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A Astúcia da Mentira e a Inversão da Verdade

A mentira é algo perigosíssima e com extraordinária capacidade para infringir golpes duros e significativos à verdade. A mentira é mais habilidosa, em termos negativos e perversos, para subverter momentaneamente a percepção da verdade e daquilo que é realmente a verdade dos factos. A mentira, por ser completamente habilidosa, anda sempre com a manipulação, intriga, chantagem, desonestidade, falsidade, locupletação, traição e toda a sorte de malignidade. A mentira é do diabo e de todos aqueles que vivem deliberadamente no pecado. 

O que nós temos estado a assistir ao longo de todos estes anos da arbitrária invasão russa na Ucrânia não passa de uma astúcia da mentira que visa, em última instância, através da propaganda sorrateiramente enganosa, chamar o mal de bem e o bem de mal; de considerar o agressor de vítima e de vítima o agressor; de desresponsabilizar inteiramente a Rússia na macabra guerra que este iniciou e culpar unicamente a Ucrânia pela sua invasão. Esta tautológica e ardilosa narrativa tem recebido um amplo e favorável acolhimento na sociedade russa, em certas partes do mundo, na parcela dos países do Ocidente e também na nossa sociedade. Basta estarmos atentos e sintonizados com os media para rapidamente chegarmos esta lamentável conclusão. 

Esta infundada e mentirosa narrativa ganhou ainda proporções preocupantes desde que a actual administração americana tomou o poder nos EUA. A bitola seguida, até à exaustão, pelo novo inquilino da Casa Branca e a sua administração, proliferando sem pejo que o presidente ucraniano não quer a paz e que este só quer lutar a todo o custo, bem como considerando-o reiteradamente de ingrato, inclusive chamando-lhe pejorativamente de ditador. O mais absurdo e completamente injusto de toda esta narrativa foi tentar, de forma prepotente e despudorada, sem dó e humanismo, humilhar publicamente o presidente ucraniano na sexta-feira passada na sala oval dos EUA (LER) e suspender ontem a essencial ajuda militar americana à Ucrânia (LER)

Toda esta lamentável situação só vem reforçar esta mentirosa narrativa pró-Kremlin, confirmando assim a astúcia da mentira e como esta tenta sempre disseminar-se para encobrir a verdade. A pertinente questão que devemos todos colocar é a seguinte: por que razão a actual administração está a colocar toda a pressão e o ónus da paz unicamente na Ucrânia, ilibando a Rússia? Porque é que, segundo o presidente americano, o sanguinário presidente russo é confiável e o presidente ucraniano é um factor de obstáculo à paz? Quem violou o Direito Internacional com esta guerra: a Rússia ou a Ucrânia? Se a Rússia é um país agressor, por que razão ela tem de ser premiada com a anexação de todos os territórios que actualmente ocupa, de forma violenta e ilegal, na Ucrânia? Porventura, há mais países ou cidadãos por este mundo fora mais preocupados que haja realmente paz na Ucrânia do que propriamente o próprio bombardeado povo ucraniano? Que garantias de segurança a Ucrânia terá no futuro que não voltará a ser invadida pela Rússia, tal como tem acontecido ciclicamente nesta última década? 

As sinceras respostas destas pertinentes perguntas formuladas levam-nos a concluir indubitavelmente quem verdadeiramente está de boa-fé ou má-fé nesta fatídica história da invasão russa da Ucrânia. Sabemos que a mentira é ardilosa e convincente na mente de muitas pessoas que não estão minimamente comprometidas com a verdade. No entanto, por mais que possa camuflar por muito tempo, a mentira jamais se poderá sobrepor à verdade ou vencê-la. A verdade, no seu devido tempo, sempre triunfará sobre a mentira com todas as suas maldades, etc. 

Desde o primeiro dia que a Rússia invadiu a Ucrânia que estou solidariamente com a causa ucraniana. Estou a apoiar a Ucrânia contra o jugo opressor russo. Fi-lo por uma questão meramente de bom senso, de justiça social e de verdade. A dor da Ucrânia é também a nossa dor. É a dor de todos aqueles que procuram viver em paz, tranquilidade, democracia e solidariedade. É a dor, acima de tudo, da Humanidade (LER)

Da Democracia na América: A Minha Leitura Sobre os Dois Candidatos Presidenciais e o Possível Vencedor


A forma mais fidedigna de aferir com precisão os hábitos, costumes e mundividências do povo americano é ler “Da Democracia na América” de Alexis de Tocqueville. É uma obra colossal que dispensa glosas. Nela o célebre autor francês reduzia sabiamente a peculiaridade civilizacional do povo americano, destacando todas as importantes áreas subjacentes a uma sociedade moderna. Aborda ainda os grandes pilares da democracia participativa, nomeadamente o direito, a igualdade, a liberdade, a segurança, a protecção, a economia e o progresso. É um dos mais reputados livros alguma vez escritos sobre a sociologia dos EUA e um dos mais influentes a nível da filosofia política. 

Por isso, propomos analisar as eleições norte-americanas com base nele, fazendo concomitantemente as devidas adaptações aos nossos dias coevos. Desde já, antes de prosseguirmos com o nosso pensamento, importa esclarecer que não estamos a apoiar nenhum dos candidatos. Se porventura fôssemos americanos, por imperativo de consciência, teríamos optado por abstenção como oportunamente justificamos aqui em outras ocasiões. Temos vindo a acompanhar, com particular atenção e interesse, o desenrolar de todo o processo de eleições para o próximo Presidente dos EUA, máxime o aparente paradoxo que o mesmo encerra. O delirante espectáculo político que os republicanos e os democratas estão a proporcionar ao mundo inteiro é a manifestação visível do “espírito americano” na sua plenitude. 

Neste momento é bastante prematuro augurar um possível vencedor das eleições. Numa leitura superficial e descuidada alguns precipitar-se-ão em atribuir a vitória à Kamala Harris, tendo em conta a sua posição mais ou menos ortodoxa e equilibrada à luz do “progressismo moderno”, comparativamente com o seu adversário Donald Trump, e acrescentando o facto de ser a segunda mulher na história do país a concorrer ao tão cobiçado cargo da República.  No entanto, numa visão meramente tocquevilliana, o candidato republicano Trump parte com um ligeiro avanço face à Kamala, dado que encarna melhor os valores do “America safe again” e/ou “America great again”. 

E mais, acresce ainda o facto de Trump defender no seu programa eleitoral temas bastantes caros aos americanos, especialmente a questão da economia, a segurança interna, o mercado protecionista, a política anti-imigração e a guerra aos radicais islâmicos. É um populista nato. Fala coisas agradáveis aos ouvidos dos seus conterrâneos que muitos pensam, mas que receiam dizer em público para não ferir susceptibilidades e serem politicamente incorrectos. O candidato Trump não teme este risco continuo das coisas, razão pela qual veicula vigorosamente o mote da expulsão massiva dos imigrantes ilegais nos EUA para, deste modo, atrair mais votos e consolidar o seu favoritismo perante o eleitorado. 

