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Leão XIV e o Desafio Antropológico da Inteligência Artificial


Comecei, desde anteontem, a ler a nova e primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial. Confesso que esta tem sido uma leitura acutilante, estimulante e intelectualmente desafiante. Trata-se de uma obra bem estruturada e densamente argumentada, que aborda questões de grande relevância, sobretudo no que respeita à problemática antropológica suscitada pela inteligência artificial no contexto contemporâneo – tanto nas suas potencialidades benéficas como nos riscos e dilemas que encerra. 

Todo o Cristão Evangélico Protestante deveria, em certa medida, possuir também uma compreensão da tradição católica. Existem, sem dúvida, numerosos pontos de divergência entre o Protestantismo e a Igreja Católica. Contudo, existem igualmente múltiplos elementos de convergência que não podem ser ignorados. Compete-nos, portanto, examinar cuidadosamente todas as coisas e reter aquilo que é verdadeiro, rejeitando o que não encontra respaldo nas Escrituras Sagradas. 

Não devemos, como advertia o Teólogo Martinho Lutero, citado por Timothy George, rejeitar indiscriminadamente tudo o que se encontra sob a esfera de influência do papado. Nas suas palavras, não se deve rejeitar «tudo que esteja sob o domínio do papa. Porque assim deveríamos rejeitar também a igreja cristã. Muito do património cristão pode-se encontrar no papado e dele descende» (LER)

Assim que concluir a leitura desta obra – o que deverá acontecer nos próximos dias – tenciono elaborar uma apreciação crítica do seu conteúdo, apresentando a minha modesta reflexão sobre os seus principais contributos, méritos e eventuais limitações. Até lá, continuarei dedicado e perseverante nesta leitura, convicto de que ela constitui uma oportunidade valiosa para aprofundar a reflexão sobre um dos temas mais decisivos do nosso tempo.

A Morte do Papa Bento XVI e o Seu Legado Religioso


Partilho aqui o vídeo que gravei hoje no final da tarde sobre “A Morte do Papa Bento XVI e o Seu Legado Religioso”. Tenha um bom proveito na sua visualização e auscultação. 

Teologia de Natal e a Matança das Criancinhas


“Em Ramá se ouviu um grito,

choro amargo, imensa dor.

É Raquel a chorar os filhos;

e não quer ser consolada,

porque eles já não existem” (Mateus 2:18).  



O nascimento do Senhor Jesus Cristo e o Seu ministério terreno foram profundamente marcados por grandes e reiteradas conspirações por parte dos filhos da perdição, com a finalidade última de liquidá-Lo fisicamente e, deste modo, frustrar os salvíficos planos de DEUS para com a Humanidade. Apesar de todas estas orquestrações diabólicas bem montadas, o Todo-poderoso DEUS jamais perdeu o controle da história e o curso dos acontecimentos. As vãs tentativas contra o Filho Unigénito de DEUS acabaram meramente por cooperar para o cumprimento escrupuloso das profecias bíblicas a respeito do Messias outrora prometido. 

A passagem bíblica supramencionada é o reflexo manifesto de várias conspirações falhadas contra a vida do Senhor Jesus. O rei Herodes, de forma dissimulada e mentirosa, garantiu aos magos do oriente a sua falsa intenção de ir também adorar o infante Jesus, ordenando-lhes para se informarem “cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo” (Mt 2:8). Quando se apercebeu que os magos partiram para sua terra, sob a Divina orientação, depois de terem previamente adorado o Senhor Jesus, aumentou ainda mais a sua fúria “e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios” (Mt 2.16). O objectivo do rei Herodes era exclusivamente matar o inofensivo menino Jesus. Este foi sempre o seu plano inicial quando soube do nascimento do novo Rei dos reis em Belém da Judeia. 

O rei Herodes, descrevia Hernandes Dias Lopes no seu comentário expositivo de Mateus, “era paranoico em relação ao poder. Foi um rei truculento, egoísta, assassino e tirano. Era a essência da crueldade e do terror. Governou com mão de ferro e esmagou impiedosamente todos aqueles que julgava serem uma ameaça ao seu governo. Assassinou seus rivais um após o outro. Foi esse rei cruel que quis eliminar o infante Jesus, mandando matar todas as crianças de Belém e arredores de 2 anos para baixo”[1]. Confirmando holisticamente este carácter tresloucado e perverso do rei Herodes, Joseph Ratzinger sustenta que este “no ano 7 a.C., justiçara os seus filhos Alexandre e Aristóbulo, porque sentia o seu poder ameaçado por eles. No ano 4 a. C., pelo mesmo motivo eliminara também o filho Antípatro. Herodes raciocinava apenas segundo as categorias do poder; a notícia de um pretendente ao trono, que ouvira dos magos, deve tê-lo alarmado. Tendo em conta o seu caráter, é claro que nenhum escrúpulo poderia detê-lo”[2]. 

O rei Herodes era um homem vil, implacável, prepotente, cruel e desumano, que não tinha nenhuma hesitação em matar os seus opositores, inclusive familiares, por causa do poder ou para obter o poder. O seu currículo estava completamente manchado por crimes horripilantes e de sangue. Mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo, julgando que conseguiria desta forma matar o menino Jesus. Felizmente, pela providência Divina, Maria e José haviam previamente fugido com Jesus para o Egipto. E, assim, escaparam da desgraça mortal promovida por Herodes em Belém e nas regiões circunvizinhas. 

Depois da mortandade das criancinhas em Belém, o Evangelista Mateus relata-nos o pranto generalizado que tomou conta das mães judias que perderam injustamente os seus filhos pelo maquiavélico decreto de Herodes, personificada na mulher de Jacob – Raquel. Narra o autor sagrado que “Em Ramá se ouviu um grito, /choro amargo, imensa dor. /É Raquel a chorar os filhos;/e não quer ser consolada,/porque eles já não existem” (Mt 2:18), citando assim o texto original de Jeremias 31:15, como o cumprimento da referida profecia do Antigo Testamento. Raquel, a mulher predilecta do patriarca Jacó, simbolicamente a mãe das tribos do Norte, chora amargamente pelo desaparecimento dos seus filhos, pois já não existiam mais. A mãe Raquel, comenta sobre o alcance teológico deste versículo a Bíblia de Estudo de Genebra, “representa todo o Israel em suas lágrimas, a partida de Cristo para o Egipto é como a partida dos filhos de Raquel, José e Benjamim para o Egipto (Gn 37.28; 43.15)”[3]. 

Este grande pranto da desolada mãe Raquel para com os seus filhos desaparecidos, Israel de DEUS, a nosso ver, pode igualmente ser enquadrado lato senso na destruição e conquista do reino do Norte pelos assírios em 722 a. C., bem como no penoso cativeiro babilónico profetizado por Jeremias (2 Rs 17:1-6; 18-9-15; 2 Rs 24:8-17; 25:1-21; 2 Cr 36:9-21).  O Evangelista Mateus interpreta este acontecimento no tempo de Jeremias, como uma profecia do clamor que se ouviu na matança das crianças em Belém. Tasker, citado por Hernandes Dias Lopes, formula que “quando a fina flor da população de Jerusalém foi deportada pelos babilónios, deve ter parecido que Deus tinha abandonado o seu povo; e Jeremias nessa notável passagem retratou Raquel lamentando a sorte desses exilados passando cambaleantes diante do túmulo dela em Ramá, a caminho de uma terra estranha”[4]. 

