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Objecção de Consciência


Argumentar que vandalizar as estátuas em reacção ao racismo é apagar a História, tal como ouço alguns “donos de opinião” a esgrimir, não passa de uma treta. Uma autêntica patranha. Um falatório inútil. Uma conversa fiada, ou melhor, como dizem sabiamente os brasileiros, “conversa para boi dormir”. E aqui ninguém é boi para cair nesta artimanha. Desde quando é que uma mera estátua pode facultar-nos os registos apurados da História? Se fosse assim, seriamos todos conhecedores profundos da História da Humanidade, tendo em conta as inúmeras estátuas que grassam nas nossas ruas e cidades. 

Não são as estátuas que nos fornecem os factos históricos, insisto. A História apura-se na memória colectiva que vai passando de geração em geração e, mais especialmente, nos registos escritos, sobretudo nos livros. Nenhum cidadão médio precisa de visualizar a estátua de Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Francisco Franco, António de Oliveira Salazar, Saddam Hussein, Omar al-Bashir etc., para saber que foram ditadores e carrascos da Humanidade. Da mesma forma, não precisamos da estátua de Santo Agostinho, Madre Teresa de Calcutá, Abraham Lincoln, Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr, Nelson Mandela etc., para consciencializarmos que foram “justos entre as nações”. Portanto, esta tese de considerar que a erradicação das estátuas é estar a apagar a História não colhe. Tal asseveração é improcedente e deve ser liminarmente rejeitada. Quem faz a História, em última instância, é o próprio Homem – tanto para o bem como para o mal. 

E mais, por imperativo de consciência, sou um convicto Cristão, Evangélico e Baptista-Tradicional, alicerçado ideologicamente na Doutrina Social da Igreja. Não comungo com qualquer tipo de vandalismo e concomitantemente com a idolatria. Não sou apologista de estátuas, porque tal prática entra manifestamente em contradição com os meus impolutos Princípios e Valores religiosos, razão pela qual sou assumidamente um iconoclasta neste sentido. 

Por isso, da minha parte, não me incomoda de todo este ataque contra as estátuas, contando que não belisque mesmo ninguém ou a tranquilidade social. Tenho mais pena dos meus irmãos Cristãos que, de forma apedeuta e ridícula, decidem alinhar neste mundanismo idólatra e dos milhões de pessoas que foram e continuam infelizmente vítimas do racismo no mundo inteiro – do que propriamente com as estátuas que estão a ser vandalizadas ou destruídas. 

A Origem dos Fulacundas ou Fulas da Guiné-Bissau e a Sua História Política


«Os autores portugueses situam a chegada dos primeiros Fulas ao território da actual Guiné-Bissau em meados do século XV. Os primeiros grupos de pastores nómadas teriam chegado de Ferlo (Senegal) para se instalarem pacificamente no Gabú. Estes pioneiros viviam em paz com as populações Mandiga, Beafada, Bambara e constituem as primeiras colónias. Durante a segunda metade do século XV chega a segunda vaga de Fulas tendo na liderança o seu lendário chefe guerreiro Koli Tenguela. Desta vez, não se fala de imigração mas de invasão de natureza guerreira. Com esta invasão, constituem-se novas colónias, Fuladugús, em Pirada, Pachisse e Chanha. Os Fulas livres (Fulas-Foros) e os Fulas-Pretos fazem parte desta vaga. Hoje em dia, são chamados pelo termo genérico de Fulacundas. Será preciso esperar pelo século XIX para assistir à chegada massiva dos Fulas do Fouta Djallon, que vêm islamizar massivamente os Fulacundas, os Mandigas, os Beafadas, os Sossos e os Nalús. António Carreira (1964) assinala a presença dos Fulas, considerados mestiços de Sereres e de semitas nómadas na Guiné Portuguesa desde o século XVIII.» 

A História Política 

«De acordo com René Pélissier, os Fulas constituem o “elemento perturbador” da história guineense na segunda metade do século XIX. Este grupo pertence à grande família dos povos que, através de migrações, invasões e sucessivas mestiçagens alterou permanentemente    a história da África Ocidental. Os Fulas estão longe de ser homogéneos. Apenas na Guiné-Bissau distinguem-se os Futa-Fulas (Fulas do Fouta-Djallon) que tinham destruído o reino mandiga do Gabú, libertando assim os seus primos, os Fulacundas ou Fulas-Forros, da dominação Mandiga. Estes revoltaram-se contra os seus anfitriões Mandigas que acabaram por expulsar ou eliminar.  Os Fulas-Forros, ou pelo menos os seus chefes, conduzem com o apoio dos Almamys (reis) do Fouta Djallon e da sua principal província, Labé, uma intensa política de islamização na Guiné-Bissau. No decorrer da sua expansão, islamizam os Soninkés, os Beafadas e outros grupos animistas. Esta política de islamização não pode ser dissociada da escravização[1] e da absorção cultural de alguns povos conquistados como os Mandigas e os Beafadas que, quando são “fulanizados” e islamizados, se tornam Fulas de “segunda categoria”, ditos Fulas-Pretos[2] ou Fulas cativos. 

