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A Grande Guerra Pela Civilização

Os dias que correm não são nada fáceis. Desafiam a nossa lógica racional até aos limites. Mostram-nos, através da realidade tenebrosa do mundo, o quão desumana a humanidade é e o perigo galopante e ameaçador que todos nós corremos. Vivemos em tempos de muita ansiedade, incerteza, desconfiança, medo e guerras, confirmando assim a sentença do afamado Einstein de que “o mundo é um lugar perigoso de se viver”. Realmente, em abono da verdade, o mundo é um lugar bastante perigoso de se viver. O exemplo manifesto disto são as aterradoras notícias que nos chegam dos media, reportando-nos as maléficas situações de escândalos, violações, marginalizações, abusos, guerras e, por fim, mortes. 

Perante estas hediondas e reiteradas transgressões, a que temos impotentemente assistido, não há margem para dúvida que é o futuro e a sobrevivência da raça humana que está em causa. Cada vez que pactuamos com estas desumanidades estamos, de forma implícita e deliberada, a legitimar as atrocidades e autodestruição da própria Humanidade. Jamais poderemos consentir, em circunstância alguma, com tais maldades, porque constituem autênticos inimigos das sociedades abertas, do primado da liberdade e da autodeterminação que deveriam caracterizar-nos, independentemente da nossa origem, sexo e mundividência. E elas não podem triunfar, sob pena de ficarmos completamente reféns da marginalização e da tirania. 

Por isso, somos todos intimados, os amantes da liberdade e democracia pluralista, a participarmos nesta justa guerra civilizacional. É uma guerra que visa afirmar, de forma intrépida e inequívoca, os sublimes e inegociáveis valores da igualdade entre os seres humanos e povos em geral; da Paz mundial e sã convivência entre os titulares e particulares, da Justiça Social e Tolerância, da Democracia e fraternidade, opondo-se manifestamente toda a sorte de preconceito, discriminação, radicalismo, subjugação, absolutismo, fanatismo, guerras, barbárie e jugo opressor. Eis, sem excepção, a peleja que nos espera a todos, isto é, a grande guerra pela civilização. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (6)

“Ainda me lembro, ainda me lembro de quando os Negros se limitavam a andar à toa. Como Ralph disse tantas vezes, a coçar-se onde não tinham comichão e a rir-se quando não lhes faziam cócegas. Mas esse tempo já lá vai. Nós agora falamos a sério e estamos determinados a conquistar o lugar a que temos o direito no mundo de Deus. E é disso que se trata. Não nos move nenhum propósito de protesto negativo nem de discussão estéril com ninguém. Só dizemos que estamos decididos a ser homens. Estamos decididos a ser gente. Só dizemos que somos filhos de Deus. E se somos filhos de Deus, não temos de viver como agora somos obrigados a viver. 

(…) Não vamos consentir que nenhuma bastonada nos detenha. No nosso movimento não-violento, somos mestres a desarmar forças policias; ficam sem saber o que hão-de fazer. Já vi isso muitas vezes. Estou a lembrar-me de Birmingham, Alabama, quando estávamos a travar aquela luta gigantesca e saímos todos os dias da Igreja Baptista da Rua Dezasseis. (…) Temos de nos entregar a esta luta até ao fim. Nada seria mais trágico para Memphis do que parar nesta altura. Temos de ir até ao fim. Quando fizemos a marcha, Vós tendes de estar lá. Mesmo que seja preciso faltar o trabalho, mesmo que seja preciso faltar à escola, tendes de estar lá. Pensai nos vossos irmãos. Podeis não estar em greve, mas, nesta luta, ou avançamos todos ou saímos todos derrotados. Temos de adoptar uma espécie de altruísmo perigoso.[1]  


[1]Palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 393, 394,395, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (5)

“E digo-vos mais, se eu estivesse no princípio dos tempos com a possibilidade de ter uma espécie de visão geral e panorâmica de toda a história da humanidade até hoje, e o todo o Poderoso me perguntasse «Martin Luther King, em que época gostarias de viver?» eu faria o meu voo mental pelo Egipto e veria os filhos de Deus iniciar a sua magnífica fuga das negras masmorras do Egipto, atravessar o mar Vermelho e percorrer as terras inóspitas até chegar à Terra Prometida. E, apesar da sua magnificência, não pararia aí. Continuaria, passando pela Grécia, onde transportaria o meu espírito ao monte Olimpo. E veria Platão, Aristóteles, Sócrates, Eurípedes e Aristófanes reunidos à volta do Parténon, e observá-los-ia à volta do Parténon a discutir as grandes e eternas questões da realidade. Mas não pararia aí. 

Seguiria mesmo caminho até ao grande apogeu do Império Romano e assistiria aos acontecimentos que aí se registaram, no tempo dos grandes imperadores e chefes. Mas não pararia aí. Avançaria mesmo até ao tempo da Renascença, para ter uma perspectiva rápida de tudo quanto a Renascença fez pela vida cultural e estética do homem. Mão não pararia aí. Iria mesmo ao local onde viveu o homem de quem recebi o nome, para vê-lo a afixar as suas noventa e cinco teses à porta da igreja de Wittenberg. Mas não pararia aí. Prosseguiria mesmo até 1863 para ver um Presidente vacilante chamado Abraham Lincoln chegar finalmente à conclusão de que tinha de assinar a Proclamação de Emancipação. Mas não pararia aí. Seguiria mesmo até ao princípio dos anos trinta para ver um homem debater-se com os problemas da bancarrota do seu país e soltar um grito eloquente: «A única coisa a temer é o próprio medo.» Mas não pararia aí. Por estranho que pareça, voltar-me-ia para o Todo-poderoso e diria: «Se Tu me permitisses viver apenas alguns anos na segunda metade do século XX, dar-me-ia por feliz.[1]


[1] Palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 392, 393, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (4)

“Acho que uma das grandes angústias da vida reside no facto de estarmos sempre a tentar terminar aquilo que não tem termo. Temos ordens para fazê-lo. Por isso nós, tal como David, nos vemos tantas vezes na situação de ter de enfrentar o facto de os nossos sonhos ficarem por realizar. A Vida é uma história contínua de sonhos destruídos. O Mahatma Gandhi trabalhou anos e anos pela independência do seu povo. Mas Gandhi teve de encarar o facto de ser assassinado e morrer com o coração despedaçado, porque aquela nação que ele queria unir acabou por ser dividida entre a Índia e o Paquistão em consequência de uma guerra entre Hindus e Muçulmanos. 

