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Será Que a Mulher Guineense é Realmente Emancipada?


Venho novamente hoje dar sequência à minha rúbrica habitual em defesa do futuro da Guiné-Bissau. Pretendo continuar nesta senda de reflexão sobre a problemática, os desafios, os dilemas, as contradições e as contrariedades que as mulheres guineenses enfrentam no seu quotidiano, aproveitando também o ensejo do mês de março, consagrado à celebração da mulher. 

O tema que trago hoje prende-se com uma questão pertinente: será que a mulher guineense é, de facto, emancipada? A minha resposta é, claramente, negativa. Não considero que a mulher guineense seja verdadeiramente emancipada. Quando falamos de emancipação, devemos ter em conta pressupostos fundamentais como a autonomia e a autodeterminação. Estes conceitos desdobram-se em várias dimensões da vida humana, começando, desde logo, pela emancipação intelectual. 

A emancipação intelectual traduz-se na capacidade de uma pessoa compreender o que está em jogo, reconhecer os interesses que a rodeiam e, a partir daí, tomar decisões mais acertadas e conscientes para a sua vida. Em suma, trata-se de decidir o próprio futuro de forma esclarecida e livre de manipulação. Assim, uma pessoa intelectualmente emancipada é capaz de fazer escolhas informadas e responsáveis. 

Ora, não considero que a generalidade das mulheres guineenses esteja intelectualmente emancipada. Tal condição exige, entre outros fatores, o acesso à educação, sendo que muitas mulheres ainda são privadas desse direito básico. A negação da instrução condiciona a liberdade, sobretudo no que diz respeito à capacidade de fazer escolhas conscientes e autónomas. Como consequência, a mulher continua, muitas vezes, a ser manipulada, instrumentalizada e relegada para um plano secundário nas relações com o homem. 

Neste contexto, a mulher guineense tende a viver em função do homem, ajustando as suas expectativas, esperanças e projetos de vida à figura masculina, frequentemente idealizada como a fonte da sua felicidade. Desde tenra idade, muitas são incutidas com a ideia de que devem encontrar um homem – de preferência poderoso e financeiramente estável – que lhes proporcione realização. Assim, a sua felicidade é frequentemente associada à presença masculina, o que limita a sua autonomia. 

Este paradigma impede a verdadeira emancipação intelectual. Uma mulher verdadeiramente emancipada não aceitaria, por exemplo, situações de abuso, violência ou violação. Contudo, verifica-se que tais práticas são, por vezes, toleradas ou até legitimadas. Recordo que, em certos contextos, comportamentos violentos eram interpretados como manifestações de amor, o que evidencia uma profunda distorção de valores. Sabemos, porém, que o amor se expressa através do respeito, do cuidado, da consideração e do afeto – nunca pela violência. 

Para além da dimensão intelectual, importa considerar a emancipação financeira. Também neste domínio, a mulher guineense, de forma geral, ainda não se encontra plenamente emancipada. Mesmo quando trabalha e aufere rendimento, persiste a ideia de que o homem deve assumir o papel de provedor principal, o que gera dependência económica. 

Essa dependência leva muitas mulheres a aceitar situações de desrespeito, traição ou violência, por receio de perder o suporte financeiro. Assim, o poder económico do homem acaba por reforçar relações desiguais, nas quais a mulher se vê condicionada a manter o silêncio ou a tolerar comportamentos prejudiciais. Mesmo entre mulheres instruídas, esta mentalidade ainda persiste, revelando que a emancipação financeira não se resume apenas à obtenção de rendimento, mas também à mudança de mentalidade. 

Outra dimensão essencial é a emancipação sexual. Neste aspeto, verifica-se igualmente que a mulher guineense ainda enfrenta fortes limitações. A sua sexualidade é frequentemente vivida em função do homem, orientada para satisfazer os seus desejos, enquanto o prazer feminino continua a ser um tabu. 