Após a declaração da guerra santa em 1725, a Federação islâmica do Fouta Djallon organizava frequentemente saques e pilhagens contra as populações fetichistas. Foi por isso que atravessaram várias vezes o território da actual Guiné-Bissau em direcção da Gâmbia, submetendo e convertendo ao Islão as populações derrotadas. Os prisioneiros são levados com o produto das pilhagens para o Fouta onde trabalhavam como escravos. 

Entre as mais importantes expedições dirigidas contra a actual Guiné-Bissau  assinalamos as campanhas de Koli Tenguela do Corubal Superior; de Abdulai Bá Demba (Almamy Alfaya), por volta de 1804; de Abdul Gadiri contra Niokolo e Gabú; de Almamy Sorya Abubakar contra o Braço (região de Farim) com a formação de um principado em Pachisse e Pakau sob a autoridade de Bokary Koy; a derrota de Almamy Umaru e Ibraima Candjai contra os Fulas Houbbou dirigidos por Mamadú Djué; as expedições contra os reis de Ianguiçaio e Djankê Wali durante a batalha de Turuban, que acabou com a hegemonia mandiga no Gabú e a coparticipação dos Alfas de Labé nas lutas de emancipação entre os Fulas-pretos e os Fulas-Forros em Rio Grande. 

A derrota dos mandigas levou ao estabelecimento de uma hegemonia fula. Os Fulas de Foréa, a partir de então chamados de Forros, isto é, livres da denominação mandiga e beafada, assumem o controlo de toda a região de Gabú. Os Almamys do Fouta confiam o comando do Gabú e de Foréa ao chefe Tchikam Embaló, que toma o nome de Alfá Bakar Guidáli, o fundador da família real dos Embalocunda do Gabú.» 

(Extraído no livro do Professor Doutor Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 70, 71 e 72). 



[1] A palavra “escravo” é utilizada aqui no sentido africano do termo. Tendo em conta o seu estatuto sociopolítico na sociedade, seria mais correcto falar de cativo do que de escravo.
[2] Os Fulas-Pretos são mestiços mais ou menos “negritizados”, dos quais fazem parte os Jolofs ou Wolofs, os sereres, os antigos Biafadas, os Padjadincas e os cativos mandigas “Machúbê”. Eles invadem os territórios dos Mandigas, dos Cassangas, dos Banhuns e dos Brames, onde se entregam a grandes devastações.

