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Segregação Cultural e o Seu Reflexo no Sistema Educacional


Comemora-se “O Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial”. Partilho aqui, a propósito do tema em apreço, a parcela da minha intervenção há dois anos como um dos oradores convidados na conferência organizada pelo Núcleo de Estudantes Africanos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (NEAFDL), intitulada “A Segregação Cultural: Seu Reflexo no Sistema Educacional”. Nela procurei humildemente fazer um diagnóstico apurado sobre as raízes e causas da discriminação racial, através de um enquadramento histórico-político, bem como apresentando concomitantemente antídotos necessários para mitigá-las na convivência dos humanos. Tenham um bom proveito. 

A Segregação Cultural: Seu Reflexo no Sistema Educacional

Estive ontem na minha Escola, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), a participar como um dos oradores na conferência intitulada “Discriminação Racial”, juntamente com o Professor Doutor Eduardo Vera-Cruz Pinto, a Historiadora Joacine Katar Moreira, o Activista Yussef, a Jornalista Conceição Queiroz e o Dirigente Associativo José Falcão, organizada pelo Núcleo de Estudantes Africanos do mesmo estabelecimento de ensino. 

Na minha intervenção, que incidiu sobre “A Segregação Cultural: Seu Reflexo no Sistema Educacional”, procurei humildemente fazer um enquadramento histórico, político, filosófico e social do racismo para depois distanciar-me completamente das teses classicistas apregoadas em torno do racismo (OUVIR)

O racismo, a meu ver, é um cancro transversal à natureza humana. Há racismo do branco para com o negro e vice-versa. Também paradoxalmente há racismo do branco para o branco, assim como do negro para o negro. Tal como formulava Tocqueville, na mesma esteira do pensamento, para vincar esta inequívoca verdade antropológica, “há um preconceito natural que leva o homem a desprezar aquele que foi seu inferior ainda muito depois de este se tornar seu igual; à desigualdade real criada pela fortuna ou pela lei sucede sempre uma desigualdade imaginária com raízes nos costumes”. Só que, em abono da verdade, os negros acaba(ra)m por sofrer mais com os seus perniciosos efeitos comparativamente às pessoas de outras etnias, por serem o elo mais fraco em toda esta dinâmica da convivência humano-social. 

Os afros e os negros em geral para realmente se libertarem do leviatã do racismo – tanto estatal como social e/ou individual – precisam de continuar a apostar seriamente na educação e qualificação para, deste modo, chegarem à proeminência nos círculos da sua convivência diária. Serem bons cidadãos, bons estudantes, bons académicos e bons profissionais. Procurar sempre a excelência naquilo que estão a fazer ou são incumbidos a fazer. Este é o antidoto mais eficaz para vencer o racismo (LER)

Até lá, apropriando-me das sugestivas palavras do Presidente Nelson Mandela, precisamos percorrer ainda um longo caminho para a liberdade plena.

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (4)

“Acho que uma das grandes angústias da vida reside no facto de estarmos sempre a tentar terminar aquilo que não tem termo. Temos ordens para fazê-lo. Por isso nós, tal como David, nos vemos tantas vezes na situação de ter de enfrentar o facto de os nossos sonhos ficarem por realizar. A Vida é uma história contínua de sonhos destruídos. O Mahatma Gandhi trabalhou anos e anos pela independência do seu povo. Mas Gandhi teve de encarar o facto de ser assassinado e morrer com o coração despedaçado, porque aquela nação que ele queria unir acabou por ser dividida entre a Índia e o Paquistão em consequência de uma guerra entre Hindus e Muçulmanos. 

Woodrow Wilson teve o sonho de fazer uma Liga das Nações, mas morreu antes de ver o sonho concretizado. O Apóstolo Paulo falou um dia no seu desejo de ir para Espanha. O maior sonho de Paulo era ir para Espanha, levar até lá o Evangelho. Paulo nunca chegou a Espanha. Acabou numa cela de prisão em Roma. É assim a vida. Foram muitos os nossos antepassados que cantaram a liberdade. E que sonharam com o dia em que conseguiriam libertar-se do bojo da escravatura, da longa noite da injustiça. E cantavam pequenas canções: «Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus.»  Pensavam num dia melhor enquanto sonhavam o seu sonho. E diziam: «Estou tão feliz por o sofrimento não durar para sempre. A pouco e pouco, a pouco e pouco vou libertar-me da minha pesada carga.» E cantavam esta canção porque tinham tido um sonho muito forte. Mas muitos morreram sem ver o sonho realizado”[1]


[1] Palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 389, 390, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (3)

“Saí esta manhã de Atlanta, e quando íamos a levantar o voo – éramos seis – o piloto disse pelo altifalante: «Pedimos desculpa pelo atraso, mas temos connosco no avião o Dr. Martin Luther King. E para ter a certeza de que todas as bagagens eram inspeccionadas e de que estava tudo bem no avião, tivemos de verificar tudo com muito cuidado. E tivemos o avião sob protecção e vigilância durante toda a noite.» Depois cheguei a Memphis. E ouvi falar das ameaças, ou dos rumores de ameaças que andaram no ar, de actos que estariam preparados contra mim por alguns dos nossos irmãos brancos de mente doentia. 

