos de reportar. Uma realidade aviltante e triste a que elas deliberadamente se submetem a troco de uma vida confortável, que os seus parceiros lhes vão dando. Uma vida manifestamente votada ao objecto de prazer nas mãos dos grunhos homens e de completa humilhação. Toleram tudo e mais alguma coisa, sobretudo a ofensa à integridade física e psicológica, para continuarem a ter mordomias e, desta forma, manter o status social de cinderelas. 

Ora, isto não é ser emancipada e tão pouco moderna. É circunscrever-se meramente à promiscuidade sexual e à prostituição do corpo, uma vez que tudo é baseado em interesses financeiros à revelia do genuíno amor que deveria caracterizar um casal (LER). Ser uma pessoa moderna é ser, acima de tudo, autossuficiente em todas as dimensões do trato social. 

A autonomia e autodeterminação da mulher, importa ainda salientar, foi um dos grandes postulados axiológicos defendidos na génesis dos movimentos sufragistas do século XIX e unanimemente reconfirmada pelos feministas dos nossos dias contemporâneos, que visam máxime a igualdade entre o homem e a mulher em todas as dimensões, circunstâncias e esferas da vida (LER). E esta igualdade, no entanto, só se alcança com a verdadeira emancipação da mulher, com vista a permiti-la libertar-se definitivamente do jugo opressor do homem. 

Por isso, a mulher tem de consciencializar que a sua felicidade depende unicamente dela e não colocar toda a sua esperança num putativo “homem da sua vida”. Deve também trabalhar e estar à altura de pagar as suas contas. Se for, porventura, casada tentar partilhar despesas da casa com o seu marido para, deste modo, ganhar plenamente a liberdade dentro do lar e poder estar em condições normais de exigir o marido  aquilo que entender ser o mais justo na família –  e não ficar numa condição de subalternidade, tal como a generalidade das nossas mulheres “ku panhá pé” têm sido relegadas (LER). Qualquer relacionamento humano, a nosso ver, deve ser pautado pela complementaridade e não pelo aproveitamento circunstancial, monetária ou momentânea. 

A mulher moderna guineense não tem a mínima desculpa por este censurável comportamento leviano e promiscuo, que tem deliberadamente adoptado no seu dia-a-dia ao longo dos anos, diferentemente das nossas heróicas mães e avós que infelizmente foram vedadas à oportunidade de estudarem e de se relacionarem com a cultura pós-moderna, fazendo com que se limitem apenas à condição de domésticas e donas de casas. Mesmo assim, apesar de tudo isto, são mulheres de família, honradas, trabalhadoras e com dignidade; que não andam a saltitar de parceiros até encontrarem o homem endinheirado que lhes fazem singrar na vida, não obstante as muitas e infindáveis falhas dos seus maridos. São mulheres que vivem exclusivamente para a família e somente para a família; mulheres que se desdobram em “sete ofícios” para conseguirem o ganha-pão para as suas famílias, razão pela qual continuam a ser o baluarte moral e a esperança das famílias guineenses. São, em suma, “mindjeris ku finka pé rissu na tchon!”

A generalidade da mulher moderna guineense, para desgraça da nossa sociedade em geral, é uma despudorada, viciada e autêntica depravada nos costumes e valores éticos-morais, uma vez que conseguem assimilar o pior da cultura ocidental e, ao mesmo tempo, o pior da cultura misógina e machista dos guineenses (ALI) (AQUI). Comportamentos estes que, de todo, em abono da verdade, não se coadunam com o progressismo da pós-modernidade, que elas inutilmente reclamam encarnar. Um autêntico paradoxo! 

Conversa com a “Dama de Ferro” Sali Mané Semedo Sobre a Condição Social das Mulheres Guineenses


Partilho aqui convosco, mais uma vez, uma brevíssima entrevista que tive ontem a noite com a nossa “Dama de Ferro” Sali Mané Semedo sobre a realidade da mulher guineense (LER). Abordamos, nesta subsumida conversa, o significado da marca “Dama de Ferro”, a gala que a mesma vai promover já no próximo dia catorze do mês em curso num dos hotéis de Bissau – onde serão homenageadas algumas distintas mulheres da nossa praça pública nas mais diversas áreas sociais –, bem coma a situação político-governativa que se vive na Guiné-Bissau e os desafios presentes que se colocam ainda hoje a Mulher Guineense. 

