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A Morte do Papa Bento XVI e o Seu Legado Religioso


Partilho aqui o vídeo que gravei hoje no final da tarde sobre “A Morte do Papa Bento XVI e o Seu Legado Religioso”. Tenha um bom proveito na sua visualização e auscultação. 

Súplica em Tempo de Corrupção


“Salva-nos, Senhor, pois são cada vez menos os homens bons

e há poucos que sejam sinceros.

Mentem uns aos outros;

falam com hipocrisia e falsas intenções.

 

Acaba, Senhor, com os hipócritas

e com os que falam com arrogância.

Eles dizem: «Com as nossas palavras venceremos.

Elas são a nossa força. Quem nos poderá dominar?»

 

Senhor diz: «Por causa da aflição dos humildes

e dos gemidos dos pobres

vou levantar-me e dar-lhes a ajuda que tanto desejam.»

E as promessas do Senhor são verdadeiras,

são como a prata mais pura,

refinada no forno sete vezes.

Tu, Senhor, cuidarás de nós

e nos defenderás sempre dessa gente.

Os maus rondam por toda a parte

preparando armadilhas contra os humanos.[1]



[1] O Senhor Jesus Cristo, in A Bíblia Sagrada, Salmo 12:1-9, Versão, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004. 

A Problemática Teológico-Doutrinária Sobre a Permanente Virgindade de Maria



Igreja Católica Romana sempre surpreendeu teologicamente pela negativa. É uma instituição eclesiástica com profundíssimos desvios doutrinários. Incorpora no seu âmago tremendas heresias, arrastando consigo milhões dos seus fiéis ao longo dos séculos para o obscurantismo espiritual. O exemplo manifesto disso prende-se máxime com a prática do culto mariano, a veneração dos santos, o baptismo das crianças, o ecumenismo e liberalismo teológico, a interpretação lato sensu das Escrituras Sagradas, a imposição do celibato ao clero, a inflexibilidade sobre o divórcio em caso de adultério (LER), a infalibilidade da autoridade papal e toda a capa no sentido de considerá-lo hereticamente como o sumo representante de DEUS na Terra. Valeu-nos felizmente a intrépida correção dos Reformadores Protestantes para recolocar a Igreja no caminho certo da verdade soteriológica (LER). A intransigente apologética sobre a permanente virgindade de Maria, posteriormente ao nascimento do Senhor Jesus Cristo, bem como a sua divinização são dogmas que não têm qualquer tipo de suporte e acolhimento bíblico. E para o caro leitor entender melhor as duas ardilosas doutrinas da Igreja Católica é preciso, acima de tudo, conhecer os pressupostos teológicos que caracterizam ambas para assim chegar à verdade da Palavra de DEUS. Por isso, ater-nos-emos, em primeiro lugar, à temática da permanente virgindade de Maria para depois abordar os raciocínios falazes sobre a sua divinização. 

A concepção do Senhor Jesus Cristo, tal como é unanimemente acolhido em todas as denominações do Cristianismo, foi um acto miraculoso que não teve qualquer tipo de participação humana. Foi exclusivamente fruto da vontade soberana de DEUS para fazer cumprir o Seu soberano propósito salvífico para com a Humanidade outrora decaída pelo pecado original de Adão e Eva (Genesis 3:1-15). Ora, como ficou bem registado nos evangelhos sinópticos, depois do Anjo Gabriel ter terminado a conversa com José, que estava tomado no seu profundo sonho, este “recebeu Maria por esposa; sem terem tido antes relações conjugais” (Mateus 1:24). Acontece que, por vicissitudes várias, depois do nascimento do Senhor Jesus Cristo, não temos mais nenhuma passagem bíblica que sustente a continuidade da virgindade de Maria, antes pelo contrário, há indicações e relatos claríssimos que nos mostram que Maria se envolveu maritalmente com José, o seu marido, tendo em consequência disso outros filhos e filhas.  O exemplo manifesto disso foi narrado pelo Evangelista Mateus e Marcos ao referirem-se à incredulidade e concomitante admiração que o Senhor Jesus suscitava perante a multidão aquando do seu regresso à cidade de Nazaré, levando-os a interrogar-se de forma surpreendente: “donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José Simão e Judas? Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?” (Mateus 13:54-56; Marcos 6:2-3). São estes mesmos irmãos do Senhor Jesus, que ao aproximar-se a “Festa dos Tabernáculos” dos judeus, “não criam nele” (João 7:5). Ao ressuscitar dos mortos os tais, juntamente com os Seus discípulos e algumas mulheres, acabaram finalmente por crer Nele, “preservando unânimes em oração e súplicas” (Actos 1:14). O “abortivo” Apóstolo Paulo, volvidos três anos da sua milagrosa conversão no caminho de Damasco e consolidado três anos nas regiões das arábias, voltou a Jerusalém, tendo apenas a oportunidade de se cruzar com o Apóstolo Pedro e também “Tiago, o irmão do Senhor” (Gálatas 1:17-19)

Pese embora a divergência doutrinária entre os teólogos Católicos e Protestantes, levando aqueles a considerar que “os seus irmãos e suas irmãs” não são de facto irmãos verdadeiros do Senhor Jesus, isto é, irmãos de sangue, mas sim aquilo a que podemos denominar “primos-irmãos”. Cingindo-se à linha condutora da interpretação dos versículos em apreço, a fundamentação dos biblistas Católicos não corresponde à mínima verdade, por razões muito simples: desde logo, a multidão começa por mencionar os pais terrenos do Senhor Jesus, o carpinteiro José e Maria, aludindo depois aos seus irmãos e irmãs. Ou seja, vimos aqui o cuidado especial da multidão a dar primazia à família mais directa do Senhor Jesus que traduzia o grau de parentesco mais próximo, começando com a linha recta para depois entrar na primeira linha colateral. Se de facto estes “seus irmãos e suas irmãs” fossem mesmo primos-irmãos do Senhor Jesus, tal como sustentam os teólogos Católicos, obviamente que a multidão teria igualmente o cuidado de enumerar também os seus tios e tias, como fizeram questão com os primos-irmãos, se verdadeiramente considerarmos que estes assim o são, uma vez que deveriam viver outrossim estas pessoas na mesma localidade de Nazaré. Falando à multidão do pai e da mãe do Senhor Jesus para depois saltar e referir unicamente os seus primos-irmãos sem, no entanto, fazer qualquer tipo de menção aos seus tios e tias não tem qualquer tipo de lógica e/ou coerência interpretativa. Afirmamos isto porque objectivamente os tios e tias do Senhor Jesus são mais próximos Dele em termos de parentesco do que propriamente os seus primos-irmãos. Por que razão, então, a multidão relevaria os primos-irmãos do Senhor Jesus Cristo em detrimento dos seus tios e tias? Logicamente, não faz qualquer tipo de sentido a multidão omitir a primeira linha colateral do Senhor Jesus, dando primazia à segunda linha colateral. Isto somente reforça a convicção que sempre perfilhámos de que realmente “os seus irmãos e suas irmãs” são mesmo irmãos de sangue do Senhor Jesus e não meros “primos irmãos”, tal como equivocadamente faz crer a Igreja Católica Romana. 

