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Acordo de Paz Entre Israel e o Hamas


Registo com enorme satisfação o acordo de paz anunciado esta madrugada ao mundo, no âmbito do conflito armado entre Israel e o grupo terrorista Hamas (LER). Há muito tempo que ambas as partes beligerantes poderiam ter alcançado um entendimento que poupasse as vidas de milhares de pessoas, deliberadamente dizimadas ao longo destes dois dolorosos anos de chacina e sofrimento. Morreram, de forma injusta e desnecessária, milhares de inocentes, e milhões ficaram diretamente afetados por esta bárbara guerra, alimentada por um clima de ódio exacerbado entre palestinianos e judeus (LER)

Nada justificava o traiçoeiro e brutal ataque que o grupo terrorista Hamas perpetrou em Israel no dia 7 de outubro de 2023, episódio que nos chocou profundamente (LER). Este hediondo e macabro atentado ultrapassou todos os limites do bom senso e da razoabilidade, revelando a verdadeira face do Hamas: um movimento terrorista que despreza por completo a vida humana em todas as suas dimensões, repudiando os princípios fundamentais do humanismo e da humanidade. 

Contudo, a resposta do governo de Israel foi também desproporcional à luz do Direito Internacional Público, resultando em inúmeros crimes atrozes contra a humanidade (LER). Não se pode punir um povo inteiro pela conduta criminosa de uma parte da sua população. O governo de Israel, tal como os terroristas do Hamas, matou deliberadamente crianças, mulheres, idosos e homens inocentes. 

Nada disto deveria ter acontecido. Tanto o Hamas como o governo de Israel agiram de forma condenável nestes dois horripilantes anos de guerra, que ceifaram milhares de vidas e deixaram um rasto de destruição sem precedentes em ambos os territórios. Assim como não hesitei em condenar o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro (LER), também não hesitei em reprovar a resposta violenta e desproporcional de Israel (LER). Creio que cada um de nós deve defender intransigentemente o valor sagrado da vida humana, independentemente das nossas afinidades sociais, políticas, religiosas ou ideológicas. 

Obviamente, “nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade”, exortava o Apóstolo Paulo (2 Co 13:8). E o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo afirmou, de forma manifesta e perentória, que somente a verdade do Evangelho nos libertará da condenação eterna (Jo 8:32). Por isso, devemos pautar a nossa conduta pela defesa firme da verdade e pela promoção da paz entre povos e nações, evitando cair no fanatismo e no radicalismo que em nada contribuem para a convivência pacífica e a verdadeira solução dos conflitos. A paz e a harmonia só se constroem com moderação, diálogo e respeito pelas diferenças — virtudes que, infelizmente, têm faltado nas relações entre palestinianos e israelitas. 

Espero, sinceramente, que este novo acordo de paz agora anunciado possa consolidar-se e prevalecer. Que os reféns israelitas regressem às suas casas e reencontrem os seus familiares e amigos. Que os palestinianos possam retomar a sua vida normal, sem bombas nem morte. E que, acima de tudo, triunfem o perdão, a reconciliação, o amor e a paz entre judeus e palestinianos — para o bem de toda a humanidade. Que assim seja.

A Guerra Que Não Trouxe a Independência Nacional


Celebra-se hoje o dia da independência nacional da Guiné-Bissau. A autodeterminação do país, em 24 de Setembro de 1973, até à data presente, para grande infelicidade e tristeza nossa, foi um autêntico fracasso a todos os níveis. A Guiné-Bissau nunca chegou, em termos objectivo-práticos, de tomar a sua real independência. A independência só foi reduzida no papel, limitando-se apenas a uma mera formalidade Jus Internacional. O país continua dependente de tudo e mais alguma coisa. Dependente da ajuda externa e da boa vontade dos países aliados para continuar a sobreviver. 

Logo depois da tão propalada “independência nacional”, que não trouxe qualquer tipo de Independência, o país foi capturado pelos dirigentes medíocres, intriguistas, incompetentes, desqualificados, bandidos, sanguinários, corruptos, ladrões, traficantes de droga e de toda a sorte de criminosos que o submeteram a um esmagamento metódico, sem dó nem piedade, ao longo de várias décadas. Esta subversiva postura, dos nossos sucessivos dirigentes e governantes em geral, contraria flagrantemente com a premissa inicial do “programa maior”, delineado por Eng. Amílcar Lopes Cabral, na génesis da luta armada, para fazer definitivamente a Guiné-Bissau avançar. 