A Kamala, diferentemente, não definiu uma estratégia clara na sua agenda política. Ela tem limitado somente a contrariar a política de Trump, aproveitando alguns louros da actual administração que ela é Vice-presidente. Kamala é muito vaga no seu posicionamento sobre a temática da imigração, a economia, a guerra no Médio Oriente, especialmente entre Israel e o Hamas, assim como o impasse acentuado no conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia. Tem focalizado mais na sua bandeira ultra progressista de liberalizar a hedionda pratica do aborto – e com todas implicações nefastas que isto terá e representará na vida de milhões dos americanos. 

Há ainda dois relevantes factores que jogam a desfavor de Kamala Harris: por ter sido conotada com os fracassos políticos de Washington, D.C. nos últimos anos e ser uma mulher na corrida presidencial. Ali, através da política menos conseguida do Presidente Joe Biden e por ser braço-direito deste como Vice-presidente, sendo manifestamente imputados todos os aspectos menos bons da actual administração. Aqui, tão-simplesmente, por ser uma mulher. É isto mesmo: uma mulher. Aquilo que poderia ser um triunfo inicial para ela poderá vir a ser uma autêntica pedra de tropeço. Isto porque os americanos, ao contrário dos outros povos, têm um conceito particular da concretização do Princípio da Igualdade. E como escrevia Tocqueville, para ilustrar e vincar esta grande realidade: “a América é o país do Mundo onde se teve o cuidado mais continuado de traçar para os dois sexos linhas de acção nitidamente distintas, querendo-se que eles andassem simultaneamente a par e por caminhos diferentes. Não se vê nenhuma americana a dirigir os assuntos externos da família, ou à frente de uma actividade comercial, ou agindo na esfera política, mas também não se encontra nenhuma mulher que seja obrigada a dedicar-se aos duros trabalhos da agricultura ou aos penosos labores que exigem o desenvolvimento da força física; e não existem famílias tão pobres que sejam obrigadas a fazer excepção a esta regra” (in “Da Democracia na América”, p. 724, Principia, Estoril, 2007). Os homens e as mulheres, nos EUA, há pelo menos um século, desempenhavam funções distintas uns dos outros, sem beliscar o Princípio da Igualdade na sua essência e construção, obviamente na óptica do autor francês. 

É verdade que já não se nota assim tanto uma diferenciada função entre os homens e as mulheres no mundo Ocidental. Houve, de facto, significativos avanços a nível da mentalidade das pessoas e na legislação dos países, minimizando assim as barreiras outrora existentes entre ambos os sexos, inclusive nos EUA. No entanto, tal não quer dizer que não haja ainda certos vestígios de preconceitos generalizados em relação à capacidade comprovada da mulher para conduzir os destinos políticos de uma nação. Uma coisa é ela ter vindo a desempenhar funções relevantes no aparelho do Estado e nas grandes empresas. Outra coisa, e bem diferente, é ser-lhe conferida a oportunidade única de ser Presidente de um país. Neste campo as mulheres continuam ainda a ser manifestamente discriminadas e relegadas para segundo plano, por serem apenas aquilo que são em termos biológicos, não obstante algumas melhorias verificadas no nosso mundo actual. Nos EUA, fazendo fé os relatos de Tocquiville e também no “cadastro histórico” do país, ficam ainda bastante aquém na matéria de Direitos Humanos. São ainda, em abono da verdade, tendenciosamente machistas. 

A Kamala Harris do ponto de vista objectivo tem tudo para ser a próxima Presidente da República dos EUA. Além da inquestionável tarimba política que acumulou ao longo dos anos, e mais precisamente nos últimos quatro anos, conhece muito bem os dossiers governativos. Está habilitada para ocupar a Casa Branca do que propriamente o radical, sectário e condenado Trump. Só que, por vicissitudes várias, as coisas não são assim tão lineares como aparentam. Ela para ganhar as eleições vai depender de vários factores conjugados, nomeadamente que Trump continue a cometer constantes gafes, a radicalização do discurso deste, a acentuação de cisão no seio do partido republicano e, por fim, que não haja nenhuma alteração brusca e em grande escala na política internacional nas próximas horas que se avizinham, sobretudo no Médio Oriente, aqui na Europa e no Indo-Pacifico. São estes importantes factores que vão garantir-lhe a eleição, caso contrário, tal será bastante difícil. 

A Kamala Harris se ganhar as eleições amanhã não é por ter um programa de governo auspicioso, mas sim pelo demérito do seu adversário Trump. Um homem com uma ideologia política extremamente perigosa: sexista por convicção, suprematista, belicoso, hipócrita, prepotente e ultranacionalista. Tanto que, por esta razão, foi condenado por fraude fiscal. Trump será uma ameaça para o mundo inteiro, isto é, se conseguir concretizar o seu maléfico intento, tal como tem veiculado por inúmeras vezes. Apesar dessas suas posições fraturantes e preocupantes, mesmo assim elas têm tido um acolhimento favorável na sociedade americana. Isto deve-se ao facto de os americanos darem demasiada primazia aos pontos chave do seu programa eleitoral, tal como supra destacamos. 

Vai correr muita tinta até as eleições de amanhã. Não temos margem para duvidar disso. Tudo ainda pode acontecer. É isto que faz os EUA ser o grande país que é e uma das maiores democracias do mundo. Cabe tudo nele. E nele tudo cabe. Consegue conviver pacificamente com os paradoxos. E estas eleições são uma autêntica manifestação dos antagonismos e da imprevisibilidade do povo americano. Os dois candidatos presidenciais são medíocres e ficam bastantes aquém daquilo que o povo americano merece. 

Da nossa parte, vamos aguardar serenamente o que o futuro dirá daqui algumas horas. De uma coisa temos absoluta certeza, e não hesitaremos em afiançá-lo publicamente: os EUA jamais serão iguais com o próximo Presidente da República – para o bem e para o mal. 

Irão: Um Estado Patrocinador do Terrorismo


A República Islâmica do Irão é um estado que promove, patrocina e dissemina o terrorismo pelo mundo, sobretudo no Médio Oriente. Está, desde a teocrática revolução de 1979 dos aiatolas, indissociavelmente ligado ao terrorismo. Tanto que, por esta razão, não hesita em financiar deliberadamente os grupos terroristas para espalharem o terror e instaurar um regime subversivo e anárquico no Médio Oriente (veja-se, por todos os exemplos, o caos que se vive no Iémen, na Síria, no Iraque e na Cisjordânia). É o Irão que financia monetariamente e com armamentos o grupo terrorista Hezbollah, Houthis, Hamas, etc., com o intuito de impor pela força armada o seu xiismo radical e, desta forma, afirmar a sua hegemonia regional no já conturbado Médio Oriente. 

