Venho
novamente hoje dar sequência à minha rúbrica habitual em defesa do futuro da
Guiné-Bissau. Pretendo continuar nesta senda de reflexão sobre a problemática,
os desafios, os dilemas, as contradições e as contrariedades que as mulheres
guineenses enfrentam no seu quotidiano, aproveitando também o ensejo do mês de
março, consagrado à celebração da mulher.
O tema que
trago hoje prende-se com uma questão pertinente: será que a mulher guineense é,
de facto, emancipada? A minha resposta é, claramente, negativa. Não considero
que a mulher guineense seja verdadeiramente emancipada. Quando falamos de
emancipação, devemos ter em conta pressupostos fundamentais como a autonomia e
a autodeterminação. Estes conceitos desdobram-se em várias dimensões da vida
humana, começando, desde logo, pela emancipação intelectual.
A
emancipação intelectual traduz-se na capacidade de uma pessoa compreender o que
está em jogo, reconhecer os interesses que a rodeiam e, a partir daí, tomar
decisões mais acertadas e conscientes para a sua vida. Em suma, trata-se de
decidir o próprio futuro de forma esclarecida e livre de manipulação. Assim,
uma pessoa intelectualmente emancipada é capaz de fazer escolhas informadas e
responsáveis.
Ora, não
considero que a generalidade das mulheres guineenses esteja intelectualmente
emancipada. Tal condição exige, entre outros fatores, o acesso à educação,
sendo que muitas mulheres ainda são privadas desse direito básico. A negação da
instrução condiciona a liberdade, sobretudo no que diz respeito à capacidade de
fazer escolhas conscientes e autónomas. Como consequência, a mulher continua,
muitas vezes, a ser manipulada, instrumentalizada e relegada para um plano
secundário nas relações com o homem.
Neste
contexto, a mulher guineense tende a viver em função do homem, ajustando as
suas expectativas, esperanças e projetos de vida à figura masculina,
frequentemente idealizada como a fonte da sua felicidade. Desde tenra idade,
muitas são incutidas com a ideia de que devem encontrar um homem – de
preferência poderoso e financeiramente estável – que lhes proporcione
realização. Assim, a sua felicidade é frequentemente associada à presença
masculina, o que limita a sua autonomia.
Este
paradigma impede a verdadeira emancipação intelectual. Uma mulher
verdadeiramente emancipada não aceitaria, por exemplo, situações de abuso,
violência ou violação. Contudo, verifica-se que tais práticas são, por vezes,
toleradas ou até legitimadas. Recordo que, em certos contextos, comportamentos
violentos eram interpretados como manifestações de amor, o que evidencia uma
profunda distorção de valores. Sabemos, porém, que o amor se expressa através
do respeito, do cuidado, da consideração e do afeto – nunca pela violência.
Para além
da dimensão intelectual, importa considerar a emancipação financeira. Também
neste domínio, a mulher guineense, de forma geral, ainda não se encontra
plenamente emancipada. Mesmo quando trabalha e aufere rendimento, persiste a
ideia de que o homem deve assumir o papel de provedor principal, o que gera
dependência económica.
Essa
dependência leva muitas mulheres a aceitar situações de desrespeito, traição ou
violência, por receio de perder o suporte financeiro. Assim, o poder económico
do homem acaba por reforçar relações desiguais, nas quais a mulher se vê
condicionada a manter o silêncio ou a tolerar comportamentos prejudiciais.
Mesmo entre mulheres instruídas, esta mentalidade ainda persiste, revelando que
a emancipação financeira não se resume apenas à obtenção de rendimento, mas
também à mudança de mentalidade.
Outra
dimensão essencial é a emancipação sexual. Neste aspeto, verifica-se igualmente
que a mulher guineense ainda enfrenta fortes limitações. A sua sexualidade é
frequentemente vivida em função do homem, orientada para satisfazer os seus
desejos, enquanto o prazer feminino continua a ser um tabu.
Práticas
como a mutilação genital feminina constituem exemplos extremos dessa realidade,
representando uma grave violação dos direitos humanos e da dignidade da mulher.