Em 23 de Janeiro de 1963 deu-se oficialmente o início da luta de libertação nacional, com a ofensiva militar contra as colunas portuguesas no sul do país, sob o comando do quartel do Titi. A partir desta data tudo mudou, para pior. A Guiné-Bissau mergulhou numa profunda crise de identidade, sem precedentes, ao longo da sua moderna história. Desde logo, a vindicta do Congresso de Cassacá, em Fevereiro de 1964, convocado para “atenuar” a cisão interna no seio do PAIGC, culminando naquilo que ficou conhecido como o “massacre dos insubordinados”, onde inúmeros camaradas foram barbaramente fuzilados por ordens expressas do partido. 

Passados os dez anos da chacina armada da “guerra do povo, pelo povo e para o povo”, o país proclamou unilateralmente a sua independência, em 24 de Setembro de 1973, cumprindo assim o desígnio inicial do “programa mínimo” traçado na génese da sublevação armada. Existiam, nos anos subsequentes, todas as condições propícias e exequíveis para criar uma “nova sociedade” e um “novo homem africano”, capaz de trilhar, com bastante sucesso, “o programa maior” visceralmente ligado ao desenvolvimento sustentável e sustentado da Guiné-Bissau. Não foi, no entanto, o que aconteceu para desgraça nossa. O primeiro Presidente da República, Luís Cabral, conduziu o país para um modelo absolutista de estado que se traduzia em tremendas perseguições, ajustes de contas e execuções sumárias de opositores do regime considerados “traidores da pátria”

Foi neste horrível cenário politico-governativo, em 1980, que surgiu o afamado “Movimento Reajustador” de 14 de Novembro liderado pelo General João Bernardo Vieira, que usurpou o poder por via de um golpe de estado, afastando assim o seu amicíssimo e correligionário de partido, Luís Cabral, da presidência da república. Acontece que, por vicissitudes várias e supervenientes, esta mudança de poder não foi bem acolhida pelos dirigentes cabo-verdianos que, como represália ao novo regime Bissau-guineense, desvincularam-se completamente do PAIGC e fundaram o partido PAICV, em 1981, rompendo assim definitivamente com o vínculo umbilical que ligava os dois povos irmãos, idealizado pelo Eng. Amílcar Lopes Cabral. 

Com o governo de Nino Vieira, a Guiné-Bissau conheceu uma das facetas mais tristes e bárbaras da sua autodeterminação. Tudo aquilo de que acusava Luís Cabral acabaria por fazer ainda pior. Nos seus 23 anos no poder, de 1980 a 1999 e depois em 2005-2009, respectivamente, não se melhorou praticamente nada, excepto uma aparente abertura do país para a democracia pluralista, em 1994, que, em termos objectivos, tinha mais a ver com o autoritarismo do que propriamente com o estado de direito democrático. Tal como diria depois Luís Cabral, e bem observado, “o Movimento Reajustador não Reajustou nada”. Em consequência disso, o país passou por enormes sobressaltos político-sociais e sucessivos golpes de Estado e contra-golpes até Dezembro do ano passado, culminando sempre em assassinatos de personalidades e altas figuras da república, somando à fratricida guerra civil de 7 de Junho de 1998, com repercussões negativas que ainda hoje se fazem drasticamente sentir na vida de inúmeros guineenses. 

Todos os Presidentes da República que a Guiné-Bissau teve desde a sua autodeterminação até aos dias de hoje, coadjuvados com os seus primeiros-ministros, poder judicial, chefias militares e governantes em geral, só trouxeram prejuízos avassaladores à Guiné-Bissau. Não conseguiram deixar um legado positivo em prol do progresso nacional que tanto apregoa(ra)m defender. Foram todos incongruentes nas suas obscuras e egoístas agendas políticas – o que demonstra manifestamente a crise de liderança que tem caracterizado o país ao longo dos anos até à data presente. 

A raiz de todos os males que assolam impotentemente o nosso povo é, sem dúvida, a preterição deliberada do “programa maior” na dinamização e consolidação do progresso do país, razão pela qual os custos e os benefícios que advêm da luta de libertação nacional foram completamente desproporcionais, com a supremacia abismal daqueles em detrimento destes. Não houve, infelizmente, progressos assinaláveis do ponto de vista humano-social. 

