Esta é, em síntese, a
questão que coloquei ao Presidente Domingos Simões Pereira no âmbito do ciclo
de leitura da sua obra Da Democracia em África. A minha pergunta foi a
seguinte: até que ponto a democracia em África deve preocupar-se não apenas com
a realização periódica de eleições e com a defesa das liberdades e garantias
fundamentais, mas também com a construção da felicidade, do bem-estar e de
melhores condições de vida para as populações?
A questão fundamental
que se coloca é, portanto, a seguinte: será possível falar de uma verdadeira
felicidade dos povos africanos, ou de uma verdadeira construção do
desenvolvimento das sociedades africanas, quando se colocam em segundo plano as
liberdades, as garantias fundamentais e os próprios princípios democráticos?
Será isso realmente possível?
Esta é, no essencial, a
minha interrogação. Ainda na mesma senda interrogativa, procurei compreender a
legitimidade de determinadas opções que, por vezes, são apresentadas como
necessárias ou inevitáveis para a consolidação do Estado de direito democrático.
Fala-se, com frequência, da necessidade de aplicar determinados modelos
políticos e institucionais e, como ficou aqui vincado, aponta-se a democracia e
o modelo liberal como exemplos a seguir.
No entanto, há também
um princípio guineense que merece ser considerado: «remedi ku kata kura» deve
continuar a ser administrado indefinidamente? Se estamos, há algum tempo, a
procurar aplicar determinado critério ou determinado modelo e constatamos que ele
não está a produzir os resultados esperados, será que não devemos, pelo menos,
admitir a possibilidade de procurar outros caminhos e outras soluções?
Embora esta não seja
necessariamente a minha perspetiva ou posição pessoal, a questão permanece
pertinente: será possível falar de uma verdadeira felicidade dos povos
africanos, ou de uma verdadeira construção do bem-estar das sociedades
africanas, sem considerar a democracia, as liberdades e as garantias
fundamentais?
É esta, em última
análise, a questão que deixei para reflexão e que indaguei ao Doutor Domingos
Simões Pereira, na expectativa de obter uma resposta.
Confesso que a resposta
do Presidente Domingos Simões Pereira se coadunou com aquilo que também tenho
defendido. Não se pode falar de verdadeira felicidade sem, simultaneamente,
falar de liberdade. Um dos pressupostos da felicidade é precisamente a liberdade
- tanto na dimensão intrapessoal como nas dimensões política, social e em todas
as demais dimensões da vida humana.
O título da nossa
reflexão desta manhã é “Riqueza ou Pobreza?”. Trata-se de um tema
particularmente relevante, à semelhança de muitos outros que temos vindo a
estudar nesta revista e nas diversas publicações que têm servido de base ao
nosso aprendizado ao longo dos anos.
Todavia, quando
abordamos a questão da riqueza e da pobreza, entramos num domínio que
dificilmente reúne consenso absoluto. Cada indivíduo tende a construir a sua
própria visão do mundo, desenvolvendo conceções, interpretações e perspetivas
distintas acerca destes assuntos (LER).
A riqueza e a pobreza
constituem temas recorrentes no contexto social e na vivência quotidiana. Desde
cedo, os seres humanos são incentivados a procurar a prosperidade, a afastar-se
da pobreza e a esforçar-se por alcançar uma situação económica mais favorável.
De forma generalizada, convencionou-se que a riqueza é sinónimo de felicidade e
que aqueles que possuem abundância material desfrutam, necessariamente, de uma
vida melhor.
Esta perceção
encontra-se presente em praticamente todas as culturas. Existe a convicção de
que quanto maior for a capacidade financeira de uma pessoa, maior será também o
seu grau de felicidade. Tal entendimento decorre da ideia de que o dinheiro
proporciona poder, e que esse poder permite alcançar objetivos e adquirir bens
que, de outra forma, permaneceriam inacessíveis. É por essa razão que, desde a
infância ou desde o momento em que começamos a desenvolver consciência de nós
próprios, somos estimulados a trabalhar, a poupar e a procurar condições que
nos permitam ascender social e economicamente.