Raquel, que teve um processo de parto dificílimo e trágico a caminho de Efrata, tal como nos contam os relatos bíblicos, morreu depois ter dado à luz Benjamim. Raquel morreu e foi sepultada junto do caminho para Efrata, isto é, em Belém (Gn 35:16-20). O biblista Matthew Henry, colaborando com o título atribuído a Raquel de “mater dolorosa”, e justificando esta profecia bíblica com a letra e o espírito do Novo Testamento, comentava que “o sepulcro de Raquel estava junto a Belém (Gn 35:16-19). O coração de Raquel estava sobre os seus filhos, como estava sobre o seu filho naquele trabalho de parto que a levou à morte e a quem ela deu o nome de Benoni, que significa filho do meu sofrimento. Essas mães eram como Raquel, moravam perto do seu túmulo e muitas delas eram suas descendentes. Portanto, seus lamentos foram elegantemente representados no pranto de Raquel”[5]. 

O alcance teológico e teleológico desta passagem bíblica em apreço não pode ser dissociado – primeiramente – das verdades soteriológicas do cativeiro do Egipto e, posteriormente, assírio e babilónico. Todos estes cativeiros humilhantes que Israel de DEUS teve de enfrentar foram uma autêntica dor para as mães judias, simbolicamente representadas por Raquel, porque envolviam expropriação, exílio, escravatura e morte, razão pela qual choravam dolorosamente a desgraça dos seus filhos e não se deixavam consolar, “porque eles já não existiam mais”. Choravam desconsoladamente o desaparecimento dos seus filhos que foram brutalmente massacrados e assassinados. Não estão mais no mundo dos vivos. Uns, neste vasto leque de filhos, morreram barbaramente e outros foram levados pelas terras estranhas e distantes para serem escravos. 

Sabemos, no entanto, que estas duras realidades que Israel teve de enfrentar visava, em última instância, moldar o povo de DEUS para o caminho certo e para uma verdadeira adoração. Em todos estes cativeiros “Egipto”, o Eterno DEUS providenciou-lhe um salvador, enquanto ainda não tinha aparecido o maior e o único Salvador de todos: o Senhor e Salvador Jesus Cristo. Mas, para isso, seguindo a narrativa de Mateus, era importante que o Messias fugisse momentaneamente para o Egipto “para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egipto chamei o meu Filho (Mt 2:15).” Assim, foi dada a resposta cabal da fuga de Maria, José e o menino Jesus para o Egipto. Além do cumprimento efectivo da profecia de Oseias 11:1 que encerra esta pertinente fuga, o Egipto também era a terra da escravidão para o povo de DEUS e, concomitantemente, da salvação. Um paradoxo, não é? O Todo-poderoso DEUS usou o patriarca Moisés para libertar o seu povo do cativeiro dos faraós egípcios, assim também usou poderosamente o Seu Filho Amado Jesus Cristo, com alcance ainda maior e perfeito, para salvar definitivamente o Seu povo da escravidão do pecado. 

Há, por este motivo, o paralelismo entre Moisés e o Senhor Jesus no processo da salvação do povo de DEUS. Assim como Moisés levantou a serpente de bronze no deserto, escreve o evangelista João para ilustrar esta grande e inequívoca verdade salvífica, “assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3:14-15). Hernandes Dias Lopes, citando Tasker que comenta o alcance teológico da profecia bíblica de Oseias 11:11, sustenta “que o Messias é a personificação do verdadeiro Israel antigo e também que ele era um segundo Moisés, maior que o primeiro. Sua suprema obra de salvação tinha como modelo o poderoso ato de salvação realizado por Deus por meio de Moisés em favor do povo escolhido. E, tal como Moisés foi chamado para ir ao Egito e libertar Israel, filho primogênito de Deus (Ex 4.22), da escravidão física, assim também Jesus foi chamado do Egito em sua infância, por meio da divina mensagem transmitida a José, para salvar a humanidade da escravidão do pecado”[6]. Joseph Aloisius Ratzinger, nesta mesma esteira do pensamento, vai ao ponto de considerar que “a história de Israel recomeça do princípio e de modo novo com o regresso de Jesus do Egipto à Terra Santa. Certamente, o primeiro chamamento para se regressar do país da escravidão tinha falhado sob muitos aspetos. (…). Com a fuga para o Egipto e o seu regresso à Terra Prometida, Jesus opera o êxodo definitivo. Ele é verdadeiramente o Filho. Ele não sai de casa para se afastar do Pai; Ele volta a casa e conduz a casa. Ele está sempre a caminho para Deus e assim conduz da alienação à «pátria», àquilo que é essencial e próprio. Jesus, o verdadeiro Filho, saiu Ele mesmo, em sentido muito profundo, para o «exílio» a fim de nos trazer a todos da alienação para casa”[7]. 

Este regresso definitivo a casa do povo de DEUS concretizou-se com a morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Antevendo de longe esta realidade, o Profeta Jeremias, ainda na mesma profecia desoladora, consola de forma peremptória o povo com as seguintes palavras: “Não chores mais — diz o Senhor, e limpa as lágrimas dos teus olhos. Tudo o que fizeste terá a sua paga e os teus filhos regressarão da terra do inimigo. Há esperança para o teu futuro; os teus filhos voltarão para casa. Palavra do Senhor!” (Jr 31:16). Na tristeza do exílio babilónico, “uma nova vida se tornou possível para um Israel revivificado. Semelhantemente, a tristeza das mães privadas de seus filhos assassinados por Herodes estava destinada, na divina providência, a resultar em grande recompensa”, fundamenta Tasker[8]. Por outras palavras, as lágrimas desoladoras transformar-se-iam agora em alegria contagiante e permanente (Sl 126:1), através da milagrosa libertação do povo de DEUS. 

Diferentemente da profecia de Jeremias, que contém logo a seguir esta mensagem de esperança para os que foram torturados, mortos e espalhados com o cativeiro, em Mateus não foi descrita esta esperança.  Porquê?  Porque o Evangelista Mateus não tinha ainda dado a conhecer a ressurreição e glorificação do Senhor Jesus. O autor sagrado preocupou-se apenas, numa primeira fase, em evidenciar na sua abordagem o processo do nascimento do Messias, no cumprimento das profecias bíblicas e a mão poderosa de DEUS no curso dos acontecimentos. A resposta da esperança em Mateus só veria a luz do dia com a morte expiatória do Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário e a Sua eterna glorificação – onde recebeu todo o poder no céu e na terra (Mt 28:18). Um entendimento previamente defendido por Joseph Ratzinger, que esclarece que “em Mateus, a palavra do profeta – a lamentação da mãe sem a resposta consoladora – é como um grito dirigido ao próprio Deus, um pedido da consolação não dada e ainda esperada: um grito ao qual realmente só o próprio Deus pode responder, já que a única verdadeira consolação – que vai para além das simples palavras – seria a ressurreição. Só com a ressurreição seria superada a injustiça, revogada a palavra amarga «já não existem»”[9]. 