A Guiné-Bissau, desde o período do pós-independência, foi capturada pelos urubus que não compreendem nada da governação e pelos pacóvios militares que apenas a humilharam, através do esmagamento metódico a que foi reiteradamente submetida ao longo dos tempos. A começar, desde logo, com os intelectuais sabujos e desonestos, políticos trapaceiros e corruptos, magistrados incompetentes e fraldiqueiros, partidos políticos ignorantes e inabilitados, sociedade civil moribunda e inoperante, que obstam ao desenvolvimento do país. Se isso é a “nação” ou a “independência nacional”, tal como muitos dos nossos patrícios orgulhosamente enaltecem, não contem comigo. Estou fora deste delírio nacionalista. Estou mesmo fora. Roubem-me o esforço e a tranquilidade; a consciência e a razoabilidade é que não! 

Cem Anos de Amílcar Lopes Cabral e a Guiné-Bissau Num Beco Sem Saída


O Eng. Amílcar Lopes Cabral estaria hoje a celebrar cem anos de vida, isto é, se estivesse ainda vivo. Quis o destino que, por razões de intrigas e traições no seio do PAIGC, foi brutalmente assassinado na flor da idade, com apenas 49 anos, frustrando assim o seu desígnio do “programa maior” visceralmente ligado ao desenvolvimento sustentável e sustentado da Guiné-Bissau. 

O Eng. Amílcar Lopes Cabral atraía imensos inimigos perante os seus correligionários do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-verde (PAIGC), não obstante o seu humanismo social que era patente nos retratos da guerra. Era um homem extremamente culto e defensor acérrimo de causas humano-sociais, especialmente da autodeterminação dos povos africanos. Notava que ele realmente amava as pessoas, não obstante as leituras que cada um poderá fazer da exequibilidade do seu projecto governativo e legado político. Foi, sem dúvida, um político africano ímpar, brilhante, extraordinário e completamente comprometido com o seu povo que, tal como o próprio manifestou publicamente em inúmeras ocasiões, “quis saldar a sua dívida para com o seu povo e viver a sua época”. 

Mesmo assim, os seus opositores por rivalidades, ciúmes e inveja, catalogavam-lhe vários epítetos pejorativos para arruiná-lo na sua determinada luta da autodeterminação da Guiné-Bissau e Cabo-Verde, até ao ponto de liquidarem definitivamente o homem (LER). O Eng. Amílcar Cabral, para grande tristeza nossa, não chegou de “saldar” completamente a sua dívida com o seu povo e também não viveu a sua época como almejava. Partiu prematuramente, deixando muitas e grandes iniciativas político-governativas para materializar na Guiné e Cabo-Verde. Tudo foi muito rápido e funesto na sua vida. As suas revolucionarias ideias políticas foram, no curto espaço do tempo, aquando da sua morte, rapidamente adulteradas e preteridas pelos altos dirigentes do PAIGC, lançando a Guiné-Bissau num pântano de bloqueio político e de completa ingovernabilidade, ao longo das décadas, até à data presente. 

Por isso, a Guiné-Bissau é um país fracassado a todos os níveis. Vive inveteradamente pelas ruas da amargura. Nunca teve, desde a sua História de autodeterminação, responsáveis políticos à altura do exigente desafio governativo. Foi sempre conduzida por pessoas medíocres, incompetentes, corruptas e manchadas pelos crimes de sangue. A arbitrariedade, o nepotismo, o clientelismo, a obstrução da legalidade, o abuso de poder, o revanchismo e a impunidade são vícios arreigados que, para nossa infelicidade colectiva, caracterizam o destino trágico do país. Os órgãos de soberania são instrumentalizados, tornando-se reféns de interesses obscuros de uma certa minoria que, de forma presunçosa e impune, fazem e desfazem a seu bel-prazer a Res Publica. 