Até aqui, nada existe
de intrinsecamente errado. É natural e legítimo que o ser humano procure
melhorar as suas condições de vida, progredir e alcançar um patamar mais
estável e digno. Contudo, existe um reverso da questão: quando essa procura é
orientada por pressupostos equivocados ou por motivações desordenadas. Sabemos
que a posse de bens materiais não constitui garantia absoluta de felicidade, de
realização pessoal ou de superioridade moral. Embora a sociedade frequentemente
promova essa ideia, ela revela-se profundamente ilusória. O dinheiro, por si
só, não assegura paz interior, equilíbrio emocional, harmonia familiar nem amor
verdadeiro.
Por outro lado, a
pobreza é frequentemente encarada como uma realidade exclusivamente negativa.
Em determinadas circunstâncias, tal perceção possui fundamento. Quando uma
pessoa vive privada do mínimo indispensável à sua subsistência, encontrando-se
numa situação de pobreza extrema, estamos perante uma condição que compromete
seriamente a sua qualidade de vida. Todo o ser humano deveria ter acesso a uma
habitação digna, alimentação adequada, oportunidades de trabalho e, acima de
tudo, cuidados de saúde. Sem estas condições básicas, muitas potencialidades
permanecem por desenvolver e multiplicam-se os obstáculos à realização pessoal.
A pobreza extrema
constitui, de facto, uma ameaça à dignidade humana. Quem vive em condições de
privação severa torna-se frequentemente mais vulnerável à exclusão, à
dependência e à marginalização social. Deus não criou o ser humano para viver
destituído de dignidade; pelo contrário, a própria dignidade pressupõe a
existência das condições mínimas necessárias à sobrevivência e ao florescimento
da pessoa.
Contudo, como veremos
através do ensino do Apóstolo Paulo, o verdadeiro mérito não reside nem na
pobreza nem na riqueza. O mérito reside em Deus. Uma pessoa pode ser pobre e
plenamente realizada, assim como pode ser rica e viver uma existência
equilibrada e bem-sucedida, desde que a sua vida esteja firmemente alicerçada
em Deus. O elemento decisivo não é a condição económica, mas a presença de Deus
no coração e na conduta do indivíduo.
Não obstante, na ânsia
de alcançar riqueza, muitas pessoas tornam-se dominadas pela avareza e pela
ganância. Quando alguém passa a considerar a acumulação de bens como o objetivo
supremo da sua existência, corre o risco de ignorar princípios morais e espirituais
para atingir esse fim. É precisamente por isso que, ao longo da história, se
têm observado inúmeras fortunas construídas à custa de práticas eticamente
condenáveis e moralmente reprováveis.
A obsessão pela riqueza
gera inevitavelmente conflitos, inquietações e múltiplas formas de sofrimento.
Pelo contrário, quando vivemos no centro da vontade de Deus, deixamos de
depender das coisas materiais para alcançar felicidade e passamos a fundamentar
a nossa existência na relação com o Criador.
Se eu perguntasse a
cada um de vós se preferiria ser rico ou pobre, é provável que a maioria
respondesse que gostaria de ser rica. E não existe qualquer mal nisso, desde
que a riqueza seja procurada de forma honesta, legítima e em conformidade com
os princípios divinos. O trabalho diligente, a competência, a disciplina e uma
gestão prudente dos recursos podem conduzir ao sucesso material. Porém, o
verdadeiro crente não vive obcecado pela riqueza; para ele, a prosperidade
material é apenas uma consequência eventual, nunca a finalidade última da vida.
O problema surge quando
alguém passa a acreditar que a sua felicidade, a sua segurança e a sua paz
dependem exclusivamente do dinheiro. Nesse momento, abre-se o caminho para a
frustração e para a desilusão.
O Apóstolo Paulo
afirma, em 1 Timóteo 6, que «é grande ganho a piedade com contentamento». Esta
declaração revela uma verdade profunda: a verdadeira riqueza consiste numa vida
marcada pela piedade e pelo contentamento. Quando a fé é vivida de forma
autêntica, produz uma riqueza espiritual incomparável, caracterizada pela paz,
pela plenitude e pela harmonia interior – bens que nenhum património financeiro
pode adquirir.
