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A LER

Nunca foi tão urgente compreender a mente autoritária dos ditadores como nos conturbados dias de hoje. Melhor ainda é compreender os métodos ardilosos que empregam para ludibriarem as massas e, consequentemente, chegarem ao poder o mais rápido possível e legitimarem as suas despóticas acções governativas. Julgava presunçosamente que já tinha entendido razoavelmente tais artimanhas formulações ditatoriais – por causa de algumas sínteses que estudei sobre o absolutismo político ao longo dos anos. Afinal de contas, sem dúvida, estava manifestamente equivocado na minha ingénua presunção. 

Por isso, para preencher algumas lacunas que ainda tenho neste domínio de autocracia, comecei por estes dias a ler afincadamente “A Democracia Totalitária” do Professor Doutor Paulo Otero.  Uma leitura que está a ser bastante intrigante e desafiante a todos os níveis. Depois de me ter aventurado com sucesso, há sete anos, de forma entusiasta, na leitura da clássica obra “As Origens do Totalitarismo” de Hannah Arendt (ALI) e (AQUI), sinto-me novamente compelido a mergulhar na Democracia Totalitária de Paulo Otero para, desta forma, compreender melhor a autocracia político-governativa. 

Num passado recente, mais concretamente em Abril de 2019, a reputada revista Courrier Internacional fez capa com uma longa e provocante reportagem intitulada “Agora Mandam os Brutos?”, nomeando no leque dos governantes “brutos” de então Trump, Putin, Xi Jinping, Bin Salmam, Erdogan, Salvini e Bolsonaro, chamando a atenção para uma convulsão político-social no mundo, tendo em conta a deriva autoritária em que parte das grandes democracias estavam a enveredar. Estamos, cada vez mais, a presenciar impotentemente este ataque deliberado à Democracia Participativa, com consequências nefastas na vida de todos nós. 

Estou duplamente feliz com esta leitura que estou a empreender. Primeiro, o autor da obra em apreço, o Doutor Paulo Otero, foi meu Professor na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e um dos que eu mais aprecio nela. Segundo, a abordagem metodológica e “argumentação persuasiva” do livro não diferem tanto da sua outra obra “As Instituições Políticas e Constitucionais”, que éramos obrigados a ler para podermos entrar depois em noções estruturantes de Direito Constitucional. O senhor Professor Doutor Paulo Otero é muito bom a dar aulas. É também bastante bom a escrever. E “A Democracia Totalitária” não será certamente a excepção à regra a estas qualidades intrínsecas e notórias do Professor Otero. Vale a pena lê-la, tal como estou agora a fazer. Vale mesmo a pena. Recomendo-a.

Os Demónios São Muitos no Mundo


Não há dúvidas que os demónios proliferam abundantemente neste maldito mundo em que estamos submergidos. Apoderam-se das criaturas e das pessoas a seu bel-prazer com a finalidade última de arruiná-las. Tornam as pessoas cativas do pecado, fazendo-as mergulhar em todo o tipo de vícios perniciosos, malefícios e malignidade. Os demónios são seres decadentes que estão às ordens de Satanás, o príncipe dos demónios (Mateus 9:34; 12:24), para subverter os planos salvíficos de DEUS com a Humanidade (LER). São muitos no mundo e conspiram articuladamente em várias frentes para destruir o ser humano, não obstante reiteradamente aliciarem-no com aparente bem-estar. Muitas pessoas, ludibriadas neste efémero e mundano sucesso, vendem deliberadamente a alma ao Diabo, mediante pactos satânicos que vão firmando com ele para singrarem rapidamente na vida e, consequentemente, terem o conhecimento, o reconhecimento, a fama, o poder e a riqueza (veja-se, por todos os exemplos, a tragédia do Doutor Fausto com o Mefistófeles de Goethe (LER)

Os demónios estão de forma camuflada em todos os domínios da nossa civilização, sociedade e socialização, através da encarnação real nos “filhos da desobediência” (Ef. 2:2), para promoverem as suas agendas maléficas em todas as dimensões da convivência humana. Os demónios, através dos seus ímpios agentes, estão na política, na governação, nos negócios, no desporto, na academia, nas igrejas, na cultura, no mercado laboral, na moda, nas instituições e nas famílias, etc., razão pela qual são muitos e trabalham unanimemente para promoverem o mal e fazê-lo triunfar na vida das pessoas e no mundo. Mesmo assim, sabemos que somos filhos de DEUS e que o mundo inteiro está sujeito ao poder do maligno (1 João 5:19). Aliás, o Diabo é o príncipe deste mundo e já está condenado pelo poder do Todo-Poderoso DEUS (João 16:11). 