Pois bem, não sei o que vai acontecer agora; temos pela frente dias difíceis. Mas isso para mim já não tem importância, porque já cheguei ao cume da montanha. E não me importo. Como qualquer outra pessoa, gostava de ter uma vida longa – a longevidade é uma coisa boa. Mas agora não estou preocupado com isso. Só quero fazer o que for da vontade de Deus. E Ele permitiu-me subir ao cume da montanha. E olhei de lá de cima e vi a terra prometida. Pode ser que não a alcance convosco. Mas quero que saibais esta noite que o nosso povo há-de alcançar a terra prometida. E eu estou feliz, esta noite. Não estou preocupado com nada. Não estou com medo de ninguém. Os meus olhos viram a glória da chegada do Senhor.[1]


[1] Últimas palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 398, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Luther King inspirou-se, nestas suas últimas palavras, no legado do Patriarca Moisés que subiu ao cume das campinas de Moabe ao monte Nebo, ao cume de Pisga, que está defronte de Jericó para vislumbrar a Terra Prometida – depois de ter liderado abnegadamente o povo de DEUS no deserto por aproximadamente quarenta anos. Viu a Terra Prometida, mas não chegou de entrar nela.  Assim, diz as Sagradas Escrituras, “morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme o dito do Senhor” (…) E os filhos de Israel prantearam a Moisés trinta dias, nas campinas de Moabe; e os dias do pranto do luto de Moisés se cumpriram” (Deuteronómio 34:1-8).

A Terra Prometida que Luther King vislumbrou, antes de dar o encontro definitivo com o Seu Salvador Jesus Cristo, é a mesma Terra Prometida que Obama procurou, de forma um pouco desconfigurada, desvendar no seu recente livro A Terra Prometida (que já estou a ler). 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (2)


 “(…) Sim, se quiserdes dizer que eu fui um chefe da banda, dizei que fui um chefe da banda de justiça. Dizei que fui chefe da banda da paz. Fui um chefe da banda da rectidão. E tudo o resto, as outras coisas comezinhas, não conta. Não terei dinheiro para deixar em herança. Não terei as coisas valiosas nem os luxos da vida para deixar em herança. A única coisa que quero deixar em herança é uma vida de militância. E era só isto que vos queria dizer. 

Desde que possa ajudar alguém por quem passo, desde que possa animar alguém com uma palavra ou um cântico, desde que possa mostrar a alguém o caminho que deve seguir, a minha vida não terá sido em vão. Desde que possa cumprir o meu dever de cristão, desde que possa trazer a salvação ao mundo, desde que possa espalhar a mensagem que o meu mestre me ensinou como lição, a minha vida não terá sido em vão.[1]”.


[1] Últimas palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 399, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Porque é que São os Negros a Sofrerem Mais Com o Racismo?



Porque é que São os Negros a Sofrerem Mais Com o Racismo? É a pertinente questão que procurei responder neste brevíssimo vídeo. Para ter uma visão mais abrangente e completa sobre o tema em questão, pode visualizar este meu vídeo sobre “A Origem do Racismo e Como Combatê-lo” (LER), bem como o artigo intitulado “O Racismo e da Democracia na América” (LER). Recomendo-os. Tenha um bom proveito. Obrigado. 

Antídotos Contra o Preconceito

O preconceito é um vírus malévolo a todos os níveis. Ele baseia-se meramente num juízo temerário, precipitado, infundado e equivocado. Tem o poder de repelir qualquer tipo de interacção, bloquear oportunidades de relacionamentos, odiar sem fundamentos tangíveis e, em casos extremos, destruir vidas, tal como a experiência milenar nos tem indubitavelmente demonstrado. O preconceito é um cancro social que, em última instância, evidencia o carácter patológico da própria pessoa preconceituosa. É julgar arbitrariamente as pessoas por critérios errados. Por isso, é uma das melhores vias para consumar o pecado, pois baseia-se meramente na soberba, na desconsideração e na inferiorização do outro – por razões socialmente estereotipadas, desdobrando-se nas discriminações raciais, religiosas, políticas, condições financeiras e estrato social. É um mundo interminável de malignidade, razão pela qual é manifestamente incongruente com os impolutos pressupostos valorativos da Fé Cristã. 