Vale a pena mesmo ver a entrevista em questão. Tenha um bom proveito. Obrigado.

A Mulher Virtuosa Cristã em Contraposição com a Libertária do Neo-Feminismo

O feminismo tradicional trouxe incomensuráveis ganhos às sociedades abertas no que toca à paridade de direitos entre as mulheres e homens, especialmente a emancipação daquelas. Ele propulsionou as marginalizadas mulheres a conquistarem unilateralmente o seu merecido espaço na res publica, através de intensas lutas cívico-políticas empreendidas nos mais variados domínios da sociedade. Graças máxime às inconformadas feministas, ao longo das décadas, a mulher atualmente no ocidente tem uma projecção pública notória e inquestionável, baseada no princípio da igualdade e na sua livre autodeterminação. Tudo isto, no cômputo geral, sem dúvida, é de salutar. 

No entanto, se é verdade que o feminismo contribuiu decisivamente para dignificar a vulnerável condição das mulheres, sobretudo afirmar categoricamente os seus direitos na sociedade, a sua vertente mais radical acabou também por criar uma ruptura bastante assinalável no papel milenar de equilíbrio que as mulheres sempre exerceram exemplarmente no seio familiar, gerando assim um conjunto de desestabilizações nos lares, tal como temos vindo impotentemente a assistir. O neo-feminismo, na sua exaustiva lista de pretensões, nega deliberadamente a autoridade do homem no lar que outrora os romanos apelidavam de “bonus pater familias”, reclamando de forma usurpada e distorcida o referido papel masculino, gerando uma anarquia sem precedentes na família. 

E mais, com a revolução sexual dos anos sessenta do século passado (promiscuidade sexual, bem entendido), encabeçada particularmente pelas activistas feministas, que teve como apologia viver a sexualidade de forma desapegada, descomprometida e despida de todo o pudor ou tradicionalismo que, até então, estava profundamente enraizado nas sociedades. Em consequência disso, nesta patente visão de devassidão, começou-se a legitimar socialmente o uso desenfreado de métodos contraceptivos, o consumo da pornografia, a defesa da ideologia de género e da homossexualidade, a despenalização e legalização do aborto, o culto da imagem e uma aversão ao casamento. O prazer sexual passou a ganhar destaque e lugar cimeiro em muitas pessoas em detrimento do compromisso matrimonial. 

As mulheres, particularmente as da alta sociedade, passaram a ter um certo tipo de pavor à maternidade, tendo em conta os danos colaterais que esta comporta, somando ao culto desenfreado de imagem que elas obcecadamente vivem para estarem devidamente “em forma” e, poderem, deste modo, manter “a linha”. Com efeito, para satisfazerem este capricho narcisista e egocêntrica, tentam a todo o custo impor a prática da barriga de aluguer em muitos ordenamentos jurídicos como sendo um padrão normal. 

O feminismo radical reclama estas abominações comportamentais com a equivocada justificação de libertar as mulheres do jugo opressor do patriarcado masculino, “disseminado” pelo Cristianismo ao longo dos séculos, dizem aleivosamente as suas activistas nas suas falsas e tautológicas proclamações. Se há religião que mais defende e promove a afirmação da mulher é, sem dúvida, o Cristianismo. É um facto assente, manifesto e indiscutível. Basta avaliar os países onde o Cristianismo tem a devida proeminência e ver a integração das mulheres nestes respectivos países, comparando-a depois com outros países que têm outras religiões, rapidamente concluir-se-á que as mulheres têm mais direitos, liberdades e garantias nos países Cristãos do que propriamente nos países das outras confissões religiosas. É uma realidade cognoscível e bastante fácil de apurar. 

As mulheres devotamente Cristãs sofrem menos abusos de violência domésticas, menos divórcios, menos situações de riscos de abandono e praticamente não cometem o crime do aborto. São, na generalidade das situações, mulheres realizadas e felizes no lar, tendo em conta os elevados Princípios e Valores do Cristianismo que vinculam todos os filhos de DEUS. A herança Judaico-Cristã é a maior portadora do personalismo e do princípio da igualdade entre os seres humanos. 