A Organização Sociopolítica dos Mandigas


“Nos Mandigas, as corporações de ofícios estão divididas em três categorias: Os sapateiros, os ferreiros-agricultores e os comerciantes ambulantes (Djilas). Distinguem-se entre si pelos nomes de ascendência paterna. Cada “casta” emprega um certo tipo de número de nomes. Apenas os nobres utilizam dois nomes: Mané e Sani. A maioria dos nomes da família é de origem tradicional de antes da islamização. As associações socioprofissionais eram apresentadas como castas endogâmicas. 
Artur Augusto da Silva (1968) apresenta a estratificação social tradicional da sociedade Mandiga do seguinte modo: 
– Os escravos, compostos pelos prisioneiros de guerra, homens comprados, aqueles que se davam como penhores para pagamento de dívidas, bem como os seus filhos. Ele distingue uma outra categoria intermédia entre os homens livres e os escravos, constituída pelos servos que poderiam estar ligados à terra ou artesãos trabalhando para os seus mestres;
– Os homens livres, dos quais faziam parte os homens de ofício, os agricultores, os guerreiros e o clero. Este último compreendia três dignitários religiosos que são, nomeadamente, os Almamis, os Fodeos e os Arafans. Qualquer pessoa cultivada poderia ser parte desta categoria independentemente da sua casta de origem.
A sociedade mandiga é uma sociedade organizada em castas de filiação sanguínea, o que significa que uma criança da casta dos ferreiros ou sapateiros permanecerá na sua casta de origem independentemente do ofício que venha a aprender posteriormente. As castas incluem duas categorias de ofícios:
– A categoria de ofícios que os costumes desta sociedade consideram como abjetos, a saber, os sapateiros (karan-keó), os ferreiros (Numó), os tintureiros (Karalo-lá), os actores (Djideu);
– A categoria dos ofícios bem considerados pela sociedade, como os tecelões (Dar-lá), os alfaiates (Karar-lá), os ourives (Sani-numó), etc.
Christian Roche, retém quatro ordens hierarquizadas da sociedade malinké, nomeadamente os contadores de histórias (gritos), músicos, ferreiros e sapateiros.
O casamento é proibido entre homens livres e pessoas de castas, mesmo se é permitido aos homens livres terem concubinas de casta. Os homens de casta não se podem casar nem arranjar concubinas fora da sua casta. Antigamente, esta prescrição era observada com muito rigor, mas, hoje em dia, as coisas mudaram.  As relações entre o homem e a mulher são caracterizadas por um claro domínio do homem a quem estão reservadas as chamadas tarefas nobres: a guerra, o comércio e o proselitismo. A mulher era responsável pelas tarefas manuais que permitiam a sobrevivência da comunidade.
Na base da organização política dos Malinkés figura a família. Cada grupo familiar pertence a uma linhagem e vive numa concessão, o Korda. Este conjunto é regido de acordo com o princípio da avunculocalidade. A comunidade divide-se em dois grupos: o grupo masculino chamado Deboda e o grupo feminino chamado Batunda. O chefe da Deboda é responsável pela distribuição da ração diária de painço enquanto a decana do Korda é responsável por destribuir as rações de arroz retiradas dos celeiros femininos, sendo o arroz uma cultura reservada exclusivamente às mulheres.  
A autoridade da aldeia é confiada ao homem mais velho do ramo mais antigo derivado do fundador da comunidade: o Alkali. Ele representa a aldeia e o rei nos seus contactos com os estrangeiros e nomeadamente com os Europeus: Duas autoridades servem de contrapeso ao poder do Alkali: por um lado, o Conselho dos Notáveis que dá ao seu acordo para qualquer decisão importante implicando a comunidade. Se um trabalho de interesse público fosse necessário, o Alkali reunia o Conselho que, após discussão, lhe concedia ou não autorização para recrutar os membros de uma ou de outra classe de idade para a realização das obras. Por outro lado, com a islamização, uma segunda autoridade aparece na aldeia, o Almaami, chefe religioso, muito respeitado e. por vezes, muito prestigiado. Frequentemente proveniente da primeira família que se converteu ao Islão, o Almaami exerce essencialmente uma autoridade moral. Frequentemente, o seu parecer é predominante nas discussões.
Os Mandigas que conquistaram a região da Guiné-Bissau e o norte do rio Gâmbia praticavam os mesmos métodos de gestão do poder herdados do Mali e baseados sobre a vassalagem. O princípio de uma liderança rotativa entre os membros elegíveis das famílias fundadoras constitui um meio de dissipar os conflitos internos e difundir a sua autoridade. Uma vez definidas as fronteiras, os Estados mandigas revelaram-se de uma notável estabilidade até ao século XIX. Isto testemunha a capacidade da elite dirigente de manter o status quo, através de uma série de astúcia: laços, casamento, mediação de conflitos, técnicas de protecção mútua de interesses, etc.
O transplante das instituições sociais e culturais Mandé para a Guiné-Bissau representava uma vantagem considerável para a elite dirigente mandiga na consolidação do controlo sobre as populações animistas dominadas. Assim, cada elemento da sociedade Mandiga desempenhava um papel bem preciso: a elite e os cidadãos livres impunham os modelos sociais e culturais da sua tradição; os ferreiros, os contadores de histórias e os artesãos transmitiam o seu saber-fazer e a sua prática religiosa. Todos estes possuíam cativos, cujos filhos eram integrados na sociedade mandiga. As populações submetidas, os cativos e muitos homens livres eram progressivamente influenciados pelo modelo sociocultural mandiga, chamado processo de “mandinguização” pelos Portugueses.
Após a desintegração do Império de Mali, nos séculos XV e XVI, as dezenas de Estados mandigas da região da Guiné-Bissau tornaram-se uma federação separada dirigida pelos Mansas escolhidos entre os clãs das famílias Sane e Mané dos Estados de Sama, Jimara et Pachana”.[1]    



[1] Extraído no livro do Professor Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 67,68 e 69). 

Os Mandingas: Origem Étnica e Etimologia do Etnónimo Mandiga


Os Mandingas, agricultores-criadores de gado e comerciantes, vieram do Niger Superior. Foram quase totalmente islamizados com exceção do reduto dos Soninkés[1] na região de Oio. Ameal defende que os mandingas de Farim são soninkés posteriormente mestiçados com Núbios e Etíopes. Eles chamam-se Mandikó-lu (Mandinkó, Mandingó). Este etnónimo está filiado ao de Malinké ou Mandinké, nomes formados de Mali (Mandên) e nké “homem”, “pessoa”, “habitante”. Segundo André Arcin, a grande família Mandé à qual pertencem os Mandigas, incluía muitas populações reagrupadas em dois clãs: um que vivia na época pré-histórica sob protecção do Totem Ma e o outro que estava sob a protecção do Totem So. O povo do clã Ma ter-se-ia instalado no sul e teria participado na criação do Império do Mali. Os do clãs So, ao norte, seriam os Soninkés (So + nkeo = pessoas do clã So), fundadores do Império do Gana. 

Delafosse fala do grupo Mandé, dos quais os Mandigas e os Malinké constituem as subdivisões. De entre os numerosos  estudos linguísticos sobre este grupo, citamos o Homburger que associa à língua Mandé, os Bozos, Bambaras, Malinkés, os Djolas, os Cassangas e os Soninkes. Para S. Wilson, na Guiné-Bissau fazem parte deste grupo os Mandigas, os Jacandas, os bambaras, os Sossos e os Saracolés. 

Mantemos as primeiras referências sobre o Mandigas da actual Guiné-Bissau, de Diogo Gomes e mais tarde de Duarte Pacheco Pereira e de André Alvares de Almada (1594). Após a leitura dos testemunhos de Coelho e Almada, Artur Augusto da Silva situa em meados do século XV, a presença dos Mandingas na região situada entre a margem sul do rio Gâmbia e a terra de Guinala, junto das quedas de Corubal. Referindo-se à tradição oral, George Brooks relata que  os membros do clã Fati seriam o primeiro grupo de língua Mandé a chegar ao alto do rio Gâmbia. Ainda de acordo com as mesmas fontes, os do clã Sane teriam descido a partir do nordeste em direcção ao que é hoje a Guiné-Bissau, fixando-se em Muru, perto de Badiar, em Kitchara, perto de Kade e em Bassung, a montante do rio Geba, na região Biafada chamada Degola. 