Sim, com a morte expiatória do Senhor Jesus Cristo e a Sua gloriosa ressurreição foram banidos todo o pecado: a escravidão, a dor, a lágrima e a morte para todos os eleitos filhos de DEUS. ELE poderosamente enxugou todas as lágrimas dos seus olhos e já não haverá mais morte nem luto nem pranto nem dor” (Ap 21:4). A nossa esperança e eterna salvação estão unicamente firmados nos méritos do Senhor Jesus Cristo. Por isso, nenhuma mãe jamais chorará o desaparecimento físico dos seus filhos ou algum ente querido. Não haverá mais sofrimento, desgraça, maldade e pecado. Tudo transformar-se-á em eterno gozo, louvor e adoração ao nosso DEUS Altíssimo para todo o sempre. Que assim seja. Vai ser sempre assim. E assim sempre será.

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[1] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus (Jesus, o Rei dos reis), Hagnos, São Paulo, 2019, p.62 e 63. 

[2] Joseph Ratzinger/Bento XVI, in Jesus de Nazaré [A Infância de Jesus], Principia, Cascais, 2012, p. 92. 

[3] Bíblia de Estudo de Genebra, in comentário bíblico de Mateus 2:18. 

[4] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus, p. 75 e 76. 

[5] Matthew Henry, in Comentário Bíblico do Novo Testamento (Mateus a João), Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, 2008, p. 15 e 16. 

[6] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus, p.75. 

[7] Joseph Ratzinger/Bento XVI, in Jesus de Nazaré (A Infância de Jesus), p. 94. 

[8] Hernandes Dias Lopes, in Comentário Expositivo de Mateus, p. 76. 

[9] Joseph Ratzinger/Bento XVI, in Jesus de Nazaré, p. 95 e 96.

Não Nascemos Para Sofrer

Não nascemos para sofrer. Sim, não nascemos mesmo para sofrer. Nós, os seres humanos, não viemos a este mundo para sofrer. Não estamos minimamente preparados, em nenhuma fase ou circunstância, para sofrer. Não esperamos o sofrimento entrar no nosso percurso de vida. Não fazemos votos para o sofrimento ou conviver pacificamente com ele. Não folgamos ou ansiamos o sofrimento, antes pelo contrário detestamo-lo a todos os níveis. O sofrimento remete-nos, em última instância, para a fragilidade do ser humano e o prenúncio da sua degeneração, fatalidade, perecibilidade e finitude. O sofrimento está intrinsecamente ligado à debilidade, à fraqueza, à incapacidade, à doença, à dor e à morte. O sofrimento descaracteriza e mata.  Por isso, ele é “contranatura” porque afecta e coloca em causa a nossa constituição física, estrutura psicossomática e a própria existência, criando em nós atrofiamentos e lesões de personalidade insuperáveis e, em casos extremos, funestos. 

Qualquer sofrimento carrega um pesar. É um pressuposto assente em todo e qualquer tipo de sofrimento humano. Podemos infelizmente sofrer por nós próprios, pelos nossos familiares, pelos nossos amigos, pelos terceiros e pela humanidade em geral. O sofrimento indiscriminadamente atinge tudo e todos. Nenhum ser humano à face da terra é imune ao sofrimento ou lida bem com ele. O sofrimento afecta os pobres e, concomitantemente, os ricos. Também apanha pessoas doutas e pessoas indoutas. Abarca homens e mulheres. Atinge os adultos e as inofensivas criancinhas. Podemos, a título exemplificativo, sofrer pelo amor, pela injustiça, pela traição, pela decepção, pela agressão, pela discriminação, pela rejeição, pela solidão, pela doença e pela perda de um ente querido, etc. Praticamente todo o mundo vive sofrendo (naturalmente, com graduações diferentes, dependendo da situação e contexto que cada um está inserido). O objectivo do sofrimento é arruinar-nos, aliás, ele ilustra bem a condição de depravação do ser humano e da sua destruição (as almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Veja, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri[1]. Tanto que, por esta razão, numa perspectiva geral, o sofrimento não é tomado comummente como sendo algo de bom[2]

O ilustre Escritor Fernando Pessoa, no seu “Livro do Desassossego”, apelidava manifestamente o sofrimento como sendo “a dura opressão do coração”. O reputado autor alemão Johann Wolfgang von Goethe, na sua emblemática obra “Fausto”, considerava-o “ausência completa da alegria” (ALI) e (AQUI). O Salmista Hemã de Canaã classificava o sofrimento de “companhia das trevas” (Sl 88:1-18 (ALI) e (AQUI). O “sufoco permanente da alma”, definia-o desta forma o autor bíblico do livro de Job. 

Todos estes autores conotam o sofrimento com a solidão, a angústia, a dor, o quebrantamento, o fracasso, a fatalidade e o choro. No Bilhete Amarrotado de Odonato, citado pelo poeta angolano Ondjaki, em “Os Transparentes”, desabafa em tom fatídico que «acabou o tempo de lembrar/choro no dia seguinte/as coisas que devia chorar hoje» (LER)“Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus”, lamentavam os oprimidos escravos afro-americanos neste famoso hino Cristão[3]. Na mesma esteira do pensamento, os conhecidos sertanejos brasileiros Tonico & Tinoco, na melancólica música “Saudade de Matão”, consideravam aflitivamente que “esta dor que me consome/Não posso viver/Quero morrer/Vou partir pra bem longe daqui/Já que a sorte não quis/Me fazer feliz” (LER). Vejo, desabafa uma mulher profundamente deprimida citada no Segundo Sexo da feminista Simone de Beauvoir, “que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam (LER)[4]. O sofrimento, de uma forma esboçada e subsumida, é um acidente no percurso do Homem e, simultaneamente, uma desgraça que ele vai carregando no seu dia-a-dia, culminando com a sua degeneração e morte. 

Se é verdade que todos nós, sem excepção, sofremos neste “vale de lágrimas” por razões múltiplas supramencionadas, também é verdade que somente aqueles que não se resignam conseguem usar o sofrimento para o seu aperfeiçoamento ético, moral e espiritual. Por outras palavras, não se deixar nunca vencer pelo sofrimento, mas superá-lo de forma determinada com bastante fé em DEUS. 

O Servo Sofredor, o Senhor Jesus Cristo, o Homem experimentado nos sofrimentos (Is 53:1-12), foi o maior e melhor exemplo de todos da forma como podemos sair vitoriosos em meio do sofrimento. Ele, conhecedor profundo das implicações humano-sociais do sofrimento na vida de uma pessoa, exortava categoricamente no Sermão do Monte: “bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (Mateus 5:4 –  [VER] ). Os que semeiam em lágrimas neste mundo, asseverava o salmista no cântico da peregrinação, “segarão com alegria” (Sl 126:5 – [VER]). São os mesmos homens e mulheres de boa vontade que “Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap 21:4). Que assim seja. E assim sempre será no nome Bendito do Senhor e Salvador Jesus Cristo. 



[1] As almas que vão para o inferno estarão eternamente no sofrimento. Vide, por todos os exemplos, os impressionantes relatos do livro de Apocalipse e a “Divina Comédia” de Dante Alighieri. 