Acresce ainda o facto de, depois de Maria ter dado à luz ao Senhor Jesus Cristo em Belém de Judeia, o Evangelista Mateus e Lucas usaram a expressão seu “filho primogénito” (Mateus 1:25; Lucas 2:7), contrastando com o termo do filho “Unigénito de Deus” empregue em João 3:16 e em inúmeros outros trechos sagrados. Atentando no significado etimológico da palavra “primogénito”, concluir-se-á que difere do sentido e alcance de “Unigénito”. Dito por outra forma, segundo o conceituado dicionário português Priberam, a palavra primogénito advém de “que ou aquele que nasceu antes dos outros irmãos; filho mais velho”, ao passo que o unigénito traduz “o único gerado por seus pais; Filho único”. As mesmas definições foram igualmente dadas pelo prestigiado Dicionário Porto Editora. Nas Escrituras Sagradas, o Senhor Jesus Cristo encarnou as duas denominações em simultâneo. O termo “Filho de Deus” tem quatro grandes significados bíblicos que, de forma elucidativa e subsumida, procuraremos descortinar. 

Segundo o reputado Teólogo George Eldon Ladd, na sua afamada obra “Teologia do Novo Testamento”, formalizou “que uma criatura de Deus pode ser denominada filho de Deus em um sentido nativista, em virtude de dever sua existência à atividade criativa imediata de Deus (Êxodo 4:22; Ml. 2:10; At. 17:28). Na segunda maneira, a expressão filho de Deus pode ser usada para descrever a relação que os homens podem manter com Deus como objetos peculiares de seu cuidado amoroso. Este é o uso moral-religioso e pode ser aplicado tanto às pessoas em geral como à nação de Israel (Êxodo 4:22; Jo. 3:3; 1:12; Rm. 8:14-19; Gl. 3:26; 4:5). Um terceiro significado é messiânico; o rei da linhagem de Davi é designado como filho de Deus (2 Sm. 7:14). Esse uso não envolve uma implicação necessária quanto à natureza divina do personagem messiânico; o termo refere-se à posição oficial de Messias. Um quarto significado é teológico. Na revelação contida no Novo Testamento e na teologia cristã que se desenvolveu posteriormente, a expressão Filho de Deus veio a ter um significado mais elevado: Jesus é o Filho de Deus porque Ele é Deus e participa da natureza divina. O propósito do Evangelho de João é demonstrar que Jesus é tanto Cristo como o Filho de Deus, e fica claro, de uma análise do prólogo de João, que Jesus, como o Filho de Deus, o Logos, era pessoalmente preexistente; Ele próprio era Deus, e encarnou-se com o propósito de revelar Deus à humanidade (Rm. 8:3; Gl. 4:4; Hb. 4:14)”[1]

Subscrevemos na íntegra esta tese defendida pelo insigne teólogo canadiano. E salientamos ainda que, para efeitos de maior e melhor esclarecimento do assunto em apreço, em relação ao facto do Senhor Jesus Cristo ser o Filho Unigénito de DEUS revela a Sua eterna divindade como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Aqui não se colocam grandes dificuldades de interpretação, nem tão pouco há divergência sobre isso. A querela doutrinária prende-se mais com a expressão “filho primogénito” de Mateus 1:25; Lucas 2:7, levando a Igreja Católica a entender que o primogénito não é necessariamente o primeiro duma série em sucessão. Por todos os exemplos, o agora Papa Emérito Bento XVI vai ao ponto de sustentar que “o termo primogénito não alude a uma numeração em ato, mas indica uma qualidade teológica expressa nas mais antigas coleções de leis de Israel”. É, assim, enfatizando “que o conceito de primogenitura adquire uma dimensão cósmica: Cristo, o Filho encarnado, é por assim dizer, o primeiro de Deus e antecede toda a criatura, que está ordenada para Ele e a partir d´Ele”. Por isso, sumaria, “é também princípio e fim da nova criação, que teve início com a ressurreição”[2]

Não comungamos deste entendimento redutor do Papa Bento XVI, não obstante algumas verdades parcelares que astutamente encerra. Julgamos que parte de uma pressuposição equivocada na sua construção teológica. O primogénito a que o Evangelista alude no texto sagrado é referente ao recém-nascido filho de Maria. Não hesitamos em admitir que a mesma expressão vai ganhando outros significados nas epístolas sagradas sobre o papel preponderante e amiúde determinante do Messias no processo da Criação e Salvação da Humanidade. A começar, desde logo, o facto de o Senhor Jesus Cristo ser “o primogénito entre muitos irmãos (Romanos 8:29)”, não somente consubstancia a Sua primazia na ordem da dignidade, mas Aquele que inaugura uma nova Humanidade – o primogénito de toda a criação. Ele é antes de todas as coisas e nele subsistem todas as coisas, e ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o Princípio, o primogénito dentre os mortos para que em todas as coisas tenha a primazia (Colossenses 1:17-18). É através Dele que herdamos a vida eterna, mediante o Seu sacrifício expiatório na Cruz do Calvário, ou seja, todos aqueles que no Baptismo morreram e ressuscitaram com Ele. Uma coisa é o Senhor Jesus Cristo ser o nosso irmão mais velho pela Graça de DEUS. Outra coisa, e bem diferente, é Ele ser o primogénito” do casal Maria e José. 

Para objectar ainda à ideia de que Maria não chegou a ter mesmo filhos, como já provámos biblicamente que ela de facto teve, alguns usam o texto sagrado de João 19:25-27  para demonstrar que se ela tivesse tido filhos eles estariam certamente na crucificação do irmão, caso contrário o Senhor Jesus não teria dito para o seu discípulo amado: “Mulher, eis aí teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”, ficando Maria assim definitivamente sob os cuidados do Apóstolo João[3]. Antes de refutarmos o esgrimido argumento apoiado no texto bíblico, importa transcrever primeiramente o referido trecho que versa da seguinte forma: “junto da cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus viu a sua mãe e junto dela o discípulo que ele amava. E disse à sua mãe: «Mulher, aí tens o teu filho.» Depois disse ao discípulo: «Aí tens a tua mãe.» E, desde esse momento, aquele discípulo recebeu-a em sua casa” (João 19:25-27). A postura que o Senhor Jesus teve para com o Seu “discípulo amado”, de incumbi-lo a responsabilidade plena da Sua mãe, é praticamente normal na antiguidade e ainda recorrente nos nossos dias. Ademais, se atentarmos cuidadosamente no ministério terreno do Senhor Jesus nos Evangelhos concluiremos que este discípulo esteve sempre presente nos momentos cruciais e determinantes da vida e morte do Senhor Jesus Cristo (João 13:23; 19:25-27; 21:7;21:20-23), razão pela qual ganhou a alcunha especial de “discípulo amado”. É manifestamente normal, estando o Senhor Jesus à beira da morte, confiar à Sua mãe este preciosíssimo amigo, uma vez que “há um amigo mais chegado do que um irmão” (Provérbios 18:24). Nesta ordem de ideias, e de acordo com o comentário da Bíblia de Estudo MacArthur, “Jesus sendo o primogénito e o provedor de sustento para a família antes de iniciar seu ministério, não entregou a responsabilidade aos seus irmãos porque estes não foram simpáticos ao seu ministério e nem creram nele (João 7.3-5). Possivelmente os irmãos nem estivessem presentes na ocasião (ou seja, eles moravam em Cafarnaum – veja João 2:12)”. Os irmãos do Senhor Jesus somente acreditaram Nele como Messias depois da Sua ressurreição e ascensão aos céus. Talvez fosse por esta mesma razão que deve ser entendida a ausência deles na crucificação do irmão na Cruz do Calvário e parte significativa dos seus discípulos. “Todos vocês vão Me abandonar”, vaticinava-lhes o Senhor Jesus durante a última Ceia, “porque Deus declarou por meio dos profetas: “Eu matarei o Pastor, e as ovelhas se dispersarão”” (Marcos 14:27). E assim foi. 