O exemplo manifesto desta afirmação prende-se com o encontro do Senhor Jesus Cristo com o endemoninhado de gadarenos, que “vivia nos sepulcros e ninguém conseguia prendê-lo, nem mesmo com correntes. Já muitas vezes o tinham apanhado e ligado com cadeias de ferro nos pés e nas mãos, mas ele rebentava tudo e ninguém conseguia dominá-lo” (Mc 5:1-4). A situação desastrosa e infeliz deste homem, que era completamente possuído pelo espírito imundo, instrumentando-o com comportamentos extremamente violentos contra si e terceiros, com o objectivo final de destruí-lo. Ele estava louco pela acção intencional do Diabo para acabar com ele. Tanto que, por esta razão, estava em constante sobressalto interior e revoltava-se contra tudo e todos à sua volta, fazendo com que tivesse isoladamente a sua morada nos sepulcros. Vivia desnorteadamente no meio dos defuntos. O espírito mau atormentava-o “continuamente, dia e noite, gritava pelos montes e por entre os túmulos, ferindo-se com pedras” (Mc 5:6).  Estava fora de si e sob inteira dependência da legião de demónios que se apoderavam dele. A força sobrenatural que ostentava, capaz de rebentar correntes de ferro e tudo o que lhe prendia, a fixação da sua morada no lugar dos mortos e gritos reiterados que dava de dia e noite sem sossego, demonstravam claramente a possessão demoníaca de que este pobre homem tinha sido objecto. 

No entanto, o autor sagrado relata-nos que, quando o endemoninhado “viu Jesus ao longe, correu e adorou-o. E, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes” (Marcos 5:6-7). Normalmente ele corria para os outros com fúria, escrevia o teólogo Matthey Henry, “mas ele correu para Cristo com reverência. Aquilo que não pôde ser feito com cadeias e grilhões, foi feito pela mão invisível de Cristo. A fúria dele foi subitamente contida.  Até mesmo o diabo, nessa pobre criatura, foi forçado a tremer diante de Cristo, e curvar-se a Ele”, sintetizava o insigne biblista. O indomável e possesso homem suplicou encarecidamente ao Senhor Jesus para não lhe atormentar, somando ao facto de reconhecê-Lo como Filho de DEUS (Obviamente, que era o demónio que estava a falar e a actuar nele). O Diabo e os seus demónios assustam-se com a presença gloriosa do Senhor Jesus Cristo e sabem perfeitamente que devem-Lhe temor reverencial e acto de adoração, tal como ficou manifestamente patente na passagem bíblica em apreço. 

Perante esta situação dramática de desespero, o Senhor Jesus perguntou ao endemoninhado: Como te chamas? Ele respondeu: Chamo-me multidão, porque somos muitos. Os demónios são muitos e eram muitos os que tinham ocupado indevidamente a vida deste miserável homem, desgraçando-lhe a todos os níveis. Os espíritos maus pediram ao Senhor Jesus: “«Manda-nos passar para aqueles porcos.» Jesus consentiu e os espíritos maus saíram do homem e entraram nos porcos, que eram cerca de dois mil. Puseram-se todos a correr pelo monte abaixo até ao lago e lá se afogaram” (Mc 12-13). Os porcos suicidaram-se, ilustrando o triunfo do bem e o trânsito do mal para uma natureza inferior e conspurcada, em direcção à sua derrota e eliminação. Por outras palavras, o triunfo definitivo do Senhor Jesus Cristo sobre os demónios e Diabo. 

Ao longo dos séculos tem-se especulado de forma sistemática sobre a figura dos porcos nesta milagrosa história, procurando extrair o seu significado teológico e teleológico, sobretudo por que razão os demónios imploraram ao Senhor Jesus para deixá-los entrar exclusivamente nos porcos e Este, por sua vez, consentiu. Na sua homilia vigésima-oitava sobre o Evangelho segundo São Mateus, São João Crisóstomo, citado pelo Jansenista, “esclarecerá que se trata de uma metáfora sobre a dupla natureza humana, representando os porcos a natureza bestial do homem, na qual o Diabo se insinua para nela plantar as sementes do fim da espécie. Em contraponto, Tertuliano (em Adversus Marcionem) e São Jerónimo (nos seus Comentários sobre o Evangelho segundo São Mateus) enaltecem o poder redentor de Cristo sobre as Legiões do Mal”. O Teólogo Protestante Matthey Henry, na mesma esteira do pensamento, sustentava que “imediatamente os espíritos imundos entraram nos porcos, que segundo a lei mosaica eram criaturas impuras, e gostam muito de atolar-se na lama, que era o melhor lugar para eles. Aqueles que, como os porcos, se atolam na lama dos desejos sensuais, são moradas de demônios, e abrigo de todo o espírito imundo, e refúgio de toda a ave imunda e aborrecível (Ap 18:2), assim como as almas puras são a morada do Espírito Santo”. 