O Senhor Jesus Cristo foi, por todos os seres humanos, a maior vítima do preconceito – tanto racial, religiosa e social – por causa do seu aspecto físico que não tinha qualquer tipo de atractivo aos olhos humanos (Isaías 53:2-3). Um “verme”, nas palavras do salmista, “desprezado por todos e escarnecido” (Salmo 26:7). Em consequência disso, foi exposto ao opróbrio dos homens e duramente contrariado pelos pecadores (Hebreus 12:2-3), teimando este preconceito até aos nossos dias pós-modernos, isto é, a rejeição liminar da Sua soteriológica mensagem perante os filhos da perdição, que “ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” (Isaías 5:20)

Ora, nenhum destes preconceitos e abominações devem fazer parte do cardápio de um devoto Cristão. Somos todos convocados a amar o nosso próximo como a nós mesmos, independentemente da sua raça, condição social e proveniência (Levítico 19:18; Mateus 29:39). Tratar todos por igual e sem fazer discriminação negativa de pessoas (Tiago 2: 1-13). Por outras palavras, é viver autenticamente o amor Cristão na sua plenitude e várias dimensões humano-espirituais, tal como instam as Escrituras Sagradas. 

Tal nobre propósito, no entanto, só se torna exequível incorporando diariamente os imaculados Princípios e Valores do Evangelho. O Evangelho, tal como escrevia peremptoriamente o Apóstolo Paulo, “é o poder de Deus para salvar todos os que creem” (Romanos 1:16-17), bem como “é proveitosa para ministrar a verdade, para repreender o mal, para corrigir os erros e para ensinar a maneira certa de viver; a fim de que todo homem de Deus tenha capacidade e pleno preparo para realizar todas as boas acções” (2 Timóteo 3:16-17). Somente o Evangelho do Senhor Jesus Cristo é o único antídoto eficaz para erradicarmos definitivamente o cancro do preconceito no nosso modo de viver. 

E nós, que somos os eleitos filhos de DEUS, temos de pautar a nossa conduta com os frutos dignos de arrependimento, sobretudo com as virtudes do “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, modéstia, autodomínio” (Gálatas 5:22-23), uma vez que contra estas coisas não há lei (condenação, bem entendido). Que assim seja. 

A Origem do Racismo e Como Combatê-lo



Caros leitores, partilho aqui convosco novamente o vídeo que gravei intitulado “A Origem do Racismo e Como Combatê-lo”. Nele fiz um diagnóstico apurado sobre as suas raízes e causas, através de um enquadramento histórico, religioso e político-social, bem como apresentando simultaneamente antídotos necessários para mitigá-lo na convivência do ser humano (LER). Vale a pena ouvir. Tenham um bom proveito. Obrigado. 

O Racismo e Da Democracia na América


A forma mais fidedigna de aferir com precisão os hábitos, costumes e mundividências do povo americano é ler “Da Democracia na América” de Alexis de Tocqueville. É uma obra colossal que dispensa glosas. Nela o célebre autor reduzia sabiamente a peculiaridade civilizacional do povo americano, destacando todas as importantes áreas subjacentes a uma sociedade moderna. Aborda ainda os grandes pilares da democracia participativa, nomeadamente o direito, a igualdade, a liberdade, a segurança, a protecção, a economia e o progresso. É um dos mais reputados livros alguma vez escritos sobre a sociologia dos EUA e um dos mais influentes a nível da filosofia política. Por isso, propomos analisar a questão do racismo e da democracia nos Estados Unidos da América (EUA) com base nele, fazendo concomitantemente as devidas adaptações aos nossos dias coevos. 

Desde logo, o insigne autor francês começa por abordar de forma prolixa a posição das três raças que habitam o território dos Estados Unidos da América (EUA), nomeadamente os índios, os brancos e os negros, considerando que entre homens tão diversos, o segundo que “atrai a atenção, o mais esclarecido, poderoso e feliz é o homem branco, o Europeu, o Homem por excelência; abaixo dele, estão negro e o Índio. O nascimento, a fisionomia, a linguagem e os costumes destas duas raças infortunadas nada têm em comum; só os seus infortúnios se assemelham. Ambas ocupam uma posição igualmente inferior no país onde habitam; ambas experimentam os efeitos da tirania, e embora as suas misérias sejam de ordens diferentes, podem, no entanto, atribuir as suas causas aos mesmos autores”[1]. Isto porque, na sua óptica, a escravidão teve mais impactos devastadores para os negros do que propriamente para os índios, pois “os Índios morreram no mesmo isolamento em que viveram; mas o destino dos negros está, de certo modo, ligado ao dos Europeus”[2]. Por outras palavras, “a opressão subtraiu de uma só vez a quase todos os descendentes dos africanos os privilégios da humanidade! O negro Americano perdeu até as recordações do seu país; já não ouve a língua que os seus antepassados falaram; renegou a sua religião e esqueceu os seus costumes. Deixando, deste modo, de pertencer à África, não adquiriu, contudo, nenhum direito aos bens europeus. Parou entre as duas sociedades, permanecendo isolado entre dois povos; foi vendido por um e repudiado pelo outro, encontrando em todo o universo apenas o lar do seu amo para lhe dar uma imagem incompleta da sua pátria”[3]. E todas estas desgraças mundanais acabaram por afectar-lhe drasticamente do ponto de vista cognitivo, fazendo com que não sentisse o seu infortúnio, isto é, “a violência fez dele um escravo e a prática da servidão conferiu-lhe pensamentos e ambição de escravo; admira mais os seus tiranos do que os odeia e encontra a sua alegria e o seu orgulho na servil imitação dos que o oprimem”[4]