Ora, não estando os irmãos  ao pé da Cruz é completamente normal o Senhor Jesus, como sendo “o filho primogénito” da família, assegurar o amparo da mãe antes da Sua partida como um bom filho faria em situações semelhantes (importa ainda salientar que, nesta altura, José, marido de Maria, teria morrido, ou seja, ela já se encontrava viúva). E mais, de forma analógica, o Direito Sucessório e o Testamento do de cujus (falecido) muitas vezes não contemplam os herdeiros legitimados sem, no entanto, traduzir automaticamente que o falecido não tenha tido filhos ou outros elementos familiares que possam realmente ter um papel preponderante nos seus negócios ou património. Por isso, a postura que o Senhor Jesus tomou na Cruz para proteger a Sua debilitada e desamparada mãe não deve ser entendida como se não tivesse outros familiares, ou irmãos para cuidar dela, mas tão simplesmente pela força das circunstâncias e, deste modo, reforçar definitivamente o amparo da pobre mãe. 

A Igreja Católica refugiando-se no seu preconceito teológico-doutrinário não quer reconhecer esta manifesta verdade, mesmo indo contra todas as evidências teológicas. Sabe que a partir do momento em que admitisse a união marital de Maria e José colocaria automaticamente em causa a sua divinização. Isto porque o sexo em muitos círculos católicos é algo visto com bastante reservas. “O pecado original”, como é designado primeiramente pelo santo Agostinho na “Confissão”, entrou no mundo por via da sexualidade. A libido e os cuidados que o ser humano normalmente tem com as regiões pudendas são as manifestações visíveis da vergonha que procedem do castigo, encerrava peremptoriamente o Doutor da Igreja na sua afamada obra “Cidade de Deus”. E para justificar esta sua tese com a ordem dada a Adão e Eva, no sentido de frutificarem e multiplicarem a Terra em Genesis 1:28 através do sexo e da sexualidade, santo Agostinho sustentava o seguinte para fazer valer a sua doutrina: «está muito longe de nós o pensamento de que aqueles esposos colocados no Paraíso teriam de realizar, mediante esta paixão libidinosa (libido), de que viriam a envergonhar-se tapando as regiões pudendas, aquilo que Deus prometeu na sua bênção: Crescei a multiplicai-vos e enchei a terra. (…) Na ordem natural a alma sobrepõe-se ao corpo; todavia, a alma tem mais fácil domínio sobre o corpo do que sobre a si própria. Todavia, esta paixão libidinosa, de que agora estamos a tratar, excita a vergonha tanto mais quanto mais o espírito nem se mostra capaz de a si próprio se dominar eficazmente para se não deixar deleitar inteiramente nessa paixão, nem sobre o corpo tem pleno domínio para que seja precisamente a vontade (e não a paixão) a excitar as regiões vergonhosas: se assim fosse já nem seriam vergonhosa.»[4]. Há, assim, uma carga bastante negativa do sexo e a sexualidade na teologia do Bispo de Hipona, levando-lhe inclusive a associá-lo com a libidinosidade e consequentemente a censurá-lo. E toda esta doutrina vai ter fortes implicações práticas na forma peculiar como a Igreja Católica encara e aborda o sexo, sobretudo negando em última instância o seu carácter de fruição, reduzindo-a stricto sensu à procriação. Portanto, em suma, a problemática sobre a intransigente oposição do Vaticano ao uso de métodos contraceptivos entre os casais, no âmbito matrimonial, só poderá ser holisticamente compreendida no “Pecado Original” formalizado por santo Agostinho. E para ilibar Maria do referido pecado, elevando-a ao título de “Virgem Santíssima” e “Mãe de Deus”, era importante dissociá-la do vírus do pecado de Adão e Eva que se contrai no sexo, caso contrário ela não seria merecedora de tais proeminentes títulos celestiais. 

Não subscrevemos tais heresias. Não há margem para dúvidas, usando as acertadas palavras da Declaração de Fé Baptista Portuguesa, que “Deus criou o homem, concedendo-lhe a prerrogativa de fecundidade, fertilidade e natalidade, permitindo-lhe a multiplicação da espécie humana, povoando e dominando a Terra. Deus não condena o ato sexual em si, mas a prática sexual desgovernada, sem limites e sem princípios divinos. (...) A atração física, emocional e o verdadeiro amor no casamento são condições indispensáveis para uma sexualidade abençoada” (LER)


[1] George Eldon Ladd, in Teologia do Novo Testamento, p. 212 e 213, Editora, Hagnos, São Paulo, 2003.
[2] Joseph Aloisius Ratzinger, in Jesus de Nazaré [Infância de Jesus], p. 62 e 63, Editora, Planeta, 2013.
[3] Segundo alguns testemunhos recolhidos dizia que Maria viveu sob cuidados do Apóstolo João, em Jerusalém, durante onze anos, e morreu. Outros dizem que ela viveu mais tempo, chegando a acompanhá-lo até Éfeso.
[4] Santo Agostinho, in A Cidade de Deus [Volume II], p. 1299; 1304, Fundação Calouste Gulbenkian. 

A Problemática Teológico-Doutrinária Sobre a Permanente Virgindade de Maria: Argumentos e Contra-argumentos


A Igreja Católica Romana sempre surpreendeu teologicamente pela negativa. É uma instituição eclesiástica com profundíssimos desvios doutrinários. Incorpora no seu âmago tremendas heresias, arrastando consigo milhões dos seus fiéis ao longo dos séculos para o obscurantismo espiritual. O exemplo manifesto disso prende-se sobretudo com a prática do culto mariano, a veneração dos santos, o baptismo das crianças, o ecumenismo e liberalismo teológico, a interpretação lato sensu das Escrituras Sagradas, a imposição do celibato ao clero, a inflexibilidade sobre o divórcio em caso de adultério (LER), a infalibilidade da autoridade papal e toda a capa no sentido de considerá-lo hereticamente como o sumo representante de DEUS na Terra. 

Valeu-nos, felizmente, a intrépida correção dos Reformadores Protestantes para recolocar a Igreja no caminho certo da verdade salvífica (LER). A intransigente apologia sobre a permanente virgindade de Maria, superveniente ao nascimento do Senhor Jesus Cristo, bem como a sua divinização são dogmas que não têm qualquer tipo de suporte bíblico. E para o caro leitor entender melhor as duas ardilosas doutrinas da Igreja Católica Romana, é preciso conhecer os pressupostos teológicos que caracterizam ambas, para assim chegar à verdade da Palavra de DEUS. Por isso, ater-nos-emos, em primeiro lugar, à temática da permanente virgindade de Maria para depois abordar os raciocínios falazes sobre a sua divinização. 