É assim que o Diabo actua na vida de todos aqueles que firmam acordos satânicos com ele ou estão sujeitos ao seu reino de trevas, tornando-os inteiramente dependentes do sincretismo, ocultismo, secularismo, relativismo, materialismo, sensualismo, ateísmo e de toda a sorte do pecado contra DEUS, o seu corpo e terceiros, bem como reduzindo-os completamente a uma degradação ético-moral e miséria espiritual aviltante. Esta rampa deslizante, no mundo das trevas, tem como objectivo final a aniquilação total dos próprios indivíduos ímpios para a perdição eterna. 

É verdade que há muitos demónios no mundo e que não se cansam de promover o mal dia e noite. É verdade que os demónios procuram todos os meios para desgraçarem a vida dos seres humanos, especialmente dos filhos de DEUS. Também é verdade que muitas pessoas ímpias firmam acordos satânicos com eles para integrarem os seus reinos diabólicos e, desta forma, tentarem fazer oposição ao Reino da Luz do nosso Salvador Jesus Cristo. No entanto, tal como bem sabemos pela revelação bíblica, O Diabo, os seus demónios e todo o mal foram definitivamente derrotados pelo Poder Divino do nosso Todo-Poderoso DEUS. O reino das trevas, em circunstância alguma, poderá resistir ao Reino da Luz (João 1:5). As portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja do Senhor Jesus Cristo (Mateus 16:18), assim como as trevas não podem resistir à Luz Divina (João 1:12). 

São muitos demónios no mundo, guiados pelo Diabo para praticarem o mal, insisto. Por isso, “não é contra seres humanos que temos de combater, mas contra poderes e autoridades, que dominam este mundo de escuridão, e contra os espíritos do mal, que não se veem” (Ef. 6:12). A nossa luta é contra o Diabo, os demónios e todos os seus agentes neste perverso e decadente mundo para libertar as almas perdidas, tal como o Senhor Jesus salvou milagrosamente este endemoninhado de gadarenos (Mc 5: 15-20). Aquele que vive em nós é mais forte do que aquele que está nos que são do mundo. O mal nunca vencerá o bem, antes pelo contrário, o bem já venceu o mal, através do sangue expiatório do Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário. Tem mais poder o Espírito Santo que vive em nós, filhos de DEUS, do que todos os demónios do mundo, o Diabo e os seus agentes terrenos (1 João 4:4). O Senhor Jesus venceu-os a todos e deixou-nos também a promessa de os vencer na força do Seu eterno poder. Que assim seja. E assim sempre será. 

Devemos Ser Tolerantes Com os Intolerantes?


Devemos ser tolerantes com os intolerantes? Como relacionar com as pessoas que não têm a cultura democrática? É concebível, num estado de direito democrático, lidar com os ditadores numa lógica da democracia? Será que a democracia aceita pessoas que não são democratas? Uma pessoa radical, extremista, violenta e autoritária pode beneficiar das regras integrativas da democracia participativa? Como é que podemos resistir e, simultaneamente, vencer pessoas antidemocráticas, sem pôr em causa o regime democrático? São todas as pertinentes questões que, de forma subsumida, procurei responder neste brevíssimo vídeo. 

Tenha um bom proveito na sua visualização e auscultação. 

Sic Transit Gloria Mundi


Atribui-se ao monge agostiniano Tomás de Kempis a autoria da célebre frase latina “sic transit gloria mundi”, que numa tradução aberta significa “toda glória do mundo é transitória” ou “o quão rapidamente passa a glória do mundo”. Os filósofos antigos interligavam simultaneamente a noção da glória com o poder, como sendo corolário axiológico da suma felicidade do homem e do seu triunfo final nesta vida, máxime no pensamento utilitarista de Jeremy Bentham, John Stuart Mill e Tomás Hobbes. Este último, inclusive, vai ao ponto de considerar que somente o soberano detém realmente o poder – seja ele um homem ou uma assembleia de homens –, razão pela qual deve exercê-lo de forma coerciva e absoluta. 