Práticas como a mutilação genital feminina constituem exemplos extremos dessa realidade, representando uma grave violação dos direitos humanos e da dignidade da mulher. Mesmo fora desses casos, muitas mulheres são socializadas para não reconhecer ou reivindicar o seu próprio prazer, sendo frequentemente estigmatizadas quando o fazem. Deste modo, a mulher continua, em muitos casos, a viver a sua sexualidade de forma condicionada, sujeita a normas sociais que favorecem o homem e reprimem a sua autonomia. 

Em suma, só se poderá falar de verdadeira emancipação da mulher guineense quando esta se concretizar nas dimensões intelectual, financeira e sexual. Estas três vertentes são fundamentais para que a mulher possa exercer plenamente a sua liberdade e autodeterminação. 

A emancipação intelectual permite-lhe compreender e decidir com consciência; a emancipação financeira liberta-a da dependência económica; e a emancipação sexual assegura-lhe o direito de viver a sua intimidade com liberdade e dignidade. 

Contudo, importa referir que, nos dias de hoje, tem-se falado cada vez mais em “empoderamento” em vez de “emancipação”. Isto porque não basta possuir, em teoria, certas condições – é necessário que a mulher tenha também a capacidade prática de agir, decidir e afirmar-se. 

Apesar de alguns progressos, sobretudo ao nível da educação, muitas mulheres continuam a viver em função do homem, acreditando que a sua felicidade depende dele. No entanto, a verdadeira felicidade reside no próprio indivíduo. As relações devem acrescentar valor, e não servir como única fonte de realização pessoal. 

Por fim, importa sublinhar que o caminho para a emancipação passa, inevitavelmente, pela educação. É através dela que se promove a consciência crítica, a autonomia e a capacidade de transformação social. Só com investimento sério na educação será possível alcançar uma sociedade mais justa, onde a mulher tenha igualdade de oportunidades, liberdade e dignidade. 

Em conclusão, considero que a mulher guineense ainda não é plenamente emancipada. Há progressos, sem dúvida, mas o caminho a percorrer continua a ser longo. É necessário continuar a lutar por uma verdadeira igualdade, onde a mulher possa exercer plenamente os seus direitos, viver com liberdade e alcançar a sua realização pessoal. 

Fico por aqui. Até uma próxima ocasião, se Deus quiser.

Dia Internacional da Mulher

Hoje é o Dia Mundial da Mulher. Ser mulher no nosso hostilizado, cruento, machista e injusto mundo não é uma tarefa nada fácil. Comporta enormíssimos riscos e obstáculos que, nalgumas circunstâncias, são bastantes penosas e inultrapassáveis. O pior ainda é ser mulher africana. A mulher africana carrega dolorosamente sobre si todas as desgraças deste maldito mundo – e com todas as implicações humano-sociais que isto acarreta no seu quotidiano e na sua autodeterminação. Continua ainda arbitrariamente a ser reduzida cegamente à ignorância, à objectificação, ao abuso, à miséria, à prostituição, à violação e à violência, etc. 

Por isso num dia como o de hoje, em que celebra “O Dia Internacional da Mulher”, impõe-se uma genuína reflexão a todos os Homens de “boa vontade” no sentido de contribuir resolutamente para uma cabal melhoria da condição humilhante e deplorável em que se encontram a generalidade daquelas que constituem as nossas esposas, mães, avós, filhas, irmãs, tias, primas, companheiras e exclusivamente mulheres. 

Quero, por ocasião do nobre espírito deste dia, através das mulheres africanas, estender amigavelmente os meus profundos votos de reconhecimento e de um futuro ditoso para todas as nossas valentes mulheres em geral, esperando com fé que possam num futuro breve libertarem-se definitivamente do jugo opressor masculino em que são votadas ao longo dos séculos. Que assim seja. 