O Senhor Jesus Cristo foi, por todos, um dos primeiros grandes Mestres da antiguidade a integrar as mulheres na sua comitiva missionária e estas, por sua vez, exerceram um papel amiúde importante e determinante no Seu ministério terreno. Não há espaço para a misoginia e a discriminação no Cristianismo e, muito menos, entre as diferentes raças e classes sociais, uma vez que “todos os que foram baptizados em Cristo revestiram-se das qualidades de Cristo. Não há diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homem e mulher”, sustentava peremptoriamente o Apóstolo Paulo na sua construção teológica (Gl 3:27-28). 

A Mulher tem dignidade, liberdade, direitos e autonomia no seio do Cristianismo, diferentemente da grosseira mentira que tem sido propalada pelos movimentos neofeministas. A mulher virtuosa, traçada no capítulo trinta e um do livro de Provérbios, que serve de bitola para todas as mulheres Cristãs do mundo, não é uma mulher subjugada ou infeliz. Antes pelo contrário, é uma mulher completamente autónoma, bem-sucedida, realizada e feliz a todos os níveis da sua convivência (Pv 31:10-31). 

A começar, desde logo, no plano espiritual, familiar, profissional e social. É uma mulher que ama a DEUS, acima de todas as coisas, comprometida, casada, mãe, fiel, trabalhadora, generosa para com o próximo (v.12-20; 28). Com o seu próprio rendimento, coadjuvado com o do seu marido, providencia o sustento e vestimenta para a sua família e, concomitantemente, estende as mãos aos pobres e marginalizados da sociedade (v.14; 20-21). É uma mulher que não questiona a autoridade do seu marido e, muito menos, rivaliza com ele para ganhar mais protagonismo no lar (v.11-12). Não é materialista ou interesseira. Não é extravagante a vestir ao ponto de cair no pecado da sensualidade (v. 22). Faz tudo de forma abnegada para ajudar a sua família e terceiros. É uma pessoa bastante sábia, discreta, empreendedora, decente e moderada na sua forma de estar e encarar os elevados desafios da vida. É, justamente, por todas esses sublimes atributos humano-espirituais, que o seu marido confia inteiramente nela (v.11) e junta-se em coro com os seus filhos para elogiá-la, dizendo: “muitas mulheres foram exemplares, mas tu és a melhor de todas” (v. 28-29), porque ela é virtuosa e respeita em primeiro lugar o Todo-Poderoso DEUS. 

Ora, parte significativa destes nobres atributos da “mulher virtuosa”, são deliberadamente negligenciados pelas feministas radicais. Elas são, na generalidade das situações, mulheres mal-humoradas, insubmissas, provocadoras, prepotentes, materialistas, interesseiras, vulgares, libertinas, saturadas e com tiques de superioridade. Vivem apenas de aparências e são completamente infelizes. A mulher virtuosa, diferentemente disso, vive altruisticamente para agradar a DEUS, ao seu marido e à sua família em geral, procurando ser exemplar na sua conduta diária. Ao passo que as feministas radicais vivem exclusivamente a pensar nos seus interesses egocêntricos, brejeiros, promíscuos e polutos, tomando muitas vezes decisões à revelia da família e do parceiro/marido em especial. 

Todas estas aversões comportamentais acabam por atrofiar e atingir consideravelmente o instituto da família, causando danos irremediáveis e incalculáveis do ponto de vista relacional. É por esta razão que há cada vez menos casamentos no ocidente, um menor número de filhos, índices galopantes e preocupantes de divórcio, por causa deste neo-feminismo completamente descontextualizado, enfezado, fútil e descabido. 

Em suma, sem entrar mais em prolegómenos, a mulher virtuosa Cristã é completamente oposta, a todos os níveis, no bom sentido do termo, da mulher radical, insubmissa e libertária do neo-feminismo – por razões manifestamente invocadas no artigo.  

Mulheres: A Luta Por Um Lugar na História


Na semana passada fez-se História no meu país, a Guiné-Bissau (VER). Pela primeira vez temos os mesmos números de mulheres e homens a ocuparem cargos ministeriais, isto é, oito por cada, superando assim a margem da recente lei de quota de 36% aprovada de forma unânime na Assembleia Nacional Popular (ALI) e (AQUI). Este extraordinário feito catapultou a Guiné-Bissau para os lugares cimeiros como sendo exemplo a seguir da boa integração das mulheres na acção governativa em África e no mundo em geral (contam-se pelos dedos de uma mão os países que respeitam, de facto, a paridade de géneros nos governos). 