Woodrow Wilson teve o sonho de fazer uma Liga das Nações, mas morreu antes de ver o sonho concretizado. O Apóstolo Paulo falou um dia no seu desejo de ir para Espanha. O maior sonho de Paulo era ir para Espanha, levar até lá o Evangelho. Paulo nunca chegou a Espanha. Acabou numa cela de prisão em Roma. É assim a vida. Foram muitos os nossos antepassados que cantaram a liberdade. E que sonharam com o dia em que conseguiriam libertar-se do bojo da escravatura, da longa noite da injustiça. E cantavam pequenas canções: «Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus.»  Pensavam num dia melhor enquanto sonhavam o seu sonho. E diziam: «Estou tão feliz por o sofrimento não durar para sempre. A pouco e pouco, a pouco e pouco vou libertar-me da minha pesada carga.» E cantavam esta canção porque tinham tido um sonho muito forte. Mas muitos morreram sem ver o sonho realizado”[1]


[1] Palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 389, 390, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (2)


 “(…) Sim, se quiserdes dizer que eu fui um chefe da banda, dizei que fui um chefe da banda de justiça. Dizei que fui chefe da banda da paz. Fui um chefe da banda da rectidão. E tudo o resto, as outras coisas comezinhas, não conta. Não terei dinheiro para deixar em herança. Não terei as coisas valiosas nem os luxos da vida para deixar em herança. A única coisa que quero deixar em herança é uma vida de militância. E era só isto que vos queria dizer. 

Desde que possa ajudar alguém por quem passo, desde que possa animar alguém com uma palavra ou um cântico, desde que possa mostrar a alguém o caminho que deve seguir, a minha vida não terá sido em vão. Desde que possa cumprir o meu dever de cristão, desde que possa trazer a salvação ao mundo, desde que possa espalhar a mensagem que o meu mestre me ensinou como lição, a minha vida não terá sido em vão.[1]”.


[1] Últimas palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 399, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Porque é que São os Negros a Sofrerem Mais Com o Racismo?



Porque é que São os Negros a Sofrerem Mais Com o Racismo? É a pertinente questão que procurei responder neste brevíssimo vídeo. Para ter uma visão mais abrangente e completa sobre o tema em questão, pode visualizar este meu vídeo sobre “A Origem do Racismo e Como Combatê-lo” (LER), bem como o artigo intitulado “O Racismo e da Democracia na América” (LER). Recomendo-os. Tenha um bom proveito. Obrigado. 

Antídotos Contra o Preconceito

O preconceito é um vírus malévolo a todos os níveis. Ele baseia-se meramente num juízo temerário, precipitado, infundado e equivocado. Tem o poder de repelir qualquer tipo de interacção, bloquear oportunidades de relacionamentos, odiar sem fundamentos tangíveis e, em casos extremos, destruir vidas, tal como a experiência milenar nos tem indubitavelmente demonstrado. O preconceito é um cancro social que, em última instância, evidencia o carácter patológico da própria pessoa preconceituosa. É julgar arbitrariamente as pessoas por critérios errados. Por isso, é uma das melhores vias para consumar o pecado, pois baseia-se meramente na soberba, na desconsideração e na inferiorização do outro – por razões socialmente estereotipadas, desdobrando-se nas discriminações raciais, religiosas, políticas, condições financeiras e estrato social. É um mundo interminável de malignidade, razão pela qual é manifestamente incongruente com os impolutos pressupostos valorativos da Fé Cristã. 

O Senhor Jesus Cristo foi, por todos os seres humanos, a maior vítima do preconceito – tanto racial, religiosa e social – por causa do seu aspecto físico que não tinha qualquer tipo de atractivo aos olhos humanos (Isaías 53:2-3). Um “verme”, nas palavras do salmista, “desprezado por todos e escarnecido” (Salmo 26:7). Em consequência disso, foi exposto ao opróbrio dos homens e duramente contrariado pelos pecadores (Hebreus 12:2-3), teimando este preconceito até aos nossos dias pós-modernos, isto é, a rejeição liminar da Sua soteriológica mensagem perante os filhos da perdição, que “ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” (Isaías 5:20)

Ora, nenhum destes preconceitos e abominações devem fazer parte do cardápio de um devoto Cristão. Somos todos convocados a amar o nosso próximo como a nós mesmos, independentemente da sua raça, condição social e proveniência (Levítico 19:18; Mateus 29:39). Tratar todos por igual e sem fazer discriminação negativa de pessoas (Tiago 2: 1-13). Por outras palavras, é viver autenticamente o amor Cristão na sua plenitude e várias dimensões humano-espirituais, tal como instam as Escrituras Sagradas. 

Tal nobre propósito, no entanto, só se torna exequível incorporando diariamente os imaculados Princípios e Valores do Evangelho. O Evangelho, tal como escrevia peremptoriamente o Apóstolo Paulo, “é o poder de Deus para salvar todos os que creem” (Romanos 1:16-17), bem como “é proveitosa para ministrar a verdade, para repreender o mal, para corrigir os erros e para ensinar a maneira certa de viver; a fim de que todo homem de Deus tenha capacidade e pleno preparo para realizar todas as boas acções” (2 Timóteo 3:16-17). Somente o Evangelho do Senhor Jesus Cristo é o único antídoto eficaz para erradicarmos definitivamente o cancro do preconceito no nosso modo de viver. 