A concepção do Senhor Jesus Cristo, tal como é unanimemente acolhido em todas as denominações Cristãs, foi um acto miraculoso que não teve qualquer tipo de participação humana. Foi exclusivamente fruto da vontade soberana de DEUS para fazer cumprir o Seu soberano propósito salvífico para com a Humanidade outrora decaída pelo pecado original de Adão e Eva (Genesis 3:1-15). Ora, como ficou bem registado nos evangelhos sinópticos, depois do anjo Gabriel ter terminado a conversa com José, que estava tomado no seu profundo sonho, este “recebeu Maria por esposa; sem terem tido antes relações conjugais” (Mateus 1:24). Acontece que, por vicissitudes várias, depois do nascimento do Senhor Jesus Cristo, não temos mais nenhuma passagem bíblica que sustente a continuidade da virgindade de Maria, antes pelo contrário, há indicações e relatos claros que nos mostram que Maria se envolveu maritalmente com José, o seu marido, tendo em consequência disso outros tantos filhos e filhas.  O exemplo manifesto disso foi narrado por Mateus e Marcos ao referirem-se à incredulidade e, simultaneamente, admiração que o Senhor Jesus suscitava perante a multidão aquando do seu regresso à cidade de Nazaré, levando-o a interrogar-se de forma surpreendente: “donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José Simão e Judas? Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?” (Mateus 13:54-56; Marcos 6:2-3). São estes mesmos irmãos do Senhor Jesus, que ao aproximar-se a “Festa dos Tabernáculos” dos judeus, “não criam nele” (João 7:5). Os tais, ao ressuscitar dos mortos, juntamente com os Seus discípulos e algumas mulheres, acabaram finalmente por crer Nele “preservando unânimes em oração e súplicas” (Actos 1:14). O “abortivo” Apóstolo Paulo, volvidos três anos da sua milagrosa conversão no caminho de Damasco e consolidado três anos nas regiões das arábias, voltou a Jerusalém, tendo apenas a oportunidade de se cruzar com o Apóstolo Pedro e também “Tiago, o irmão do Senhor” (Gálatas 1:17-19). 

Pese embora a divergência doutrinária entre os teólogos católicos e protestantes, levando aqueles a considerar que “os seus irmãos e suas irmãs” não são de facto irmãos verdadeiros do Senhor Jesus, isto é, irmãos de sangue, mas sim aquilo a que podemos denominar “primos-irmãos”. Cingindo-se à linha condutora da interpretação dos versículos em apreço, a fundamentação dos biblistas Católicos não corresponde à mínima verdade, por razões muito simples: desde logo, a multidão começa por mencionar os pais terrenos do Senhor Jesus, o carpinteiro José e Maria, aludindo depois aos seus irmãos e irmãs. Ou seja, vimos aqui o cuidado especial da multidão a dar primazia à família mais directa do Senhor Jesus, que traduzia o grau de parentesco mais próximo, começando com a linha recta para depois entrar na primeira linha colateral. Se de facto estes “seus irmãos e suas irmãs” fossem mesmo primos-irmãos do Senhor Jesus, tal como sustentam os teólogos Católicos, obviamente que a multidão teria igualmente o cuidado de enumerar também os seus tios e tias, como fizeram questão com os primos-irmãos, se verdadeiramente considerarmos que estes assim o são, uma vez que deveriam viver outrossim estas pessoas na mesma localidade de Nazaré. Falando à multidão do pai e da mãe do Senhor Jesus para depois saltar e referir unicamente os seus primos-irmãos sem, no entanto, fazer qualquer tipo de menção aos seus tios e tias não tem qualquer tipo de lógica e coerência interpretativa. Afirmamos isto porque, objectivamente, os tios e tias do Senhor Jesus, são mais próximos Dele em termos de parentesco do que propriamente os seus primos-irmãos. Por que razão, então, a multidão relevaria os primos-irmãos do Senhor Jesus Cristo em detrimento dos seus tios e tias? Logicamente não faz qualquer tipo de sentido a multidão omitir a primeira linha colateral do Senhor Jesus, dando primazia à segunda linha colateral. Isto somente reforça a convicção que sempre perfilhámos de que realmente “os seus irmãos e suas irmãs” são mesmo irmãos de sangue do Senhor Jesus e não meros “primos irmãos”, tal como equivocadamente faz crer a Igreja Católica Romana. 

Acresce ainda o facto de, depois de Maria ter dado à luz ao Senhor Jesus Cristo em Belém de Judeia, o Evangelista Mateus e Lucas usaram a expressão seu “filho primogénito” (Mateus 1:25; Lucas 2:7), contrastando com o termo do filho “Unigénito de Deus” empregue em João 3:16 e em inúmeros outros trechos sagrados. Atentando no significado etimológico da palavra “primogénito”, concluir-se-á que difere do sentido e alcance de “Unigénito”. Dito de outra forma, a palavra primogénito advém de que ou aquele que nasceu antes dos outros irmãos; filho mais velho, ao passo que o “unigénito” traduz o único gerado por seus pais; Filho único. Nas Escrituras Sagradas, o Senhor Jesus Cristo encarnou as duas denominações em simultâneo. O termo “Filho de Deus” tem quatro grandes significados bíblicos que, de forma elucidativa e subsumida, procuraremos descortinar. 

Segundo o reputado Teólogo George Eldon Ladd, na sua afamada obra Teologia do Novo Testamento, formalizou “que uma criatura de Deus pode ser denominada filho de Deus em um sentido nativista, em virtude de dever sua existência à atividade criativa imediata de Deus (Êxodo 4:22; Ml. 2:10; At. 17:28)”, isto é, na primeira formulação. Na segunda maneira, a expressão filho de Deus “pode ser usada para descrever a relação que os homens podem manter com Deus como objetos peculiares de seu cuidado amoroso. Este é o uso moral-religioso e pode ser aplicado tanto às pessoas em geral como à nação de Israel (Êxodo 4:22; Jo. 3:3; 1:12; Rm. 8:14-19; Gl. 3:26; 4:5)”. Um terceiro significado “é messiânico; o rei da linhagem de Davi é designado como filho de Deus (2 Sm. 7:14). Esse uso não envolve uma implicação necessária quanto à natureza divina do personagem messiânico; o termo refere-se à posição oficial de Messias”. Um quarto significado “é teológico. Na revelação contida no Novo Testamento e na teologia cristã que se desenvolveu posteriormente, a expressão Filho de Deus veio a ter um significado mais elevado: Jesus é o Filho de Deus porque Ele é Deus e participa da natureza divina. O propósito do Evangelho de João é demonstrar que Jesus é tanto Cristo como o Filho de Deus, e fica claro, de uma análise do prólogo de João, que Jesus, como o Filho de Deus, o Logos, era pessoalmente preexistente; Ele próprio era Deus, e encarnou-se com o propósito de revelar Deus à humanidade (Romanos 8:3; Gl. 4:4; Hb. 4:14)”[1]