[2] Embora haja correntes de pensamento que defendem, em determinados casos, o sofrimento como antídoto para o amadurecimento e aperfeiçoamento humano, nomeadamente o Cristianismo e o Estoicismo. Mesmo assim, estas duas correntes não o tomam de per si como um fim para o melhoramento, mas como um instrumento pontual que pode nos ajudar a ter noção real das coisas e, desta forma, ampliar os nossos horizontes na maneira de encarar os enormes desafios da vida (LER)

[3] Verso de um famoso espiritual negro, “Nobody knows the trouble i've seen”. (N. do T.), extraído in “Eu Tenho um Sonho – A Autobiografia de Martin Luther King, Jr., Bizâncio, Lisboa, 2003, p. 389. 

[4] Simone de Beauvoir, in Segundo Sexo2, Quetzal, Lisboa, 2015, p. 485 (LER)

A Caminho da Desordem Mundial


Partilho aqui o artigo de opinião que escrevi hoje no Jornal Observador intitulado “A Caminho da Desordem Mundial”. É um diagnóstico apurado da real e grave convulsão político-internacional a que estamos submergidos, tendo inclusive impactos extremamente negativos na vida de todos nós, infelizmente (LER).  

Sinais dos Tempos


 Nestes tempos de paixões frívolas e de comportamentos ridículos; nestes tempos da cólera e da miséria colectiva; nestes tempos da brutalidade e da loucura; nestes tempos da maldade e da desumanidade, refresca-me a releitura das Escrituras Sagradas que nos antevê oportunamente de todos estes malefícios dos últimos tempos: “fica sabendo que, quando chegarem os últimos tempos, hão de vir momentos difíceis. Os homens serão egoístas, gananciosos, pretensiosos, orgulhosos, blasfemos, desobedientes aos pais, mal-agradecidos e descrentes. Serão gente sem amor nem espírito de colaboração. Serão caluniadores, desonestos, desumanos, inimigos do bem, traidores, insolentes, duros de entendimento e mais amigos dos prazeres do que de Deus. Têm aparências de piedade, mas renegam a sua verdadeira força. Foge também deles. (…). São homens de entendimento corrompido e fracos na fé. Mas não hão de chegar muito longe, pois a sua loucura será desmascarada por todos” (Apóstolo Paulo, in 2Tm 3:1.5; 8-9)

O Valor Sagrado da Vida Humana


A vida humana é sagrada em todas as suas dimensões. É o bem mais precioso de que dispomos. Não há nada que se lhe possa igualar neste mundo ou substituir. Ela é imanente e concomitantemente transcendente. Esta inequívoca verdade recebeu primeiramente um amplo acolhimento no pensamento Judaico-cristão, acabando posteriormente por influenciar decisivamente a Magna Carta inglesa do século XIII, a Revolução Francesa e todas as outras civilizações mundiais. Um valor sagrado que é intrinsecamente indissociável da dignidade, da liberdade, da segurança e da auto-determinação. A todos os seres humanos, sem excepção, são garantidos os Direitos Fundamentais e a protecção de viverem livremente, sem qualquer tipo de coação. Aliás, este também é o entendimento abraçado na disposição da Declaração Universal dos Direitos Humanos e na generalidade das constituições contemporâneas. Este valor sagrado da vida é incompatível com o atentado contra ela e discriminações negativas, independentemente das condições biológico-naturais de cada cidadão no seu círculo de convivência ou estatuto social. 

A partir da concepção, período em que começa a vida, e até à morte, todos devem beneficiar do direito de viverem seguros e serem protegidos pela sociedade e pelo Estado em particular. A começar pelos nascituros, as crianças, os idosos, as mulheres, os homens, os doutos e indoutos, pessoas sãs e portadoras de deficiências, capacitadas e incapacitadas. Não podemos selectivamente, em circunstância alguma, beneficiar uns em detrimento dos outros. Todas estas pessoas têm direito à vida, à dignidade, à segurança, à protecção e ao usufruto pleno de Direitos, Liberdades e Garantias. Estes postulados axiológicos entram manifestamente em contradição com a legalização do aborto e da eutanásia. 

Por isso, a legalização da eutanásia é uma das piores aberrações comportamentais contemporâneas. Uma inqualificável abominação em todas as suas dimensões antropológicas. É um acto monstruoso e inqualificável. A eutanásia é a provocação deliberada da morte antes do seu tempo natural. É matar literalmente, sob o pretexto de “boa morte” ou “morte suave”. Configura um insulto à razão conotar a eutanásia como um acto de compaixão e de respeito pela liberdade dos outros. A prática da eutanásia não tem nada a ver com as virtudes do humanismo, da compaixão pelos doentes terminais, do respeito ao próximo e da autonomia privada. Antes, pelo contrário, ela é completamente o oposto de tais virtudes humanas. Logo, não obstante tantos eufemismos que são usados para legitimá-la perante a sociedade, ela é claramente incompatível com o personalismo ético e quaisquer valores axiológicos da dignidade da pessoa humana. 

O direito à vida no ordenamento jurídico português colide flagrantemente com a liberdade e autonomia privada. Constata-se, desde logo, a consagração expressa na Constituição da República do princípio basilar de que a vida humana é inviolável, tal como a sua integridade física e moral (art.º 24.º, n. º1 e 25.º n. º1 da CRP). O direito à vida é o mais importante dos Direitos Fundamentais constitucionalmente consagrados. Daí que o legislador constituinte tenha deixado bem claro que ele não comporta qualquer excepção. O direito à vida, como sustenta um ilustre Jurisconsulto da nossa praça, “não é um direito de pessoa sobre ela mesma: se assim fosse, se cada individuo detivesse um direito sobre si próprio, consequentemente legitimaria o suicídio. Se o direito à vida não é um direito subjectivo então também se deve entender que não há um “direito à morte”, mas apenas o direito de recusar o prolongamento artificial da vida. Assim, juridicamente, face à Constituição da República Portuguesa, não existe um direito à eutanásia activa, através do qual alguém possa exigir de outrem que lhe provoque a morte para acabar com o seu sofrimento”. O respeito da vida dos outros, mesmo no caso de padecerem de doença incurável, não legitima o “homicida por piedade”. Apesar de a relação do Direito ser o domínio da vontade livre, no que diz respeito à vida, não há nem pode haver um domínio da vontade livre. O direito à vida – ao contrário, por exemplo, do direito de propriedade – exige que o próprio titular do direito o respeite, porque mesmo ele não dispõe de uma vontade juridicamente soberana. 