A crónica crise institucional que opõe os órgãos de soberania e partidos políticos podendo, inclusive, deteriorar ainda mais o já inabilitado Estado do país é o reflexo manifesto de tudo o que acabámos de sustentar. Temos um ditador como Presidente da República que desconhece absolutamente as suas atribuições constitucionais e um dos factores de instabilidade no país, bem como uma Assembleia da República completamente descaracterizada do seu substrato legislativo. Deputados sem escrúpulos, para não dizer outra coisa, que vivem à mercê de circunstancialismos e favorecimentos. Um Governo ilegal composto por fraldiqueiros que tão bem conhecemos em outros carnavais, somando-se ainda um licencioso poder judiciário susceptível de ser peitado a troco de um bom “suku di bás” para perverter a Justiça. Todos estes pejorativos adjectivos aplicam-se na perfeição à nossa insubordinada e corrupta classe castrense. Estamos desgraçadamente entregues, sem dúvida, a embusteiros e traidores da pátria. Só pano tchora dur garandi: Guiné-Bissau kaba sim Cabral! 

O Discurso Vazio de Umaro Sissoko Embaló

O discurso de Umaro Sissoko Embaló para assinalar o quinquagésimo aniversário da independência da Guiné-Bissau é um autêntico vazio. É vazio na forma. Vazio no conteúdo. Vazio no enquadramento histórico dos pressupostos que desencadearam a tão almejada proclamação unilateral da nossa sofrida independência.  Sissoko Embaló omitiu de propósito o nome do Engenheiro Amílcar Lopes Cabral como mentor decisivo da história da independência da Guiné-Bissau e Cabo-Verde. Um erro bastante crasso e um insulto deliberado à memoria colectiva do povo guineense. Omitiu o papel amiúde importante do PAIGC na luta de libertação nacional e na consolidação do Estado da Guiné-Bissau. Omitiu, por fim, os nomes dos heróis da luta de libertação, destacando apenas o do General Nino Vieira. 

O discurso de Sissoko Embalo é um cúmulo de imprecisões, inverdades, mediocridades, ressentimentos, pretensiosismos e de vazio aviltante. Não se pode falar da independência da Guiné-Bissau sem, no entanto, falar a fortiori do contributo determinante de Amílcar Lopes Cabral, do seu partido PAIGC e de todos os antigos combatentes da liberdade da pátria, que deram a sua vida para resgatar o nosso povo do jugo colonial português. Sissoko Embaló, por razões ainda desconhecidas, tem o ódio declarado ao PAIGC e do seu líder Amílcar Lopes Cabral. Tanto que, por esta razão, procura sempre branquear a verdade histórica para poder minimizar os feitos universalmente conhecidos e reconhecidos de Amílcar Cabral e do PAIGC. Desvaloriza a nossa data da independência nacional, optando mais por celebrar efusivamente a data da criação das Forças Armadas Guineenses no dia 16 de Novembro – como se esta fosse a mais importante. Retirou despoticamente 23 de Janeiro, a data do início da luta de libertação nacional, do feriado nacional. 

Tudo isto é o registo normal de Umaro Sissoko Embaló. Um registo que desmerece flagrantemente a nossa história, identidade, símbolos e heróis nacionais. Sissoko encarna sempre na sua actuação inverdade, mediocridade, prepotência, autoritarismo e de vazio que não deixa ninguém indiferente. Por isso, esperar que ele seja um estadista à altura é esperar de mais. Umaro Sissoko Embaló é, para desgraça do povo guineense, um autêntico vazio existencial. 

Guiné e Cabo Verde, por Manuel Pedro Pereira Júnior


«Guiné e cabo verde 
faces da mesma moeda
filhos do mesmo PAI
gerados do mesmo ventre
orientados pela mesma seta
quer no tarrafal, quer no “djiu de galinha”
a procura dos atalhos da liberdade. 

A Guiné e Cabo verde
nasceram do sol, suor, verde e mar
do desespero e da esperança do nosso povo mártir
do sangue do Ramos, da Silla, da Ntungue e do Cabral
que coloriu a nossa bandeira (ku boé pega partu). 