E nós, que somos os eleitos filhos de DEUS, temos de pautar a nossa conduta com os frutos dignos de arrependimento, sobretudo com as virtudes do “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, modéstia, autodomínio” (Gálatas 5:22-23), uma vez que contra estas coisas não há lei (condenação, bem entendido). Que assim seja. 

O Racismo e Da Democracia na América


A forma mais fidedigna de aferir com precisão os hábitos, costumes e mundividências do povo americano é ler “Da Democracia na América” de Alexis de Tocqueville. É uma obra colossal que dispensa glosas. Nela o célebre autor reduzia sabiamente a peculiaridade civilizacional do povo americano, destacando todas as importantes áreas subjacentes a uma sociedade moderna. Aborda ainda os grandes pilares da democracia participativa, nomeadamente o direito, a igualdade, a liberdade, a segurança, a protecção, a economia e o progresso. É um dos mais reputados livros alguma vez escritos sobre a sociologia dos EUA e um dos mais influentes a nível da filosofia política. Por isso, propomos analisar a questão do racismo e da democracia nos Estados Unidos da América (EUA) com base nele, fazendo concomitantemente as devidas adaptações aos nossos dias coevos. 

Desde logo, o insigne autor francês começa por abordar de forma prolixa a posição das três raças que habitam o território dos Estados Unidos da América (EUA), nomeadamente os índios, os brancos e os negros, considerando que entre homens tão diversos, o segundo que “atrai a atenção, o mais esclarecido, poderoso e feliz é o homem branco, o Europeu, o Homem por excelência; abaixo dele, estão negro e o Índio. O nascimento, a fisionomia, a linguagem e os costumes destas duas raças infortunadas nada têm em comum; só os seus infortúnios se assemelham. Ambas ocupam uma posição igualmente inferior no país onde habitam; ambas experimentam os efeitos da tirania, e embora as suas misérias sejam de ordens diferentes, podem, no entanto, atribuir as suas causas aos mesmos autores”[1]. Isto porque, na sua óptica, a escravidão teve mais impactos devastadores para os negros do que propriamente para os índios, pois “os Índios morreram no mesmo isolamento em que viveram; mas o destino dos negros está, de certo modo, ligado ao dos Europeus”[2]. Por outras palavras, “a opressão subtraiu de uma só vez a quase todos os descendentes dos africanos os privilégios da humanidade! O negro Americano perdeu até as recordações do seu país; já não ouve a língua que os seus antepassados falaram; renegou a sua religião e esqueceu os seus costumes. Deixando, deste modo, de pertencer à África, não adquiriu, contudo, nenhum direito aos bens europeus. Parou entre as duas sociedades, permanecendo isolado entre dois povos; foi vendido por um e repudiado pelo outro, encontrando em todo o universo apenas o lar do seu amo para lhe dar uma imagem incompleta da sua pátria”[3]. E todas estas desgraças mundanais acabaram por afectar-lhe drasticamente do ponto de vista cognitivo, fazendo com que não sentisse o seu infortúnio, isto é, “a violência fez dele um escravo e a prática da servidão conferiu-lhe pensamentos e ambição de escravo; admira mais os seus tiranos do que os odeia e encontra a sua alegria e o seu orgulho na servil imitação dos que o oprimem”[4]

Se de um lado o negro e o índio foram escravizados pelos brancos, sustentava ainda Tocqueville, “o negro está colocado nos limites extremos da servidão; o Índio nos dá liberdade. A escravatura não produziu efeitos mais funestos para o primeiro do que a independência para o segundo”[5]. Tanto que, por esta razão, tendo em conta os enraizados complexos herdados pela escravatura, “o negro faz mil esforços inúteis para se introduzir na sociedade que o repele; submete-se aos gostos dos seus opressores, adopta as suas opiniões e, ao imitá-los, aspira a confundir-se com eles. Logo que nasce, dizem-lhe que a sua raça é naturalmente inferior à dos brancos e, como não está muito longe de acreditar que tal seja verdade, tem vergonha de si próprio. Em cada uma das suas facetas descobre uma marca de escravatura e, se pudesse, consentiria, com alegria, em repudiar-se inteiramente”[6]

Diferentemente desta patente complexidade do negro americano, o índio “tem a imaginação cheia da suposta nobreza da sua origem. Vive e morre entre os sonhos do seu orgulho. Longe de desejar submeter os seus costumes aos dos brancos, agarra-se à barbárie como a um sinal distintivo da sua raça e repele a civilização, talvez menos por lhe ter do que por medo de se tornar semelhante aos europeus. O negro gostaria de se confundir com o Europeu, mas não consegue. O índio seria capaz de o fazer, até certo ponto, mas desdenha tentá-lo. O servilismo de um entrega-o à escravatura e o orgulho do outro à morte”[7]. O índio jamais se submeteu à escravatura ao passo que o negro se conformou com o seu desventurado destino. Apesar deste conformismo servil do negro, continua a merecer repulsa a todos os níveis por parte dos seus implacáveis opressores. Estes concebem o homem negro como sendo insignificante e indigno. Um “homem que nasce numa classe inferior, a esse estrangeiro que a servidão introduziu entre nós, mal lhe reconhecemos os traços gerais da humanidade. O seu rosto parece-nos horrendo, a sua inteligência limitada, os seus gostos ordinários. Pouco falta para que o consideremos um ser intermédio entre a besta e o homem”[8]