Não obstante estas manifestas verdades patentes na letra e no espírito do artigo 24.º, n. º1 e 25.º n. º1 da CRP, respectivamente, o Tribunal Constitucional, no seu Acórdão n.º 123/2021 que declarou inconstitucional a primeira lei da eutanásia, não se opõe objectivamente ao direito à eutanásia em si mesmo. Apenas considerou “que o direito a viver não pode transfigurar-se num dever de viver em quaisquer circunstâncias”. Sustentaram ainda os juízes do Palácio Ratton que “a conceção de pessoa própria de uma sociedade democrática, laica e plural dos pontos de vista ético, moral e filosófico, que é aquela que a Constituição da República Portuguesa acolhe, legitima que a tensão entre o dever de proteção da vida e o respeito da autonomia pessoal em situações-limite de sofrimento possa ser resolvida por via de opções político-legislativas feitas pelos representantes do povo democraticamente eleitos como a da antecipação da morte medicamente assistida a pedido da própria pessoa”. Assim sendo, concluíram que “a antecipação da morte medicamente assistida a pedido da vítima é admissível”, contando que as condições para a sua concretização sejam “claras, precisas, antecipáveis e controláveis”

Este entendimento do Tribunal Constitucional, a nosso ver, é influenciado sobretudo por um fortíssimo lobby radicalmente liberal que, cada vez mais, tenta a todo o custo impor-nos um modelo subversivo de sociedade. A “ditadura do relativismo”, em que estamos infelizmente mergulhados, sob a falsa capa da modernidade, não valoriza a vida humana na sua verdadeira acepção, apesar de passar inutilmente a ideia de se preocupar com ela. É um relativismo que nada reconhece como absoluto e que deixa como última medida apenas o próprio eu, as suas vontades e libertinagens, pondo mesmo em causa o valor sagrado da vida humana, tal como no caso concreto da legalização da eutanásia – que é uma autêntica legitimação da cultura da morte. 

Todos os indivíduos, ainda que muito doentes ou em estado terminal, não deixam de ser humanos nem a sua vida deixa de merecer o máximo de respeito e protecção. O bem jurídico da vida caracteriza-se, acima de tudo, pela sua peculiar inviolabilidade, razão pela qual a legalização da eutanásia é manifestamente contrária aos postulados axiológicos do humanismo e do direito à vida. 

A Segregação Cultural: Seu Reflexo no Sistema Educacional

Estive ontem na minha Escola, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), a participar como um dos oradores na conferência intitulada “Discriminação Racial”, juntamente com o Professor Doutor Eduardo Vera-Cruz Pinto, a Historiadora Joacine Katar Moreira, o Activista Yussef, a Jornalista Conceição Queiroz e o Dirigente Associativo José Falcão, organizada pelo Núcleo de Estudantes Africanos do mesmo estabelecimento de ensino. 

Na minha intervenção, que incidiu sobre “A Segregação Cultural: Seu Reflexo no Sistema Educacional”, procurei humildemente fazer um enquadramento histórico, político, filosófico e social do racismo para depois distanciar-me completamente das teses classicistas apregoadas em torno do racismo (OUVIR)

O racismo, a meu ver, é um cancro transversal à natureza humana. Há racismo do branco para com o negro e vice-versa. Também paradoxalmente há racismo do branco para o branco, assim como do negro para o negro. Tal como formulava Tocqueville, na mesma esteira do pensamento, para vincar esta inequívoca verdade antropológica, “há um preconceito natural que leva o homem a desprezar aquele que foi seu inferior ainda muito depois de este se tornar seu igual; à desigualdade real criada pela fortuna ou pela lei sucede sempre uma desigualdade imaginária com raízes nos costumes”. Só que, em abono da verdade, os negros acaba(ra)m por sofrer mais com os seus perniciosos efeitos comparativamente às pessoas de outras etnias, por serem o elo mais fraco em toda esta dinâmica da convivência humano-social. 

Os afros e os negros em geral para realmente se libertarem do leviatã do racismo – tanto estatal como social e/ou individual – precisam de continuar a apostar seriamente na educação e qualificação para, deste modo, chegarem à proeminência nos círculos da sua convivência diária. Serem bons cidadãos, bons estudantes, bons académicos e bons profissionais. Procurar sempre a excelência naquilo que estão a fazer ou são incumbidos a fazer. Este é o antidoto mais eficaz para vencer o racismo (LER)

Até lá, apropriando-me das sugestivas palavras do Presidente Nelson Mandela, precisamos percorrer ainda um longo caminho para a liberdade plena.

Judas e o Alto Preço da Traição

A traição é um vício pernicioso e com alcance poderosíssimo para destruir vidas. Ela mina os relacionamentos e cria profundas inimizades entre as pessoas. A traição tem o poder de repelir as amizades duradouras, afastar as pessoas umas das outras, arruinar relacionamentos saudáveis, cessar o amor e, por fim, em última instância, matar. A traição é um repositório fértil de toda a sorte de pecados existenciais e existentes no mundo, que se vai desdobrando na desconsideração do outro, na humilhação, na infidelidade, na hipocrisia, na mentira, na manipulação, no egoísmo, no materialismo, na cobiça, no homicídio, na maldade e na malignidade. A traição é um cancro incurável e, concomitantemente, mortal no seu substrato. Ela é diabólica, a todos os níveis, e um dos piores malefícios que o ser humano herdou do pecado original no início da criação. 

A traição, por infelicidade nossa, não anda solta e nem vive sozinha. Ela é gregária e convive com pessoas. Não se pode falar da traição sem falar dos traidores e traídos. A traição envolve sempre pessoas e terceiros – dois ou mais. Todos nós, sem excepção, em alguma fase da nossa vida, tivemos de lidar com a traição. Pode ser na qualidade passiva de traídos ou, inversamente, na qualidade activa de traidores. Não há ninguém que esteja no seu perfeito juízo que desconheça liminarmente o significado da traição e as suas nefastas implicações humano-antropológicas, mormente na vida de quem foi vítima dela. 

Podemos definir a traição, de forma abreviada e subsumida, como sendo uma atitude deliberada de deslealdade em quem se deposita a genuína confiança, mediante uma aliança. Por outras palavras, é praticar aleivosia. Chama-se traidor àquele que viola de forma consciente e prejudicial um compromisso firmado com o seu próximo ou terceiros, gerando-lhe significativos danos psicológicos, morais, religiosos, amorosos, reputacionais, patrimoniais e materiais, etc. O traído é parte vítima da infidelidade do traidor. 

Levado nesta inqualificável maldade humano-diabólica, Judas Iscariotes traiu friamente o Senhor Jesus Cristo por apenas trinta moedas de prata (Mt 26:14-16; Mc14:10-11, Lc 22:3-6), conduzindo-o a fortiori à morte na Cruz do Calvário. Judas Iscariotes, desde o princípio, sempre foi falso, ganancioso e aldrabão. O autor sagrado chamou-lhe peremtoriamente de traidor (Lc 6:16). O Evangelista João, na mesma esteira do pensamento, caracterizava-o como um autêntico dissimulado, materialista e ladrão, “pois era ele que tinha a bolsa do dinheiro e roubava do que lá se metia” (Jo 11:6-7), dando-nos conta posteriormente que “o Diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a ideia de atraiçoar Jesus” (Jo 13:2). E o próprio Senhor Jesus, aquando da Sua arbitrária prisão em Getsémani, confrontou-lhe nos olhos com a lapidar expressão: “Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?” (Lc 22:48). 