A luta de libertação nacional terminou
depois de muitos “paranta ku tchebur”
a Guiné e Cabo verde libertaram-se
mas ainda não se libertam
o Tite, o Komo e a Guiledje,
o Fogo, o Sto. Antão, o mercado “somnadur di Bande”
a liberdade só terá significado quando o M’bana Kabra,
o Duarte Kambalala deixarem de “coicoir”
nos becos e guetos das nossas tabancas.» (LER)

O Fracasso da Luta Libertação Nacional e o Triunfo das Nulidades


A fundação do PAIGC foi a pior maldição que aconteceu à Guiné-Bissau, tal como a desordeira independência que não trouxe qualquer tipo de independência ao nosso país. É um partido constituído com base em patranhas, segregações, absolutismos e derramamento de sangue. Guiou-se sempre por estes malévolos vícios desde a sua génesis. E o Engenheiro Amílcar Lopes Cabral foi o mentor de toda esta funesta situação, bem como do fuzilamento massivo dos ditos "insubordinados" na vindicta do Congresso de Cassacá em 1964. A face visível do PAIGC, como bem a conhecemos, ao longo dos tempos, é a do seu "querido líder" Cabral. E tudo isto tem repercussões bastantes negativas na redutora mundividência política do caduco partido, máxime nos métodos violentos que sempre empreendeu para conquistar o poder e resolver os seus atritos internos. A raiz de todos os males que nos afectam dramaticamente deriva do sanguinário PAIGC e da sua incapacidade em adoptar os sublimes Princípios e Valores Democráticos. 

A nosso ver a descolonização da Guiné-Bissau era tudo uma questão de tempo. Cedo ou tarde Portugal não teria outra alternativa viável se não abandonar mesmo o nosso país e, deste modo, outorgar-nos a tão almejada independência. E fazia todo o sentido que esperássemos mais um pouco e tomássemos a nossa independência pacificamente, sem qualquer tipo de derramamento de sangue, uma vez que a Guiné-Bissau já estava sob o domínio português há mais de cinco séculos. Esperar mais alguns anos não criaria os enormes transtornos que a asquerosa luta armada acabou por nos criar. Afirmamos isto convictamente porque estavam em curso em Portugal algumas pressões políticas que o governo de Salazar vinha confrontando do ponto de vista interno e externo. Aqui, havia praticamente unanimidade perante as potências mundiais, no que toca ao "Princípio da Autodeterminação dos Povos" consagrado na Carta das Nações Unidas, em 1945, somando ao facto que, na data da sublevação armada, Inglaterra e França haviam perdido a generalidade das suas colónias em África. Ao passo que a antiga União Soviética [URSS], Alemanha e China estavam na linha da frente para que se acabasse de vez com a colonização. Ali, do ponto de vista interno, existia um certo tipo de descontentamento na maioria dos sectores mais progressistas da sociedade portuguesa para com o regime fascista do Estado Novo e uma ânsia maior em aderir à Democracia Participativa, tal como outros bem-sucedidos países europeus na altura. Todos estes factores acabariam por condicionar decisivamente a política externa portuguesa e, em consequência disso, a libertação dos países colonizados. 

A Guiné-Bissau, no entanto, decidiu entrar numa guerra para a qual não estava minimamente preparada. Não estava preparada, porque um dos aparentes desígnios traçados pelo PAIGC consistia no "Programa Maior", que é o desenvolvimento sustentável do país. E este importante imperativo revelou-se um autêntico fracasso ao longo destas quatro décadas devido à deriva político-governativa a que fomos miseravelmente adstritos. Acreditamos piamente que podíamos tomar a nossa independência através de uma resistência pacífica, e sem qualquer tipo de derramamento de sangue, diferentemente da grosseira mentira que foi veiculada pelo PAIGC de que havia uma total impossibilidade da resistência continuar por meios pacíficos. Esta astuta alegação não corresponde à verdade, visando apenas ludibriar a opinião pública guineense e internacional. A Guiné-Bissau tinha ao seu redor modelos bem-sucedidos de países que conseguiram emancipar-se, sem necessitarem de recorrer à via armada. Os exemplos mais próximos de nós são os do Senegal e da Guiné-Conacri, etc. Era, simplesmente, uma questão de continuar a fazer pressão até conseguirmos. 