Quando chegaram os portugueses, os Mandigas exerciam o seu domínio sobre a maior parte da região, da Gâmbia a Geba, e estavam organizados em vários reinos: Cantor, Niani, Uli, Cabu e Brasso. O rei de Cabu (que se tornou Gabú) tinha colocado em “vassalagem” as populações Balantas, Biafadas, e regiões inteiras (Maná, Tumaná, Propana, Chanha, etc). Foi com a revolta dos Fulas[2], e com a chegada de outros grupos Fulas de Fouta Djallon  que vieram libertar os seus primos, que a hegemonia Mandiga terminou. Gabú  foi posto sob a dependência de Labé e os Mandigas submetidos ao reiuno Fula. 

De acordo  com Ameal, os Mandigas consideram os Balantas, os Brames e os Biafadas como seus parentes próximos. A partir do século XVI, os Balantas, os Soninkés, os Brames, os Floup, os Baiotes, os Cassangas e os Banhuns sofreram a influência Mandiga. Estes últimos conseguiram subjugar e assimilar uma parte destas etnias e a empurrar a parte “rebelde” para as costas do litoral

(Extraído no livro do Professor Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 66 e 67).  




[1] Os Sonínkes, chamados Saracolés pelos Europeus, são uma população que habita na região situada entre a Casamança e o rio Farim e que sofreu a “mandinguização”, isto é, completamente assimilada pelos Mandigas. É comummente admitido que, etnicamente, os Soninkés fazem parte do grupo mandé. Segundo José M. de Braga Dias, eles nomeiam-se também Oincas ou Mandigas de Oio.    
[2] Estabelecidos no Gabú a leste e em Farim ao norte, os Mandigas assistiram à invasão Pacífica dos Fulas que, chegando pelo Gabú, aí se instalaram, pagando um tributo aos Mandigas. As rivalidades entre os dois grupos estão na base de batalha muito mortíferas das quais as mais importantes são Bere-Colon em 1850, o ataque de Gan-Salá, feudo dos Soninkés, tributários dos Mandigas a 19 de maio de 1864 pelos Fulas revoltados e a derrota dos Mandigas na batalha de Turu-Bã (1866). Turu-Bã é uma expressão que significa “acabada a semente” alusão feita ao número de Mandigas mortos, tal ponto que já não poderão recuperar a sua antiga hegemonia. 

Formas de Crenças Comuns aos Manjacos-Balantas-Brames-Papel


«Existem algumas semelhanças de costumes procedentes do imaginário e da superstição entre os Balantas, os Manjacos e os Mancanhas no que diz respeito às proibições e à conduta de uma mulher grávida e dos recém-nascidos. Carreira relata-nos algumas: 

– É formalmente interdito a uma mulher grávida comer carne de animais como macacos ou o tamanduá (timba ou urso-formigueiro). Proibição de se aproximar ou de tocar em indivíduos anormais ou portadores de anomalias congénitas (estrábicos, corcundas, lábio leporino, albinos, “dente de riba”) ou qualquer outro caso de “monstruosidade”. Existe uma crença segundo a qual a não-observância destas proibições pode provocar a transmissão mágica destes defeitos à criança[1]. É o que se chama em crioulo Náli. Esta crença está profundamente enraizada nos costumes destas populações. Assim, pode acontecer que o nascimento de um filho mestiço depois de um adultério com um branco seja justificado por este fenómeno. 

A mulher dirá que o branco estigmatizou (y Náli) o seu filho porque, a um dado momento, ela ter-se-ia aproximado demasiado dele ou tê-lo-ia olhado com demasiada insistência.  Chama-se Fidjo Nálido, o resultado de uma vingança ou de feiticeira. 

 Interdição de manter relações sexuais desde o início da gravidez até ao final do período de aleitamento. 

 Interdição às mulheres grávidas de executar os trabalhos difíceis e penosos. 

– Interdição às mulheres estéreis casadas ou que tiveram dificuldades em engravidar, às raparigas que se casam tarde, de adoptar e de transportar nas costas, como se faz com os bebés, o fidjo do osso (trata-se de um osso da tíbia de bovídeos, vestido e ornamentado de jóias). Segundo a tradição, esta prática tem por objectivo permitir que as filhas solteiras encontrem um marido e que as mulheres estéreis tenham um filho. (…) A cerimónia ritual de adopção realiza-se junto dos irãs da fecundação ou no decorrer do ritual de Kabol. Estes bonecos-amuletos são de tal modo levados a sério que os Manjacos e os Mancanhas os chamam de Napâte (“filho”). Não fazem distinção ao nível simbólico entre estas pseudocrianças e crianças autênticas».  

(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 56 e 57).