É este o âmago para podermos compreender holisticamente a condição de subalternidade e de reiterada humilhação a que os negros americanos foram e são votados ao longo dos séculos, bem como os conhecidos preconceitos, as discriminações e o racismo estrutural que infelizmente continuam a carregar no seu dia-a-dia perante os brancos. Mesmo depois da abolição total da escravatura em 1865, o homem negro nos EUA continua refém do seu passado de opressão. Mantém-se refém do sistema que lhe veda uma posição de proeminência na sociedade e na res publica. É verdade que a actual Constituição Federal dos Estados Unidos da América (EUA) consagrou o princípio da igualdade entre os cidadãos e a igualdade das oportunidades entres os mesmos, bem como ractificou os direitos fundamentais proclamados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, censurando assim o preconceito, a discriminação, o racismo e a xenofobia, no entanto estas proclamações legislativas não conseguiram erradicar o costume assente que os brancos têm em relação aos negros. “Se a desigualdade criada apenas pela lei é tão difícil de extirpar, como destruir aquela que, para além disso, parece ter os seus fundamentos imutáveis na própria natureza”, questionava peremptoriamente Tocqueville[9]. Há, neste aspecto, um manifesto triunfo do costume para com a Constituição Federal e as Leis da República dos Estados Unidos da América (EUA). 

Tendo em conta as verdades expostas, é importante salientar que o racismo nos Estados Unidos da América (EUA) está bem sedimentado há séculos, através do costume enraizado na sociedade. Ele precedeu à fundação da nacionalidade americana, precedeu as emendas constitucionais que foram posteriormente introduzidas para melhorar a condição de vida dos cidadãos e afirmar o primado da justiça social. Precedeu, da mesma sorte, a abertura da Democracia, razão pela qual será bastante difícil de erradicar definitivamente na sociedade e possivelmente, a nosso ver, julgamos que este desiderato continuará a ser uma miragem nas próximas décadas. 

O racismo é um dos piores cancros que a decadência humana herdou do pecado original. Ele é maléfico a todos os níveis. É atentatório da dignidade e da vida humana. Segrega, discrimina, humilha, oprime e mata. O racismo é contra a religião e, em última instância, um insulto ao Eterno DEUS. “Precisamente porque todos os homens são filhos de Deus  e Cristo  veio para todos salvar, a universalidade dos fundamentos e da mensagem cristã tem como consequência a afirmação de uma regra de igualdade entre todos os homens: tal como São Paulo afirma na sua Epístola aos Gálatas, “não há judeu, nem grego, não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher””[10]. Toda a discriminação racial, escreve ainda inspiradamente o Professor Doutor Paulo Otero, “é profundamente contrária aos postulados cristãos: há uma incompatibilidade axiológica entre cristianismo e racismo – nenhum cristão pode ser racista e nenhum racista se pode dizer cristão”. O racismo é anti-civilização, anti-humano e constitui um enorme perigo para a Humanidade. Por isso, precisa vigorosamente de ser combatido por todos os homens e mulheres de “boa vontade” com as armas da justiça, da moderação, da tolerância, da igualdade e da humanidade. 

E mais, não temos uma visão minimalista sobre o racismo. Não somos daquelas pessoas que entendem que ele é exclusivamente dos brancos para com as demais etnias humanas, inclusive ilibando os negros do racismo. Não, não temos este redutor entendimento. O racismo é um cancro transversal à natureza humana, infelizmente. Há racismo do branco para com o negro e vice-versa. Também, paradoxalmente, há racismo entre o branco para com o branco, bem como do negro para com o negro. Tal como formula Tocqueville, na mesma esteira do pensamento para vincar esta inequívoca verdade antropológica, “há um preconceito natural que leva o homem a desprezar aquele foi seu inferior ainda muito depois de este se tornar seu igual; à desigualdade real criada pela fortuna ou pela lei sucede sempre uma desigualdade imaginária com raízes nos costumes”[11]. Só que, em abono da verdade, os negros acabaram por sofrer mais com os seus perniciosos efeitos comparativamente às pessoas de outras etnias. 

Os afro-americanos e os negros em geral para realmente se libertarem do leviatã do racismo – tanto estatal como social e/ou individual – precisam de continuar a apostar seriamente na educação e qualificação para, deste modo, chegarem à proeminência nos círculos da sua convivência diária. Serem bons cidadãos, bons estudantes e académicos. Bons profissionais e, acima de tudo, “bons samaritanos”. Procurar sempre a excelência naquilo que estão a fazer ou são incumbidos a fazer. Este é o antidoto mais eficaz para vencer o racismo. 

Não obstante estas salutares virtudes que os negros devem impreterivelmente encarnar para derrotar o racismo, é também extremamente importante a afirmação de África no panorama mundial. A começar, desde logo, no âmbito económico-financeiro, científico, cultural, social, desportivo, etc., e consequentemente ganhando influência internacional. Isto porque o racismo normalmente ataca os alicerces da vítima, indo para o âmago da sua origem, identidade e raça. E a “autêntica” identidade de todos os afros espalhados pelo mundo fora é a África. Por isso, independentemente do estatuto social de qualquer afro ou africano na sociedade em que ele está inserido, ele vai continuar sempre a ser objecto de preconceito, discriminação, racismo, uma vez que será sempre, em última instância, associado a marginalizada África. E tal como sabemos, a forma como África e os africanos são vistos no mundo fica muito aquém daquilo que deveria ser. É um continente desprestigiado a todos os níveis, bem como o menos desenvolvido quando comparado com os seus congéneres. Tem as maiores carências económico-financeiras, o que por sua vez vai atraindo toda a sorte de calamidades sociais, nomeadamente o baixo índice de desenvolvimento humano, a malária, a cólera, o VIH, a exclusão social, a exorbitante taxa de analfabetismo, a baixa esperança média de vida dos seus habitantes, a elevada taxa de mortalidade materno-infantil e adulta, o narcotráfico e o sistema corrupto e autoritário que vigora na generalidade dos seus estados membros, o que se traduz em tremendas violações dos Direitos Humanos (LER). Logo, tudo isto, potencia o preconceito, o estereótipo, a desconsideração, o estigma e a discriminação negativa para qualquer africano ou afro no mundo[12]. Logo, o “balão de oxigénio” para aplacar a discriminação e o racismo contra os negros passa, também, por esta via, na afirmação e dignificação do continente africano na arena internacional. Tal proeza fará com que a África e os afros sejam vistos de maneira completamente diferente e bastante positiva por outras etnias. 