Os Paradoxos da Mulher Moderna Guineense


Falar do substrato identitário da mulher guineense não é uma tarefa nada fácil, tendo em conta a heterogeneidade que ela encerra nas suas várias mundividências. E esta heterogeneidade remete-nos indubitavelmente para as considerações antropológicas, sociológicas, culturais e etnológicas para podermos aferir com precisão os pressupostos valorativos que caracterizam a multiforme configuração da mulher guineense (LER)

Não vamos, naturalmente, atermo-nos a todas essas idiossincrasias nesta nossa breve crónica. Apenas procuraremos cingir a condição da mulher moderna guineense, isto é, as que tiveram a oportunidade de minimamente estudarem e, consequentemente, aculturarem-se. Mulheres que, no bom crioulo, são apelidadas como “ku panhá pé” (esclarecidas, bem entendido). A parte significativa delas vive em Bissau, nas grandes cidades do nosso país e na diáspora em particular. São ainda mulheres que conseguiram absorver muito bem a cultura misógina e machista do nosso país e, concomitantemente, do mundo ocidental (LER). Por outras palavras, são mulheres formatadas nesta dupla realidade sociocultural, razão pela qual costumam autoproclamar-se ou de serem apelidas de mulheres “civilizadas” (LER)

Apesar desta híbrida experiência cultural que as mulheres modernas guineenses adquiriram, ao longo dos anos de vida, comparativamente com a maioria das nossas indoutas donas di casa” ou “mindjeris garandis”, mesmo assim elas têm ficado bastante aquém a nível comportamental. Isto porque muitas delas são mulheres levianas, fúteis, gananciosas, aproveitadoras, materialistas, interesseiras, promíscuas e sem escrúpulos; mulheres que vivem acima de tudo pela conveniência circunstancial e de convergências de interesses, ignorando deliberadamente as virtudes da dignidade humana e da emancipação feminina. 

A mulher moderna guineense, por ser bastante astuta na sua articulação e actuação, procura sempre tirar dividendos das duas realidades culturais que lhe estão intrinsecamente subjacentes. Somente usam a cultura guineense para tirar contrapartidas em relação ao homem, nomeadamente quando este lhe sustenta os seus ávidos luxos e insaciáveis vícios. Da mesma sorte, quando lhe convém enveredar pela libertinagem e autodeterminação, à revelia do homem, daí é que se lembra de fazer uso das prerrogativas da sua vertente cultural pós-moderna. 

A generalidade da mulher moderna guineense de modernidade não tem nada. São mulheres que ainda não conseguiram interiorizar bem o conceito do feminismo igualitário e da emancipação feminina, não obstante passarem inutilmente a ideia de assimilação neste sentido e de comungarem da cultura ocidental. A emancipação, para ser realmente uma verdadeira emancipação, deve contemplar, desde logo, a emancipação intelectual, a emancipação financeira e a emancipação sexual – emancipações essas de que a mulher moderna guineense está manifestamente desprovida (VER)

A título exemplificativo, para testar a nossa afirmação: como é que é possível uma mulher arrogar-se de emancipada se não consegue pensar pela sua própria cabeça ou reduzir a sua felicidade a um homem endinheirado que case com ela e lhe faça feliz? Não será inconcebível uma mulher achar-se de emancipada se se relaciona ainda com os homens a troco de uns míseros tostões, convertendo o seu corpo numa clara prestação de serviço? Como é que é possível uma mulher julgar que ela é emancipada quando reduz a sua sexualidade aos caprichos egoístas do homem, consentindo sobretudo a este actos de infidelidade conjugal, violência doméstica e outras práticas infames? Mulheres que não têm nenhumas reservas ou pudor em pedir dinheiro aos seus parceiros para alimentarem as suas extravagâncias do dia-a-dia, nomeadamente viajar, comprar o carro, a roupa, as jóias, o cabelo humano, o telemóvel e, em suma, sustentar as suas polutas mordomias. 

A realidade da mulher moderna guineense é tudo isto que acabamos de reportar. Uma realidade aviltante e triste a que elas deliberadamente se submetem a troco de uma vida confortável, que os seus parceiros lhes vão dando. Uma vida manifestamente votada ao objecto de prazer nas mãos dos grunhos homens e de completa humilhação. Toleram tudo e mais alguma coisa, sobretudo a ofensa à integridade física e psicológica, para continuarem a ter mordomias e, desta forma, manter o status social de cinderelas. 