Durante três anos, sustenta Hernandes Dias Lopes no seu comentário expositivo sobre Evangelho segundo João, “Judas Iscariotes realizou a obra de Deus. Quando Jesus enviou os discípulos dois a dois, Judas Iscariotes estava no meio deles. Ele participou do grupo dos Doze e também do grupo dos Setenta. Judas Iscariotes pregou o evangelho para os outros, orou pelos enfermos e expulsou demônios em nome de Jesus. Mas agora estamos vendo esse homem possuído pelo diabo e caminhando para a destruição. Judas Iscariotes tapa os ouvidos à voz de Cristo e abre o coração aos sussurros do diabo. Ele abrigou em seu coração as sugestões do diabo; o diabo entrou nele e o levou para o inferno”. Judas Iscariotes teve excelentes oportunidades conferidas pelo Senhor Jesus Cristo para converter o seu empedernido coração e optou, mesmo assim, de forma livre e consciente, em escolher o caminho da traição e da perdição eterna. 

A história funesta de Judas, escreve ainda Hernandes Dias Lopes, nos mostra quão longe um homem pode ir em sua profissão religiosa sem ser convertido, quão profundamente uma pessoa pode se envolver com as coisas de Deus e ser apenas um hipócrita. Judas Iscariotes nos mostra a inutilidade dos maiores privilégios sem um coração sincero diante de Deus. Privilégios espirituais sem a graça de Deus não salvam ninguém. Ninguém é salvo por ser um líder religioso, por ocupar um lugar de destaque na denominação ou por exercer um ministério espetacular. Judas Iscariotes nos alerta sobre o perigo de ter apenas um conhecimento intelectual do evangelho, mas um coração ainda não convertido. Judas Iscariotes nos mostra que ser batizado ou ser membro de igreja não é garantia de que estamos certos diante de Deus”. Quem realmente desdenha, goza, ridiculiza e trai o Senhor Jesus Cristo, tal como fez Judas Iscariotes, não toma parte na promessa da vida eterna, antes pelo contrário, segue inevitavelmente uma rampa deslizante para o fogo do inferno. 

Sabemos que, por vicissitudes várias e supervenientes, os traidores jamais ficarão imunes aos seus censuráveis comportamentos. Há um preço bastante elevadíssimo a pagar para todos aqueles que vivem no crime da traição. Os traidores podem inicialmente julgar que serão beneficiados com a traição que perpetuam, saindo dela incólumes. Um prognóstico completamente equivocado. Com efeito, acabarão sempre por serem eles mesmos apanhados pela armadilha da traição que andaram a praticar durante a vida. Há consequências práticas e imputabilidade para os traidores. Todos os traidores, cedo ou tarde, serão coercivamente responsabilizados pela sua má conduta de traição. 

Judas Iscariotes não chegou a beneficiar em nada com a traição que andou a fazer ao longo da sua vida de hipocrisia descarada. Também não beneficiou do dinheiro da bolsa que reiteradamente roubava do Senhor Jesus Cristo. Da mesma sorte, não chegou a usufruir de trinta moedas de prata que recebeu dos líderes religiosos para entregar o inocente Filho de DEUS à morte. 

Durante a grande Ceia do Senhor com os seus discípulos, segundo os relatos do Evangelista João, “logo que Judas comeu o pedaço de pão, Satanás apoderou-se dele” (Jo 13:27). Satanás apossou completamente de Judas para concretizar o gigantesco plano diabólico de trair o Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, matá-Lo. Entrou nele o poder destruidor das trevas e com todas as suas implicações maléficas que isto acarretava na vida dele. Judas foi inteiramente controlado pelo Diabo para ser malignamente usado por ele, razão pela qual saiu imediatamente da presença do Senhor Jesus ainda no decorrer da Ceia. E era noite, vinca manifestamente o Evangelista João este importante pormenor (Jo 13:27; 30). Noite temporal e também completa escuridão no coração de Judas. 

Hernandes Dias Lopes, a propósito disso, formula que “o traidor Judas Iscariotes foi mergulhado na escuridão (13.30). E era noite. Noite lá fora e também noite em seu coração. A noite trevosa da traição levou-o à noite eterna, de escuridão sem fim. A escuridão que estava em seu coração levou-o para as trevas eternas. Jesus é a luz do mundo, mas Judas rejeitou Jesus e saiu na escuridão; e, para Judas, ainda é noite!”. Um entendimento, igualmente, defendido por Joseph Ratzinger no seu livro Jesus de Nazaré, fundamentando que “Judas vai para fora num sentido mais profundo: entra na noite, vai-se embora da luz para a escuridão. O «poder das trevas» apoderou-se dele (cf. Jo 3; 19; Lc22, 53)”. Por outras palavras, Judas Iscariotes saiu de forma apressada durante a Ceia para trair o Filho do Homem na noite do pecado: no pecado da ambição, da avareza, da locupletação, da corrupção e do homicídio premeditado. Saiu da presença gloriosa do Senhor Jesus Cristo, a Luz do mundo, para entrar na noite das trevas e nele perder-se definitivamente, autodestruindo-se. 

Para reforçar ainda esta ideia da ingratidão e infidelidade de Judas, escreve Charles Erdman, que “o caráter de Judas oferece-nos o retrato mais deplorável da incredulidade que o evangelho registra. Suas oportunidades de conhecer a Cristo foram inexcedíveis, mas resistiu à luz, alimentou o pecado da avareza, não se comoveu diante da manifestação inigualável do amor do mestre, que fora a ponto de baixar-se e lavar-lhe os pés. Agora, à mesa, Jesus lhe dá o último sinal de amizade; trava-se ali, na alma de Judas, a última batalha, porém Satanás prevalece; e ele sai para dentro da noite de sua eterna desgraça e condenação”. 

O Diabo usou Judas Iscariotes para trair o inocente Filho de DEUS e depois de consumar este maléfico acto de traição descartou-lhe completamente, atormentando-lhe com todo o tipo de remorso, tal como faz com todos os filhos da perdição que resistem manifestamente a graça salvífica do Senhor Jesus Cristo. Já não valia Judas a ganância desenfreada pelo dinheiro fácil. Já não lhe valia mais as trinta moedas de prata da traição. Já não lhe valia a traição que julgava que fosse a sua salvação. E, por fim, já não lhe valia inclusive a sua vida, razão pela qual sufocou-se a autodestruiu-se na sua própria traição e miséria espiritual. Judas queria tudo e acabou por perder literalmente tudo. 

O Apóstolo Mateus narra-nos que “quando Judas, o traidor, viu que Jesus tinha sido condenado, encheu-se de remorsos e foi entregar as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos. E confessou: «Pequei ao entregar um inocente à morte.» Eles replicaram: «Que temos nós com isso? O problema é teu!»” (Mt 27:3-4). E, de seguida, prossegue ainda o autor sagrado no seu fidedigno relato bíblico: “então Judas atirou as moedas de prata para dentro do templo, depois afastou-se dali e foi-se enforcar” (Mt 27:5). O evangelista Lucas, por sua vez, no livro de Actos dos Apóstolos, de forma mais pormenorizada, destaca o carácter violento do suicídio de Judas, sustentando que este “caiu morto, tendo rebentado os intestinos que se espalharam pelo chão” (At 1:18). 