Mesmo assim, com este gigantesco passo do meu país na emancipação feminina, não devemos ficar iludidos com sol de pouca dura. Há ainda muitas barreiras, preconceitos generalizados e descriminações infundadas para com as nossas inofensivas mulheres que devem ser extraídas. O país, para infelicidade nossa, continua ainda a ser governado exclusivamente pelos homens. Todos os órgãos da soberania estão sob alçada dos homens. A começar, desde logo, com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia Nacional Popular, o Primeiro-Ministro, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Procurador Geral da República e o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas. Como se tudo isto não bastasse é o mesmo país machista que condena deliberadamente muitas meninas e mulheres as flagrantes práticas da mutilação genital feminina, o casamento forçado, a violência doméstica e a elevada taxa da mortalidade materno-infantil, etc (LER)

Por isso, apesar de registamos com enorme satisfação o sinal bastante positivo da integração das mulheres neste novo elenco governativo, continuamos a entender que é preciso ir mais além na emancipação de “nô padiduris”. Por outras palavras, é preciso deixar as mulheres conquistarem o seu devido espaço e consequentemente eliminar muitos cancros humano-sociais que continuam ainda a bloquear o nosso desenvolvimento nacional. 

A Mulher e os Livros


Ponho hoje um ponto final na série de publicações “A Mulher e os Livros” –  depois de longos e ininterruptos cinco anos a retratar as várias facetas, origens e faixas etárias de “nô padiduris” (VER). Escolhi deliberadamente as mulheres para retratar, tendo em conta o meu intrínseco “lado feminino” – poderá, porventura, esperar-se algo diferente de um homem com quatro irmãs consanguíneas? A resposta é obviamente negativa (LER). O livro deve ao facto de ser uma das ferramentas imprescindíveis e irrenunciáveis para uma genuína emancipação de qualquer ser humano, máxime das inofensivas mulheres do jugo opressor que, infelizmente, nos dias pós-modernos, a sociedade continua insensivelmente a reduzi-las. A instrução, a cultura, a civilização, a sabedoria, a autonomia e a autodeterminação são valores que se adquirem facilmente nos livros de vários saberes humanos. Uma mulher com boa bagagem literária (boa formação, bem entendido) certamente que tem mais antídotos necessários para, de forma sábia e eficaz, fazer face aos abusos da sociedade machista e injusta a que estamos circunscritos. Dito por outras palavras, está mais habilitada a viver condignamente no mundo dos homens. 

Sem entrar mais em prolegómenos, retratar a Mulher não é tarefa fácil, uma vez que ela não pode ser delimitada por apenas uma única formulação. Por isso, na mesma esteira do pensamento, “os poetas exaltaram as qualidades, os moralistas colocaram a nu os defeitos, os publicistas discutiram os direitos, os médicos descreveram as doenças, os fisiologistas mostraram os mais íntimos segredos da sua organização”, escrevia peremptoriamente Cérise. Mesmo assim, a mulher será sempre mulher independentemente do estudo realizado e do juízo formado a seu respeito no contexto em que esteja inserida. Ela será sempre o mistério vivente, por virtude do qual o homem nasce, vive e morre. Eis, em última instância, a verdadeira definição e encarnação da Mulher na sua multiforme configuração antropológica. 

A Mulher, o Feminismo e a Lei da Paridade, por Joana Bento Rodrigues


«A mulher dita feminista – a que integra as “tribos”, a que se deslumbra com as capas de revistas, a que se diz emancipada, a que não precisa de relações estáveis, a que não quer engravidar para não deformar o corpo nem perder oportunidades profissionais, a que frequentemente foge da elegância no vestir e no estar – optou por se objectificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal» (…) o activismo feminista actual não procura satisfazer o que as mulheres precisam, mas apenas o que pretende uma poderosíssima minoria de mulheres. Este activismo tornou-se, inclusivamente, desprestigiante para a mulher. Priva-a da possibilidade de ascensão social e profissional pelo mérito. Retira-lhe a doçura e candura. Nega-lhe o papel fundamental do matrimónio e da maternidade. Objectifica a mulher, enquanto presa para sexo fácil e espaço de diversão. Promove paradas onde se expõe o corpo de forma grosseira e agreste à visão. Claramente, não representa a “mulher comum”! (…) Por tudo isso, declaro-me anti-feminista e contra a nova Lei da Paridade!» (LER)

Feminista, Eu?