Mesmo fora desses casos, muitas mulheres são socializadas para não reconhecer
ou reivindicar o seu próprio prazer, sendo frequentemente estigmatizadas quando
o fazem. Deste modo, a mulher continua, em muitos casos, a viver a sua
sexualidade de forma condicionada, sujeita a normas sociais que favorecem o
homem e reprimem a sua autonomia.
Em suma, só
se poderá falar de verdadeira emancipação da mulher guineense quando esta se
concretizar nas dimensões intelectual, financeira e sexual. Estas três
vertentes são fundamentais para que a mulher possa exercer plenamente a sua
liberdade e autodeterminação.
A
emancipação intelectual permite-lhe compreender e decidir com consciência; a
emancipação financeira liberta-a da dependência económica; e a emancipação
sexual assegura-lhe o direito de viver a sua intimidade com liberdade e
dignidade.
Contudo,
importa referir que, nos dias de hoje, tem-se falado cada vez mais em
“empoderamento” em vez de “emancipação”. Isto porque não basta possuir, em
teoria, certas condições – é necessário que a mulher tenha também a capacidade
prática de agir, decidir e afirmar-se.
Apesar de
alguns progressos, sobretudo ao nível da educação, muitas mulheres continuam a
viver em função do homem, acreditando que a sua felicidade depende dele. No
entanto, a verdadeira felicidade reside no próprio indivíduo. As relações devem
acrescentar valor, e não servir como única fonte de realização pessoal.
Por fim,
importa sublinhar que o caminho para a emancipação passa, inevitavelmente, pela
educação. É através dela que se promove a consciência crítica, a autonomia e a
capacidade de transformação social. Só com investimento sério na educação será
possível alcançar uma sociedade mais justa, onde a mulher tenha igualdade de
oportunidades, liberdade e dignidade.
Em
conclusão, considero que a mulher guineense ainda não é plenamente emancipada.
Há progressos, sem dúvida, mas o caminho a percorrer continua a ser longo. É
necessário continuar a lutar por uma verdadeira igualdade, onde a mulher possa
exercer plenamente os seus direitos, viver com liberdade e alcançar a sua
realização pessoal.
Fico por
aqui. Até uma próxima ocasião, se Deus quiser.
Hoje é o Dia Mundial da
Mulher. Ser mulher no nosso hostilizado, cruento, machista e injusto mundo não
é uma tarefa nada fácil. Comporta enormíssimos riscos e obstáculos que,
nalgumas circunstâncias, são bastantes penosas e inultrapassáveis. O pior ainda
é ser mulher africana. A mulher africana carrega dolorosamente sobre si todas
as desgraças deste maldito mundo – e com todas as implicações humano-sociais
que isto acarreta no seu quotidiano e na sua autodeterminação. Continua ainda
arbitrariamente a ser reduzida cegamente à ignorância, à objectificação, ao
abuso, à miséria, à prostituição, à violação e à violência, etc.
Por isso num dia como o
de hoje, em que celebra “O Dia Internacional da Mulher”, impõe-se uma genuína
reflexão a todos os Homens de “boa vontade” no sentido de contribuir
resolutamente para uma cabal melhoria da condição humilhante e deplorável em
que se encontram a generalidade daquelas que constituem as nossas esposas,
mães, avós, filhas, irmãs, tias, primas, companheiras e exclusivamente
mulheres.
Quero, por ocasião do
nobre espírito deste dia, através das mulheres africanas, estender
amigavelmente os meus profundos votos de reconhecimento e de um futuro ditoso
para todas as nossas valentes mulheres em geral, esperando com fé que possam
num futuro breve libertarem-se definitivamente do jugo opressor masculino em
que são votadas ao longo dos séculos. Que assim seja.
Falar do substrato identitário da mulher
guineense não é uma tarefa nada fácil, tendo em conta a heterogeneidade que ela
encerra nas suas várias mundividências. E esta heterogeneidade remete-nos indubitavelmente
para as considerações antropológicas, sociológicas, culturais e etnológicas
para podermos aferir com precisão os pressupostos valorativos que caracterizam
a multiforme configuração da mulher guineense (LER).
Não vamos, naturalmente, atermo-nos a
todas essas idiossincrasias nesta nossa breve crónica. Apenas procuraremos
cingir a condição da mulher moderna guineense, isto é, as que tiveram a
oportunidade de minimamente estudarem e, consequentemente, aculturarem-se.