Com base neste tresloucado desiderato ideológico-nacional persegue, saqueia, golpeia e mata sem piadade milhares de pessoas em nome deste descabido ideal político-religioso, criando sedições entre países, sociedades e povos em especial. O Irão é um estado que patrocina o terrorismo. Gasta rios de dinheiro para fazer valer o terrorismo nos países que considera seus adversários para desestabilizá-los e, consequentemente, controlá-los. Por isso, o premeditado, belicoso e perigoso ataque que lançou há uma semana contra as cidades israelitas enquadra-se nesta implacável lógica de implementação do terror no Médio Oriente do tirânico regime persa. Aliás, o Irão considera Israel o seu primeiro e arqui-inimigo que deve ser completamente eliminado do mapa (matar todos os judeus da face da Terra, bem entendido). Este odioso discurso foi reiteradamente afirmado pelos líderes iranianos ao longo dos anos e continua presente até à data presente. 

A “promessa honesta” do Irão contra Israel no sábado, bombardeando indiscriminadamente as cidades judias com mais 300 bombas, nomeadamente com os drones, misseis cruzeiros e balísticos, visava criar profundas perdas – tanto humanas como materiais – ao povo hebreu. Felizmente, graças à imprescindível ajuda dos EUA, Inglaterra, França, Jordânia, e também da própria robustez da capacidade ante-a érea de Israel, conseguiu-se controlar todos estes bombardeamentos maciços e não houve nenhuma morte ou danos assinaláveis. Graças a DEUS (LER)

Israel, a meu ver, não precisava retaliar o Irão, tal como fez há três dias, não obstante a gravidade do ataque deste no seu território. Esta retaliação não alterou praticamente nada em termos objectivos, antes pelo contrário podia perfeitamente contribuir para escalar ainda mais a situação no terreno. Neste momento, Israel tem de focalizar unicamente no cessar-fogo, resgatar os seus reféns ainda presos na Faixa de Gaza e, por fim, resolver definitivamente o seu conflito armado com o Hamas para o bem-estar de todos. Eis a minha humilde opinião. 

A Geopolítica de Sangue da Rússia de Putin


Qualquer ser humano que prime genuinamente pelo valor sagrado da vida humana não pode ficar indiferente às tremendas chacinas que a Rússia está a cometer neste momento na Ucrânia e, muito menos, hesitar em condenar firmemente o tal despotismo e posicionar-se ao lado do bombardeado povo ucraniano. Não há nenhuma geopolítica ou geoestratégia que possa servir de pretexto para legitimar uma hedionda guerra e consequentemente validar a cultura da morte dos inocentes. A guerra é a pior faceta que o ser humano herdou do pecado original de Adão e Eva. Ela é exclusivamente do Diabo e de todos aqueles que são da perdição eterna. É a manifestação visível do poder destruidor das trevas e o triunfo momentâneo da maldade no mundo. A guerra é a perfeita personificação dos filhos do Diabo na sua actuação com os terceiros. Por isso, é claramente oposta à razão, à paz, à vida, ao humanismo e à humanidade. 

Confesso que fico completamente estupefacto e triste quando vejo determinadas pessoas a procurarem esgrimir argumentos falaciosos, tautológicos e inúteis para justificar o injustificável, isto é, consentir com o massacre da Rússia de Putin na Ucrânia, apontando falsamente a culpa da guerra aos Estados Unidos de América (EUA), NATO, União Europeia (UE). E pergunto: onde ficam então nesta história todos os inocentes e indefesos que todos os dias estão a morrer à nossa vista de forma injusta? Há, porventura, alguma desconfiança ou provocação que possa legitimar uma guerra armada? Será que a geopolítica ou geoestratégia é mais importante do que a vida humana? 

Toda esta fatídica realidade só reforça a decadência ético-moral em que a Humanidade vive há bastante tempo, convergindo cada vez mais para a sua completa ruína e autodestruição. Estamos mesmo a caminhar, paulatinamente, em várias frentes, para os dias do fim: fim do amor, fim da verdade, fim da paz, fim da sobrevivência, fim da humanidade e o fim do mundo. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (6)

“Ainda me lembro, ainda me lembro de quando os Negros se limitavam a andar à toa. Como Ralph disse tantas vezes, a coçar-se onde não tinham comichão e a rir-se quando não lhes faziam cócegas. Mas esse tempo já lá vai. Nós agora falamos a sério e estamos determinados a conquistar o lugar a que temos o direito no mundo de Deus. E é disso que se trata. Não nos move nenhum propósito de protesto negativo nem de discussão estéril com ninguém. Só dizemos que estamos decididos a ser homens. Estamos decididos a ser gente. Só dizemos que somos filhos de Deus. E se somos filhos de Deus, não temos de viver como agora somos obrigados a viver. 

(…) Não vamos consentir que nenhuma bastonada nos detenha. No nosso movimento não-violento, somos mestres a desarmar forças policias; ficam sem saber o que hão-de fazer. Já vi isso muitas vezes. Estou a lembrar-me de Birmingham, Alabama, quando estávamos a travar aquela luta gigantesca e saímos todos os dias da Igreja Baptista da Rua Dezasseis. (…) Temos de nos entregar a esta luta até ao fim. Nada seria mais trágico para Memphis do que parar nesta altura. Temos de ir até ao fim. Quando fizemos a marcha, Vós tendes de estar lá. Mesmo que seja preciso faltar o trabalho, mesmo que seja preciso faltar à escola, tendes de estar lá. Pensai nos vossos irmãos. Podeis não estar em greve, mas, nesta luta, ou avançamos todos ou saímos todos derrotados. Temos de adoptar uma espécie de altruísmo perigoso.[1]  


[1]Palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 393, 394,395, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (5)

“E digo-vos mais, se eu estivesse no princípio dos tempos com a possibilidade de ter uma espécie de visão geral e panorâmica de toda a história da humanidade até hoje, e o todo o Poderoso me perguntasse «Martin Luther King, em que época gostarias de viver?» eu faria o meu voo mental pelo Egipto e veria os filhos de Deus iniciar a sua magnífica fuga das negras masmorras do Egipto, atravessar o mar Vermelho e percorrer as terras inóspitas até chegar à Terra Prometida. E, apesar da sua magnificência, não pararia aí. Continuaria, passando pela Grécia, onde transportaria o meu espírito ao monte Olimpo. E veria Platão, Aristóteles, Sócrates, Eurípedes e Aristófanes reunidos à volta do Parténon, e observá-los-ia à volta do Parténon a discutir as grandes e eternas questões da realidade. Mas não pararia aí. 