Para conjugar estes dois relatos sobre a morte de Judas Iscariotes, narradas por Mateus e Lucas, respectivamente, Mattthew Henry no seu comentário bíblico formula que Judas foi “estrangulado ou sufocado com aflição e horror, ele caiu impetuosamente (de cabeça no chão, segundo o Dr. Hammond) e, em parte com a inchação do próprio peito e em parte com a violência da queda, ele se arrebentou pelo meio, de forma que todos os seus intestinos saíram do corpo (v. 18). Seu enforcamento, conforme nos relata Mateus 27.5, o faria inchar até que se partisse, fato reportado por Pedro. Ele explodiu produzindo grande barulho (conforme o dr. Edwards) que foi ouvido pela vizinhança e, assim, como diz o texto, foi notório a todos os que habitam em Jerusalém (v.19), pois todas as suas entranhas se derramaram (v.18)”. A Bíblia de Estudo de Aplicação Pessoal, comentando sobre isso, explica que “Judas tentou enforcar-se, a corda se rompeu ou galho quebrou, Judas caiu, e seu corpo se despedaçou”. Aparentemente durante, ou logo depois do enforcamento, segundo a versão da Bíblia de Estudo de Genebra, o corpo de Judas “caiu no chão e foi rompido ou decomposto”. Um entendimento tradicional, igualmente, acolhido e sustentado por Augustus Nicodemus Lopes no seu estudo bíblico aqui. 

O traidor Judas, como ficou demonstrado, não conseguiu voltar para trás no sentido de remediar o seu abominável pecado e, tão pouco, acreditar na lei do amor e do perdão Divino. Joseph Ratzinger, indo mais além no seu comentário teológico, considera que “Judas não conseguia acreditar num perdão. O seu arrependimento torna-se desespero. Já só se vê a si mesmo e às suas trevas, já não vê a luz de Jesus – aquela luz que pode iluminar e vencer as próprias trevas. Deste modo faz-nos ver a forma errada do arrependimento: um arrependimento que já não consegue esperar, mas só vê a própria obscuridade, é destrutivo, não é um verdadeiro arrependimento. Faz parte do justo arrependimento a certeza da esperança – uma certeza que nasce da fé no poder maior da Luz que Se fez carne em Jesus”. Judas Iscariotes traiu o Senhor Jesus Cristo, mas acabou inevitavelmente por sufocar-se na sua própria traição e suicidou-se (Mt 27:5). O avarento judas colocou deliberadamente o termo à sua própria vida e foi definitivamente para a perdição. 

A traição tem um elevado preço a pagar. O seu galardão é a morte. Todos aqueles que vivem deliberadamente a trair, especialmente traindo o Senhor Jesus Cristo, a Sua Amada Igreja e Obra em geral, o fim deles é a perdição eterna, se previamente não se arrependerem dos seus maus caminhos. Os traidores e injustos, tal como preceitua claramente a Palavra de DEUS, não herdarão a promessa da vida eterna (1Co 6:10; Ap 21:8). Não há falso Cristão ou ninguém que consiga enganar o Senhor Jesus Cristo, com a sua vida de hipocrisia ou mentira, saindo ileso, uma vez que Ele sabe de tudo e nada se furta ao Seu raio de conhecimento. 

Judas Iscariotes, sumaria Hernandes Dias Lopes, que subscrevo na íntegra, “é um alerta para nós sobre o perfeito conhecimento que Cristo tem de todo o seu povo. Jesus pode distinguir entre uma falsa profissão de fé e a verdadeira graça. A igreja pode ser enganada, mas Jesus não. Homens maus como Judas Iscariotes podem ocupar os postos mais altos na liderança da igreja, mas nunca enganarão Jesus. Jesus conhece aqueles a quem ele escolheu (13.18,19; 2Tm 2.19). Esse conhecimento de Jesus alerta os hipócritas sobre o arrependimento. Jesus deu todas as oportunidades para Judas Iscariotes se arrepender. Ele o chamou, o ensinou, o comissionou e lhes lavou os pés. Jesus o tratou como amigo. Deu-lhe todos os privilégios que deu aos outros discípulos”. No entanto, sabemos que, mesmo assim, Judas rejeitou todas essas nobres e graciosas oportunidades da salvação oferecidas pelo Senhor Jesus Cristo. 

Que o nosso Todo-Poderoso DEUS realmente nos livre do crime da traição e de toda a sorte de pecados. Que ELE nos ajude e nos oriente para os caminhos do amor, santidade, bondade, perdão, reconciliação, fidelidade, paz e, acima de tudo, da vida eterna. Que assim seja. E assim sempre será pela fé no nome Bendito do Senhor Jesus Cristo. Amém. 

A Geopolítica de Sangue da Rússia de Putin


Qualquer ser humano que prime genuinamente pelo valor sagrado da vida humana não pode ficar indiferente às tremendas chacinas que a Rússia está a cometer neste momento na Ucrânia e, muito menos, hesitar em condenar firmemente o tal despotismo e posicionar-se ao lado do bombardeado povo ucraniano. Não há nenhuma geopolítica ou geoestratégia que possa servir de pretexto para legitimar uma hedionda guerra e consequentemente validar a cultura da morte dos inocentes. A guerra é a pior faceta que o ser humano herdou do pecado original de Adão e Eva. Ela é exclusivamente do Diabo e de todos aqueles que são da perdição eterna. É a manifestação visível do poder destruidor das trevas e o triunfo momentâneo da maldade no mundo. A guerra é a perfeita personificação dos filhos do Diabo na sua actuação com os terceiros. Por isso, é claramente oposta à razão, à paz, à vida, ao humanismo e à humanidade. 

Confesso que fico completamente estupefacto e triste quando vejo determinadas pessoas a procurarem esgrimir argumentos falaciosos, tautológicos e inúteis para justificar o injustificável, isto é, consentir com o massacre da Rússia de Putin na Ucrânia, apontando falsamente a culpa da guerra aos Estados Unidos de América (EUA), NATO, União Europeia (UE). E pergunto: onde ficam então nesta história todos os inocentes e indefesos que todos os dias estão a morrer à nossa vista de forma injusta? Há, porventura, alguma desconfiança ou provocação que possa legitimar uma guerra armada? Será que a geopolítica ou geoestratégia é mais importante do que a vida humana? 

Toda esta fatídica realidade só reforça a decadência ético-moral em que a Humanidade vive há bastante tempo, convergindo cada vez mais para a sua completa ruína e autodestruição. Estamos mesmo a caminhar, paulatinamente, em várias frentes, para os dias do fim: fim do amor, fim da verdade, fim da paz, fim da sobrevivência, fim da humanidade e o fim do mundo. 

A Grande Guerra Pela Civilização

Os dias que correm não são nada fáceis. Desafiam a nossa lógica racional até aos limites. Mostram-nos, através da realidade tenebrosa do mundo, o quão desumana a humanidade é e o perigo galopante e ameaçador que todos nós corremos. Vivemos em tempos de muita ansiedade, incerteza, desconfiança, medo e guerras, confirmando assim a sentença do afamado Einstein de que “o mundo é um lugar perigoso de se viver”. Realmente, em abono da verdade, o mundo é um lugar bastante perigoso de se viver. O exemplo manifesto disto são as aterradoras notícias que nos chegam dos media, reportando-nos as maléficas situações de escândalos, violações, marginalizações, abusos, guerras e, por fim, mortes. 