Mulheres que, no bom crioulo, são apelidadas como “ku panhá pé” (esclarecidas,
bem entendido). A parte significativa delas vive em Bissau, nas grandes cidades
do nosso país e na diáspora em particular. São ainda mulheres que conseguiram
absorver muito bem a cultura misógina e machista do nosso país e,
concomitantemente, do mundo ocidental (LER).
Por outras palavras, são mulheres formatadas nesta dupla realidade
sociocultural, razão pela qual costumam autoproclamar-se ou de serem apelidas
de mulheres “civilizadas” (LER).
Apesar desta híbrida experiência cultural
que as mulheres modernas guineenses adquiriram, ao longo dos anos de vida,
comparativamente com a maioria das nossas indoutas “donas di casa” ou “mindjeris garandis”, mesmo
assim elas têm ficado bastante aquém a nível comportamental. Isto porque muitas
delassão mulheres levianas, fúteis, gananciosas, aproveitadoras,
materialistas, interesseiras, promíscuas e sem escrúpulos; mulheres que vivem
acima de tudo pela conveniência circunstancial e de convergências de
interesses, ignorando deliberadamente as virtudes da dignidade humana e da
emancipação feminina.
A mulher moderna guineense, por ser
bastante astuta na sua articulação e actuação, procura sempre tirar dividendos
das duas realidades culturais que lhe estão intrinsecamente subjacentes.
Somente usam a cultura guineense para tirar contrapartidas em relação ao homem,
nomeadamente quando este lhe sustenta os seus ávidos luxos e insaciáveis vícios.
Da mesma sorte, quando lhe convém enveredar pela libertinagem e
autodeterminação, à revelia do homem, daí é que se lembra de fazer uso das
prerrogativas da sua vertente cultural pós-moderna.
A generalidade da mulher moderna guineense
de modernidade não tem nada. São mulheres que ainda não conseguiram
interiorizar bem o conceito do feminismo igualitário e da emancipação feminina,
não obstante passarem inutilmente a ideia de assimilação neste sentido e de
comungarem da cultura ocidental. A emancipação, para ser realmente uma
verdadeira emancipação, deve contemplar, desde logo, a emancipação intelectual,
a emancipação financeira e a emancipação sexual – emancipações essas de que a
mulher moderna guineense está manifestamente desprovida (VER).
A título exemplificativo, para testar a
nossa afirmação: como é que é possível uma mulher arrogar-se de emancipada se
não consegue pensar pela sua própria cabeça ou reduzir a sua felicidade a um
homem endinheirado que case com ela e lhe faça feliz? Não será inconcebível uma
mulher achar-se de emancipada se se relaciona ainda com os homens a troco de
uns míseros tostões, convertendo o seu corpo numa clara prestação de serviço?
Como é que é possível uma mulher julgar que ela é emancipada quando reduz a sua
sexualidade aos caprichos egoístas do homem, consentindo sobretudo a este actos
de infidelidade conjugal, violência doméstica e outras práticas infames?
Mulheres que não têm nenhumas reservas ou pudor em pedir dinheiro aos seus
parceiros para alimentarem as suas extravagâncias do dia-a-dia, nomeadamente viajar,
comprar o carro, a roupa, as jóias, o cabelo humano, o telemóvel e, em suma,
sustentar as suas polutas mordomias.
A realidade da mulher moderna guineense é
tudo isto que acabamos de reportar. Uma realidade aviltante e triste a que elas
deliberadamente se submetem a troco de uma vida confortável, que os seus
parceiros lhes vão dando. Uma vida manifestamente votada ao objecto de prazer
nas mãos dos grunhos homens e de completa humilhação. Toleram tudo e mais
alguma coisa, sobretudo a ofensa à integridade física e psicológica, para
continuarem a ter mordomias e, desta forma, manter o status social de
cinderelas.
Ora, isto não é ser emancipada e tão pouco
moderna. É circunscrever-se meramente à promiscuidade sexual e à prostituição
do corpo, uma vez que tudo é baseado em interesses financeiros à revelia do
genuíno amor que deveria caracterizar um casal (LER).
Ser uma pessoa moderna é ser, acima de tudo, autossuficiente em todas as
dimensões do trato social.