Não temos a mínima dúvida de que se tivéssemos conquistado a independência de forma ordeira, tal como alguns países africanos sabiamente optaram por fazer, a nossa sorte seria completamente diferente. Não estaríamos hoje nestes constantes ziguezagues políticos. A nossa autonomia seria bastante frutuosa e sairíamos todos a ganhar com isso, poupando assim inúmeras vidas que se perderam em vão. Porém, de forma impensada e irresponsável, decidimos enveredar pelo caminho da violência que acabou por deixar enormes sequelas nos nossos Antigos Combatentes, fazendo-os depois entrar em grandes contradições com os ideais que acerrimamente defendiam, passando a ser os primeiros empecilhos ao desenvolvimento do país. A começar, desde logo, com o despotismo atroz instaurado pós-independência, que se vai desdobrando no nepotismo, ganância desenfreada pelo poder, corrupção generalizada dentro do aparelho de Estado, ajustes de contas, perseguições políticas, golpes e contragolpes de Estado, assassinatos de civis e de altas figuras de Estado e toda a sorte de iniquidades sem fim à vista. Um autêntico império de futilidade, consubstanciando na sua essência um completo triunfo das personalidades medíocres e corruptas nos cargos da nossa Res Publica

A rápida conclusão a que podemos chegar, com a falhada luta de libertação nacional, é a seguinte: o povo guineense foi iludido por oportunistas frustrados com a condição de vida que dispunham, lutando exclusivamente pelos seus egocêntricos e insaciáveis caprichos, usando a sagacidade para afirmar que estavam a lutar pela "causa nacional". Não é preciso ser politólogo para reconhecer esta grande e manifesta verdade. Basta pensarmos nos gritantes males que o PAIGC e os políticos em geral causaram à Guiné-Bissau para compreendermos que, de facto, esses patronos de fraude e filhos da perdição nunca pensaram nos superiores interesses do país como reiteradamente propalam. 

Como contra-argumentos alguns nos dirão que esse processo que a Guiné-Bissau está a atravessar faz parte do percurso "natural" dos países, tal como já pudemos constatar em várias ocasiões nos intensos debates que temos travado sobre este assunto. Não comungamos com este entendimento desfasado e redutor, visto que aquilo que se passa no nosso país ultrapassa todos os limites daquilo que podemos considerar como "fases normais" comum a muitos outros países que tiveram a mesma infelicidade de ter que passar pelo difícil processo da consolidação do seu Estado de Direito Democrático. Tínhamos outras alternativas bem melhores para trilhar do que propriamente este desastroso percurso que optámos por enveredar. Vejamos a título de exemplo: nos ratings da Organização das Nações Unidas (ONU) a Guiné-Bissau consta sempre em última posição e figura ainda nos países mais pobres do mundo, somando isso à elevada taxa de analfabetismo, pobreza e mortalidade materno-infantil que encerra. Se isso são "fases" que alguns conformistas consideram "normais" para a Guiné-Bissau então vivemos num mundo diferente, porque jamais nos acomodaremos com estas péssimas evidências para o nosso país. 

Vendo a realidade política actual da Guiné-Bissau, não temos a mínima dúvida que levaremos ainda muito tempo para superar definitivamente as profundas mazelas deixadas pela guerra colonial e, mais tarde, pela fratricida guerra civil de 7 de Junho de 1998. Há, infelizmente, um clima de ódio e de vingança que paira nos horizontes de alguns rancorosos guineenses. E isto vai continuar a perseguir-nos, enquanto não pararmos para auto-avaliar prudentemente a nossa condição como povo e colocarmos os superiores interesses da nação acima de qualquer outro tipo de interesse, jamais experimentaremos a verdadeira Paz, a Reconciliação e o Desenvolvimento Nacional que a maioria dos guineenses ardentemente aspira. 

Setembro Desvirtuoso


Quando vemos a maioria dos nossos conterrâneos, de forma conivente ou inocente, a celebrar efusivamente "Setembro Vitorioso" somente reforça ainda mais a nossa pré-determinada convicção de que o guineense típico não se enxerga e deixa facilmente levar pelo "canto da sereia". Tal como já tivemos a oportunidade de manifestar publicamente aqui neste espaço: consideramos completamente desvantajoso, e uma opção política errada, o facto do Engenheiro Amílcar Lopes Cabral ter conduzido a Guiné-Bissau para uma estúpida guerra armada que, pelos vistos, o país não estava preparado para entrar. Os custos e benefícios que advêm dela foram manifestamente desproporcionais, com agravantes abismais daqueles em detrimento destes. Não houve, infelizmente, progressos assinaláveis do ponto de vista humano-social (LER). E aos mitómanos que continuam acerrimamente a defender o contrário, interrogamos-lhes: onde é que estão os nobres Princípios e Valores outrora apregoados pelo PAIGC na génesis da referida guerra? Os guineenses podem, de facto, orgulhar-se de 24 de Setembro de 1973? Temos a verdadeira Liberdade, a Paz e a Democracia que tanto almejamos? Os ideais do progresso estão a ser paulatinamente prosseguidos no país? Conseguimos estancar a elevada taxa da mortalidade, máxime materno-infantil, o analfabetismo, a fome, a pobreza extrema e as tremendas desigualdades sociais? Estamos, com as políticas públicas que têm vindo a ser desenvolvidas ao longo dos anos, a construir um futuro bem-aventurado para o nosso desgraçado povo? Somos bem-vistos pelos outros países? Dispusemos de alguma credibilidade na arena internacional? A vida dos guineenses melhorou, em termos qualitativos, com todo este penoso sacrifício feito? Somos um povo realmente feliz e realizado? Temos orgulho daquilo que construímos até à data presente com a nossa auto-determinação? As nossas legítimas expectativas para o futuro são auspiciosas? Valeu mesmo a pena termos tomado a nossa independência de forma sangrenta como foi? O Setembro é, afinal, vitorioso em quê? 