Subscrevemos na íntegra esta tese defendida pelo teólogo canadiano. E salientamos ainda que, para efeitos de maior e melhor esclarecimento do assunto em questão, em relação ao facto do Senhor Jesus Cristo ser o Filho Unigénito de DEUS revela a Sua eterna divindade como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Aqui não se colocam grandes dificuldades de interpretação, nem tão pouco há divergência sobre isso. A querela doutrinária prende-se mais com a expressão “filho primogénito” de Mateus 1:25; Lucas 2:7, levando a Igreja Católica a entender que o primogénito não é necessariamente o primeiro duma série em sucessão. Por todos os exemplos, o agora Papa Emérito Bento XVI vai ao ponto de sustentar que “o termo primogénito não alude a uma numeração em ato, mas indica uma qualidade teológica expressa nas mais antigas coleções de leis de Israel”. É, assim, enfatizando “que o conceito de primogenitura adquire uma dimensão cósmica: Cristo, o Filho encarnado, é por assim dizer, o primeiro de Deus e antecede toda a criatura, que está ordenada para Ele e a partir d´Ele”. Por isso, sumaria, “é também princípio e fim da nova criação, que teve início com a ressurreição”[2]

Não comungamos deste entendimento redutor do Papa Bento XVI, não obstante algumas verdades parcelares que astutamente encerra. Julgamos que parte de uma pressuposição equivocada na sua construção teológica. O primogénito a que o evangelista alude no texto sagrado é referente ao recém-nascido filho de Maria. Não hesitamos em admitir que a mesma expressão vai ganhando outros significados nas epístolas sagradas sobre o papel amiúde preponderante e determinante do Messias no processo da Criação e Salvação da Humanidade. Desde logo, o facto de o Senhor Jesus Cristo ser “o primogénito entre muitos irmãos (Romanos 8:29)”, não somente consubstancia a Sua primazia na ordem da dignidade, mas Aquele que inaugura uma nova Humanidade – o primogénito de toda a criação. Ele é antes de todas as coisas e nele subsistem todas as coisas, e ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o Princípio, o primogénito dentre os mortos para que em todas as coisas tenha a primazia (Colossenses 1:17-18). É através Dele que herdamos a vida eterna, mediante o Seu sacrifício expiatório na Cruz do Calvário, ou seja, todos aqueles que no baptismo morreram e ressuscitaram com Ele. Uma coisa é o Senhor Jesus Cristo ser o nosso irmão mais velho pela Graça de DEUS. Outra coisa, e bem diferente, é Ele ser o “primogénito” do casal Maria e José. 

Para objectar ainda à ideia de que Maria não chegou a ter mesmo filhos, como já provámos biblicamente que ela de facto teve, alguns usam o texto sagrado de João 19:25-27 para demonstrar que se ela tivesse tido filhos eles estariam certamente na crucificação do irmão, caso contrário o Senhor Jesus não teria dito para o seu discípulo amado: “Mulher, eis aí teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”, ficando Maria assim definitivamente sob os cuidados do Apóstolo João[3]. Antes de refutarmos o esgrimido argumento apoiado no texto bíblico, importa transcrever primeiramente o referido trecho em apreço, que versa da seguinte forma: “junto da cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus viu a sua mãe e junto dela o discípulo que ele amava. E disse à sua mãe: «Mulher, aí tens o teu filho.» Depois disse ao discípulo: «Aí tens a tua mãe.» E, desde esse momento, aquele discípulo recebeu-a em sua casa” (João 19:25-27). A postura que o Senhor Jesus teve para com o Seu “discípulo amado” – de incumbi-lo a responsabilidade plena da Sua mãe – é praticamente normal na antiguidade e ainda recorrente nos nossos dias. Ademais, se atentarmos cuidadosamente no ministério terreno do Senhor Jesus nos Evangelhos concluiremos que este discípulo esteve sempre presente nos momentos determinantes da vida e morte do Senhor Jesus (João 13:23; 19:25-27; 21:7;21:20-23), razão pela qual ganhou a alcunha especial de “discípulo amado”. É manifestamente normal estando o Senhor Jesus à beira da morte confiar à Sua mãe este preciosíssimo amigo, uma vez que “há um amigo mais chegado do que um irmão” (Provérbios 18:24). 

Nesta ordem de ideias, e de acordo com o comentário da Bíblia de Estudo MacArthur sobre esta nobre postura do Filho de DEUS, formula que “Jesus sendo o primogénito e o provedor de sustento para a família antes de iniciar seu ministério, não entregou a responsabilidade aos seus irmãos porque estes não foram simpáticos ao seu ministério e nem creram nele (João 7.3-5). Possivelmente os irmãos nem estivessem presentes na ocasião (ou seja, eles moravam em Cafarnaum – veja João 2:12)”. Os irmãos do Senhor Jesus somente acreditaram Nele como Messias depois da Sua ressurreição e ascensão aos céus. Talvez fosse por esta mesma razão que deve ser entendida a possível ausência deles na crucificação do irmão na Cruz do Calvário, bem como parte significativa dos seus discípulos. “Todos vocês vão Me abandonar”, vaticinava-lhes o Senhor Jesus durante a última Ceia, “porque Deus declarou por meio dos profetas: 'Eu matarei o Pastor, e as ovelhas se dispersarão” (Marcos 14:27). E assim foi. 

Ora, não estando os irmãos ao pé da Cruz é completamente normal o Senhor Jesus, como sendo “o filho primogénito” da família, assegurar o amparo da mãe antes da Sua partida como um bom filho faria em situações semelhantes (importa ainda salientar que, nesta altura, José, marido de Maria, teria morrido. Ela já se encontrava viúva). E mais, de forma analógica, o Direito Sucessório e o Testamento do “de cujus” (falecido) muitas vezes não contemplam os herdeiros legitimados sem, contudo, traduzir automaticamente que o falecido não tenha tido filhos ou outros elementos familiares que possam ter um papel preponderante nos seus negócios ou património. Por isso, a postura que o Senhor Jesus tomou na Cruz para proteger a Sua debilitada e desamparada mãe não deve ser entendida como se não tivesse outros familiares, ou irmãos, para cuidar dela, mas tão simplesmente pela força das circunstâncias e, deste modo, reforçar definitivamente o amparo da Sua pobre mãe. 

A Igreja Católica, refugiando-se no seu preconceito teológico-doutrinário, não quer reconhecer esta manifesta verdade, mesmo indo contra todas as evidências teológicas. Sabe que a partir do momento em que admitisse a união marital de Maria e José colocaria em causa a sua divinização. Isto porque o sexo em muitos círculos católicos é algo visto com bastante reservas. “O pecado original”, como é designado primeiramente pelo santo Agostinho, entrou no mundo por via da sexualidade. A libido e os desvelos que o ser humano normalmente tem com as regiões pudendas são as manifestações visíveis da vergonha que procedem do castigo, encerrava peremptoriamente o Doutor da Igreja na sua afamada obra “Cidade de Deus”. E para justificar esta sua tese com a ordem dada a Adão e Eva no sentido de frutificarem e multiplicarem a Terra em Genesis 1:28, através do sexo e da sexualidade, santo Agostinho sustentava o seguinte para fazer valer a sua questionável doutrina: «está muito longe de nós o pensamento de que aqueles esposos colocados no Paraíso teriam de realizar, mediante esta paixão libidinosa (libido), de que viriam a envergonhar-se tapando as regiões pudendas, aquilo que Deus prometeu na sua bênção: Crescei a multiplicai-vos e enchei a terra. (…) Na ordem natural a alma sobrepõe-se ao corpo; todavia, a alma tem mais fácil domínio sobre o corpo do que sobre a si própria. Todavia, esta paixão libidinosa, de que agora estamos a tratar, excita a vergonha tanto mais quanto mais o espírito nem se mostra capaz de a si próprio se dominar eficazmente para se não deixar deleitar inteiramente nessa paixão, nem sobre o corpo tem pleno domínio para que seja precisamente a vontade (e não a paixão) a excitar as regiões vergonhosas: se assim fosse já nem seriam vergonhosas.»[4]