Seguiria mesmo caminho até ao grande apogeu do Império Romano e assistiria aos acontecimentos que aí se registaram, no tempo dos grandes imperadores e chefes. Mas não pararia aí. Avançaria mesmo até ao tempo da Renascença, para ter uma perspectiva rápida de tudo quanto a Renascença fez pela vida cultural e estética do homem. Mão não pararia aí. Iria mesmo ao local onde viveu o homem de quem recebi o nome, para vê-lo a afixar as suas noventa e cinco teses à porta da igreja de Wittenberg. Mas não pararia aí. Prosseguiria mesmo até 1863 para ver um Presidente vacilante chamado Abraham Lincoln chegar finalmente à conclusão de que tinha de assinar a Proclamação de Emancipação. Mas não pararia aí. Seguiria mesmo até ao princípio dos anos trinta para ver um homem debater-se com os problemas da bancarrota do seu país e soltar um grito eloquente: «A única coisa a temer é o próprio medo.» Mas não pararia aí. Por estranho que pareça, voltar-me-ia para o Todo-poderoso e diria: «Se Tu me permitisses viver apenas alguns anos na segunda metade do século XX, dar-me-ia por feliz.[1]


[1] Palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 392, 393, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (4)

“Acho que uma das grandes angústias da vida reside no facto de estarmos sempre a tentar terminar aquilo que não tem termo. Temos ordens para fazê-lo. Por isso nós, tal como David, nos vemos tantas vezes na situação de ter de enfrentar o facto de os nossos sonhos ficarem por realizar. A Vida é uma história contínua de sonhos destruídos. O Mahatma Gandhi trabalhou anos e anos pela independência do seu povo. Mas Gandhi teve de encarar o facto de ser assassinado e morrer com o coração despedaçado, porque aquela nação que ele queria unir acabou por ser dividida entre a Índia e o Paquistão em consequência de uma guerra entre Hindus e Muçulmanos. 

Woodrow Wilson teve o sonho de fazer uma Liga das Nações, mas morreu antes de ver o sonho concretizado. O Apóstolo Paulo falou um dia no seu desejo de ir para Espanha. O maior sonho de Paulo era ir para Espanha, levar até lá o Evangelho. Paulo nunca chegou a Espanha. Acabou numa cela de prisão em Roma. É assim a vida. Foram muitos os nossos antepassados que cantaram a liberdade. E que sonharam com o dia em que conseguiriam libertar-se do bojo da escravatura, da longa noite da injustiça. E cantavam pequenas canções: «Ninguém sabe por quanto sofrimento passei, ninguém sabe senão Jesus.»  Pensavam num dia melhor enquanto sonhavam o seu sonho. E diziam: «Estou tão feliz por o sofrimento não durar para sempre. A pouco e pouco, a pouco e pouco vou libertar-me da minha pesada carga.» E cantavam esta canção porque tinham tido um sonho muito forte. Mas muitos morreram sem ver o sonho realizado”[1]


[1] Palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 389, 390, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Sic Transit Gloria Mundi


Atribui-se ao monge agostiniano Tomás de Kempis a autoria da célebre frase latina “sic transit gloria mundi”, que numa tradução aberta significa “toda glória do mundo é transitória” ou “o quão rapidamente passa a glória do mundo”. Os filósofos antigos interligavam simultaneamente a noção da glória com o poder, como sendo corolário axiológico da suma felicidade do homem e do seu triunfo final nesta vida, máxime no pensamento utilitarista de Jeremy Bentham, John Stuart Mill e Tomás Hobbes. Este último, inclusive, vai ao ponto de considerar que somente o soberano detém realmente o poder – seja ele um homem ou uma assembleia de homens –, razão pela qual deve exercê-lo de forma coerciva e absoluta. 

Há, no entanto, uma patente querela doutrinária sobre a definição do poder e a sua finalidade última. Se o homem se apercebesse com prematura sabedoria, observavam os moralistas Cristãos nas suas visões deterministas sobre a natureza humana, do facto de a vida terminar numa radical inutilização e de todo o poder e riqueza acumulada em vida não poupar ninguém da decadência e da morte, veria o absurdo do esforço e a natureza pírrica de todo o triunfo – e cairia, por isso, na contemplação e na indolência, contente, resignado com a pobreza resultante da sua sábia improdutividade. Por isso, nesta esteira de pensamento, o rei Salomão qualificava peremptoriamente  o poder humano e toda a glória do mundo de “vaidade de vaidades! Tudo é vaidade e aflição do espírito (Eclesiastes 1:2; 2:26)

Este longo intróito vem na sequência da sucessão de poder que terá lugar hoje nos EUA. Dentro de algumas horas Donald John Trump deixará de ser presidente de um dos países mais poderoso do mundo. A partir das 11h:00 desta manhã nos EUA passará a ser qualificado como o ex-Presidente dos Estados Unidos da América e, assim, passará a ser julgado definitivamente pelo seu legado político-governativo. Um legado que ficou profundamente marcado por vários escândalos sem precedentes – tanto a nível interno como externo. O Presidente que aspirava “Make America Great Again” ficou bastante aquém neste seu desiderato político-governativo. Por isso, foi duramente penalizado pelo povo americano nas urnas. O senhor Donald John Trump sai da Casa Branca sem honra nem glória. Sai pela porta dos fundos. Saí para nunca mais carregar a Res Publica americana. Sai para não deixar saudades nenhumas. E, por fim, sai para ser julgado pela História. É mesmo fim de um ciclo político. Era um desfecho previsível. Sic transit gloria mundi...

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (3)

“Saí esta manhã de Atlanta, e quando íamos a levantar o voo – éramos seis – o piloto disse pelo altifalante: «Pedimos desculpa pelo atraso, mas temos connosco no avião o Dr. Martin Luther King. E para ter a certeza de que todas as bagagens eram inspeccionadas e de que estava tudo bem no avião, tivemos de verificar tudo com muito cuidado. E tivemos o avião sob protecção e vigilância durante toda a noite.» Depois cheguei a Memphis. E ouvi falar das ameaças, ou dos rumores de ameaças que andaram no ar, de actos que estariam preparados contra mim por alguns dos nossos irmãos brancos de mente doentia. 