Apóstolo Paulo recorda
ainda que «nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar
dele». Ao nascermos, chegamos de mãos vazias; ao partirmos desta vida, também
nada levaremos connosco. Se possuímos alimento, vestuário e os recursos
necessários para uma vida digna, já temos razões suficientes para cultivar a
gratidão. Porém, aqueles que vivem consumidos pelo desejo de enriquecer acabam
frequentemente por cair em tentações, armadilhas e desejos insensatos que
conduzem à ruína espiritual e moral. A raiz de todos os males não é o dinheiro
em si mesmo, mas o amor desordenado ao dinheiro. Em nome dele, muitos mentem,
traem, corrompem-se, exploram os seus semelhantes e chegam até a destruir
vidas.
O dinheiro pode ser um
excelente servo, mas é um péssimo senhor. O problema não está em possuir
dinheiro, mas em permitir que o dinheiro possua o coração. Quando a riqueza se
transforma no propósito fundamental da existência, o ser humano entra num caminho
espiritualmente perigoso.
Vivemos numa sociedade
que, muitas vezes, se esquece de Deus, ama as coisas e utiliza as pessoas,
quando deveria precisamente fazer o contrário: adorar a Deus, amar as pessoas e
utilizar as coisas. O verdadeiro desafio não consiste na posse de recursos materiais,
mas em impedir que a ganância domine o coração humano. É preferível possuir o
suficiente para viver com serenidade, equilíbrio e consciência tranquila do que
acumular grandes riquezas sem paz interior. Quando Deus ocupa o lugar central
da nossa vida, o dinheiro torna-se um instrumento ao serviço do bem: para
socorrer os necessitados, apoiar causas nobres e contribuir para a expansão do
Reino de Deus.
Por essa razão, ninguém
pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro. Onde estiver o nosso tesouro,
aí estará também o nosso coração. O amor excessivo pelas riquezas tem levado
muitos a afastarem-se da fé, da comunhão da Igreja e do caminho de Deus, passando
a viver exclusivamente em função da acumulação material.
Que Deus nos ajude a
não “naufragarmos na fé” e a reconhecermos que a nossa verdadeira riqueza não
se encontra nos bens transitórios deste mundo, mas na pessoa do Senhor Jesus
Cristo, na Sua Palavra e no Seu glorioso Evangelho. Que assim seja.
Sou, por natureza, desde a mais tenra idade, uma
pessoa manifestamente optimista (ALI) e (AQUI). Encarno o optimismo praticamente
em tudo o que idealizo e traduzo em prática. Norteio-me nas minhas opções de
escolhas diárias pelo optimismo, mesmo naquelas situações mais adversas em que
não se vislumbra humanamente o sucesso e a ultrapassagem. O optimismo faz parte
da minha mundividência e cardápio do dia-a-dia. Vivo holisticamente o
optimismo em todos os domínios, situações, dimensões e circunstâncias da minha
convivência com DEUS e o próximo. Diria mesmo que, em última instância, o
optimismo é o meu substrato identitário. Nunca fui uma pessoa carrancuda,
mal-humorada, depressiva e pessimista – longe de mim tais atrofiamentos
humanos! Por isso, passo os meus dias sempre alegre, sorridente, contente e
bem-disposto, procurando aplacar, na medida do possível, eventuais instintos de
fracasso que vão minando pontualmente a nossa mente (LER).
Esta minha forma optimista de encarar a vida é profundamente
influenciada pela fé Evangélico-Cristã que comungo, ou melhor, é
indubitavelmente o resultado dela. Sou, tal como alguns certamente saberão, um
devoto Cristão, Evangélico e Baptista-tradicional, alicerçado ideologicamente
na Doutrina Social da Igreja (LER). E para nós, os Cristãos, tudo o que
acontece nas nossas vidas – quer sejam coisas boas ou aparentemente más – “contribuem
juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados
segundo o seu propósito” (Romanos 8:28), razão pela qual damos sempre
graças em tudo, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para
connosco (1 Tessalonicenses 5:18).