Ora, isto não é ser emancipada e tão pouco moderna. É circunscrever-se meramente à promiscuidade sexual e à prostituição do corpo, uma vez que tudo é baseado em interesses financeiros à revelia do genuíno amor que deveria caracterizar um casal (LER). Ser uma pessoa moderna é ser, acima de tudo, autossuficiente em todas as dimensões do trato social. 

A autonomia e autodeterminação da mulher, importa ainda salientar, foi um dos grandes postulados axiológicos defendidos na génesis dos movimentos sufragistas do século XIX e unanimemente reconfirmada pelos feministas dos nossos dias contemporâneos, que visam máxime a igualdade entre o homem e a mulher em todas as dimensões, circunstâncias e esferas da vida (LER). E esta igualdade, no entanto, só se alcança com a verdadeira emancipação da mulher, com vista a permiti-la libertar-se definitivamente do jugo opressor do homem. 

Por isso, a mulher tem de consciencializar que a sua felicidade depende unicamente dela e não colocar toda a sua esperança num putativo “homem da sua vida”. Deve também trabalhar e estar à altura de pagar as suas contas. Se for, porventura, casada tentar partilhar despesas da casa com o seu marido para, deste modo, ganhar plenamente a liberdade dentro do lar e poder estar em condições normais de exigir o marido  aquilo que entender ser o mais justo na família –  e não ficar numa condição de subalternidade, tal como a generalidade das nossas mulheres “ku panhá pé” têm sido relegadas (LER). Qualquer relacionamento humano, a nosso ver, deve ser pautado pela complementaridade e não pelo aproveitamento circunstancial, monetária ou momentânea. 

A mulher moderna guineense não tem a mínima desculpa por este censurável comportamento leviano e promiscuo, que tem deliberadamente adoptado no seu dia-a-dia ao longo dos anos, diferentemente das nossas heróicas mães e avós que infelizmente foram vedadas à oportunidade de estudarem e de se relacionarem com a cultura pós-moderna, fazendo com que se limitem apenas à condição de domésticas e donas de casas. Mesmo assim, apesar de tudo isto, são mulheres de família, honradas, trabalhadoras e com dignidade; que não andam a saltitar de parceiros até encontrarem o homem endinheirado que lhes fazem singrar na vida, não obstante as muitas e infindáveis falhas dos seus maridos. São mulheres que vivem exclusivamente para a família e somente para a família; mulheres que se desdobram em “sete ofícios” para conseguirem o ganha-pão para as suas famílias, razão pela qual continuam a ser o baluarte moral e a esperança das famílias guineenses. São, em suma, “mindjeris ku finka pé rissu na tchon!”

A generalidade da mulher moderna guineense, para desgraça da nossa sociedade em geral, é uma despudorada, viciada e autêntica depravada nos costumes e valores éticos-morais, uma vez que conseguem assimilar o pior da cultura ocidental e, ao mesmo tempo, o pior da cultura misógina e machista dos guineenses (ALI) (AQUI). Comportamentos estes que, de todo, em abono da verdade, não se coadunam com o progressismo da pós-modernidade, que elas inutilmente reclamam encarnar. Um autêntico paradoxo! 

A Fronteira entre a Prostituição, Violação e Pedofilia na Guiné-Bissau



Partilho aqui o vídeo do debate que tive no ano passado com a nossa “Dama de Ferro” Sali Mané Semedo, sob o tema: “Qual é a Fronteira entre a Prostituição, Violação e Pedofilia na Guiné-Bissau?” A fronteira é bastante ténue. Por isso, procurei fazer um enquadramento cultural daquilo que é a mundividência da sociedade guineense sobre as três complexas realidades. Na temática da prostituição fiz a destrinça entre a prostituição num conceito lato sensu e o lenocínio. Na violação abordei a problemática de “bafa mindjer”, os apalpões com que, infelizmente, algumas mulheres se confrontam no espaço público e o assédio sexual (tanto no plano laboral como no plano social), demonstrando que a sociedade guineense não concebe os dois últimos como crimes, isto é, os apalpões e o assédio sexual. 