Pois bem, não sei o que vai acontecer agora; temos pela frente dias difíceis. Mas isso para mim já não tem importância, porque já cheguei ao cume da montanha. E não me importo. Como qualquer outra pessoa, gostava de ter uma vida longa – a longevidade é uma coisa boa. Mas agora não estou preocupado com isso. Só quero fazer o que for da vontade de Deus. E Ele permitiu-me subir ao cume da montanha. E olhei de lá de cima e vi a terra prometida. Pode ser que não a alcance convosco. Mas quero que saibais esta noite que o nosso povo há-de alcançar a terra prometida. E eu estou feliz, esta noite. Não estou preocupado com nada. Não estou com medo de ninguém. Os meus olhos viram a glória da chegada do Senhor.[1]


[1] Últimas palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 398, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Luther King inspirou-se, nestas suas últimas palavras, no legado do Patriarca Moisés que subiu ao cume das campinas de Moabe ao monte Nebo, ao cume de Pisga, que está defronte de Jericó para vislumbrar a Terra Prometida – depois de ter liderado abnegadamente o povo de DEUS no deserto por aproximadamente quarenta anos. Viu a Terra Prometida, mas não chegou de entrar nela.  Assim, diz as Sagradas Escrituras, “morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme o dito do Senhor” (…) E os filhos de Israel prantearam a Moisés trinta dias, nas campinas de Moabe; e os dias do pranto do luto de Moisés se cumpriram” (Deuteronómio 34:1-8).

A Terra Prometida que Luther King vislumbrou, antes de dar o encontro definitivo com o Seu Salvador Jesus Cristo, é a mesma Terra Prometida que Obama procurou, de forma um pouco desconfigurada, desvendar no seu recente livro A Terra Prometida (que já estou a ler). 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (2)


 “(…) Sim, se quiserdes dizer que eu fui um chefe da banda, dizei que fui um chefe da banda de justiça. Dizei que fui chefe da banda da paz. Fui um chefe da banda da rectidão. E tudo o resto, as outras coisas comezinhas, não conta. Não terei dinheiro para deixar em herança. Não terei as coisas valiosas nem os luxos da vida para deixar em herança. A única coisa que quero deixar em herança é uma vida de militância. E era só isto que vos queria dizer. 

Desde que possa ajudar alguém por quem passo, desde que possa animar alguém com uma palavra ou um cântico, desde que possa mostrar a alguém o caminho que deve seguir, a minha vida não terá sido em vão. Desde que possa cumprir o meu dever de cristão, desde que possa trazer a salvação ao mundo, desde que possa espalhar a mensagem que o meu mestre me ensinou como lição, a minha vida não terá sido em vão.[1]”.


[1] Últimas palavras de Martin Luther King Jr., extraído na sua autobiografia, in Eu Tenho Um Sonho, p. 399, Bizâncio, Lisboa, 2003. Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine. 

Os Sonhos Que Ficaram Por Realizar, por Martin Luther King Jr. (1)


 “Imagino que todos nós, de vez em quando, pensamos com realismo no dia em que seremos vítimas daquilo que é o denominador comum final da vida – aquilo a que chamamos morte. Todos pensamos nela. E eu, de vez em quando, penso na minha morte, e penso no meu funeral. E não penso nisso num sentido mórbido. De vez em quando pergunto a mim mesmo: «O que é que gostavas que dissessem nessa ocasião?» E hoje vou dar-vos a resposta a esta pergunta. 

Gostava que, nesse dia, alguém dissesse que Martin Luther King, Jr., tentou consagrar a sua vida ao serviço do próximo. Gostava que, nesse dia, alguém dissesse que Martin Luther King, Jr., tentou amar alguém. Quero que digais, nesse dia, que eu tentei ser justo na questão da guerra. Quero que possais dizer, nesse dia, que tentei de facto alimentar os famintos. E quero que possas dizer, nesse dia, que tentei de facto, ao longo da minha vida, vestir os nus. Quero que digais, nesse dia, que tentei, de facto, ao longo da minha vida, visitar os presos. Quero que digais que tentei amar e servir a Humanidade”[1].[2] 


[1]Extraído na Autobiografia de Martin Luther King Jr., in Eu Tenho Um Sonho, pgs. 398, 399, Bizâncio, Lisboa, 2003. 

[2] Este foi o último discurso do Pastor Baptista e Activista dos Direitos Humanos, Luther King, no templo do bispo Charles J. Mason, em Memphis. Um dia depois desta famosa alocução, 4 de Abril de 1968, foi barbaramente assinado no Motel Lorraine.  

A Estátua da Democracia Vai Cair?


Este foi o tema da capa da reputada revista Courrier Internacional há ano, denunciando que os sinais da intolerância política avolumam-se, a uma velocidade impressionante, nos últimos tempos: eleições dominadas pelo sentimento de raiva dos votantes, chegada ao poder, em diversas nações, de líderes autoritários e antissistema, regresso dos populismos e dos discursos nacionalistas e de ódio, etc(LER). O turbilhão político que se vive nos últimos tempos nos Estados Unidos da América (EUA), especialmente com a tomada do Capitólio ontem pelos manifestantes pró Trump é o manifesto reflexo do descarrilamento sem precedentes da Democracia aqui no Ocidente. 

É triste ver no país que é considerado como sendo a maior Democracia do mundo, modelo para muitos países, a resvalar na obstrução democrática. É triste ainda vislumbrar o espetáculo degradante de um Presidente da República que está no fim do seu mandato, mesmo assim tentando a todo o custo colocar em causa a unidade e coesão dos EUA. É triste, da mesma sorte, constatar que há crentes no Senhor Jesus Cristo que estão plenamente sintonizados com a sua autoritária ideologia, inclusive usando de forma descontextualizada os impolutos Princípios e Valores do Cristianismo para defendê-lo acerrimamente. A Democracia Americana não merece nada disto. O povo americano também não merece o demagogo Presidente que actualmente tem. O idealismo político-liberal americano fervorosamente defendido por Thomas Paine, Alexis de Tocqueville e Thomas Jefferson ficou claramente manchado nos próximos tempos, com o não reconhecimento dos resultados eleitorais pela actual administração e a capitulação do capitólio perante a multidão ululante pró Trump. Desde ontem a democracia americana não será mais a mesma coisa. Não será mais a mesma coisa, infelizmente (LER)     

O Racismo e Da Democracia na América


A forma mais fidedigna de aferir com precisão os hábitos, costumes e mundividências do povo americano é ler “Da Democracia na América” de Alexis de Tocqueville. É uma obra colossal que dispensa glosas. Nela o célebre autor reduzia sabiamente a peculiaridade civilizacional do povo americano, destacando todas as importantes áreas subjacentes a uma sociedade moderna. Aborda ainda os grandes pilares da democracia participativa, nomeadamente o direito, a igualdade, a liberdade, a segurança, a protecção, a economia e o progresso. É um dos mais reputados livros alguma vez escritos sobre a sociologia dos EUA e um dos mais influentes a nível da filosofia política. Por isso, propomos analisar a questão do racismo e da democracia nos Estados Unidos da América (EUA) com base nele, fazendo concomitantemente as devidas adaptações aos nossos dias coevos. 