Há, no entanto, uma patente querela doutrinária sobre a definição do poder e a sua finalidade última. Se o homem se apercebesse com prematura sabedoria, observavam os moralistas Cristãos nas suas visões deterministas sobre a natureza humana, do facto de a vida terminar numa radical inutilização e de todo o poder e riqueza acumulada em vida não poupar ninguém da decadência e da morte, veria o absurdo do esforço e a natureza pírrica de todo o triunfo – e cairia, por isso, na contemplação e na indolência, contente, resignado com a pobreza resultante da sua sábia improdutividade. Por isso, nesta esteira de pensamento, o rei Salomão qualificava peremptoriamente  o poder humano e toda a glória do mundo de “vaidade de vaidades! Tudo é vaidade e aflição do espírito (Eclesiastes 1:2; 2:26)

Este longo intróito vem na sequência da sucessão de poder que terá lugar hoje nos EUA. Dentro de algumas horas Donald John Trump deixará de ser presidente de um dos países mais poderoso do mundo. A partir das 11h:00 desta manhã nos EUA passará a ser qualificado como o ex-Presidente dos Estados Unidos da América e, assim, passará a ser julgado definitivamente pelo seu legado político-governativo. Um legado que ficou profundamente marcado por vários escândalos sem precedentes – tanto a nível interno como externo. O Presidente que aspirava “Make America Great Again” ficou bastante aquém neste seu desiderato político-governativo. Por isso, foi duramente penalizado pelo povo americano nas urnas. O senhor Donald John Trump sai da Casa Branca sem honra nem glória. Sai pela porta dos fundos. Saí para nunca mais carregar a Res Publica americana. Sai para não deixar saudades nenhumas. E, por fim, sai para ser julgado pela História. É mesmo fim de um ciclo político. Era um desfecho previsível. Sic transit gloria mundi...

Menos Despachos de Tachos e Mais Trabalho


Os governantes guineenses parecem mesmo que não se enxergam. Não sabem lidar minimamente com o poder e os seus encantos. Deslumbram-se facilmente com ele e com todos os benefícios que encerra. Não sabem, acima de tudo, aprender com os erros do passado. Governam mais a pensar nos seus respectivos umbigos e no dos seus correlegionários do que propriamente no sofrido povo. E depois quando temos “o caldo entornado” querem arrastar todo mundo para o problema e usar, inclusive, de forma oportuna e despudorada, o povo na confusão que os próprios deliberadamente criaram. No entanto, quando está tudo “às mil maravilhas” não se lembram literalmente do povo. É o mesmo truque de sempre que este governo está novamente a ensaiar sorrateiramente a menos de poucos dias de tomar o poder. Começou muito mal e está a fazer já tudo mal. Os últimos sucessivos despachos de nomeações, excepto no que toca a nomeação do Engenheiro Domingos Simões Pereira, são exemplos manifestos de curtu sintidu” dos nossos governantes. 

Nesta altura do “campeonato” qual é a necessidade do Primeiro-ministro ter assim quantidades de conselheiros no seu gabinete? Que benefícios concretos isto terá no desenvolvimento do país? Faz assim tanta falta estes conselheiros? Porque é que tem de ser sempre os mesmos nomes do costume que nunca fizeram absoluta nada em concreto para o país? O país tem, porventura, bastante recursos financeiros para suportar os elevados salários e mordomias destes conselheiros? Em caso afirmativo: porquê que o governo não canaliza esta dotação financeira para os funcionários públicos? Querem que os sindicatos compreendam que o país está numa urgência financeira e na bancarrota, contudo o próprio governo não dá exemplo na contenção orçamental. Os servidores públicos são pedidos patrioticamente sacrifícios, enquanto que os próprios governantes vivem à grande e à francesa (um autêntico paradoxo!). 