Há assim uma carga bastante negativa do sexo e a sexualidade na teologia do bispo de Hipona, levando-lhe inclusive a associá-lo com a libidinosidade, e consequentemente a censurá-lo. E toda esta doutrina vai ter fortes implicações práticas na forma peculiar como a Igreja Católica encara e aborda o sexo, sobretudo negando em última instância o seu carácter de fruição, reduzindo-o stricto sensu à procriação. Portanto, a problemática sobre a intransigente oposição do Vaticano ao uso de métodos contraceptivos entre os casais, no âmbito matrimonial, só poderá ser holisticamente compreendida no “Pecado Original” formalizado por santo Agostinho. E para ilibar Maria do referido “pecado original”, elevando-a ao título de “Virgem Santíssima” e “Mãe de Deus” era importante dissociá-la do vírus do pecado de Adão e Eva, que se contrai no sexo segundo o Vaticano, caso contrário ela não seria merecedora de tais proeminentes títulos celestiais. Não subscrevemos tais heresias. Não há margem para dúvidas, usando as acertadas palavras da Declaração de Fé Baptista Portuguesa, que “Deus criou o homem, concedendo-lhe a prerrogativa de fecundidade, fertilidade e natalidade, permitindo-lhe a multiplicação da espécie humana, povoando e dominando a Terra. Deus não condena o ato sexual em si, mas a prática sexual desgovernada, sem limites e sem princípios divinos. (...) A atração física, emocional e o verdadeiro amor no casamento são condições indispensáveis para uma sexualidade abençoada” (LER)

A Igreja Católica, através dos seus documentos oficiais ratificados em vários concílios ao longo dos séculos, vai mesmo ao ponto de sustentar que “a Virgem Imaculada” foi preservada imune de toda a mancha da culpa original. O Concílio Ecuménico Vaticano II, um dos mais importantes concílios do catolicismo, reduzia que “a Virgem Maria, que na anunciação do Anjo recebeu o Verbo no coração e no seio, e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus Redentor. Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu filho, e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predilecta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva a vantagem a todas as demais criaturas do céu e da terra”[5]. Por isso, terminado o seu curso da vida terrena, ela “foi elevada ao céu em corpo e alma e exaltada por Deus como rainha, para assim se conformar mais plenamente com seu Filho, Senhor dos senhores (cfr. Apoc. 19, 16) e vencedor do pecado e da morte (…) exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e homens, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial”[6]. Ela, Maria, de forma abreviada, segundo ainda a tradição Católica, não teve pecado algum e consequentemente não esteve sujeita à corrupção carnal, razão pela qual foi levada directamente ao Céu, sem passar pela morte. 

É isto, em suma, a descabida doutrina da divinização de Maria, que se vai traduzindo no culto mariano. Vemos assim, que a Igreja Católica para concretizar esta falaciosa doutrina desdobra-se, em primeiro lugar, a tentar justificar o injustificável, isto é, considerando que Maria é uma criatura completamente diferente dos outros eleitos filhos de DEUS, por não herdar o “pecado original” e, por sua vez, não ter qualquer tipo de relação sexual depois do nascimento do Senhor Jesus, bem como adornando-a com o título de “Santíssima Mãe de Deus” e merecedora do culto e veneração de todos os Cristãos. Para cobrir ainda esta flagrante inverdade com a revelação bíblica vai ao ponto de colocar na oração de “Ave Maria” acrescentar palavras que o anjo não disse no texto sagrado de Lucas 1-26-38 – para, deste modo, ajustar este mito do culto mariano a doxologia “Santa Maria, mãe de Deus, / Rogai por nós pecadores, / Agora e na hora de nossa morte. /Amém”. Esta doxologia não está em lado algum na Palavra de DEUS. 

Todas essas formulações doutrinárias e dogmas não têm qualquer tipo de base bíblica, insistimos. Não passam de ardilosas construções teológicas da Igreja Católica para ludibriar as pessoas que desconhecem holisticamente a revelação da Palavra de DEUS, tal como supra sublinhámos. É verdade que Maria teve um papel importantíssima e determinante no ministério terreno do Senhor Jesus, sendo escolhida por entre todas as mulheres (Lucas 1:28), passando assim a ser chamada em todas as gerações “bem-aventurada” (Lucas 1:48). Nada mais que isso. A própria Maria teve completa noção disso. Tanto que, por esta razão, ao longo da sua peregrinação neste “presente século mau”, ela “guardava todas estas coisas no seu coração e meditava nelas, (Lucas 2:19), dando assim um poderosíssimo testemunho de fé. Maria foi um verdadeiro exemplo para todos nós, os santos filhos de DEUS. Esteve incondicionalmente com o Senhor Jesus desde o começo até ao fim. Sofreu terrivelmente ao ver o seu filho a ser humilhado e morto de formam horrenda (Lucas 2:35), mesmo assim não perdeu a compostura e, tão pouco, a fé nas infalíveis promessas Divinas. Mostrou-nos, com o seu grande testemunho de vida, que vale a pena confiar e saber esperar em DEUS a nossa salvação, mesmo quando estivermos a atravessar o “vale da sombra da morte” ELE estará sempre connosco para nos dar a vitória, tal como prometeu na Sua Palavra (Romanos 8:31-39). E todos os filhos de DEUS, os autênticos Cristãos, têm a obrigação de seguir o belo exemplo de vida de Maria e reconhecê-la como uma verdadeira heroína da fé. Agora, transcender este raio de compreensão e querer colocá-la na posição da Santíssima Trindade, como faz a Igreja Católica, é uma tamanha heresia e grande fraude espiritual que jamais compactuaremos. 

Que o nosso Eterno DEUS nos ajude a não cair nessas desgraças espirituais, mas sim que a palavra de Cristo possa continuar sempre a habitar em nós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-nos e admoestando-nos, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em nosso coração. E tudo quanto fizermos por palavras ou por obras, façamos unicamente em nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai (Colossenses 3:16-17). Que assim seja. E assim sempre será pela fé no nome Bendito de Jesus Cristo. 


[1] George Eldon Ladd, in Teologia do Novo Testamento, p. 212 e 213, Editora, Hagnos, São Paulo, 2003. 

[2] Joseph Aloisius Ratzinger, in Jesus de Nazaré [Infância de Jesus], p. 62 e 63, Editora, Planeta, 2013.

[3] Segundo alguns testemunhos recolhidos diziam que Maria viveu sob cuidados do Apóstolo João, em Jerusalém, durante onze anos, e morreu. Outros dizem que ela viveu mais tempo, chegando a acompanhá-lo até Éfeso.