Se de um lado o negro e o índio foram escravizados pelos brancos, sustentava ainda Tocqueville, “o negro está colocado nos limites extremos da servidão; o Índio nos dá liberdade. A escravatura não produziu efeitos mais funestos para o primeiro do que a independência para o segundo”[5]. Tanto que, por esta razão, tendo em conta os enraizados complexos herdados pela escravatura, “o negro faz mil esforços inúteis para se introduzir na sociedade que o repele; submete-se aos gostos dos seus opressores, adopta as suas opiniões e, ao imitá-los, aspira a confundir-se com eles. Logo que nasce, dizem-lhe que a sua raça é naturalmente inferior à dos brancos e, como não está muito longe de acreditar que tal seja verdade, tem vergonha de si próprio. Em cada uma das suas facetas descobre uma marca de escravatura e, se pudesse, consentiria, com alegria, em repudiar-se inteiramente”[6]

Diferentemente desta patente complexidade do negro americano, o índio “tem a imaginação cheia da suposta nobreza da sua origem. Vive e morre entre os sonhos do seu orgulho. Longe de desejar submeter os seus costumes aos dos brancos, agarra-se à barbárie como a um sinal distintivo da sua raça e repele a civilização, talvez menos por lhe ter do que por medo de se tornar semelhante aos europeus. O negro gostaria de se confundir com o Europeu, mas não consegue. O índio seria capaz de o fazer, até certo ponto, mas desdenha tentá-lo. O servilismo de um entrega-o à escravatura e o orgulho do outro à morte”[7]. O índio jamais se submeteu à escravatura ao passo que o negro se conformou com o seu desventurado destino. Apesar deste conformismo servil do negro, continua a merecer repulsa a todos os níveis por parte dos seus implacáveis opressores. Estes concebem o homem negro como sendo insignificante e indigno. Um “homem que nasce numa classe inferior, a esse estrangeiro que a servidão introduziu entre nós, mal lhe reconhecemos os traços gerais da humanidade. O seu rosto parece-nos horrendo, a sua inteligência limitada, os seus gostos ordinários. Pouco falta para que o consideremos um ser intermédio entre a besta e o homem”[8]

É este o âmago para podermos compreender holisticamente a condição de subalternidade e de reiterada humilhação a que os negros americanos foram e são votados ao longo dos séculos, bem como os conhecidos preconceitos, as discriminações e o racismo estrutural que infelizmente continuam a carregar no seu dia-a-dia perante os brancos. Mesmo depois da abolição total da escravatura em 1865, o homem negro nos EUA continua refém do seu passado de opressão. Mantém-se refém do sistema que lhe veda uma posição de proeminência na sociedade e na res publica. É verdade que a actual Constituição Federal dos Estados Unidos da América (EUA) consagrou o princípio da igualdade entre os cidadãos e a igualdade das oportunidades entres os mesmos, bem como ractificou os direitos fundamentais proclamados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, censurando assim o preconceito, a discriminação, o racismo e a xenofobia, no entanto estas proclamações legislativas não conseguiram erradicar o costume assente que os brancos têm em relação aos negros. “Se a desigualdade criada apenas pela lei é tão difícil de extirpar, como destruir aquela que, para além disso, parece ter os seus fundamentos imutáveis na própria natureza”, questionava peremptoriamente Tocqueville[9]. Há, neste aspecto, um manifesto triunfo do costume para com a Constituição Federal e as Leis da República dos Estados Unidos da América (EUA). 

Tendo em conta as verdades expostas, é importante salientar que o racismo nos Estados Unidos da América (EUA) está bem sedimentado há séculos, através do costume enraizado na sociedade. Ele precedeu à fundação da nacionalidade americana, precedeu as emendas constitucionais que foram posteriormente introduzidas para melhorar a condição de vida dos cidadãos e afirmar o primado da justiça social. Precedeu, da mesma sorte, a abertura da Democracia, razão pela qual será bastante difícil de erradicar definitivamente na sociedade e possivelmente, a nosso ver, julgamos que este desiderato continuará a ser uma miragem nas próximas décadas. 

O racismo é um dos piores cancros que a decadência humana herdou do pecado original. Ele é maléfico a todos os níveis. É atentatório da dignidade e da vida humana. Segrega, discrimina, humilha, oprime e mata. O racismo é contra a religião e, em última instância, um insulto ao Eterno DEUS. “Precisamente porque todos os homens são filhos de Deus  e Cristo  veio para todos salvar, a universalidade dos fundamentos e da mensagem cristã tem como consequência a afirmação de uma regra de igualdade entre todos os homens: tal como São Paulo afirma na sua Epístola aos Gálatas, “não há judeu, nem grego, não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher””[10]. Toda a discriminação racial, escreve ainda inspiradamente o Professor Doutor Paulo Otero, “é profundamente contrária aos postulados cristãos: há uma incompatibilidade axiológica entre cristianismo e racismo – nenhum cristão pode ser racista e nenhum racista se pode dizer cristão”. O racismo é anti-civilização, anti-humano e constitui um enorme perigo para a Humanidade. Por isso, precisa vigorosamente de ser combatido por todos os homens e mulheres de “boa vontade” com as armas da justiça, da moderação, da tolerância, da igualdade e da humanidade. 