E mais, importa ainda salientar, o Cristão está plenamente
habilitado para auto-realizar-se com aquilo de que dispõe, mesmo que seja
pouco, pois sabemos perfeitamente viver na pobreza e também na riqueza.
Aprendemos a viver em toda e qualquer situação: a ter fartura e a ter fome, a
ter em abundância e a não ter o suficiente. Podemos enfrentar todas as
dificuldades naquele que nos fortalece (Filipenses 4:11-13). Sim,
consigo afirmar sem qualquer tipo de rodeios ou hesitação, posso todas as
coisas em Cristo que me fortalece diariamente e de forma ininterrupta. Amém.
É, justamente, por tudo isto, que um autêntico Cristão
não tem motivos concretos para não ser uma pessoa reconciliada, bem-sucedida,
realizada e feliz tanto nesta vida como no porvir. E julgo que, como filho de
DEUS que sou, e sem qualquer tipo de presunção, encarno pela fé todos estes
sublimes ideais, valores e virtudes do Evangelho na minha vida. Que assim
seja pela graça de DEUS. E assim sempre será.
“Whenever
there is happiness Hope you’ll
be there too, Wherever
there are friendly smiles Hope
they’ll smile on you, Whenever
there is sunshine, Hope it
shine especially for you to make
each day for you as bright
as it can be.” (LER).
Partilho aqui, mais uma
vez, a minha pregação no domingo passado na Igreja Evangélica Baptista da
Amadora, sob o tema “O Caminho Que Conduz à Felicidade Eterna” (LER), baseado no texto sagrado do Salmo 1:1-6. Tenha um bom proveito na auscultação.
A pergunta é bastante sugestiva e pertinente nos
ansiosos, conturbados e depressivos dias que correm. Definir a felicidade é uma
tarefa complicadíssima, visto que não é uma questão assim tão nítida e linear
de abordar. Ela remete-nos concomitantemente para várias considerações
dogmáticas, nomeadamente etimológicas, filosóficas, religiosas e culturais,
para assim podermos holisticamente aferir com precisão o seu verdadeiro substrato
axiológico. Apesar de todas essas diversas formulações e mundividências
subjacentes em torno dela, é um facto universalmente assente e manifestamente
incontestável que todas os seres humanos à face da Terra almejam e buscam
afincadamente a felicidade como supremo bem, mesmo desconhecendo, na
generalidade de situações, no que ela realmente consiste ou as vias mais
correctas de encontrá-la. Esta legítima aspiração é notória na ênfase e
primazia que as pessoas incansavelmente vão dando à felicidade no seu
quotidiano, desdobrando-se no domínio pessoal, afectivo-amoroso, familiar,
relacional, literário, musical, profissional, político e governativo. A
felicidade faz parte do cardápio indispensável do ser humano. Sem ela a vida
seria completamente monótona e não faria qualquer tipo de sentido, razão pela
qual é a legítima meta de todos os seres humanos.
Do ponto de vista etimológico, a felicidade é
associada ao estado de quem anda feliz, abarcando adjectivos como sorte, boa
fortuna, êxito, contentamento, satisfação, realização e o bem-estar do
individuo. Estes valores antropológicos conjugados ganham um peso
relevantíssimo na globalidade dos seres humanos. Acontece que, por razões
cognoscíveis, o enquadramento da felicidade no âmbito filosófico ultrapassa esta
mera definição, máxime no pensamento classicista de Sócrates, Platão e
Aristóteles, respectivamente. Na doutrina socrática, a que se pode extrair nos
escritos dos seus discípulos Xenofonte e Platão, parte da premissa utilitarista
para definir o conceito da felicidade, precedendo neste importante debate as
concepções filosóficas de Epicuro, Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Este,
sobretudo, já no século XIX, definia o utilitarismo como sendo “a
doutrina que aceita como fundamento da moral a utilidade, ou o princípio da
maior felicidade, defende que as acções são correctas na medida em que tendem a
promover a felicidade, e incorrectas na medida em que tendem a gerar o
contrário da felicidade. Por felicidade entendemos o prazer, e a ausência de
dor; por infelicidade a dor, e a privação de prazer”[1]. O
Professor Miguel Nogueira de Brito considera que é possível identificar pelo
menos quatro propostas para definir o que seja utilidade, ou o bem-estar das
pessoas. De acordo com a primeira dessas propostas, e talvez a mais influente, “o
bem-estar consiste na experiência ou sensação de prazer. Uma segunda forma de
definir utilidade recusa a orientação hedonista e, em vez disso, aceita que uma
experiência recompensadora pode não ser necessariamente fonte de prazer. Uma
terceira opção, talvez a mais difundida entre os filosóficos que se reclamam
utilitaristas, consiste na definição da utilidade em termos da satisfação de
preferências. Nesta perspectiva, aumentar a utilidade das pessoas significa
satisfazer as suas preferências, sejam elas quais forem. A quarta forma de
conceber a utilidade: trata-se daquela que procura resolver o problema das
falsas preferências através da definição do bem-estar como a satisfação das
preferências racionais ou informais[2]”.