Desde logo, o insigne autor francês começa por abordar de forma prolixa a posição das três raças que habitam o território dos Estados Unidos da América (EUA), nomeadamente os índios, os brancos e os negros, considerando que entre homens tão diversos, o segundo que “atrai a atenção, o mais esclarecido, poderoso e feliz é o homem branco, o Europeu, o Homem por excelência; abaixo dele, estão negro e o Índio. O nascimento, a fisionomia, a linguagem e os costumes destas duas raças infortunadas nada têm em comum; só os seus infortúnios se assemelham. Ambas ocupam uma posição igualmente inferior no país onde habitam; ambas experimentam os efeitos da tirania, e embora as suas misérias sejam de ordens diferentes, podem, no entanto, atribuir as suas causas aos mesmos autores”[1]. Isto porque, na sua óptica, a escravidão teve mais impactos devastadores para os negros do que propriamente para os índios, pois “os Índios morreram no mesmo isolamento em que viveram; mas o destino dos negros está, de certo modo, ligado ao dos Europeus”[2]. Por outras palavras, “a opressão subtraiu de uma só vez a quase todos os descendentes dos africanos os privilégios da humanidade! O negro Americano perdeu até as recordações do seu país; já não ouve a língua que os seus antepassados falaram; renegou a sua religião e esqueceu os seus costumes. Deixando, deste modo, de pertencer à África, não adquiriu, contudo, nenhum direito aos bens europeus. Parou entre as duas sociedades, permanecendo isolado entre dois povos; foi vendido por um e repudiado pelo outro, encontrando em todo o universo apenas o lar do seu amo para lhe dar uma imagem incompleta da sua pátria”[3]. E todas estas desgraças mundanais acabaram por afectar-lhe drasticamente do ponto de vista cognitivo, fazendo com que não sentisse o seu infortúnio, isto é, “a violência fez dele um escravo e a prática da servidão conferiu-lhe pensamentos e ambição de escravo; admira mais os seus tiranos do que os odeia e encontra a sua alegria e o seu orgulho na servil imitação dos que o oprimem”[4]

Se de um lado o negro e o índio foram escravizados pelos brancos, sustentava ainda Tocqueville, “o negro está colocado nos limites extremos da servidão; o Índio nos dá liberdade. A escravatura não produziu efeitos mais funestos para o primeiro do que a independência para o segundo”[5]. Tanto que, por esta razão, tendo em conta os enraizados complexos herdados pela escravatura, “o negro faz mil esforços inúteis para se introduzir na sociedade que o repele; submete-se aos gostos dos seus opressores, adopta as suas opiniões e, ao imitá-los, aspira a confundir-se com eles. Logo que nasce, dizem-lhe que a sua raça é naturalmente inferior à dos brancos e, como não está muito longe de acreditar que tal seja verdade, tem vergonha de si próprio. Em cada uma das suas facetas descobre uma marca de escravatura e, se pudesse, consentiria, com alegria, em repudiar-se inteiramente”[6]

Diferentemente desta patente complexidade do negro americano, o índio “tem a imaginação cheia da suposta nobreza da sua origem. Vive e morre entre os sonhos do seu orgulho. Longe de desejar submeter os seus costumes aos dos brancos, agarra-se à barbárie como a um sinal distintivo da sua raça e repele a civilização, talvez menos por lhe ter do que por medo de se tornar semelhante aos europeus. O negro gostaria de se confundir com o Europeu, mas não consegue. O índio seria capaz de o fazer, até certo ponto, mas desdenha tentá-lo. O servilismo de um entrega-o à escravatura e o orgulho do outro à morte”[7]. O índio jamais se submeteu à escravatura ao passo que o negro se conformou com o seu desventurado destino. Apesar deste conformismo servil do negro, continua a merecer repulsa a todos os níveis por parte dos seus implacáveis opressores. Estes concebem o homem negro como sendo insignificante e indigno. Um “homem que nasce numa classe inferior, a esse estrangeiro que a servidão introduziu entre nós, mal lhe reconhecemos os traços gerais da humanidade. O seu rosto parece-nos horrendo, a sua inteligência limitada, os seus gostos ordinários. Pouco falta para que o consideremos um ser intermédio entre a besta e o homem”[8]

É este o âmago para podermos compreender holisticamente a condição de subalternidade e de reiterada humilhação a que os negros americanos foram e são votados ao longo dos séculos, bem como os conhecidos preconceitos, as discriminações e o racismo estrutural que infelizmente continuam a carregar no seu dia-a-dia perante os brancos. Mesmo depois da abolição total da escravatura em 1865, o homem negro nos EUA continua refém do seu passado de opressão. Mantém-se refém do sistema que lhe veda uma posição de proeminência na sociedade e na res publica. É verdade que a actual Constituição Federal dos Estados Unidos da América (EUA) consagrou o princípio da igualdade entre os cidadãos e a igualdade das oportunidades entres os mesmos, bem como ractificou os direitos fundamentais proclamados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, censurando assim o preconceito, a discriminação, o racismo e a xenofobia, no entanto estas proclamações legislativas não conseguiram erradicar o costume assente que os brancos têm em relação aos negros. “Se a desigualdade criada apenas pela lei é tão difícil de extirpar, como destruir aquela que, para além disso, parece ter os seus fundamentos imutáveis na própria natureza”, questionava peremptoriamente Tocqueville[9]. Há, neste aspecto, um manifesto triunfo do costume para com a Constituição Federal e as Leis da República dos Estados Unidos da América (EUA). 

Tendo em conta as verdades expostas, é importante salientar que o racismo nos Estados Unidos da América (EUA) está bem sedimentado há séculos, através do costume enraizado na sociedade. Ele precedeu à fundação da nacionalidade americana, precedeu as emendas constitucionais que foram posteriormente introduzidas para melhorar a condição de vida dos cidadãos e afirmar o primado da justiça social. Precedeu, da mesma sorte, a abertura da Democracia, razão pela qual será bastante difícil de erradicar definitivamente na sociedade e possivelmente, a nosso ver, julgamos que este desiderato continuará a ser uma miragem nas próximas décadas. 