E mais, não temos uma visão minimalista sobre o racismo. Não somos daquelas pessoas que entendem que ele é exclusivamente dos brancos para com as demais etnias humanas, inclusive ilibando os negros do racismo. Não, não temos este redutor entendimento. O racismo é um cancro transversal à natureza humana, infelizmente. Há racismo do branco para com o negro e vice-versa. Também, paradoxalmente, há racismo entre o branco para com o branco, bem como do negro para com o negro. Tal como formula Tocqueville, na mesma esteira do pensamento para vincar esta inequívoca verdade antropológica, “há um preconceito natural que leva o homem a desprezar aquele foi seu inferior ainda muito depois de este se tornar seu igual; à desigualdade real criada pela fortuna ou pela lei sucede sempre uma desigualdade imaginária com raízes nos costumes”[11]. Só que, em abono da verdade, os negros acabaram por sofrer mais com os seus perniciosos efeitos comparativamente às pessoas de outras etnias. 

Os afro-americanos e os negros em geral para realmente se libertarem do leviatã do racismo – tanto estatal como social e/ou individual – precisam de continuar a apostar seriamente na educação e qualificação para, deste modo, chegarem à proeminência nos círculos da sua convivência diária. Serem bons cidadãos, bons estudantes e académicos. Bons profissionais e, acima de tudo, “bons samaritanos”. Procurar sempre a excelência naquilo que estão a fazer ou são incumbidos a fazer. Este é o antidoto mais eficaz para vencer o racismo. 

Não obstante estas salutares virtudes que os negros devem impreterivelmente encarnar para derrotar o racismo, é também extremamente importante a afirmação de África no panorama mundial. A começar, desde logo, no âmbito económico-financeiro, científico, cultural, social, desportivo, etc., e consequentemente ganhando influência internacional. Isto porque o racismo normalmente ataca os alicerces da vítima, indo para o âmago da sua origem, identidade e raça. E a “autêntica” identidade de todos os afros espalhados pelo mundo fora é a África. Por isso, independentemente do estatuto social de qualquer afro ou africano na sociedade em que ele está inserido, ele vai continuar sempre a ser objecto de preconceito, discriminação, racismo, uma vez que será sempre, em última instância, associado a marginalizada África. E tal como sabemos, a forma como África e os africanos são vistos no mundo fica muito aquém daquilo que deveria ser. É um continente desprestigiado a todos os níveis, bem como o menos desenvolvido quando comparado com os seus congéneres. Tem as maiores carências económico-financeiras, o que por sua vez vai atraindo toda a sorte de calamidades sociais, nomeadamente o baixo índice de desenvolvimento humano, a malária, a cólera, o VIH, a exclusão social, a exorbitante taxa de analfabetismo, a baixa esperança média de vida dos seus habitantes, a elevada taxa de mortalidade materno-infantil e adulta, o narcotráfico e o sistema corrupto e autoritário que vigora na generalidade dos seus estados membros, o que se traduz em tremendas violações dos Direitos Humanos (LER). Logo, tudo isto, potencia o preconceito, o estereótipo, a desconsideração, o estigma e a discriminação negativa para qualquer africano ou afro no mundo[12]. Logo, o “balão de oxigénio” para aplacar a discriminação e o racismo contra os negros passa, também, por esta via, na afirmação e dignificação do continente africano na arena internacional. Tal proeza fará com que a África e os afros sejam vistos de maneira completamente diferente e bastante positiva por outras etnias. 

De qualquer das maneiras, apesar do retrocesso abismal do continente africano e da pobreza que incorpora e grassa no seu seio, nada justifica qualquer tipo de acto de racismo contra os africanos ou afros ou qualquer outro tipo de etnia. O racismo é puramente estupidez e uma ofensa contra a criação de Deus, uma vez que somos todos feitos à imagem e semelhança Dele (Génesis 1:27)

A democracia nos Estados Unidos da América (EUA), em suma, é toda ela construída com base no preconceito, na discriminação, no abuso, na escravatura e no derramamento de sangue. Está fundamentado, acima de tudo, na supremacia dos brancos em relação aos afro-americanos. Por isso, falta ainda aos Estados Unidos da América (EUA), apropriando-nos das sugestivas palavras do Presidente Nelson Mandela, um longo caminho para a liberdade. É um verdadeiro sonho que ainda fica por realizar, na inspirada formulação do Activista dos Direitos Humanos Martin Luther King Jr.[13].  Um sonho, sem dúvida, que ainda fica por realizar… 


[1] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, Principia, Estoril, 2007, p. 368.
[2] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, p. 391.
[3] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 368.
[4] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 369.
[5] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 370.
[6] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 370.
[7] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 371.
[8] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 393.
[9] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 393.
[10] Cfr. Paulo Otero, Instituições Políticas e Constitucionais, Almedina, Coimbra, 2007, p. 97.
[11] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 392.
[12] Sobre a racialização da pobreza Eduardo Vera-Cruz Pinto, Curso Livre de Ética e Filosofia do Direito, Princípia, Cascais, p. 435 ss.
[13] Frase extraída no último discurso de Martin Luther King Jr. no dia 3 de Abril de 1968, tendo sido assassinado no dia seguinte, citado na sua Autobiografia Eu Tenho Um Sonho, Bizâncio, 2003, p. 389 ss. 