Comungando holisticamente do eudemonismo, Sócrates
vai resumindo que o que importa é a felicidade de todos e não a individual,
tratando-se em última instância da do sábio. Um entendimento igualmente
defendido por Platão, nas suas construções doutrinárias, ainda com maior
alcance. Este, de forma subsumida, associa e identifica a felicidade com o bem
e o prazer como sendo conceitos interligo-determinados e redutos últimos da
verdadeira felicidade. Aristóteles, por sua vez, discorda parcialmente com esta
mundividência de Platão em que a ideia do bem tomado como modelo não é modelo
de coisa alguma, uma vez que o bem em si, mesmo tendo por objecto tornar
conhecidas as diferentes formas de bens concretos, não passa de uma ideia
indeterminada do bem. Nesta ordem de ideias, define a felicidade como
actividade da alma de acordo com a virtude mais perfeita do homem. Ainda na
mesma esteira do pensamento, segundo a obra conjunta de Caillé, Lazzeri e
Senellart que cita Ética
Nicómaco de Aristóteles, “o
homem deve descobrir o que constitui a sua tarefa, aquilo que o visa e lhe diz
respeito em supremo grau. Tal descoberta constitui o facto da ciência política.
Tal ciência, soberana e dirigente possui por objecto o bem próprio do homem,
bem idêntico para o individuo e para a cidade, mas mais perfeito quando
atingindo e perseverado por toda uma cidade. A procura da felicidade adquire,
pois, de imediato uma índole colectiva e política (…) É vivendo com os outros
que o homem pode ser feliz”[3],
encerrava advertidamente.
Em relação à mundividência religiosa, máxime nas
três grandes religiões monoteístas, nomeadamente no Judaísmo, Cristianismo e
Islamismo, a felicidade transcende o comummente raio antropológico. Só é feliz
nestas três religiões quem obedece aos cânones divinos pré-estabelecidos por
ambas as denominações religiosas. O Judaísmo centraliza parte da sua adoração
na Torah, que resumidamente se encerra em dez mandamentos outorgados pelo
Patriarca Moisés (Êxodo
20:1-17). Cabe, por sua vez, a todos os fiéis, pôr escrupulosamente em
prática a Lei de DEUS nos seus corações, afastando-se de qualquer tipo de mal,
pois “feliz
o homem que não segue o conselho dos maus, não se detém no caminho dos
pecadores, nem toma parte na reunião dos provocadores! Antes põe toda a sua
alegria na lei do Senhor e nela medita de dia e de noite. Ele é como uma árvore
plantada à beira da água corrente, que dá o seu fruto na estação própria e
cujas folhas não murcham. Em tudo o que faz é bem-sucedido”, exortava
peremptoriamente o salmista para esboçar a ideia da felicidade no judaísmo (Salmo
1:3; 119:1-3).