«Cabem neste rótulo, segundo essas concepções, mulheres que querem ser superiores aos homens, mulheres amargas e obcecadas com todas as referências culturais de género, lésbicas, mulheres que querem ser iguais aos homens, imitando os seus comportamentos, mulheres que rejeitam todos os símbolos de feminilidade como, por exemplo, os cuidados com o corpo. Ou seja, mulheres que não se depilam, não se maquilham, não usam roupa justa, saias ou saltos altos. Esta feminista eu não sou de certeza. (…) Sei que ao nível das desigualdades de género ainda há algumas coisas a fazer, nomeadamente fomentar a representação das mulheres nos cargos de poder e garantir o acesso pleno dos homens à paternidade. E sei muitas outras coisas, não tivesse dedicado um doutoramento a estes assuntos. Quanto às diferenças culturais entre homens e mulheres, só posso dizer que também sou fruto delas. As diferenças não me apoquentam, apenas as desigualdades me chateiam. Gosto de cozinhar, passar horas na cozinha a bebericar vinho e preparar um jantar para amigos. Gosto de fazer panquecas e bolos para o meu namorado. Sou um pouco obcecada com a limpeza da casa. Não percebo nada de futebol e conduzir não é seguramente uma das minhas melhores competências. Sou vaidosa, gosto de comprar sapatos e acompanhar as tendências da moda. Isto faz de mim menos feminista?» (LER)

A Lei de Quotas na Guiné-Bissau: Do Delírio Eleitoralista à Utopia


É inquestionável reconhecer que o povo guineense é bastante sofredor. É um facto notório. As mulheres muito mais, tendo em conta a cultura "di machundadi" e de objectificação a que elas têm sido reduzidas desde os primórdios da nossa História (LER). Se há, por isso, camada na Guiné-Bissau que merece beneficiação e primazia é seguramente a das mulheres, razão pela qual somos apologistas que haja uma maior e melhor Justiça Social para a dignificação e libertação definitiva das nossas inofensivas mulheres. Somos também defensores da integração das mulheres em todos os quadrantes da sociedade, especialmente que se emancipem e ganhem autonomia intelectual, financeira, política e sexual; que se valorizem e saibam valorizar-se perante terceiros, máxime que não se conformem em estar subjugadas aos caprichos individualistas dos grunhos homens a troco de  um dote efémero. Queremos que elas disponham suficientemente do livre-arbítrio, ganhando assim plenamente a liberdade e a independência. Tudo o que é genuinamente para defender, apoiar, valorizar e enaltecer a Mulher somos manifestamente a favor (LER). No entanto, não contem connosco para alimentar "o politicamente correcto", que se consubstancia no falso  moralismo hipócrita  do tão propalado "princípio da igualdade",  que acaba por não resultar em nada, antes pelo contrário visa meramente coadjuvar os  interesses contrários à República, apenas para o "inglês ver", tal como tem sido prática reiterada no nosso país. A aprovação da recente lei de quotas no país é um exemplo manifesto disso (LER). Foi uma aprovação oportunista, inoportuna, irrealista e ferido de tamanha ilegalidade. Uma utopia sem precedente. 

Não estamos, com isso, contra as mulheres. Não estamos contra as difíceis lutas de várias associações, ONGs e Homens de "boa vontade" para empoderar a mulher guineense. Não estamos contra as legitimas expectativas de todas as nossas pobres mulheres. Não estamos contra que haja igualdade de género e de oportunidades entre ambos os sexos no exercício dos cargos públicos. Não somos, da mesma sorte, insensíveis aos horripilantes dramas quotidianos que as nossas mulheres enfrentam no seu quotidiano. Longe de nós tais torpezas machistas e sexistas. Somos manifestamente pró-mulheres em todos os aspectos, insistimos (VER). Porém, o que realmente somos contra é a hipocrisia, o cinismo, o aproveitamento político e os nossos corruptos governantes e políticos em geral. E a aprovação desta ardilosa lei de quotas encerra todos estes malefícios. Afirmamos convictamente isto por que ela vai ser inexequível no país, tendo em conta vários factores conjugados que obstaculizarão a sua vigorosa asserção. Por outras palavras, a aprovação desta nova lei, "é pôr a carroça à frente dos bois"