O Fenómeno do Racismo, por Yussef



Caros leitores, mais uma vez, partilho aqui convosco a visão do nosso ilustre Activista Yussef sobre o fenómeno do Racismo. Vale a pena realmente verem. Tenham um bom proveito na auscultação. Obrigado. 

Objecção de Consciência


Argumentar que vandalizar as estátuas em reacção ao racismo é apagar a História, tal como ouço alguns “donos de opinião” a esgrimir, não passa de uma treta. Uma autêntica patranha. Um falatório inútil. Uma conversa fiada, ou melhor, como dizem sabiamente os brasileiros, “conversa para boi dormir”. E aqui ninguém é boi para cair nesta artimanha. Desde quando é que uma mera estátua pode facultar-nos os registos apurados da História? Se fosse assim, seriamos todos conhecedores profundos da História da Humanidade, tendo em conta as inúmeras estátuas que grassam nas nossas ruas e cidades. 

Não são as estátuas que nos fornecem os factos históricos, insisto. A História apura-se na memória colectiva que vai passando de geração em geração e, mais especialmente, nos registos escritos, sobretudo nos livros. Nenhum cidadão médio precisa de visualizar a estátua de Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Francisco Franco, António de Oliveira Salazar, Saddam Hussein, Omar al-Bashir etc., para saber que foram ditadores e carrascos da Humanidade. Da mesma forma, não precisamos da estátua de Santo Agostinho, Madre Teresa de Calcutá, Abraham Lincoln, Mahatma Gandhi, Martin Luther King Jr, Nelson Mandela etc., para consciencializarmos que foram “justos entre as nações”. Portanto, esta tese de considerar que a erradicação das estátuas é estar a apagar a História não colhe. Tal asseveração é improcedente e deve ser liminarmente rejeitada. Quem faz a História, em última instância, é o próprio Homem – tanto para o bem como para o mal. 

E mais, por imperativo de consciência, sou um convicto Cristão, Evangélico e Baptista-Tradicional, alicerçado ideologicamente na Doutrina Social da Igreja. Não comungo com qualquer tipo de vandalismo e concomitantemente com a idolatria. Não sou apologista de estátuas, porque tal prática entra manifestamente em contradição com os meus impolutos Princípios e Valores religiosos, razão pela qual sou assumidamente um iconoclasta neste sentido. 

Por isso, da minha parte, não me incomoda de todo este ataque contra as estátuas, contando que não belisque mesmo ninguém ou a tranquilidade social. Tenho mais pena dos meus irmãos Cristãos que, de forma apedeuta e ridícula, decidem alinhar neste mundanismo idólatra e dos milhões de pessoas que foram e continuam infelizmente vítimas do racismo no mundo inteiro – do que propriamente com as estátuas que estão a ser vandalizadas ou destruídas. 

O Racismo, Por Robert de Barros Neves



Partilho aqui, mais uma vez, este sucinto vídeo sobre a problemática do Racismo na óptica do nosso ilustre Robert de Barros Neves (LER). Vale a pena verem. Recomendo. Tenham um bom proveito na auscultação. Obrigado. 

O Valor Sagrado da Vida Humana

A vida humana é sagrada em todas as suas várias configurações antropológicas. Uma premissa que recebeu primeiramente um amplo acolhimento no pensamento Judaico-Cristão, acabando posteriormente por influenciar decisivamente a Magna Carta Inglesa do século XIII, a Revolução Francesa do século XVIII e todas as outras civilizações mundiais. Um valor sagrado que é intrinsecamente indissociável da dignidade, da liberdade, da segurança e da auto-determinação. A todos os seres humanos, sem excepção, são garantidos os Direitos Fundamentais para se auto-realizarem na sociedade, aliás, este também é o entendimento abraçado na disposição da Declaração Universal dos Direitos Humanos e na generalidade das constituições dos países. 

Este valor sagrado da vida não é compatível com as discriminações negativas, independentemente das condições biológico-naturais de cada cidadão no seu círculo de convivência diária ou estatuto social. Ele assegura a todos os cidadãos o princípio da igualdade e das oportunidades. A partir da concepção, período em que começa a vida, até à morte, todos devem beneficiar destes importantíssimos direitos e serem protegidos pela sociedade e o Estado em particular. A começar, desde logo, pelos nascituros, as crianças, os adultos, as mulheres, os homens, os doutos e indoutos, pessoas portadoras de deficiências, nomeadamente os inabilitados e interditos. Em suma, pessoas capacitadas e incapacitadas. Não podemos, em circunstância alguma, beneficiar uns em detrimento dos outros. Todas estas pessoas têm direito à vida, à dignidade, à segurança, à protecção e ao usufruto dos Direitos Fundamentais. 