De qualquer das maneiras, apesar do retrocesso abismal do continente africano e da pobreza que incorpora e grassa no seu seio, nada justifica qualquer tipo de acto de racismo contra os africanos ou afros ou qualquer outro tipo de etnia. O racismo é puramente estupidez e uma ofensa contra a criação de Deus, uma vez que somos todos feitos à imagem e semelhança Dele (Génesis 1:27)

A democracia nos Estados Unidos da América (EUA), em suma, é toda ela construída com base no preconceito, na discriminação, no abuso, na escravatura e no derramamento de sangue. Está fundamentado, acima de tudo, na supremacia dos brancos em relação aos afro-americanos. Por isso, falta ainda aos Estados Unidos da América (EUA), apropriando-nos das sugestivas palavras do Presidente Nelson Mandela, um longo caminho para a liberdade. É um verdadeiro sonho que ainda fica por realizar, na inspirada formulação do Activista dos Direitos Humanos Martin Luther King Jr.[13].  Um sonho, sem dúvida, que ainda fica por realizar… 


[1] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, Principia, Estoril, 2007, p. 368.
[2] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, p. 391.
[3] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 368.
[4] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 369.
[5] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 370.
[6] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 370.
[7] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 371.
[8] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 393.
[9] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 393.
[10] Cfr. Paulo Otero, Instituições Políticas e Constitucionais, Almedina, Coimbra, 2007, p. 97.
[11] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 392.
[12] Sobre a racialização da pobreza Eduardo Vera-Cruz Pinto, Curso Livre de Ética e Filosofia do Direito, Princípia, Cascais, p. 435 ss.
[13] Frase extraída no último discurso de Martin Luther King Jr. no dia 3 de Abril de 1968, tendo sido assassinado no dia seguinte, citado na sua Autobiografia Eu Tenho Um Sonho, Bizâncio, 2003, p. 389 ss. 

O Fenómeno do Racismo, por Yussef



Caros leitores, mais uma vez, partilho aqui convosco a visão do nosso ilustre Activista Yussef sobre o fenómeno do Racismo. Vale a pena realmente verem. Tenham um bom proveito na auscultação. Obrigado. 

O Racismo, Por Robert de Barros Neves



Partilho aqui, mais uma vez, este sucinto vídeo sobre a problemática do Racismo na óptica do nosso ilustre Robert de Barros Neves (LER). Vale a pena verem. Recomendo. Tenham um bom proveito na auscultação. Obrigado. 

O Valor Sagrado da Vida Humana

A vida humana é sagrada em todas as suas várias configurações antropológicas. Uma premissa que recebeu primeiramente um amplo acolhimento no pensamento Judaico-Cristão, acabando posteriormente por influenciar decisivamente a Magna Carta Inglesa do século XIII, a Revolução Francesa do século XVIII e todas as outras civilizações mundiais. Um valor sagrado que é intrinsecamente indissociável da dignidade, da liberdade, da segurança e da auto-determinação. A todos os seres humanos, sem excepção, são garantidos os Direitos Fundamentais para se auto-realizarem na sociedade, aliás, este também é o entendimento abraçado na disposição da Declaração Universal dos Direitos Humanos e na generalidade das constituições dos países. 

Este valor sagrado da vida não é compatível com as discriminações negativas, independentemente das condições biológico-naturais de cada cidadão no seu círculo de convivência diária ou estatuto social. Ele assegura a todos os cidadãos o princípio da igualdade e das oportunidades. A partir da concepção, período em que começa a vida, até à morte, todos devem beneficiar destes importantíssimos direitos e serem protegidos pela sociedade e o Estado em particular. A começar, desde logo, pelos nascituros, as crianças, os adultos, as mulheres, os homens, os doutos e indoutos, pessoas portadoras de deficiências, nomeadamente os inabilitados e interditos. Em suma, pessoas capacitadas e incapacitadas. Não podemos, em circunstância alguma, beneficiar uns em detrimento dos outros. Todas estas pessoas têm direito à vida, à dignidade, à segurança, à protecção e ao usufruto dos Direitos Fundamentais. 

Por comungar holisticamente com estes postulados axiológicos, razão pela qual sou inteira e manifestamente contra a hedionda prática do aborto (LER), da eutanásia (LER), da barriga de aluguer (LER), da manipulação de células estaminais, da pena de morte, da escravatura, da xenofobia e do racismo (LER), porque não condizem minimamente com os nobres valores da vida e da dignidade da pessoa humana. Sabemos que a “ditadura do relativismo” em que estamos infelizmente mergulhados, sob a capa da modernidade, não valoriza a vida humana na sua verdadeira acepção, não obstante passar inutilmente a ideia de se preocupar com ela. É um relativismo que nada reconhece como absoluto e que deixa como última medida apenas o próprio eu, as suas vontades e libertinagens. 

Os mesmos países que estão hoje empenhados em proteger as pessoas contra a pandemia do coronavírus, são os mesmos países que não medem esforços para promover a “cultura da morte”, através da legalização da prática do aborto, da eutanásia, da pena de morte e infindáveis guerras que ceifam diariamente a vida de milhares e milhões de pessoas em todo o mundo. São, da mesma sorte, países que criam barreiras entre as pessoas e raças, mediante políticas deliberadas de discriminação, exploração, segregação, racismo. Onde está o valor sagrado da vida e da dignidade da pessoa humana com tudo isto? Um autêntico paradoxo.