Desde logo, não foi uma "lei genuína". Ela foi baseada meramente no oportunismo político-eleitoralista dos biltres deputados, com vista a atraírem mais votos da ala feminina, somando ao facto de ser completamente inoportuna. Neste momento, em abono da verdade, não nos parece ser prioritário estar a aprovar uma lei deste calibre, visto que envolve sérios pressupostos sociais, culturais, políticos e jurídicos e um levantamento exaustivo que não foram atendidos nos trabalhos preparatórios do anteprojeto lei. Ademais, a generalidade do país está toda focada na realização das próximas eleições legislativas marcadas para o próximo Novembro, tendo praticamente todas as instituições do Estado paralisadas, pelo que não é o momento ideal para deliberar sobre uma lei desta envergadura. É uma imprudência. Entendemos ainda que a lei em apreço é, acima de tudo, irrealista. Não propriamente irrealista por aquilo que promove, mas sim por aquilo que não vai ser nos próximos tempos. Ela não se coaduna com a mundividência da sociedade guineense, uma vez que esta continua altamente machista a todos os níveis da convivência, com todas as implicações político-sociais que isso acarreta na marginalização das mulheres, ou seja, vai apenas ficar reduzida ao mero formalismo legislativo, sem qualquer tipo de expressividade e exequibilidade[1]

Vejamos, meus caros leitores, a título de exemplo: tem havido a punição dos promotores da hedionda excisão feminina no país? Aboliu-se o cancro do casamento forçado, a pedofilia galopante praticada contra as nossas desprotegidas meninas e a violência doméstica? Erradicou-se, porventura, o assédio sexual, o abuso e a violação contra as mulheres? Sabiam que todas essas abominações sociais foram criminalizadas nas nossas leis da República, especialmente no Código Penal? Estas leis têm vincado? Obviamente que não (uma clara inconstitucionalidade por omissão). E acham que esta fantoche lei de quotas vai triunfar? Se temos ainda abusos flagrantes cometidos contra a Dignidade e os Direitos Fundamentais das mulheres que, infelizmente, não têm merecido uma atenção especial das nossas autoridades, acham que esta lei de quotas vai ter desfecho diferente das restantes? Acresce ainda, além de todas estas derivas denunciadas, o facto dos actuais deputados não disporem de legitimidade constitucional para aprovar esta importante lei, visto que cessaram os seus mandatos há cinco meses. Somente têm que se conformar em assegurar a gestão corrente do país, sem comprometer a próxima legislatura. Por isso, este projecto lei viola flagrantemente a Constituição da República. Qualquer cidadão que eventualmente no futuro se sentir prejudicado por ela pode simplesmente impugná-la nos tribunais, sob pena de verem estes declará-la inconstitucional com força obrigatória geral, pois está ferida de ilegalidade. 

São todos estes factores que, lucidamente, nos levam a concluir que esta lei de quotas na Guiné-Bissau não passa de um delírio eleitoralista. Uma, em suma, utopia para infelicidade de todos nós.  



[1] Acresce ainda o facto de esta putativa lei de quotas circunscrever-se unicamente ao poder Legislativo, sem englobar o poder Executivo e Judiciário, entrando assim em flagrante contradição  com a "universalidade" das leis de quotas e com o argumento a fortiori de  "quem pode o mais, pode o menos".

O Dia da Mulher Africana


Hoje é o “Dia da Mulher Africana”. Ser mulher no nosso hostilizado, cruento, machista e injusto mundo não é uma tarefa nada fácil. Comporta enormíssimos riscos e obstáculos praticamente inultrapassáveis. O pior ainda é ser mulher africana. Ela carrega dolorosamente sobre si todas as desgraças deste mundo e com todas as implicações humano-sociais que isto acarreta no seu quotidiano e na sua autodeterminação. Continua ainda arbitrariamente a ser reduzida e votada cegamente à ignorância, à objectificação, ao abuso, à miséria, à prostituição, à violência e à violação, etc. 

Por isso, num dia como o de hoje, em que celebra o “Dia da Mulher Africana”, impõe-se uma genuína reflexão a todos os Homens de “boa vontade” no sentido de contribuir resolutamente para uma cabal melhoria da condição humilhante e deplorável em que se encontram a generalidade daquelas que constituem as nossas esposas, mães, avós, filhas, irmãs, tias, primas, companheiras e mulheres em geral. 

Quero, por ocasião  do nobre espírito deste dia, através das mulheres guineenses (ALI) e (AQUI), estender os meus profundos votos de reconhecimento e de um futuro ditoso para todas as nossas heroínas mulheres africanas, libertando assim definitivamente do jugo opressor em que elas são votadas ao longo dos séculos. Que assim seja. 