Por comungar holisticamente com estes postulados axiológicos, razão pela qual sou inteira e manifestamente contra a hedionda prática do aborto (LER), da eutanásia (LER), da barriga de aluguer (LER), da manipulação de células estaminais, da pena de morte, da escravatura, da xenofobia e do racismo (LER), porque não condizem minimamente com os nobres valores da vida e da dignidade da pessoa humana. Sabemos que a “ditadura do relativismo” em que estamos infelizmente mergulhados, sob a capa da modernidade, não valoriza a vida humana na sua verdadeira acepção, não obstante passar inutilmente a ideia de se preocupar com ela. É um relativismo que nada reconhece como absoluto e que deixa como última medida apenas o próprio eu, as suas vontades e libertinagens. 

Os mesmos países que estão hoje empenhados em proteger as pessoas contra a pandemia do coronavírus, são os mesmos países que não medem esforços para promover a “cultura da morte”, através da legalização da prática do aborto, da eutanásia, da pena de morte e infindáveis guerras que ceifam diariamente a vida de milhares e milhões de pessoas em todo o mundo. São, da mesma sorte, países que criam barreiras entre as pessoas e raças, mediante políticas deliberadas de discriminação, exploração, segregação, racismo. Onde está o valor sagrado da vida e da dignidade da pessoa humana com tudo isto? Um autêntico paradoxo.

Discriminação Racial e Trans-humanismo: O Novo Desafio do Século XXI, Pelo Professor Catedrático Paulo Otero


“1. Discriminar alguém sem um fundamento racional é atentar contra a sua dignidade – uma vez que todos somos criados à imagem e semelhança de Deus (Gn, 1,27), todos temos a mesma dignidade.
2. Toda a discriminação racial é profundamente contrária aos postulados cristãos: há uma incompatibilidade axiológica entre cristianismo e racismo – nenhum cristão pode ser racista e nenhum racista se pode dizer cristão.
3. Em sentido diferente, a apologia da discriminação racial tem em Nietzsche e nos seus herdeiros um expoente máximo: a defesa de “uma raça dominante” ou de “homens superiores” (“Para Além do Bem e do Mal”, nºs 61 e 62), em que se alicerçou o nazismo, encontra hoje novas formas de projeção – o trans-humanismo é uma delas.
4. Uma utilização da técnica e da ciência tendo o propósito da criação de super-homens, transformando as condições físicas e psíquicas naturais do ser humano, por via de uma alteração tecnológica da nossa identidade genética, numa fusão entre o artificial e o humano, procurando construir uma nova raça, poderá tornar-se a preocupação central do século XXI – aqui reside o problema do trans-humanismo.
5. Se a ciência e a tecnologia deixam de estar ao serviço da pessoa humana viva e concreta e da sua dignidade, sem quaisquer limites éticos ou jurídicos, tudo se torna possível – através do trans-humanismo, o ser humano arrisca-se, arvorando-se em Deus, a destruir a sua própria humanidade.
6. Tal como o antissemitismo e o “apartheid” traduzem formas radicais de discriminação racial do século XX, o trans-humanismo poderá ser a discriminação racial do século XXI, criando, acima da raça humana, uma raça trans-humana e, pelas suas características artificiais, também super-humana – a ideia de Platão de “indivíduos superiores” e “indivíduos inferiores” (“A República”, 459e, 460a e c) terá, por manipulação humana, existência biológica.
7. A vitória do trans-humanismo, criando um “homem novo”, expressão de uma nova civilização, numa “ascensão da humanidade à sobre-humanidade” (Miguel de Unamuno, “La Dignidad Humana”, Madrid, 4ª ed., 1957, p. 145), recuperando o mito de Hitler sobre a raça ariana, conduzirá ao suicídio da igual dignidade de todo o género humano.”[1]



[1] Pensamento do senhor Professor Catedrático Paulo Otero, extraído no seu Facebook. 

O Tribalismo Encapotado na Guiné-Bissau


A Guiné-Bissau é um íman que atrai todas as desgraças mundanais. E convive pacificamente com elas, sem praticamente oposição social. Incorpora ainda o fatalismo como sendo uma realidade intrínseca da vida (LER). Sob o aforismo de "djitu ka tem" legitima comportamentos repugnantes e altamente corrosivos à sociedade. Por isso alberga impunemente no seu seio políticos corruptos, assassinos, golpistas, pedófilos, traficantes, patronos de fraude e toda a espécie de criminosos. O tribalismo é só apenas um dos inúmeros flagelos dos nossos desassossegos (LER). É nele também que reside a chave da resolução da maioria dos problemas que nos afectam dramaticamente como povo. O tribalismo é um facto indesmentível na Guiné-Bissau – por mais que possam surgir objecções em sentido contrário para camuflá-lo e negá-lo de forma deliberada. Está profundamente enraizado nas aldeias, nas cidades e em Bissausinho. Abrange, da mesma sorte, todas as esferas da sociedade – tanto as pessoas ricas como as pobres, doutas e indoutas. É uma realidade transversal no nosso país, infelizmente. 