O racismo é um dos piores cancros que a decadência humana herdou do pecado original. Ele é maléfico a todos os níveis. É atentatório da dignidade e da vida humana. Segrega, discrimina, humilha, oprime e mata. O racismo é contra a religião e, em última instância, um insulto ao Eterno DEUS. “Precisamente porque todos os homens são filhos de Deus  e Cristo  veio para todos salvar, a universalidade dos fundamentos e da mensagem cristã tem como consequência a afirmação de uma regra de igualdade entre todos os homens: tal como São Paulo afirma na sua Epístola aos Gálatas, “não há judeu, nem grego, não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher””[10]. Toda a discriminação racial, escreve ainda inspiradamente o Professor Doutor Paulo Otero, “é profundamente contrária aos postulados cristãos: há uma incompatibilidade axiológica entre cristianismo e racismo – nenhum cristão pode ser racista e nenhum racista se pode dizer cristão”. O racismo é anti-civilização, anti-humano e constitui um enorme perigo para a Humanidade. Por isso, precisa vigorosamente de ser combatido por todos os homens e mulheres de “boa vontade” com as armas da justiça, da moderação, da tolerância, da igualdade e da humanidade. 

E mais, não temos uma visão minimalista sobre o racismo. Não somos daquelas pessoas que entendem que ele é exclusivamente dos brancos para com as demais etnias humanas, inclusive ilibando os negros do racismo. Não, não temos este redutor entendimento. O racismo é um cancro transversal à natureza humana, infelizmente. Há racismo do branco para com o negro e vice-versa. Também, paradoxalmente, há racismo entre o branco para com o branco, bem como do negro para com o negro. Tal como formula Tocqueville, na mesma esteira do pensamento para vincar esta inequívoca verdade antropológica, “há um preconceito natural que leva o homem a desprezar aquele foi seu inferior ainda muito depois de este se tornar seu igual; à desigualdade real criada pela fortuna ou pela lei sucede sempre uma desigualdade imaginária com raízes nos costumes”[11]. Só que, em abono da verdade, os negros acabaram por sofrer mais com os seus perniciosos efeitos comparativamente às pessoas de outras etnias. 

Os afro-americanos e os negros em geral para realmente se libertarem do leviatã do racismo – tanto estatal como social e/ou individual – precisam de continuar a apostar seriamente na educação e qualificação para, deste modo, chegarem à proeminência nos círculos da sua convivência diária. Serem bons cidadãos, bons estudantes e académicos. Bons profissionais e, acima de tudo, “bons samaritanos”. Procurar sempre a excelência naquilo que estão a fazer ou são incumbidos a fazer. Este é o antidoto mais eficaz para vencer o racismo. 

Não obstante estas salutares virtudes que os negros devem impreterivelmente encarnar para derrotar o racismo, é também extremamente importante a afirmação de África no panorama mundial. A começar, desde logo, no âmbito económico-financeiro, científico, cultural, social, desportivo, etc., e consequentemente ganhando influência internacional. Isto porque o racismo normalmente ataca os alicerces da vítima, indo para o âmago da sua origem, identidade e raça. E a “autêntica” identidade de todos os afros espalhados pelo mundo fora é a África. Por isso, independentemente do estatuto social de qualquer afro ou africano na sociedade em que ele está inserido, ele vai continuar sempre a ser objecto de preconceito, discriminação, racismo, uma vez que será sempre, em última instância, associado a marginalizada África. E tal como sabemos, a forma como África e os africanos são vistos no mundo fica muito aquém daquilo que deveria ser. É um continente desprestigiado a todos os níveis, bem como o menos desenvolvido quando comparado com os seus congéneres. Tem as maiores carências económico-financeiras, o que por sua vez vai atraindo toda a sorte de calamidades sociais, nomeadamente o baixo índice de desenvolvimento humano, a malária, a cólera, o VIH, a exclusão social, a exorbitante taxa de analfabetismo, a baixa esperança média de vida dos seus habitantes, a elevada taxa de mortalidade materno-infantil e adulta, o narcotráfico e o sistema corrupto e autoritário que vigora na generalidade dos seus estados membros, o que se traduz em tremendas violações dos Direitos Humanos (LER). Logo, tudo isto, potencia o preconceito, o estereótipo, a desconsideração, o estigma e a discriminação negativa para qualquer africano ou afro no mundo[12]. Logo, o “balão de oxigénio” para aplacar a discriminação e o racismo contra os negros passa, também, por esta via, na afirmação e dignificação do continente africano na arena internacional. Tal proeza fará com que a África e os afros sejam vistos de maneira completamente diferente e bastante positiva por outras etnias. 

De qualquer das maneiras, apesar do retrocesso abismal do continente africano e da pobreza que incorpora e grassa no seu seio, nada justifica qualquer tipo de acto de racismo contra os africanos ou afros ou qualquer outro tipo de etnia. O racismo é puramente estupidez e uma ofensa contra a criação de Deus, uma vez que somos todos feitos à imagem e semelhança Dele (Génesis 1:27)

A democracia nos Estados Unidos da América (EUA), em suma, é toda ela construída com base no preconceito, na discriminação, no abuso, na escravatura e no derramamento de sangue. Está fundamentado, acima de tudo, na supremacia dos brancos em relação aos afro-americanos. Por isso, falta ainda aos Estados Unidos da América (EUA), apropriando-nos das sugestivas palavras do Presidente Nelson Mandela, um longo caminho para a liberdade. É um verdadeiro sonho que ainda fica por realizar, na inspirada formulação do Activista dos Direitos Humanos Martin Luther King Jr.[13].  Um sonho, sem dúvida, que ainda fica por realizar… 


[1] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, Principia, Estoril, 2007, p. 368.
[2] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, p. 391.
[3] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 368.
[4] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 369.
[5] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 370.
[6] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 370.
[7] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 371.
[8] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 393.
[9] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 393.
[10] Cfr. Paulo Otero, Instituições Políticas e Constitucionais, Almedina, Coimbra, 2007, p. 97.
[11] Cfr. Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América, 392.
[12] Sobre a racialização da pobreza Eduardo Vera-Cruz Pinto, Curso Livre de Ética e Filosofia do Direito, Princípia, Cascais, p. 435 ss.
[13] Frase extraída no último discurso de Martin Luther King Jr. no dia 3 de Abril de 1968, tendo sido assassinado no dia seguinte, citado na sua Autobiografia Eu Tenho Um Sonho, Bizâncio, 2003, p. 389 ss. 

Uma Guerra Pode Ser Considerada Justa?


O mundo em que vivemos está cheio de antagonismos e conflitos. Não precisamos de estar plenamente sintonizados com a realidade político-internacional para disso nos apercebermos. Basta constatarmos os alarmantes sinais que nos vão chegando, de perto e de longe, através dos media, para compreendermos que de facto vivemos num mundo bastante hostilizado e belicoso. Por isso, o grande pensador francês Eustache Deschamps antevendo de longe as abomináveis mutações enfatizadas pelo Iluminismo do séc. XVIII, máxime na sua vertente jacobina, aversivo ao conceito da Moral e dos Bons Costumes, expressava um sentimento geral de desânimo e melancolia face à depravação político-social que observava nos seres humanos do seu tempo, afirmando peremptoriamente que existiam apenas “fêmeas e machos estúpidos”, apontando para o fim apocalíptico do mundo como sendo corolário desta postura belicosa do Homem. 