Os Paradoxos da Mulher Moderna Guineense


Falar do substrato identitário da mulher guineense não é uma tarefa nada fácil, tendo em conta a heterogeneidade que ela encerra nas suas várias mundividências. E esta heterogeneidade remete-nos indubitavelmente para as considerações antropológicas, sociológicas, culturais e etnológicas para podermos aferir com precisão os pressupostos valorativos que caracterizam a multiforme configuração da mulher guineense (LER)

Não vamos, naturalmente, atermo-nos a todas essas idiossincrasias nesta nossa breve crónica. Apenas procuraremos cingir a condição da mulher moderna guineense, isto é, as que tiveram a oportunidade de minimamente estudarem e, consequentemente, aculturarem-se. Mulheres que, no bom crioulo, são apelidadas como “ku panhá pé” (esclarecidas, bem entendido). A parte significativa delas vive em Bissau, nas grandes cidades do nosso país e na diáspora em particular. São ainda mulheres que conseguiram absorver muito bem a cultura misógina e machista do nosso país e, concomitantemente, do mundo ocidental (LER). Por outras palavras, são mulheres formatadas nesta dupla realidade sociocultural, razão pela qual costumam autoproclamar-se ou de serem apelidas de mulheres “civilizadas” (LER)

Apesar desta híbrida experiência cultural que as mulheres modernas guineenses adquiriram, ao longo dos anos de vida, comparativamente com a maioria das nossas indoutas donas di casa” ou “mindjeris garandis”, mesmo assim elas têm ficado bastante aquém a nível comportamental. Isto porque muitas delas são mulheres levianas, fúteis, gananciosas, aproveitadoras, materialistas, interesseiras, promíscuas e sem escrúpulos; mulheres que vivem acima de tudo pela conveniência circunstancial e de convergências de interesses, ignorando deliberadamente as virtudes da dignidade humana e da emancipação feminina. 

A mulher moderna guineense, por ser bastante astuta na sua articulação e actuação, procura sempre tirar dividendos das duas realidades culturais que lhe estão intrinsecamente subjacentes. Somente usam a cultura guineense para tirar contrapartidas em relação ao homem, nomeadamente quando este lhe sustenta os seus ávidos luxos e insaciáveis vícios. Da mesma sorte, quando lhe convém enveredar pela libertinagem e autodeterminação, à revelia do homem, daí é que se lembra de fazer uso das prerrogativas da sua vertente cultural pós-moderna. 

A generalidade da mulher moderna guineense de modernidade não tem nada. São mulheres que ainda não conseguiram interiorizar bem o conceito do feminismo igualitário e da emancipação feminina, não obstante passarem inutilmente a ideia de assimilação neste sentido e de comungarem da cultura ocidental. A emancipação, para ser realmente uma verdadeira emancipação, deve contemplar, desde logo, a emancipação intelectual, a emancipação financeira e a emancipação sexual – emancipações essas de que a mulher moderna guineense está manifestamente desprovida (VER)

A título exemplificativo, para testar a nossa afirmação: como é que é possível uma mulher arrogar-se de emancipada se não consegue pensar pela sua própria cabeça ou reduzir a sua felicidade a um homem endinheirado que case com ela e lhe faça feliz? Não será inconcebível uma mulher achar-se de emancipada se se relaciona ainda com os homens a troco de uns míseros tostões, convertendo o seu corpo numa clara prestação de serviço? Como é que é possível uma mulher julgar que ela é emancipada quando reduz a sua sexualidade aos caprichos egoístas do homem, consentindo sobretudo a este actos de infidelidade conjugal, violência doméstica e outras práticas infames? Mulheres que não têm nenhumas reservas ou pudor em pedir dinheiro aos seus parceiros para alimentarem as suas extravagâncias do dia-a-dia, nomeadamente viajar, comprar o carro, a roupa, as jóias, o cabelo humano, o telemóvel e, em suma, sustentar as suas polutas mordomias. 

A realidade da mulher moderna guineense é tudo isto que acabamos de reportar. Uma realidade aviltante e triste a que elas deliberadamente se submetem a troco de uma vida confortável, que os seus parceiros lhes vão dando. Uma vida manifestamente votada ao objecto de prazer nas mãos dos grunhos homens e de completa humilhação. Toleram tudo e mais alguma coisa, sobretudo a ofensa à integridade física e psicológica, para continuarem a ter mordomias e, desta forma, manter o status social de cinderelas. 

Ora, isto não é ser emancipada e tão pouco moderna. É circunscrever-se meramente à promiscuidade sexual e à prostituição do corpo, uma vez que tudo é baseado em interesses financeiros à revelia do genuíno amor que deveria caracterizar um casal (LER). Ser uma pessoa moderna é ser, acima de tudo, autossuficiente em todas as dimensões do trato social. 

A autonomia e autodeterminação da mulher, importa ainda salientar, foi um dos grandes postulados axiológicos defendidos na génesis dos movimentos sufragistas do século XIX e unanimemente reconfirmada pelos feministas dos nossos dias contemporâneos, que visam máxime a igualdade entre o homem e a mulher em todas as dimensões, circunstâncias e esferas da vida (LER). E esta igualdade, no entanto, só se alcança com a verdadeira emancipação da mulher, com vista a permiti-la libertar-se definitivamente do jugo opressor do homem. 

Por isso, a mulher tem de consciencializar que a sua felicidade depende unicamente dela e não colocar toda a sua esperança num putativo “homem da sua vida”. Deve também trabalhar e estar à altura de pagar as suas contas. Se for, porventura, casada tentar partilhar despesas da casa com o seu marido para, deste modo, ganhar plenamente a liberdade dentro do lar e poder estar em condições normais de exigir o marido  aquilo que entender ser o mais justo na família –  e não ficar numa condição de subalternidade, tal como a generalidade das nossas mulheres “ku panhá pé” têm sido relegadas (LER). Qualquer relacionamento humano, a nosso ver, deve ser pautado pela complementaridade e não pelo aproveitamento circunstancial, monetária ou momentânea. 