Já na questão da Pedofilia, que foi a parte que mais gerou querelas dos intervenientes, falei das implicações jurídicas da idade da maioridade civil, a idade de consentimento sexual e a maioridade sexual, bem como a definição que a sociedade guineense atribui à pedofilia, concluindo que a envolvência sexual com as ditas “catorzinhas” não consubstanciam, na nossa sociedade, um acto de pedofilia, tal como é entendido na generalidade do mundo Ocidental. Isto porque, a autodeterminação sexual, na sociedade guineense, afere-se com as transformações fisiológicas que os meninos e as meninas vão tendo no seu percurso de vida. Naqueles através do aparecimento de pelos púbicos e alteração da voz. Nestas com o período da menstruação e as mudanças significativas que se vão notando no seu corpo, máxime na protuberância dos seios, etc. São factores que determinam a sexualidade na sociedade guineense (a autodeterminação sexual, bem entendido) e não propriamente uma idade em concreto para qualificar um menino ou uma menina como sendo livre de decidir com quem queira manter uma relação sexual. Partindo destas matrizes culturais e  pressupostos valorativos, razão pela qual, nesta fase, o usufruto sexual não é qualificado como sendo crime de pedofilia. 

Obviamente que esta concepção é passível de vários questionamentos, tal como manifestei veemente no vídeo em apreço. Sou, inteiramente, e sem qualquer tipo de reservas, contra esta redutora forma de estar e encarar a vida. No entanto é, infelizmente, a nossa realidade. Por isso, a prática das “catorzinhas” é amplamente tolerada no nosso país. Sem entrar mais em prolegómenos, disse mais coisas que poderão ouvir no vídeo e tirar também as vossas ilações. Tenham um bom proveito. Obrigado. 

A Igualdade Diferenciada (5)


«No século XXI, temos assistido a muitos movimentos associados à condição feminina e à libertação sexual, descendentes do feminismo clássico e dos movimentos dos direitos civis e da igualdade, iniciados na América dos anos 60. (…) E em Portugal, o cantinho sem história, um juiz acolitado por uma juíza considera que um criminoso socialmente integrado tem todo o direito a violar uma mulher embriagada e desmaiada numa casa de banho, num processo de “sedução mútua”, segundo o repugnante acórdão que a dupla consagrou. Este acórdão, que vem na cauda do da “coutada do macho ibérico”, e inventa o conceito jurídico de “mediana ilicitude”, não é uma anomalia. Neste país marialva onde a violência dos homens sobre as mulheres permanece impune ou é desculpabilizada, até pelas outras mulheres, a sentença reflete um primitivo pensamento dominante. Aqui chegará um dia, atrasada como sempre, a revolução americana». 

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Pensamento da Jornalista Clara Ferreira Alves, in a Revista Expresso (LER).

A Igualdade Diferenciada (6), por Clara Ferreira Alves


«As mulheres marcham simbolicamente contra anos de dominação, violência sexual e silêncio envergonhado e culpado. As mulheres contam tudo. (…). As mulheres deixaram de ter medo. E estão a ser ouvidas. Com todos os exageros e deformações do #Metoo, como os houve no feminismo, estamos a assistir a um dos grandes momentos da história dos direitos civis e da igualdade de direitos. As mulheres estão em marcha, não apenas nas ruas mas na internet, nos media e nas redes sociais. As mulheres deixaram de estar caladas, e é preciso não perceber a coragem que existe em enfrentar o sistema e denunciar publicamente um abuso sexual antigo e silenciado pela moral e a hipocrisia vigentes. Eu saúdo a coragem. Saúdo as mulheres que desafiam o poder do Estado (…), sofrendo as ameaças de morte, as acusações e as perseguições. A sua vida nunca mais será a mesma.[1]» 