A guerra a que estamos a referir aqui é no sentido stricto sensu, isto é, do conflito armado entre Estados, ou no caso da denominada guerra civil, o terrorismo dos radicais islâmicos, que envolve mortes de pessoas e destruição em massa. Obviamente que o título do artigo não é inocente, tendo em conta as circunstâncias adversas que se vive há muito tempo no Médio Oriente, mormente o ataque aéreo dos Estados Unidos da América (EUA) na passada sexta-feira que vitimou o comandante da força de elite iraniana Al-Quds, o General Qassem Soleimani (LER). Perante esta atitude dos EUA, que actuou à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a pertinente questão que se levanta é a seguinte: será que podemos considerar uma guerra como sendo justa? A nosso ver, numa perspectiva meramente subjectivista, a resposta é manifestamente negativa por razões várias que pormenorizaremos infra. 

Temos demorado imenso a ponderar sobre essa problemática questão, de difícil posicionamento, procurando na medida do possível formular publicamente uma opinião sensata que vai ao encontro com os ideais bíblicos que abraçamos. E isto levou-nos a vasculhar a doutrina Jus Internacionalista e Cristã para inteirar, de forma detalhada e aprofundada, do assunto. Naquela doutrina os seus defensores são completamente a favor da Guerra Justa, fruto de influência do pensamento do Santo Agostinho, nomeadamente John Locke, Hugo Grócio, Francisco Suares e Francisco Vitória. Para estes conceituados autores, que marcaram profundamente a nossa História, a Guerra Justa serve para “vingar o mal, quando um Estado tem que ser atacado pela sua negligência em reparar males cometidos pelos seus cidadãos, ou em restaurar aquilo que por maldade lhe foi retirado (…) as guerras justas podem incluir guerras por motivos de segurança, guerras para vingar o mal, ou guerras declaradas a países que recusam a passagem a outros”. 

Por influência destes autores, a Carta das Nações Unidas adoptou na integra este postulado, habilitando o Conselho de Segurança a recorrer ao uso da força em caso de ameaça à paz, ruptura da paz e acto de agressão. Quanto aos Estados membros da ONU, a Carta consente o uso da força pelos Estados membros em apenas duas circunstâncias: a) em caso da legítima defesa, individual ou colectiva (artigo 51.º); b) em caso de assistência às próprias Nações Unidas (Artigo 2.º, nº5), como a participação em acções por elas levadas a cabo ao abrigo do capítulo VII ou noutras, a título excepcional (as operações de paz e de ingerência humanitária, por elas determinadas ou admitidas. 

Com algumas surpresas, a doutrina dos autores Cristãos, seguindo a mesma esteira do pensamento do Santo Agostinho, embora com algumas atenuantes amiúde consideráveis, advogam que “a guerra deve ser declarada só quando é necessário, e para reduzir a injustiça; e para que através dela Deus possa livrar os homens da necessidade e preservá-los em paz. Mesmo na guerra, o espírito do pacificador deve ser estimado (…) a sua conduta deve ser justa – manter a fé com o inimigo, cumprir promessas, evitar a violência desnecessária, o espólio, o massacre, a vingança, as atrocidades e as represálias”. A começar, desde logo, por Santo Tomas de Aquino, arrastando posteriormente pelos grandes Reformadores Protestantes, sobretudo Martinho Lutero, João Calvino. O Anabaptista Menno Simões, um dos consagrados precursores da Reforma Protestante, distanciou-se radicalmente deste entendimento, defendendo uma posição mais equilibrada à luz dos Princípios e Valores da revelação bíblica, na qual aderimos sem nenhumas reservas. Menno Simões, sustentando a sua oposição ao conceito da Guerra Justa, baseou-se no facto de “o cristão ser seguidor do Príncipe da Paz, tendo recebido a ordem expressa de amar os seus inimigos e fazer bem aos perseguidores, dando a outra face a quem lhe bater” para rejeitar categoricamente a possibilidade de um Cristão participar na guerra, ou mesmo defendê-la, independentemente de qualquer tipo de situação ou justificação objectiva. 

Feito este brevíssimo enquadramento geral cabe dizer que nada nos surpreende quando vemos pessoas não crentes no Senhor Jesus Cristo a defenderem ideologicamente a legitimidade da “Guerra Justa”. É natural que eles tenham esse entendimento de “ajustes de contas”, visto que não têm o temor de DEUS nos seus corações, diferentemente dos Cristãos. Congruentemente com aquilo que acabamos de dizer, e que defendemos também noutros fóruns da nossa convivência diária, somos inteiramente contra o conceito da Guerra Justa e espanta-nos ver certos Cristãos a defenderem uma posição contrária. Por mais chocante que possa ser uma situação, como tem acontecido múltiplas vezes, de vermos pessoas inocentes a serem maltratadas, mortas de forma bruta e injusta, precisamos sempre de consciencializar que o nosso Eterno DEUS está sempre no controle da situação e que no devido tempo manifestará o Seu soberano poder para repor a Justiça e punir os malfeitores. Nada do que é feito neste mundo transcende o Seu domínio de acção ou, porventura, que ELE não saiba. O papel que nos cabe como seus filhos é, simplesmente, a de dobrar os nossos joelhos em oração, intercedendo incessantemente a favor destes flagelos humanos, pedindo a ajuda Divina e intervenção para a sua eficaz resolução. Jamais esperançando que a guerra é solução ideal dos problemas. Não é com a guerra que se faz a Paz, mas sim com o espírito do diálogo, procurando humildemente alcançar os consensos das partes beligerantes. Só assim poderemos fazer pontes e construir solidamente o caminho da tão ambicionada Paz entre os seres humanos e os povos em geral. 

Perante o exposto, sem qualquer tipo de hesitação, consideramos extremamente desprovido do fundamento bíblico a tese dos grandes teólogos que supra mencionamos e de tantos outros Cristãos que ainda hoje continuam a defender convictamente o conceito da “Guerra Justa” – como sendo solução para os reais problemas que afectam a Humanidade. Tal como o Teólogo Menno Simões, perguntamos a estes nossos irmãos na fé: “Digam-me, como é que um cristão pode defender biblicamente a retaliação, a rebelião, a guerra, o golpear, o matar, o torturar, o roubar, o espoliar e o queimar cidades e vencer países? … Toda a rebelião é da carne e do diabo … Oh abençoado leitor, as nossas armas não são espadas nem lanças, mas a paciência, o silêncio e a esperança e a Palavra de Deus”.