Perante estas hediondas e reiteradas transgressões, a que temos impotentemente assistido, não há margem para dúvida que é o futuro e a sobrevivência da raça humana que está em causa. Cada vez que pactuamos com estas desumanidades estamos, de forma implícita e deliberada, a legitimar as atrocidades e autodestruição da própria Humanidade. Jamais poderemos consentir, em circunstância alguma, com tais maldades, porque constituem autênticos inimigos das sociedades abertas, do primado da liberdade e da autodeterminação que deveriam caracterizar-nos, independentemente da nossa origem, sexo e mundividência. E elas não podem triunfar, sob pena de ficarmos completamente reféns da marginalização e da tirania. 

Por isso, somos todos intimados, os amantes da liberdade e democracia pluralista, a participarmos nesta justa guerra civilizacional. É uma guerra que visa afirmar, de forma intrépida e inequívoca, os sublimes e inegociáveis valores da igualdade entre os seres humanos e povos em geral; da Paz mundial e sã convivência entre os titulares e particulares, da Justiça Social e Tolerância, da Democracia e fraternidade, opondo-se manifestamente toda a sorte de preconceito, discriminação, radicalismo, subjugação, absolutismo, fanatismo, guerras, barbárie e jugo opressor. Eis, sem excepção, a peleja que nos espera a todos, isto é, a grande guerra pela civilização. 

Súplica em Tempo de Corrupção


“Salva-nos, Senhor, pois são cada vez menos os homens bons

e há poucos que sejam sinceros.

Mentem uns aos outros;

falam com hipocrisia e falsas intenções.

 

Acaba, Senhor, com os hipócritas

e com os que falam com arrogância.

Eles dizem: «Com as nossas palavras venceremos.

Elas são a nossa força. Quem nos poderá dominar?»

 

Senhor diz: «Por causa da aflição dos humildes

e dos gemidos dos pobres

vou levantar-me e dar-lhes a ajuda que tanto desejam.»

E as promessas do Senhor são verdadeiras,

são como a prata mais pura,

refinada no forno sete vezes.

Tu, Senhor, cuidarás de nós

e nos defenderás sempre dessa gente.

Os maus rondam por toda a parte

preparando armadilhas contra os humanos.[1]



[1] O Senhor Jesus Cristo, in A Bíblia Sagrada, Salmo 12:1-9, Versão, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004. 

As Folhas de Outono: Libertar Para Melhor Renascer


Não tenho, como escrevi aqui oportunamente, qualquer preferência especial por nenhuma estação do ano em concreto, não obstante vir de um clima quente e ser naturalmente tropicalista.  Maravilho-me com o inverno, a primavera, o verão e o outono. Gosto de períodos de chuva e de seca. Amo, da mesma sorte, sem qualquer tipo de hesitação, o calor e o frio em simultâneo.  Aprecio imenso todas as épocas do ano, procurando, na medida do possível, ajustar as suas cómodas e/ou incómodas particularidades naturais (LER). Todas estas estações do ano encerram realidades cognoscíveis que, como seres humanos que somos, podemos sempre aprender imenso com elas. 

O outono é uma grande estação do ano que nos remete indubitavelmente para a importância cimeira que a mudança e renovação comportam no desenvolvimento de qualquer vida. Não há vida sem a renovação e vice-versa. As duas realidades são concomitantemente intrínsecas e indissociáveis uma da outra. É deveras saudável e bastante reconfortante para alma quando interiorizamos o conceito de mudanças positivas na nossa vivência quotidiana com terceiros à nossa volta. A vida realmente só faz sentido quando imprimimos de forma holística e acertada as mudanças requeridas para o nosso crescimento interior e exterior, isto é, libertar para melhor renascer. 

Precisamos, para o nosso próprio bem e crescimento pessoal, de nos libertar de todas as malévolas “folhas” que vão obstruindo a nossa coesão, paz, harmonia, crescimento e percurso de vida, tal como a estação do outono. Deixar as más companhias, os maus hábitos, os relacionamentos tóxicos e vícios prejudiciais à nossa saúde. Repudiar atitudes perniciosas contra o nosso próximo e os terceiros, bem como expectativas irrealistas e inexequíveis que criam apenas perturbações existenciais na alma. Diferentemente destas importantíssimas e determinantes reformulações, renovar constantemente a nossa poluída mente com pensamentos divinos da humanidade e da humanização para, desta forma, podermos atrair as novíssimas “folhas” que nos conduz realmente à verdadeira felicidade (LER). Que assim seja. 

A Origem do Racismo e Como Combatê-lo



Caros leitores, partilho aqui convosco novamente o vídeo que gravei intitulado “A Origem do Racismo e Como Combatê-lo”. Nele fiz um diagnóstico apurado sobre as suas raízes e causas, através de um enquadramento histórico, religioso e político-social, bem como apresentando simultaneamente antídotos necessários para mitigá-lo na convivência do ser humano (LER). Vale a pena ouvir. Tenham um bom proveito. Obrigado. 

Objecção de Consciência


Argumentar que vandalizar as estátuas em reacção ao racismo é apagar a História, tal como ouço alguns “donos de opinião” a esgrimir, não passa de uma treta. Uma autêntica patranha. Um falatório inútil. Uma conversa fiada, ou melhor, como dizem sabiamente os brasileiros, “conversa para boi dormir”. E aqui ninguém é boi para cair nesta artimanha. Desde quando é que uma mera estátua pode facultar-nos os registos apurados da História? Se fosse assim, seriamos todos conhecedores profundos da História da Humanidade, tendo em conta as inúmeras estátuas que grassam nas nossas ruas e cidades. 

Não são as estátuas que nos fornecem os factos históricos, insisto. A História apura-se na memória colectiva que vai passando de geração em geração e, mais especialmente, nos registos escritos, sobretudo nos livros. Nenhum cidadão médio precisa de visualizar a estátua de Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Francisco Franco, António de Oliveira Salazar, Saddam Hussein, Omar al-Bashir etc., para saber que foram ditadores e carrascos da Humanidade. Da mesma forma, não precisamos da estátua de Santo Agostinho, Madre Teresa de Calcutá, Abraham Lincoln, Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr, Nelson Mandela etc., para consciencializarmos que foram “justos entre as nações”. Portanto, esta tese de considerar que a erradicação das estátuas é estar a apagar a História não colhe. Tal asseveração é improcedente e deve ser liminarmente rejeitada. Quem faz a História, em última instância, é o próprio Homem – tanto para o bem como para o mal. 

E mais, por imperativo de consciência, sou um convicto Cristão, Evangélico e Baptista-Tradicional, alicerçado ideologicamente na Doutrina Social da Igreja. Não comungo com qualquer tipo de vandalismo e concomitantemente com a idolatria. Não sou apologista de estátuas, porque tal prática entra manifestamente em contradição com os meus impolutos Princípios e Valores religiosos, razão pela qual sou assumidamente um iconoclasta neste sentido. 

Por isso, da minha parte, não me incomoda de todo este ataque contra as estátuas, contando que não belisque mesmo ninguém ou a tranquilidade social. Tenho mais pena dos meus irmãos Cristãos que, de forma apedeuta e ridícula, decidem alinhar neste mundanismo idólatra e dos milhões de pessoas que foram e continuam infelizmente vítimas do racismo no mundo inteiro – do que propriamente com as estátuas que estão a ser vandalizadas ou destruídas.