A autonomia e autodeterminação da mulher,
importa ainda salientar, foi um dos grandes postulados axiológicos defendidos
na génesis dos movimentos sufragistas do século XIX e unanimemente reconfirmada
pelos feministas dos nossos dias contemporâneos, que visam máxime a igualdade
entre o homem e a mulher em todas as dimensões, circunstâncias e esferas da
vida (LER).
E esta igualdade, no entanto, só se alcança com a verdadeira emancipação da
mulher, com vista a permiti-la libertar-se definitivamente do jugo opressor do
homem.
Por isso, a mulher tem de consciencializar
que a sua felicidade depende unicamente dela e não colocar toda a sua esperança
num putativo “homem da sua vida”. Deve também trabalhar e estar à
altura de pagar as suas contas. Se for, porventura, casada tentar partilhar
despesas da casa com o seu marido para, deste modo, ganhar plenamente a
liberdade dentro do lar e poder estar em condições normais de exigir o marido aquilo
que entender ser o mais justo na família – e não ficar numa condição de subalternidade, tal
como a generalidade das nossas mulheres “ku panhá pé” têm sido
relegadas (LER).
Qualquer relacionamento humano, a nosso ver, deve ser pautado pela
complementaridade e não pelo aproveitamento circunstancial, monetária ou
momentânea.
A mulher moderna guineense não tem a
mínima desculpa por este censurável comportamento leviano e promiscuo, que tem
deliberadamente adoptado no seu dia-a-dia ao longo dos anos, diferentemente das
nossas heróicas mães e avós que infelizmente foram vedadas à oportunidade de
estudarem e de se relacionarem com a cultura pós-moderna, fazendo com que se
limitem apenas à condição de domésticas e donas de casas. Mesmo assim, apesar de
tudo isto, são mulheres de família, honradas, trabalhadoras e com dignidade;
que não andam a saltitar de parceiros até encontrarem o homem endinheirado que
lhes fazem singrar na vida, não obstante as muitas e infindáveis falhas dos
seus maridos. São mulheres que vivem exclusivamente para a família e somente
para a família; mulheres que se desdobram em “sete ofícios” para
conseguirem o ganha-pão para as suas famílias, razão pela qual continuam a ser
o baluarte moral e a esperança das famílias guineenses. São, em suma, “mindjeris
ku finka pé rissu na tchon!”.
A generalidade da mulher moderna
guineense, para desgraça da nossa sociedade em geral, é uma despudorada,
viciada e autêntica depravada nos costumes e valores éticos-morais, uma vez que
conseguem assimilar o pior da cultura ocidental e, ao mesmo tempo, o pior da
cultura misógina e machista dos guineenses (ALI)e (AQUI).
Comportamentos estes que, de todo, em abono da verdade, não se coadunam com o
progressismo da pós-modernidade, que elas inutilmente reclamam encarnar. Um
autêntico paradoxo!
Partilho
aqui o vídeo do debate que tive no ano passado com a nossa “Dama de Ferro” Sali Mané
Semedo, sob o tema: “Qual é a Fronteira entre a Prostituição, Violação e
Pedofilia na Guiné-Bissau?” A fronteira é bastante ténue. Por isso, procurei
fazer um enquadramento cultural daquilo que é a mundividência da sociedade
guineense sobre as três complexas realidades. Na temática da prostituição fiz a
destrinça entre a prostituição num conceito lato sensu e o lenocínio. Na
violação abordei a problemática de “bafa mindjer”, os apalpões com que,
infelizmente, algumas mulheres se confrontam no espaço público e o assédio
sexual (tanto no plano laboral como no plano social), demonstrando que a
sociedade guineense não concebe os dois últimos como crimes, isto é, os
apalpões e o assédio sexual.