As respostas a todas estas pertinentes questões não poderiam ser mais do que negativas, por razões manifestamente cognoscíveis. E voltamos novamente a interrogar: para que serve então a maldita guerra colonial? Para lutarmos e estarmos pior como estamos agora? Certamente que não. Partindo deste entendimento jamais apoiaríamos o método violento levado a cabo na nossa descolonização, uma vez que morreram injustamente um número incalculável dos guineenses e portugueses sem nada ter sido feito para compensar o sangue derramado. 

Esperava-se, se não fosse o cúmulo da incompetência e corrupção generalizada dentro do aparelho de Estado, que os nossos dirigentes criassem políticas de boa governação, com vista a fazer definitivamente a Guiné-Bissau avançar. Não foi, no entanto, o que aconteceu para infelicidade de todos nós. Por isso, o Setembro é exclusivamente "vitorioso" para  a "pequena burguesia" de Bissausinho –  daqueles que estão a beneficiar com o sistema corrupto e autoritário que vigora no país; que conseguem viver à grande e à francesa e, sobretudo,  põem os seus filhos em melhores escolas privadas do país, bem como mandá-los posteriormente para o exterior a fim de continuarem com a formação académica, livrando-lhes dos tremendos males do país; que as suas mulheres e concubinas fazem da Europa a sua segunda morada, com todas as mordomias que isto comporta do ponto de vista económico-social; daqueles que comem do bem e do melhor que há no país, usufruindo simultaneamente ainda dos serviços sanitários dos países desenvolvidos para estarem de boa saúde com os seus familiares, à mercê do erário público; para estes, sim, sem margem para dúvidas, o Setembro é "vitorioso" e não seguramente para o nosso humilde e miserável povo. 

A Guerra Que Não Trouxe a Independência


A guerra colonial foi meramente um falso pretexto usado pelos badamecos do PAIGC, na altura, para concretizar os seus disfarçados intentos de saquear o povo guineense, tal como a realidade posteriormente veio a confirmar. O tão propalado mote lançado pelo partido no sentido de devolver a Dignidade, a Soberania e o Bem-estar ao oprimido povo guineense não passava de uma autêntica mentira que foi ardilosamente veiculada com o intuito de ludibriar a opinião pública do país e, deste modo, ganhar o maior consenso possível em torno da hedionda guerra. A verdadeira motivação subjacente aos mentores da luta armada pela independência prendia-se, sobretudo, com aspirações egocêntricas de indivíduos que andavam completamente frustrados com a condição de vida de que dispunham e pouco interessados com "a causa nacional" que proclamavam acerrimamente defender. 

Em 23 de Janeiro de 1963 deu-se oficialmente o início da luta de libertação nacional, com a ofensiva militar contra as colunas portuguesas no sul do país, sob o comando do quartel do Titi. A partir desta data tudo mudou, para pior. A Guiné-Bissau mergulhou numa profunda crise de identidade sem precedentes ao longo da sua moderna História. Desde logo a vindicta do Congresso de Cassacá, em Fevereiro de 1964, convocado para "atenuar" a cisão interna no seio do PAIGC, culminando naquilo que ficou conhecido como o "massacre dos insubordinados", onde inúmeros "camaradas" foram barbaramente fuzilados por ordens expressas do partido. 