Estes sucessivos despachos de nomeações descabidas consubstanciam manifestamente o nepotismo, o compadrio, os tachos para os mesmos de sempre, o esbanjamento gratuito do erário público e, em última instância, a corrupção no aparelho do Estado. E depois dizem que não vos deixaram governar... 24 de Novembro ká lundjú gora

A Arbitrária Decisão do Presidente da República


O nosso Presidente da República tomou ontem a sua pior decisão político-governativa ao recusar nomear pela segunda vez, sem fundamentos plausíveis, o nome indicado pelo partido vencedor das eleições legislativas, fazendo assim uma interpretação abusiva das suas prerrogativas constitucionais, nomeadamente o artigo 68.º alínea g). Versa o referido preceito constitucional que o Presidente da República deve “nomear e exonerar o Primeiro-Ministro, tendo em conta os resultados eleitorais e ouvidas as forças políticas representadas na Assembleia Nacional Popular”. Este artigo não está a bel-prazer do senhor Presidente para fazer o que bem entender com ele e, muito menos, impor a sua despótica vontade para ajustar contas com os seus adversários políticos. A sua teleologia é pensada para salvaguardar, em última instância, a autoridade do poder, evitando assim a “instrumentalização” da acção governativa por parte dos partidos políticos, máxime dos candidatos que não dispõem de capacidade cognitiva, ética, moral e política suficientes para ocupar o cargo de Primeiro-ministro. A aceitação ou não de um nome para Primeiro-ministro deve ser revestida de argumentos convincentes e inquestionáveis do ponto de vista da juridicidade. 

Ora, infelizmente, não foi isso que aconteceu ontem com a recusa liminar do nome do Engenheiro Domingos Simões Pereira. O Presidente da República limitou-se apenas a usar argumentos espúrios e conceitos indeterminados para fazer valer abusivamente a sua posição pessoal à margem da nossa Constituição, defraudando assim, de forma manifesta e flagrante, as legítimas expectativas da generalidade dos guineenses que votaram no partido vencedor para ver o seu líder como o Primeiro-ministro do país. Desde logo, o Engenheiro Domingos Simões não é um homem incompetente, não é inabilitado, não sofre de anomalias psíquicas, não foi condenado por corrupção com o processo transitado em julgado. Antes pelo contrário, é um homem altamente qualificado e com larga experiência político-governativa ao longo dos anos e um dos maiores activos e reputados políticos de que a Guiné-Bissau dispõe actualmente. Por que razão ele não pode ocupar o cargo de Primeiro-ministro, senhor Presidente? Não é, porventura, guineense? Ou por terem diferendos pessoais? E onde fica a “postura de estadista” que se impõe a um Presidente da República e os valores da Democracia Participativa? 

Espero, de facto, que o partido vencedor e a maioria parlamentar não arredem os pés para conformar-se com esta arbitrária, infundada e injusta decisão do senhor Presidente da República, que carece de base jurídico-constitucional, lutando democraticamente até às últimas consequências. 

O Leviatã das Redes Sociais


Desde a Revolução Francesa do século XVIII, convencionou-se no Ocidente que os media se ajustariam melhor ao epíteto de “quarto poder”, em contraposição aos tradicionais poderes estatais — o legislativo, o executivo e o judiciário —, sendo, deste modo, os exímios fiscalizadores da ação governativa e, concomitantemente, o reduto último das sociedades. Uma premissa, aliás, que já vinha do “poder moderador”, formulada doutrinalmente pelo ilustre Benjamin Constant, servindo subsequentemente de bitola constitucional em diversos Estados europeus e no continente americano. 

O ideal do “quarto poder” dos media, numa primeira avaliação, funcionou. Funcionou de facto, não obstante a forte oposição inicial e a difusa agenda ideológica contrária ao progressismo moderno por parte de uma parcela significativa dos reputados jornais, rádios e revistas mundiais. Mesmo assim, essa “obscura agenda” não triunfou. Foi graças, máxime, à imprensa ocidental que se catapultaram as grandes mudanças político-governativas e sociais, consolidando os postulados da democracia participativa e todos os ganhos inerentes que esta comporta até à atualidade nas sociedades modernas — abertas, bem entendido. 

No entanto, o surgimento das redes sociais, nos finais do século passado, veio obstruir significativamente a vigorosa asserção do “quarto poder” dos media. Em vez de estas novas plataformas de comunicação se circunscreverem meramente ao reforço das democracias liberais e à reafirmação do primado dos Direitos Humanos, tornaram-se, inversamente, espaços onde proliferam cada vez mais a desinformação, arrastando de forma conspurcada os media tradicionais. Hoje, é preciso um discernimento apurado e cuidados redobrados relativamente às notícias que vamos ouvindo, vendo e lendo, uma vez que parte delas é viciada pelas fake news, tendo as redes sociais como principais vanguardistas. 