A mulher moderna guineense não tem a mínima desculpa por este censurável comportamento leviano e promiscuo, que tem deliberadamente adoptado no seu dia-a-dia ao longo dos anos, diferentemente das nossas heróicas mães e avós que infelizmente foram vedadas à oportunidade de estudarem e de se relacionarem com a cultura pós-moderna, fazendo com que se limitem apenas à condição de domésticas e donas de casas. Mesmo assim, apesar de tudo isto, são mulheres de família, honradas, trabalhadoras e com dignidade; que não andam a saltitar de parceiros até encontrarem o homem endinheirado que lhes fazem singrar na vida, não obstante as muitas e infindáveis falhas dos seus maridos. São mulheres que vivem exclusivamente para a família e somente para a família; mulheres que se desdobram em “sete ofícios” para conseguirem o ganha-pão para as suas famílias, razão pela qual continuam a ser o baluarte moral e a esperança das famílias guineenses. São, em suma, “mindjeris ku finka pé rissu na tchon!”

A generalidade da mulher moderna guineense, para desgraça da nossa sociedade em geral, é uma despudorada, viciada e autêntica depravada nos costumes e valores éticos-morais, uma vez que conseguem assimilar o pior da cultura ocidental e, ao mesmo tempo, o pior da cultura misógina e machista dos guineenses (ALI) (AQUI). Comportamentos estes que, de todo, em abono da verdade, não se coadunam com o progressismo da pós-modernidade, que elas inutilmente reclamam encarnar. Um autêntico paradoxo! 

A Mulher Virtuosa Cristã em Contraposição com a Libertária do Neo-Feminismo

O feminismo tradicional trouxe incomensuráveis ganhos às sociedades abertas no que toca à paridade de direitos entre as mulheres e homens, especialmente a emancipação daquelas. Ele propulsionou as marginalizadas mulheres a conquistarem unilateralmente o seu merecido espaço na res publica, através de intensas lutas cívico-políticas empreendidas nos mais variados domínios da sociedade. Graças máxime às inconformadas feministas, ao longo das décadas, a mulher atualmente no ocidente tem uma projecção pública notória e inquestionável, baseada no princípio da igualdade e na sua livre autodeterminação. Tudo isto, no cômputo geral, sem dúvida, é de salutar. 

No entanto, se é verdade que o feminismo contribuiu decisivamente para dignificar a vulnerável condição das mulheres, sobretudo afirmar categoricamente os seus direitos na sociedade, a sua vertente mais radical acabou também por criar uma ruptura bastante assinalável no papel milenar de equilíbrio que as mulheres sempre exerceram exemplarmente no seio familiar, gerando assim um conjunto de desestabilizações nos lares, tal como temos vindo impotentemente a assistir. O neo-feminismo, na sua exaustiva lista de pretensões, nega deliberadamente a autoridade do homem no lar que outrora os romanos apelidavam de “bonus pater familias”, reclamando de forma usurpada e distorcida o referido papel masculino, gerando uma anarquia sem precedentes na família. 

E mais, com a revolução sexual dos anos sessenta do século passado (promiscuidade sexual, bem entendido), encabeçada particularmente pelas activistas feministas, que teve como apologia viver a sexualidade de forma desapegada, descomprometida e despida de todo o pudor ou tradicionalismo que, até então, estava profundamente enraizado nas sociedades. Em consequência disso, nesta patente visão de devassidão, começou-se a legitimar socialmente o uso desenfreado de métodos contraceptivos, o consumo da pornografia, a defesa da ideologia de género e da homossexualidade, a despenalização e legalização do aborto, o culto da imagem e uma aversão ao casamento. O prazer sexual passou a ganhar destaque e lugar cimeiro em muitas pessoas em detrimento do compromisso matrimonial. 

As mulheres, particularmente as da alta sociedade, passaram a ter um certo tipo de pavor à maternidade, tendo em conta os danos colaterais que esta comporta, somando ao culto desenfreado de imagem que elas obcecadamente vivem para estarem devidamente “em forma” e, poderem, deste modo, manter “a linha”. Com efeito, para satisfazerem este capricho narcisista e egocêntrica, tentam a todo o custo impor a prática da barriga de aluguer em muitos ordenamentos jurídicos como sendo um padrão normal. 

O feminismo radical reclama estas abominações comportamentais com a equivocada justificação de libertar as mulheres do jugo opressor do patriarcado masculino, “disseminado” pelo Cristianismo ao longo dos séculos, dizem aleivosamente as suas activistas nas suas falsas e tautológicas proclamações. Se há religião que mais defende e promove a afirmação da mulher é, sem dúvida, o Cristianismo. É um facto assente, manifesto e indiscutível. Basta avaliar os países onde o Cristianismo tem a devida proeminência e ver a integração das mulheres nestes respectivos países, comparando-a depois com outros países que têm outras religiões, rapidamente concluir-se-á que as mulheres têm mais direitos, liberdades e garantias nos países Cristãos do que propriamente nos países das outras confissões religiosas. É uma realidade cognoscível e bastante fácil de apurar. 

As mulheres devotamente Cristãs sofrem menos abusos de violência domésticas, menos divórcios, menos situações de riscos de abandono e praticamente não cometem o crime do aborto. São, na generalidade das situações, mulheres realizadas e felizes no lar, tendo em conta os elevados Princípios e Valores do Cristianismo que vinculam todos os filhos de DEUS. A herança Judaico-Cristã é a maior portadora do personalismo e do princípio da igualdade entre os seres humanos. 