O Cristianismo parte deste postulado teológico, no
entanto vai reinterpretando harmoniosamente o conceito teleológico da Lei,
demonstrando que a justificação do Homem (a felicidade suprema, bem entendido)
é unicamente pela Graça Redentora de DEUS, mediante a fé no Senhor Jesus
Cristo (Efésios 2:8-10), diferentemente do entendimento do
Judaísmo. Para que serve então a Lei no Cristianismo? A Lei, de acordo com o
Apóstolo Paulo, servia “para
mostrar aquilo que é contra a vontade de Deus. E só devia durar até que viesse
aquela descendência, a quem a promessa se destinava. (…) Dessa maneira, a lei
foi a nossa educadora, até que viesse Cristo, a fim de sermos justificados por
meio da fé. Agora que veio o tempo da fé, já não estamos sujeitos à lei como
nossa educadora, visto que pela
fé que nos une a Jesus Cristo somos filhos de Deus. Com efeito, todos os que
foram baptizados em Cristo revestiram-se das qualidades de Cristo” (Gálatas
3:19; 24-26). Um entendimento também reforçado em toda a epístola aos
Romanos. A fé no Senhor Jesus Cristo, ancorada na Graça Soteriológica, é o
único meio para o Homem usufruir plenamente das Bem-aventuranças eternas (vide,
por todos os exemplos bíblicos, o grande Sermão do Monte do Senhor Jesus em
Mateus 5:1-12 onde estas grandes verdades foram manifestamente proclamadas). E
isto se evidencia, em última instância, na Lei do Amor (1
Coríntios 13:1-13), que consiste em amar a DEUS acima de todas as coisas e
ao próximo como a nós mesmos. Destes dois mandamentos, admoestava firmemente o
Senhor Jesus, dependem toda a lei e os profetas(Mateus
22:37-40; Marcos 12:30-31; Lucas 10-27-28).
Ao contrário do Judaísmo e o Cristianismo o Islão
exorta os seus fiéis a esforçarem-se a fazer a Jihad[4] e a Sharia[5]. Para superar as forças dos ímpios pode
ser necessário lançar mão da jihad contra os infiéis, o que por sua vez pode
significar recorrer à “guerra
santa”. O martírio está na essência do estado de pureza religiosa e
felicidade. Como afirmava Hassan al-Banna, fundador e líder da Irmandade
Muçulmana, assassinado em 1949, para ilustrar este postulado: “o
Corão é a nossa constituição, o Profeta é o nosso guia; a morte em nome da glória
de Alá é a nossa maior ambição”[6]. O principal objectivo de todas as acções
humanas, escreve ainda Manuel Castells e reconfirmado por Hans Küng na sua
emblemática obra “Islão”,
deve ser o estabelecimento da lei de Deus para toda a humanidade, colocando
assim um ponto final na actual oposição entre Dar
al-islam (o mundo muçulmano) e Dar
al-Harb (o mundo não muçulmano). Verificado este processo "natural” de
harmonização deixa automaticamente de haver subjectividade e tudo se passa a
desenrolar por meio da umma[7]: o individuo torna-se parte da comunidade
dos fiéis, um mecanismo básico de igualdade que oferece apoio mútuo,
solidariedade e significados compartilhados. Tudo isto fundando-se com base na Sharia,
que prevalece sobre a ideia do Estado-Nação e vincula toda a comunidade
muçulmana, que aguarda determinadamente a devida recompensa na glória por ter
honrado este ditame religioso.
No âmbito cultural a concepção da felicidade acaba
por ser praticamente idêntica em todas as culturas e os povos do mundo,
registando apenas algumas nuances. A base da felicidade prende-se, mormente,
por ser portador de uma boa saúde, educação, honrar os pais, ter uma boa
formação profissional, um bom emprego que lhe habilite a possuir riquezas
materiais, casar com uma pessoa bem-sucedida e construir com ela uma família
estável, tendo inclusive filhos saudáveis e bem-aprumados nessa união
matrimonial. A partir do momento que uma pessoa consegue preencher estes
pressupostos convencionais, ela é automaticamente vista e considerada como
sendo feliz. A felicidade acaba assim por ser entendida e esgotada, em todas as
dimensões culturais, com a exterioridade do ter, isto é, ter saúde, ter
formação/profissão, ter trabalho, ter família, ter filhos, ter poder, ter
riqueza e ter uma vida desafogada, ter sucesso, etecetera. Justamente por isso,
levando à letra esta máxima, todo o mundo luta incansavelmente para ter o
poder, a riqueza, a glória e a fama, uma vez que todos os outros “teres” advêm
destes efémeros atributos humanos.