[1] Antigamente estas comunidades praticavam o ritual do infanticídio sobre as crianças “anormais”. Para eles, antes que a criança aprenda a comer e a falar, não pode ter um nome. Na verdade, ele não é considerado como uma pessoa, mas como um Anjo; é suscetível de desaparecer a qualquer momento, vítima dos feiticeiros. A taxa de mortalidade infantil muito elevada, sem explicação lógica, tinha acabado por desenvolver no imaginário destes grupos superstição inultrapassáveis: os «espíritos do mal», os «os maus-olhados», os feiticeiros faziam dos bebés vítimas designadas e “comiam-nos” com muita facilidade. Estes inocentes não podem defender-se contra as acções destes espíritos. Por esta razão, os recém-nascidos não podem ter nomes próprios, porque se tivessem um nome, seriam expostos e facilmente detetados e “comidos” por estes demónios.  Então, o único meios de os dissimular e de os subtrair à cobiça destas forças do mal é chamar a criança pelo nome de “criança”. Napate, Napote, Pate, Patu, Potu, Pondu, etc.  o período de aleitamento termina quando o bebé aprende a andar, a falar e a comer normalmente. Isto pode durar 2-4 anos em conformidade com os resultados de todas as cerimónias mágicas. É unicamente a partir deste momento que eles consideram que a criança ultrapassou todos estes perigos e que a cerimónia do Kabol (ritual protetor dos menores) pode ocorrer. 

Génesis e Etimologia da Etnia Manjaca


«O etnónimo manjaco é uma outra designação usada desde o século XVIII por Beaver para falar dos Buramos (Brames, Berames, Mancanhas) ou Pepeis. Ameal relata-nos que os interessados se chamam a si próprios Bandjaku (Nandjaku). A outra expressão é a de Má-Djaco e Indji-Djaco, composta por três partículas: Mã “eu”, “nós”, Dja “dizer” (de Pe-Djá) e Ko (Có) “partícula afirmativa”. Assim, os grupos que ocupavam as regiões de Cacheu, Churo, Bianga, Jol, Pantufã e a ilha de Bissau conservam o etnónimo Papel; os de Bula e Cô tornam-se Brame ou Mancanha  e os habitantes da parte central do território, as ilhas de Pecixe e Jeta  (Ilheta) são chamados Manjacos. Bocandé faz referência em 1849 aos “Pepeis da Costa Baixa ou Bassarel e Manjacos” cuja região seria dividida em Bassarel e Baboc. Carreira cita uma passagem do estudo de Bocandé (1849) falando dos Manjacos como pessoas que “(…) se colocam ao serviço de todas as nações que fazem comércio na costa ocidental da África. Eles servem como marinheiros em todas as embarcações. Primeiro empregados pelos portugueses, eles aprendem a sua língua, o que os faz serem considerados portugueses nas colónias francesas e inglesas. São chamados de Manjacos porque, ao conversar na língua da sua região, repetem muitas vezes a palavra “Manjagó” que significa: “Diga” ou “Eu digo”. 

J. Ameal defende que os Manjacos são o resultado de uma mestiçagem entre os Pepeis e Brames, ou mesmo com os Floup e Biafadas. Como em muitos outros casos, a utilização deste etnónimo generalizou-se na Guiné Portuguesa. Carlos Lopes vê nesta divisão dos Brames “…um dos melhores exemplos da utilização da etnicidade pelo colonislismo que conseguiu classificar estas populações sob diferentes etnónimos emprestando-lhes particularidades artificiais que eles acabaram por aceitar como factos.» 


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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 55 e 56). 

A Organização Socio-Política da Etnia Bijagó


«A organização política dos Bijagós é baseada numa estrutura que conta com quatro clãs: Ominga ou Etchongara, Ogubane ou Ondjôcomo, Orraga, Djagra e Orrakuma ou Batabis. Estes clãs têm todos igual importância. A única nuance reside no facto de descenderem da linhagem dos dona de chão, aqueles que a tradição considera como os primeiros habitantes da ilha. A direção de cada clã cabe a uma mulher, a Oquinka, que exerce ao mesmo tempo as funções de sacerdotisa, como já foi mencionado. A instituição real é muito recente entre os Bijagós e determina-se segundo a linhagem que, ela própria, se determina por via uterina. Por outras palavras, ela é “matriclã” em exclusão do parentesco paternal. A escolha e a entronização dos Reis é da competência do “Conselho dos Anciãos” dos quais ele é o principal auxiliar. Devido ao direito consuetudinário bijagó, aconteceu várias vezes que, após a morte do rei, não tivesse sido possível encontrar um sucessor. Nestes casos é a Oquinka que toma o poder. Foi desta forma que apareceram as “rainhas” D. Aurélia Correia, Pampa de Orango e D. Juliana. Estas personalidades eram apenas rainhas provisórias porque o direito consuetudinário bijagó não permite às mulheres ocupar o trono real. 

Esta organização político-administrativa bijagó permaneceu por muito tempo não reconhecida pelas autoridades coloniais portuguesas que continuavam a apresentar, nos documentos oficiais, os reis de Canhabaque e de Orango como simples chefes de aldeias. Este reconhecimento ocorre mais tarde, mas as autoridades administrativas nomeiam por seu lado “chefes administrativos”. Estes chefes fazem figura de fantoches e tornam-se muitas vezes os porta-vozes dos chefes legítimos. Além, do mais, o poder colonial tinha dificuldades em encontrar Bijagós dispostos a desempenhar essas funções». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 51). 