Já na
questão da Pedofilia, que foi a parte que mais gerou querelas dos
intervenientes, falei das implicações jurídicas da idade da maioridade civil, a
idade de consentimento sexual e a maioridade sexual, bem como a definição que a
sociedade guineense atribui à pedofilia, concluindo que a envolvência sexual
com as ditas “catorzinhas” não consubstanciam, na nossa sociedade, um acto de
pedofilia, tal como é entendido na generalidade do mundo Ocidental. Isto
porque, a autodeterminação sexual, na sociedade guineense, afere-se com as
transformações fisiológicas que os meninos e as meninas vão tendo no seu
percurso de vida. Naqueles através do aparecimento de pelos púbicos e alteração
da voz. Nestas com o período da menstruação e as mudanças significativas que se
vão notando no seu corpo, máxime na protuberância dos seios, etc. São factores
que determinam a sexualidade na sociedade guineense (a autodeterminação sexual,
bem entendido) e não propriamente uma idade em concreto para qualificar um
menino ou uma menina como sendo livre de decidir com quem queira manter uma
relação sexual. Partindo destas matrizes culturais e pressupostos valorativos, razão pela qual, nesta
fase, o usufruto sexual não é qualificado como sendo crime de pedofilia.
Obviamente
que esta concepção é passível de vários questionamentos, tal como manifestei
veemente no vídeo em apreço. Sou, inteiramente, e sem qualquer tipo de
reservas, contra esta redutora forma de estar e encarar a vida. No entanto é,
infelizmente, a nossa realidade. Por isso, a prática das “catorzinhas” é
amplamente tolerada no nosso país. Sem entrar mais em prolegómenos, disse
mais coisas que poderão ouvir no vídeo e tirar também as vossas ilações. Tenham
um bom proveito. Obrigado.
«No século XXI,
temos assistido a muitos movimentos associados à condição feminina e à
libertação sexual, descendentes do feminismo clássico e dos movimentos dos
direitos civis e da igualdade, iniciados na América dos anos 60. (…) E em
Portugal, o cantinho sem história, um juiz acolitado por uma juíza considera
que um criminoso socialmente integrado tem todo o direito a violar uma mulher
embriagada e desmaiada numa casa de banho, num processo de “sedução mútua”,
segundo o repugnante acórdão que a dupla consagrou. Este acórdão, que vem na
cauda do da “coutada do macho ibérico”, e inventa o conceito jurídico de
“mediana ilicitude”, não é uma anomalia. Neste país marialva onde a violência
dos homens sobre as mulheres permanece impune ou é desculpabilizada, até pelas
outras mulheres, a sentença reflete um primitivo pensamento dominante. Aqui
chegará um dia, atrasada como sempre, a revolução americana».
-----------------------------------------
Pensamento da
Jornalista Clara Ferreira Alves, in a Revista Expresso (LER).
«As mulheres marcham simbolicamente contra anos de
dominação, violência sexual e silêncio envergonhado e culpado. As mulheres
contam tudo. (…). As mulheres deixaram de ter medo. E estão a ser
ouvidas. Com todos os exageros e deformações do #Metoo, como os houve no
feminismo, estamos a assistir a um dos grandes momentos da história dos
direitos civis e da igualdade de direitos. As mulheres estão em marcha, não
apenas nas ruas mas na internet, nos media e nas redes sociais. As mulheres
deixaram de estar caladas, e é preciso não perceber a coragem que existe em
enfrentar o sistema e denunciar publicamente um abuso sexual antigo e
silenciado pela moral e a hipocrisia vigentes. Eu saúdo a coragem. Saúdo as
mulheres que desafiam o poder do Estado (…), sofrendo as ameaças de morte, as
acusações e as perseguições. A sua vida nunca mais será a mesma.[1]»
[1]Pensamento da Jornalista Clara Ferreira Alves, in a
Revista Expresso (LER).
«O mundo ainda está organizado como um clube exclusivo
de homens onde mandam os homens. É assim há muito tempo. Não existe um Bach
mulher. Um Mozart mulher. Um Shakespeare mulher. Um Freud mulher. Um Einstein
mulher. (…). Logo na infância, e sobretudo na adolescência, uma mulher é
classificada em função do seu grau de atração, do seu corpo, e não da sua
cabeça. E logo, em modo darwinista acelerado, a mulher começa a competir com as
outras mulheres, meninas, em função da beleza. Não espanta que as adolescentes
tenham uma preocupação fundamental com a dieta, a magreza, a aparência e os
modos sociais que servem estes atributos e os expandem. A inteligência ou o
desempenho intelectual são relegados para segundo plano aos olhos dos outros e,
na primeira idade consciente, os olhos dos outros são sempre os dos homens, dos
rapazes. A ditadura da aparência começa muito cedo e nunca cessa. E nela está
implícita a cedência ao desejo masculino. A mulher tem que agradar ou será uma
bruxa»[1].