Advertência de Uma Feminista às Outras Feministas (IV)


“Oponho-me a uma proteção especial para as mulheres. Sou contra regras que permitam às raparigas, por exemplo nos campus universitários, queixarem-se do que acontece num encontro com um rapaz. Exijo que as mulheres tenham total responsabilidade de si mesmas. Não acredito em proteções especiais quando alguém lhes diz alguma coisa ofensiva, a não ser que seja no domínio profissional. Acredito, sim, que as mulheres têm de falar por elas próprias e travar as suas batalhas (…) Nem tudo na nossa vida pode ser controlado, nem tudo na nossa vida é politicamente correto. Há todo o tipo de problemas e de instabilidades entre os dois sexos que têm que ser tratados individualmente e com os quais o Governo não deve ter nada que ver. O feminismo para mim devia ser um programa de ativismo social. O feminismo não tem o direito de intrometer-se na vida privada das pessoas. O modo como os homens e as mulheres se comportam nas suas relações pessoais é uma questão apenas da sua livre escolha.” 

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(Camille Paglia, in entrevista a Revista Expresso (LER). Conteúdo disponibilizado, por enquanto, apenas para os assinantes do jornal). 

Advertência de Uma Feminista às Outras Feministas (III)


REVISTA EXPRESSO: As mulheres são hoje demasiado exigentes? 

Camille Paglia: “São, mas mais importante do que isso é que são miseráveis. As mulheres de classe alta com sucesso no trabalho são infelizes. As feministas sabem-no. E culpam os homens de tudo. Dizem que são eles que têm de mudar de comportamento. Acho que as mulheres têm de ser neste momento mais conscientes e pararem de culpar os homens pela sua infelicidade! Olhem para o sistema laboral e alterem o que tem de ser alterado. 

REVISTA EXPRESSO: Está a dizer que as mulheres não praticam tanto sexo com os homens como costumavam fazer? 

Camille PagliaNão é bem isso. É uma questão de tudo ser muito familiar, das regras não se quebrarem, sobretudo nos casamentos burgueses. Há um sentimento de fadiga, não há nada interessante a acontecer ou a permitir que aconteça. Não há o tal mistério. Mas acredito que as mulheres latinas, como as portuguesas, italianas, espanholas e brasileiras têm muito mais criatividade, energia sexual, noção de elegância, sendo ao mesmo tempo grandes empresárias, economistas ou administradoras. Os casamentos de hoje, na América, são aborrecidos sexualmente e o homem corre o perigo de se tornar mais uma criança lá em casa”. 

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(Camille Paglia, in entrevista a Revista Expresso (LER). Conteúdo disponibilizado, por enquanto, apenas para os assinantes do jornal). 

Advertência de Uma Feminista às Outras Feministas (II)

 
“Sou descendente de uma família de emigrantes italianos. Nessa altura, lembro-me perfeitamente, tudo estava organizado à volta de dois mundos, o das mulheres e o dos homens. As mulheres cozinhavam. Ficavam em casa, tratavam dos filhos. Os homens saíam e ganhavam dinheiro. Este foi um sistema que funcionou durante milhares de anos. 

REVISTA EXPRESSO: Porque é que o sistema atual não está a funcionar?

Porque estamos neste período urbano e industrial, estamos em plena era tecnológica, em que as tarefas profissionais se tornaram exatamente as mesmas para homens e mulheres. E ainda por cima trabalha-se com a cabeça, não com o corpo. As diferenças sexuais esbateram-se. As mulheres pensam que como têm igualdade no local de trabalho e no mundo da política, acham que as coisas vão mudar também em termos da forma como comunicam com os homens nas suas relações privadas. E estão infelizes. Não se sentem realizadas. Sentem-se sozinhas.

REVISTA EXPRESSO: Qual a verdadeira razão para isso?

A perda da solidariedade entre elas com a competição profissional. Perderam a partilha dos problemas de cada uma. Perderam o desabafo sobre o fardo que é ter um filho e criá-lo. Perderam a companhia umas das outras, o apoio umas das outras, e até coscuvilhice — a minha mãe e a minha avó tinham tudo isso — e agora querem que os homens, os maridos, as satisfaçam de todas as maneiras." 

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(Camille Paglia, in entrevista a Revista Expresso (LER). Conteúdo disponibilizado, por enquanto, apenas para os assinantes do jornal).