Da nossa parte, como devotos Cristãos
que somos, comungamos plenamente com o conceito da felicidade do Cristianismo.
A maior felicidade que uma pessoa pode ter durante a sua peregrinação neste
tenebroso mundo é crer resolutamente no Senhor Jesus Cristo (Actos
16:31), e procurar diariamente ajustar a sua transitória vida aos impolutos
mandamentos do Todo-Poderoso DEUS (Actos 26:20). Entendemos
ainda que a felicidade vai muito mais além de que qualquer tipo de
exterioridade, aparente sucesso social ou a ideia de um mero prazer passageiro,
tal como é erradamente enfatizado no nosso mundo pós-moderno. Ela é, sem
dúvida, um estado de alma. Há muitas pessoas afortunadas e com grandes sucessos
sociais, mas, mesmo assim, destituídas da verdadeira felicidade, vivendo atormentadas,
depressivas, desorientadas e completamente infelizes. Têm uma vida totalmente
oca, triste e miserável. Outras, pobres, sem qualquer tipo de conforto
material, são genuinamente felizardas. Um autêntico paradoxo, não é? Tudo isto
para vincar que a felicidade não tem propriamente que ver com o “ter” ou
com a falsa ideia do prazer imediato, mas sim com o “ser”. É
no “ser”, aquilo que realmente somos, na nossa simplicidade de ver
e encarar a vida, que a felicidade se manifesta com toda a sua força e vigor,
porque ela é de interioridade e habita unicamente na interioridade da pessoa. Saber,
acima de tudo, conviver e conformar-se com aquilo de que dispomos. Sermos
realistas nas nossas abordagens e legítimas expectativas de vida, especialmente
saber valorizar as pequenas coisas. Cultivar a gratidão pela vida e tudo aquilo
que ela nos vai proporcionando – quer sejam coisas boas e más, uma vez que a
felicidade consiste sobretudo neste binómio. Ser, igualmente, humildes,
virtuosos, amorosos, solidários e pensar sempre no bem do próximo, bem como
nunca se cansar de praticar boas acções. Afastar do mal e praticar sempre o
bem, buscando a paz e reconciliação com tudo e todos à nossa volta. Eis, de
forma abreviada, a definição e receita para a verdadeira felicidade.
[1] John Stuart
Mill, in Utilitarismo, p. 50 e 51, Editora, Gradiva, Lisboa, 2005.
[2] Miguel
Nogueira de Brito, “As Andanças de Cândido [Introdução ao Pensamento Político
do século XX, p. 19 e 20, Edições 70, Lisboa, 2009.
[3] História
Crítica da Filosofia Moral e Política, p. 73, Editorial Verbo, Lisboa/São
Paulo, 2005.
[4] Palavra
que na sua raiz etimológica significa empenho, consubstanciando a luta interior
e exterior em nome de Alá.
[5] Legislação
– o primado da lei islâmica face a qualquer tipo de Direito.
[6] Manuel
Castells, O Poder Da Identidade [A Era da Informação: Economia, Sociedade e
Cultura], Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, p. 14.
[7] Comunidade
de fiéis, em que todos são iguais na sua submissão perante Alá.