O Senhor Jesus Cristo foi, por todos, um dos primeiros grandes Mestres da antiguidade a integrar as mulheres na sua comitiva missionária e estas, por sua vez, exerceram um papel amiúde importante e determinante no Seu ministério terreno. Não há espaço para a misoginia e a discriminação no Cristianismo e, muito menos, entre as diferentes raças e classes sociais, uma vez que “todos os que foram baptizados em Cristo revestiram-se das qualidades de Cristo. Não há diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homem e mulher”, sustentava peremptoriamente o Apóstolo Paulo na sua construção teológica (Gl 3:27-28). 

A Mulher tem dignidade, liberdade, direitos e autonomia no seio do Cristianismo, diferentemente da grosseira mentira que tem sido propalada pelos movimentos neofeministas. A mulher virtuosa, traçada no capítulo trinta e um do livro de Provérbios, que serve de bitola para todas as mulheres Cristãs do mundo, não é uma mulher subjugada ou infeliz. Antes pelo contrário, é uma mulher completamente autónoma, bem-sucedida, realizada e feliz a todos os níveis da sua convivência (Pv 31:10-31). 

A começar, desde logo, no plano espiritual, familiar, profissional e social. É uma mulher que ama a DEUS, acima de todas as coisas, comprometida, casada, mãe, fiel, trabalhadora, generosa para com o próximo (v.12-20; 28). Com o seu próprio rendimento, coadjuvado com o do seu marido, providencia o sustento e vestimenta para a sua família e, concomitantemente, estende as mãos aos pobres e marginalizados da sociedade (v.14; 20-21). É uma mulher que não questiona a autoridade do seu marido e, muito menos, rivaliza com ele para ganhar mais protagonismo no lar (v.11-12). Não é materialista ou interesseira. Não é extravagante a vestir ao ponto de cair no pecado da sensualidade (v. 22). Faz tudo de forma abnegada para ajudar a sua família e terceiros. É uma pessoa bastante sábia, discreta, empreendedora, decente e moderada na sua forma de estar e encarar os elevados desafios da vida. É, justamente, por todas esses sublimes atributos humano-espirituais, que o seu marido confia inteiramente nela (v.11) e junta-se em coro com os seus filhos para elogiá-la, dizendo: “muitas mulheres foram exemplares, mas tu és a melhor de todas” (v. 28-29), porque ela é virtuosa e respeita em primeiro lugar o Todo-Poderoso DEUS. 

Ora, parte significativa destes nobres atributos da “mulher virtuosa”, são deliberadamente negligenciados pelas feministas radicais. Elas são, na generalidade das situações, mulheres mal-humoradas, insubmissas, provocadoras, prepotentes, materialistas, interesseiras, vulgares, libertinas, saturadas e com tiques de superioridade. Vivem apenas de aparências e são completamente infelizes. A mulher virtuosa, diferentemente disso, vive altruisticamente para agradar a DEUS, ao seu marido e à sua família em geral, procurando ser exemplar na sua conduta diária. Ao passo que as feministas radicais vivem exclusivamente a pensar nos seus interesses egocêntricos, brejeiros, promíscuos e polutos, tomando muitas vezes decisões à revelia da família e do parceiro/marido em especial. 

Todas estas aversões comportamentais acabam por atrofiar e atingir consideravelmente o instituto da família, causando danos irremediáveis e incalculáveis do ponto de vista relacional. É por esta razão que há cada vez menos casamentos no ocidente, um menor número de filhos, índices galopantes e preocupantes de divórcio, por causa deste neo-feminismo completamente descontextualizado, enfezado, fútil e descabido. 

Em suma, sem entrar mais em prolegómenos, a mulher virtuosa Cristã é completamente oposta, a todos os níveis, no bom sentido do termo, da mulher radical, insubmissa e libertária do neo-feminismo – por razões manifestamente invocadas no artigo.  

Mulheres: A Luta Por Um Lugar na História


Na semana passada fez-se História no meu país, a Guiné-Bissau (VER). Pela primeira vez temos os mesmos números de mulheres e homens a ocuparem cargos ministeriais, isto é, oito por cada, superando assim a margem da recente lei de quota de 36% aprovada de forma unânime na Assembleia Nacional Popular (ALI) e (AQUI). Este extraordinário feito catapultou a Guiné-Bissau para os lugares cimeiros como sendo exemplo a seguir da boa integração das mulheres na acção governativa em África e no mundo em geral (contam-se pelos dedos de uma mão os países que respeitam, de facto, a paridade de géneros nos governos). 

Mesmo assim, com este gigantesco passo do meu país na emancipação feminina, não devemos ficar iludidos com sol de pouca dura. Há ainda muitas barreiras, preconceitos generalizados e descriminações infundadas para com as nossas inofensivas mulheres que devem ser extraídas. O país, para infelicidade nossa, continua ainda a ser governado exclusivamente pelos homens. Todos os órgãos da soberania estão sob alçada dos homens. A começar, desde logo, com o Presidente da República, o Presidente da Assembleia Nacional Popular, o Primeiro-Ministro, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Procurador Geral da República e o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas. Como se tudo isto não bastasse é o mesmo país machista que condena deliberadamente muitas meninas e mulheres as flagrantes práticas da mutilação genital feminina, o casamento forçado, a violência doméstica e a elevada taxa da mortalidade materno-infantil, etc (LER)

Por isso, apesar de registamos com enorme satisfação o sinal bastante positivo da integração das mulheres neste novo elenco governativo, continuamos a entender que é preciso ir mais além na emancipação de “nô padiduris”. Por outras palavras, é preciso deixar as mulheres conquistarem o seu devido espaço e consequentemente eliminar muitos cancros humano-sociais que continuam ainda a bloquear o nosso desenvolvimento nacional.