Passados os dez anos da chacina armada da "guerra do povo, pelo povo e para o povo", o país proclamou unilateralmente a sua independência, em 24 de Setembro de 1973, cumprindo assim o desígnio inicial do "Programa Mínimo" traçado na génese da sublevação. Nos anos subsequentes existiam todas as condições propícias para criar uma "Nova Sociedade" e um "Novo Homem Africano", capaz de trilhar, com bastante sucesso, "o Programa Maior" visceralmente ligado ao desenvolvimento sustentável da Guiné-Bissau. Não foi, no entanto, o que aconteceu pela desgraça nossa. O primeiro Presidente da República, Luís Cabral, conduziu o país para um modelo absolutista de Estado que se traduzia em tremendas perseguições, ajustes de contas e execuções sumárias de opositores do regime considerados "traidores da pátria"

Foi neste horrível cenário politico-governativo, em 1980, que surgiu o afamado "Movimento Reajustador", de 14 de Novembro, liderado pelo General João Bernardo Vieira (Kabi Na Fantchamna), que usurpou o poder por via de um golpe de Estado, afastando assim o seu amicíssimo e correligionário de partido, Luís Cabral, da presidência da república. Acontece que, por vicissitudes várias e supervenientes, esta mudança de poder não foi bem acolhida pelos dirigentes cabo-verdianos que, como represália ao novo regime Bissau-guineense, desvincularam-se do PAIGC e fundaram o partido PAICV, em 1981, rompendo assim definitivamente com o vínculo umbilical que ligava os dois povos irmãos, idealizado pelo Engenheiro Amílcar Lopes Cabral. 

Com o governo de Nino Vieira, a Guiné-Bissau conheceu uma das facetas mais tristes e bárbaras da sua autodeterminação. Tudo aquilo de que acusava Luís Cabral acabaria por fazer ainda pior. Nos seus 23 anos no poder (de 1980 a 1999 e depois em 2005-2009, respectivamente) não se melhorou praticamente nada, excepto uma aparente abertura do país para a Democracia Pluralista, em 1994, que, em termos objectivos, tinha mais a ver com o autoritarismo do que propriamente com o Estado de Direito Democrático. Tal como diria depois Luís Cabral, e bem observado, "o Movimento Reajustador não Reajustou nada". Em consequência disso, o país passou por enormes sobressaltos político-sociais e sucessivos golpes de Estado e contra-golpes até Abril de 2012, culminando sempre em assassinatos de personalidades e altas figuras da Res publica, somando à fratricida guerra civil de 7 de Junho de 1998, com repercussões extremamente negativas que ainda hoje se fazem drasticamente sentir na vida de inúmeros guineenses. 

Desde os sanguinários Luís Cabral e Nino Vieira, passando pelo intriguista e tribalista Koumba Yalá, o inabilitado Malam Bacai Sanhá e o pigmeuzinho e incompetente José Mário Vaz, coadjuvados pelos seus corruptos governos e toscos militares, só trouxeram prejuízos avassaladores à Guiné-Bissau. Não conseguiram deixar um legado positivo em prol do progresso nacional que tanto apregoa(ra)m. Foram todos incongruentes nas suas obscuras agendas políticas, o que realça e demonstra manifestamente a crise de liderança que tem caracterizado o país até à data presente. 

A raiz de todos os males que assolam impotentemente o nosso povo é, sem dúvida, a maldita luta colonial. Os custos e benefícios que advêm dela foram completamente desproporcionais, com a supremacia abismal daqueles em detrimento destes. Não houve, infelizmente, progressos assinaláveis do ponto de vista humano-social (LER). A Guiné-Bissau, desde o período do pós-independência, foi capturada pelos urubus que não compreendem nada da governação e pelos pacóvios militares que apenas a humilharam, através do esmagamento metódico a que foi reiteradamente submetida ao longo dos tempos. A começar com os intelectuais sabujos, políticos trapaceiros e altamente corruptos, magistrados fraldiqueiros, partidos políticos inabilitados e sociedade civil inoperante, que obstam ao desenvolvimento do país. Se isso é a "Nação", “Setembro Vitorioso” ou a "Independência", tal como muitos dos nossos patrícios orgulhosamente enaltecem, não contem connosco. Estamos fora disso. Mesmo fora. Roubem-nos o esforço e a tranquilidade; a consciência e o bom senso é que não!