A pergunta
é bastante sugestiva e pertinente nos ansiosos, conturbados e depressivos dias
que correm. Definir a felicidade é uma tarefa complicadíssima, visto que não é uma
questão assim tão nítida e linear de abordar. Ela remete-nos concomitantemente para
várias considerações dogmáticas, nomeadamente etimológicas, filosóficas,
religiosas e culturais, para assim podermos holisticamente aferir com precisão
o seu verdadeiro substrato axiológico. Apesar de todas essas diversas
formulações e mundividências subjacentes em torno dela, é um facto
universalmente assente e manifestamente incontestável que todas os seres
humanos à face da Terra almejam e buscam afincadamente a felicidade como
supremo bem, mesmo desconhecendo, na generalidade de situações, no que ela realmente
consiste ou as vias mais correctas de encontrá-la. Esta legítima aspiração é notória
na ênfase e primazia que as pessoas incansavelmente vão dando à felicidade no
seu quotidiano, desdobrando-se no domínio pessoal, afectivo-amoroso, familiar, relacional,
literário, musical, profissional, político e governativo. A felicidade faz
parte do cardápio indispensável do ser humano. Sem ela a vida seria
completamente monótona e não faria qualquer tipo de sentido, razão pela qual é
a legítima meta de todos os seres humanos.
As crianças africanas são pobres, mas felizes. Um
autêntico exemplo de que se pode ter uma vida bem-sucedida e ditosa, sem
possuir quaisquer riquezas materiais. O “ser” e o “ter” são termos
completamente diferentes. A pureza, a inocência, o amor, a humildade, o
carácter, a alegria e a felicidade vão muito além dos bens que dispomos ou
ostentamos no dia-a-dia. Tais excelentes virtudes humano-sociais encarnam-se na
simplicidade da alma e na forma positiva de encarar os elevados desafios da
vida.
Abordar a complexa temática do livre-arbítrio tem muito
que se lhe diga. O seu significado etimológico e filosófico-teológico encerra
diversos conceitos em simultâneo, passíveis de várias interpretações, tais como
a autonomia, o juízo, a sorte, a liberdade e a responsabilidade. É um assunto
de bastante especulação em toda a parte – tanto a nível religioso como secular.
Concebo humildemente o livre-arbítrio dentro dos insondáveis parâmetros
da soberania de DEUS, que tudo ordena, coordena e sustenta no universo criado
pelas obras das Suas mãos, que em última instância remete-nos para o Seu
imaculado propósito no mundo. O livre-arbítrio do Homem é completamente condicionado
e submetido à manifesta vontade Divina. É nestas indubitáveis formulações que
entendo e desenvolvo a liberdade individual de cada ser humano,
independentemente da sua raça, condição de vida ou estatuto social.
Ao longo da nossa peregrinação neste “Vale de Lágrimas” somos
destinados a fazer grandes opções de escolhas: umas fáceis e outras bem mais
difíceis, exigindo sempre de nós cuidado, ponderação e discernimento no momento
de preferi-las. Somos humanamente produto das escolhas diárias que vamos
acumulando no nosso currículo de vida, que por sua vez contribuem decisivamente
para o binómio da nossa felicidade ou infelicidade. Decidimos a nossa dieta
alimentar, os amigos que queremos ter, o curso que tencionamos tirar, o
parceiro ou a parceira que gostaríamos que vivesse definitivamente connosco, o número
de filhos que vamos ter, a cidade que queremos residir, etc. E fazemos tudo
isto em conjugação com o estilo de vida que pretendemos perfilhar, sem qualquer
coacção de terceiros, em situações normais. Todas essas eleições têm reflexos
bastante importantes na nossa personalidade, máxime na forma de encararmos a
vida na sua multiforme configuração antropológica.
Com as boas escolhas estamos naturalmente a atrair o êxito
e o bem-estar à nossa vida, sem precisarmos de fazer grandes esforços para que tal
se processe. Diferentemente, quando preferimos as más opções estamos
forçosamente a atrair inevitavelmente o infortúnio, o fracasso e a
infelicidade. Obviamente que a vocação de todos os seres humanos à face da
Terra é alcançar a plena felicidade e usufruir dela sem qualquer tipo de
constrangimentos. Acontece que, por vicissitudes várias, a realidade prática
tem-nos demonstrado o contrário. Nem sempre o Homem consegue chegar à
felicidade devido às más escolhas que vai acumulando, influenciado especialmente
pelo caminho do facilitismo, materialismo, egocentrismo e superficialismo, que
não têm suporte suficiente para proporcionar uma vida feliz e bem-sucedida, tal
como todos os seres humanos almejam.