[1]Pensamento da Jornalista Clara Ferreira Alves, in a Revista Expresso (LER)

A Igualdade Diferenciada (4), por Clara Ferreira Alves


«O mundo ainda está organizado como um clube exclusivo de homens onde mandam os homens. É assim há muito tempo. Não existe um Bach mulher. Um Mozart mulher. Um Shakespeare mulher. Um Freud mulher. Um Einstein mulher. (…). Logo na infância, e sobretudo na adolescência, uma mulher é classificada em função do seu grau de atração, do seu corpo, e não da sua cabeça. E logo, em modo darwinista acelerado, a mulher começa a competir com as outras mulheres, meninas, em função da beleza. Não espanta que as adolescentes tenham uma preocupação fundamental com a dieta, a magreza, a aparência e os modos sociais que servem estes atributos e os expandem. A inteligência ou o desempenho intelectual são relegados para segundo plano aos olhos dos outros e, na primeira idade consciente, os olhos dos outros são sempre os dos homens, dos rapazes. A ditadura da aparência começa muito cedo e nunca cessa. E nela está implícita a cedência ao desejo masculino. A mulher tem que agradar ou será uma bruxa»[1].


[1] Pensamento da Jornalista Clara Ferreira Alves, extraído in a Revista Expresso (LER).

O Dia da Mulher Africana


Hoje é o “Dia da Mulher Africana”. Ser mulher no nosso hostilizado, cruento, machista e injusto mundo não é uma tarefa nada fácil. Comporta enormíssimos riscos e obstáculos praticamente inultrapassáveis. O pior ainda é ser mulher africana. Ela carrega dolorosamente sobre si todas as desgraças deste mundo e com todas as implicações humano-sociais que isto acarreta no seu quotidiano e na sua autodeterminação. Continua ainda arbitrariamente a ser reduzida e votada cegamente à ignorância, à objectificação, ao abuso, à miséria, à prostituição, à violência e à violação, etc. 

Por isso, num dia como o de hoje, em que celebra o “Dia da Mulher Africana”, impõe-se uma genuína reflexão a todos os Homens de “boa vontade” no sentido de contribuir resolutamente para uma cabal melhoria da condição humilhante e deplorável em que se encontram a generalidade daquelas que constituem as nossas esposas, mães, avós, filhas, irmãs, tias, primas, companheiras e mulheres em geral. 

Quero, por ocasião  do nobre espírito deste dia, através das mulheres guineenses (ALI) e (AQUI), estender os meus profundos votos de reconhecimento e de um futuro ditoso para todas as nossas heroínas mulheres africanas, libertando assim definitivamente do jugo opressor em que elas são votadas ao longo dos séculos. Que assim seja. 

Advertência de Uma Feminista às Outras Feministas (III)


REVISTA EXPRESSO: As mulheres são hoje demasiado exigentes? 

Camille Paglia: “São, mas mais importante do que isso é que são miseráveis. As mulheres de classe alta com sucesso no trabalho são infelizes. As feministas sabem-no. E culpam os homens de tudo. Dizem que são eles que têm de mudar de comportamento. Acho que as mulheres têm de ser neste momento mais conscientes e pararem de culpar os homens pela sua infelicidade! Olhem para o sistema laboral e alterem o que tem de ser alterado. 

REVISTA EXPRESSO: Está a dizer que as mulheres não praticam tanto sexo com os homens como costumavam fazer? 

Camille PagliaNão é bem isso. É uma questão de tudo ser muito familiar, das regras não se quebrarem, sobretudo nos casamentos burgueses. Há um sentimento de fadiga, não há nada interessante a acontecer ou a permitir que aconteça. Não há o tal mistério. Mas acredito que as mulheres latinas, como as portuguesas, italianas, espanholas e brasileiras têm muito mais criatividade, energia sexual, noção de elegância, sendo ao mesmo tempo grandes empresárias, economistas ou administradoras. Os casamentos de hoje, na América, são aborrecidos sexualmente e o homem corre o perigo de se tornar mais uma criança lá em casa”. 