[1]Pensamento da Jornalista Clara Ferreira Alves, extraído
in a Revista Expresso (LER).
Hoje é o “Dia da Mulher Africana”. Ser
mulher no nosso hostilizado, cruento, machista e injusto mundo não é uma tarefa
nada fácil. Comporta enormíssimos riscos e obstáculos praticamente inultrapassáveis.
O pior ainda é ser mulher africana. Ela carrega dolorosamente sobre si todas as
desgraças deste mundo e com todas as implicações humano-sociais que isto
acarreta no seu quotidiano e na sua autodeterminação. Continua ainda
arbitrariamente a ser reduzida e votada cegamente à ignorância, à
objectificação, ao abuso, à miséria, à prostituição, à violência e à violação,
etc.
Por isso, num dia como o de hoje, em que celebra o “Dia da Mulher
Africana”, impõe-se uma genuína reflexão a todos os Homens de “boa
vontade” no sentido de contribuir resolutamente para uma cabal
melhoria da condição humilhante e deplorável em que se encontram a generalidade
daquelas que constituem as nossas esposas, mães, avós, filhas, irmãs, tias,
primas, companheiras e mulheres em geral.
Quero, por ocasião do nobre espírito deste dia, através das
mulheres guineenses (ALI) e (AQUI), estender os meus profundos votos
de reconhecimento e de um futuro ditoso para todas as nossas heroínas mulheres
africanas, libertando assim definitivamente do jugo opressor em que elas são
votadas ao longo dos séculos. Que assim seja.
REVISTA EXPRESSO: As mulheres são hoje demasiado exigentes?
Camille Paglia: “São, mas mais importante do que isso é que são miseráveis. As mulheres de classe alta com sucesso no trabalho são infelizes. As feministas sabem-no. E culpam os homens de tudo. Dizem que são eles que têm de mudar de comportamento. Acho que as mulheres têm de ser neste momento mais conscientes e pararem de culpar os homens pela sua infelicidade! Olhem para o sistema laboral e alterem o que tem de ser alterado.
REVISTA EXPRESSO: Está a dizer que as mulheres não praticam tanto sexo com os homens como costumavam fazer?
Camille Paglia: Não é bem isso. É uma questão de tudo ser muito familiar, das regras não se quebrarem, sobretudo nos casamentos burgueses. Há um sentimento de fadiga, não há nada interessante a acontecer ou a permitir que aconteça. Não há o tal mistério. Mas acredito que as mulheres latinas, como as portuguesas, italianas, espanholas e brasileiras têm muito mais criatividade, energia sexual, noção de elegância, sendo ao mesmo tempo grandes empresárias, economistas ou administradoras. Os casamentos de hoje, na América, são aborrecidos sexualmente e o homem corre o perigo de se tornar mais uma criança lá em casa”.
------------------------------------------
(Camille Paglia, in entrevista a Revista Expresso (LER). Conteúdo disponibilizado, por enquanto, apenas para os assinantes do jornal).
«Mistério vivente, por
virtude do qual o homem nasce, vive e morre, a mulher não pode ser circunscrita
a uma definição. E, no entanto, porque será que tantos filósofos, psicólogos,
ensaístas, moralistas, teólogos, e poetas escreveram em todas as épocas sobre a
mulher e não sobre o homem? (…) Muito se tem escrito sobre as mulheres e seria
difícil dar uma ideia de todos os géneros e publicações de que foram objecto.
Os poetas, diz Cérise, exaltaram as qualidades, os moralistas colocaram a nu os
defeitos, os publicistas discutiram os direitos, os médicos descreveram as
doenças, os fisiologistas mostraram os mais íntimos segredos da sua
organização.»
«Sinto a solidão
do meu próprio corpo. Abaixo os olhos para as pernas nuas que estico, para a doçura
dos meios seios, para os meus braços que nunca se imobilizam, mas flutuam sem
cessar em doces ondulações, e vejo que há doze anos estou lassa, que este peito
encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que,
quando estou só, estes olhos raramente secam.»
(Simone de
Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER),
Quetzal, Lisboa, 2015, p. 485).