Um Dia, Uma Fotografia


Eu e o meu queridíssimo sobrinho Reginaldo Sá Vieira (“Regi”) na histórica cidade de Múnster, Alemanha, num dos emblemáticos lugares onde foi assinado o afamado “Tratado de Vestefália” que pôs termo à ferrenha guerra dos trinta anos na Europa. Tive a grata oportunidade de explicar cuidadosamente ao meu sobrinho as implicações políticas que isto teve na coesão, pacificação e afirmação do Velho Continente nos anos subsequentes. 

Génesis e Etimologia do Etnónimo Bijagó


«Os Bijagós habitam no arquipélago com o mesmo nome, cuja denominação mais antiga é a das ilhas de Buam, assinalado na cartografia antiga a partir do século XV. Na sua língua, eles chamam-se Bidjigó (Odjógó, Odjokó), o que designa uma pessoa que possui duas dezenas de dedos, ou seja, uma pessoa inteira. De acordo com Carreira, o etnónimo Bidjógô, Budjógô em crioulo, seria derivado do termo Odjógô. Luís Álvares de Almada fala de Bigichos, termo que Dinis Dias retoma em Budjago ou Bidjágo e que ele afilia ao nome atual desta população. 

A origem dos Bijagós ainda hoje é muito controversa. Confrontam-se duas versões: uma mais antiga, apoia uma origem a partir do continente, de onde eles teriam sido expulsos pelos Biafadas (Francisco de Lemos Coelho [1943] e Domingos António Gomes) enquanto a outra versão vê neles os parentes próximos dos Biafadas ou dos Nalus (João Faria Leitão). Segundo o etnólogo Marcelino Marques de Barros, os Bijagós são o resultado da mestiçagem entre três grupos: 1) os Papeis de Bissau, instalados na ilha de Entoman ou Entomak (a “ilha dos suicídios”); 2) os escravos de origem diversa e 3) os Biafadas de Guínala. António Carreira parte da hipótese de uma origem do Fouta Djalon, de onde os Bijagós teriam fugido por razões políticas. Existem várias hipóteses, difíceis de verificar, em relação ao povoamento do conjunto do arquipélago. Adolf Ramos afirma que a população do Orango Grande é aparentada com a dos Pepeis de Bandim (um território de Bissau). A população das ilhas da Formosa e de Uno teria vindo do Orango Grande; a das Ilhas Eguba e Uracane de Uno e Orango; as ilhas de Ponta e de Maio seriam povoadas por povos da ilhas de Carache e Caravela, enviados pelos seus chefes (Carreira); os originários da ilha de Canhabaque são supostos serem parentes dos Tandas, que os fulas e os Biafadas teriam repelido para esta ilha. Tudo isto ilustra a extrema dificuldade em determinar a verdadeira origem dos Bijagós que, aliás, se consideram a eles próprios como Xangani (raça mista). 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 50). 

A Organização Socio-Política da Etnia Balanta


«Nos Balantas, o parentesco é geralmente de tipo patrilinear. As famílias reagrupam-se por aldeias independentes em si, mas com laços de solidariedade étnica muito fortes face ao estrangeiro. Em geral, a sua sociedade não conhece o sistema de castas é está organizada com base nas aldeias. As aldeias são lideradas por um “chefe”, que exerce ao mesmo tempo funções religiosas. Ele dirige os sacrifícios, apresenta as oferendas aos deuses. O seu poder emana do Conselho dos Anciãos e é investido do poder de impor penas aos que se tornaram culpados de alguns crimes. As sanções mais comuns são a flagelação e a bastonada. Com excepção das parcelas de terra familiares, o conjunto das terras não cultivadas, os pântanos e as marés são uma propriedade coletiva. Cada família possui um campo e concessões para construir a sua habitação. O chefe da aldeia não possui nenhum domínio pessoal fora do seu grupo familiar. 

Em geral, os Balantas são polígamos. No entanto, a esposa não é totalmente submissa e sujeita às vontades do marido, como é o caso nas sociedades islamizadas (Fulas e Mandigas). No plano das sucessões, após a morte do pai, a tutela dos filhos é assegurada por um dos membros da sua família que exerce a sua função até o casamento dos seus pupilos.  Se o defunto não deixa descendentes, os seus bens regressam por ordem de prioridade à sua mãe, aos seus irmãos, aos seus sobrinhos e ao seu pai. A mulher nunca herda os bens do seu marido e vice-versa. Os seus bens retornam aos seus filhos ou à sua família de origem. Os herdeiros tomam posse dos bens que lhes são devolvidos e pagam as dívidas do defunto. 

Por mais curioso que possa parecer, os roubos e as rapinas são valorizados entre os Balantas e simbolizam a coragem, a inteligência e a habilidade. Os mais eficazes são muito apreciados e uma vez que se tornem mestres na arte de roubar sem serem apanhados, recebem crianças para instrução. Do ponto de vista da organização política, os Balantas vivem numa sociedade sem Estado, sem regulados e sem hierarquia social. É o que Cabral chamava de “sociedade de estrutura horizontal”.». 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 46). 