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(Camille Paglia, in entrevista a Revista Expresso (LER). Conteúdo disponibilizado, por enquanto, apenas para os assinantes do jornal). 

A PALAVRA DO SENHOR (19): Quem Tem Ouvidos Para Ouvir, Que Ouça


“Mulher exemplar não é fácil de encontrar; 
ela vale muito mais que as jóias! 
O seu marido confia inteiramente nela, 
não lhe faltando com nada.
Ela só lhe dá satisfação e nunca desgostos,
todos os dias da sua vida.
Ela procura lã e linho
e trabalha de boa vontade com as suas mãos.
Tal como um navio mercante,
ela traz as suas provisões de muito longe.
Levanta-se antes de romper o dia,
prepara de comer para a família
e distribui as tarefas pelas suas criadas.
Examina um terreno e compra-o
e planta uma vinha com o produto do trabalho.
Põe-se ao trabalho com toda a energia;
os seus braços nunca estão parados.
Vigia bem os seus negócios;
durante a noite, a sua lâmpada mantém-se acesa.
As suas mãos trabalham com a roca de fiar
e os seus dedos, com o fuso.
Estende a mão segura aos infelizes
e é generosa para com os pobres.
Não receia a neve para os seus familiares,
porque todos eles trazem roupa suficiente.
Ela faz as suas próprias mantas
e os tecidos de linho e púrpura com que se veste.
O seu marido é conhecido e considerado na assembleia,
quando toma assento no conselho dos anciãos da terra. 
Ela faz tecidos de linho fino para vender
e fornece cintos aos mercadores.
Reveste-se de força e dignidade
e sorri a pensar no futuro.
Fala sempre com sabedoria
e dá conselhos com bondade.
Vigia tudo o que se passa na sua casa
e não prova o pão da ociosidade.
Os seus filhos levantam-se para a felicitar
e o seu marido, para a elogiar:
«Muitas mulheres foram exemplares,
mas tu és a melhor de todas.»
Encantos são enganos e beleza é ilusão,
mas uma mulher que respeita o Senhor é digna de elogio.
Recompensem-na com o fruto das suas mãos
e louvem-na diante da assembleia pelo seu trabalho.” 

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(Rei Salomão, in A Bíblia Sagrada, Provérbios 31:10-33, Versão, A Boa Nova Em Português Corrente, Lisboa, Sociedade Bíblica de Portugal, 2004). 

A Misteriosa Figura da Mulher


«Mistério vivente, por virtude do qual o homem nasce, vive e morre, a mulher não pode ser circunscrita a uma definição. E, no entanto, porque será que tantos filósofos, psicólogos, ensaístas, moralistas, teólogos, e poetas escreveram em todas as épocas sobre a mulher e não sobre o homem? (…) Muito se tem escrito sobre as mulheres e seria difícil dar uma ideia de todos os géneros e publicações de que foram objecto. Os poetas, diz Cérise, exaltaram as qualidades, os moralistas colocaram a nu os defeitos, os publicistas discutiram os direitos, os médicos descreveram as doenças, os fisiologistas mostraram os mais íntimos segredos da sua organização.» 

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(A. Miranda Santos, in Polís, 4º volume de Letra  M a P, p. 467, Lisboa/São Paulo, 1983).

Um Epílogo Sentimental de Quem Muito Sofre I


«Sinto a solidão do meu próprio corpo. Abaixo os olhos para as pernas nuas que estico, para a doçura dos meios seios, para os meus braços que nunca se imobilizam, mas flutuam sem cessar em doces ondulações, e vejo que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam.» 

(Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 485). 

A Narcisista do Segundo Sexo VII


«Estou decidida a criar para mim uma encenação considerável. Vou construir uma residência mais bela que a de Sarah e ateliês maiores…»[1]



[1] Simone de Beauvoir, in “O Segundo Sexo 2” (LER), Quetzal, Lisboa, 2015, p. 479.