Sempre houve, desde os primórdios, tribalismo na Guiné-Bissau. Embora nunca assumido publicamente pelas nossas autoridades. Não ganhava proporções preocupantes no país, tal como nos dias de hoje. Circunscrevia-se apenas às camadas mais analfabetas da população e um número bastante reduzido dos ditos "djintis di praça". Não era assim tão notório na agenda geopolítica e geostratégica dos partidos políticos, e tão pouco institucionalizado, ao ponto de minar completamente o aparelho do Estado e a coesão nacional. O responsável número um, que contribuiu decisivamente para agravar esse revés colectivo foi o populista Koumba Yalá e o seu batoteiro partido PRS, aquando da sua esmagadora vitória nas eleições legislativas e presidenciais de 1999 e 2000. A partir daí a Guiné-Bissau mudou ainda para pior, máxime a nível do preconceito rácico, fazendo com que os balantas fossem hostilizados pelas outras raças devido à demasiada primazia que Koumba Yalá deliberadamente lhes votava durante o seu avassalador mandato em detrimento das demais. 

Compreende-se quando um analfabeto vota num partido ou apoia um determinado político unicamente por pertencerem à mesma "raça". A generalidade dessas pessoas adoptam esta incorrecta postura por apedeutismo cultural, razão pela qual a parcela significativa da culpa é também do Estado, que não lhes proporciona a oportunidade para estudarem e consequentemente aculturarem-se. Caso diferente são as pessoas que estudaram, alguns até tiraram um curso superior, e mesmo assim continuam reféns e devotos aos ideais tribalistas. Limitam a sua ideologia com base no tribalismo, independentemente das claras evidências em sentido oposto das suas fanáticas convicções. 

Digo isto porque conheço razoavelmente os guineenses. O pigmeuzinho de José Mário Vaz está a enveredar o país para um regime absolutista, porque tem o apoio de alguns incautos guineenses (LER). Neste momento praticamente a generalidade dos manjacos estão incondicionalmente a apoiá-lo, somando aos balantas devido ao facto do batoteiro PRS fazer parte do actual governo que ele patrocina, e ainda inúmeros muçulmanos por estarem a defender Baciro Djá em virtude de professarem a mesma religião e concomitantemente, através dele, José Mário Vaz. O mais triste disso tudo é ver os manjacos, balantas, fulas e muçulmanos letrados a apoiarem cegamente este maléfico triunvirato no país – o despótico de Jomav, o incompetente de Baciro Djá e o oportunista do PRS – unicamente por afinidades tribais e religiosas. Estes letrados" não chegaram a evoluir literalmente em nada. Estudaram e continuam limitados nas suas retrogradas mundividências. Não dispõem dos valores civilizacionais e de modernidade. São uns autênticos atrasados e pobres do ponto de vista intelectual. Contentam-se meramente com as políticas minimalistas dos seus ditos "parentes" no poder, mesmo sendo bastante ruinosas como têm sido para o país. 

Se o Presidente José Mário Vaz não tivesse tido o apoio dos manjacos, balantas, fulas e parte significativa dos muçulmanos há muito que teria sido alvo de um golpe de Estado, tendo em conta os abismais retrocessos a que conduziu a Guiné-Bissau neste curto período de tempo do seu mandato. Isto porque os guineenses não estão habituados a conviver com a legalidade democrática. O exemplo manifesto disso extrai-se na forma desordeira e autoritária como o país está a ser governado neste momento. A começar com os constantes abusos de poder pelas autoridades, intimidações sem precedentes e flagrantes atropelos à Constituição da República.  O pigmeuzinho de Jomav, sabendo a priori de tal situação, fez todos os possíveis para ter o inequívoco apoio do PRS e, deste modo, poder concretizar o seu maléfico intento, uma vez que o PRS é o único partido com grande influência nas forças armadas capaz de precipitar uma sublevação militar e conduzir ao seu derrube. Por isso, comprou o importante apoio do PRS e colocou-o ao seu lado e, de arrasto, a classe castrense. 

É tudo isto a "Guiné di bom bardadi" que de verdade não tem absolutamente nada. Mas que assenta, sobretudo, no tribalismo, intrigas, calúnias, mentiras, invejas, violações, abusos, ódios, traições, vinganças, maldades e derramamento de sangue. O império de futilidades (LER), que nos direcciona para um precipício social irreversível. 

Enquanto não pararmos para fazermos uma auto-avaliação colectiva e reconhecermos humildemente todos os nossos defeitos como nação que somos, e procurarmos libertar definitivamente deles, inclusive o cancro do tribalismo que nos separa uns dos outros, jamais experimentaremos a unidade, a paz e o progresso nacional que a maioria dos guineenses tanto almeja.