Génesis e Etimologia da Etnia Balanta


“Os balantas constituíram até recentemente o grupo étnico maioritário na Guiné-Bissau (24 % da população) […]. Existem várias versões e lendas sobre a origem dos Balantas. Pélissier defende firmemente que os Balantas são da origem sudanesa. Ele acredita que a ramificação brassa da Guiné-Bissau aprendeu as técnicas da rizicultura inundada ao chegarem às margens dos estuários da costa e, provavelmente, aprendendo com as populações anteriores estabelecidas nas margens dos “Rios do Sul”. (…). 

Esta tese não está em conformidade com as tradições orais de diversos grupos étnicos da região sobre a origem dos Balantas. Trata-se de uma origem que ainda é confusa. Existem várias versões históricas. De acordo com a sua própria tradição oral, assim como a dos Mandigas, os Balantas seriam Soninkés provenientes do Manden no século XIII com o lendário Sundiata Keita, aquando do seu retiro em Cabu. É então que uma parte dos guerreiros, cansados das guerras sangrentas conduzidas pelo seu chefe, optam por estabelecer em Cabu. Este grupo pertence à ramificação dos Mané, foi denominado Balanto. No final do século XV, o chefe fula vindo de Macina, denominado Koli Tenguela, tê-los-ia empurrado para a costa. Na verdade, outra versão afirma que os Balantas faziam parte do exército deste mesmo Koli Tanguela. Cansados das expedições impostas pelo seu conquistador Fula, eles teriam recusado segui-lo e teriam vindo instalar-se perto da aldeia de Bigéne (Guiné-Bissau). Finalmente, outra lenda descreve os Balantas como antigos cativos dos Fulas de Fouta Djallon, que vieram para a Guiné-Bissau para se entregarem à agricultura e à colheita de produtos florestais. Achando o país agradável, eles ter-se-iam recusado a voltar ao Fouta. A própria origem da palavra Balanta é controversa. De acordo com os Mandigas ou Malinkés, etimologicamente, o termo Balanto significa “aquele que se recusa; um renegado”: balan = “recusa”. Daí Balantakunda “entre aqueles que recusaram”. Para uns, é a recusa de seguir os exércitos de Koli Tenguela ou de deixar o seu país de adopção. Para outros, é a recusa de se converter ao Islão. 

A etnia Balanta é composta por cinco subgrupos: (1) os Balanta-Mané são aqueles que sofreram a influência dos Mandigas ou que foram “mandinguizados”; (2) Mansoancas –  habitantes de Mansoa –  de acordo com João Ameal, os Mansoancas ou Cunantes resultariam de um cruzamento entre os Oincas [d`Oio+nKa] e os Balantas Fora; (3) os Balantas brabo (bravos) ou de dentro – Brabo ou Bravo significa bravo, selvagem. Os Portugueses chamaram-nos desta maneira porque eles eram hostis a qualquer contacto; (4) Os Balantas manso ou de fora – Balanta manso significa dócil, pacifico. Este nome resulta do facto que este grupo era mais permeável aos contactos com os Portugueses. No entanto, o sucessor do Governador Biker, Alfredo Cardoso Soveral Martins [Julho 1903-Abril 1904] escreve a respeito dos Balantas que estes estão divididos em duas categorias para a administração: os mansos e os bravos. «Os mansos são aqueles que nos desprezam, e os bravos são aqueles que nos odeiam; (5) os Balantas Naga”. 

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(Tcherno Djaló, in O Mestiço e o Poder [Identidades, Dominações e Resistências na Guiné-Bissau], Veja, 2012, Lisboa, p. 45 e 46). 

Dono de Opinião


Um iconoclasta que todos os guineenses deveriam ler (ALI) e (AQUI), sem prejuízo de cada um depois formular a sua elucidada opinião sobre as implicações práticas da luta de libertação nacional. O Historiador Mário Sissoko não tem papas na língua. Fala abertamente e com propriedade que, em termos objectivos, não se encontra paralelismo no país. Desvenda, de forma intrépida, a putrefação do PAIGC e do seu "querido líder" Amílcar Lopes Cabral (VER). Um testemunho vivo da hedionda luta colonial. Diz coisas que a generalidade dos conterrâneos não está preparada para ouvir, tendo em conta a ignorância e o fanatismo exacerbado que grassa ainda no seio do nosso marginalizado povo. 

Recomendo a leitura das entrevistas. Vale a pena mesmo atentar pelos seus conteúdos. Tenha um bom proveito. 

A Barbárie Humana


«O sangue e a destruição serão tão banais
E os objectos terríveis tão familiares
Que as mães não poderão deixar de sorrir quando virem
Os seus filhinhos esquartejados por mãos guerreiras,
Toda a piedade abafada pela rotina das proezas cruéis.» 

(Shakespeare, Júlio César, III, i, 265-72, citado por Robert Fisk, in A Grande Guerra pela Civilização [A Conquista do Médio Oriente], Edições 70, Lisboa, 2009, p. 515). 