[4] Santo Agostinho, in A Cidade de Deus [Volume II], p. 1299; 1304, Fundação Calouste Gulbenkian.

[5] Concílio Ecuménico Vaticano II [Documentos Conciliares e Pontifícios], p. 107, Editorial. A. O – Braga, 1992

[6] Concílio Ecuménico Vaticano II [Documentos Conciliares e Pontifícios], p. 110 e 112, Editorial. A. O – Braga, 1992.

Os Equívocos Teológico-doutrinários sobre a Ceia do Senhor I


A Ceia do Senhor, à semelhança do Baptismo, faz parte do sacramento deixado pelo Senhor Jesus Cristo antes da Sua gloriosa assunção. É um ritual que nos remete indubitavelmente ao sacrifício expiatório do Messias em favor dos eleitos de DEUS e aponta-nos futuramente para o grande banquete celestial das “bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:9). Foi expressamente narrada nos Evangelhos e também na 1 Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios 11:23-32, confirmando assim o carácter importante que ela reveste na história e vida da Igreja. A Ceia do Senhor, de forma subsumida e abreviada, segundo a profissão da Fé Baptista Portuguesa, “é um acto de obediência pelo qual os membros da Igreja participam do pão e do vinho, comemorando juntos a morte de Jesus Cristo e apontando para a sua segunda vinda. Esta ordenança da igreja local representa também a nossa comunhão espiritual com Ele, a nossa participação na sua morte e o testemunho vivo da nossa esperança”. 

Não há, no entanto, patente divergência no meio Cristão sobre o seu sentido teleológico e teológico. A querela doutrinária prende-se, mais, sobretudo, com a sua datação, os elementos contidos nela e como se deve ajustar ao dinamismo da Igreja, razão pela qual procuraremos humildemente tentar descortinar estas seculares divergências e equívocos teológico-doutrinários. Apesar disso, não tencionámos abordar a aparente contradição na datação seguida pelos Evangelhos sinópticos e o Evangelista João, sem prejuízo obviamente da pertinência que o debate em apreço comporta. A primeira narrativa reduzida a escrito sobre a Ceia do Senhor foi a do Apóstolo Paulo que, nas sugestivas palavras de alguns reputados biblistas, terá sido posteriormente seguida pelo evangelista Lucas, diferentemente da narrativa de Marcos que Mateus seguiu. As quatro narrativas não diferem umas das outras no seu substrato teológico. Apenas evidenciam algumas diferenças pontuais que, a nosso ver, têm mais a ver com o estilo literário dos referidos autores. Por isso, não tencionámos destacar os dois modelos descritivos sobre a Ceia do Senhor, visto que ambos convergem manifestamente no seu núcleo e alcance soteriológico. 

O Apóstolo Paulo, o primeiro autor sagrado a escrever sobre esta importantíssima temática eclesiástica, que Lucas seguiu, insistimos, dizia expressamente: “porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha (1 Coríntios 11:23-26). O Evangelista Mateus, por sua vez, seguindo na mesma esteira do pensamento de Marcos sobre esta nobre ordenança, escrevia nestes termos: “e, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai. E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mateus 26:26-30). Os intérpretes bíblicos, ao longo da História do Cristinismo, têm questionado de que forma o Apóstolo Paulo terá “recebido” do Senhor a narrativa sobre a última Ceia. Alguns admitem a possibilidade de ter sido através de revelação directa (2 Coríntios 12:1-4; Gálatas 1:12). Outros, com um entendimento diferente, sustentam que Paulo recebeu as palavras da Ceia no seio da comunidade primitiva, oriunda dos discípulos. Tendemos mais para este último entendimento. É o que nos parece mais plausível. Apesar de argumentos e contra-argumentos que se poderão invocar sobre as duas leituras, a verdade é que o Apóstolo Paulo “recebeu” do Senhor e fidedignamente “entregou” a Igreja às sagradas instruções, sem adulterá-las. Já quanto às fontes do Evangelista Marcos não se levantam grandes questões. Os estudiosos não têm margem de dúvida que foi através do Apóstolo Pedro. Papias, Bispo de Hierápolis e mártir da Igreja no segundo século, refere-se a Marcos como o “interprete de Pedro”

Depois desta breve consideração, importa enumerar as três clássicas posições doutrinárias predominantes sobre o sentido dos elementos pão e vinho na Ceia do Senhor. Desde logo, a tese da “Transubstanciação”. Ela foi abraçada, desde muito cedo, pela Igreja Católica Romana. Preconiza que o pão e o vinho tornam-se realmente o corpo e o sangue de Cristo – a eucaristia. Tal acontece quando o sacerdote diz: “isto é o meu corpo” durante a celebração da missa. Quando o sacerdote diz isso, escreve Wayne Grudem na sua Teologia Sistemática, “o pão é levantado (elevado) e adorado. Esse acto de elevar o pão e de pronunciá-lo corpo de Cristo só pode ser feito por um sacerdote”. Quando isso acontece, segundo a doutrina católica, concede-se graça aos presentes ex opere operato, isto é, “realizada a obra”, mas a quantidade de graça dispensada ocorre em proporção à disposição subjectiva de quem recebe a graça. Além disso, toda vez que se celebra a missa, o sacrifício de Cristo é repetido (em algum sentido) e a igreja católica é cautelosa em afirmar que se trata de um sacrifício real, embora não corresponda ao sacrifício que Cristo fez na cruz. O Reformador Martinho Lutero demarca-se deste dogma do Vaticano, formulando a tese da “Consubstanciação”, isto é, que o pão e o vinho não se transformam, de facto, no corpo e sangue do Senhor Jesus, mas ganham o seu cunho. Por outras palavras, o corpo do Senhor Jesus está presente através das preposições “em”, “com” e “sob” o pão e o vinho da Ceia do Senhor. Acontece que, por razões de divergências doutrinárias, a generalidade dos teólogos Evangélico-protestantes discordam liminarmente de Lutero e da Igreja Católica, formulando um entendimento diferente que consiste na doutrina da “Substanciação”, ou seja, que os elementos contidos na Ceia do Senhor não passam meramente da presença simbólica e espiritual do Senhor Jesus. Este é o entendimento que ganha mais relevo e acolhimento favorável no mundo Evangélico-protestante. 

A nosso ver a doutrina da “Transubstanciação” defendida pela Igreja Católica Romana não tem qualquer tipo de suporte bíblico, uma vez que se limita apenas a fazer uma interpretação literal das palavras do Senhor Jesus sobre os elementos da Ceia. Uma interpretação, segundo as regras da hermenêutica, não deve cingir-se unicamente à letra. Deve procurar através da letra o espírito do autor, “pois a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6).  Quando o Senhor Jesus afirma: “isto é o meu corpo e sangue”  estava apenas a usar de uma análise analógica, tal como tem feito ao longo de todo o Seu ministério terreno, nomeadamente nas afirmações “eu sou o pão da vida”(João 6:48-59), “eu sou a porta” (João 10:9), “eu sou o bom pastor” (João 10:11-16), “eu sou a luz do mundo” (João 12:8), “eu sou o bom pastor”, “eu sou o caminho, e a verdade e a vida” (João 14:6), respectivamente. É nesta lógica que as palavras “isto é o meu corpo e sangue” devem ser enquadradas, extraindo depois as verdades salvíficas que elas encerram. E mais, há ainda uma tamanha incongruência da Igreja Católica de não servir o vinho aos seus fiéis, limitando-o apenas aos sacerdotes, entrando assim em flagrante contradição com o sentido da sagrada ordenança – que é para todos e de todos os fiéis. 