É nelas, para grande infelicidade nossa, que germinam mensagens de intolerância de várias ordens — mormente de ódio, racismo, sexismo, autoritarismo, insultos a terceiros, instituições e países —, bem como manipulação da opinião pública, violação de direitos de personalidade no seu conceito lato sensu e toda a sorte de despotismos que por aí pululam a uma velocidade impressionante. 

As redes sociais tornaram-se, sem dúvida, o leviatã das nossas vidas. Têm o poder de adulterar a realidade, transformando, aparentemente, a verdade em mentira e esta em verdade. Têm ainda o poder de impor agendas e, em consequência disso, de influenciar as massas. Possuem igualmente um poder que a maioria das pessoas não imagina, um poder que se desdobra em grosseiras arbitrariedades, violações e abusos. É um mundo bastante perigoso em que se está inserido. Por isso, com caráter de urgência, impõe-se uma regulamentação das redes sociais pelo poder político dos países, com vista a estancar definitivamente as patentes arbitrariedades impunes que grassam no seu seio (LER)

Apesar de todos os recuos que elencámos relativamente às redes sociais, continuamos a defender convictamente que elas vieram, naturalmente, revolucionar e conferir uma nova dimensão à liberdade de expressão, proporcionando a todos — sem exceção —, de forma igualitária e justa, as ferramentas indispensáveis para se darem a conhecer ao mundo, quer no aspeto positivo, quer no negativo. Tudo isto, no cômputo geral, é um bom sinal e bastante benéfico para a sociedade. É a melhor “pulsação” da democracia participativa (LER), desde que sejam escrupulosamente fiscalizadas pelo poder político, através do princípio da responsabilidade e da responsabilização dos agentes que violam os Direitos, Liberdades e Garantias nas redes sociais.

O Deslumbramento Pelo Poder, Por Kumba Yalá


“JRTP – O que é que sentiu quando tomou o Poder

Kumba Yalá – Senti-me um bocado estranho porque, quando eu entrei naquele palacete, onde estava o meu adversário, Nino Vieira, vi uma maravilha que nunca tinha visto no mundo. Lá na (agora passo a expressão) casa do toillete, vi umas coisas a brilhar que até me ofuscavam a vista. De maneira que deitei-me, não me queria levantar e disse à minha esposa que afinal de contas quando se acostuma a deitar-se aqui esquece-se do povo; mas agora eu vou ter que fazer um esforço para não me esquecer do povo, confundindo esta cama com a necessidades do meu povo… esta é uma luta que eu vou ter que fazer!”. 

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(Kumba Yalá, citado por Álvaro Nóbrega, in “A Luta pelo Poder na Guiné-Bissau, p. 296, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, 2003). 

Adieu, Zedu?


Nada é eterno neste mundo, inclusive o poder e a própria vida. Tudo é efémero e passa tão rápido sem darmos conta. Foi uma das grandes apologias doutrinárias do pré-socrático Heráclito. Os Cristãos têm a plena consciência disso. “Se o homem se apercebesse, com prematura sabedoria, do facto de a vida terminar numa radical inutilização e de toda a riqueza acumulada em vida não poupar ninguém da decadência e da morte, veria o absurdo do esforço e a natureza pírrica de todo o triunfo – e cairia, por isso, na contemplação e na indolência, contente, resignado com a pobreza resultante da sua sábia improdutividade”, escrevia o Jansenista (LER). Por vicissitudes várias, infelizmente, muitas pessoas acabam por esquecer esta grande verdade. 

Espero, realmente, que esta anunciada e tardia saída do Presidente José Eduardo dos Santos (LER) possa abrir portas para o maior e melhor crescimento de Angola a todos os níveis. 

A Efemeridade do Poder Humano

Qualquer poder humano é efémero. E passa tão depressa com toda a sua pompa e glória. "Sic transit gloria mundi", já formulavam os sábios romanos há séculos. Quem julga o contrário vive na utopia. De hoje em diante o político David Cameron passa a ser um mero cidadão britânico, que apenas será recordado pelo seu legado político. A democracia é isto mesmo: a mutabilidade. Ainda bem que assim é. Embora há, em abono da verdade, regimes democráticos melhores que outros. Neste caso prefiro mais a democracia no Reino Unido do que na América. Ali é tudo mais fácil, compreensivo e célere, diferentemente do presidencialismo americano. Tocqueville que me perdoe pelo desabafo.