Na minha recente estadia na cidade de Munique, Alemanha, tive a oportunidade de visitar o Campo de Concentração de Dachau para inteirar melhor da desumanidade cometida pelo regime Nazi no período da Segunda Guerra Mundial (LER). Foi, de facto, um terrível reencontro com a História. Fiquei extremamente chocado durante toda a visita que efectuei nas macabras instalações e concomitantemente o que constatei in loco. Apesar de ter estudado exaustivamente sobre os gigantescos danos da Segunda Guerra Mundial e lendo ainda hoje muitos livros, bem como vendo séries, documentários, filmes que relatam sobre os contornos e implicações práticas que a referida guerra teve para a Humanidade, contudo, em abono da verdade, nunca tinha tido uma percepção holística da brutalidade cometida pelos Nazis ao longo da maldita Guerra. Foi mesmo um despertar da consciência para a tenebrosa realidade. Pude, ali mesmo, compreender o horrível cenário a que muitos presos foram inofensivamente submetidos. 

No Campo de Concentração de Dachau, à semelhança de tantos outros Campos espalhados pela Europa fora, está tudo registado e patente ao olho nu dos visitantes (LER). Os prisioneiros foram reduzidos a nada. Literalmente nada. Em consequência disso, exterminaram-nos por aquilo que são. A começar, desde logo, por execuções sumarias, genocídios em massa, limpezas étnicas e religiosas. Um autêntico Holocausto de inocentes. Tudo feito em nome da inquestionável ideologia que se inspirava na hegemonia da raça ariana sobre as demais e o ódio declarado ao povo Judeu. 

Na visita ao Campo de Dachau podemos constatar as dependências onde os prisioneiros eram mantidos cativos, os banheiros, a prisão, as celas, o crematório e também a câmara de gás. Segundo consta, a câmara de gás de Dachau não chegou a ser usada. Ali era manifesta a vil insensibilidade humana a todos os níveis – as pessoas que sofreram grosseiras injustiças, os inocentes que foram humilhados, o silêncio dos que foram discriminados pelo facto de serem como são. Todos condenados por um juízo arbitrário e tirânico, sem terem cometido qualquer tipo de delito que lhes incriminassem. Os mais vitimados dessa chacina sem precedentes foram os judeus, polacos, soldados soviéticos, ciganos, homossexuais, pessoas portadoras de deficiência, Cristãos de várias denominações e alguns opositores do regime vigente. Antes de serem assassinados, a maioria foi submetida a várias experiências degradantes e os que conseguiram resistir acabavam posteriormente por serem mortos. 

Calcula-se que tenham morrido no referido Campo de Concentração, desde a sua criação em 1933, mais 40.000 pessoas. E tudo indica que este número peca por defeito relativamente às mortes que realmente aconteceram, uma vez que muitos defuntos não foram contabilizados nos dados oficiais. Perante todo este pesaroso cenário que vivi por algumas horas no Campo de Concentração de Dachau fez-me pensar seriamente na miséria e precariedade da vida, sobretudo na crueldade que o ser humano é capaz de praticar. Lembrei-me de inúmeros outros casos semelhantes ao longo da História, que culminaram na morte de inúmeros inocentes, tudo por conta de ideologias utópicas e luta insaciável pelo efémero poder. Confirma-se, assim, a máxima de Thomas Hobbes, teorizada no séc. XVI, que afirmava peremptoriamente “o homem é o lobo do homem”. Este postulado é, sem dúvida, verdadeiro. O mundo, como dizia Einstein, “é um lugar perigoso para se viver”. Senti-me muito mal com tudo o que ouvia e observava à minha volta. E matutava comigo próprio: como é possível acontecer tamanha barbárie durante uma década, sem que ninguém fizesse nada para reverter este quadro macabro? A culpa não é apenas daqueles que cometeram tais atrocidades, mas igualmente dos que podiam e nada fizeram para inverter esta funesta situação. 

Ainda na mesma localidade visitei primeiramente a Sinagoga Judaica, a Igreja Católica, dirigindo-me em seguida à pequena Igreja Evangélica situada igualmente no mesmo lugar, remetendo-me num profundo silêncio. Silêncio que se traduzia numa conversa a sós com o meu Eterno DEUS. Orei pela Paz e Concórdia no Mundo, mormente que o SENHOR derrame a Sua Maravilhosa Graça sobre os homens e mulheres que tanto carecem do Seu incondicional Amor, Paz e Perdão. Por fim, deixei um registo num dos cadernos destinados para o efeito mais ou menos nestes termos: «DEUS perdoa-lhes porque não sabiam o que faziam. Receba no Vosso Reino as almas que aqui foram injustamente exterminadas. Térsio Vieira, Guiné-Bissau, 23 de Dezembro de 2014». 

Espero, com a ajuda de DEUS, que jamais o nosso Mundo globalizado tenha de passar por hedionda crueldade, tal como a de um genocídio em razão da raça, sexo, religião, orientação sexual e diferenças ideológicas. Que a Humanidade, no seu todo, tenha a capacidade suficiente de unir e envidar esforços para erradicar qualquer tipo de mundividências extremistas que ponham em causa a sobrevivência da Espécie Humana e os Direitos Fundamentais que lhe são inerentes. Never Again!