Quanto à tese da “Consubstanciação” também fica bastante aquém. O argumento esgrimido que o pão e o vinho não se transformam no corpo e sangue do Senhor Jesus, mas ganham o Seu “cunho” é um raciocínio falacioso. Desde logo, sabemos que DEUS é Omnipresente e “toda a terra está cheia da sua glória” (Isaías 6:3). Porque, tal como dizia o Senhor Jesus, “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:20), confirmando assim a presença constante do Senhor Jesus nas nossas vidas, bem como em todo o Universo. Logo, nesta ordem de pensamento, podemos concluir que todas as coisas de alguma certa forma ganham “cunho” da presença do Senhor Jesus, sem cairmos no erro de julgar que os elementos da Ceia acompanham o corpo do Filho de DEUS. E, por fim, a tese da “Substanciação” parece-nos, em abono da verdade, ser a que se coaduna melhor com a afirmação do Senhor Jesus. O pão e o vinho não passam exclusivamente de meros elementos. Não mais que substâncias que foram usadas pelo Senhor Jesus para transmitir a grande verdade soteriológica sobre a Santa Ceia, razão pela qual subscrevemos integralmente esta tese: há apenas a presença simbólica e espiritual do Senhor Jesus na Ceia. Os elementos pão e vinho não sofrem nenhuma metamorfose. Apenas servem como ilustração daquilo que o Senhor Jesus fez por nós. Julgamos que, sem qualquer tipo de hesitação prévia, é assim que os discípulos interpretaram as analógicas palavras do Senhor Jesus sobre o pão e o vinho. 

A Questão do Livre-arbítrio


O livre-arbítrio é um termo bastante riquíssimo nos seus múltiplos significados etimológicos, filosóficos e teológicos que atraiu ao longo dos séculos. Talvez seja por esta razão que tem despertado o interesse dos grandes pensadores que marcaram profundamente a nossa História Universal. O debate sobre as implicações práticas do termo começou precisamente com Santo Agostinho de Hipona e demais filósofos coevos. Ganhou posteriormente mais relevo e projecção mediática com o Protestantismo do Séc. XVI e no pensamento escolástico de Guilherme de Ockham. Este, por sua vez, tal como dizia um ilustre desconhecido, “santificava” completamente a vontade humana e a liberdade individual em detrimento de qualquer tipo de realidade subjacentes ao ser humano. Com os moralistas do séc. XVII e XVIII tudo ficou diferente. O livre-arbítrio passou a ser objecto de rigorosa avaliação não apenas por aquilo que representa do ponto de vista humano-filosófico, mas também pelo fim que visa atingir em termos práticos e como este é atingido. É no âmbito destas maleáveis construções doutrinarias e dogmáticas que surgiu Immanuel Kant que veio relançar decisivamente o debate, rejeitando a priori a ênfase perfeccionista do conceito. Para Kant “a boa vontade não é boa por aquilo que promove ou realiza, pela aptidão para alcançar qualquer finalidade proposta, mas tão-somente pelo querer, isto é em si mesma, e, considerada em si mesma, deve ser avaliada em grau muito muito mais alto do que tudo o que por seu intermédio possa ser alcançado em proveito de qualquer inclinação, ou mesmo, se se quiser, da soma de todas as inclinações”[1]. Vai, com efeito, nesta ordem de ideias, traçar o conceito do “dever ser” como a única máxima de todo o conteúdo moral, concluindo peremptoriamente que qualquer acção que não seja revestida do “imperativo categórico” não passa de uma intenção meramente egoísta, desprovida de qualquer significado valorativo do ponto de vista humano-social. 

Da nossa parte, não se pode falar do livre-arbítrio sem primeiramente falar da liberdade, do voluntarismo e da autodeterminação. E falar destes três conceitos concomitantemente torna o problema ainda mais complexo e de difícil posicionamento, uma vez que envolve vários mistérios que, as mais das vezes, não conseguimos penetrar e, muito menos, decifrar na íntegra. Do livre-arbítrio e auto-determinação do Homem pode-se esperar tudo. Desde a aparente encarnação de excelentes virtudes morais, que consubstanciam as práticas de boas obras, até aos actos individualistas que visam unicamente mera auto-promoção, ou até mesmo, em circunstâncias anormais, de actos bárbaros contra o próximo e a Humanidade em geral. 

Confessamos publicamente aqui que somos bastante cépticos em relação à boa vontade humana. Não acreditamos minimamente nela, ou seja, na sua impoluta moralidade, razão pela qual nos identificamos plenamente com a concepção Calvinista da “depravação total” do Homem, que posteriormente veio a ser acolhida pelo excomungado Bispo de Ypres, Cornelius Jansen, conhecido doutrinalmente pelo “Jansenismo”, que consiste na limitação e impossibilidade do Homem só por si ter suficientes capacidades de praticar o bem na sua imaculada essência. Somente beneficiando da Graça Redentora de DEUS, através da morte expiatória do Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário, que o Homem tem a faculdade plena de poder praticar o bem. Por isso, seguindo a mesma esteira do pensamento, o Monargismo vai sustentar que a regeneração espiritual dos Homens depende exclusivamente do Espírito Santo, independentemente da boa vontade humana, diferentemente das teses do Sinergismo que faz a apologia da liberdade individual, defendendo que o Homem tem participação na obtenção da sua salvação e da graça Divina, através do Livre-arbítrio (um entendimento que é amplamente abraçado pelos círculos pentecostais e neo-pentecostais, através da influência teológica da corrente arminiana). 

O livre-arbítrio do Homem está inteiramente manchado pelo pecado original de Adão e Eva no início da criação no jardim do Éden (LER), levando-o a ficar bastante aquém do ideal da sua boa vontade. Se avaliarmos, cuidadosamente, ao ínfimo pormenor, todas as acções do Homem logo chegaremos à sábia conclusão de que ela está sempre viciada de egoísmo, contrapartidas, ganância, calculismo, hipocrisia, vaidade, auto-promoção, etc., sem prejuízo, obviamente, de se ter em conta nesta análise os pressupostos valorativos que as sociedades convencionam e traçam como o “modelo ideal” de “acções legítimas” a seguir nos relacionamentos com os terceiros. 

O livre-arbítrio do Homem, em suma, é completamente condicionado e submetido à manifesta vontade Divina. Não acreditamos na suficiência dele ao ponto de proporcionar ao Homem a libertação soteriológica, visto que está maculado, insistimos, tal como supra sustentamos.  É nestas indubitáveis formulações que entendemos e desenvolvemos a liberdade individual de cada ser humano, independentemente da sua raça, condição de vida ou estatuto social que vai ostentando na sua convivência diária (LER)


[1] Immanuel Kant, In Fundamentação da Metafisica dos Costumes, p. 23, Edições 70, Lisboa, Portugal, 2005.